Brasil, uma história


partiram para o Rio Grande do Sul a fim de insuflar a revolta nos quartéis, onde



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história

partiram para o Rio Grande do Sul a fim de insuflar a revolta nos quartéis, onde
grassava a insatisfação com o Pacto de Pedras Altas, que dera fim à Revolução
de 1923 mas mantivera Borges de Medeiros no poder. Assim, em outubro de
1924, a insurreição foi deflagrada também no Sul, com o capitão Luís Carlos
Prestes assumindo o comando do Primeiro Batalhão Ferroviário, com sede em
Santo Ângelo.
Logo em seguida, as guarnições de São Luiz, São Borja e Uruguaiana, todas
no oeste do Rio Grande do Sul, também se rebelaram. Em São Borja, o levante
contou com o apoio do tenente Siqueira Campos, que retornara clandestinamente
do exílio em Buenos Aires. Em Alegrete, o caudilho Honório Lemes, veterano
da Revolução de 1893 e um dos líderes dos libertadores em 1923, juntou-se aos
rebeldes, com seu exército “particular” de 800 homens. Ainda assim, Honório
Lemes foi, uma vez mais, vencido pelas tropas de Flores da Cunha, no combate
de Guaçu-Boi.
Lemes e os tenentes Távora, João Alberto e Cordeiro de Farias se refugiaram,
então, brevemente, na Argentina. Apenas São Luís Gonzaga permaneceu sob o
controle de Prestes. Contando com cerca de 3 mil homens, Luís Carlos Prestes,
cercado por 10 mil soldados legalistas, passou cerca de dois meses imobilizado
na cidade, em posição francamente defensiva. Em fins de dezembro de 1924,
obedecendo a instruções do general Isidoro Lopes, os rebeldes gaúchos foram
comunicados de que deveriam marchar para o Norte, atravessando Santa
Catarina, para juntar-se aos rebeldes paulistas em Guaíra. Mais de mil gaúchos
desertaram. Os 2 mil restantes, sob o comando de Prestes, romperam o cerco e se
puseram em movimento. Depois de batalhas ferozes, chegaram ao Paraná em
abril de 1925. No dia 12, numa reunião entre os generais Isidoro e Bernardo
Padilha, o major Miguel Costa e o tenente Prestes, decidiu-se prosseguir a
marcha e invadir Mato Grosso.


A
Formou-se então a Primeira Divisão Revolucionária, que passaria à história
com o nome de Coluna Miguel Costa-Prestes, ou simplesmente Coluna Prestes.
Costa foi nomeado general revolucionário, e Prestes, coronel. Composta por
quatro destacamentos – liderados por Cordeiro de Farias, João Alberto, Siqueira
Campos e Djalma Dutra (também promovidos a coronéis pelo comando
revolucionário) –, a Coluna protagonizaria, ao longo de dois anos, a marcha mais
épica da história do Brasil.
A GRANDE MARCHA
o percorrer cerca de 25 mil quilômetros por praticamente todos os estados
do Brasil – mais alguns trechos do Paraguai e da Bolívia – desde abril de
1925 até junho de 1927, a Coluna Prestes serviria de modelo para a grande
marcha que Mao Tsé-tung e seu exército revolucionário realizariam na China, 20
anos mais tarde. Seria também um dos episódios mais dramáticos e simbólicos
da luta revolucionária no Brasil – com seu quixotismo, seus sonhos e seus
delírios; a imensa distância entre suas intenções e suas ações; a nulidade quase
total de seus resultados práticos; seu heroísmo vão e sua violência latente.
O objetivo principal da Coluna Prestes, decidido na reunião de 12 de abril de
1925, era percorrer todo o interior do Brasil para propagar o ideal revolucionário
e conscientizar a população rural, fazendo-a sublevar-se contra o domínio
exploratório exercido pelas elites “vegetais”. Os revolucionários tinham também
a esperança de despertar para si a atenção do governo – o que, supostamente,
facilitaria o surgimento de novas revoltas nos centros urbanos.
O contingente da Coluna Prestes nunca ultrapassou 1.500 pessoas, em média
– apesar de ser praticamente impossível calcular números mais exatos, dado o
fato de que houve sempre muitas deserções e novas adesões, além da frequente
entrada e saída de vários participantes transitórios. Disposta a evitar o choque
frontal com as tropas legalistas do governo, a Coluna se deslocava rapidamente
de um vilarejo para outro – e seu maior efeito parece ter sido inspirar o mais
profundo terror entre as populações rurais à simples menção da palavra
“revolução”.
A marcha da Coluna Prestes começou no fim de abril de 1925, quando os


