Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
Itinerário da volta: Cananor, Índia (16.1.1501) – Moçambique (12.2) – cabo das Tormentas (19.4) –
Cabo Verde (15.7)
Data de regresso: 23 de julho de 1501, novamente na praia do Restelo, em Lisboa
Duração da viagem: 501 dias
Navios restantes: seis
Sobreviventes: em torno de quinhentos homens
A CARTA DE BATISMO
or mais de três séculos, o principal e mais esplendoroso documento relativo à


P
chegada dos portugueses ao Brasil permaneceu desconhecido –
“praticamente sequestrado”, de acordo com o historiador português Jaime
Cortesão – no Arquivo da Torre do Tombo, em Lisboa. Foi redescoberto em
fevereiro de 1773 pelo guarda-mor do arquivo, José Seabra da Silva. Ainda
assim, quase meio século se passaria antes de a carta de Pero Vaz de Caminha
ser publicada pela primeira vez, pelo padre Manuel Aires do Casal, em sua
Corografia brasílica, editada em 1817. O padre, porém, arvorou-se a cortar
vários trechos que considerou “indecorosos”.
Talvez por isso, somente em 1900 – quando da comemoração do quarto
centenário do descobrimento do Brasil –, a carta voltaria a receber a atenção dos
eruditos. Oito anos mais tarde, Capistrano de Abreu lançou seu extraordinário
estudo Vaz de Caminha e sua carta. Só então se revelaram plenamente a agudeza
das observações, a fragrância dos retratos, a vivacidade descritiva, a precisão
etnológica e a acuidade histórica daquela, apesar do evidente anacronismo, que
pode ser considerada uma espécie de “certidão de nascimento” do Brasil.
No instante em que Caminha escrevia a sua carta em Porto Seguro, havia
mais de meio século que os escrivães portugueses exercitavam e afinavam a arte
de registrar os fatos de maior relevo ocorridos em suas viagens marítimas.
Praticamente nenhum daqueles relatos, no entanto, fora redigido por escrivães de
ofício. Caminha seguia na frota de Cabral com a missão de tornar-se o escrivão
(cargo equivalente ao de contador) da futura feitoria de Calicute. Mas era mais
do que isso: era um escritor feito, um homem de letras, requintado e perspicaz,
em pleno domínio de sua arte.
O texto que Caminha legou à posteridade não apenas captura, com minúcia e
frescor, o alvorecer de uma nação, como se constitui em sua primeira obra-
prima.
Ainda assim, a Carta do Mestre João – físico-mor (ou médico chefe) da
armada de Cabral – e a chamada Relação do piloto anônimo (publicada já em
1507) ficaram, de início, muito mais conhecidas que o relato de Caminha. Todos
os documentos relativos à primeira viagem ao Brasil submergiram, porém, no
mesmo ostracismo ao qual Cabral foi relegado, após se recusar a assumir a
subchefia de uma nova esquadra que seria enviada para a Índia. Depois de seu
desempenho na viagem de 1500, Cabral se julgava em condições de ser chefe de
qualquer missão e não quis se submeter às ordens de Vasco da Gama.


E
O terremoto que em 1755 abalou Lisboa também colaborou para o sumiço da
documentação relativa à primeira (e única) viagem de Pedr’Álvares. Por
caminhos ainda misteriosos, a carta de Pero Vaz chegaria até o Arquivo da Real
Marinha do Rio de Janeiro, provavelmente quando da vinda da família real para
o Brasil, em 1808. Nove anos mais tarde, seria enfim publicada pelo padre Aires
do Casal.
Pero Vaz de Caminha nasceu na cidade do Porto, na quinta década do século
XV. Filho de família oriunda da chamada “pequena nobreza”, fora cavaleiro das
casas de D. Afonso V, de D. João II e de D. Manuel. Deveria ter por volta de 50
anos quando se juntou à frota de Cabral. A carta que o imortalizou viria a ser um
de seus últimos atos: quando a feitoria lusitana em Calicute foi atacada, em 16
de dezembro de 1500, entre os mortos em combate encontrava-se o profético
cronista do nascimento do Brasil. Mas seu último desejo foi atendido: na carta,
ele solicitara ao rei que seu genro, Jorge Osouro, fosse trazido de volta do exílio
que amargava em uma das ilhas do Cabo Verde, por ter atacado um padre. Na
mitologia autodepreciativa que o Brasil produz sobre si mesmo, costuma-se
afirmar que Caminha havia pedido emprego para um parente…
O REINO DO PAU-BRASIL
m plena vertigem da Índia, com a pimenta inflamando as imaginações, a
notícia da descoberta de Cabral seria recebida, em Lisboa, com certo fastio.
A nova terra não possuía metais preciosos nem especiarias. O tédio e a desilusão,
porém, não teriam sido imediatos à chegada da nave de Gaspar de Lemos, que
levava as cartas confirmando o “achamento” do Brasil (e que, talvez, levasse
também algumas toras de pau-brasil). Mas a expedição seguinte, feita em 1501
para reconhecer a nova terra, da qual participou, como cosmógrafo, o florentino
Américo Vespúcio, traçaria o destino deste território, reduzindo-o, por quase
meio século, à condição de mero coadjuvante no grande painel das descobertas
portuguesas.
“(…) nessa costa não vimos coisa de proveito, exceto uma infinidade de
árvores de pau-brasil (…) e já tendo estado na viagem bem dez meses, e visto
que nessa terra não encontrávamos coisa de minério algum, acordamos nos
despedirmos dela”, escreveu Vespúcio, em setembro de 1504, ao magistrado de


Florença, Piero Soderini, repetindo o que já dissera ao rei de Portugal, D.
Manuel.
Durante as primeiras décadas, desinteressada em colonizar a terra à qual
Cabral chegara, a Coroa portuguesa acabou por transformá-la numa imensa
fazenda de pau-brasil, logo arrendada à iniciativa privada. Dessa forma, a árvore
que ajudou a dar o nome ao país começaria a se tornar também a mais perfeita
metáfora vegetal do Brasil – mais do que a borracha, o açúcar ou o café.
O pau-brasil (Caesalpinia echinata) tingia linhos, sedas e algodões,
concedendo-lhes um “suntuoso tom carmesim ou purpúreo”: a cor dos reis e dos
nobres. Uma espécie semelhante, a Caesalpinia sappan, nativa da Sumatra, já
era conhecida na Europa desde os primórdios da Idade Média.
A partir do século XVII, porém, praticamente todos os tecidos produzidos em
Flandres e na Inglaterra passaram a ser coloridos pelo “pau de tinta” brasileiro.
Nessa época, a indústria têxtil já começara a se tornar o motor da economia
europeia. Depois de anos de contrição ou andrajos, as mulheres do continente
descobriam, enfim, os requintes da moda. Abria-se, assim, enorme mercado para
as roupas realçadas pela polpa da árvore, extraída aos milhões do litoral da Bahia
e de Pernambuco. A operação era realizada por centenas de traficantes
espanhóis, ingleses e, sobretudo, franceses. Eles foram os primeiros “brasileiros”
– e os únicos de fato merecedores desse nome.
RADIOGRAFIA DO PAU-BRASIL

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