Brasil, uma história


participaria de uma “revolução burguesa”, cujo único propósito era “substituir



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história

participaria de uma “revolução burguesa”, cujo único propósito era “substituir
uma oligarquia reacionária por outra”. Aranha já havia dado 80 mil dólares para
Prestes – e, ironicamente, seria esse o dinheiro que Prestes levaria para Moscou
e, lá, lhe permitiria “comprar” sua entrada no PC soviético. O mesmo dinheiro
seria usado também para financiar a Intentona Comunista de 1935 – a fracassada
tentativa de Prestes para derrubar Vargas.
Aranha havia combatido os tenentes na insurreição de 1924. Seu
companheiro nessa luta fora Flores da Cunha. Caudilho franco e rude, Flores,


então senador, era o mais radical entusiasta do “golpe já”. Ele apoiou Aranha
quando este, declarando-se “farto” das vacilações de Borges e Vargas, decidiu
abandonar seu cargo no governo do Rio Grande do Sul, em 28 de junho de 1930.
Uma semana depois, no entanto, Aranha seria autorizado a reiniciar os planos
conspiratórios.
Enquanto isso, em Minas Gerais, o presidente Antônio Carlos também ainda
não se decidira a abraçar a revolução. Como logo sairia do governo, resolveu
deixar o ônus da decisão para seu sucessor, Olegário Maciel. Em 6 de setembro
de 1930, quando Antônio Carlos passou a Presidência do estado para Maciel, por
uma dessas coincidências significativas tão frequentes na história, estourava um
golpe na Argentina, também convulsionada pela crise provocada pela quebra da
Bolsa de Nova York. Era o primeiro em 40 anos – e aos analistas políticos não
passou despercebido o fato de que os períodos de estabilidade no Brasil
coincidiam com os do vizinho (fenômeno mais tarde batizado de “efeito Orloff”:
a Argentina era o Brasil no dia seguinte).
Como Aranha e Flores, Olegário Maciel era a favor do golpe. No Nordeste,
em chamas desde o assassinato de João Pessoa, a situação também já era de pré-
insurreição. Lá, os conspiradores sulistas contavam com o apoio de Juarez
Távora, um dos tenentes mais ativos desde 1922, que discordava do manifesto de
Luís Carlos Prestes. Embora em 24 de agosto de 1930 Vargas informasse a
Borges que estava disposto a suspender as atividades conspiratórias, uma semana
depois – aparentemente convencido pelo argumento segundo o qual, em meio ao
caos econômico, a revolução era inevitável –, Borges abandonou a sua posição
“legalista” e deu sinal verde para o golpe. Getúlio, sempre obediente, concordou,
e a trama se iniciou. O dia combinado para o início da revolução foi 3 de
outubro. No Rio Grande do Sul e em Minas Gerais, os governos estaduais
comandariam o golpe. No Nordeste, a responsabilidade seria de Távora.
Ninguém sabia ao certo o que aconteceria no Rio de Janeiro, enquanto a
resistência legalista com certeza se daria em São Paulo e na Bahia. E, de fato,
assim foi. Três semanas depois, a luta já estava ganha.
OS NOVOS DONOS DO PODER: Simpatizantes e aliados de Getúlio Vargas se reúnem em torno do
obelisco da avenida Rio Branco, no centro do Rio de Janeiro.
O TREM DA HISTÓRIA


