Brasil, uma história


Q UAIS OS DESDOBRAMENTOS DA CRISE



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
Q
UAIS OS DESDOBRAMENTOS DA CRISE
: no dia 25 de novembro, os amotinados
arriaram as bandeiras vermelhas que sinalizavam sua rebelião, e o episódio
parecia encerrado. Em 28 de novembro, porém, um decreto presidencial permitiu
ao ministro da Marinha expulsar da corporação os principais envolvidos no
movimento. Para agravar ainda mais a situação, no dia 10 de dezembro, os
fuzileiros navais alojados na ilha das Cobras também decidiram se rebelar. Para
evitar a repressão, os marinheiros dos encouraçados Minas Gerais, Bahia e São
Paulo – que nada tinham a ver com os protestos dos fuzileiros – não hesitaram
em bombardear as instalações onde se encontravam seus companheiros de
corporação. Ainda assim, não foi o bastante: alarmado com a onda de
conspirações, o governo Hermes da Fonseca deflagrou uma repressão sangrenta
ao levante. E aproveitou a oportunidade para prender 69 marinheiros já
anistiados que haviam participado da Revolta da Chibata (embora, como já foi
dito, eles nada tivessem a ver com a revolta da ilha das Cobras). Muitos foram
fuzilados sumariamente.
João Cândido foi encarcerado numa cela minúscula, na qual 17 prisioneiros
morreram asfixiados depois que cal virgem misturada a água foi jogada dentro
do cubículo. Após 18 meses numa masmorra subterrânea, o Almirante Negro foi
internado num hospício por três médicos da Marinha, embora os psiquiatras do
Hospital de Alienados afirmassem que ele não era nem estava louco. Ainda
assim, a sorte de João Cândido foi melhor que a de outros 250 marinheiros
presos: junto com cerca de 250 ladrões, 180 desordeiros, 120 cafetões e 44
meretrizes, eles foram enfiados no cargueiro Satélite e mandados para o exílio no
Acre. O “navio da morte” zarpou do Rio no dia 24 de dezembro de 1910. No dia
1º de janeiro de 1911, nove marinheiros que haviam tomado parte na Revolta da
Chibata foram fuzilados a bordo e seus corpos jogados ao mar. Dos que
chegaram vivos ao Acre (onde, ironicamente, João Cândido lutara, em 1904, no
bando do caudilho Plácido de Castro), duzentos foram incorporados à Comissão
Rondon, que instalava linhas telegráficas na região, e os demais ficaram
abandonados às margens do rio Madeira, para trabalhar junto com os
seringueiros. Quase todos eram negros e mulatos. Quanto a João Cândido


M
Felisberto, libertado da prisão em 1914, morreu de câncer, na mais completa
miséria, numa favela do Rio, em dezembro de 1969.
A GUERRA DO CONTESTADO
enos de dois anos depois da Revolta da Chibata, uma outra insurreição –
muito mais sangrenta, duradoura e problemática – iria abalar os já frágeis
alicerces do governo Hermes da Fonseca. A chamada Guerra do Contestado seria
uma espécie de reprise, ocorrida quinze anos mais tarde e em pleno sul-
maravilha, do massacre que se desenrolara em Canudos em 1896. Os dois
episódios se assemelham em muitos aspectos: no messianismo primitivo, no
desespero dos “fanáticos”, na crueldade quase demente dos soldados que os
combateram, nos interesses exclusivistas das elites, nos delírios apocalípticos do
“monge” João Maria (à direita), tão similares aos de Antônio Conselheiro.
Acima de tudo, os dois casos se unem também pelo desfecho trágico e
sangrento.

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