Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
Embora tenha alcançado altos índices de popularidade durante o período em que o Plano Cruzado
permitiu a muitos “pobres” beberem leite e cerveja como nunca na vida, José Sarney chegara à
Presidência por caminhos tortuosos e (duplamente) indiretos. Talvez por isso, talvez por sua ligação
uterina com o regime militar, talvez por certos aspectos caricaturais de sua figura e de sua personalidade
(o bigode mexicano, os jaquetões no estilo “safári”, o discurso pomposo e vazio), Sarney tornou-se o alvo
favorito de alguns intelectuais e jornalistas de língua e pena afiadas. Entre eles, destacaram-se Paulo
Francis e Millôr Fernandes, que durante cinco anos atacaram implacavelmente o ex-presidente da Arena.
Mas, independentemente das críticas e dos deboches – bem como de acusações bastante fundamentadas de
seu envolvimento em práticas nepotistas e em malversação de verbas públicas –, Sarney seguiu no centro
do poder e tornou-se o mais evidente símbolo dos descaminhos do Senado nacional, que presidiu por três
vezes. Sarney é o retrato vivo de que, em pleno século 21, o Brasil ainda guarda resquícios de uma política
quase feudal e do quanto ainda falta para o país tornar-se uma nação verdadeiramente moderna.
O PLANO CRUZADO
pesar de suficientemente vacinados contra planos anti-inflacionários
milagrosos e fórmulas mágicas que lhes permitiriam dormir no Brasil e
acordar na Suíça, os brasileiros tiveram motivos extras para acreditar que,
daquela vez, seria diferente. Em 28 de fevereiro de 1986, o presidente José
Sarney serviu-se de uma cadeia de rádio e televisão para anunciar ao país a mais
radical mudança na economia nos últimos anos: o Plano Cruzado.
O combalido cruzeiro, privado dos três zeros inúteis que tinha à direita, foi
substituído pelo cruzado, que nascia como a nova moeda “forte” nacional. Os
preços e o câmbio foram congelados, o mesmo ocorrendo com os aluguéis; as
prestações, que começaram a sofrer a chamada “deflação”, eram calculadas por
meio da “tablita”. Os salários, é claro, foram igualmente congelados, mas só
após terem sido reajustados pelo valor médio dos últimos seis meses, mais um
abono de 8%. A livre negociação estava liberada, desde que os valores de
eventuais aumentos não fossem repassados aos preços. Quando a inflação


ultrapassasse os 20%, seria automaticamente disparado o “gatilho salarial”, que
reajustaria os salários nesse mesmo porcentual.
Embora estivesse disposto a redemocratizar o país, Sarney lançou o plano na
forma de um decreto-lei, impondo-o à sociedade de cima para baixo, sem
discussões, como as medidas tomadas pelo regime militar. Ainda assim, o plano
pareceu satisfazer os anseios da população por uma maior participação nos
destinos do país. Tanto é que, servindo-se largamente do bordão “brasileiras e
brasileiros”, o presidente conseguiu convencer o povo a se engajar na cruzada
econômica, a ponto de logo surgir a figura dos “fiscais do Sarney”. Era comum
se assistir, com ampla divulgação da mídia, a cidadãos comuns, travestidos de
xerifes do congelamento, fechando supermercados, ou mesmo dando voz de
prisão a comerciantes dispostos a burlar a cruzada da moralidade dos preços. Por
mais burlesca que acabasse se revelando, essa foi a primeira manifestação
coletiva de defesa dos direitos do consumidor e de exercício pleno da cidadania
ocorrida no Brasil.
Mas, capitaneado pelo ministro da Fazenda, Dílson Funaro, e pelos
economistas ligados ao PMDB que o urdiram em segredo, o Plano Cruzado logo
começou a revelar sua fragilidade, fruto de sua desvinculação com a realidade
efetiva dos números do Brasil. O congelamento, com a consequente corrida ao
consumo, acarretou dois problemas: a queda na produção, que levou ao aumento
excessivo das importações, provocando um preocupante desequilíbrio da balança
comercial, e o surgimento do ágio, quantia cobrada “por fora” para quem
quisesse ter acesso aos produtos escondidos pelo comércio e pela indústria na
expectativa de uma eventual liberação dos preços.
O aspecto mais grave do fracasso do plano reside no fato de que, caso tivesse
sofrido reajustes a tempo, ele poderia ter sido mais eficaz. Mas, disposto a lucrar
com os dividendos políticos que a ilusão monetária provocara nas classes baixa e
média, o governo recusou-se a fazer qualquer mudança real (o “Cruzadinho”,
lançado em 24 de julho de 1984, revelou-se um paliativo inútil) antes das
eleições marcadas para novembro. Ao irem às urnas naquele mês, os “brasileiros
e brasileiras” conferiram uma esmagadora vitória ao PMDB, ludibriados pelo
pretenso sucesso do Cruzado, cujo real fracasso o governo se encarregou de
esconder até garantir o êxito eleitoral. Passado o pleito, o aumento de tarifas e
impostos ressuscitou o pesadelo da inflação. O Cruzado fora apenas nuvem


