Brasil, uma história


parte Siqueira Campos e Eduardo Gomes (os líderes dos 18 do Forte). Em 29 de



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história

parte Siqueira Campos e Eduardo Gomes (os líderes dos 18 do Forte). Em 29 de
outubro de 1924, de volta ao Sul, ele forjaria um telegrama para sublevar o


N
Primeiro Batalhão Ferroviário de Santo Ângelo, para o qual fora destacado.
Após liderar a revolta dos tenentes do Rio Grande do Sul, Prestes conseguiu
romper o cerco das tropas federais, seguindo para o Paraná numa marcha
audaciosa, que lhe permitiu se unir aos rebeldes paulistas.
Em maio de 1930, depois das épicas peripécias da coluna que adquiriu seu
nome, Prestes, exilado na Argentina, recusou-se a se envolver nas conspirações
que resultaram na Revolução de 30. Ao lançar um manifesto no qual se
declarava “socialista revolucionário”, condenou o apoio dado por seus
companheiros às oligarquias dissidentes e anunciou o início de um novo ciclo de
luta armada. Mais tarde, Prestes se converteu ao comunismo, viajando para a
União Soviética em novembro de 1931. Retornou ao Brasil em abril de 1935,
junto com a espia alemã Olga Benário, que se tornaria sua mulher, para liderar,
desastradamente, a Intentona Comunista de novembro de 1935. O movimento,
mal-articulado, foi duramente reprimido por Vargas (leia no capítulo “O Velho
Estado Novo”, na p. 347). Perseguidos ao longo de três meses, Prestes e Olga
foram presos em março de 1936. Judia e comunista, Olga foi deportada para a
Alemanha nazista, mesmo estando grávida (leia box na página 319). Solto em
1945, Prestes aliou-se a seu maior inimigo, Getúlio Vargas e, como chefe do
então legalizado Partido Comunista, elegeu-se deputado federal, com a maior
votação do país. Em 1948, com o PCB de novo na clandestinidade, Prestes fugiu
do Brasil e viveu anos na União Soviética, da qual se tornou vassalo leal. Em
1957, Prestes obteve o direito de voltar ao país por mandado judicial e apoiou
João Goulart em 1961. Com o golpe militar de 1964, viu-se forçado a fugir outra
vez – deixando para trás documentos que comprometeram vários companheiros.
Retornou ao Brasil depois da anistia de 1978 e participou da campanha das
Diretas Já. Stalinista ferrenho, conspirador e conservador, disciplinado e
disciplinador, doutrinário e doutrinador, dúbio e drástico, Prestes morreu aos 92
anos, em 1990, mantendo segredo e alimentando o mito de suas várias e
fracassadas “ações revolucionárias”.
FLORO BARTOLOMEU E O PADIM CIÇO
o início de 1926, quando a Coluna Prestes entrou no Ceará, o então
deputado Floro Bartolomeu Costa resolveu – após breve consulta ao seu


