Brasil, uma história



Baixar 2.26 Mb.
Pdf preview
Página143/193
Encontro22.07.2022
Tamanho2.26 Mb.
#24335
1   ...   139   140   141   142   143   144   145   146   ...   193
Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
Após o golpe militar de 31 de março de 1964 – que, de certa forma, suas próprias pressões sobre o governo
Jango tinham ajudado a precipitar –, Brizola se tornou o inimigo público número um do novo regime.
Depois que Jango chegou a Porto Alegre, no dia 2 de abril, Brizola ainda tentou organizar a resistência ao
golpe. Mas o Exército aderiu ao novo regime e, enquanto Jango partia para o Uruguai, Brizola passou dois
meses escondido em fazendas da fronteira, exilando-se no Uruguai até o fim de maio. Durante dois anos,
conspirou contra militares, apesar de viver sob vigilância de policiais uruguaios, no balneário de
Atlântida. Em setembro de 1977, Brizola foi expulso pelo governo do Uruguai, sob alegação de violar as
normas de asilo. Surpreendentemente, mudou-se para Nova York, amparado pela política de direitos
humanos do então presidente Jimmy Carter, que retirou o apoio que os Estados Unidos davam às ditaduras
militares do Cone Sul. Em janeiro de 1978, Brizola transferiu-se para Lisboa, onde o socialista Mário
Soares chegara ao poder depois da queda da ditadura salazarista. De Lisboa, coordenou o ressurgimento
do PTB no retorno do Brasil ao pluripartidarismo. Perdeu a sigla para Ivete Vargas e fundou o Partido
Democrático Trabalhista (PDT). Acusado de “divisionista” pela oposição do regime militar, Brizola voltou
ao Brasil, em 6 de setembro de 1979, visitando túmulos de Jango e de Vargas em São Borja. Em novembro
de 1982, foi eleito governador do Rio de Janeiro pelo PDT, fazendo uma gestão polêmica e contestada.
Concorreu à Presidência em 1989, mas não chegou ao segundo turno, disputado por Fernando Collor e
Lula. Voltou a concorrer em 1994, mas, desgastado, ficou num constrangedor quinto lugar, com dois
milhões de votos. Morreu em junho de 2004, aos 82 anos.


E
Capítulo
32
O GOLPE DE 1964
ra um golpe há muito premeditado. Os tambores da conspiração já haviam
rufado, ruidosos, em 1954. O tiro que rebentou o coração de Vargas os
abafou. Os rumores da intriga voltariam a ecoar em 1955 e em 1961. Mas
só uma década após o suicídio do homem que vislumbrava o populismo como o
caminho para a reforma social no Brasil é que seus inimigos enfim conseguiram
tomar o poder, derrubando João Goulart e Leonel Brizola – herdeiros à esquerda
de Vargas. O motivo “oficial” para o desfecho do golpe de 1964 foi o “espectro
do comunismo”. Nas Forças Armadas, esse era um sentimento genuíno. Mas não
foi apenas ele – alimentado pelos delírios estatizantes do governo Goulart – que
moveu golpistas militares e civis.
O que se travou no Brasil, da posse (em setembro de 1961) à queda (em abril
de 1964) de Goulart, foi o choque entre duas visões conflitantes da política e,
especialmente, da economia. Em vez das “reformas de base” propostas por
Jango, o binômio “segurança e desenvolvimento”, sugerido pelos teóricos da
Escola Superior de Guerra (ESG). Em lugar da “república sindicalista”, a
concentração de renda, o arrocho salarial e o alinhamento subserviente ao grande
capital internacional. No confronto entre dois modelos desenvolvimentistas
distintos, venceu a “modernização conservadora” proposta pela ESG, com o
apoio dos Estados Unidos. Para concretizá-la, foi preciso romper o jogo
democrático e promover o fechamento político – e assim se fez. Chamado de
“revolução” durante anos – e festejado como tal nos quartéis, até 1997 –, o
movimento político-militar deflagrado em 31 de março de 1964 foi, na verdade,
um golpe de Estado. Mas não apenas um golpe militar, como em geral se supõe:
a sociedade civil e o Congresso tiveram participação decisiva nele.
A conspiração de 1964, que teve apoio financeiro, logístico e militar dos
Estados Unidos, nasceu como um movimento político-militar cujo objetivo
inicial (e supostamente o único) era derrubar o governo Goulart e, no âmbito


