Brasil, uma história


parte Octávio Ianni e Eunice Durham. Sob a liderança de Florestan, o grupo foi o



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história

parte Octávio Ianni e Eunice Durham. Sob a liderança de Florestan, o grupo foi o
pioneiro da “sociologia crítica”, unindo materialismo dialético a métodos
funcionalistas para tentar uma nova interpretação da sociedade brasileira. Após o
golpe militar de 1964, foram todos indiciados em um inquérito e aposentados
compulsoriamente. FHC exilou-se então na Argentina, no Chile e na França.
Em 1967, com o arquivamento do inquérito, o futuro presidente retornou ao
Brasil, mas em 1969 foi cassado pelo AI-5. Em 1978, FHC se candidatou ao
Senado pelo MDB, ao qual estava ligado desde fins dos anos 1970 (época na
qual chegou a “panfletear” em companhia de Lula, seu futuro rival). Em 1980,


N
depois de participar da fundação do PMDB, elegeu-se suplente de Franco
Montoro no Senado, assumindo a vaga em 1983, quando Montoro se tornou
governador de São Paulo.
Em 1985, Tancredo Neves o escolheu para ser o líder do governo no
Congresso, mas a Nova República se transformou no governo Sarney e, o que é
pior, neste mesmo ano FHC perdeu as eleições para a Prefeitura de São Paulo
para Jânio Quadros, depois de ter se deixado fotografar ocupando o gabinete do
prefeito antes do pleito e de ter insinuado que era ateu e experimentara maconha.
Em 1986, virou o líder do PMDB no Senado – a essa altura, o próprio Sarney já
se filiara ao PMDB. Em 1988, FHC abandonou o PMDB – então à beira da
esclerose – e ajudou a fundar o PSDB, que, no ano seguinte, com a candidatura
de Mário Covas, fracassaria nas eleições presidenciais. Disposto a não perder de
novo em 1994, o PSDB e FHC fizeram uma coligação com o PFL – dando início
a uma aliança política de todo incoerente com a biografia pregressa do futuro
presidente.
FHC: DO PRIMEIRO AO SEGUNDO MANDATO
o dia 4 de junho de 1997, o então presidente do Congresso, senador
Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), anunciou a promulgação de uma
emenda constitucional que concedia ao presidente da República (bem como aos
governadores e prefeitos) o direito de concorrer a um segundo mandato. Após
dois anos e três meses de tramitação, a mais polêmica mudança na Constituição
(que, convém recordar, fora promulgada menos de dez anos antes, em 1988)
tinha sido aprovada por larga margem no Senado: 62 votos a favor, 14 contrários
e duas abstenções. Naquele mesmo dia, o PSDB, partido do presidente, anunciou
oficialmente o que toda a nação já sabia: Fernando Henrique Cardoso era
candidato à reeleição.
Tão logo a emenda foi aprovada e a candidatura de FHC lançada, analistas
políticos atentos apressaram-se em definir a manobra governamental como uma
espécie de “golpe branco”. O jornalista Elio Gaspari, por exemplo, um dos mais
conceituados do país, chegou a comparar aquela alteração constitucional com o
“golpe da Maioridade”, que em 1840 levara D. Pedro II ao trono: tratava-se,
afinal, de uma mudança nas regras do jogo sucessório proposta e articulada pelo