A
o contrário da proclamação da República, o golpe de 1930 não foi uma mera
passeata militar. Houve luta e resistência – e os combates se prolongaram
por quase um mês. Ainda assim, em termos gerais, a derrubada da chamada
República Velha – embora tenha sido o mais complexo e sangrento golpe a
instaurar um novo governo no Brasil – foi uma operação relativamente rápida,
razoavelmente fácil e tremendamente bem-sucedida para seus articuladores.
Como na proclamação do Império, a antiga ordem caiu como caem as frutas
mais que maduras.
A Revolução de 30 começou às 17h30 de 3 de outubro, horário em que
terminava o expediente dos quartéis – fato que facilitaria a prisão dos oficiais em
casa. O foco rebelde foi Porto Alegre, onde, no início da noite, todos os quartéis
já haviam sido tomados por Aranha e pelo tenente-coronel Góis Monteiro, chefe
militar do golpe (leia página seguinte). Vinte pessoas morreram. Em Minas
Gerais, houve resistência do 12º Regimento e, em Belo Horizonte, os combates
duraram cinco dias – até os soldados legalistas ficarem sem víveres. Na Paraíba,
um erro de comunicação entre os rebeldes fez o movimento começar apenas na
madrugada do dia 4, o que permitiu a articulação das forças do governo. Mas
Juarez Távora logo tomou a Paraíba e, a seguir, a cidade do Recife, onde o povo
saiu às ruas para saudá-lo. Os demais estados nordestinos – menos a Bahia –
aderiram aos golpistas. No dia 5, quando as tropas gaúchas se puseram em
marcha, logo conquistando Santa Catarina e Paraná, apenas São Paulo, Bahia e
Pará se mantinham fiéis ao governo central. No Rio, a situação seguia
indefinida.
As tropas gaúchas, partindo de trem e a cavalo de Porto Alegre, não
conseguiram conquistar Florianópolis (que só se renderia em 24 de outubro),
mas logo tomaram Joinville e, a seguir, Góis Monteiro instalou o quartel-general
dos rebeldes em Ponta Grossa – PR. Para lá – após o embarque apoteótico na
estação ferroviária de Porto Alegre (na página ao lado) – partiu Vargas, no dia
12. A chegada a Ponta Grossa, no dia 17, também se transformou numa
celebração. Mas a revolução ainda não estava ganha: em Itararé – SP, na
fronteira com o Paraná, mais de 6 mil soldados legalistas, comandados por Pais
de Andrade e com o apoio de aviões e quatro canhões, aguardavam a hora do
choque contra os 8 mil rebeldes, que tinham 18 canhões. Andrade, aquartelado
num penhasco à beira de um rio, recebera ordens de “defender a cidade a todo o


N
transe”. Previa-se um terrível combate. No dia 24, porém, ao ser informados de
que Washington Luís fora deposto, no Rio, os legalistas se renderam. Itararé
entraria para a história como “a batalha que não aconteceu”.
Se tivesse ocorrido, a revolução provavelmente seria, ainda assim, vitoriosa –
e o custo da conquista com certeza seria elevado o suficiente para mudar os
rumos da história do Brasil. Informado da deposição do presidente (leia abaixo),
Vargas partiu de Ponta Grossa para São Paulo, onde chegou no dia 29, precedido
por 3 mil soldados gaúchos. Foi aclamado com tal entusiasmo que chegou a se
assustar. Getúlio ficou apenas 24 horas em São Paulo – tempo suficiente para
colocar um interventor no governo do estado, desagradando aos paulistas. Na
madrugada do dia 30, pegou o trem que o levaria ao Rio de Janeiro e ao poder.
A TOMADA DO PODER
o início da noite de 24 de outubro, os generais Tasso Fragoso, Mena Barreto
e o almirante Isaías de Noronha depuseram e prenderam o presidente
Washington Luís. No dia seguinte, essa “junta governativa” assumiu o comando
da nação. A deposição do presidente evitou a batalha de Itararé e deu aos
rebeldes a convicção de que a revolução estava ganha. Antes de se pôr em
movimento, abandonando seu posto temporário no Paraná, Vargas soube, por
comentários e insinuações feitas no Rio de Janeiro pelo general Bertoldo
Klinger, que a junta tinha planos de permanecer no poder. De imediato,
telegrafou para o ministro do Exterior da junta, Mello Franco, alertando-o de que
“os membros da junta serão aceitos como nossos colaboradores, porém não
como dirigentes, uma vez que seus elementos participaram da revolução quando
esta já estava virtualmente vitoriosa”.
A posição de Getúlio foi transmitida à própria junta, e, de forma ainda mais
clara, pelo chefe militar do golpe, coronel Góis Monteiro: “O governo provisório
deverá ter por chefe o Sr. Getúlio Vargas”, dizia o telegrama enviado de São
Paulo, de onde Monteiro comandava cerca de 30 mil homens. Um dia depois,
26, a junta prudentemente anunciou que ficaria no poder apenas até a chegada de
Vargas ao Rio de Janeiro. Na manhã do último dia de outubro de 1930, o trem
que trazia Vargas chegou ao Rio.
De uniforme militar, chapéu de aba larga, lenço vermelho no pescoço – uma


