Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
Embora tenham sido vários, nenhum sequestro ficaria mais “famoso” e seria tão falado quanto o de
Elbrick, não só por ter sido o primeiro e por ter capturado um norte-americano mas também por se
transformar num best-seller, ao ser narrado pelo jornalista Fernando Gabeira (que participou da
ação). Gabeira não só veria seu livro O que é isso, companheiro?, lançado em 1980, tornar-se o
“romance da abertura” como seria ele próprio – com sua sunga de crochê, seu discurso amoroso e
suas posições libertárias – levado à condição de “símbolo da anistia e da volta para casa”.
Evidentemente, as novas posições de Fernando Gabeira e o papel que a mídia lhe reservou causaram
polêmica entre os velhos militantes da esquerda. Em 1994, Gabeira foi eleito deputado federal pelo PV
(Partido Verde). Reelegeu-se para mais dois mandatos. Seu livro virou filme de sucesso em 1996.
O GOVERNO GEISEL
omo chefe da Casa Militar de Castelo Branco, o general Ernesto Geisel
(1908-1996) ajudara a manter a linha-dura a distância. Membro permanente
da Escola Superior de Guerra, Geisel tinha notórias ligações com o grupo
castelista. Sua indicação para a Presidência representou uma derrota para Médici
e seus seguidores mais radicais. Com a posse de Geisel, em 15 de março de
1974, o general Golbery do Couto e Silva voltou ao poder. Ambos, Golbery e
Geisel, articularam um projeto de abertura “lenta, gradual e segura” rumo a uma
indefinida “democracia relativa”. A abertura de fato se concretizaria – e de fato
seria lenta e gradual, embora fosse também tremendamente insegura. Não apenas
uma economia em crise, mas também a reação ousada e petulante da linha-dura
colocariam permanentemente em xeque os planos de “distensão” imaginados por
Golbery e implantados por Geisel.
Embora disposto a levar em frente seu projeto reformista, Geisel não hesitaria
em “endurecer” sua relação com a oposição todas as vezes que achasse
necessário, usando amplamente os poderes que lhe eram concedidos pelo AI-5 –
o ato institucional que mais tarde ele próprio extinguiria.
A atitude mais ríspida de Geisel contra a oposição foi o fechamento do
Congresso, em abril de 1977. Em novembro de 1974, o MDB havia vencido as
eleições, aumentando sua bancada na Câmara e no Senado. Dois anos depois,
nas eleições municipais, nova vitória da oposição. Assim, em março de 1977, o
MDB pôde impedir a aprovação de um projeto do governo para a reforma do
Judiciário. Denunciando a existência no país de uma “ditadura da minoria”,


A
Geisel fechou o Congresso e, além de implantar a reforma do Judiciário, baixou
uma série de medidas “casuísticas”, freando o avanço do MDB e garantindo a
supremacia da Arena.
Com o apoio do ministro do Planejamento, Reis Velloso; do chefe do SNI,
João Figueiredo; do chefe da Casa Militar, general Hugo Abreu; e do chefe da
Casa Civil, general Golbery, Geisel ainda contava com o respaldo político de três
governadores importantes: Paulo Egydio – SP, Aureliano Chaves – MG e Sinval
Guazelli – RS. Embora com essa sustentação e com a ajuda dos “casuísmos”
Geisel pudesse dobrar a oposição, na hora de enfrentar os espasmos da linha-
dura ele seria forçado a empregar toda a força de sua personalidade.
Apesar dos pesares, Geisel colocaria em prática várias medidas para
implementar a “distensão”. A primeira delas foi a suspensão da censura prévia à
imprensa escrita, no início de 1975 – embora o rádio e a TV continuassem sob
vigilância. De qualquer forma, o centralismo do governo permanecia inalterado
em muitos aspectos e, em julho de 1975, Geisel assinou um vultoso “programa
de cooperação nuclear” entre Brasil e Alemanha, sem consultar a comunidade
científica e a sociedade civil. Na área econômica, Geisel herdou de seu sucessor
um país com inflação anual de 18,7% e uma dívida externa de US$ 12,5 bilhões.
Apesar de, durante seu governo, o PIB ter crescido espantosos 41%, a inflação
chegou a 40% anuais, e a dívida externa disparou para US$ 43 bilhões.
Mesmo com todas as crises políticas e econômicas, Geisel não apenas seria o
único general-presidente a fazer seu sucessor – depois de vencer a queda de
braço com o general Sílvio Frota, da linha-dura – como conseguiria cumprir a
promessa de concretizar sua “abertura lenta e gradual”. No dia 1º de janeiro de
1979, extinguiu o AI-5. Em 15 de março, João Figueiredo tomou posse como o
quinto general-presidente.
A MORTE DE HERZOG
pesar de toda a crise política provocada pelo “Pacote de Abril”, o momento
de maior tensão vivido pelo governo Geisel – e, por extensão por toda a
nação –, deu-se em 26 de outubro de 1975. Um dia antes, o jornalista Vladimir
Herzog, chefe do Departamento de Jornalismo da TV Cultura – SP, uma


emissora estatal, e editor de cultura da revista Visão, fora preso e levado para o
DOI-CODI paulista. Herzog era simpatizante do PCB, mas nunca se envolvera
em ações armadas. Após o que se supõe ter sido uma brutal sessão de tortura, o
jornalista morreu nas mãos de seus algozes. Então, montou-se uma farsa trágica
e sórdida numa das celas do DOI-CODI: o corpo de Herzog foi colocado numa
posição absurda, e fontes do 2º Exército anunciaram que ele se enforcara com o
cinto de seu macacão.
Herzog havia assumido cargo de chefia na TV Cultura por indicação do
secretário de Tecnologia e Cultura do Estado de São Paulo, com a aprovação do
governador Paulo Egydio. Sua morte causou profunda comoção em São Paulo e
em todo o país. O velório foi proibido e o enterro realizado sob vigilância
militar. No dia 31 de outubro, porém, cerca de oito mil pessoas se reuniram na
catedral da Sé – SP, para assistir ao culto ecumênico celebrado pelo cardeal D.
Paulo Evaristo Arns, os rabinos Henry Sobel e Marcelo Rittner e o reverendo
Jaime Wright. Além de se tornar a primeira manifestação de peso contra a
ditadura desde 1968, foi também um dos instantes mais tensos da história
recente do Brasil – e um episódio que obviamente repercutiu em Brasília.
De acordo com o depoimento do general Hugo Abreu, logo após a morte de
Herzog, Geisel foi a São Paulo e se encontrou com o general Ednardo D’Ávila
Mello, chefe do 2º Exército. “O presidente então avisou-o, de forma clara, que
não seria tolerada mais nenhuma morte naquelas circunstâncias”, revelou Abreu.
Já o general Golbery do Couto e Silva achou prudente avisar alguns jornalistas
de que o governo, de certa forma, perdera o controle sobre São Paulo.
O choque entre Geisel e a linha-dura após a morte de Herzog e do operário
Manoel Fiel Filho foi apenas o primeiro assalto no confronto entre o governo e a
linha-dura. O último e decisivo embate se deu quase dois anos após a morte de
Vladimir Herzog. No início do segundo semestre de 1977, apesar de Geisel ter
deixado claro que não abriria mão de chefiar o processo sucessório, o general
Sílvio Frota não só estava articulando o lançamento de sua candidatura como já
contava com o apoio de um bloco parlamentar (do qual faziam parte até
membros do MDB).


OUTRO “SUICIDADO”

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