Brasil, uma história



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Eduardo Bueno - Brasil. Uma história
Rápida, silenciosa e barata, a degola foi a forma predileta de execução ao longo dos dois anos e meio
durante os quais a guerra civil de 1893 sangrou o Rio Grande do Sul. As vítimas eram mortas da
mesma maneira como se abatiam carneiros: forçadas a se ajoelhar ante seu algoz, tinham a cabeça
colocada entre as pernas do executor, que então lhes rasgava a carótida com um súbito golpe de faca.
Os castilhistas degolaram antes e mais que os federalistas – mas, sempre que possível, houve
vingança. Os dois episódios mais infames foram os massacres do Rio Negro e do Boi Preto. O primeiro
se deu em 27 de novembro de 1893. Nesse dia, sob as ordens do comandante Silva Tavares, o negro
uruguaio Adão Latorre degolou 180 federalistas que tinham se rendido sob a promessa de terem suas
vidas poupadas. Em 5 de abril de 1894, em Boi Preto, os federalistas se vingaram degolando 250
homens da brigada do general Firmino de Paula. Os principais líderes dos maragatos, ou federalistas,
foram os irmãos Gumercindo e Aparício Saraiva (à direita), nascidos na fronteira entre o Uruguai e o
Brasil. Os dois falavam mais espanhol que português e eram típicos caudilhos do pampa:
contrabandistas de gado, guerrilheiros de vida tempestuosa e de ideais supostamente libertários.
Embora,
após
a
proclamação
da
República,
Deodoro
tivesse,
surpreendentemente, escolhido um liberal para governar o Rio Grande do Sul, o
exílio do Tribuno fez com que o Sul passasse a ter um novo senhor. Mas,
ironicamente, seria um movimento contra Júlio de Castilhos que ajudaria a
derrubar o marechal Deodoro. E a queda de Deodoro acabou arrastando
Castilhos. Mas não por muito tempo: saindo do poder em novembro de 1891,
Castilhos o retomou com um golpe em junho de 1892. Entre um período e outro,
nada menos do que dez governos tinham dirigido o Rio Grande do Sul. Em
fevereiro de 1892, Silveira Martins havia retornado do exílio, transformando o
estado em um barril de pólvora. Mas, assustado com o parlamentarismo radical
do Tribuno, Floriano Peixoto, novo presidente do Brasil, pragmaticamente
preferiu apoiar Castilhos – apesar de ele ser um antigo aliado de Deodoro.
E assim, com o aval (ou pelo menos a omissão) do governo central, Castilhos
– que, em julho de 1891, havia redigido uma constituição estadual que era o
próprio elogio da monocracia (governo de um homem só) – tornou-se mais
autoritário, vingativo, intolerante e sectário do que jamais fora. Aos seus
adversários, só restava a rebelião. E ela não demoraria a estourar.
O RIO GRANDE INSURRETO
pós fraudes escandalosas em duas eleições e uma sucessão de assassinatos
políticos, Júlio de Castilhos assumiu a Presidência do Rio Grande do Sul


em 25 de janeiro de 1893. Uma semana depois, em 2 de fevereiro, a guerra civil
rebentou. Contra Castilhos se ergueram não só os federalistas de Gaspar Silveira
Martins, mas também monarquistas, perseguidos e descontentes em geral e até
mesmo republicanos (tanto de tendência parlamentarista quanto presidencialista)
que o sectarismo do ditador havia afastado do partido.
Porém, a força dos revoltosos acabou se revelando sua fraqueza: afinal, além
do ódio a Castilhos, os rebeldes nada mais tinham em comum. Por outro lado, os
castilhistas – que eram positivistas de vontade férrea, extremamente unidos e
disciplinados – fechavam colunas sólidas. Além disso, os “legalistas” contavam
com o apoio de Floriano Peixoto e do Exército paulista.
A guerra iria perdurar por 31 meses, estendendo-se pelos três estados
meridionais (quase chegando a São Paulo) e cobrando, como um sinistro tributo,
a vida de pelo menos 10 mil homens – muitos mortos por degola (leia box na

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