Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
Macunaíma), virou um desfile de estrelas globais. As artes plásticas se


enclausuraram no circuito das galerias, leilões e vernissages.
A indústria editorial faturou muito com o cruzado, mas, embora a década das
letras tenha começado com o best-seller Feliz ano velho, de Marcelo Rubens
Paiva, lançado em 1982, a literatura se manteve opaca. Em um país que costuma
se entender melhor pela piada, os gozadores de plantão prosperaram. Em 1988,
ano da morte de Chacrinha, estreou TV Pirata, programa de que faziam parte os
atores Regina Casé e Luís Fernando Guimarães, também ex-integrantes do grupo
Asdrúbal Trouxe o Trombone. Seu humor escrachado, sob a direção do brilhante
Guel Arraes (filho do ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes), abriu
caminho para o sucesso da turma do Casseta & Planeta, grupo de humoristas
furiosos que em 1997 estarreceriam a nação ao fazer uma das mais alarmantes
denúncias da história dos escândalos políticos do país: “Deputados comprados
vieram com defeito!” – e o pior é que não havia posto de troca, nem para quem
reclamar.
No Brasil, só dói quando respiramos. O resto todo é muito engraçado.


O
Capítulo
36
DE COLLOR A FHC
presidente empertigou-se, fungou, franziu o cenho, fungou de novo e
garantiu que iria punir todos os culpados. Para reforçar a disposição
justiceira, fungou outra vez e assegurou que estava disposto a cumprir a
lei duela a quien duela. Na histórica noite de 25 de agosto de 1992, Fernando
Collor precisou recorrer a um portunhol de corar secundarista porque estava
concedendo para a TV argentina uma entrevista que, em tese, não seria exibida
no Brasil. Mas, havia meses, Collor vivia uma espécie de inferno astral e a
transmissão acabou sendo captada por acaso pelo jornal Zero Hora, de Porto
Alegre.
A nação, então, se estarreceria ao ouvir o presidente assegurar aos vizinhos
do sul que o que estava ocorrendo no Brasil “es normal, es normal”. Mas,
mesmo num país acostumado às vertigens políticas, o que se passava desde maio
de 1992 definitivamente não era normal. De fato, mais parecia um roteiro da
série de TV Dallas, repleto de cobiça e corrupção, intriga e morte. Ainda assim,
se alguém apresentasse tal enredo para os chefões de Hollywood, provavelmente
teria seu trabalho recusado pela inverossimilhança da trama e pelo fato de
parecer um dramalhão mexicano.
Em linhas gerais, a story line era a seguinte: em certa república sul-
americana, um jovem e promissor candidato, de tendência neoliberal, concorre à
Presidência competindo contra um ex-líder sindical ligado ao movimento
operário. Obtém o apoio da elite nacional e, para administrar os polpudos
donativos da campanha, convida um velho amigo, o ex-seminarista e vendedor
de carros usados antes conhecido como “Paulinho Gasolina”. Depois de uma
campanha acirrada – durante a qual afirma que, se o ex-operário vencer, vai
“confiscar a poupança do povo” –, o jovem e bem-apessoado candidato acaba
vencendo por estreita margem de votos. No dia seguinte à posse, o novo
presidente e sua ministra da Fazenda anunciam um plano de combate à inflação,


em nome do qual bloqueiam o dinheiro depositado em todas as poupanças e
contascorrentes de todos os bancos do país.
À sombra do palácio do governo se instalaria então uma vasta rede de
corrupção e negociatas, na qual projetos só andam se movidos a propina. No
instante em que a incredulidade parece dominar a nação, o irmão mais moço do
presidente decide, por motivos insondáveis (inveja? vingança? revolta pelo
suposto assédio que o irmão teria feito a sua bela esposa?), denunciar “Paulinho
Gasolina” (que ele mesmo apresentara ao irmão) como chefe da quadrilha que se
apoderara dos cofres públicos. A mãe defende o presidente e diz que o filho mais
moço é desequilibrado mental e o afasta das empresas da família. Exames
médicos provam que o caçula não está louco, e as denúncias, depois de
averiguadas, desvendam um gigantesco esquema de corrupção que acaba por
envolver o presidente, que é afastado do cargo.
Enquanto multidões saem às ruas com a cara pintada exigindo a renúncia, a
mãe do presidente entra em coma, a cunhada se torna “musa do impeachment” e
o irmão morre de câncer na cabeça. O ex-tesoureiro foge do país e é preso na
Tailândia. O presidente sofre impeachment, mas se livra da prisão. Depois de
alguns meses na cadeia, “Paulinho Gasolina” (cuja mulher morrera nesse meio
tempo) é solto, mas logo aparece morto, supostamente assassinado por uma
namorada (ou junto com ela?) que conhecera em visitas íntimas na cadeia. No
dia do crime, o jovem ex-presidente (já não tão jovem) e a esposa (também
envolvida em desvio de verbas públicas e com a qual ele se reconciliara depois
de tê-la humilhado em público e deixado de usar a aliança) estavam numa ilha
do Taiti, vestidos de havaianos e sorrindo para as câmeras.
Para piorar as chances de aprovação em Hollywood, o suposto roteiro é uma
obra aberta, ou seja, ainda não tem fim. Quem matou o tesoureiro? Onde estão
os (talvez) US$ 2 bilhões roubados? Com que recursos vive o ex-presidente?
Quais as cenas do próximo capítulo? Independentemente do desfecho e de quais
venham a ser as respostas (se é que algum dia haverá respostas), a Era Collor se
configura como um dos mais negros capítulos da história política do Brasil.
Uma época que seria cômica se não fosse trágica.
O CAÇADOR DE MARAJÁS


