Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
Imprensa, Lacerda desferia os mais violentos ataques a Vargas. A partir de 1953,
Roberto Marinho ofereceu a Lacerda os microfones da rádio Globo e Assis
Chateaubriand o pôs no ar na TV Tupi. Com o apoio da mídia nacional, Lacerda
exigia a renúncia de Vargas e apelava às Forças Armadas para que elas
“restabelecessem a democracia no Brasil”. Nos círculos getulistas, surgiu a
convicção de que era preciso “dar um jeito” em Lacerda. O chefe da guarda
presidencial, Gregório Fortunato – fiel servidor de Getúlio por mais de 30 anos
–, decidiu tramar o assassinato de Lacerda (leia página seguinte). Se a ideia em
si já era desastrada, mais desastrada ainda seria sua execução. Foi um tiro que
saiu pela culatra.


N
TIRO PELA CULATRA
a madrugada de 5 de agosto de 1954, dois pistoleiros tentaram matar Carlos
Lacerda na porta de sua casa, na rua Toneleros, em Copacabana, no Rio de
Janeiro. Os tiros o feriram levemente no pé, mas mataram o major da
Aeronáutica Rubens Vaz – que se oferecera espontaneamente para protegê-lo.
“Este tiro é uma punhalada em minhas costas”, disse Vargas ao saber do
atentado. Desautorizando o então ministro da Justiça, Tancredo Neves, a
Aeronáutica decidiu investigar o crime por conta própria e instaurou um
inquérito que, em 29 horas, conseguiu prender os culpados. Em poucos dias,
ficou claro que Gregório Fortunato, preso no dia 11 de agosto, fora o mandante
do crime. Na Base Aérea do Galeão, Fortunato sofreu todo tipo de pressão para
denunciar um nome que derrubasse Vargas. Naqueles dias de tensão, o país
passou a ser governado pela chamada “República do Galeão”. Muitos
colaboradores de Vargas foram presos e ameaçados de ser jogados de aviões no
mar. Uma década e meia depois, a ameaça se tornaria realidade para os
prisioneiros do regime militar que tomou o poder em 1964.
Em 22 de agosto, os brigadeiros se reuniram no Clube da Aeronáutica para
pedir a renúncia de Vargas. No dia 23, cerca de trinta generais lançaram um
“Manifesto à Nação” que, na verdade, era um ultimato a Getúlio. Um dia antes,
quando o vice-presidente Café Filho sugeriu a Vargas que ambos renunciassem,
o presidente respondeu: “Se tentarem tomar o Catete, terão que passar sobre o
meu cadáver.”
A agonia política do presidente durou 19 dias. Na noite do dia 23, Bejo
Vargas informou ao irmão que fora convocado para depor na “República do
Galeão”. Vargas comentou: “A UDN está preparando um banquete. Na hora em
que sentarem à mesa, eu puxo a toalha.” Na mesma noite, convocou uma reunião
ministerial e declarou: “Só morto saio do Catete”. Às 4 da manhã, dois oficiais
foram ao palácio convocar Bejo para depor. Por volta das 4h30, um tiro ecoou no
Catete. Em breve, ressoaria em toda a nação.