governo em benefício do próprio governo; uma modificação nas normas
constitucionais, uma espécie de “trama palaciana”.
Mas os problemas não se encerravam aí: além dos aspectos polêmicos
inerentes a mais uma alteração numa Constituição brasileira, o próprio processo
que levara à aprovação da emenda da reeleição na Câmara dos Deputados (onde
ela precisava de 308 dos 513 votos) havia sido colocado sob suspeita por uma
série de reportagens do jornal Folha de S. Paulo, publicadas em maio de 1997.
De acordo com gravações obtidas pelo jornal, pelo menos dois deputados –
Ronivon Santiago e João Maia, ambos do Acre – teriam “vendido” seus votos
por cerca de US$ 200 mil. Depois da denúncia, os dois deputados foram
expulsos da Câmara, onde, em 28 de janeiro daquele ano, contra a maioria das
previsões anteriores, a emenda da reeleição havia sido aprovada, recebendo 336
votos (apenas 28 a mais do que o necessário). Após a expulsão dos deputados,
porém, o caso foi virtualmente esquecido, e as investigações, abandonadas.
Em outubro de 1998, confirmando todas as pesquisas, Fernando Henrique
Cardoso foi reeleito para um segundo mandato de quatro anos.
Se reeleições fazem parte do jogo democrático, alterações na Constituição,
não. Ao incentivar uma mudança nas regras constitucionais da qual o principal
beneficiário seria seu próprio líder, o governo FHC agiu, no mínimo, de forma
pouco ética (especialmente porque contava com a maioria na Câmara e no
Senado).
Assim como reeleição, coligações também fazem parte – na verdade estão na
base – da vivência democrática. A questão é que, desde fins de 1993, no
momento em que optou por fazer uma aliança com o PFL, o partido do
presidente (PSDB) começou a desenhar um perfil muito mais conservador para o
governo FHC do que se poderia supor a partir da análise da vida pregressa do
34º presidente.
Quando concordou em formar uma chapa com o líder do PFL, Marco Maciel,
FHC não rompeu apenas com a própria bibliografia: alterou também os rumos de
sua biografia. Fundado em 1984, o PFL nada mais é do que uma dissidência do
PDS, formada por políticos que foram intimamente ligados ao regime militar
(como o próprio Marco Maciel; o ex-presidente José Sarney – que depois se
transferiu para o PMDB; o vice de João Figueiredo, Aureliano Chaves; o
senador Jorge Bornhausen e um dos mais polêmicos políticos do país, o ex-


senador baiano Antônio Carlos Magalhães).
De qualquer forma, é provável que o primeiro mandato de FHC passe para a
história sob a égide do sucesso do Plano Real, que (apesar dos altos índices de
desemprego, da crise na saúde pública e do flagelo social que ainda assola cerca
de 25 milhões de miseráveis) não apenas conteve os índices inflacionários como
de fato melhorou a vida dos brasileiros: 8 milhões deles teriam saído da “linha
de pobreza”.
As estrelas do real foram o frango (cuja produção aumentou em 1 milhão de
toneladas, entre 1993 e 1997), o iogurte (a produção dobrou em três anos), as
TVs (8,5 milhões foram vendidas em 1996), as geladeiras (4 milhões vendidas
em 1996) e, segundo o próprio FHC, as dentaduras (“O povo está botando
dente”, disse ele, em setembro de 1997, embora dados oficiais, fornecidos pelo
próprio governo, informem que 1,4 milhão de brasileiros não têm um só dente na
boca).
Apesar do relativo sucesso político e econômico de seu primeiro mandato, o
governo FHC sofreria duros baques no segundo. Mesmo que as crises
econômicas – em geral provocadas por problemas ocorridos fora do Brasil
(como “a crise do Sudeste asiático”, a “crise da Rússia” e a incessante “crise da
Argentina”) – tenham sido contornadas, a transparência do governo foi
asperamente comprometida por escândalos políticos e financeiros que, embora
jamais tenham envolvido pessoalmente o presidente, rivalizam, pelo menos nos
números, com a roubalheira dos anos de lama da Era Collor.
Dois destes escândalos – a quebra do sigilo do painel eletrônico do Senado e
os desvios de verbas na extinta Sudam (Superintendência para o
Desenvolvimento da Amazônia) – provocaram a cassação, em sequência, de dois
presidentes do Senado: o já citado Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) e Jader
Barbalho (PMDB-PA), ambos aliados muito próximos ao presidente (embora, à
época da cassação, FHC e ACM já estivessem virtualmente rompidos).
Os episódios envolvendo os dois ex-presidentes do Senado, embora tenham
sido os mais ruidosos, estiveram longe de ser os únicos escândalos político-
financeiros a abalar a nação: o Banco Central, o Judiciário e o Legislativo
também se viram às voltas com sérias (e sólidas) denúncias de corrupção. O
envolvimento de alguns deputados e senadores com o crime organizado e o
narcotráfico resultou em uma série de cassações; o favorecimento a


determinados bancos e a falência fraudulenta de outros também foram
comprovados (embora não punidos) e até mesmo no futebol descobriram-se
fraudes e negociatas. Assim sendo, o Brasil, eterno país do futuro (do pretérito?),
começou o terceiro milênio com a bola um tanto murcha – fato que nem a
conquista do pentacampeonato mundial de futebol, em junho de 2002, na Copa
da Coreia e do Japão, foi capaz de modificar substancialmente.
De todo modo, o desgastado lema “brasileiro: profissão esperança” tornaria a
renascer quatro meses mais tarde, com a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva à
Presidência, em outubro de 2002. Afinal, a própria trajetória de Lula (capaz de
alçar-se das agruras do agreste pernambucano ao Palácio do Planalto) parecia ser
o indício claro de que, no Brasil, os sonhos de ascensão e justiça sociais são
inteiramente plausíveis.


