Brasil, uma história


partido viesse a se tornar seu diretor, Plínio Salgado (



Baixar 2.26 Mb.
Pdf preview
Página134/193
Encontro22.07.2022
Tamanho2.26 Mb.
#24335
1   ...   130   131   132   133   134   135   136   137   ...   193
Eduardo Bueno - Brasil. Uma história

partido viesse a se tornar seu diretor, Plínio Salgado (caricatura na página
seguinte).
Romancista que participara ativamente da efervescência modernista em 1922
– fundando, junto com Menotti del Picchia, os movimentos Verde-Amarelo e
Anta, na década de 1920 –, o paulista Plínio Salgado (1895-1975) foi o principal
responsável pela sistematização da “Teoria do Estado Integral” e o mentor dos
símbolos, uniformes, hábitos e costumes adotados pelos integralistas, alguns dos
quais beiravam o ridículo. Os integrantes do movimento – 300 mil, segundo seus
porta-vozes, mas, na verdade, não mais de 100 mil – cumprimentavam-se uns
aos outros com a palavra tupi “Anauê!” exclamada a plenos pulmões, seguida de
uma saudação com o braço esticado e a mão espalmada. Seu maior símbolo era a


letra grega sigma, que significa soma. Todos os membros da organização
andavam uniformizados: bonés e camisas verdes, calças azuis, gravatas pretas.
Com sua bandeira azul com um círculo branco no centro, dentro do qual o sigma
se sobrepunha ao mapa do Brasil, os integralistas desfilavam com pompa em
paradas militares pelas ruas do Rio e de São Paulo. Uma de suas maiores
passeatas se deu no dia seguinte à implantação do Estado Novo.
Ideologicamente, o integralismo padecia de profundas contradições. Embora o
movimento fosse “contrário ao capitalismo internacional”, jamais questionava a
propriedade privada dos meios de produção. Apesar de ferrenhamente
nacionalista, baseava sua forma de ação e seus conceitos no fascismo italiano, do
qual era uma cópia escarrada. Misturando autoritarismo, catolicismo e
nacionalismo, o movimento era antissocialista, antissemita e antiliberal.
Portanto, o Estado Novo parecia feito a sua imagem e semelhança. Aliás, o
pretexto para o golpe fora dado por um integralista, o capitão Olímpio Mourão
Filho, que forjou (como, anos mais tarde, ele próprio admitiria) o documento
chamado de “Plano Cohen”.
No entanto, disposto a implantar um regime autoritário menos histriônico que
o integralismo, assim que se viu senhor da situação, Vargas tratou de tramar a
derrubada dos integralistas. Em primeiro lugar, não convidou Plínio Salgado
para ser ministro da Educação, como, segundo Salgado, disse que faria. Depois,
jogou a Ação Integralista na ilegalidade. Injuriados, 2 mil integralistas do
Exército tentaram derrubar Getúlio em março de 1938. O golpe fracassou e,
surpreendentemente, a repressão foi branda. Incentivados pelo que julgaram ser
uma certa fraqueza de Vargas, os fascistas brasileiros lançaram uma nova
intentona em 10 de maio de 1938. Cerca de 80 integralistas atacaram o palácio
Guanabara para tomar o governo. Muitos deles foram mortos (alguns fuzilados
sumariamente), outros 1.500 foram presos (vários deles caindo nas garras de
Filinto Müller) e Plínio Salgado foi enviado para o exílio. Foi o fim do
integralismo no Brasil – embora não o do fascismo nos trópicos.


V
Capítulo
30
O FIM DA ERA VARGAS
inte e quatro de agosto de 1954 há de ter sido o dia mais dramático da
história do Brasil para pelo menos três gerações de brasileiros. Às 4
horas e 30 da manhã, no seu quarto, no palácio do Catete, no Rio de
Janeiro, o presidente Getúlio Vargas se suicidou com um tiro no coração. Ao
fazê-lo, atingiu não apenas a si mesmo, mas a própria nação: o coração de seus
aliados e a mente de seus inimigos. Ao longo de um quarto de século, Vargas
fora o principal personagem do país. Naquele instante, como ele mesmo
profetizara, saía “da vida para entrar na história”.
Que Getúlio seria aquele que se matava, de pijama, com um balaço no peito?
De certa forma, com certeza não era o caudilho revolucionário de 1930, muito
menos o ditador policialesco de 1937. Nem o presidente eleito pelo voto indireto
em 1934 ou o positivista com recaídas nazistas. Quem se matava era o presidente
que voltara ao Catete “nos braços do povo” – o “Pai dos Pobres”, o protetor dos
trabalhadores, o nacionalista fervoroso. Mais do que qualquer personagem
incorporado por Vargas ao longo de 25 anos, morria o mais astuto político
brasileiro de todos os tempos: o homem de conciliação, o ditador disposto a
anistiar seus inimigos, o mais mineiro dos caudilhos gaúchos, risonho e
misterioso “como um mandarim chinês”. O homem que, em tese, era um livro
aberto para seus adversários e um enigma para os amigos mais íntimos. Como se
acompanhasse os meandros da carreira de Vargas, a história do Brasil dera tantos
volteios desde a Revolução de 30 que o homem que se suicidava o fazia para
impedir o avanço dos conservadores.
Era um “libertário” que morria, sacrificando-se em nome do que o país tinha
de melhor. A morte de Vargas abalaria profundamente seus admiradores, mas
causaria estragos muito maiores entre aqueles que conspiravam contra o seu
governo. Os generais Sílvio Frota e Golbery do Couto e Silva, o jornalista Carlos
Lacerda, o ex-integralista Olímpio Mourão: eles e seus aliados teriam de