F
Capítulo
31
A ERA JK, JÂNIO E JANGO
oi um tempo em que, para usar a expressão do ensaísta Roberto Schwarz, o
país estava “irreconhecivelmente inteligente”. Havia a bossa nova, o
cinema novo e a Novacap. A política externa era independente – o que,
talvez, quisesse dizer apenas que estava “desvinculada” dos Estados Unidos.
Falava-se cada vez mais em “libertação nacional” e ela estava diretamente ligada
a slogans ultraotimistas, do tipo “50 anos em 5”, “transformações estruturais” e
“reformas de base”. O “nacional-desenvolvimentismo” parecia ser o “caminho
do meio” entre nacionalismo e “entreguismo”, entre economia estatizada e
liberalismo. O latifúndio recuava, e a reforma agrária se punha em movimento.
Árvores caíam, e carros roncavam – e isso era visto como símbolo inequívoco de
progresso. Em 41 meses, uma cidade futurista surgira no meio do nada, e o
presidente era um sujeito jovial e sorridente, alto e boa-pinta: o presidente bossa-
nova.
Após quase duas décadas de democracia, o país se sentia jovem e ousado,
esperançoso e otimista. A instabilidade política e a econômica permaneciam as
mesmas – mas, pelo menos, naqueles anos de ouro, pararam de fazer
“tabelinha”: era uma ou outra; quase nunca as duas ao mesmo tempo. Ainda
assim, o ovo da serpente estava em gestação e, em menos de uma década, a
nação se confrontaria outra vez mais com seus equívocos e descaminhos, com
sua alma dúbia, suas recaídas autoritárias, sua elite irredutível e seu povo
despreparado ou omisso, seus temores e seu desleixo. Mas, dos anos JK ao
turbulento reinado populista de João Goulart, ao Brasil foi permitido sonhar. A
segunda metade dos anos 1950 e a primeira parte da década de 1960 foram
muito mais arejadas e auspiciosas do que os 20 anos que vieram antes e os 20
que viriam depois.
Ainda assim, a posse de JK, em janeiro de 1956, seria um retrato das
atribulações que estavam por vir. Eleito em outubro de 1955, Kubitschek só


E
tomou posse graças a um golpe militar – o único golpe legalista da história
brasileira. Com o novo presidente, assumiu o vice, João Goulart, o Jango – cuja
atuação como ministro de Vargas fora um dos estopins da crise que acabou
desembocando no suicídio de Getúlio. JK conseguiu estabilizar o país
politicamente, mas o entregou endividado ao sucessor Jânio Quadros, que tomou
posse em janeiro de 1961. Jânio – certa vez definido como “marxista da linha
Groucho” – era um político desequilibrado e instável, que governou enviando
“bilhetinhos” a seus assessores, regulamentou o tamanho do maiô das misses,
proibiu corridas de cavalos “em dias úteis” e renunciou abruptamente em agosto
de 1961.
Ocupando outra vez a Vice-Presidência, João Goulart – para horror dos
militares e dos conservadores – tomou posse em setembro. Durante três anos e
meio, governou um país em turbilhão permanente, rachado entre a miragem
utópica e temerária das esquerdas e os receios e rancores hidrófobos da direita de
farda e de paletó. O confronto teria um resultado previsível. Os anos de ouro
desembocaram nos anos de chumbo, e o Brasil “inteligente” seria soterrado em
20 anos de arbítrio.
LOTT E O GOLPE PREVENTIVO
m novembro de 1954, Juscelino Kubitschek, então governador de Minas
Gerais, lançou sua candidatura à Presidência pelo PSD. Em abril do ano
seguinte, o PTB decidiu fazer aliança com o PSD e lançou João Goulart para
vice de Juscelino. Formava-se novamente a dobradinha entre os dois partidos
nascidos à sombra de Vargas – e cuja união, em 1945, dera ampla vitória a Dutra
contra a UDN, que a chamara de “coligação maldita”. Em maio de 1955, depois
de muita hesitação, o general Juarez Távora enfim aceitou o convite feito por
Jânio Quadros para ser o novo candidato militar da UDN. Nas semanas
seguintes, apesar de derrotado pelo próprio Jânio nas eleições para o governo de
São Paulo (em outubro de 1954), Ademar de Barros decidiu concorrer pelo PSP.
Se Vargas estivesse vivo, Ademar seria o candidato oficial à sucessão, mas agora
estava desamparado. O quadro eleitoral se completou com o lançamento da
candidatura do integralista Plínio Salgado. Embora os rumores de um golpe
militar fossem cada vez mais frequentes, as eleições se realizaram no dia 3 de


outubro de 1955.
As urnas deram a vitória a Juscelino por uma margem estreita. JK teve 36%
(3.077.411 votos) contra 30% (ou 2.610.462 votos) de Juarez Távora. Ao obter
26% dos votos, Ademar de Barros teve um papel decisivo na eleição. Plínio
Salgado não passou dos 8%. Derrotada nas urnas, a UDN – supostamente um
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