S
passageira.
A CULTURA NOS ANOS 1980 E 1990
e tantas vezes o Brasil parece uma piada sem graça, por que não fazer de sua
arte um chiste mordaz? Foi com o espírito da irreverência macunaímica,
típica do país tropical abençoado por Deus, que a cultura brasileira – em fase
definitivamente pop – deu boasvindas aos anos 1980. Descendente virtual do
grupo teatral mais dissonante do país – o Asdrúbal Trouxe o Trombone, que
desde 1974 mixou música e zombaria nos palcos da vida –, o grupo musical
Blitz serviu chope e batata frita na mesa de brasileiros e brasileiras a partir de
setembro de 1982, com o lançamento do álbum As Aventuras da Blitz.
O humor da banda liderada por Evandro Mesquita, ex-integrante do
Asdrúbal, foi responsável pela explosão do rock no Brasil. Quinze anos depois, o
deboche da Blitz (que tinha nos vocais a futura diva da dance music nacional,
Fernanda Abreu) seria o tempero utilizado pelo maior fenômeno da indústria
fonográfica no país: os Mamonas Assassinas, que venderam dois milhões de
cópias de seu disco de estreia, antes de morrerem em um trágico acidente aéreo.
Também nos anos 1990, e com o mesmo bom humor, uma nova safra de bandas
– Chico Science, Raimundos e Skank – redefiniria os caminhos do rock
“brazuca”, dando-lhe, enfim, um sotaque nacional.
Depois que a Jovem Guarda envelhecera e a MPB virara a principal voz
musical da nação ao longo da década de 1970, o rock só tinha conseguido voltar
às paradas em 1980, com o humor descompromissado e carioca da Gang 90, a
precursora da new wave nacional, fundada por Júlio Barroso, poeta ligado ao
movimento “udigrude” dos anos 1970. A Blitz aproveitou a mesma onda e a
propagou em escala muito maior com o sucesso “Você não soube me amar”.
Mas foi com sotaque anglo-saxão e letras politizadas que o rock se
estabeleceu de vez entre a moçada tupiniquim e acabou se tornando o fato
cultural mais significativo dos anos 1980 no Brasil. Tudo começou com
roqueiros que moravam em Brasília – a cidade na qual o poder está tão próximo
e tão longe; o reino do tédio para rebeldes com causa. Foi nas proximidades do
Planalto que o Aborto Elétrico, grupo do vocalista Renato Russo, fez seu
primeiro show, em janeiro de 1980. Cinco anos depois, a Legião Urbana do


mesmo Renato lançaria seu primeiro disco, batizaria sua geração – Coca-Cola –
e começaria a percorrer uma estrada de sucessos que só acabou em 1996, com a
morte de seu fundador.
Renato Manfredi Júnior, o Renato Russo, foi o mais carismático letrista e
vocalista de seu tempo. Divide tal posto e tal glória com o carioca Agenor de
Miranda Araújo Neto, o Cazuza, líder da banda Barão Vermelho. Ambos
injetaram poesia no rock. Ambos percorreram a estrada dos excessos em busca
do palácio da sabedoria. Ambos fizeram o Brasil mostrar a sua cara com
questões simples e diretas, como o rock deve ser e fazer: afinal, “Que país é
este?” Ambos morreram no auge da fama, como convém a roqueiros rebeldes.
Ambos vitimados pela Aids, o mal do fim do século que os dois cantaram.
Brincadeira no começo da década, o rock virou coisa séria quando passou a
render milhões de cruzados: a adoção do Plano Cruzado, em 1986, deu o
impulso definitivo à indústria do disco no Brasil. Embalado pelo sabor do
sucesso de suas Louras geladas, o RPM se tornaria o maior fenômeno comercial
da geração Coca-Cola. O rock nacional emplacava um produto atrás do outro:
Titãs, Ultraje a Rigor, Camisa de Venus, Lobão. Até a maior estrela infantil do
país em todos os tempos, a “rainha dos baixinhos”, Xuxa, que estreou na TV
Globo em junho de 1986, vendeu LPs aos milhões e desbancou Roberto Carlos
do posto de maior vendedor de discos do país.
Se nos anos 1980 o Brasil da Blitz, do Barão e da Legião e de seus amigos de
Brasília, os Paralamas do Sucesso (que nos anos 1990, em alto e bom som,
chamaram os congressistas nacionais de “300 picaretas”), foi mais roqueiro que
qualquer outra coisa, isso se deu também pela deficiência de suas demais
expressões artísticas, que ou não aproveitaram as benesses do cruzado ou
mergulharam no mais puro comercialismo.
O cinema começou a década de 1980 com grande perda: Glauber Rocha
morreu em agosto de 1982. O profeta que criara a estética da fome não viveria
para ver sua definição adquirir um sentido mais perverso: em 1987 a
Embrafilme, criada pelo governo para subsidiar produções nacionais, foi
desativada e o cinema nacional ficou à míngua. A Era Collor deixaria as coisas
ainda piores: as produtoras entraram no vermelho e os anos passaram em branco.
O teatro, com exceções como as peças de Antunes Filho (que em 1978 dirigira

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