Brasil, uma história



Baixar 2.26 Mb.
Pdf preview
Página106/193
Encontro22.07.2022
Tamanho2.26 Mb.
#24335
1   ...   102   103   104   105   106   107   108   109   ...   193
Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
página anterior). Não foi um combate lírico: o número de baixas e a carnificina
dos embates não encontram paralelos em nenhuma outra luta travada no Brasil.
CORES E NOMES
No folclore e na tradição do Rio Grande do Sul, a guerra civil de 1893 foi o combate feroz entre
“maragatos” e “pica-paus”. Maragatos era o apelido que identificava os chamados federalistas. O
primeiro bando de rebeldes que invadiu o Rio Grande do Sul para combater os desmandos de
Castilhos, em fevereiro de 1893, veio do Uruguai, de um departamento povoado por espanhóis
oriundos da província de Maragataria. Os republicanos os apelidaram então de “maragatos” –
insinuando que se tratava de um bando de invasores estrangeiros. Mas o pejorativo acabou sendo
adotado como dístico de honra. Os republicanos castilhistas – que se autodenominavam “legalistas” –
foram, por sua vez, batizados de “pica-paus”. A origem do termo é controversa: para alguns, deve-se ao
estampido de suas armas de fogo; para outros, era devido ao quepe vermelho usado pelas tropas
castilhistas. Pelo menos nas cores os dois grupos combinavam: afinal, os “maragatos” usavam um
lenço “colorado” ao redor do pescoço.
Já envelhecido, Silveira Martins mostrou-se omisso e vacilante durante todo
o conflito. O verdadeiro chefe militar dos insurretos era o caudilho brasileiro-
uruguaio Gumercindo Saraiva. Os exércitos rebeldes não passavam, em geral, de
bandos de peões comandados por estancieiros – alguns veteranos da Guerra do
Paraguai e outros, como o próprio Saraiva, das revoluções platinas. Sua tática
era a guerrilha, que, várias vezes sufocada, invariavelmente renascia. Em


T
setembro de 1893, os rebeldes ganharam novo fôlego graças à eclosão, no Rio,
da Revolta da Armada. Com a tomada da cidade do Desterro (hoje Florianópolis
– SC) pelos revoltosos da Marinha, deu-se o enlace entre dois movimentos
revolucionários que nada tinham em comum a não ser o ódio ao “jacobinismo
florianista”. Ainda assim, com a derrota de Gumercindo Saraiva em julho de
1894, em Passo Fundo – num sangrento combate que marcou a vitória da arma
de fogo contra a arma branca e do “quadrado” da infantaria contra as cargas de
cavalaria –, a guerra virtualmente acabou. Mas a sublevação persistiria na forma
de um protesto inútil e sangrento até a posse de Prudente de Morais – o
presidente que aplacou o ódio de vencedores e vencidos. O Rio Grande do Sul,
no entanto, seguiria violento e dividido até 1930.
GUERRA EM CANUDOS
remeluzindo sob o Sol inclemente do sertão, o arraial de Canudos se erguia
onde antes havia apenas os arbustos espinhosos da caatinga. Embora
parecesse uma favela, era um aglomerado impressionante: possuía 5.200 casas e
cerca de 20 ou 25 mil habitantes. Eram números espantosos: em fins de 1896,
Juazeiro, a maior cidade no norte da Bahia, tinha 3 mil moradores, e a capital,
Salvador, 200 mil. A maioria absoluta dos habitantes de Canudos era de
sertanejos indigentes, agrupados em torno da figura misteriosa do beato Antônio
Conselheiro.
No solo miserável do sertão, Conselheiro encontrara terreno fértil para sua
pregação messiânica. A decadência dos engenhos, o fim da escravidão, a seca
terrível de 1878 (durante a qual, só no Ceará, cerca de 100 mil pessoas morreram
de fome), a limitação do mercado de trabalho provocada pelo fluxo incessante de
imigrantes europeus: tudo conduzira ao caos social no Nordeste. Nesse ambiente
de vertigem e desespero, surgiu a figura magnética de Conselheiro.
Antônio Vicente Mendes Maciel nasceu no Ceará, em 1828. Filho de um
comerciante, que pretendia fazer dele um padre, Antônio fora professor e
ambulante, quando problemas financeiros e domésticos (a mulher o abandonou)
o converteram em beato – uma espécie de nômade do sertão, um cangaceiro
místico e asceta que por 17 anos perambulou pela caatinga, conclamando o povo
a construir e reconstruir igrejas, reerguer os muros dos cemitérios e levar uma


