Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
A ilha do Brasil, ou ilha de São Brandão, ou ainda Brasil de São Brandão, povoava a imaginação e a
cartografia europeias desde o alvorecer do século IX. Segundo a lenda, Hy Brazil era uma das ilhas
“movediças”, “ressoante de sinos sobre o velho mar”, que sumia maliciosamente no horizonte esfumado
sempre que os nautas se aproximavam dela. Foi palco da lenda celta Peregrinatio Sancti Brandani, escrita
em latim no século IX. Brandão, nascido na Irlanda no ano de 460, partira para o oceano, na companhia
de catorze monges, em 565 (aos 105 anos, portanto), para evangelizar terras e povos ignotos. Depois de
inúmeras peripécias que as lendas ecoam, teria chegado a Hy Brazil, onde morreu aos 181 anos de idade.
Desde 1351 até pelo menos 1721, o nome Hy Brazil podia ser visto em mapas e globos. Até 1624,
expedições ainda eram enviadas à sua procura.
OS NOMES DO BRASIL
Pindorama (nome indígena)
Ilha de Vera Cruz (1500)
Terra Nova (1501)
Terra dos Papagaios (1501)
Terra de Vera Cruz (1503)
Terra de Santa Cruz (1503)
Terra de Santa Cruz do Brasil (1505)
Terra do Brasil (1505)
Brasil (a partir de 1527)


E
Capítulo
4
OS PRIMÓRDIOS DA COLÔNIA
m 2 de junho de 1501, durante sua viagem de retorno da Índia, duas naus
da frota de Cabral – velas rotas, madeirame desgastado – chegaram ao
porto de Bezeguiche (hoje Dacar) na costa ocidental da África. Ali,
depararam com três navios da expedição de Gonçalo Coelho, que partira de
Lisboa havia duas semanas para explorar a terra que, um ano antes, aquelas
mesmas naus de Cabral tinham descoberto. Foi um encontro histórico: naquele
dia, depois de uma longa troca de informações, os portugueses concluíram que
as terras recém-achadas não eram uma ilha, mas parte de um novo continente. A
bordo de um dos navios da frota de Coelho estava o florentino Américo
Vespúcio, um dos personagens mais controversos da história dos descobrimentos
– e que acabaria se tornando “padrinho” daquele Novo Mundo.
É provável que Vespúcio já tivesse cruzado o Atlântico anteriormente, em
companhia de Alonso de Hojeda, em 1499, embora ele próprio tenha afirmado,
mais tarde, que havia participado também de uma viagem ao Caribe em 1497,
com o capitão Juan Díaz de Solis. Foi justamente essa primeira viagem – jamais
confirmada – que fez Vespúcio adquirir a fama de charlatão. Nascido em berço
de ouro em Florença, em 1454, numa família bem-relacionada com os poderosos
Médici, Vespúcio mudou-se para a Espanha em 1491. Chegou a ajudar nos
preparativos da terceira viagem de Colombo, em 1498, antes de ele próprio partir
para o mar. Só que, ao contrário de Colombo, teve certeza de que não estava na
Índia, mas em um “novo mundo”.
A descrição detalhista que Vespúcio fez de sua viagem ao Brasil em 1501, na
carta chamada Mundus Novus, tornou-se um dos maiores best-sellers de sua
época. Teve mais de quarenta edições em seis línguas (todas fartamente
ilustradas) e transformou o autor num homem famoso nos círculos cultos da
Europa. Em 1507, quando revia as obras de Ptolomeu e produzia um novo mapa-
múndi, o geógrafo Martin Waldssemüller decidiu, conforme suas próprias


A
palavras, “batizar a quarta parte do mundo com o nome de seu descobridor,
Américo”.
Apesar do equívoco, o nome pegou.
Em 1513, pressionado por espanhóis, o alemão Waldssemüller retirou a
proposta. Mas já era tarde: a descrição que Vespúcio deixou da terra, dos
animais, das plantas e dos índios do Brasil caiu tanto no gosto do público que,
apesar do pioneirismo de Colombo, o Novo Mundo passou a ser definitivamente
chamado de… América.
O RECONHECIMENTO DA NOVA TERRA
s duas viagens ao Brasil realizadas por Américo Vespúcio, ambas
provavelmente comandadas por Gonçalo Coelho (a primeira, de 10 de maio
de 1501 a 7 de setembro de 1502; e a segunda, de 10 de maio de 1503 a 28 de
junho de 1504), foram também as duas primeiras grandes missões de
reconhecimento da terra oficialmente descoberta por Cabral. E, por meio século,
traçaram-lhe um destino inglório: não havia ouro à flor da terra, nem impérios a
ser conquistados na região. A Coroa portuguesa desinteressou-se de colonizar o
Brasil, embora não deixasse de enviar frequentes expedições exploratórias à
nova colônia – especialmente porque, já em 1504, os franceses chegavam à ilha
de Santa Catarina, logo seguidos pelos espanhóis.
Durante a primeira década pós-desembarque de Cabral, o Brasil praticamente
pertenceu ao consórcio formado para explorar o monopólio do pau-brasil, que a
cada ano enviava pelo menos três expedições à colônia. Sabe-se muito sobre
essas viagens graças ao diário de bordo de uma delas, a nau Bretoa, que esteve
no Brasil de 6 de abril a 27 de julho de 1511 e retornou a Portugal com 5.008
toras de pau-brasil, 3 mil peles de onça, seiscentas araras e 35 escravos a bordo.
Na segunda década do século XVI, os franceses também passaram a explorar
o pau-brasil em grande escala ao longo da costa brasileira. Para vigiá-los e puni-
los foram enviadas três grandes expedições guarda-costas, todas chefiadas pelo
inclemente Cristóvão Jaques (em 1516, 1521 e 1527). Na primeira delas, Jaques
provocou um grave incidente diplomático entre Portugal e França ao supliciar e
enterrar vivos vinte traficantes franceses. Ao final dessas expedições, o Brasil
não ficou livre dos franceses, mas seu extenso e esplêndido litoral estava


N
inteiramente cartografado e reconhecido.
A EXPEDIÇÃO DE MARTIM AFONSO
o instante em que a cobiça dos navegadores e traficantes franceses pelo
território brasileiro tornou-se ostensiva, e seu conhecimento do litoral e a
aliança com várias tribos indígenas, evidente, a Coroa portuguesa abandonou a
inércia e decidiu enviar ao Brasil uma poderosa expedição – desta vez, não
apenas uma missão militar, mas também colonizadora. Para comandá-la foi
escolhido o fidalgo Martim Afonso de Souza, de 30 anos, amigo de infância do
rei D. João III que, além de guerreiro, era também homem de letras e da ciência.
A UTOPIA
O sucesso das cartas de Vespúcio foi instantâneo e duradouro. Uma década depois, elas inspiraram o
inglês Thomas Morus a escrever o clássico A utopia. Lançado em 1516, o livro se baseava em
episódios narrados na carta em que Vespúcio descreve sua segunda viagem ao Brasil, em 1503,
quando deixou 24 homens numa feitoria em Cabo Frio. Morus transportou a ação para uma ilha
(talvez Fernando de Noronha) e imaginou que os exilados dariam início a uma sociedade perfeita. Na
vida real, os homens de Vespúcio foram trucidados pelos índios.
A frota com cinco embarcações – um galeão, duas naus e duas caravelas –
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