Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
últimos dias de Paupéria foi publicado postumamente em 1972) e Capinam
(autor das letras de Soy loco por ti América e Miserere nobis).
Torquato e Capinam eram apenas dois dos poetas cuja palavra tomou de
assalto a década de 1970. Como a poesia dos beats norte-americanos, a obra
poética da chamada “geração mimeógrafo” rompeu os limites acadêmicos e
ganhou as ruas: seus poemas apareciam em folhetos, em fotocópias, em pôsteres,
em postais e até em grafites pichados em muros e paredes. Os grandes nomes
dessa geração foram Chacal, Charles, Cacaso, Geraldo Carneiro, Ana Cristina
César, Roberto Piva, Cláudio Willer e Wally Salomão, autor do clássico
“udigrude” Me segura qu’eu vou dar um troço, lançado em 1972. Ao publicar
revistas, jornais e “jornalivros” como Navilouca, Flor do Mal, Bondinho e
Almanaque Biotônico Vitalidade, os poetas “marginais” também se colocaram na
vanguarda do movimento que ficaria conhecido como “imprensa alternativa” ou
“nanica”, do qual o representante mais ilustre foi o semanário carioca O
Pasquim, feito por humoristas e intelectuais como Jaguar, Ziraldo, Millôr
Fernandes, Henfil e Paulo Francis. No Pasquim, o jornalista Luís Carlos Maciel
mantinha uma coluna na qual pregava o advento de “uma nova consciência” e
divulgava as notícias do delirante “udigrude” brasileiro.
O “braço pictórico” dessa rebelião conceitual se materializou na obra do


O
pintor e escultor Hélio Oiticica, depois biografado por Wally Salomão. Os
“parangolés” de Oiticica – “espetáculos” que profetizaram os eventos multimídia
do pós-modernismo e que tinham um “caráter tanto construído quanto
desconstrutor” – foram a mais perfeita tradução da geleia geral com a qual os
rebeldes e malditos dos anos 1970 tentaram azedar o humor e “azarar” as mentes
dos censores, dos militares, dos caretas e de quem mais não estivesse na deles.
Foi o desembarque dos bixosgrilos depois do dilúvio universal.
TV: A ALDEIA GLOBAL
general Emílio Garrastazu Médici deu poucas declarações durante seu
governo, mas, todas as vezes que o fez, disse coisas memoráveis. Em 22 de
março de 1973, por exemplo, comentou: “Sinto-me feliz, todas as noites, quando
ligo a televisão para assistir ao jornal. Enquanto as notícias dão conta de greves,
agitações, atentados e conflitos em várias partes do mundo, o Brasil marcha em
paz, rumo ao desenvolvimento. É como se eu tomasse um tranquilizante após um
dia de trabalho.”
De certo modo, Médici tinha razão. Qualquer pessoa medianamente
informada que assistisse ao “jornal” nos primeiros anos da década de 1970 teria
a nítida impressão de que não só o presidente, mas a própria imprensa brasileira
tinham sido submetidos a um tratamento à base de sedativos – a ponto de
estarem quase lobotomizados. A censura era total: só as “boas” notícias podiam
ser divulgadas.
O “jornal” a que Médici se referia era, evidentemente, o Jornal Nacional,
veiculado pela Rede Globo. O JN fora ao ar pela primeira vez no dia 1º de
setembro de 1969. Depois de anunciar que, naquele momento, inaugurava-se
“um serviço de notícias integrando um Brasil novo”, o apresentador Hilton
Gomes noticiou que o então presidente Costa e Silva, adoentado, acabara de ser
substituído por uma junta militar. Era o início da escalada repressiva, que iria
coincidir com o começo da supremacia absoluta do JN, já que, quatro meses
mais tarde, no último dia de 1969, silenciariam-se os clarins e tambores que,
durante anos, primeiro no rádio e depois na TV, marcavam o início do Repórter
Esso.