A
interno do Exército, restabelecer a hierarquia “vertical”, abalada pelo
provocativo apoio que o presidente dava à luta emancipatória dos marinheiros e
sargentos, que queriam obter o direito de candidatar-se a cargos públicos. Em
tese, a Constituição, as eleições e a “normalidade democrática” seriam
preservadas. Militarmente, o movimento de março de 64 foi – como já o fora a
própria proclamação da República – pouco mais do que um desfile de tropas
rebeldes que partiram de Minas Gerais até o Rio de Janeiro, sendo saudadas
pelas classes média e alta.
No dia 27 de outubro de 1965, porém, o primeiro general-presidente,
Humberto Castelo Branco – coordenador da ação militar que depôs Jango –,
baixou o ato institucional nº 2 (AI-2), suspendendo a Constituição e
mergulhando o país numa genuína ditadura militar. Dois dias antes, os principais
golpistas civis, os governadores Carlos Lacerda – RJ e Magalhães Pinto – MG,
tinham rompido com Castelo. O regime de exceção perduraria por 20 anos, e só
dali a 21 anos um civil voltaria à Presidência. Embora firmemente estabelecidos
no poder, os militares não estavam unidos. Em fins de abril de 1964, ao visitar
Porto Alegre – de onde Jango e Brizola haviam partido para o exílio no Uruguai
–, Castelo Branco estava dividido entre a “linha-dura”, cujo porta-voz, naquele
instante, era o general Costa e Silva, e o “grupo da Sorbonne”, vindo da ESG, do
qual fazia parte o general Orlando Geisel. O AI-2 e a posse de Costa e Silva dali
a três anos revelariam para que lado Castelo se inclinaria.
A RUIDOSA AGONIA DE JANGO
pós o fracasso do Plano Trienal e convencido de que suas “reformas de
base” não seriam aprovadas, João Goulart programou um comício monstro
no Rio de Janeiro, disposto a pressionar o Congresso a mudar alguns artigos da
Constituição, concedendo ao presidente poderes para executar seus projetos.
Alguns deles, como a Lei de Remessa de Lucros e o congelamento dos aluguéis,
já tinham sido aprovados. Mas, pressionado pela esquerda sindical, Jango
iniciara a luta pela reforma agrária, pela concessão do voto aos analfabetos e
pela elegibilidade dos sargentos. Planejado desde janeiro de 1964, o Comício da
Central do Brasil – ou Comício das Reformas, como ficou conhecido – foi
marcado para uma sexta-feira, 13 de março, dois dias antes do reinício das


atividades do Congresso.
Organizada pelas maiores centrais sindicais do país, a manifestação reuniu
cerca de 200 mil pessoas na praça da República, no Rio. Ladeado pelos
governadores Brizola – RS e Miguel Arraes – PE, Jango – que perdera o apoio
do PSD e sabia que a direita tramava para derrubá-lo – deu, naquele instante, a
guinada à esquerda que, de certa forma, ele próprio temia e até então evitara.
Entre milhares de bandeiras vermelhas, cartazes pedindo a legalização do PC e
urras de “Reformas já”, Jango anunciou a assinatura de mais dois decretos. O
primeiro, quase simbólico, encampava refinarias de petróleo “particulares” que
ainda não pertenciam à Petrobras; o segundo, o da Superintendência da Reforma
Agrária (Supra), desapropriava terras improdutivas localizadas à beira de
estradas e ferrovias.
OS MARINHEIROS

Baixar 2.26 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   139   140   141   142   143   144   145   146   ...   193




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal