Brasil, uma história


particular “e sua única esperança de vingança contra uma sociedade cujas



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história

particular “e sua única esperança de vingança contra uma sociedade cujas
pretensões eurófilas, racismo e preconceitos de classe ele assimilara e sofria
diariamente”, como observou o historiador Jeffrey Needell no livro Belle époque
tropical.
Se Machado de Assis dissecou o Segundo Reinado, Lima Barreto fez a
autópsia da Primeira República. O que provocou o mal-estar de seus
contemporâneos não foi apenas a abordagem cínica, escorada num “texto
amargo, irônico, flexível e cortante como um florete” que Lima Barreto fez dos


F
“temas nacionais”. Num tempo em que o preciosismo gramatical era um bem
sagrado, ele incorporou o linguajar das ruas, a gíria, a “fala carioca” à sua prosa
urbana e ruidosa. Jamais se importou com “os erros de transcendente gramática
dos importantes”. Em livros como Recordações do escrivão Isaías Caminha
(1909), Triste fim de Policarpo Quaresma (1915) e Vida e morte de M. J.
Gonzaga de Sá (1919), ele devastou a “república do Kaphet”, ridicularizando a
burocracia fardada, morna e estúpida que se arrastava por trás dos jacobinos
florianistas; atacou os “escravocratas de quatro costados da administração
republicana, cujo objetivo é enriquecer a antiga nobreza agrícola e conservadora,
por meio de tarifas, auxílios à lavoura, imigração paga etc.”. Transformou o
Brasil em Bruzundanga, o reino dos corruptos, e percebeu que o país era
governado pelo “homem que sabia javanês”. Mas foi como se Lima Barreto
falasse grego: ninguém quis entendê-lo. Por três vezes tentou entrar para a
Academia – por três vezes foi rejeitado. Morreu em 1922 e por pouco não foi
enterrado como indigente.
A Semana de Arte Moderna de São Paulo passou sobre os escombros de seu
anonimato. Nem os rebeldes paulistas tinham sabido reconhecer o talento do
mulato que uma vez gritara: “Qual é a cor da minha forma, do meu sentir? Qual
é a cor da tempestade de dilacerações que me abala? Qual a dos meus sonhos e
gritos? Qual a dos meus desejos e febre?”
OS DOIS ANDRADES
oi o encontro que mudou a cara do Brasil – e o tornou mais esperto, mais
ladino, mais tropical. Menos França e mais Brasil. No dia 21 de novembro
de 1917, o escritor e jornalista Mário de Andrade deu uma conferência no
Conservatório de Arte Dramática, em São Paulo. Finda a palestra, o repórter do
Jornal do Commercio se estapeou com um colega de outra publicação para obter
as laudas originais. No dia seguinte, seu jornal publicou o texto completo. O
repórter do Jornal do Commercio se chamava Oswald de Andrade. Estava
iniciada a amizade que mudaria os rumos da arte no Brasil.
Menos de um mês depois, em 12 de dezembro, os dois novos amigos foram a
uma exposição de pintura. “Os rapazes chegaram numa chuvarada. Começaram
a rir a toda e um deles não parava. Fiquei furiosa e pedi satisfação. Quanto mais


A
eu me zangava, mais o tal não se continha. Afinal, meio que sossegou e, ao sair,
apresentou-se: ‘Sou o poeta Mário Sobral’.” Mário Sobral era o pseudônimo de
Mário de Andrade. Seu companheiro, claro, era Oswald. E a pintora, que
registrou o episódio em seu diário, se chamava Anita Malfatti. Dias depois,
“Sobral” enviava um poema a Anita. Mais tarde, o jornal O Estado de S. Paulo
publicou uma crítica devastadora da exposição, assinada pelo respeitado
Monteiro Lobato. Oswald logo rebateu, com virulência, as opiniões de Lobato –
mas isso não foi suficiente para impedir que vários quadros já vendidos fossem
devolvidos.
Passados alguns meses, os amigos, agora inseparáveis, foram procurar o
escritor Menotti del Picchia – redator-chefe do Correio Paulistano e autor do
livro Juca Mulato – no hotel onde ele vivia, no centro de São Paulo. O trio fez
um pacto para “botar por terra toda a arte passadista e acadêmica”. Mas a turma
ainda não estava completa. No dia 14 de janeiro de 1920, Oswald e o pintor Di
Cavalcanti descobriram que, no porão do inacabado Palácio das Indústrias, em
São Paulo, trabalhava “um escultor, um tipo esquisitão, de pouca prosa, que faz
estátuas enormes e estranhas”. Era Vítor Brecheret. Só então o time – montado
pelos “mariscadores gênios”, os Andrades, Mário e Oswald – ficou pronto para o
jogo decisivo. Em breve, o Brasil ouviria falar deles.
A simbiose entre Mário e Oswald de Andrade (na p. 329, pintados por
Tarsila do Amaral) era de fato espantosa. O primeiro era um intelectual tímido e
comedido, dono de uma erudição sólida e sossegada: um jornalista de classe
média, gênio gentil e generoso. Oswald, milionário excêntrico, boêmio
desregrado e clown, dono de um Cadillac verde (comprado só porque tinha
cinzeiro) e de escandalosas luvas brancas com losangos pretos, era audacioso e
revolto; um iconoclasta desabusado, perspicaz e bárbaro. Mário lia tudo e não
conhecia ninguém. Oswald não lia nada e conhecia todo mundo. Um completava
o outro. Quando se tornaram “Oswaldário dos Andrades”, ou “Marioswald de
Andrade”, o mundo tremeu.
A PRIMEIRA SEMANA DO NOVO BRASIL
sugestão dada por Di Cavalcanti aos jovens rebeldes de São Paulo começou
a se materializar quando os ricos e refinados Paulo e Marinette Prado –