E
Capítulo
37
O BRASIL DE LULA, DE DILMA E DO PT
m 27 de outubro de 2002, no mesmo dia em que completava 57 anos, Luiz
Inácio Lula da Silva, ex-torneiro mecânico que estudou somente até a
quarta série do primeiro grau, obteve enfim seu primeiro diploma. E
estava longe de ser um diploma qualquer: referendado por quase 53 milhões de
votos, Lula foi eleito o 35º presidente do Brasil. Foi uma vitória histórica, em
muitos sentidos. Não apenas porque, após três derrotas consecutivas, Lula
finalmente vencia as eleições, mas em especial porque ela o tornou o primeiro
presidente oriundo das camadas populares, cuja eleição veio romper com um
ciclo de elitismo político iniciado, grosso modo, quase cinco séculos antes,
quando o fidalgo Tomé de Souza assinou, em dezembro de 1548, o diploma real
que fez dele o primeiro governador-geral do Brasil.
No dia 1º de janeiro de 2003 – exatos dois anos após o início do terceiro
milênio –, Lula tomou posse em Brasília em meio a grande comoção popular,
recebendo a faixa presidencial das mãos de um antigo companheiro de militância
e, naquele instante, seu desafeto e rival, Fernando Henrique Cardoso. Foi, outra
vez, momento de inegável impacto histórico e ressonância social. As bandeiras
vermelhas da militância petista, às quais se juntavam faixas e estandartes de
todos os partidos de esquerda do Brasil, bem como os símbolos da maioria das
dissidências políticas da nação, tingiram as avenidas da capital com cores bem
diferentes do verde-oliva que, por um quarto de século, havia imperado na
capital, e bastante distintas também do azul e amarelo dos tucanos do PSDB, que
haviam passado os últimos oito anos no poder.
Para milhões de militantes e simpatizantes de Lula, parecia o sinal claro de
que uma mudança efetiva se concretizava nos rumos políticos da nação: era uma
guinada radical, uma “nova chance”, a esperança de um recomeço.
As transformações trazidas com a eleição de Lula pareceram ainda mais
nítidas quando, na noite daquele mesmo dia, o presidente foi convidado a sentar-


se à bancada do Jornal Nacional, levado ao ar pela TV Globo (a mesma rede
acusada, 14 anos antes, de ter manipulado o debate entre os então candidatos
Fernando Collor e o próprio Lula), e ali, em parceria com os comunicadores
William Bonner e Fátima Bernardes, “apresentar” o mais assistido e importante
noticioso da televisão brasileira. Foram momentos de intenso apelo emocional,
até porque a edição do noticiário tratou de privilegiar as agruras e superações da
impressionante trajetória de Lula, desde os cafundós de Garanhuns – PE, onde
nascera, em 27 de outubro de 1945, até o momento em que se tornou presidente
eleito pelo voto direto.
Tão tocante revelou-se a história do boia-fria semiletrado e líder sindicalista
que então chegava ao poder que a primeira polêmica em que o novo governo já
então se envolvera – a suposta troca do dia da posse de 1º de janeiro, como
estabelecia o calendário constitucional, para 3 de janeiro, de modo que o ditador
cubano Fidel Castro pudesse estar presente à cerimônia – foi logo esquecida. O
que poucos igualmente lembraram naquele instante foi que, se Lula tomava
posse sem sobressaltos ou ameaças golpistas, isso se dava também em função do
fato de o Plano Real (articulado por seu antecessor, FHC, quando ainda era
ministro do governo Itamar Franco) ter se revelado não apenas um plano de
estabilização econômica mas de estabilização política.
De todo modo, o Brasil apresentava ao mundo um exemplo de maturidade
democrática, e jornais de todo o planeta – mesmo os mais conservadores, como
o francês Le Figaro, o inglês Financial Times e o norte-americano Washington
Times – viam-se na contingência de saudar, se não a eleição de Lula, ao menos a
lisura do processo que o levara ao Palácio do Planalto. E o momento de relativa
bonança então vivido pela economia brasileira ajudava a fazer com que
declarações como a do ex-presidente da Confederação Nacional da Indústria,
Mário Amato – que, antes das eleições de 1989, havia dito que, se caso Lula
vencesse Collor, “40 mil empresários deixariam o Brasil no dia seguinte” –,
fosse relegada à lata de lixo da história como mera bravata reacionária. Com
efeito, a própria CNI apressou-se em assinalar que a posse de Lula era, de certa
forma, fruto de suas atividades em prol do desenvolvimento do Brasil, na medida
em que o homem que então se tornava presidente havia se formado torneiro
mecânico no Serviço Nacional da Indústria, o Senai, órgão fundado e mantido
pela própria CNI desde 1942.


