Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
“Vou derrubar o governo”, alertara Pedro Collor antes de conceder, em fins de maio de 1992, uma das
mais bombásticas entrevistas já publicadas no Brasil. Sentindo-se prejudicado pelo irmão e por PC Farias
em negociações que envolviam a disputa pelo mercado jornalístico em Maceió, Pedro Collor abasteceu
revistas e jornais brasileiros com documentos que revelaram negócios de PC no exterior. Dias mais tarde,
deu uma entrevista na qual afirmou que PC era “traficante de influência” e “testa de ferro de Fernando”,
que o irmão cheirava cocaína e que abordara insinuantemente sua mulher, Teresa; que a campanha de
Collor arrecadara cerca de US$ 100 milhões só no segundo turno e que PC dizia “que 70% do dinheiro é
do chefe (Collor) e 30% é meu (PC)”.
O IMPEACHMENT
ernando Collor de Mello, o homem que, após sua eleição, posara para o
Brasil e para o mundo como um grande estadista, o jovem e dinâmico
político que conduziria o país em direção à “modernidade”; a opção única contra
o “atraso estatizante” proposto por Lula e pelas alas radicais do PT; o profeta do
neoliberalismo, a personificação tupiniquim do fenômeno que o filósofo Max
Weber certa vez chamou de “escatologia messiânica”; o atlético e ousado jogger
que pilotava jet skis e aviões a jato; o Indiana Jones que se notabilizara como
“caçador de marajás” acabaria se revelando uma das maiores fraudes políticas de
todos os tempos no Brasil.
Uma incendiária entrevista concedida pelo caçula da família Collor, Pedro, à
grande imprensa brasileira, e, a seguir, seu vigoroso depoimento a uma
Comissão Parlamentar de Inquérito (conduzida pelo então presidente da Câmara,
Ibsen Pinheiro) acabariam desvendando o que talvez tenha sido apenas a ponta
de um monumental iceberg de fraude, corrupção, tráfico de influência, propinas
e extorsão sem igual na história nada impoluta da política e da malversação das
finanças públicas do Brasil. Talvez jamais se venha a saber quanto de fato foi


roubado.
O que se sabe já é amedrontador o bastante. Por meio de uma ampla teia de
contas fantasmas em vários bancos do país, cerca de 40 mil cheques –
totalizando pelo menos US$ 350 milhões – chegaram aos bolsos de gente de
carne e osso, a maioria ligada direta ou indiretamente a Collor. As investigações
revelaram figuras tão surpreendentes e díspares entre si como o motorista
Eriberto França (que levava cheques distribuídos pela secretária de Collor, Ana
Acyolli, para beneficiários do esquema e que, corajosamente, em entrevista à
revista IstoÉ, em julho de 1992, denunciou o esquema) e o piloto Jorge
Bandeira, que era um dos sócios de PC e teria desviado US$ 1 milhão.
Entre as pessoas que se locupletaram com o “esquema PC”, foram acusadas,
conforme apurado pela CPI e publicado na imprensa: Rosane Collor (mulher do
presidente, que recebeu pelo menos US$ 510 mil), Leda Collor (mãe do
presidente, US$ 35 mil), Lilibeth Monteiro de Carvalho (ex-mulher de Collor,
US$ 41 mil), Cláudio Humberto (porta-voz do presidente, US$ 70 mil), Cláudio
Vieira (secretário do presidente, US$ 89 mil), Maria Izabel Teixeira (secretária
de Rosane Collor, US$ 802 mil), José Roberto César (dono da Brasil’s Garden,
empresa que fez os fabulosos “jardins da casa da Dinda”, residência de Collor,
US$ 866 mil), Sig Bergamin (arquiteto, US$ 15 mil), Uajara Cabral (vendedor
de joias, com livre acesso ao Palácio do Planalto, US$ 15 mil) e Elizabeth
Luporini (secretária de Marcos Coimbra, cunhado de Collor, US$ 48,8 mil).
No dia 1º de setembro de 1992, os então presidentes da Associação Brasileira
de Imprensa, Barbosa Lima Sobrinho, e da Ordem dos Advogados do Brasil,
Marcelo Lavenere, encaminharam à Câmara o pedido de impeachment do
presidente. Um mês depois – após 84 dias de investigações feitas pela CPI –, a
Câmara concluiu que a conduta de Collor fora “incompatível com a dignidade do
cargo” e autorizou o Senado a julgar o presidente, o que o obrigou a deixar o
cargo e aguardar a decisão. Enquanto o Senado examinava o processo, multidões
de estudantes saíram às ruas com as caras pintadas exigindo a derrubada de
Collor, num protesto ruidoso, colorido e irreverente – uma espécie de reedição
descompromissada das marchas estudantis dos anos 1960, sem os cassetetes da
repressão.
Num julgamento de contornos muito mais políticos do que jurídicos, Collor
acabou acusado de “crime de responsabilidade” e teve seus direitos políticos