Pouco tempo depois, já apresentado por Cid Moreira e por Sérgio Chapelin –
que, de certa forma, tornariam-se símbolos deste “novo Brasil” –, o JN se
transformaria não só na mais completa tradução do projeto de “integração
nacional”, tão desejado pelos generais Médici e Geisel, mas também numa
espécie de porta-voz eletrônico do regime militar. Mas não foi apenas o visual
clean e colorido dos apresentadores do JN e seu jornalismo subserviente que
ajudaram a TV Globo a definir o chamado “padrão Globo de qualidade”, que a
tornaria a quarta maior rede de TV do mundo. No núcleo de produção da
emissora nasceram algumas das melhores telenovelas já rodadas no planeta. Elas
não só transformaram o Brasil numa espécie de aldeia global como viraram
sucesso mundial em latitudes tão distintas quanto Cuba e China, Portugal ou
Rússia.
Ainda assim, nada que a TV brasileira jamais produziu – nem os festivais de
música, os programas da Jovem Guarda ou os comerciais “pós-modernos”
premiados em Cannes – foi mais brilhante, mais tropicalista, mais antropofágico,
mais macunaímico e mais brasileiro do que o animador de auditório conhecido
como Chacrinha. José Abelardo Barbosa de Medeiros, o “velho guerreiro” e
“velho palhaço”, o homem que balançava a pança e buzinava a moça e, em vez
de biscoito fino, oferecia bacalhau para a massa, foi também o profeta que
descobriu que “quem não comunica se trumbica”. Chacrinha – que veio “não
para explicar, mas para confundir” – desvendou o papel da TV como o circo
eletrônico no qual os palhaços eventualmente somos todos. Ao morrer em 1988,
aos 80 anos, deixou o Brasil mais triste e mais tolo.
Oito anos depois, em outra espécie de sinal dos tempos, o apresentador Cid
Moreira daria seu “boanoite” final a uma multidão de telespectadores,
despedindo-se de vez do Jornal Nacional. Ele e Sérgio Chapelin foram
substituídos por William Bonner e Fátima Bernardes na tentativa de deixar o
Jornal Nacional mais próximo do Brasil.
“Ser tropicalista é ver O direito de nascer”, disse Caetano Veloso no alvorecer do movimento. Além de
antecipar o que se tornaria uma febre nacional, Caetano estava profetizando também o culto à TV
trash, já que O direito de nascer, levada ao ar em 1964, pela TV Tupi, embora fosse a primeira
telenovela de sucesso nacional, era também um rematado dramalhão no melhor/pior estilo mexicano.
Inspiradas na fórmula descoberta pelos folhetins do século XIX, as telenovelas brasileiras se
tornariam uma coqueluche nacional e, em pouco tempo, encontrariam novas receitas, mais picantes e
dinâmicas. A renovação, inaugurada com Antônio Maria, em 1968, se solidificou no mesmo ano com


F
Beto Rockfeller, dirigida por Lima Duarte. Nos anos 1970, a TV Globo irrompe avassaladoramente
em cena produzindo novelas que (literalmente) pararam a nação: Irmãos Coragem, Selva de pedra, O
bem-amado, Gabriela, Saramandaia, Estúpido Cupido, O astro (quem matou Salomão Ayala?), Dancin’
Days (que deflagrou a febre das discotecas), Roque Santeiro (proibida pela censura), consagrando
atores como Tarcísio Meira e Glória Menezes, Francisco Cuoco e Regina Duarte e autores como
Janete Clair, Dias Gomes, Benedito Ruy Barbosa e Gilberto Braga, que escreveu Vale tudo (quem
matou Odete Roitman?), novela com música de Cazuza e trama na qual o crime compensa e o vilão se
dá bem, fugindo cheio da grana do Brasil. Como numa premonição, Vale tudo foi ao ar em 1989, ano
da eleição de Fernando Collor.
É PERMITIDO PROIBIR
oi uma época de obscurantismo tão medieval que, sendo parte do passado,
hoje pode parecer cômica. E de fato seria se, antes, não tivesse sido trágica.
Inaugurada oficialmente com o Decreto-Lei nº 1.077, de janeiro de 1970,
proibindo obras que “obedeciam a um plano subversivo para pôr em risco a
segurança nacional”, a censura imposta pelo regime militar se iniciara de fato a
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