N
reveladora concessão aos “libertadores” (contra os quais ele mesmo lutara na
Revolução de 1923) –, Vargas fez sua entrada apoteótica no Rio de Janeiro. O
povo lotava as ruas à sua passagem. Contudo, mesmo o mais desatento dos
observadores não poderia deixar de notar que o homem que tomava o poder com
o objetivo de incentivar a “unidade nacional” chegava à capital federal envolto
pela mística caudilhista tão típica de seu estado natal. O triunfo desse
regionalismo de influência nitidamente platina ficaria ainda mais evidente no
momento em que os cavalarianos que acompanhavam Getúlio Vargas
desafiadoramente amarraram seus cavalos no obelisco da avenida Rio Branco.
Que tipo de “revolução” Vargas e seus aliados estavam fazendo? No dia 4 de
outubro, ainda no Rio Grande do Sul, Getúlio declarara que o movimento
pretendia “restaurar” a democracia liberal e recuperar a economia. “Estamos ante
uma contrarrevolução para restaurar a pureza do regime republicano”, disse ele,
sem especificar outros objetivos sociais e econômicos além da “reconstrução
nacional”. Sua declaração, publicada no jornal A Federação (fundado pelo
positivista Júlio de Castilhos nos tempos do Império), terminava com o apelo:
“Rio Grande, de pé pelo Brasil! Não poderás faltar ao teu destino histórico.” Que
destino era esse, o Brasil logo saberia.
O GOVERNO PROVISÓRIO
a tarde do dia 3 de novembro de 1930, com o palácio do Catete
completamente lotado, Getúlio Vargas – envergando pela última vez seu
uniforme militar – tomou posse “provisoriamente” no governo federal. O cargo
lhe foi entregue pelo general Tasso Fragoso. Quarenta e um anos antes, Fragoso
tomara parte, como cadete de Benjamin Constant, do golpe que derrubara a
monarquia no Brasil. Por isso, no seu discurso, além de criticar o autoritarismo
do ex-amigo Washington Luís, o general fazia referência aos “heróis de 1889”.
Para Fragoso, foram “o orgulho, a vaidade e a prepotência” do ex-presidente que
“acabaram provocando o movimento revolucionário”. Afinal, “a violação dos
princípios fundamentais do regime republicano e os atentados contra a
liberdade” cometidos por Luís iam “aniquilando a obra meritória levada a cabo
em 15 de novembro de 1889, em torno de Deodoro da Fonseca e Benjamin
Constant, na fundada esperança de proporcionar ao Brasil dias mais felizes”.


Embora a Revolução de 30 não fosse um movimento militar, ficava claro que
os militares positivistas e nacionalistas, ou seja, os jacobinos travestidos de
tenentes, que vinham conspirando desde a queda de Floriano, retomavam o
poder. Getúlio Vargas era seu novo patrono. E o gaúcho tomou posse,
promovendo a anistia dos rebeldes de 1922 e 1924, modificando o sistema
eleitoral e tributário e o Judiciário, incentivando a “policultura” e criando o
Ministério do Trabalho.
Desde as primeiras ações, os revolucionários se preocuparam em definir, para
a nação, o caráter do movimento. O próprio Getúlio o chamara de
“contrarrevolução”. Seus aliados mineiros se apressavam em definir o golpe
como “conservador” e, em fins de outubro, o arcebispo de Porto Alegre
telegrafara ao papa Pio XII assegurando que o movimento não era “de origem
nem de caráter comunista”. Como Luís Carlos Prestes previra, era “uma
revolução burguesa”. Em 11 de novembro, Vargas suspendeu a Constituição e
nomeou interventores em todos os estados, menos Minas Gerais (reforçando seu
conflito com São Paulo). Antes, já nomeara o seu Ministério, do qual faziam
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