“padrinho” político, o padre Cícero Romão – enviar um mensageiro atrás do
bando do famigerado cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Em
troca da patente de capitão do Exército, além de um suprimento de modernos
rifles Mauser, Floro Bartolomeu decidiu convidar o “rei do cangaço” para
enfrentar os homens de Luís Carlos Prestes. Se pudesse abandonar suas funções
políticas, Floro Bartolomeu Costa certamente partiria para o sertão disposto a
combater ele próprio o inimigo. Afinal, uma década antes, o dr. Floro fora capaz
de vencer o próprio Exército nacional.
Formado na Faculdade de Medicina da Bahia, o dr. Floro Costa chegara ao
Vale do Cairiri, no Ceará, em 1908. Abriu um consultório e uma farmácia e logo
se tornou amigo de todos os homens influentes de Juazeiro – e o grande aliado
do principal deles, o padre Cícero Romão. Graças a seus dotes militares e
espírito de liderança, Floro Bartolomeu Costa se tornou chefe de um bando de
jagunços e se mostrou capaz de vencer todos os combates nas muitas guerras
travadas entre os coronéis locais. Seu exército particular logo se tornaria o
exército privado do “Padim Ciço”.
Em janeiro de 1912, quando a “política das salvações”, deflagrada pelo então
presidente Hermes da Fonseca, chegou ao Ceará com o objetivo de derrubar o
oligarca Nogueira Accioly da Presidência do Estado, Floro, Padim Ciço e seu
exército de jagunços concluíram que chegara a hora do Brasil ouvir falar deles.
Em março de 1914, depois de inúmeros combates no sertão, Floro tomou
Fortaleza, derrubou o presidente nomeado por Hermes da Fonseca e devolveu o
poder à oligarquia Accioly. Não houve reação por parte do governo federal.
Até fins do século XIX, o padre Cícero Romão Batista (1844-1934) era
apenas um entre os vários beatos que perambulavam pelo Nordeste, solo fértil
para o messianismo, especialmente em épocas de seca e miséria. Quase na virada
do século, porém, já consagrado como “santo de Juazeiro”, ele se tornaria não
apenas “líder espiritual” de milhares de sertanejos dispostos a dar a vida por ele,
mas também o “padre do coronel Accioly” (verdadeiro dono do Ceará). Por
volta de 1908, apesar de não ousar romper sua aliança com a oligarquia Accioly,
o Padim Ciço virara, ele mesmo, um dos mais poderosos “coronéis” do Nordeste
e “dono” de Juazeiro.
Padre Cícero chegara à principal cidade do Vale do Cariri em 1872, com uma
mão na frente e outra atrás. Fora ordenado presbítero dois anos antes, em 1870,


D
apesar do voto contrário do reitor do seminário em que se formara, que o
considerava “fantasioso”. Perto de 1889, as fantasias do Padim Ciço começaram
a virar “milagre”: ao receber a comunhão de suas mãos, as beatas “tombavam
por terra e as hóstias tingiam-se de sangue”.
Em 1892, o padre foi proibido de pregar e receber confissões. No ano de
1894, Roma considerou os “milagres de Juazeiro” nada além de “superstição”,
ameaçando o padre Cícero de excomunhão, caso não saísse da cidade. Três anos
depois, durante a campanha contra Antônio Conselheiro, o Padim Ciço achou
aconselhável exilar-se no sertão.
Em 1898, no entanto, ele retornou a Juazeiro e a transformou na “cidade
santa” do Nordeste. Quem ousaria enfrentar seu exército de jagunços,
comandado pelo dr. Floro? Quando o novo século raiou, o Padim Ciço tinha se
transformado no senhor absoluto do Vale do Cariri. Ainda hoje há uma
campanha em prol de sua beatificação. O Vaticano segue ignorando-a.
OS REIS DO CANGAÇO
e todos os cangaceiros que aterrorizaram o sertão nordestino nas primeiras
décadas do século XX, nenhum foi mais ousado, temido e famoso do que o
capitão Virgulino Ferreira da Silva, que a história consagrou com o nome de
Lampião, o rei do cangaço. Virgulino entrou para o cangaço por volta de 1914,
para vingar a morte de seu pai, envolvido na briga entre as famílias Carvalho e
Pereira, que havia anos ensanguentava o sertão. Embora cedo tenha lavado em
sangue a honra do pai assassinado, Virgulino tomou gosto pelas correrias
armadas, pelos assaltos, pelos incêndios, tiroteios e estupros, que caracterizavam
a vida bandida dos cangaceiros. E não precisou de muito tempo para se tornar o
mais sanguinário de todos eles.
No início da década de 1920, já era chamado de Lampião – apelido que ele
mesmo criara ao dizer que, nos tiroteios, sua “espingarda nunca deixava de ter
clarão, tal qual um lampião”. Por volta de 1922, quando os tenentes se
rebelavam em Copacabana e os poetas antropofágicos surpreendiam São Paulo,
Lampião já se tornara o braço direito do cangaceiro chamado Sinhô Pereira. Em
fins de 22, Pereira decidiu seguir os conselhos do Padim Ciço – de quem, como
a maioria dos cangaceiros, era devoto – e abandonou as estripulias do sertão.