Assim, ao menos naquele dia, o Brasil parecia estar ingressando de fato em
uma nova fase de sua história política. E, embora Lula logo fosse desagradar
milhares (se não milhões) de seus partidários de esquerda, ao emitir sinais cada
vez mais claros de que pretendia dar continuidade à política econômica
“neoliberal” de FHC – chegando ao ponto de convidar para a Presidência do
Banco Central o banqueiro Henrique Meirelles (ex-presidente do norte-
americano Bank Boston) –, a verdade é que a nação ingressava no 114º ano de
sua vida republicana e no 503º ano de sua história consideravelmente
modificada. Pelo menos na aparência.
Não seria preciso esperar pelo momento em que, seis anos e meio mais tarde,
em agosto de 2009, quando Lula – já então exercendo seu segundo mandato
(para o qual foi reeleito em outubro de 2007, dessa vez já no primeiro turno) –
subiria a um palanque, em Alagoas, na companhia de Fernando Collor e do ex-
presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), disposto a defender
fervorosamente a permanência no cargo do então presidente do Senado José
Sarney (acusado, com provas documentais, de inúmeros atos ilícitos), para
perceber que os caminhos e descaminhos da política brasileira não haviam se
modificado tanto assim. Muito pelo contrário. Não seria preciso esperar também
pelas meias verdades, pelos retrocessos e pelo jogo de conveniências que Lula se
viu forçado, ou dispôs-se, a seguir, para constatar que, como já declarara, nos
anos 1950, um retrógrado político mineiro “na prática, a teoria é diferente…”.
De todo modo, as duas eleições consecutivas de Lula foram prova cabal do
amadurecimento político do Brasil. Por outro lado, desnudaram as bases ainda
pouco sólidas da prática democrática no país. Não apenas o presidente precisa
governar em estreita conexão com um Congresso – em especial com um Senado
que chafurda em corrupção, desordem e clientelismo – como os altíssimos
índices de popularidade de Lula comprovam que a nação ainda se deixa levar
pelo carisma pessoal de um líder populista e segue reverenciando os “pais do
povo”.
E se, em muitos sentidos, o programa bolsa-família (ironicamente
desenvolvido por FHC e largamente incrementado pelo governo petista) de fato
é uma efetiva forma de transferência de renda e aplicação de justiça social, por
outro revelou-se um instrumento eleitoreiro tão poderoso que teria chegado,
ainda que brevemente, a dar a Lula o anseio de concorrer a um terceiro (e


Q
inconstitucional) mandato, além de mantê-lo “blindado” do rosário de casos de
corrupção e desmandos que abalaram seus dois governos, entre os quais o
chamado “mensalão”, que lhe custou a perda do principal colaborador, o
deputado federal José Dirceu (PT), cassado em função de denúncias de ser o
“operador” dos repasses de verbas a políticos em troca de apoio às medidas do
governo enviadas ao Congresso.
Lula, ainda assim e por isso mesmo, segue sendo o símbolo de um Brasil
possível, o representante genuíno de um país moderno e plenamente viável,
reconhecido internacionalmente, inclusive pela revista Time, como um líder
influente no planeta. Embora seja forçoso observar que Lula se revelou também
a exceção que confirma a regra: o povo, no Brasil, segue desacostumado com as
práticas efetivamente democráticas. Afinal, sem uma base educacional sólida,
não é possível construir uma nação realmente avançada.
No mundo moderno, é quase impossível fazer carreira sem diploma.
A NOVA CARTILHA DO PT
ualquer eventual temor de que, ao assumir o poder, Luiz Inácio Lula da
Silva fosse se revelar o radical que aparentava ser no início de sua carreira
política – substanciada na suspeita de certos setores da sociedade de que o
personagem “Lulinha paz e amor” fosse mera ficção eleitoreira – arrefeceu
consideravelmente no momento em que o recém-empossado presidente anunciou
que o Banco Central do Brasil ficaria sob a Presidência de Henrique Meirelles.
Filiado ao PSDB e ex-presidente do norte-americano Bank Boston, Meirelles era
– na aparência, no discurso e, acima de tudo, na prática – um leitor atento e
aplicado cultor da cartilha “neoliberal”. Por outro lado, a surpreendente escolha
de Lula de imediato o incompatibilizaria com as alas à esquerda do PT e de
outros partidos que apoiaram sua campanha, como o PSOL. Tal distanciamento
só iria aumentar a cada dia do novo governo.
A decisão parecia referendar, no entanto, a admissão tácita, por parte do PT,
de que o Plano Real havia funcionado – estabilizando não só a economia mas
também, em decorrência dela, o próprio processo de redemocratização do Brasil.
Ao contrariar a prática política vigente no Brasil, Lula e sua equipe deram a
entender que não fazia sentido modificar o que estava dando certo. De todo


