Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
graus e por Vidas secas, que Nelson Pereira dos Santos lançara em 1954 e 1963,
Glauber Rocha – com “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” –
transformaria a precariedade de meios em recurso estético, mudando, com Deus
e o Diabo na terra do sol, a história do cinema no Brasil.
Com seu “estranho surrealismo tropical” e a violência imagística inerente a
cada plano, Deus e o Diabo na terra do sol não apenas causou sensação no
Festival de Cannes de 1965, como, ao abordar de forma onírica dois fenômenos
sociais típicos da caatinga – o messianismo (estilo Antônio Conselheiro) e o
cangaço (à Lampião-Corisco) –, pôs em xeque a tradicional narrativa dramática
do cinema “ideológico”. Dois anos depois, ainda mergulhado em sua
sensibilidade estética alegórica e profética, Glauber lançou Terra em transe,
filme que, ao discutir a “crise de consciência” das esquerdas e do populismo,
talvez tenha marcado o auge do Cinema Novo, além de ter sido uma das fontes
de inspiração do Tropicalismo.
A ponte entre Cinema Novo e Tropicalismo ficaria mais evidente com o
lançamento, em 1969, de Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade. Não só
pela óbvia aproximação com a Antropofagia inerente à rapsódia de Mário de
Andrade, mas também porque, ao fazer o filme, Joaquim Pedro esforçou-se por
torná-lo um “produto” afinado com a “cultura de massa”. “A proposição de
consumo de massa no Brasil é uma proposição moderna, é algo novo. A grande
audiência de TV entre nós é um fenômeno novo. É uma posição avançada para o


D
cineasta tentar ocupar um lugar dentro desta situação”, disse ele.
Incapaz de satisfazer plenamente as exigências do mercado, o Cinema Novo
deu seus últimos suspiros em fins da década de 1970 – período que marcou o
auge das potencialidades comerciais do cinema feito no Brasil. Em 1992, o então
presidente Collor acabou com a Embrafilme e a indústria cinematográfica do
país entrou numa fase negra, da qual só começou a se recuperar na segunda
metade da década de 1990, com filmes como Carlota Joaquina e O quatrilho.
REBELDES E MALDITOS
epois de se autodesclassificarem do FIC, em julho de 1968, Caetano e Gil
decidiram fazer uma temporada de shows na boate Sucata, no Rio,
apresentando, junto com os Mutantes, as músicas que haviam tirado do festival.
Na plateia, quase todas as noites, podiam ser vistos os cineastas Glauber Rocha,
Leon Hirzman e Arnaldo Jabor, ligados ao Cinema Novo. No palco, ao lado de
uma faixa com os dizeres “Yes nós temos bananas”, havia uma espécie de
bandeira com o lema “Seja marginal, seja herói” e, acima da frase, o corpo
tombado de Cara de Cavalo, famoso bandido carioca recém-abatido pela polícia.
A bandeira fora feita pelo artista plástico Hélio Oiticica.
Diz a lenda que, depois de ver o show, um juiz de direito denunciou Caetano
e Gil por fazerem uma paródia do Hino Nacional Brasileiro. Embora o hino
tocado fosse na verdade o da França, Gil e Caetano foram presos em 27 de
dezembro, duas semanas depois da promulgação do AI-5. Após dois meses de
prisão, ambos foram para o exílio, em Londres. Sua partida não apenas marcou o
fim do Tropicalismo como, de certa forma, os transformaria em “velhos
compositores baianos” já que, cerca de um ano mais tarde, irrompia na cena
musical brasileira um grupo chamado Novos Baianos.
Cabeludos, anárquicos e doidões, vivendo em comunidade e dispostos a fazer
amor e não a guerra, os Novos Baianos eram a ponta do iceberg hippie, que
emergia do oceano de caretice e repressão no qual se afogava a cultura brasileira.
O desregramento dos sentidos, o hermetismo lisérgico, a visão marginal, o
inconformismo radical – ingredientes já presentes no Tropicalismo – adquiriram
dimensões ainda mais definitivas nesta cena underground (ou “udigrude”, em
versão nacional).


Em tese, aqueles eram anos de chumbo, mas os Novos Baianos e os poetas
marginais ajudaram a transformá-los também em anos coloridos, repletos de
ação e de culto às drogas. E, então, boa parte da produção cultural, além de ser
divulgada por meios alternativos, mostrou estar além da “compreensão” dos
censores. Mas não apenas da deles: os artistas “engajados” também não
entendiam nada daquilo. A ruptura provocada pela cultura “udigrude” tivera seu
pioneiro na figura do poeta, romancista e cantor Jorge Mautner que, em 1962,
lançara o livro Deus da chuva e da morte, primeira parte da chamada Trilogia do
Kaos.
Misturando existencialismo e surrealismo, Mautner deslocou o eixo da crítica
política da questão da “revolução” para a da “rebeldia sem causa aparente”.
Como o próprio Caetano Veloso mais tarde observaria, Mautner inaugurou o
Tropicalismo e a antibossa nova, rompendo com o dilema “arte popular engajada
versus esteticismo de vanguarda”. Como Mautner, outros poetas “malditos” se
uniram ao Tropicalismo: entre eles, o pai de todos Torquato Neto (cujo livro Os

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