Brasil, uma história



Baixar 2.26 Mb.
Pdf preview
Página152/193
Encontro22.07.2022
Tamanho2.26 Mb.
#24335
1   ...   148   149   150   151   152   153   154   155   ...   193
Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
Desafinado, sua canção-símbolo, havia vendido um milhão de cópias nos EUA


naquele ano. Por isso, Sidney Frey, presidente da gravadora Audio-Fidelity, veio
buscar artistas brasileiros para tocar em Nova York e o Itamaraty quis patrocinar
a noitada.
Outro mito a respeito da noite da bossa nova no Carnegie Hall é o de que o
show foi um fracasso. Embora o inglês de vários dos artistas brasileiros fosse
macarrônico, figurantes fizessem malabarismos com pandeiros, Bola Sete
tocasse violão nas costas e Roberto Menescal e até Tom Jobim esquecessem a
letra das canções, João Gilberto, Agostinho dos Santos e o próprio Jobim
arrasaram.
Por que, então, as notícias publicadas no Brasil falavam em vexame? A
história foi elucidada pelo jornalista Ruy Castro no livro Chega de saudade,
publicado em 1990. Tudo começou com a reportagem publicada por O Cruzeiro,
em dezembro de 1962, com o título “Bossa nova desafinou nos EUA”. O texto,
tinhoso, assinado por José Ramos Tinhorão, foi chamado de “mediúnico”, já que
seu autor não fora a Nova York. Como pudera então descrever o que se passara
no palco e no camarim? Fora informado por um freelancer da revista, o cubano
Orlando Suero. E o informante de Suero era o compositor Sérgio Ricardo, que
literalmente se escalara para tocar naquela noite.
O episódio seria premonitório do racha que logo dividiria a bossa nova em
“direita” e “esquerda”, em “participantes” e “alienados”. Após o golpe de 1964,
o compositor Geraldo Vandré dissera: “Temos de fazer música ‘participante’. Os
militares estão prendendo e torturando. A música tem de servir para alertar o
povo” (“Quem alerta é corneta de regimento”, responderia Roberto Menescal.)
Sérgio Ricardo seguiria a linha proposta por Vandré. Mas o disco que de fato
rachou a bossa nova foi Opinião de Nara, de Nara Leão, base do show Opinião,
de Oduvaldo Viana Filho e Paulo Pontes, dirigido por Augusto Boal, o qual,
além de ser um dos pontos altos do Teatro Opinião, foi a primeira reação artística
da esquerda ao golpe, inaugurando a “ideologia da pobreza” que, logo a seguir,
tanto importunaria a cultura brasileira. Mas os gênios da bossa nova nem deram
bola e seguiram seu caminho – não deixando de ser menos libertários e ousados
por causa disso. Na verdade, sua música permanece eterna enquanto as “canções
de protesto” daquela época soam enfadonhamente datadas.


D
A JOVEM GUARDA
ois anos depois de a nata dos jazzistas norte-americanos ter se reunido na
plateia do Carnegie Hall para assistir aos mestres da bossa nova, os EUA
foram tomados por uma invasão sonora muito mais avassaladora: a beatlemania.
A beatlemania logo desembarcaria no Brasil, gerando, a partir de 1965, o
fenômeno chamado de Jovem Guarda. Como o primeiro movimento
genuinamente pop a chegar ao país, o iê-iê-iê da Jovem Guarda (versão
tupiniquim do “yeah, yeah, yeah” dos Beatles) foi uma manifestação típica da
cultura de massas. Desde o início, sua eclosão esteve ligada à televisão e a um
projeto publicitário de marketing.
Como a bossa nova, a Jovem Guarda também fora influenciada pela música
anglo-americana. Ao contrário dela, porém, não ajudaria a transformar a matriz.
Na verdade, diluiu-a. Ainda assim, além de conectar o Brasil com o mundo
alucinado do pop e criar os primeiros ídolos “jovens” do país – tão diferentes dos
ídolos das décadas anteriores, como Francisco Alves e Orlando Silva –, a Jovem
Guarda era engraçada, descompromissada e moderna. Gostava de calhambeques,
botinhas sem meia, cabelos na testa, anéis brucutu e queria que tudo o mais fosse
para o inferno. Com sua alegria contagiante, arrombou a festa da bossa nova, do
samba e da MPB.
A Jovem Guarda fabricou alguns ídolos efêmeros como o “príncipe” Ronnie
Von, a “garota papo-firme” Wanderleia, o “bom” Eduardo Araújo, Martinha, a
“garota barra-limpa”, e uma gíria própria, que era uma brasa, mora? Mas os dois
integrantes do movimento que realmente se projetaram foram Erasmo Carlos e
seu parceiro, o “rei” Roberto Carlos. Talvez por ser considerada “infantil”
demais para merecer críticas, a Jovem Guarda passou incólume pela “patrulha
ideológica” dos “engajados”.
A peça Roda-Viva, de Chico Buarque, no entanto, contava a história de um
ídolo da juventude pré-fabricado pela TV, que acabava sendo destruído pelo
sucesso. Embora permaneça na ativa, Roberto Carlos – que alguém já definiu
como “uma mistura de Sinatra com Elvis” – submeteu sua obra de tal forma às
exigências do mercado que preferiu deixar de ser o Presley brasileiro para se
tornar uma espécie de Julio Iglesias verde-amarelo. Como o maior vendedor de
discos da história do país e o grande chansonier nacional, Roberto Carlos
contenta-se em lançar todos os anos trabalhos repetitivos.


I
O TEATRO EM TRANSE
ndignado com as vaias da plateia, naquela memorável noite de 12 de setembro
de 1968, Caetano Veloso desabafou: “Vocês são iguais sabe a quem? Àqueles
que foram na Roda-Viva e espancaram os atores.” Era um evidente exagero.
Caetano se referia a um episódio recente e brutal no qual membros do grupo de
direita hidrófoba CCC (Comando de Caça aos Comunistas) tinham invadido os
camarins do Teatro Galpão, em São Paulo, em julho de 1968, e espancado atores,
músicos e contrarregras, depredando o teatro todo. Apesar da prisão de três dos
agressores – gente ligada à Faculdade de Direito do Mackenzie –, ninguém foi
julgado ou condenado. Tanto é que, meses mais tarde, quando a peça de Chico
Buarque, que estreara no Rio em Janeiro de 1968, foi montada em Porto Alegre,
a agressão se repetiu.
De certa forma, tais conflitos eram reflexo do choque entre o CCC e os
egressos do Centro Popular de Cultura (CPC), movimento cultural ligado à UNE
que defendia a arte “engajada” e fora desbaratado após o golpe militar. Do CPC
faziam parte os dramaturgos Oduvaldo Viana Filho, Gianfrancesco Guarnieri e
Augusto Boal. Em 1962, esse grupo fundara a versão carioca do Teatro de Arena
que, em São Paulo, existia desde 1955. Como a música e o cinema, o teatro
brasileiro ingressava nos anos 1960 com a certeza de que poderia mudar o
mundo.
Embora tivesse apresentado peças de mérito, como Eles não usam blacktie
(de Guarnieri) e Chapetuba FC (de Vianinha), o Arena, em sua tentativa de
recontar a história do Brasil, produziu espetáculos “engajados” – como Arena

Baixar 2.26 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   148   149   150   151   152   153   154   155   ...   193




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal