Bolar no santo é uma vontade das energias, espiritual puro!



Baixar 23.59 Kb.
Página1/2
Encontro18.03.2020
Tamanho23.59 Kb.
  1   2

Bolar no santo é uma vontade das energias, espiritual puro!”: repensando a pessoa e o transe no noviciado dos candomblés


Anderson Rodrigues Teixeira (PPGCIS/ PUC-Rio)

Doutorando em Ciências Sociais (PUC-Rio)

Mestre em Ciências Sociais (PUC-Rio/2017)

Especialista em Ciências da Religião (FSB-RJ/2014)

Especialista em História e Cultura Afrodescendente (PUC-Rio/2013)
A proposição desta comunicação é um desdobramento de reflexões atravessadas por minha dupla vivência, como homem de axé e acadêmico. A experiência do transe místico fez parte de minha vida desde a infância, delineando de diferentes maneiras minha biografia. E, tendo subjetivamente diversificadas percepções sobre este fenômeno, reelaboro-o neste trabalho em diálogo direto com outros sujeitos, desde que decidi imergir etnograficamente em terreiros de candomblé do Rio de Janeiro.

Ao longo do século XX vasta literatura socioantropológica (Bastide, 1973, 2001 [1961]; Goldman, 1984, 1985; Verger, 1987, 2002 [1981], 2012 [1999]; etc.) têm sublinhado a experiência extática como um elemento estruturante das religiões de Matriz Africana no Brasil. Inúmeras pesquisas no chamado campo dos estudos afro-brasileiros vêm tratando a temática do transe místico e suas implicações na produção epistêmica elaborada na vida cotidiana dos terreiros. No quadro amplo e diversificado destas religiosidades, a manifestação extática das divindades apresenta-se como um elemento comum, modulado de múltiplas e criativas maneiras. Entretanto, neste estudo, irei me debruçar especificamente nas formas como o transe é vivenciado apenas no candomblé, salientando suas respectivas implicações filosóficas e teológicas.

É Marcel Mauss (2003 [1938]) quem primeiramente demonstra o caráter de constructo que a categoria de pessoa apresenta na enorme variabilidade das culturas humanas. Em contrapartida, na produção acadêmica brasileira, no bojo dos estudos sobre as religiões de Matriz Africana, diversas abordagens foram propostas para o entendimento desta categoria nas práticas do povo de axé. Porém, é Goldman (1984; 1985) quem opõe-se ao modelo arquetipal da noção de pessoa amplamente difundido nos estudos anteriores, como frisa Clara Flaksman (2016). Para este antropólogo, as divindades cultuadas nos terreiros atuam como componentes da pessoa, ao invés de meros modelos de personalidade. Assim, a vivência dos ritos iniciáticos, e suas respectivas atualizações, não passariam de momentos em que a pessoa incorpora sucessivamente seus componentes constituintes (cf. Goldman, 1985). É fato indiscutível que as forças do universo – orixás, voduns ou inquices, conforme as diversas modulações religiosas – formam a potência nuclear do sistema teológico e filosófico do candomblé.

Então, neste caso, a centralidade do transe místico está estritamente atrelada à outra noção chave deste universo: a concepção de pessoa múltipla (cf. Goldman, 1984; 1985). Do noviciado à reclusão iniciática (“feitura do santo”), podemos identificar uma espécie de gradiente da experiência extática, que pode ser vivida desde que o adepto ingressa como abiã (postulante à iniciação), até alcançar o status de iaô (iniciado). Vislumbra-se, com isso, uma dupla modulação das potências: a) a “bolação” (fase “bruta” do transe, e b) o “santo feito” (fase “acabada” do transe). É neste percurso – de duração e formas bastante variadas – que se constrói o bloco adepto-orixá (cf. Opipari, 2009), visto que a pessoa neste prisma epistêmico é sempre heterogênea e múltipla (cf. Goldman, 1984; 1985).

Contudo, proponho uma discussão mais atenta a respeito das etapas que precedem o transe de orixá dos já iniciados (a “viração no santo”, o “santo feito”), ou seja, daquilo que Bastide (2001 [1961]) identificou como “santo bruto”. Por conseguinte, a “bolação” ou o “bolê” – como observo no dia-a-dia de muitas casas de axé – constitui-se como verdadeira etapa primeva da longa e interminável jornada de individuação no candomblé. Mas como também observa Flaksman (2016) é imprescindível não confundir tal processo com o que costumeiramente se compreende no chamado ocidente como individualização. Aliás, esta última constitui formulações epistêmicas opostas ao que propõe a vida no santo.

Partindo de casos empíricos, que coletei ao longo do meu trabalho de pesquisa no mestrado a respeito do noviciado (abianato) em alguns terreiros de candomblé no Rio de Janeiro, analiso como o transe bruto experimentado pelos noviços (abiãs) pode revelar a dimensão tanto sociológica, quando ritual desta etapa na estrutura extremamente hierárquica de tais coletividades. As narrativas das vivências extáticas de muitos abiãs demonstram também o caráter pedagógico que elas encerram, ao introduzi-los numa episteme-outra. Na “bolação do santo”, o novo adepto poderá vivenciar pela primeira vez uma breve – porém muitas vezes decisiva – atualização de seu orixá (até então, virtualidade cósmica). Como afirma a sacerdotisa Marina de Sobô, “bolar no santo é uma vontade das energias, espiritual puro”, não deixando dúvidas da existência das mesmas, assim como, de suas intenções no mundo dos humanos, jogando por terra a ideia de escolha pessoal, tão cara ao sujeito moderno ocidental.

Enfim, atuando diretamente no processo iniciático de muitos neófitos e acompanhando etnograficamente o noviciado de tantos outros, percebi a incorporação prática paulatina dos sentidos produzidos por estes grupos, tanto no que concerne a noção de pessoa, quanto ao papel preponderante das potências cósmicas na determinação dos destinos humanos. Observando e sublinhando as construções epistemológicas do povo de axé desde o terreiro, sinalizo os múltiplos enlaces dos humanos com os orixás, evidenciando possibilidades epistemológicas contra-hegemônicas.




Compartilhe com seus amigos:
  1   2


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal