Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
No dia 25 de março de 1964, membros da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais se reuniram
no Rio de Janeiro para reivindicar melhores salários e elegibilidade. A entidade, liderada pelo cabo
Anselmo dos Santos, não era reconhecida pela Marinha. Na presença de João Cândido, líder da
Revolta da Chibata, de 1910, o grupo assistiu ao filme O couraçado Potemkin, sobre a revolta dos
marinheiros russos em 1905. O prédio foi cercado pela Polícia do Exército e os marinheiros presos.
No dia 27, quando Goulart soltou e anistiou os rebeldes, a Marinha decidiu aderir ao golpe. Em 1972,
ficou comprovado que o cabo Anselmo era agente policial infiltrado.
O presidente assegurou, porém, que aqueles eram apenas os primeiros passos
rumo às reformas bancária e urbana, que tanto apavorava os proprietários de
imóveis. Aclamado, Jango, ao lado da mulher, Maria Teresa, encerrou seu
discurso conclamando a multidão a “ajudar o governo a fiscalizar os
exploradores do povo”.
Transmitido pela TV para todo o Brasil, o pronunciamento de Jango teve um
efeito ainda mais explosivo do que o discurso que, dez anos antes, Vargas fizera,
em 1º de maio de 1954, afirmando que, em breve, os trabalhadores estariam no
poder. O caudilhismo de Vargas, que, em algum momento da história entre sua
deposição em 1945 e seu retorno em 1951, tornara-se um populismo reformista,
voltava a reencarnar na figura de um estancieiro de São Borja – RS e a
assombrar as forças conservadoras da nação. E elas não tardariam a reagir: seis


S
dias após o Comício das Reformas, a Marcha da Família com Deus pela
Liberdade saía às ruas em São Paulo, clamando “contra o perigo do comunismo”
e emitindo sinais de que o golpe era iminente.
Ainda assim, o alerta parece não ter sido suficiente para refrear o ímpeto do
presidente. Depois de desafiar abertamente o comando militar ao anistiar, em 27
de março de 1964, os participantes da Revolta dos Marinheiros (box à esquerda),
Jango decidiu – apesar dos conselhos contrários – discursar numa assembleia de
sargentos, no Automóvel Clube do Brasil, no dia 30. O movimento lutava pela
elegibilidade dos sargentos. Ao contrário do tenentismo – um dos pilares da
Revolução de 30 –, a reivindicação dos sargentos era vista como uma quebra da
hierarquia militar (já que dava igualdade política a não oficiais).
Que outro argumento a direita ainda necessitaria? Reforma agrária no campo,
imóveis desapropriados na cidade, empresas estrangeiras nacionalizadas,
reformas bancárias em andamento, ligas camponesas no sertão, voto para os
analfabetos e elegibilidade para os sargentos, o que viria a seguir? –
perguntavam-se os empresários, a classe média, o clero conservador e os
militares de linha-dura. Enquanto João Goulart discursava entusiasticamente
para os sargentos, o golpe dos generais e dos coronéis já estava em andamento
em quartéis de todo o país.
A MARCHA DA FAMÍLIA
e o Comício das Reformas fora uma poderosa manifestação de força do
movimento sindical, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade foi um
sinal ainda mais impressionante de que a classe média e as “forças reacionárias”
estavam unidas, temerosas e, acima de tudo, prontas para a ação. A Marcha da
Família começou a nascer depois que Jango dissera, no comício do dia 13 de
março, que “os rosários da fé” não podiam “ser levantados contra o povo”. O
presidente se referia ao episódio no qual um grupo de mulheres com rosários nas
mãos impedira Brizola de discursar em Belo Horizonte, no início de março.
Organizada pela União Cívica Feminina e pela Campanha da Mulher pela
Democracia, com o apoio do deputado conservador Cunha Bueno e do governo
de São Paulo, a Marcha da Família reuniu em torno de 500 mil pessoas, no dia
19 de março. A manifestação saiu da praça da República e, duas horas depois,