É bem possível que Ulysses Guimarães e Mário Covas tenham achado graça
quando um certo Fernando Collor de Mello os procurou, no fim de 1988,
oferecendo-se para concorrer como candidato a vice-presidente na chapa do
PMDB ou do PSDB. Muita gente continuou rindo quando, no início de 1989,
esse mesmo Collor criou o Partido da Renovação Nacional (PRN) e se lançou
candidato à Presidência. Os gracejos logo cessariam, dando lugar ao receio, que,
ainda mais rápido, foi substituído por surpresa e espanto. Partindo de apenas 1%
nas pesquisas eleitorais, Collor iniciou uma ascensão meteórica que o levou ao
primeiro lugar na preferência dos eleitores brasileiros. Como a história se
encarregaria de provar, sua posse na Presidência, em 15 de março de 1990,
decididamente foi coisa muito séria.
Um olhar atento teria revelado motivos para, desde o início, dar mais atenção
ao candidato e a seu plano aparentemente delirante de chegar ao poder.
Descendente de uma família de políticos de projeção nacional – cujo nome mais
importante era seu avô materno Lindolfo Collor, o mais ativo dos ministros do
Trabalho da Era Vargas –, aos 39 anos Fernando Collor já havia sido prefeito
(indicado) de Maceió, deputado federal bem votado e governador eleito de
Alagoas. Fora em tal cargo que, ancorado em violentos ataques ao governo
“conservador” de José Sarney, Collor começara a adquirir certa projeção
nacional ao iniciar uma pretensa campanha contra os altos salários de
determinados segmentos do funcionalismo alagoano – ações (de pouca eficácia
mas de grande impacto na mídia) que lhe valeram o apelido de “caçador de
marajás”.
Jovem, bem-apessoado, dinâmico, Collor soube aproveitar o vácuo deixado
pelo desgaste e pela perda de carisma de antigos líderes como o “doutor”
Ulysses Guimarães e o “engenheiro” Leonel Brizola. Com um discurso
“moderno”, de teor neoliberal, Collor, que subia aos palanques para esbravejar,
com o punho cerrado, contra “os privilégios das elites”, acabou por conquistá-las
de vez. Talvez porque não lhes restasse outra opção: após surpreendente votação
no primeiro turno, Collor passou para o segundo tendo como adversário Luís
Inácio Lula da Silva, o ex-sindicalista, o “amedrontador” candidato das
esquerdas e dos trabalhadores.
O temor de boa parte das classes média e alta de uma eventual vitória de Lula
no segundo turno forneceu ânimo redobrado a Collor nos momentos decisivos de


uma campanha acirrada que polarizou a nação. Ainda no primeiro turno, o então
líder da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Mário Amato,
proferiu uma bravata que se tornaria célebre: se Lula fosse eleito, no dia seguinte
todos os empresários iriam embora do Brasil. Collor aproveitou a deixa e, num
debate com Lula na TV – além de dizer que o adversário tinha “um aparelho de
som melhor” que o dele –, afirmou que, caso fosse eleito, Lula iria “confiscar a
poupança” de todos os brasileiros.
Embora o PT de Lula não se saísse mal nos grandes centros, o furacão Collor
varreu o interior do país. Com jeito de garotão impetuoso e prometendo matar a
inflação “com um só tiro”, Collor obteve 51,5% dos votos válidos contra 48,5%
de Lula e, em 18 de dezembro de 1989, tornou-se o primeiro presidente eleito
pelo voto direto desde Jânio Quadros (que assumira em 1961). O Brasil
supostamente iria entrar nos anos 1990 sob o signo do liberalismo e da
“modernidade”.
“PAULINHO GASOLINA”

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