Lampião assumiu então o comando do enorme bando de cangaceiros que vivia
pelos sertões de Sergipe e da Bahia. Expandiu suas atividades fazendo incursões
eventuais a Alagoas, Ceará, Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Virou
lenda.
Em 12 de abril de 1926, depois de praticar os mais variados crimes e saques,
atacando cidades em plena luz do dia, Lampião foi transformado em “capitão”
legalista, recebendo, por ordem do deputado Floro Bartolomeu Costa e do padre
Cícero, fuzis Mauser e trezentos homens. Tinha ordens de perseguir a Coluna
Prestes. Quando descobriu que o governo não pretendia anistiá-lo e que o
documento que o tornava capitão do Exército não tinha validade legal, desistiu
da caçada humana e – com as novas armas – retornou aos saques, aos assaltos e
aos crimes.
Em 1928, Lampião encontrou, na fazenda Malhada, na Bahia, aquela que
seria a mulher de sua vida. Encontrou, não: foi encontrado por ela. Embora
casada, assim que o viu, a filha do fazendeiro, uma tal de Maria Bonita, teria
dito: “Esse é o homem que amo. Como é, quer me levar ou quer que eu te
acompanhe?” Foi paixão à primeira vista, e Lampião e Maria Bonita ficaram
juntos até a morte. Lampião cercou-a de atenções e carinho, agiu como bom
marido e apelidou-a de “Santinha”. A influência de Maria Bonita no grupo
também foi benéfica. Graças a ela, os bandos de cangaceiros – antes
exclusivamente masculinos – se tornaram “mistos” e vários “tenentes” de
Lampião também se casaram. A partir de então, a ferocidade e a frequência dos
ataques diminuíram. Por três vezes, Lampião tentou abandonar o cangaço. Mas o
chamado selvagem acabou sendo sempre mais forte. Seu destino estava selado.
No fim da década de 1930, com Vargas e o Estado Novo no comando da
nação, o cangaço estava com os dias contados, e a cabeça de Lampião, a prêmio.
Em julho de 1938, o bando do rei do cangaço se instalara numa fazenda em
Angico, no interior de Sergipe, quase na fronteira com Alagoas. Um comerciante
local, com quem Lampião costumava negociar, delatou o grupo. A volante
comandada pelo tenente João Bezerra, da Força Pública de Alagoas, surpreendeu
o bando e matou Lampião, Maria Bonita e nove outros cangaceiros. Os corpos
foram jogados num riacho seco, e as cabeças, decepadas, postas em tonéis de
querosene, com sal grosso, e levadas para ser expostas nas escadarias da Igreja
de Santana do Ipanema, a cidade mais próxima. De lá, foram conduzidas para


Maceió e depois para Salvador, onde, mumificadas, passaram a fazer companhia
à cabeça de Conselheiro – o beato de Canudos – no tétrico acervo do museu
Nina Rodrigues. Foi somente em fins da década de 1960 que a filha e os netos de
Lampião conseguiram permissão para retirá-las de lá e dar-lhes “um enterro
cristão”. Desde a morte de Corisco, o Diabo Louro, em julho de 1940, os
horrores do cangaço estavam definitivamente encerrados.


C
Capítulo
27
DE MACHADO AO PAU-BRASIL
orria o ano 366 da deglutição do bispo Sardinha, e os canibais estavam de
volta. Queriam o fígado de Peri. Queriam devorar o Guarani – em prosa e
verso. Planejavam trancafiar Castro Alves no navio negreiro, crucificar
Vítor Meireles na primeira cruz e esquartejar Pedro Américo como este fizera
com Tiradentes.
E queriam incomodar a burguesia. A burguesia adormecera sobre os sacos de
café e dinheiro, como gato de armazém? Era preciso despertá-la, de preferência
com barulho. Nem que fosse o de suas próprias vaias, “relinchos e miados”.
E por isso o poeta gritava: “Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,/ O

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