chegou à praça da Sé, onde foi rezada uma missa “pela salvação da democracia”.
O padre norte-americano Patrick Peyton – braço religioso da conspiração dos
Estados Unidos contra o governo Goulart e articulador da campanha “Família
que reza unida permanece unida” – também participou da marcha. Após o golpe,
o deputado Cunha Bueno diria: “Sabíamos que os militares só definiriam sua
posição depois que houvesse uma manifestação pública e inequívoca de que
ninguém mais suportava aquela situação.” A Marcha da Família foi o aval civil
para o golpe militar.
As duas principais articuladoras da Marcha da Família, a União Cívica
Feminina (UCF) e, principalmente, a Campanha da Mulher pela Democracia
(Camde), eram patrocinadas pelo Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais. O
Ipes, fundado por empresários paulistas e cariocas em novembro de 1961 – logo
após a posse de Jango, portanto –, era uma entidade civil que acabaria sendo
dirigida por um militar. Com a chegada de Jango ao poder, em setembro de
1961, o general Golbery do Couto e Silva pedira sua passagem para a reserva.
Foi, então, promovido à chefia do instituto, cujo objetivo primordial era a
derrubada de Jango.
O Ipes, que investira cerca de US$ 500 mil em dois anos (obtidos com a
colaboração de quase trezentas empresas norte-americanas), ocupava treze salas
no 27º andar do edifício Avenida Central, no Rio de Janeiro. A partir dali,
Golbery fora capaz de grampear cerca de três mil telefones de colaboradores ou
simpatizantes do presidente João Goulart. O general também fez a ponte entre o
Ipes e a Escola Superior de Guerra, então chamada de “Sorbonne brasileira”, na
qual surgira a doutrina “desenvolvimento e segurança”: uma visão em tudo
similar à do Ipes, favorável à concentração de renda e ao arrocho salarial como
forma de expansão capitalista. Apesar de preferir conspirar nas sombras – ao
estilo do próprio Golbery –, o Ipes mostrou sua força durante a Marcha da
Família, embora, para fazê-lo, usasse não os seus empresários, mas esposas deles
e as empregadas domésticas delas.
COM DEUS, PELA LIBERDADE
Cerca de meio milhão de pessoas saíram às ruas em 19 de março de 1964, em São Paulo, para, ao fim e ao
cabo, clamar pela derrubada do governo constitucional de Jango. Uma das faixas dizia: “Nossa Senhora
Aparecida, iluminai os reacionários.” Embora a Marcha da Família com Deus pela Liberdade fosse o sinal
definitivo de que grande parte das classes média e alta do Brasil – representadas pela burguesia paulista –


A
era francamente favorável ao golpe, as grandes manifestações públicas seriam virtualmente banidas depois
que os militares tomaram o poder. Não antes, porém, de o Rio de Janeiro “ecoar” a marcha paulista: no
dia 2 de abril de 1964, com a vitória dos militares já assegurada, cerca de 1 milhão de pessoas saiu às ruas
para saudar o novo regime. Foi a ruidosa “Marcha da Vitória”, da qual participaram Carlos Lacerda e
Magalhães Pinto. Essa foi uma das últimas vezes em que as pessoas puderam sair livremente às ruas. As
manifestações que vieram a seguir – todas contrárias ao novo governo, é claro – foram duramente
reprimidas. Ainda assim, duas saíram às ruas – ambas em 1968, o mais rebelde dos anos. Em 29 de março,
50 mil pessoas acompanharam o enterro do estudante Édson Luís, morto pela polícia, no Rio de Janeiro.
Em 26 de junho, ainda em consequência da morte do estudante, houve a Passeata dos Cem Mil, no Rio.
Mas, ao contrário do governo Goulart, o regime já havia se solidificado o suficiente para não ser
derrubado por uma passeata.
OS CONSPIRADORES CIVIS
pesar de vários segmentos da sociedade civil – dos quais faziam parte
empresários do Rio de Janeiro e São Paulo, uma boa parcela das classes
médias urbanas e a maioria do patronato rural – estarem dispostos a apoiar um
complô para derrubar o governo constitucional de Jango, foi o governador de
Minas Gerais, Magalhães Pinto, quem se escalou para “assumir a liderança civil
do movimento anti-Goulart”. No dia seguinte à Revolta dos Marinheiros, três
representantes do governador mineiro procuraram o general Humberto Castelo
Branco – cientes de que ele era “o coordenador-geral dos grupos militares da
conspiração” – para comunicar a decisão de Magalhães Pinto.
Nascido em 1909, Magalhães fora um dos signatários do Manifesto dos
Mineiros, que ajudara a derrubar Vargas em 1945, e um dos fundadores da UDN.
Já como banqueiro (era dono do Banco Nacional criado em 1944) e governador
de Minas Gerais (eleito em 1960), lutou contra a posse de Jango em 1961 e, a
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