Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
Chefe do gabinete militar no governo Médici e do SNI no governo Geisel, João Baptista Figueiredo
entrou para a história não só por ser o último general-presidente do movimento de 1964, mas pelas
frases típicas de seu estilo “rude e franco”. Eis algumas: “Não posso obrigar o povo a gostar de mim.
Sou o que sou, não vou mudar para que o povo goste.” “Me envaideço de ser grosso.” “Prefiro cheiro
de cavalo do que cheiro de povo.” “Se ganhasse salário-mínimo, daria um tiro na cabeça.” “O que eu
gosto mesmo é de clarim e de quartel”. E, por fim, a frase pronunciada em 27 de junho de 1979,
depois de assinar a 48ª anistia da história do Brasil: “Eu não disse que fazia? Eu não disse que
fazia?”. Figueiredo fez o que disse que faria – mas a direita radical também cumpriu a promessa de
tumultuar a abertura. De janeiro a agosto de 1980, terroristas explodiram bombas em todo o país. O
atentado mais grave não se concretizou; no dia 1º de maio de 1981, uma bomba explodiu no colo de
um sargento, dentro de um carro, no estacionamento do Riocentro – RJ, onde se desenrolava um show
comemorativo ao Dia do Trabalho. O caso foi investigado por militares de forma parcial, e os
envolvidos, isentados de culpa. Como os torturadores dos anos 1970, os terroristas de direita ficariam
impunes.


T
Capítulo
34
O BRASIL TROPICALISTA
omates e vaias, ovos e uivos. Dissonância no palco, discordância na
plateia. A plateia está de costas para o palco. Os artistas no palco estão de
costas para a plateia. Só o cantor, um poeta franzino, abre o peito e abre a
voz: “Mas é isso a juventude que quer tomar o poder? Vocês têm coragem de
aplaudir este ano uma música que não teriam coragem de aplaudir no ano
passado. São a mesma juventude que vai sempre matar amanhã o velhote
inimigo que morreu ontem. Vocês não estão entendendo nada, nada, nada,
absolutamente nada…”
As vaias viram urros e os urros se tornam ofensas. O poeta segue berrando,
sob os riffs lancinantes da guitarra: “Vocês estão por fora. Vocês não dão pra
entender. Mas que juventude é essa? Vocês são iguais sabem a quem? Sabem a
quem? Aqueles que foram na Roda-Viva e espancaram os atores. Não diferem
em nada deles.”
Era 12 de setembro de 1968 e, acompanhado pelos Mutantes, Caetano Veloso
estava tentando apresentar a canção É proibido proibir. A música, inscrita no 3º
Festival Internacional da Canção, fora inspirada pelos grafites que cobriram os
muros de Paris na rebelião estudantil de maio de 1968. Ironicamente, a canção
prenunciava o início da época em que, no Brasil, se tornaria permitidíssimo
proibir.
Exatos três meses após aquela apresentação de Caetano e dos Mutantes no
Teatro da Universidade Católica, em São Paulo, o general Costa e Silva decretou
o AI-5, o ato que permitiria à censura submeter a cultura nacional a uma espécie
de lavagem cerebral. Embora atingisse a literatura, o cinema, o teatro e a
imprensa, a censura seria especialmente dura com a música. Por quê? Porque
desde o sucesso mundial da bossa nova, no início dos anos 1960, a música se
tornara a manifestação cultural mais vibrante no Brasil.
Com o advento da Jovem Guarda, por volta de 1965, a música entraria na era


