Brasil, uma história


partidária que acabou com a Arena e o MDB, o PT estava acostumado a desafiar



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história

partidária que acabou com a Arena e o MDB, o PT estava acostumado a desafiar
a ditadura: dirigentes sindicais da região do ABC paulista (onde surgira o
embrião do partido) tinham, desde 1975, organizado greves progressivamente
ruidosas e bem-sucedidas.


Mal o PT lançou a campanha pelas “Diretas Já”, o PMDB não só se uniu a
ela como faltou pouco para se apoderar de tal bandeira. Tanto é que o presidente
do partido, Ulysses Guimarães, ficaria conhecido como o Sr. Diretas. O
governador de São Paulo, Franco Montoro, também do PMDB, não só acolheu o
movimento como, ao marcar um comício para o dia 25 de janeiro de 1984
(feriado em São Paulo), tornou-se um dos principais responsáveis pela primeira
grande manifestação pelas Diretas Já, que reuniu 300 mil pessoas na praça da Sé
(onde, vinte anos antes, a Marcha da Família dera o aval civil para o golpe
militar de 1964). A partir de então, e especialmente após os comícios do
Anhangabaú e da Candelária (apoiado pelo governador do Rio, Leonel Brizola,
do PDT), todo o Brasil se engajou na campanha, com grandes manifestações no
Rio Grande do Sul e em Minas Gerais (onde o governador Tancredo Neves
também apoiava as Diretas).
Mas uma coisa eram os devaneios populares e anseios oposicionistas. Outra,
bem diferente, eram as amarras constitucionais que impediam eleições diretas.
Para que o presidente do Brasil fosse eleito por voto popular, seria preciso alterar
a Constituição. Para modificá-la, era necessário obter o voto de dois terços do
Congresso. E o Congresso, desde as artimanhas do Pacote de Abril de 1977, era
dominado pelo PDS, o partido ligado ao governo e herdeiro direto da Arena. O
deputado Dante de Oliveira, do PMDB de Mato Grosso, propusera emenda
constitucional que introduzia eleições diretas. No dia 25 de abril de 1984, sob
grande comoção e com o Congresso cercado pela PM, a emenda foi votada.
Obteve 298 votos dos 479 congressistas, contando com várias e inesperadas
adesões do PDS – mas precisava de 320 para ser aprovada. Depois de promover
intensas e comoventes manifestações de rua, o Brasil civil foi derrotado por 22
votos.
Mas o clamor cívico das diretas revelara um novo país: o Brasil da força
sindical, das multidões participantes e da imprensa atuante. A posição
independente do diário Folha de S. Paulo, que apoiou abertamente a campanha,
ajudou a torná-lo o principal jornal brasileiro nos anos 1980 e 1990.
Após a ressaca pela derrota das diretas, iniciaram-se as articulações para a
escolha do sucessor de Figueiredo, que seria feita no Colégio Eleitoral. O PDS
tinha dois candidatos: o vice-presidente Aureliano Chaves e o coronel Mário
Andreazza. Andreazza era o favorito dos militares, mas ambos foram


A
atropelados por Paulo Maluf. Aureliano retirou a candidatura e se uniu a um
novo partido, o PFL, que lançou o ex-presidente do PDS, José Sarney, para vice
de Tancredo Neves, candidato do PMDB. E, assim, Tancredo e Sarney foram
para o Colégio Eleitoral enfrentar Paulo Maluf.
O SURGIMENTO DO PT
Nova Lei Orgânica dos Partidos, aprovada em dezembro de 1979, numa das
últimas artimanhas do general Golbery do Couto e Silva, extinguiu o
bipartidarismo no Brasil e, ao acabar com a Arena e o MDB, abriu caminho,
entre os escombros desses dois partidos mastodônticos, para o surgimento de
várias novas siglas, entre as quais a mais inovadora foi a do Partido dos
Trabalhadores (PT). Ao patrocinar o ressurgimento do pluripartidarismo, o
verdadeiro objetivo do governo era acabar com o gigantismo do MDB. Os
estrategistas do Planalto imaginavam que, além da Arena (rebatizada de PDS),
não haveria espaço, no cenário político do país, para mais do que três partidos:
um de centro, comandado por Tancredo Neves; outro populista, à sombra de
Leonel Brizola; e o terceiro, agrupando alas mais radicais da esquerda, em torno
de Miguel Arraes.
Os cálculos falharam: o Partido Popular (PP) de Tancredo surgiu, mas jamais
teve força. Brizola perdeu a sigla PTB para Ivete Vargas e teve de criar o PDT,
enquanto o recém-criado PMDB manteve muito da estrutura do antigo MDB.
Tida como “uma infâmia” por seu ex-presidente, Ulysses Guimarães, a extinção
do MDB seria saudada pelo ministro da Justiça, Petrônio Portella, como “o
arquivamento da camisa de força do bipartidarismo” e o início efetivo da
redemocratização. De qualquer maneira, foi tal reforma que permitiu ao governo
afastar o fantasma do desastre nas eleições diretas para governador, convocadas
pelo presidente Figueiredo em 1980 e realizadas em 1982. De todo modo, após o
fim do bipartidarismo, quase tudo permaneceria como dantes no quartel de
Abrantes, não fosse o surgimento e o surpreendente crescimento do PT.
O PT nasceu fraco e menosprezado, numa mesa de um restaurante frango-
compolenta, em 1980, em São Bernardo do Campo – SP. Era a ponta de lança do
movimento sindicalista na região do ABC, que desafiara o governo militar ao
deflagrar, em 1978 e 1979, greves gerais nas quais mais de 300 mil metalúrgicos