P
cassados por um período de oito anos. Um dia antes, em 29 de dezembro de
1992, o presidente renunciara ao cargo tentando escapar do processo. Mas o
tempo já havia se esgotado para ele e suas horas no poder estavam contadas.
Mais de 700 dias antes do fim de seu mandato, Fernando Collor de Mello, a
quem 35 milhões de votos haviam tornado o mais jovem cidadão a ocupar a
Presidência do Brasil, era forçado a deixá-la, saindo temporariamente da vida
pública para entrar na história universal da infâmia. Infâmia que só aumentaria
com a eleição de Collor como senador de Alagoas, em 2006.
A MISTERIOSA MORTE DE PC
aulo César Farias galgou seu caminho de Maceió até o topo do mundo
político brasileiro para então se tornar o inimigo público número um e
empreender uma fuga cinematográfica do país (graças ao desleixo da Polícia
Federal, a disfarces fajutos e a uma rota tortuosa, com direito a passagens por
Buenos Aires e Londres). Depois de 152 dias foragido, foi preso na Tailândia,
sob a acusação de estar com o visto de turista vencido. Extraditado, cumpriu 755
dias de detenção numa cela especial em Brasília e, apesar de indiciado em mais
de cem inquéritos, saiu da cadeia pela porta da frente para responder por seus
crimes em liberdade. Tudo isso apenas para terminar seus dias abatido por um
tiro supostamente desferido por uma namorada enciumada (que, a seguir, se
suicidaria), na cama de sua bela casa de praia, em Guaxuma, a oito quilômetros
de Maceió. Pelo menos, esse é o desfecho prosaico defendido pelo laudo oficial
divulgado pelos peritos que analisaram a causa da morte de Paulo César Farias e
de sua namorada, Suzana Marcolino, encontrados mortos na manhã de 23 de
junho de 1996. O mais ruidoso caso de corrupção do Brasil se encerraria assim,
com um crime passional, desfecho de um romance no qual talvez jamais tenha
havido paixão.
O laudo oficial da morte de PC Farias continua sendo contestado, e nada
permite supor que o caso esteja de fato encerrado. Vivo, PC era um arquivo
ambulante de um esquema de corrupção que talvez tenha movimentado mais de
US$ 2 bilhões e envolvia pelo menos 52 empresas e 400 autoridades públicas e
empresários. Baleado, tornou-se, literalmente, um arquivo morto – circunstância
que permite afirmar que, voluntariamente ou não, a namorada de aluguel Suzana


