Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
O corpo de Conselheiro foi exumado em 6 de outubro de 1897. Em razão de adiantado estado de
putrefação, não foi possível estabelecer a causa mortis. No entanto, não havia perfurações de bala no
cadáver. A cabeça do beato foi cortada e enviada para a Faculdade de Medicina da Bahia, para ser
examinada por especialistas. Em tempos lombrosianos, acreditava-se que o estudo de seu cérebro
certamente indicaria sinais de anormalidade – quando não as marcas da “criminalidade nata”. Mas o
diagnóstico do diretor da faculdade, Pacífico Pereira, do psiquiatra Juliana Pereira e do consagrado
antropólogo Nina Rodrigues foi frustrante para a imprensa e para o povo. “O crânio de Antônio
Conselheiro não apresenta nenhuma anormalidade que demonstre traços de degenerescência. É um
crânio normal”, dizia o relatório de Nina Rodrigues, um cientista já acusado de ser racista.


E
No dia 3, os combates reiniciaram, e, no dia 5, o Exército enfim entrou em
Canudos: tinha matado seus quatro últimos defensores – dois adultos, um velho
e um garoto. Do arraial restavam apenas escombros fumegantes. A batalha mais
inglória do Exército brasileiro tinha sido vencida. Canudos talvez estivesse
destinado a ser enterrado em cova rasa na vala comum da história, não fosse o
fato de a expedição de Arthur Oscar ter sido acompanhada por um repórter do
jornal O Estado de S. Paulo. Euclides da Cunha transformou Canudos numa
Troia sertaneja e imortalizou Conselheiro ao escrever Os sertões, talvez o maior
clássico da literatura brasileira.
EUCLIDES DA CUNHA E OS SERTÕES
ngenheiro formado pela Escola Militar da Praia Vermelha, sob forte
influência positivista, Euclides Pimenta da Cunha (1866-1909) era um
republicano convicto que acreditava que uma literatura engajada e de combate –
elaborada com paciência, meticulosidade e ciência – poderia ajudar a construir
um país melhor.
Nesse sentido, e em vários outros, a obra literária desse matemático formado
em ciências físicas e naturais e que, paralelamente, decidira seguir também a
carreira jornalística, nada tinha a ver com a “República das Letras” da rua do
Ouvidor – caracterizada por seu preciosismo gramatical, seu dandismo, sua
arrogância tipicamente belle époque. Talvez justamente por isso, Euclides tenha
passado a noite anterior ao lançamento de seu primeiro livro, Os Sertões,
corrigindo, com um canivete de pena, um a um, nos mil exemplares da primeira
edição, os 80 erros que encontrara na obra. Tamanha meticulosidade seria
plenamente recompensada: ao ser lançado pela respeitada editora carioca
Laemmert, em 11 de dezembro de 1902, Os Sertões tornou-se, literalmente da
noite para o dia, um estrondoso sucesso.
Embora cinco anos já houvessem passado desde os sangrentos e
amendrontadores acontecimentos de Canudos, o episódio tinha permanecido
vivo na memória nacional. Além de possuir todos os ingredientes necessários
para um grande romance – o caráter épico, as tensões dramáticas, as derrotas
militares, uma insurreição de miseráveis –, o livro fora escrito em estilo inovador
e marcante. Recendia a terra e sangue, era agreste e desconhecido como o


próprio sertão; era espantosamente real.
Além disso, apresentava aos brasileiros letrados um Brasil que eles jamais
tinham visto, suposto ou tentado entender. A sinceridade, o tom quase homérico,
as peculiaridades verbais de Euclides – “ele escreve como com um cipó”, diria
Joaquim Nabuco – tornaram sua prosa uma febre nacional. A primeira edição
logo se esgotou e muitas outras se seguiram. Um século depois, Os Sertões
permanece tão admirável quanto no primeiro dia.
Euclides da Cunha nasceu em Cantagalo, no Rio de Janeiro, em novembro de
1866. Impossibilitado de continuar pagando a Escola Politécnica, transferiu-se
para a Escola Militar da Praia Vermelha, que era gratuita. Tornou-se aluno de
Benjamin Constant e, como tantos de seus pupilos, “converteu-se” ao
positivismo. Em 4 de novembro de 1888, quando o então ministro da Guerra,
Tomás Coelho, visitava a escola, Euclides, abolicionista e republicano radical,
saiu da formação e jogou o sabre no chão. Foi preso e expulso da escola, mas
ficou tão famoso por causa da ousadia que acabou sendo contratado para
escrever para o jornal O Estado de S. Paulo.
Com a proclamação da República, seria lembrado como o intrépido
“estudante da baioneta” e, por ordem do próprio Deodoro, voltou à Escola, onde
se formou em engenharia militar, matemática e ciências físicas e naturais. Em
agosto de 1896, Euclides já era capitão quando uma nova punição – provocada
pelo radicalismo de seus artigos em O Estado – o levou a desistir de vez da
carreira militar e a se reformar.
Após um ano exato, Júlio Mesquita, diretor do jornal, decidiu enviá-lo como
repórter para o front, em Canudos. No dia 14 de agosto, com a tropa do marechal
Carlos Bittencourt, Euclides partiu para Salvador. Chegou a Canudos em 16 de
setembro – apenas seis dias antes da morte de Conselheiro.
No dia 5 de outubro, tombaram os últimos defensores do arraial. “Eram
quatro apenas”, escreveu Euclides. “Um velho, dois homens feitos e uma
criança, na frente dos quais rugiam 5 mil soldados.”
Os ideais românticos de Euclides morriam junto com os quatro derradeiros
sertanejos de Canudos. De volta a São Paulo, decidiu escrever seu “livro
vingador”. Ele o fez à margem do rio Pardo (São Paulo), onde passou três anos
supervisionando a construção de uma ponte. Lá, numa cabana de teto de zinco, à
sombra de uma paineira, nasceria um dos mais extraordinários livros da história


da literatura brasileira: um texto primoroso capaz de decifrar os mistérios e os
horrores do Brasil – que, passado mais de um século, o Brasil, de certa forma,
segue ignorando.

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