Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
Pinheiro Machado era uma figura imponente. Esguio, com um alfinete de pérola na gravata de seda e uma
bengala com o cabo de marfim (“de unicórnio”, dizia ele), andava ereto, oferecia banquetes suntuosos,
adorava galos de rinha, jogava pôquer e bilhar e utilizava um vocabulário floreado, posto a serviço da
retórica agressiva. Poderoso e adulado, Pinheiro fez da política “um meio de se tornar mais rico”, segundo
o historiador norte-americano Joseph Love. “Noutras palavras: pairava ao seu redor um ar inconfundível
de corrupção.” Talvez por isso tenha havido carnaval no Rio de Janeiro e em São Paulo quando a notícia
de que Pinheiro fora assassinado se espalhou. O povo associava sua figura à carestia, aos desmandos
políticos e à manutenção do poder nas mãos dos oligarcas. Embora todas as evidências apontassem em
direção a uma conspiração, nunca ficou provado que Francisco Manso de Paiva – padeiro gaúcho
desempregado e semianalfabeto – estivesse agindo sob as ordens de alguns dos inúmeros e poderosos
inimigos de Pinheiro. O julgamento, presidido por Flores da Cunha, fervoroso aliado de Pinheiro, não
conseguiu incriminar ninguém além do próprio assassino. De qualquer forma, ao desbancar Bahia e
Pernambuco, Pinheiro mudara o mapa político do Brasil, tornando o Rio Grande do Sul o terceiro Estado
mais importante da federação, atrás de São Paulo e de Minas.
EPITÁCIO EM VERSALHES
e Paris já não fosse uma festa, teria se transformado em uma quando, em
fevereiro de 1919, uma enorme delegação do Brasil desembarcou na capital
francesa, com todas as despesas pagas pelo Tesouro Nacional. Encerrada a I
Guerra, após o pedido de armistício feito pela Alemanha, as 32 nações
envolvidas no conflito se reuniram para a Conferência de Paz de Paris – na qual,


em 28 de junho de 1919, no salão dos Espelhos, foi assinado o Tratado de
Versalhes.
O Brasil, incluído com outros 23 países no grupo de “potências com
interesses especiais” (do qual também faziam parte Libéria, Haiti e Sião), enviou
à conferência dez delegados oficiais, sob a chefia de Epitácio Pessoa. Junto com
os juristas e os representantes oficiais do país, porém, seguiram seus familiares,
assessores, convidados e acompanhantes em tal número que o navio que zarpou
do Rio de Janeiro, no dia 2 de janeiro de 1919, partiu quase lotado.
Menos mal que, nas negociações, o país se saiu bem: dos 440 artigos do
tratado, dois deles se referiam especificamente a interesses brasileiros. No
primeiro, a Alemanha era obrigada a pagar 125 milhões de marcos pelas 1,85
milhão de sacas de café que tinha destruído ao atacar navios brasileiros, e a
devolver as sacas que haviam sido estocadas em Berlim durante a “valorização”
de 1906. No outro, foi concedido ao Brasil o direito de pagar com preços
“antigos” – portanto, mais baixos – os 70 navios alemães que o país havia
confiscado em seus portos.
Ao retornar da França com seu “navio da alegria”, em julho de 1919, Epitácio
Pessoa, que deixara o país como senador, descobriu que era o novo presidente do
Brasil. Os fatos que o tinham conduzido ao cargo retrocediam à sucessão de
Venceslau Brás. Apesar de Pinheiro Machado estar morto, a luta pela indicação
do sucessor de Brás foi tão renhida quanto nos tempos do senador. Após várias
reviravoltas, as oligarquias e os feudos políticos de São Paulo, Minas Gerais, Rio
de Janeiro e Rio Grande do Sul chegaram a um candidato de consenso: o velho
conselheiro do império Rodrigues Alves, então com 70 anos. Concorrendo
sozinho, Alves foi eleito em março de 1918, mas não pôde tomar posse em 15 de
novembro. Acometido pela “gripe espanhola”, morreu em janeiro de 1919. Em
seu lugar, assumiu o vice Delfim Moreira.
Como a Constituição previa novas eleições em caso de morte ou renúncia do
presidente antes de completada a metade do mandato (e como, dessa vez, não
havia marechais de ferro por perto), Delfim Moreira ficou no poder até julho de
1919, quando se realizaram novas eleições. Embora o eterno candidato Rui
Barbosa lançasse mais uma vez sua candidatura, atacando arranjos oligárquicos
e mesquinharias políticas, Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul
decidiram apoiar o nome de Epitácio Pessoa. Apesar de estar ausente do país,


