Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
Quando ficou claro que Fernando Collor era o único obstáculo a se interpor entre Lula e a Presidência (e
o advento de uma suposta “república sindicalista”), a campanha do “caçador de marajás” adquiriu novo
vulto e uma nova dimensão. Milhões de dólares foram canalizados para catapultar o jovem neoliberal
alagoano para o Palácio do Planalto. Foi nesse contexto que Paulo César Farias, o PC, tesoureiro da
campanha de Collor, passou a desempenhar papel-chave não só na campanha em si, mas no próprio
projeto de poder de Collor. Collor fora apresentado a PC pelo irmão Pedro, que o conhecia quase desde os
tempos em que PC era chamado de Paulinho Gasolina, época em que vendia carros usados em Maceió.
Ex-seminarista, PC largara a batina ao descobrir que sua vocação estava mais nos números do que nas
almas. E, nas contas, PC de fato era um prodígio. Aos 17 anos, passara em primeiro lugar no vestibular
para Direito, em que se formou aos 22 – embora nunca viesse a exercer a profissão. Aos 21 anos, PC foi o
representante dos estudantes no conselho que referendou o nome do primeiro governador “biônico” de
Alagoas, Lamenha Filho, e se tornou seu secretário particular. Mais tarde, além de empresário, Paulo
César Farias virou tesoureiro da campanha do senador João Lyra, que o apresentou ao marido de sua filha
Teresa, Pedro Collor. Pedro, por sua vez, fez a ponte entre PC e Fernando – estabelecendo a parceria que
levaria Collor ao governo de Alagoas e, em seguida, à Presidência.
Por intermédio de PC Farias foram arrecadados os milhões de dólares que contribuíram para a eleição de
Collor. Não se sabe ao certo quanto PC amealhou. Sabe-se apenas que o dinheiro não apenas não parou de
entrar depois da vitória de Collor como, ao contrário, passou a afluir em quantidade ainda maior após a
eleição. Baseado em sua ligação com as empreiteiras, PC teria armado o maior esquema de propina já
concebido no Brasil – uma rede de influências que envolveria “porcentagens” de até 22% para a
aprovação de qualquer projeto.
O esquema começaria a ser desmontado depois de Pedro Collor, irmão do presidente e ex-amigo de PC,
denunciar a “parceria” entre Fernando e o tesoureiro. Segundo Pedro, PC dizia abertamente que, do
dinheiro arrecadado, “70% é do chefe, 30% é meu”. Após as denúncias, que incluíam a acusação de que
Fernando era “contumaz consumidor de cocaína”, PC decidiu pagar US$ 1,4 milhão à Receita Federal,


N
muito mais do que pagara até então. Ainda assim, o primeiroamigo continuou voando em seu jatinho, o
Morcego Negro, vendo e ouvindo óperas num circuito interno de TV.
O IMPEACHMENT E OS CARAS-PINTADAS
o dia seguinte à posse, em 15 de março de 1990, o governo Collor
apoderou-se de praticamente todo o dinheiro que estava depositado nos
bancos e em instituições financeiras do país. O pretexto para tal espoliação foi
um novo plano de combate à inflação – batizado de “Plano Collor” –
responsável pelo maior choque da história econômica do Brasil. Idealizado pela
equipe da ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello, o plano acabou com o
cruzado, que voltou a se chamar cruzeiro, e, por meio de um “pacote” com 17
medidas provisórias, bloqueou por 18 meses todo o dinheiro existente nas
contas-correntes e na poupança dos brasileiros – com exceção de Cr$ 50 mil
(equivalentes a US$ 50), que podiam ser sacados de imediato. Foi uma das mais
brutais intervenções nos direitos civis dos brasileiros, algo tão radical quanto as
atitudes arbitrárias tomadas pelos militares.
Embora o dinheiro de fato tenha sido devolvido após 18 meses, bastante
desvalorizado, apesar da correção monetária e de juros anuais de 6% (ao
contrário do que ocorrera com os “empréstimos compulsórios” tomados durante
o Plano Cruzado do governo Sarney, que foram pura e simplesmente
surrupiados), tudo o que se passou nos meses seguintes do governo Collor
permite supor que o objetivo primordial do plano estava ligado, mais que a um
projeto de “saneamento” das finanças da nação, à fome de dinheiro que
caracterizou o governo Collor. Embora a mão leve e onipresente de PC Farias
não estivesse diretamente por trás do plano, o fato é que, além das acusações de
que a ministra Zélia avisara determinadas empresas da iminência do confisco,
ela e o próprio presidente Collor dispunham de pouco dinheiro em caixa naquele
dia da expropriação.
Mais tarde, denúncias feitas por Pedro Collor, irmão do presidente,
permitiriam à imprensa e a uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI)
desvendar, ao menos em parte, o gigantesco esquema de propinas e desvio de
verbas comandado por PC de dentro ou das proximidades do Palácio do
Planalto. O escândalo PC iria obscurecer, em todos os sentidos, qualquer outro
acontecimento do governo Collor. De todo modo, nos dois anos e dois meses em


F
que governou antes do início do processo que desembocaria no impeachment,
Collor fez um governo marcado pela falsa polêmica, por declarações de mau
gosto, pelo neoliberalismo de fachada, por suas “proezas” atléticas e seu ar de
Indiana Jones, suas gravatas Hermes, canetas Montblanc e o esnobismo nouveau
riche. Era a República das Alagoas no poder. Ela chegara lá nos braços do povo.
De lá sairia pelo braço do povo.
O INÍCIO DO FIM

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