Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
Em 30 de junho de 1961, a revista Time dedicou sua capa a Jânio (e contratou Portinari para retratá-lo). O
texto dizia: “Saindo não se sabe de onde para liderar a maior votação popular da história, Jânio Quadros
aparece ao mundo como a própria imagem do Brasil – temperamental, brilhando com independência,
ambicioso, assombrado com a pobreza, lutando para aprender, ávido de grandeza”. Já a revista France
Soir foi mais irônica e o comparou a “Marx – não Karl, mas Harpo.” Ao mesmo tempo, no Brasil, aliados
e inimigos esforçavam-se para definir o “enigma político” que comandava a nação. Para o udenista Mário
Martins, cinco personagens históricos pareciam ter influenciado Jânio: Cristo, Shakespeare, Lincoln, Lênin
e Chaplin. “O problema é que nunca se sabe quando ele imita esse ou aquele (…) Às vezes procuramos
Cristo e damos de cara com Lênin!” Para Lacerda – que durante a campanha dissera que Jânio tinha
“cheiro de povo” –, o presidente era “o mais mutável, o mais desequilibrado, o mais pérfido de todos os
homens públicos que apareceram no Brasil”. A melhor definição, porém, parece ter sido a de Afonso
Arinos. Para o ministro das Relações Exteriores de Jânio, ele era “a UDN de porre”.
Apoiada em quase 6 milhões de votos, a vitória de Jânio só não foi total
porque, graças à desvinculação dos votos, João Goulart, que fizera chapa com
Lott, elegeu-se vice-presidente. Articulada à revelia de seus dois integrantes, a
dobradinha Jan-Jan tinha tudo para dar errado.
Em sua campanha, Jânio usara como símbolo uma vassoura e o jingle “Varre,
varre vassourinha/ Varre, varre a bandalheira/ O povo já está cansado/ De viver
dessa maneira”. Uma vez no poder, o novo presidente revelou-se tão histriônico
quanto se poderia supor. Enviava centenas de “bilhetinhos” (mais de 2 mil em
206 dias de trabalho) a ministros e assessores. Ele também proibiu a propaganda
em cinemas, regulamentou os horários e as normas do jogo de cartas em clubes e
a participação de crianças em programas de TV e de rádio, entre outras medidas.
Mas Jânio governava sem base política: o PTB e o PSD dominavam o
Congresso, Lacerda passara para a oposição, Jânio não consultava a UDN, e o
país estava endividado. Em 24 de agosto de 1961, Lacerda fez um discurso no
rádio denunciando uma suposta tentativa de golpe articulada por Jânio. No dia
seguinte, após quase sete meses no governo, o primeiro presidente a tomar posse
em Brasília estarrecia a nação ao anunciar sua renúncia. Embora se referisse a


C
“forças terríveis”, Jânio nunca explicou detalhadamente o episódio. Pouco antes
de morrer, em fevereiro de 1992, ele admitiria que a renúncia era apenas um
blefe: ele achava que sua saída do poder não seria aceita pela sociedade nem
pelos militares – já que ela implicaria a posse do vice, João Goulart. Mas o tiro
de Jânio saiu pela culatra e resultou em desastre.
O GOVERNO GOULART
omo se não bastassem as acusações que militares e udenistas lhe faziam
havia anos, no momento em que Jânio Quadros renunciou, o então vice-
presidente João Goulart estava na China comunista. Embora se tratasse de uma
visita oficial, eram tempos de Guerra Fria e Jango sempre fora visto como o
“líder da república sindicalista”, um comunista travestido de democrata. O
próprio Jânio parecia compartilhar dessa opinião e tentou o blefe da renúncia por
achar que nem os militares nem o Congresso entregariam o país “a um louco que
iria incendiá-lo”. Porém, não havia ninguém ao lado de Jânio Quadros e sua
encenação falhou. Isso estava longe de significar que os ministros, militares e os
conservadores estivessem dispostos a deixar o mais destacado político do fim da
era Vargas tomar o poder. Mas, além de o Congresso se negar a vetar a posse de
Jango, o general Augusto Lopes, chefe do 3º Exército (com sede no Rio Grande
do Sul), instigado pelo então governador Leonel Brizola, declarou-se disposto a
pegar em armas para garantir o cumprimento da Constituição.
A crise foi contornada com a criação de uma comissão no Congresso que
propôs a diminuição dos poderes do novo presidente e a adoção de um regime
parlamentarista. Assim sendo, depois de tortuosa viagem de volta, Jango chegou
ao Brasil em 31 de agosto de 1961 e, no aniversário da Independência, tomou
posse em Brasília. A situação estava parcialmente resolvida. Tancredo Neves foi
nomeado primeiro-ministro do novo regime.
Em julho de 1962, Tancredo renunciou e houve nova crise quando Jango quis
nomear San Tiago Dantas (favorável ao afastamento dos Estados Unidos e à
aliança com nações socialistas). No final, o gaúcho Brochado da Rocha, do PSD,
assumiu o cargo. Em janeiro de 1963, um plebiscito deu ampla vitória ao
presidencialismo (9 milhões de votos) sobre o parlamentarismo (2 milhões). Só
então João Goulart virou presidente de verdade.


N
O fato de se tornar presidente com seus plenos poderes restaurados não
trouxe tranquilidade para Jango. Ele assumia o comando de um país cada vez
mais polarizado, volátil e inquieto. Constantemente fustigado pela esquerda (que
queria reformas imediatas) e pela direita (que temia qualquer avanço social),
Jango foi pego entre dois fogos. De um lado, Leonel Brizola, Miguel Arraes e
Francisco Julião. De outro, Carlos Lacerda e os generais Olímpio Mourão e
Costa e Silva. Após quase 20 anos de democracia, a sociedade civil estava
dividida, mas organizada: se os trabalhadores tinham o CGT (Comando Geral
dos Trabalhadores), os empresários criaram o Ipes (Instituto de Pesquisas e
Estudos Sociais), um dos núcleos civis do golpe de 1964. Se os estudantes da
esquerda se aglutinavam na UNE (União Nacional dos Estudantes), seus
adversários fundaram o hidrófobo MAC (Movimento Anticomunista). Havia as
“revolucionárias” Ligas Camponesas, mas havia também o ultraconservador
Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática). Se a esquerda cristã tinha a
Ação Popular, as mulheres católicas formaram a UCF (União Cívica Feminina),
organizadora da Marcha da Família, em março de 1964. Pelos primeiros, Jango
era visto como “frouxo”; pelos outros, como um “incendiário”.
De janeiro a julho de 1963, sob o comando do ministro Celso Furtado,
Goulart pôs em prática o Plano Trienal, baseado em “reformas de base”. O
Congresso recusou-se a cooperar com o projeto. Greves estouravam pelo país.
Jango – que, embora fosse um estancieiro nascido em São Borja, não era o típico
caudilho gaúcho – sentiu-se forçado a dar uma guinada à esquerda. Para
pressionar o Congresso a aprovar as reformas, decidiu realizar um comício-
monstro, no Rio de Janeiro, em 13 de março de 1964. Ao fazê-lo, decretou o
começo do fim de seu governo.
LEONEL BRIZOLA
o dia 31 de agosto de 1961, João Goulart chegou a Porto Alegre, vindo da
China (via Paris-Nova York-Montevidéu). Foi aclamado na “capital da
legalidade”. O Rio Grande do Sul, governado por seu cunhado, Leonel Brizola,
liderava o movimento favorável à posse do vice-presidente. Desde a renúncia de
Jânio, Brizola ocupara militarmente as principais rádios da cidade, organizando a
chamada “rede da legalidade”, com mais de cem estações. Apesar de o ministro


da Guerra, Odílio Denys, ter determinado que o comandante do 3º Exército
enfrentasse Brizola (dando ordens para bombardear o palácio e, se preciso,
assassinar o governador), o general Machado Lopes ficou a favor da
Constituição.
Graças a essas movimentações, Jango pôde tomar posse no dia 7 de
setembro. Brizola – que cercara o palácio Piratini com barricadas e armara a
população – foi um dos maiores responsáveis pela solução constitucional e um
dos principais adversários da “saída” parlamentarista. Após o retorno do
presidencialismo, porém, o mesmo Brizola se tornaria um dos maiores agentes
da desestabilização do governo Goulart, por causa de suas pregações exaltadas e
medidas “anti-imperialistas”, que incluíram a nacionalização das companhias
telefônica e eletricitária do Rio Grande do Sul (ambas norte-americanas). Em
1964, o radicalismo de Brizola teria o efeito inverso do que tivera em 1961.
Filho de pequenos lavradores, Leonel Brizola nasceu no planalto do Rio
Grande do Sul em janeiro de 1922. Seu pai, que apoiava as forças federalistas de
Assis Brasil, foi tirado de casa e morto pelos republicanos de Borges de
Medeiros, na Revolução de 1923. Brizola mudou-se para Porto Alegre em 1936.
Em 1939, empregou-se como graxeiro numa refinaria de Gravataí. No ano de
1945, quando conseguiu entrar para a Escola de Engenharia, filiou-se ao PTB.
Dois anos depois elegeu-se deputado. Casou-se com Neuza Goulart, irmã de
Jango, em 1950, e Getúlio Vargas foi seu padrinho de casamento. Ainda em
1950, Brizola seria um dos principais articuladores da candidatura de Vargas à
Presidência. Eleito deputado federal em 1954, virou o maior opositor de
Lacerda, após o suicídio de Vargas. Eleito prefeito de Porto Alegre em 1955,
derrotando a coligação PSD, PL e UDN, sua administração o qualificou a eleger-
se governador do Rio Grande do Sul em 1958. Brizola então construiu mais de 6
mil escolas e contratou 40 mil professores, além de nacionalizar duas grandes
empresas norte-americanas – ligadas às multinacionais Bond and Share e ITT –,
provocando uma crise entre o Brasil e os Estados Unidos que explodiria na
Presidência de Jango. Em outubro de 1962, ao receber quase 300 mil votos,
Brizola se tornou o deputado federal mais votado do Brasil. Um ano e meio
depois, seria forçado a se exilar no Uruguai.
O ENGENHEIRO LEONEL



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