da cultura de massa e logo se associaria à televisão – tanto que não apenas a
rebeldia “inocente” do iê-iê-iê de Roberto Carlos (preocupada em “denunciar”
que era “proibido fumar” – maconha, presumivelmente) tinha seu próprio
programa de TV como também eram as grandes redes de televisão que
promoviam festivais como o FIC. Neles, explodiria o choque entre a “música de
protesto”, de veia nacionalista, e a música pop, americanizada e supostamente
“alienada”.
Embora em breve os militares e seus censores se revelassem bem menos
suscetíveis a tais divergências estéticas – podando tanto as canções
“nacionalistas” quanto os “exotismos estrangeiros” –, o que levou o público a
vaiar Caetano naquela noite foi justamente o confronto entre a juventude
“engajada” e de esquerda e a vanguarda artística que Caetano e Gilberto Gil (que
logo subiria ao palco para se solidarizar com o amigo e conterrâneo)
representavam.
Qualquer semelhança entre esse happening que saiu pela culatra e a primeira
noite da Semana de Arte Moderna em 1922 deixa de ser mera coincidência
quando se sabe que, pouco antes, os dois baianos tinham criado o movimento
Tropicalista – releitura pop e hippie da Antropofagia de Marioswald de Andrade.
Baseados – na verdade, muitíssimo baseados – em tudo o que acontecia de novo
e de jovem em um país ainda fervilhante – o Cinema Novo, os
experimentalismos do Teatro de Arena e do Teatro Opinião, os ecos da bossa
nova, a “rebeldia” pop da Jovem Guarda, a cultura televisiva, Chacrinha e as
telenovelas, a poesia concretista, a pintura de Hélio Oiticica –, Caetano e Gil
fermentaram a geleia geral brasileira, acima e além da caretice. “Eu e Gil
tivemos coragem de entrar em todas as estruturas e sair de todas”, continuava
Caetano em seu discurso irado, enquanto a massa ululava e os Mutantes faziam
gemer as guitarras. “E vocês? Se vocês forem em política como são em estética,
estamos feitos. Me desclassifiquem junto com Gil (…). Chega!”
Duas semanas depois de Caetano se autodesclassificar, os Mutantes, com
roupas escandalosas e Rita Lee de noiva se apresentaram nas finais do mesmo
FIC, no Rio. Mas, então, nem foram vaiados: o povo guardou todos os apupos
para Sabiá, de Chico Buarque e Tom Jobim, que venceu Caminhando, de
Geraldo Vandré, em novo desdobramento do choque entre engajamento e
lirismo. A TV mostrou tudo, como continuaria fazendo ao longo das décadas que


C
vieram a seguir. Menos de um ano depois, Caetano e Gil (que tinham sido presos
pelo governo militar) e Chico Buarque (o mais censurado dos compositores
brasileiros) partiam para o exílio na Europa. A bossa nova e o Cinema Novo já
tinham envelhecido, e o Tropicalismo daria os últimos suspiros. Depois deles, o
dilúvio de censura.
A BOSSA NOVA
hovia a cântaros em Nova York na noite de 21 de novembro de 1962. Ainda
assim, mais de 3 mil pessoas lotavam o Carnegie Hall, em Manhattan.
Embora boa parte da plateia fosse de brasileiros, nas primeiras filas sentavam-se
gênios do jazz como Miles Davis, Dizzy Gillespie, Gerry Mulligan, Herbie
Mann e até Tony Bennet. Estavam todos ali para ouvir um novo estilo musical –
a bossa nova – e as estrelas que o tinham inventado. Embora viesse a se tornar
quase um “braço paralelo” do jazz dos anos 1960, a bossa nova devia muito ao
estilo que iria influenciar.
Criada na Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, por jovens músicos de classe
média, a bossa nova nada mais era do que uma nova maneira de tratar o samba.
Mas que maneira: a nova batida, presente no violão de João Gilberto, no piano
de João Donato e de Tom Jobim e na flexão vocal de Johnny Alf,
consubstanciava a fusão entre técnicas típicas da música do Brasil (como
síncopes e jogos de tempos entre o solista e o acompanhamento) com influências
do jazz (em especial o estilo de cantar do cool jazz, tão adaptável à voz íntima e
emotiva de João Gilberto, e o acompanhamento de piano, baixo e bateria, ao
qual se juntavam as harmonias batidas em violão dissonante), propondo a
integração entre melodia e ritmo, valorizadas pelas letras depuradas e intrigantes.
Donato e Alf não foram aos EUA, mas Jobim e Gilberto estavam lá. Ainda
assim, aquele début nova-iorquino da bossa nova por pouco não virou um trem
da alegria para músicos mais ou menos obscuros. Acontece que o show se
tornara uma iniciativa “oficial” do Itamaraty para promover a música brasileira
nos EUA – e João Gilberto e Jobim acabaram precedidos por artistas que nada
tinham a ver com a bossa nova. Entre os mitos que cercam o show do Carnegie
Hall, um é o de que a bossa nova foi descoberta naquela noite. Não é verdade:

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