Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
Como na I Guerra Mundial, o Brasil só entrou no conflito depois de ter seus navios afundados pela
Alemanha. Em 1942, porém, os torpedeamentos foram muito mais violentos: 36 mercantes brasileiros
foram postos a pique, provocando a morte de quase mil pessoas. Apenas entre fevereiro e julho de
1942, foram 14 os navios afundados. Mas só em 15 de agosto deu-se o primeiro ataque em águas


N
territoriais brasileiras: o submarino nazista U-507 afundou o Baapendi, matando seus 270 tripulantes.
Nos dias seguintes, o mesmo submarino pôs a pique outros quatro navios, todos na costa entre Sergipe
e Bahia. Os ataques causaram grande comoção nacional e nem mesmo os simpatizantes do nazismo
que faziam parte do governo conseguiram impedir (como haviam feito antes) inúmeras passeatas
favoráveis à declaração de guerra. No dia 31 de agosto, Vargas rendeu-se à pressão e o Brasil
declarou guerra à Alemanha.
OS PRACINHAS NA EUROPA
em todas as nações aliadas eram favoráveis à presença do Exército
brasileiro nos combates na Europa, uma vez que as tropas do país eram
consideradas despreparadas e mal-equipadas – o que era um fato. O projeto
inicial era enviar os expedicionários brasileiros para combater na África. Em
agosto de 1943, um decreto criara a Força Expedicionária Brasileira (FEB).
Esperava-se que 100 mil brasileiros se alistassem. No início de 1944, porém,
apenas 28 mil soldados estavam prontos para entrar na guerra – muitos deles
negros, havendo até todo um regimento, o Andrade Neves, cujos 300 integrantes
tinham sido recrutados nas favelas. A derrota alemã na África forçaria uma
mudança nos planos dos aliados com relação à FEB, escalada, então, para lutar
na Itália. Na noite de 30 de junho de 1944, numa operação sigilosa, mais de 5
mil soldados brasileiros embarcaram, no Rio de Janeiro, no navio norte-
americano General Mann, com destino ainda desconhecido. Era o primeiro
contingente dos 25.334 homens que, sob o comando do general Mascarenhas de
Moraes se incorporariam ao 4º Corpo do Exército norte-americano, por sua vez
integrante do 15º Grupo de Exércitos Aliados.
Desacostumados com os métodos norte-americanos de comando (já que o
Exército brasileiro seguia a escola francesa), sofrendo com o rigoroso inverno
europeu, recebendo a rala ração C, forçados a se adaptar a “uns troços com
pranchas largas e umas bengalas pontudas” (os esquis), os soldados brasileiros
até que não fizeram feio nos campos de batalha da Itália. Ao longo de 239 dias
de luta (de 6/9/1944 a 2/5/1945), a FEB participou da guerra pela conquista dos
Apeninos, a cadeia montanhosa no norte da Itália, de grande importância
estratégica por dar acesso aos vales dos rios Reno e Pó. A tomada de Monte
Castelo – que fracassara em três ocasiões anteriores – ocorreu em 21 de
fevereiro de 1945, depois de 12 horas de combate. Foi o ponto alto da ação


O
bélica brasileira. Ao todo, o Exército do Brasil teve 465 mortos – 444 soldados,
treze oficiais do Exército e oito oficiais da FAB (Força Aérea Brasileira) – e
1.517 feridos em combate (mais 658 “acidentados”). A FEB capturou mais de 20
mil alemães, 80 canhões e 1.500 viaturas. No dia 18 de julho de 1945, os
primeiros 4.931 pracinhas brasileiros retornaram ao Rio de Janeiro. Ao
desfilarem pela avenida Rio Branco, foram recebidos apoteoticamente. Ao longo
das semanas seguintes, a cerimônia se repetiria para os demais contingentes.
A GUERRA EM CASA
s dois anos durante os quais o Brasil esteve oficialmente em guerra contra a
Alemanha modificaram o cotidiano da nação, como já acontecera em
praticamente todos os países do mundo. Mesmo antes da declaração formal de
guerra, o Brasil já capturava espiões alemães, tivera seus navios afundados e fora
obrigado a racionar alguns produtos. Durante quatro anos, o maior racionamento
seria o da gasolina, e por esse motivo os carros que circulavam no país eram
movidos a gasogênio (aparelho que queimava carvão, produzindo gás
combustível). A partir de agosto de 1942, a população das grandes cidades foi
forçada a fazer blecautes eventuais: todas as luzes deveriam ficar apagadas.
Sirenes soavam preparando os cidadãos para supostos bombardeios. Ao mesmo
tempo, a base norte-americana em Natal e a aliança com os Estados Unidos
davam início ao processo de norte-americanização do país, cujos reflexos são
evidentes até hoje.
A imprensa nacional ficou mais ágil e mais “norte-americana”. Surgiu o
famoso Repórter Esso, noticiário radiofônico cujas transmissões diárias paravam
a nação. A revista O Cruzeiro fez uma cobertura dinâmica da luta na Europa. Um
dos correspondentes de guerra foi Rubem Braga, o maior dos cronistas
brasileiros. Outro grande intelectual que se envolveu no “esforço de guerra” foi
o poeta Guilherme de Almeida, autor da letra da Canção do Expedicionário
(“Por mais terras que eu percorra,/ não permita Deus que eu morra/ sem que
volte para lá;/ sem que leve por divisa/ este “V” que simboliza/ a vitória que
virá”). Nos campos de batalha da Itália lutaram o general Cordeiro de Farias, que
fora um dos tenentes da Coluna Prestes, e o então tenente-coronel Castelo
Branco, chefe da Seção de Planejamento e Operações. Além da FEB, a FAB


Q
(Força Aérea Brasileira) também participou da guerra, realizando 400 missões.
O GOVERNO DO MARECHAL DUTRA
uando os pracinhas retornaram ao Brasil, em julho de 1945, uma
contradição tornou-se evidente para toda a nação: na Europa, o Exército
nacional lutara pela democracia; em casa, o país vivia sob o regime ditatorial.
Um ano e meio antes, a insatisfação de vários segmentos da nação com a
ditadura Vargas já havia ficado clara com o surgimento do chamado “Manifesto
dos Mineiros”. Lançado em 24 de outubro de 1943, no 13º aniversário da
Revolução de 30, o documento clamava: “Queremos liberdade de pensamento,
sobretudo do pensamento político.”
Em 1942, nascera a UNE (União Nacional dos Estudantes), responsável por
passeatas de protesto no país inteiro (sendo uma delas causadora da demissão de
Filinto Müller e de Francisco de Campos). Em janeiro de 1945, o I Congresso
Brasileiro de Escritores, realizado em São Paulo, também exigia a
redemocratização do país. Em 22 de fevereiro daquele ano, o ex-ministro José
Américo, em entrevista ao jornalista Carlos Lacerda, rompeu com a censura,
criticando abertamente o governo. Vargas se viu forçado a baixar a guarda e, no
dia 28 de fevereiro, assinou o Ato Adicional nº 9, fixando o prazo de 90 dias
para a realização de eleições.
Os novos partidos se organizaram rapidamente: em 7 de abril nascia a UDN
(União Democrática Nacional), formada pela antiga oposição liberal, associada a
banqueiros e ao setor privado. A UDN lançou a candidatura do brigadeiro
Eduardo Gomes – um dos líderes do movimento dos 18 do Forte. Em julho de
1945, surgia, dentro da máquina político-administrativa do Estado Novo, o PSD
(Partido Social Democrático), que lançou o general Dutra como candidato.
“DO YOU DO, DUTRA?”

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