cafeicultores com a vida e a mente voltadas para a Paris dos modernistas –
decidiram apoiar o evento. Eles formaram um comitê patrocinador que contou
com o apoio do “escol financeiro e mundano da sociedade paulista”: Alfredo
Pujol, Armando Penteado, José Freitas Valle e o prefeito Antônio Prado. O
Correio Paulistano, órgão do PRP cujo redator-chefe era Menotti del Picchia,
também “agasalhou os avanguardistas, com o consentimento de Washington
Luís, presidente do estado”. Com tal apoio logístico, os novos canibais partiram
para a ofensiva. A Semana de Arte Moderna durou três dias e reuniu poetas,
escultores, pintores, músicos e intelectuais ligados à Nova Arte. Iniciou-se calma
e convencional em 13 de fevereiro, com a palestra “A emoção estética na arte
moderna”, proferida por Graça Aranha, um dos padrinhos do evento (leia o box
na p. 332).
A confusão começou dois dias depois, na palestra de Menotti del Picchia
(“Queremos luz, ar, ventiladores, aeroplanos, reivindicações obreiras,
idealismos, motores, chaminés de fábricas, sangue, velocidade, sonho, na nossa
Arte”, disse ele). Apesar de a conferência ter claramente aberto a temporada de
caça ao “passadismo”, a plateia se conteve e não vaiou. Minutos depois, porém,
o que houve foi… Bem, ouçamos a versão da vítima, Oswald de Andrade:
“Apenas Menotti se sentou e, quando me levantei, o teatro estrugiu numa vaia
irracional e infrene. Antes mesmo d’eu pronunciar uma só palavra. Esperei de
pé, calmo, sorrindo como pude, que o barulho serenasse. (…) Abri a boca. Ia
começar a ler, e nova pateada se elevou, imensa, proibitiva.
Nova espera (…) Então pude começar. Devo ter lido baixo e comovido. O
que me interessava era acabar depressa e sair. Mário de Andrade me sucedeu, e
vaia estrondou de novo. Com aquela santidade que o marcava, Mário gritou:
‘Assim não recito mais’. Houve grossas gargalhadas.”
Anos depois, Mário de Andrade se questionaria: “Como tive coragem pra
dizer versos diante duma plateia tão bulhenta?” A seguir, as coisas se acalmaram
graças às melodias tocadas pela superstar Guiomar Novaes, que atraíra o público
até lá (leia na p. 333). A terceira e última noite do evento, em 17 de fevereiro,
foi inteiramente dedicada a um recital de Villa-Lobos. Embora ele já fosse um
pianista respeitado, quando entrou no palco de fraque e de chinelos, o público
voltou a se enraivecer. Os sons fabulosos do jovem maestro e compositor logo
domaram a plateia, e a Semana terminaria com aplausos efusivos a Villa-Lobos.


A
É preciso deixar claro, contudo, que os modernistas vaiados não foram
vítimas inocentes. O jogo perverso entre palco e plateia, os apupos, achincalhes,
“miados e relinchos” estavam no programa, faziam parte do espetáculo e talvez
fossem até desejados – tanto é que, ainda hoje, há estudiosos que acham que os
modernistas “contrataram” gente para uivar contra eles. A vaia soava para eles
como o mais caro sinal de reconhecimento.
O MANIFESTO ANTROPOFÁGICO
pintura teve importância fundamental não apenas no advento da Semana de
Arte Moderna como na eclosão de todo o movimento modernista que veio a
seguir. De início, é preciso lembrar que o primeiro vislumbre que São Paulo
tivera de arte moderna ocorreu na exposição do pintor Lasar Segall, em 1913 –
mostra que causou espanto, a ponto de a sociedade preferir esquecer que ela
havia acontecido. Além disso, foi na visita à exposição de Anita Malfatti que
Mário de Andrade e Oswald de Andrade não só selaram sua amizade como
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