I
modo, o governo petista iria avançar em relação ao de FHC, sendo capaz de,
pela primeira vez desde a Independência, zerar a dívida externa brasileira – um
feito notável. Ainda assim, o BC manteria em vigência no Brasil as maiores
taxas de juros do mundo.
Mas para alguém com a trajetória não apenas política mas pessoal de Lula,
seria inconcebível que, uma vez no poder, ele não lançasse programas de cunho
social. Com efeito, o primeiro “pacote” do governo foi articulado em torno do
programa “Fome Zero”, que Lula – já aparentemente imbuído da vertigem de se
impor como figura de impacto mundial (o que, de todo modo, ele conseguiria) –
logo alardeou que pretendia transformar em programa global, mesmo que para
isso precisasse contar com uma espécie de ajuda compulsória dos países ricos. O
Fome Zero, no entanto, não decolou nem mesmo no Brasil e, apesar da queda
dos índices de desnutrição e de mortalidade infantil no país, o programa teve
menos a ver com tais avanços sociais do que o bolsa-família, esse sim um dos
símbolos (e mais efetivos instrumentos) do governo Lula.
Mas se a política econômica de Lula o aproximou das classes produtivas e até
dos setores mais conservadores da sociedade, nem por isso o presidente fugiu
das polêmicas e, ao colocar o boné do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra,
receber as lideranças do MST no Planalto e ajudar a financiar, com verbas
federais, esse grupo (e outras ONGs controversas), o ex-sindicalista parecia
referendar, em certas ocasiões, seus vínculos supostamente “revolucionários”,
por mais falaciosos que o MST e certos movimentos contestatórios possam
eventualmente se revelar.
“MENSALÃO” E O PRESIDENTE BLINDADO
ronicamente, o bolsa-família – um dos pilares “sociais” do chamado lulismo –
fora criado em fins do ano 2000 pelo governo FHC, com base em projeto
similar aplicado, anos antes, em Campinas – SP. Graças ao programa, efetivou-
se um genuíno “instrumento de transferência condicional de recursos” às classes
menos favorecidas. Tanto é que, a cada ano do governo petista, mais de 11
milhões de famílias de todo o país (ou cerca de 45 milhões de pessoas)
receberam cerca de oito bilhões de reais, equivalentes a 0,4% do PIB. Graças a
isso, os índices de miséria no Brasil caíram 27,7% entre 2002 e 2007. O sucesso


do programa se revelaria, sem dúvida, um dos grandes responsáveis pelos
espantosos índices de aprovação do governo Lula (que, em certos momentos,
chegaram a inéditos 70%), bem como pela “blindagem” do presidente em
relação a escândalos políticos que estouraram muito próximos a ele.
Dentre as denúncias que abalaram o governo Lula, nenhuma foi mais ruidosa
do que o chamado “mensalão do PT”. Delatado em maio de 2005 pelo deputado
federal Roberto Jefferson (então presidente do PTB, um dos partidos da base
aliada), o esquema configurava o pagamento de propinas mensais – feitas com
dinheiro público –, repassadas a vários deputados para que votassem
favoravelmente aos projetos enviados ao Congresso pelo governo. Os recursos
teriam sido repassados aos aliados pelo Partido dos Trabalhadores por meio do
então tesoureiro do partido, Delúbio Soares, e do secretário-geral, Sílvio Pereira,
depois afastados do PT. Em junho de 2005, foi instaurada uma controversa CPI,
marcada por avanços e recuos, falsas polêmicas e muita indecisão. Em agosto de
2007, após muitas idas e vindas, o Supremo Tribunal Federal aceitou denúncia
contra todos os 40 envolvidos no caso, definindo-os como “membros de uma
organização criminosa”. Embora, na sequência dos acontecimentos, poucos
tenham sido de fato punidos, os deputados Roberto Jefferson e José Dirceu (PT)
já haviam sido cassados em dezembro de 2005.
Apesar de suas pífias consequências práticas, a CPI acabou privando Lula de
seu candidato natural à sucessão, José Dirceu, um dos membros mais conhecidos
e integrante histórico do Partido dos Trabalhores.
José Dirceu de Oliveira e Silva já se firmara então como um dos principais
líderes do governo Lula, além de ser um velho amigo e aliado de longa data do
presidente. A movimentada trajetória de Dirceu se vincula à política brasileira
desde os tempos em que ele se tornou um combativo líder estudantil em 1965.
Preso durante o congresso da UNE em Ibiúna – SP, em outubro de 1968, esteve
entre os 15 presos políticos trocados, em setembro do ano seguinte, pelo
embaixador norte-americano Charles Elbrick, que fora sequestrado por um grupo
do qual fazia parte Fernando Gabeira.
Após deixar o Brasil, Zé Dirceu, como é conhecido, exilou-se em Cuba, fez
operações plásticas e mudou de nome, retornando clandestinamente ao país em
1971. Depois de nova estadia em Cuba, retornou ao Brasil em 1975 e, com a
anistia e a redemocratização, saiu da clandestinidade para se tornar um dos