E
vida de penitência e meditação. Em 1876, preocupados com o ajuntamento em
torno de Conselheiro, a Igreja e o governo começaram a transformá-lo em mártir.
Falsamente acusado de ter matado a mulher e o filho, Conselheiro foi preso.
Julgado inocente, foi liberado e retornou à deriva no mar arenoso do sertão. Em
1893, depois de quase duas décadas de peregrinação e já com cerca de oito mil
seguidores, Conselheiro encontraria seu porto seguro em uma fazenda da Bahia.
Lá surgiria o arraial de Belo Monte, mais tarde batizado de Canudos. Em poucos
meses, Conselheiro – ajudado por homens como João Abade, Pajeú, Joaquim
Tranca-Pés, Raimundo Boca-Torta, Chico Ema, Antônio Beato e Manoel
Quadrado – começou a materializar a utopia de uma sociedade evangélica
autossuficiente. Em Canudos não havia propriedade privada: terra, rebanhos e
lavouras eram de todos. Milho, feijão, mandioca e cana eram cultivados
coletivamente. Cabras forneciam carne, queijo e leite. Suas peles, curtidas, eram
vendidas em Juazeiro e exportadas até para os EUA. Canudos se tornou a meca
dos desvalidos. Um outro Brasil.
A proclamação da República, em 1889, desagradara Conselheiro –
especialmente porque, além de ter criado novos impostos municipais, havia
decretado a separação entre o Estado e a Igreja, o que acabara com a
obrigatoriedade do casamento religioso, tornando suficiente o casamento apenas
no civil. Em 1893, em Bom Conselho, Conselheiro mandara arrancar e queimar
as ordens de cobrança de impostos e se complicara com a lei. Seu culto era
sebastianista – antiga seita messiânica que previa o retorno, do fundo do oceano,
de D. Sebastião, o rei português morto no Marrocos em 1578. Conselheiro, por
isso, era monarquista. Nesse contexto, como se verá, um episódio corriqueiro de
desonestidade comercial precipitou o início da grande tragédia.
O VEXAME DO EXÉRCITO
m agosto de 1896, a comunidade de Canudos comprara um carregamento de
madeira de um comerciante de Juazeiro. A carga – já paga – não chegou ao
destino. Injuriado, Conselheiro avisou que seus seguidores iriam à cidade retirar
a madeira. Alarmado com o boato de que o “bando de fanáticos” saquearia a
cidade, o juiz de Juazeiro (que já fora desafiado por Conselheiro três anos antes,
em Bom Conselho, quando o beato mandara queimar as ordens de cobrança de


impostos) de imediato pediu ajuda ao governador. Em novembro, uma tropa de
cem soldados foi enviada à região e, concluindo que o ataque era a melhor
defesa, decidiu invadir o arraial.
No vilarejo de Uauá, os soldados foram surpreendidos por trezentos
sertanejos armados de paus e pedras. Apesar de 150 homens de Conselheiro
terem sido mortos, contra apenas dez mortos e dezesseis soldados feridos, as
forças legais bateram em retirada. O Exército então concluiu que o episódio
clamava por vingança. E ela cedo viria: antes do fim de novembro de 1896, 543
soldados, quatorze oficiais, duas metralhadoras e dois canhões foram enviados
numa expedição punitiva. No dia 20 de janeiro de 1897, novamente
desmoralizados, famintos e de fardas rasgadas, os soldados dessa segunda tropa
batiam em retirada, sob a vaia e o fogo cerrado dos sertanejos.
A derrota da segunda expedição, comandada pelo major Febrônio de Brito,
não só chocou as instituições estaduais e federais como deixou claro para o
Exército que a Igreja e o governo de Canudos eram uma séria ameaça à ordem
estabelecida. E assim, com apoio do governo central, uma nova força militar foi
reunida com o intuito de, agora sim, arrasar o arraial rebelde a qualquer custo.
Para chefiá-la foi escolhido o coronel Moreira César.
Apesar de epilético, descontrolado e vingativo – responsável pelo
fuzilamento sumário de 49 rebeldes em Desterro – SC, durante a Revolta da
Armada (leia p. 263) –, Moreira César era herói nacional, com um currículo
repleto de vitórias. E, dessa vez, com a ajuda de 1.300 soldados, vários oficiais,
metralhadoras, fuzis, 15 milhões de cartuchos e quatro canhões, ele tinha tudo
para vencer outra vez. A tropa partiu de trem de Salvador no dia 3 de fevereiro.
No dia 18, já acampava em Monte Santo, a 60 km de Canudos. Duas crises
epiléticas do comandante atrasaram o assalto ao arraial. Mas, em 2 de março,
com seus homens já famintos e sedentos, Moreira César, exalando confiança,
disse: “Vamos almoçar em Canudos”. E ordenou a investida.
O impossível aconteceu outra vez: os sertanejos repeliram o primeiro ataque.
Cego de ódio, Moreira César ordenou outro assalto. Gritou: “Vamos tomar o
arraial sem tiros. À baioneta!”. Mas as ruas de Canudos pareciam um labirinto e,
ao entrarem na cidade, os soldados viraram alvo fácil para os franco-atiradores
postados no alto das torres da nova igreja. Moreira César tomou nova decisão
equivocada ao ordenar o avanço da cavalaria, incapaz de manobras entre ruelas e