revolucionários cruzaram o rio Paraná, penetrando no Paraguai para seguir em
direção a Mato Grosso. Depois de passar por Dourados, Campo Grande e Baús,
a Coluna cruzou Goiás, parte de Minas Gerais, novamente Goiás e prosseguiu
até o Maranhão, onde o tenente-coronel Paulo Krüger foi preso e enviado a São
Luís. Em dezembro, os revolucionários chegaram ao Piauí, travando longo e
sangrento combate em Teresina contra as forças destacadas para defender a
capital do estado.
Rumando em direção ao Ceará, em janeiro de 1926, a Coluna teria outra
baixa importante: Juarez Távora foi capturado na serra de Ibiapina. A coluna
atravessou o Ceará, onde o deputado Floro Bartolomeu, com o apoio do padre
Cícero Romão, de Juazeiro, enviou um emissário ao sertão convidando o
cangaceiro Lampião para combater a Coluna. Mas Lampião e o grupo de Prestes
nunca chegaram a se encontrar. Depois de cruzar o Ceará e o Rio Grande do
Norte, o exército de Luís Carlos Prestes invadiu a Paraíba em fevereiro,
enfrentando, na vila de Piancó, a ferrenha resistência comandada pelo padre
Aristides Ferreira da Cruz, que acabou preso e degolado pelos rebeldes.
Prosseguindo em direção ao sul, a Coluna atravessou Pernambuco e a Bahia,
rumando para o norte de Minas Gerais.
Na cidadezinha de Taiobeiras – MG, diante da grande concentração de tropas
legalistas em Minas Gerais, o comando da Coluna decidiu interromper o avanço
para o Sul e realizar a manobra chamada de “laço húngaro”, iniciando uma
contramarcha para a Bahia, o Piauí, Goiás e Mato Grosso, em direção ao exílio
na Bolívia. Em outubro de 1926, depois de uma jornada estafante, a Coluna
estava de volta a Mato Grosso. Em março de 1927, após uma penosa travessia do
Pantanal, parte dos integrantes da Coluna, comandados por Siqueira Campos,
chegou ao Paraguai. O restante, sob a liderança de Prestes, ingressou na Bolívia.
Após a Revolução de 30, todos os chefes revolucionários retornariam ao Brasil
para ocupar cargos no governo Vargas – todos, menos Luís Carlos Prestes.
No exílio, ele se tornara marxista e logo iniciaria a luta pela Revolução
Comunista, dentro e fora do Brasil. Embora o apoio da população rural não
passasse de ilusão e as possibilidades de êxito militar tivessem sempre sido
nulas, a Coluna Prestes surtiu um efeito simbólico entre os setores da população
urbana insatisfeitos com a elite dirigente. Para esses setores, havia esperanças de
mudar os destinos da República, como parecia mostrar a marcha heroica dos


F
“cavaleiros da esperança”.
O CAVALEIRO DA ESPERANÇA
ilho do oficial do Exército Antônio Pereira Prestes e da professora primária
dona Leocádia, Luís Carlos Prestes nasceu em Porto Alegre, em 3 de janeiro
de 1898. Estava destinado a se tornar um dos personagens mais lendários da
história do Brasil. Olhando-o, porém, seria impossível fazer a profecia.
“Pequeno de estatura, o culote subindo-lhe pelos joelhos, montando a cavalo
com a sela militar ladeada de alforjes cheios de mapas, constitui um conjunto
grotesco, incompatível com a tradição de um chefe gaúcho, sempre vestido a
caráter, temerário, desafiador, espetacular”, diria dele o tenente João Alberto, um
dos principais membros da Coluna. Apesar do depoimento insuspeito, Prestes
veio a se tornar um homem “temerário, desafiador e espetacular”. Mesmo
rompendo com seus laços gaúchos, ele nunca deixaria de ser uma espécie de
caudilho platino: era indômito, autoritário, teimoso, decidido e controverso.
Apesar da figura quixotesca, quase chapliniana, ele se transformaria no
Cavaleiro da Esperança, projetando sua sombra e sua presença sobre as quatro
décadas mais agitadas da política brasileira.
A BELA ESPIÃ
Charmosa, inteligente, revolucionária e decidida, Olga Benário entrou para o Partido Comunista da
Alemanha em 1923, aos 15 anos. Tentou alistar-se no Exército Vermelho em 1926. Mudou-se para
Moscou em abril de 1928, depois de resgatar espetacularmente um companheiro da prisão, em Berlim.
Em 1934, aos 27 anos, foi mandada ao Brasil para acompanhar e “controlar” Prestes. Os dois se
apaixonaram. Olga estava grávida ao ser presa em março de 1936. O governo Vargas a deportou para
a Alemanha nazista – o que equivalia a uma condenação à morte, pois ela era judia. Na prisão, Olga
deu à luz uma menina, em novembro de 1936. Morreu na câmara de gás, na Páscoa de 1942. A filha,
Anita Leocádia, sobreviveu aos horrores do Holocausto.
Matriculado no Colégio Militar do Rio de Janeiro, Prestes formou-se tenente-
engenheiro na Escola Militar do Realengo, na turma de 1920, da qual faziam
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