M
fundadores do PT, que presidiu durante boa parte da década de 1990. Deputado
federal por três vezes, foi um dos principais articuladores da campanha de Lula à
Presidência. Após a eleição do companheiro, virou ministro da Casa Civil e o
principal nome dos dois primeiros anos do governo, suplantado apenas pelo
presidente. Com a denúncia de ser o “operador do mensalão”, exonerou-se do
cargo de confiança em julho de 2005. Foi cassado em dezembro do mesmo ano,
tornando-se inelegível até 2015.
Embora a sala de José Dirceu no Palácio do Planalto ficasse ao lado da do
próprio presidente, e ambos mantivessem uma longa e íntima convivência, Lula
sempre declarou que nada sabia das atividades do chefe de sua Casa Civil.
Durante e depois de todo o processo, passou a ser como se os dois mal se
conhecessem. De todo modo, o PT e Lula perderam o canditado natural à
sucessão presidencial. Para certos setores da sociedade, foi uma notícia
alvissareira, pois, logo após a posse, Dirceu havia declarado que o projeto petista
para o país estava previsto para “durar 30 anos”. A ameaça do continuísmo
pareceu, então, definitivamente afastada.
LULA LÁ, MAIS UMA VEZ
esmo com todas as evidências de que o “mensalão” funcionava na porta ao
lado do gabinete presidencial, Luiz Inácio Lula da Silva passou incólume
pelo escândalo. Também não foi vinculado às denúncias que envolveram seu
ministro da Fazenda, Antônio Pallocci, afastado do cargo em março de 2006,
tido como responsável direto pela quebra do sigilo bancário de um simples
caseiro, que o acusara de fazer lobby no governo em prol de determinados
empresários. E assim, pairando acima de qualquer suspeita, Lula, tão logo
aproximou-se o fim de seu primeiro mandato, surgiu como candidato óbvio à
reeleição – que, embora não prevista pela Constituição de 1988, fora, em outra
ironia da política, aprovada por uma emenda controversa ao final do último
mandato de FHC e contra a qual o PT votara.
Concorrendo dessa vez contra Geraldo Alckmin, em eleições realizadas em
outubro de 2006, Lula venceu fácil, embora com segundo turno, reassumindo a
Presidência em janeiro de 2007, consagrado por quase 60% dos votos válidos.
Ao contrário de FHC, seus índices de aprovação não dimuíram no segundo


