Brasil, uma história


participação na I Guerra Mundial teria sido apenas patética se não tivesse sido



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história

participação na I Guerra Mundial teria sido apenas patética se não tivesse sido
trágica.
As jovens equipes médicas brasileiras foram levadas para a França, onde
tiveram algum trabalho. Os aviadores praticamente não saíram do chão. A
divisão naval, encarregada de patrulhar o oceano Atlântico em frente do Senegal,
ancorou em Dacar, onde a gripe espanhola dizimou quase metade da tripulação.
Enviada para Gibraltar, a esquadra brasileira abriu fogo contra um cardume de
toninhas (espécie de boto), julgando se tratar de submarinos alemães. O episódio
entrou para a história com o nome de “Batalha das Toninhas”. Um dia depois de
atracar em Gibraltar, em 10 de novembro de 1917, os brasileiros foram
informados de que a Alemanha capitulara. A “guerra para acabar com todas as
guerras” tinha terminado.
O GOVERNO DE VENCESLAU BRÁS
ido por seus adversários como um homem “de completa nulidade mental”,
Hermes da Fonseca, ao sair da Presidência, deixou o país política e
economicamente em frangalhos. A batalha por sua sucessão se iniciara enquanto
o marechal ainda estava no poder. O senador Pinheiro Machado bem que tentou
“fazer” o novo presidente – indicando para o cargo, em mais uma de suas
manobras divisionistas, o ex-presidente Campos Sales. Mas, dessa vez, paulistas
e mineiros reagiram, firmando, em fins de 1913, o chamado Pacto de Ouro Fino,
depois do qual se uniram em torno da candidatura do então vice-presidente
Venceslau Brás Pereira Gomes. Ironicamente, Brás só chegara ao cargo graças às
articulações do próprio Pinheiro, que para obter o apoio do Partido Republicano
Mineiro (PRM) à candidatura de Hermes aceitara a indicação do deputado.
Durante o quatriênio de Hermes, porém, Brás se revelou omisso e ausente,
passando a maior parte do tempo em sua fazenda, em Itajubá – MG. Tanto que,
quando sua candidatura foi oficialmente lançada, o escritor Emílio Meneses
ironizou: “É a primeira vez que vejo um funcionário promovido por abandono de
emprego.”
Ainda assim, para as oligarquias de São Paulo e Minas Gerais, a candidatura
de Venceslau, batizada de “o retorno mineiro”, foi de grande importância
estratégica, pois marcou a volta da política do café com leite e o início do fim do


A
reinado republicano de Pinheiro Machado, que seria assassinado menos de dois
anos depois (leia box na página ao lado). Ao assumir o cargo, em novembro de
1914, Venceslau anunciou que governaria “fora e acima dos partidos”, o que, na
verdade, significava dizer que o faria “fora” do Partido Republicano
Conservador (PRC) e “acima” de Pinheiro.
ASCENSÃO E QUEDA DE PINHEIRO MACHADO
posse de Venceslau Brás deixou claro que a influência do senador José
Gomes Pinheiro Machado na política brasileira estava em declínio. Ainda
assim, talvez jamais tivesse havido em toda a história republicana do Brasil um
homem com tanto poder – pelo menos não durante tanto tempo – quanto o que
Pinheiro desfrutara até aquele momento, novembro de 1914. Desde que afastara
o paulista Francisco Glicério e assumira, em 1905, a liderança da facção
majoritária do Senado – batizada de “Bloco” –, Pinheiro Machado se tornara o
homem mais influente da política brasileira. Como chefe das comissões
apuradoras do Congresso, ele simplesmente decidia quais políticos tomariam
posse, quais não – independentemente do número de votos que tivessem
recebido.
Com muita propriedade, a imprensa passou a chamá-lo de “fazedor de reis”,
ou “o homem que governa o governo”; e os caricaturistas, a representá-lo como
um galo (“chefe do terreiro”) ou uma raposa (“terror dos galinheiros políticos”).
Para boa parte da população, Pinheiro era a encarnação de todos os males que
afligiam a nação. Formado na Faculdade de Direito de São Paulo e veterano de
duas guerras (a do Paraguai e a Revolução Federalista de 1893, na qual fora o
chefe da poderosa divisão do Norte, que derrotara Gumercindo Saraiva), o
gaúcho Pinheiro fora feito general por Floriano Peixoto quando já era um
experiente caudilho.
A vertiginosa ascensão política de Pinheiro Machado começou em 1902,
quando se tornou o vice-presidente do Senado, cargo que manteve até 1905. De
1905 a 1915, não só se firmou como a figura mais poderosa do Congresso como
revelou-se capaz de “fazer” todos os presidentes, participando decisivamente das
eleições de Rodrigues Alves e Afonso Pena (apesar de ambos não gostarem de
seu estilo). Com a posse de Hermes da Fonseca, o poder de Pinheiro se tornou


S
quase absoluto. Ainda assim, não conseguiu lançar o próprio nome para a
Presidência.
No início de 1915, Pinheiro cometeu seu maior erro político ao tentar impedir
a posse de Nilo Peçanha, eleito presidente do Rio de Janeiro. Quando uma
multidão cercou seu carro, com o objetivo de linchá-lo, na saída do Senado,
Pinheiro ordenou ao chofer: “Avance, nem tão devagar que pareça afronta, nem
tão depressa que pareça covardia.” Homem de frases fabulosas, também diria:
“É possível que o braço assassino, impelido pela eloquência delirante das ruas,
nos possa atingir.” Se o golpe viesse, Pinheiro Machado garantia que não
ocultaria, “como César, a face com a toga, e, de frente, olharemos (…) a ignóbil
figura do bandido”. Essa promessa o caudilho não pôde cumprir: a 8 de setembro
de 1915, no saguão de um hotel do Rio de Janeiro, Pinheiro foi assassinado com
uma facada pelas costas. O “sicário” chamava-se Francisco Manso de Paiva – e
era um zé-ninguém.
O “FAZEDOR DE REIS”

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