U
A
seus aliados alardearam os supostos “esplendores” de seu desempenho
diplomático em Versalhes. E Pessoa ganhou fácil a “eleição”.
O PRESIDENTE CIVILISTA
ma vez alçado ao poder, o paraibano Epitácio Lindolfo da Silva Pessoa
(1865-1942) – primeiro nordestino a comandar a nação – revelou-se muito
mais ousado e autoritário do que seus aliados poderiam supor. Ainda assim,
desde o início de seu governo, tentou assegurar o apoio dos três “grandes”
estados da federação (São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul). Tanto é
que seis dos sete ministros que nomeou eram paulistas, mineiros ou gaúchos.
Para poder articular mais plenamente essa composição, Epitácio Pessoa teve de
nomear dois civis para os ministérios da Guerra e da Marinha (respectivamente
Pandiá Calógeras, seu companheiro em Versalhes, e Raul Soares). Civis
comandando militares era algo que, no Brasil, não se via desde o Império. Houve
grande indignação nos quartéis. A atitude “civilista” de Epitácio Pessoa teria
profundas consequências – embora o desfecho delas só viesse a ocorrer no
governo seguinte, de Artur Bernardes. Além da construção de mais de mil
quilômetros de ferrovias no Sul do Brasil, a maior obra do governo Epitácio
Pessoa foi o Programa de Combate à Seca no Nordeste. Com investimento de
304 mil contos, o presidente fez mais de duzentos açudes na região. Injuriados
com o que julgavam ser um “protecionismo ao Nordeste”, os paulistas exigiram
que uma quantia similar fosse destinada para “valorizar” outra vez o café.
Cedendo às pressões, Pessoa liberou 124 mil contos e o governo estocou 4,5
milhões de sacas, forçando novo aumento no preço do produto, que despencara
de 50 centavos de dólar para 20 centavos de dólar por quilo.
O GOVERNO DE ARTUR BERNARDES
pesar de não ter se envolvido diretamente na dura campanha desencadeada
para a sua sucessão, Epitácio Pessoa foi o maior responsável pelos rumos
que ela iria adquirir. Ao nomear dois civis para os ministérios da Guerra e da
Marinha, o presidente gerara grande insatisfação nos quartéis..Quando, em fins
de 1919, o governador de São Paulo, Washington Luís, e o de Minas Gerais,


Artur Bernardes, fizeram um acordo para lançar Bernardes como o candidato do
“café com leite” às eleições de 1922, o governador do Rio Grande do Sul,
Borges de Medeiros, iniciou as articulações que desembocariam na chamada
“Reação Republicana”, contrária à candidatura de Bernardes e favorável à de
Nilo Peçanha, governador do Rio de Janeiro. Os militares, é claro, de imediato
apoiaram Borges e Nilo.
Em outubro de 1921, quando os jornais divulgaram cartas de Artur Bernardes
atacando o ex-presidente Hermes da Fonseca em particular e os militares em
geral, faltou pouco para estourar um golpe militar. Embora as cartas fossem
falsas, o clima político polarizou-se e o Brasil se encaminhou para as eleições
mais disputadas desde o pleito de 1910, entre Hermes da Fonseca e Rui Barbosa.
Em março de 1922, Artur Bernardes e Nilo Peçanha se enfrentaram nas urnas.
Findas as eleições, os dois lados cantaram vitória. Após conflitos de rua e
fraudes descaradas, Artur Bernardes foi declarado vencedor em julho de 1922.
Ele tomou posse em novembro de 1922 sob estado de sítio, declarado desde a
Revolução Tenentista de Copacabana (também chamada de “Os Dezoito do
Forte”), que rebentara no dia 5 de julho (leia o próximo capítulo, “O Brasil dos

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