mandato: pelo contrário, aumentaram em proporção espantosa.
Embora autor de frases controversas – algumas delas francamente desastradas
–, Lula se impôs não só nacionalmente mas também no cenário internacional.
Entre suas inúmeras declarações polêmicas, uma delas foi a de que a grave crise
que, a partir de janeiro de 2008, nos Estados Unidos, abalou a economia
mundial, não iria “passar de uma marolinha no Brasil”. O mais extraordinário é
que a bravata do presidente revelou-se quase profética. Graças à política de
redistribuição de renda e dos aumentos dos índices de consumo entre as classes
C e D, o país de fato suplantou a turbulênca internacional em relativa calmaria.
Portanto, apesar de todas as insinuações – aliás, concretas – de que o bolsa-
família e demais projetos sociais do lulismo são também ferramentas
eleitoreiras, o fato é que o governo Lula revelou-se eficiente no campo
econômico, e os índices de aprovação do presidente têm base mais sólida do que
apenas seu carisma pessoal.
Dentre as frases bombásticas proferidas por Lula ao longo de seus oito anos
de governo, uma delas iria provocar atritos até mesmo com a Igreja. Num
desabafo sobre as circunstâncias nas quais se viu forçado a governar, o
presidente declarou que, caso Jesus Cristo voltasse à Terra e se tornasse político
no Brasil, “teria de chamar Judas para fazer coalizão”. Era como se Lula
estivesse justificando o fato de não apenas ter convivido com a presença de
Renan Calheiros na Presidência do Senado (cargo que o senador alagoano do
PMDB ocupou entre 2005 e 2009), como também ter se disposto a defendê-lo de
um rosário de acusações.
De acordo com denúncias feitas pela revista Veja ao longo do ano de 2008,
Calheiros amealhara fortuna incompatível com seus rendimentos. Calheiros é
conterrâneo e aliado de longa data do ex-presidente Fernando Collor, afastado da
Presidência do país por impeachment em 1992 e, depois de anos de
inelegibilidade, eleito senador por Alagoas em 2006. Em discurso feito durante
uma visita à pequena cidade de Palmeira dos Índios, no interior de Alagoas, em
2009, Lula fez questão de dizer que Collor e Renan davam “sustentação aos
trabalhos do governo no Senado” e não economizou nos elogios à dupla de
antigos inimigos. Lula chegou, inclusive, a se comparar a Collor, ao mencionar a
popularidade que ostenta entre os nordestinos. Até o ex-presidente Juscelino
Kubitschek entrou na comparação. “Não era habitual neste país os presidentes


S
percorrerem o Brasil. Além do Collor, que é de Alagoas, o único presidente a vir
aqui foi Juscelino Kubitschek”, disse Lula.
Como se não bastasse a defesa que fez de Collor e Calheiros, Lula se veria na
contingência de elogiar e aliar-se também a um outro desafeto, o ex-presidente
José Sarney, que já ocupara o comando do Senado em 2003-2005 e voltaria ao
cargo em fevereiro de 2009. Um rosário de denúncias eclodiu contra o
maranhense – em meio a uma série de escândalos envolvendo a instituição como
um todo. Lula tratou de defender Sarney: “Eu sempre fico preocupado quando
começa no Brasil esse processo de denúncias, porque ele não tem fim, e depois
não acontece nada”, justificou, criticando a reação da imprensa e da opinião
pública contra o presidente da casa. “O Sarney tem história no Brasil suficiente
para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum.” Para muitos de
seus aliados históricos, era Lula, um antigo incendiário, desempenhando o papel
de bombeiro.
O PRESIDENTE DAS ESTRELAS
e restassem dúvidas de que os índices de popularidade de Luiz Inácio Lula
da Silva e seu carisma pessoal estão longe de ser fruto de mero marketing
político, ou um fenômeno exclusivamente ligado às massas do Brasil, tais
dúvidas teriam acabado no instante em que o mais poderoso e conhecido político
do planeta, o presidente norte-americano Barack Obama, aproximou-se de Lula
e, durante um encontro realizado em Londres, em 2 de abril de 2009, declarou:
That’s my man, right here!” A saudação repercutiu imediatamente em todo o
planeta.
Embora fosse reveladora do genuíno apreço de Obama por Lula, no Brasil a
frase logo foi traduzida como se Obama tivesse dito: “Esse é o cara!” – quando,
na verdade o que ele de fato falou foi: “Esse é o meu cara”, expressão que, em
inglês, também pode ser entendida como “esse é o meu camarada, o meu chapa”.
Além do mais, havia uma continuação: “Eu amo esse cara. Ele é o político mais
popular do planeta. É por causa de sua bela aparência…” Sabendo-se que Lula
não é exatamente um modelo de beleza masculina, o dito de Obama continha ao
menos uma pitada de ironia.
Mas não só a brincadeira de Obama revela o quanto Lula foi capaz de se


N
destacar no mundo globalizado como esteve longe de ser a única manifestação
de apoio a ele vinda de países do Primeiro Mundo. O presidente do Brasil, já
consagrado pelos altíssimos índices internos de popularidade, foi saudado em
fins de 2009, como “homem do ano” pelos jornais El País, da Espanha, e Le
Monde, da França – e nessa escolha não houve ironia alguma.
Se, ainda assim, a evidente aclamação internacional de Lula continuasse a
despertar as suspeitas de uma oposição tão rancorosa quanto ineficaz – exercida
pelo PSDB e pelo DEM –, a pá de cal seria dada pela revista norte-americana
Time, que, em abril de 2010, elegeu o presidente do Brasil como um dos 25
líderes mais influentes do planeta. Em certos casos, porém, as conexões
internacionais de Lula se revelaram também ligações perigosas. já que ele se
manteve bastante próximo do caricatural presidente da Venezuela, Hugo Chávez,
e de seu aprendiz, o presidente boliviano Evo Morales, que estatizou refinarias
da Petrobras na Bolívia.
Também no cenário internacional, o presidente do Brasil fez uma série de
declarações no mínimo “politicamente incorretas”, em especial quando disse que
a crise econômica internacional que, a partir de 2008, assolou o planeta, havia
sido provocada pelo “comportamento irracional de gente branca e de olhos azuis,
que sempre se comportou como se soubesse tudo sobre economia”. De todo
modo, com seus altos e baixos, seus erros e acertos, sua rústica dignidade e sua
eventual desfaçatez, Luiz Inácio Lula de Silva se tornou símbolo efetivo do
Brasil do século 21. Até porque em outubro de 2010, ele fez sua sucessora.
DILMA ROUSSEFF E O BRASIL DAS MULHERES
o dia 31 de outubro de 2010, Dilma Rousseff tornou-se não só a 36ª pessoa
a presidir o Brasil, mas a primeira mulher a fazê-lo em 120 anos de vida
republicana. Por mais marcante e inédita que tenha sido, a vitória, no entanto,
não foi só dela: Dilma era apenas a criatura, e Luiz Inácio Lula da Silva, mais do
que seu antecessor e mentor, o genuíno criador. Embora ela tivesse biografia
pregressa e carreira política relativamente longa, o fato é que poucos dos cerca
de 55 milhões de eleitores que a alçaram ao Palácio do Planalto, dando-lhe
56,05% dos votos válidos, já haviam ouvido falar de Dilma três anos antes de
elegê-la. Tanto é que em 2002, durante a primeira propaganda política do então


candidato Lula à presidência, Dilma só entrou no ar por quatro segundos, e saiu
sem dizer nada. Seis anos mais tarde, em abril de 2008, embora já tivesse se
tornado a ministra mais poderosa de Lula, a revista inglesa The Economist
julgava que sua candidatura ainda não era viável por Dilma ser tão pouco
conhecida.
Mas, confiante no próprio carisma e nos altíssimos índices de sua
popularidade, Lula bancou Dilma. E, embora a eleição tenha se dado em
segundo turno, o índice de abstenção tenha ultrapassando 20 milhões de eleitores
e rejeição ao candidato José Serra fosse alta, o fato é que a aposta do líder do PT
deu certo e, num epílogo vitorioso para seus oito anos de governo, Lula foi capaz
de suplantar o último obstáculo: encontrar alguém para sucedê-lo e ocupar o
cargo que, em tese, seria de seu ex-ministro da Casa Civil, José Dirceu, cassado
em dezembro de 2005 (substituído, aliás, pela própria Dilma) e condenado a dez
anos de prisão por corrupção ativa, em novembro de 2011, no mais rumoroso
revés da Era Lula.
De todo modo, se subiu a rampa do Planalto como mera criatura de Lula,
Dilma não só imprimiu seu próprio estilo no governo, como enfrentou o legado
que recebeu. Embora nunca tenha deixado de ser reverente a seu mítico líder –
até porque Lula viu-se (como a própria Dilma) acometido por um câncer –, a
presidente se revelou determinada o suficiente para demitir nada menos do que
sete ministros ligados a Lula ou às alianças pregressas firmadas por ele devido a
acusações de corrupção. Não restam dúvidas também de que Dilma impôs um
ritmo de trabalho mais efetivo que o de Lula, embora tenha revelado certa
inabilidade política.
De todo modo, com jeito sisudo, posições firmes e projeção internacional (foi
eleita a terceira mulher mais influente do planeta pela revista Time), Dilma
Rousseff desfruta de índices de popularidade de 77% e, apesar de todas as
complexidades do país e das heranças que recebeu, desponta como retrato do
Brasil do século 21, até porque ela parece não desconhecer que, cinco séculos
depois, esse ainda é um país em construção, mas enfim maduro o suficiente para
enviar os corruptos para a prisão.


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