A
Marcolino envolveu-se num crime que, tendo ou não sido passional, tornou-se,
acima de tudo, uma “queima de arquivo”.
Muitos fatos continuam inexplicados: por que existe tanta discordância entre
os peritos? Por que os irmãos de PC mandaram lavar o quarto e queimar o
colchão no dia seguinte ao crime? Onde está a fortuna que PC com certeza
arrecadou? PC esteve mesmo envolvido com o narcotráfico, como várias vezes
se insinuou? As acusações de que PC também mantinha ligações com a máfia
são procedentes? Quantas pessoas respiraram aliviadas depois que PC
amanheceu morto? As respostas ainda não são conhecidas – e talvez nunca
venham a ser. Como também permanece sem réplica a indagação que Elma
Farias, a mulher de PC, fez quando da prisão do marido: “Por que só o Paulo
César?”
O GOVERNO ITAMAR
posse de Floriano Peixoto em novembro de 1891, após a renúncia de
Deodoro da Fonseca; a posse de Café Filho em agosto de 1954, após o
suicídio de Vargas; a posse de João Goulart em setembro de 1961, após a
renúncia de Jânio Quadros, e, especialmente, a posse de José Sarney no lugar de
Tancredo Neves, em março de 1985, deveriam ter ensinado aos brasileiros a
lição de que, fosse quem fosse, o vice-presidente deveria ser levado em conta na
hora de eleger um presidente. No entanto, durante as eleições que conduziram
Fernando Collor ao Planalto, pouquíssimos eram os eleitores que sabiam quem
eram os vices do vencedor Collor e do vencido Lula. Mas, quando Collor foi
forçado a deixar o cargo pela porta dos fundos, o Brasil viu-se outra vez nas
mãos de um “reserva” subitamente elevado à condição de titular.
Quem, então, de fato, conhecia a biografia de Itamar Augusto Cautieiro
Franco? A exemplo do maranhense Sarney, o mineiro Itamar jamais habitara os
anseios dos brasileiros. Ainda assim, a Constituição lhe destinou a árdua missão
de comandar um país combalido pela inflação rediviva e assombrado pela
ciranda da corrupção. E Itamar – turrão e teimoso, idiossincrático como solteirão
ranzinza – acabaria se saindo bem na dura tarefa de administrar uma nação
traumatizada. Ao fim e ao cabo, o governo Itamar Franco, que durou do final de
1992 a janeiro de 1995, lançou o mais bem-sucedido de todos os planos


econômicos urdidos até então e ainda foi capaz de fazer seu sucessor. Foi sob a
tutela do despenteado Itamar que o país viu nascer o Plano Real, que apresentou
às jovens gerações de brasileiros a vida fora da hiperinflação e que acabou
conduzindo à Presidência seu principal mentor, o então ministro da Fazenda,
Fernando Henrique Cardoso.
Embora não tenha se caracterizado pela energia e pelo vigor, nem pela
firmeza das decisões do mandatário, o governo Itamar entrou para a história
menos por seus feitos políticos e façanhas econômicas do que pelas atitudes
polêmicas de seu protagonista. Foi assim, por exemplo, quando Itamar Franco,
decidido a proporcionar a milhões de brasileiros a possibilidade de realizar o
sonho de adquirir um carro, pediu – e conseguiu – que a Volkswagen voltasse a
produzir o velho Fusca (sem levar em conta que os avanços da indústria o
haviam tornado um veículo obsoleto e dispendioso). Apesar de ter fracassado, a
iniciativa de Itamar lançou as bases de uma nova geração de carros “populares”,
a preços mais acessíveis. E essa talvez seja uma boa metáfora de um governo
que, muitas vezes, acertou errando – ou que deu certo sem saber bem por quê.
De todo modo, os brasileiros também se viram envolvidos na busca de uma
namorada para o solitário morador do Palácio da Alvorada. Candidatas sempre
houve, entre elas Lisle Lucena – filha do senador Humberto Lucena – e a
professora June Drummond. Mas nenhuma mulher que se aproximou
publicamente do presidente causou tanta polêmica quanto Lilian Ramos, a
modelo que dividiu o camarote com Itamar no carnaval de 1993, naquela que
poderia ter sido apenas uma noite divertida para o presidente, não estivesse ela
sem calcinha. A intimidade de Lilian, revelada na capa de todos os jornais, virou
um caso nacional. Pior: durante alguns dias, Itamar transmitiu à nação a nítida
sensação de que estava apaixonado pela atriz, modelo e manequim.
Itamar Franco deixou o poder no primeiro dia útil de 1995. Em novembro de
1998, tornou-se governador de Minas Gerais. A partir de então, revelou-se um
dos maiores inimigos de seu ex-aliado, o então presidente Fernando Henrique
Cardoso. Em várias ocasiões, Itamar deu a impressão de que estava disposto a
separar Minas do resto do país. No alvorecer do Terceiro Milênio, sua carreira
política e trajetória histórica ainda não parecem encerradas.

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