E
aguardar mais uma década antes de concretizar seu golpe de direita. A reação
popular à imolação do grande líder foi tal que a conspiração em curso teve de ser
suspensa por dez anos.
Numa última, definitiva e dramática vitória contra seus acusadores, Vargas
ofereceu a própria vida em nome de convicções das quais ele talvez abrisse mão
se lhe restasse outro caminho. Mas não lhe sobrava saída, e o mais brilhante
articulador político que o Brasil jamais tivera preferiu recorrer à última
artimanha para assegurar uma vitória incontestável – que teve o cuidado de
deixar minuciosamente explicada numa carta-testamento irretocável e
emocionante. Vivo, Getúlio Vargas comandara por quase 20 anos os destinos do
Brasil. Morto, projetaria sua sombra e sua influência até o alvorecer da sexta
década do século que, no Brasil, foi quase inteiramente dele.
A CULTURA NA ERA VARGAS
m agosto de 1941, Getúlio Vargas, chefe supremo do Estado Novo, foi eleito
para a Academia Brasileira de Letras. Embora, de acordo com o depoimento
do poeta Manuel Bandeira, Vargas, ao participar das reuniões da sociedade, se
comportasse como “um perfeito acadêmico”, a verdade é que a “obra literária”
do ditador se reduzia a algumas dezenas de discursos áridos e eventualmente
sinuosos – a maioria dos quais nem sequer havia sido escrita por ele. De
qualquer maneira, apesar da “obra” insossa e de toda a censura e a perseguição
que impôs a escritores que não se mostravam dispostos a seguir os desmandos de
seu regime de exceção, Vargas veria florescer, ao longo de seu extenso domínio
político, uma nova era para a cultura brasileira (ainda que, muitas vezes, isso se
desse não por causa, mas apesar dele).
O fato é que, após a Revolução de 30, o Brasil passou a refletir sobre si
próprio e seus destinos de uma forma inovadora e surpreendente. Em 1933,
surgiram dois livros-chave para a interpretação do país: Casa-grande & senzala,
de Gilberto Freyre, e Evolução política do Brasil, de Caio Prado Júnior. A eles
se juntaria, em 1936, Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda. Essas três
obras clássicas desvendariam uma nação multicultural e mestiça, litorânea e
predatória, dividida entre a “cordialidade” e a crueza, dominada pelas elites
“vegetais”, adaptada aos hábitos indígenas, construída pelo braço negro e pela


mão operária. Um Brasil épico e trágico.
Já o ano de 1930 fora grandioso para a poesia brasileira: nele, surgiram os
primeiros livros de Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Murilo
Mendes e Augusto Frederico Schmidt. No ano anterior, aparecera Cecília
Meireles e, no seguinte, Raul Bopp. Em 1931, Vargas convidaria Manuel
Bandeira para presidir o Salão Nacional de Belas-Artes. Seria a primeira
aproximação entre o governo e os modernistas – mas estava longe de ser a
última.
Apesar da censura e das perseguições, Vargas, disposto a revelar sua face
conciliadora e paternalista, passou a desenvolver uma política sistemática de
“assimilação da inteligência nacional”, desenvolvida em especial pelo Ministério
da Educação – a princípio sob o comando do jurista Francisco Campos e, depois,
de Gustavo Capanema. Nessa repartição trabalharam Drummond (chefe de
gabinete) e Augusto Meyer (diretor do Instituto Nacional do Livro), enquanto o
Departamento Cultural da Prefeitura de São Paulo era entregue a Mário de
Andrade. Ao mesmo tempo, os arquitetos Lúcio Costa e Oscar Niemeyer eram
contratados para fazer o projeto do novo prédio do Ministério da Educação, cuja
decoração foi entregue aos pintores Portinari, Pancetti e Guignard e ao paisagista
Burle Marx. Com tais atitudes, Vargas lutava para obter, no mundo das artes, a
mesma aceitação – e o mesmo grau de cooptação – que sua política trabalhista,
baseada no paternalismo positivista, estava conseguindo entre os trabalhadores.
Mas sempre houve atrito entre o regime e os artistas “dissidentes”. O caso
mais rumoroso foi o de Graciliano Ramos. Prefeito no interior de Alagoas,
destituído pela Revolução de 30, ele estreou na literatura em 1933 com o
pungente Caetés, logo seguido pelo clássico São Bernardo (1934). Em março de
1936, sob suspeita de ter participado da ANL, Graciliano foi preso pela polícia
de Vargas. Levado para a terrível prisão de Ilha Grande -RJ, ficou lá um ano,
sem acusação formal. Defendido pelo advogado Sobral Pinto, foi solto em 1937.
Um ano depois lançou Vidas secas. A experiência na prisão foi relatada em

Baixar 2.26 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   130   131   132   133   134   135   136   137   ...   193




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal