Brasil, uma história


partido legalista – começou a propor abertamente a mudança das regras do jogo



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história

partido legalista – começou a propor abertamente a mudança das regras do jogo
eleitoral: só poderia assumir o candidato que tivesse recebido a metade dos votos
mais um. Era um evidente artifício para impedir a posse de JK.
De acordo com o governador do Rio Grande do Sul, Ildo Meneghetti, a UDN
não tinha nada contra JK: “Nosso problema é o Jango.” Desde os tempos em que
era ministro de Vargas, Jango era visto como “incitador de greves e articulador
da república sindicalista”. Em setembro de 1955, o jornalista Carlos Lacerda já
tentara envolvê-lo em um episódio de cartas falsas (similar ao que abalara Artur
Bernardes, em 1922). Em 1º de novembro de 1955, no enterro do presidente do
Clube Militar, o coronel Bizarria Mamede atacou a “mentira democrática” e
disse que “a vitória da minoria” estabelecia uma “pseudolegalidade imoral e
corrompida”. O general Henrique Teixeira Lott, ministro da Guerra do governo
Café Filho – um militar legalista que já anunciara que o Exército seria “a espada
neutra” no processo sucessório –, pretendia punir Mamede. Como diretor da
Escola Superior de Guerra, porém, o coronel Mamede estava submetido
diretamente ao presidente.
Em 5 de novembro, Café Filho teve um ataque cardíaco – ou fingiu que
tivera, de acordo com JK. O presidente da Câmara, deputado Carlos Luz, tomou
posse provisoriamente – e se recusou a punir o coronel. Em 11 de novembro,
depois de se demitir do Ministério, o general Lott colocou as tropas na rua e
destituiu Carlos Luz, dando o chamado “golpe preventivo”, não para impedir,
mas para garantir a posse de JK. Lacerda ainda tentou articular uma reação, mas
o presidente do Senado, Nereu Ramos, assumiu o governo sob estado de sítio.
No dia 21 de novembro de 1955, dizendo-se recuperado, Café Filho anunciou-se
disposto a retomar a Presidência, mas foi declarado “impedido” pelo Congresso.
Em 31 de janeiro de 1956, JK foi, afinal, empossado.
CAFÉ FILHO NO PODER


Q
Embora tivesse sugerido que ambos renunciassem, assim que Getúlio Vargas se matou, o vice-
presidente Café Filho (à direita) assumiu a chefia da nação. O impacto provocado pelo suicídio de
Vargas impediu que a “República do Galeão” tomasse o poder. A posse de Café Filho foi a solução
constitucional. O potiguar João Café Filho (1899-1970) era um político com um passado de esquerda
que, como bom fisiologista, ligara-se ao populismo ademarista. Fora o próprio Ademar de Barros
quem o indicara para vice de Vargas nas eleições de 1950. Ao ser empossado, Café Filho manteve a
posição que adotara durante a crise que levou Vargas ao suicídio: permaneceu na oposição ao
governo anterior e montou um Ministério no qual o predomínio da UDN era evidente. Ainda assim,
Café Filho se comprometeu a cumprir o calendário eleitoral, mantendo as eleições para a Câmara,
Senado e governos estaduais (marcadas para outubro de 1954) e as eleições presidenciais, previstas
para outubro de 1955. E cumpriu a promessa. Após a eleição de JK, porém, Café Filho teria
participação indireta na tentativa de golpe com a qual a UDN tentou impedir a posse do presidente
eleito.
JK, O PRESIDENTE BOSSA-NOVA
uando, durante a campanha de 1955, um repórter da revista O Cruzeiro lhe
perguntou sobre “o problema do café”, o então candidato à presidência JK
replicou: “Qual deles? O vegetal ou o animal?” Dono de um sorriso luminoso,
Juscelino Kubitschek de Oliveira era bem-humorado, esguio, boa-pinta,
“moderno”. Estava pronto para ser o presidente bossa-nova e comandar um país
que voltava a acreditar em si mesmo. Descendente de checos, nascido em
Diamantina – MG, em setembro de 1902, JK, apesar da infância pobre, se
formou em Medicina em 1927. Foi eleito deputado federal em 1934, prefeito de
Belo Horizonte em 1940 e governador de Minas Gerais em 1950. Em 1955, era o
nome ideal para encabeçar a dobradinha PSD-PTB – articulada por Osvaldo
Aranha e Tancredo Neves no enterro de Vargas.
Uma vez no poder, JK revelou-se dinâmico, empreendedor, competente e
astuto, e seu otimismo contagiou a nação. Apesar de conciliador, JK não fez
concessões à UDN: dos 24 ministros civis, dezesseis eram do PSD e seis do
PTB. O “partido golpista” não recebeu uma única pasta. Ainda assim, os anos JK
seriam marcados pela estabilidade política: a cúpula militar se acalmara; os
golpistas tinham perdido duas paradas altas – a tentativa de derrubar Vargas
acabou se tornando o suicídio de um “mártir” e a tentativa de impedir a posse de
JK esbarrou na “espada neutra” do general Lott. Embora uma pequena rebelião
liderada por dois oficiais da Aeronáutica, deflagrada duas semanas após a posse
do presidente, em fevereiro de 1956, tivesse ocorrido em Jacareacanga, no Pará,


JK teria toda a tranquilidade para governar.
Para executar seu ambicioso Plano de Metas – resumido no slogan “50 anos
em 5” e baseado no binômio “energia e transportes” (leia na p. 380) –, JK,
disposto a derrotar a burocracia, criou órgãos paralelos e horários alternativos de
trabalho. Ao obter recursos que lhe permitissem concretizar seus planos, ele
acabou forjando a expressão “nacional-desenvolvimentismo” – uma astuciosa
política econômica que combinava a ação do Estado com a empresa privada
nacional e o capital estrangeiro. Entre muitas ações que marcaram um surto
desenvolvimentista sem precedentes no país, o governo JK se notabilizou pelo
grande impulso dado à indústria automobilística. Ainda em 1956, o presidente
criou o Grupo Executivo da Indústria Automobilística (Geia). Graças à
incentivos fiscais, empresas automobilísticas multinacionais, como a Ford e a
General Motors (que estavam no Brasil desde 1919 e 1925, respectivamente),
passaram a fabricar utilitários, em 1957, e outras montadoras se instalaram na
região do ABC – SP.
Devido ao interesse primordial dos Estados Unidos no mercado da Europa,
foram justamente empresas europeias as que vieram para o país – entre elas a
Volkswagen, alemã, e a Simca, francesa. Em 1959, foi lançado o primeiro Fusca
montado no Brasil – e JK orgulhosamente desfilou a bordo do automóvel que se
tornaria um dos mais vendidos e amados do país. Também em 59 a Simca lançou
a luxuosa linha Chambord, logo transformada em símbolo de requinte e
eficiência, que seria associada à era JK. Entre 1957 e 1960, foram produzidos
mais de 320 mil veículos, 90% acima do previsto. O Brasil se movia sobre
quatro rodas.
O PREÇO DO PROGRESSO

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