A
os casebres que serviam de abrigo aos nativos. Ao investir ele próprio contra o
arraial, o próprio Moreira César tombou morto. Vencidos e humilhados, os
soldados bateram em retirada deixando seu arsenal – inclusive os canhões – na
mão dos inimigos.
A repercussão da derrota e morte de Moreira César foi retumbante. Setores da
imprensa, do governo e do Exército transformaram Canudos em símbolo das
ameaças que rondariam a consolidação do regime republicano. Os boatos mais
delirantes circulavam pelo Rio de Janeiro. Jacobinos viam na revolta um levante
monarquista e republicanos radicais clamavam por sangue. Ele logo correria.
O MASSACRE FINAL
paranoia dos jacobinos – que viam em tudo o dedo oculto dos monarquistas
–, o sensacionalismo irresponsável da imprensa, os frágeis alicerces da
República, a crônica cegueira das elites brasileiras com relação aos problemas
sociais do país: tudo contribuiria para tornar um episódio originado pelas
centenárias desigualdades da vida no sertão não em uma inovadora possibilidade
de convívio entre miseráveis e abonados, mas numa tragédia sem paralelo na
história do país.
Em abril de 1897, o general Arthur Oscar começou a formar a tropa escalada
para exterminar 20 mil desgraçados. A expedição, minuciosamente planejada, foi
dividida em duas colunas: a primeira, na qual seguiria Arthur Oscar, tinha dois
mil homens e partiria de Monte Santo, passando pela serra do Calumbi; a
segunda, sob o comando do general Savaget, reunia 2.350 homens e sairia de
Sergipe rumo a Jeremoabo, na Bahia. Os dois grupos levavam mais de 700
toneladas de munição, metralhadoras e canhões Krupp, além do canhão
Withworth 32, chamado de “Matadeira”, tão grande que eram necessárias vinte
juntas de boi para movimentá-lo lentamente pelos morros agrestes e planícies
áridas dos cafundós do sertão baiano.
Em junho de 1897, ambas as tropas estavam prontas para a luta. Mais uma
vez, porém, a primeira vitória foi dos rebeldes. No dia 25 de junho, ao partir de
Jeremoabo rumo ao arraial, uma coluna comandada pelo general Savaget foi
atacada por guerrilheiros no planalto de Cocorobó. Depois de mais de oito horas
de combate, 178 militares estavam mortos. Ao mesmo tempo, na frente sul, a


tropa do comandante-chefe Artur Oscar também estava cercada, no morro da
Favela. Os dois acampamentos eram alvos constantes de ataques suicidas:
sertanejos cruzavam as linhas e atiravam contra os oficiais.
Em fins de julho, o Exército não apenas não conseguira vitória significativa
como tivera mil baixas. Conservando com dificuldade suas posições, as tropas
aguardavam desesperadamente por reforços. Eles chegaram em meados de
agosto: três mil homens que haviam sido reunidos às pressas por todo o país. No
dia 24, um disparo da “Matadeira” derrubou o sino da igreja de Canudos. Duas
semanas depois, a própria igreja foi reduzida a escombros. Era um sinal claro:
raiavam os últimos dias na cidade da utopia evangélica. Quase um mês mais
tarde, em 22 de setembro, morria Conselheiro. Até hoje não se sabe o que o
matou: estilhaços de granada, parada cardíaca, problemas gastrintestinais
provocados pela má alimentação, desgosto profundo, pura premonição?
Sem o líder, os sertanejos insurretos arrefeceram seu ânimo. Havia cerca de
um ano viviam sitiados. Tinham acumulado dezenas de pequenas vitórias,
infligindo muitas humilhações às tropas republicanas, aproveitando-se de todas
as vantagens estratégicas que a terra crestada do sertão e as agruras às quais
estavam acostumados desde sempre podiam lhes oferecer. Mas não era possível
resistir mais. No dia 3 de outubro de 1897, uma bandeira branca foi erguida entre
as ruínas chamuscadas de Canudos. Dois jagunços – um deles era Antônio
Beato, “ex-chefe de polícia” do arraial – foram negociar com o Exército a
rendição de 300 mulheres, velhos e crianças. Os demais ficaram para o combate
final.
UM CÉREBRO NORMAL

Baixar 2.26 Mb.

Compartilhe com seus amigos:
1   ...   102   103   104   105   106   107   108   109   ...   193




©historiapt.info 2022
enviar mensagem

    Página principal