D
cruzaram os braços. Aos operários da indústria automobilística juntaram-se
intelectuais de esquerda, as comunidades eclesiais de base, a Pastoral da Terra e
a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag).
Tendo como palavras de ordem autogestão e democracia social, o PT
cresceria brutalmente sob a liderança de seu presidente, Luís Inácio Lula da
Silva, líder dos sindicalistas do ABC. A consagração definitiva de Lula e do PT
se daria em 1989, quando, pela primeira vez na história do Brasil, um operário –
o próprio Lula – disputou a Presidência da República. Lula não ganhou (assim
como voltaria a perder em 1994 e 1998), mas seu desempenho eleitoral foi um
dos fenômenos mais surpreendentes dos anais da política brasileira.
Na verdade, o destino de Lula teima em contrariar sua biografia. Nascido em
27 de outubro de 1945, em Garanhuns, nos cafundós do sertão de Pernambuco,
sétimo dos dezoito filhos dos lavradores Eurídice e Aristides Silva, Lula mudou-
se com a família para São Paulo aos 7 anos, em 1952. Aos 15, empregou-se
como metalúrgico. Em 1969, foi eleito diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de
São Bernardo do Campo e Diadema, no qual chegou à Presidência em 1975. Foi
várias vezes preso com base na Lei de Segurança Nacional e destituído do cargo
de presidente de seu sindicato.
Em 1986, porém, elegeu-se deputado federal constituinte com 650 mil votos,
a maior votação do país. Após as três derrotas consecutivas nas disputas
presidenciais (para Fernando Collor em 1989, para Fernando Henrique Cardoso
em 1994 e novamente para FHC em 1998), Lula enfim seria eleito presidente já
em pleno século XXI. Reeleito em 2006, obteria os mais altos índices de
aprovação popular de um presidente já registrados no Brasil, embora não se
possa afirmar que tenha se tornado uma unanimidade no país (leia cap. 37).
O PRESIDENTE QUE NÃO FOI
isposto a retroceder sobre os próprios passos, aliar-se com os inimigos,
perdoá-los e esquecer suas ofensas, Tancredo de Almeida Neves era um
político no sentido exato do termo. Mais do que isso: Tancredo era o típico
político mineiro. Calado sempre que possível, reticente quando necessário,
corajoso em momentoschave, capaz de guinadas oportunas e, eventualmente,
oportunistas, Tancredo tornou-se um especialista em caminhar no fio da navalha.


Tais habilidades de malabarismo político não o impediram de ser, por vezes,
forçado a descer do muro – ora à esquerda, ora à direita. Depois de ir às ruas
pedindo eleições “Diretas Já”, rendeu-se às evidências de que o período mais
nebuloso da vida pública brasileira permanecia atrelado ao “entulho autoritário”
e candidatou-se à Presidência da República em pleito indireto.
Em 1985, aos 75 anos, foi eleito presidente – mas morreu antes da posse.
Tragédia de tal proporção levou Tancredo ao patamar reservado aos mártires
nacionais – e impediu que sua vida e sua obra fossem analisadas sob o ângulo
frio dos fatos concretos. Mais do que se tornar o presidente que não foi,
Tancredo Neves passou à história como o presidente que poderia ter sido – no
sentido ideal da expressão.
Descendente de açorianos, Tancredo nasceu em 4 de março de 1910 em São
João Del Rei – MG, quinto dos doze filhos de Francisco Neves e Antonina de
Almeida. O pai, vereador, morreu aos 48 anos, mas inoculou no filho o gosto
pela política. Em 1932, Tancredo tornou-se advogado. Três anos depois, elegeu-
se vereador pelo Partido Progressista.
Com o golpe do Estado Novo, em 1937, Tancredo perdeu o mandato. Em
1945, com a queda da ditadura, novos ventos o levaram ao Partido Social
Democrata (PSD). Elegeu-se deputado em 1946 e apoiou a candidatura de Dutra
à Presidência. Em 1953, tornou-se ministro da Justiça de Vargas (que o cassara
quinze anos antes). Foi ignorado pela “República do Galeão”, que investigou por
conta própria o atentado a Lacerda, e assistiu da antessala do poder ao dramático
desfecho da madrugada de 24 de agosto de 1954, quando Getúlio deixou “a vida
para entrar na história”. Depois de atacar duramente o novo governo chefiado
por Café Filho, Tancredo foi um dos maiores articuladores da campanha de JK,
de quem se tornou conselheiro.
Em 1961, quando a turbulência de um golpe de Estado já se desenhava nos
céus do país, Tancredo foi encarregado de negociar com João Goulart as
condições para que os militares aceitassem a posse do vice-presidente após a
renúncia de Jânio Quadros. Graças ao êxito da missão, assumiu como primeiro-
ministro do governo parlamentarista. Quando o governo Goulart começou a
pender para a esquerda, Tancredo se demitiu. Mas o golpe era página já escrita e,
quando ele eclodiu, em 31 de março de 1964, Tancredo se manteve no posto de
deputado federal. Da trincheira no MDB, equilibrou com rara eficiência papéis


O
antagônicos, alternando-se entre a negociação e a oposição a um regime de
ferocidade crescente. Tal posição o forçou a se manter calado inúmeras vezes,
mas igualmente o impediu de ser cassado. Senador em 1978, aliou-se ao seu
inimigo histórico, o também mineiro Magalhães Pinto, para formar o Partido
Popular (PP), que se fundiu com o PMDB quando Tancredo se tornou, junto com
Ulysses Guimarães, uma das principais figuras da Campanha das Diretas e o
“candidato natural” à Presidência da República, ainda que por vias indiretas.
ELEIÇÃO E AGONIA DE TANCREDO
s brasileiros despertaram cedo naquele 15 de março de 1985, sobressaltados
pela saudável expectativa de assistir à posse de um presidente eleito.
Acabaram tendo uma desagradável surpresa ao ligar a TV e assistir à posse de
José Sarney, um vice que parecia ter entrado na chapa como mero complemento.
Àquela altura, Tancredo Neves embarcava numa viagem sem volta num leito do
Hospital de Base, em Brasília.
Internado às pressas, estava destinado a jamais assumir a condição de
ocupante do Palácio do Planalto. As dores se manifestavam havia vários meses,
mas, apesar da insistência de sua mulher, Risoleta, e de amigos e assessores mais
próximos, Tancredo estava decidido a levar até o fim o papel de candidato viável
– o que naquele momento significava alguém de perfil liberal o suficiente para
canalizar as esperanças da retomada da democracia, e conservador o bastante
para não cutucar demais a moribunda ditadura militar.
Em 15 de janeiro de 1985, o Congresso elegeu Tancredo Neves o 31º
presidente do Brasil, conferindo-lhe 480 votos, contra os 180 dados a Paulo
Salim Maluf. A herança do regime militar incluía a maior inflação da história,
uma dívida de US$ 100 bilhões e uma lista de incontáveis escândalos
financeiros. Tancredo carregava o sonho dos brasileiros de ver o país ingressar
num período de liberdades políticas, transparência da administração pública e
crescimento econômico sustentável.
O sonho de Tancredo de conduzir esse processo, no entanto, não chegou a se
concretizar. Em 13 de março, a dois dias da posse, submetido a exames, foi
informado pelos médicos da existência de um processo infeccioso agudo no
abdômen. Precisava ser operado com urgência. “Os senhores precisam saber que


até o dia 17, às 5 horas da tarde, eu não posso me submeter a essa cirurgia”,
disse taxativamente. Para o dia e horário citados, estava marcada a primeira
reunião ministerial do novo governo. A partir dali, imaginava, sua internação já
não provocaria turbulências graves e os militares não iriam intervir no processo
de redemocratização.
Na noite do dia 14, o quadro clínico indicava possibilidade de parada
cardíaca, parada respiratória e morte. Mesmo alertado dos riscos, Tancredo
Neves só concordou em ir ao hospital para tomar soro. Foi o truque encontrado
pelos médicos para interná-lo. Começava a longa agonia de Tancredo e de todos
os brasileiros.
Enquanto se iniciava a cirurgia, numa sala reservada do Hospital de Base,
alguns dos caciques da chamada “Nova República”, entre os quais os novos
ministros Marco Maciel, Aureliano Chaves, Leônidas Pires Gonçalves, Affonso
Camargo e o senador Fernando Henrique Cardoso, decidiam que era preciso
preparar com rapidez a posse do vice-presidente eleito José Sarney. Havia
temores de que a linha-dura não aceitasse a posse de Sarney e aproveitasse o
pretexto para criar uma nova crise institucional de consequências realmente
imprevisíveis.
LENTO CALVÁRIO

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