Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
Embora o aviso de Geisel tivesse sido taxativo, menos de três meses após a morte de Vladimir Herzog,
um caso em tudo semelhante àquele se repetiu em São Paulo. No dia 17 de janeiro de 1976, o
metalúrgico Manoel Fiel Filho morreu nos porões do DOI-CODI. A versão oficial novamente falava
em enforcamento: dessa vez, o detento teria usado “as próprias meias”. O laudo do Instituto Médico
Legal, atestando suicídio, foi, outra vez, assinado pelo legista Henry Shibata (mais tarde punido pelo
Conselho de Medicina de São Paulo). Dois dias após a morte de Fiel Filho ter sido anunciada, Geisel
viajou para São Paulo e demitiu sumariamente o general Ednardo, sem nem sequer consultar o
ministro do Exército, Sílvio Frota. O confronto entre Geisel e Ednardo – naquele instante a face mais
visível do choque entre o governo e a linha-dura – já se manifestara em 31 de março de 1975, quando,
na comemoração do 11º aniversário da “revolução”, o comandante do 2º Exército afirmara ser “uma
balela” a informação de que “o terrorismo fora dominado”. Trinta dias antes, fora justamente isso
que Geisel dissera. Ednardo passou para a reserva. Embora uma sentença, proferida em 1978, tenha
responsabilizado a União pelas mortes de Herzog e Fiel Filho, o general Ednardo foi liberado de
prestar depoimento. Em 1996, as viúvas dos dois mortos foram indenizadas: a de Herzog recebeu o
equivalente a US$ 100 mil, e a de Fiel Filho, US$ 290 mil.
Em agosto de 1977, Frota fora a favor da ocupação militar da Universidade
de Brasília, contrariando Geisel. Em setembro, o ministro do Exército impedira a
volta ao Brasil de Leonel Brizola – outra vez em desacordo com o presidente.
Em outubro, Geisel soube que a candidatura de Frota lhe seria apresentada como
fato consumado no dia 14 e que no dia 16 o ministro se reuniria com o marechal
Odílio Denys e integrantes da linha-dura que o apoiariam publicamente. Então,
às sete horas da manhã de 12 de outubro de 1977, Geisel convocou Frota para
uma reunião e, após dez minutos de áspero diálogo, demitiu-o. Frota tentou obter
apoio do Alto Comando do Exército, mas Geisel chamara os principais chefes
militares do país para Brasília e, naquele instante, eles estavam no aeroporto,
sendo recebidos por oficiais de sua confiança. O general Hugo Abreu, embora
amigo de Frota e entusiasta de sua candidatura, ficou do lado do presidente e
ajudou a abortar qualquer revolta no nascedouro.
Em 31 de dezembro, Geisel comunicou formalmente ao general Figueiredo,
então chefe do SNI, que o indicaria como seu sucessor. Em 4 de janeiro de 1978,
Geisel era forçado a exonerar Hugo Abreu, que discordava da indicação. “Eu o
servi lealmente e fui traído por ele”, diria Abreu. Mas a linha-dura e seu
“governo paralelo” estavam vencidos e, em 15 de março de 1979, Figueiredo
assumiu a Presidência do país.


C
O GOVERNO FIGUEIREDO
omo Garrastazu Médici, o quinto general-presidente, João Baptista
Figueiredo, também chegou ao poder, em 15 de março de 1979, após chefiar
o SNI. Mas, ao contrário de seu predecessor, Figueiredo foi levado ao cargo com
a missão de concretizar a abertura iniciada por Ernesto Geisel – o único dos
generais-presidentes a fazer o próprio sucessor. De uma truculência quase
caricatural, dono de frases que seriam hilárias se, antes, não soassem absurdas na
boca de um presidente militar, Figueiredo foi um retrato fiel das incongruências
do Brasil: a um homem da “comunidade de informações” acabaria sendo dada a
missão de reconduzir o país à normalidade democrática.
Não seria uma missão simples: embora contasse com as maquinações
eficientes do general Golbery do Couto e Silva e o apoio irrestrito do ministro da
Justiça, Petrônio Portela, Figueiredo teria de enfrentar não só uma das maiores
crises econômicas da história do Brasil – uma das heranças do “milagre” – como
também os últimos (e por isso mesmo violentos) espasmos da linha-dura e da
direita radical.
Se, durante o governo Médici, a economia ia bem e o povo mal, durante os
seis longos anos do governo Figueiredo tanto a economia quanto o povo foram
tremendamente mal. A uma série de medidas “heterodoxas”, drásticas e
equivocadas – tomadas pela equipe econômica, ainda sob o comando de Delfim
Netto, com a participação de Mário Henrique Simonsen –, se juntaria a segunda
crise internacional do petróleo. A inflação e a dívida externa dispararam. No fim
de 1983, o PIB caiu em 2,5%, e a dívida externa (que passara de US$ 81 bilhões
para US$ 91 bilhões) era responsável por juros anuais de US$ 9,5 bilhões.
Ainda assim, graças ao modelo concentrador de renda e ao arrocho salarial,
muitas empresas e empresários lucraram com a inflação e a manipulação das
taxas de correção monetária. Por outro lado, a crise econômica reforçou os
argumentos da oposição (que pôde se rearticular longe da ameaça do AI-5),
fortaleceu os políticos contrários ao governo, fez espocar as greves no ABC
paulista (berço do PT) e ajudou a deflagrar a campanha pelas “Diretas Já”.
De qualquer forma, o general Figueiredo – que chegara a pedir que o povo o
chamasse de “João” e, até se envolver numa briga quase corpo a corpo com
estudantes em Florianópolis em 1979, desenvolvera um tipo particularíssimo de


comportamento populista – não apenas fingiu ignorar as mazelas econômicas
como, ao decretar a anistia, em agosto de 1979, foi capaz de arrancar das mãos
da oposição sua maior bandeira.
Mas, para cumprir a promessa de que faria “desse país uma democracia”, ele
precisou enfrentar as bombas da linha-dura – que, no início da década de 1980,
fez o país retornar à época da “guerra suja”. Beneficiados pela anistia, os
terroristas de direita nunca foram punidos. Apesar de contemporizar com a linha-
dura no caso Riocentro (leia box abaixo), Figueiredo manteve o calendário
eleitoral, que previa eleições estaduais para novembro de 1982, embora forçasse
o Congresso a adotar medidas restritivas à oposição. Por isso, em abril de 1984,
a emenda das “Diretas Já” não foi aprovada. Mas, em janeiro de 1985, Tancredo
Neves foi eleito pelo Colégio Eleitoral e Figueiredo pôde deixar o poder com a
promessa cumprida.
ADEUS ÀS ARMAS

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