Bioética: contexto histórico, desafios e responsabilidade


Considerações Conclusivas



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Texto 03 - Bioética - contexto histórico, desafios e responsabilidade - HECK
Considerações Conclusivas
Onde imperam processos despersonalizados, não há condições para desenvolver matrizes de
responsabilização personalizada. A lógica que rege as dinâmicas anônimas não é acessível às categorias
da ação responsável, mas nivela por baixo o senso de responsabilidade. O desaparecimento da
responsabilização pessoal corre paralela à construção de aparatos funcionais destinados a administrar


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ethic@,
 
Florianópolis, v.4, n.2, p.123-139 , Dez 2005.
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vidas humanas, estruturar complexos societários que abarcam o Estado, a economia, a técnica, a
ciência, além de partidos, sindicatos, associações, e outras organizações que, mais ou menos agregadas,
gerenciam as existências atribuladas de indivíduos ou delas se apoderam como sua razão de ser. Na
contramão dessa absorção existencial, por parte de organismos coletivos, flui o processo de emigração
da responsabilidade pública, abandonando a esfera coletiva em direção à imigração na vida privada.
Frente ao impasse há que reagir com uma modificação na competência pessoal de seres
responsáveis. A mudança consiste em distinguir a noção de responsabilidade da noção de dever.
Trata-se de separar a responsabilidade bioética e ambiental do domínio próprio às obrigações, bem
como de determinar a co-responsabilidade pelo futuro da espécie por meio de uma escala de
preferências, suficientemente aberta a múltiplas alternativas de ação, decorrentes das respectivas
configurações circunstanciais que a liberdade humana projeta ao longo da vida.
Tal sustentação de responsabilidade explica por que o mundo do trabalho, por mais diversificado
que esteja técnica e burocraticamente, não se encontra organizado por critérios que o perpassam até
os mínimos detalhes e tampouco funciona a contento em atenção a prescrições que o regulam até as
últimas dobras da lógica laboral. O que ocorre é o oposto de uma organização diretiva abrangente. Na
medida em que o mundo da produção de bens se diversifica e se humaniza, multiplicam-se alternativas
de atuação sem regramento prévio e o detalhamento diretivo toma paulatinamente conta do vácuo
normativo, o mapeia e o faz objeto de análise e avaliação corretiva, respectivamente.
A compensação diretiva da co-responsabilidade devolve à obrigatoriedade dos deveres a
difusão da irresponsabilidade.


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Florianópolis, v.4, n.2, p.123-139 , Dez 2005.
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Notes
1
MACKIE, J.
Inventing right and wrong.
London: Penguin, 1977; HARE, R.
The langage of morals.
Oxford: Oxford University Press, 1952;
Essays on Biorethics
. New York: Oxford University Press, 1993.
2
PESSINÍ, L. & BRACHIFONTAINE, C.
Problemas atuais de bioética
. São Paulo: Loyola, 2000.
3
TUGENDHAT, E. Menschenrechte.
Vorlesungen über Ethik
. 3. Aufl.
Frankfurt a/Main: Suhrkamp, 1993, pp. 336-363.
A versão contratualista de Tugendhat compõe uma variante da sugestão de J.-L. Mackie de erigir a moral sobre o
conceito dos direitos subjetivos, em vez de elaborá-los com os conceitos do dever (Kant) e do benefício do maior
número (Mill). “Der Vorschlag, die Moral auf Rechte zu beziehen, ist ein Gegenvorschlag gegen den Utilitarismus”
(Op. cit., p. 337).
4
SINGER, P.
Animal liberation
. New revised edition.
New York: Avon Books, 1991.
5
FELIPE, S. T.
Por uma questão de princípios. Alcance e limites da ética de Peter Singer em defesa dos animais
.
Florianópolis: Boiteux, 2003.
6
ENGELHARDT Jr.
The foundations of Christian bioethics
. Lisse, Netherlands: Swets & Zeitlinger, 2000, p. 4: “(…) the phenomenon of bioethics was in many ways associated
with the deprofessionalization of medical ethics and its reconceptualization as a secular, philosophically oriented
discipline independent of the health care profession”.
7
REICH, W. The Word
‘Bioethics
’: Its Birth and the Legacies of Those who Shaped its Meaning. In.:
Kennedy Institut of Ethics Journal
4, pp. 319-336, 1994.
8
Idem (Ed.)
Encyclopedia of Bioethics
. New York: Macmillan Free Press, 1978.
9
POTTER, V. R. Bioethics, the Science of Survival.
Perspectives in Biology and Medicine
14, pp. 127-153, 1970;
Biocybernetics and Survival. Zygon
5, p. 229-46, 1970.
10
Idem.
Bioethics: Bridge to the Future
. Englewood Cliffs, NJ: Prentice-Hall, 1971.
Os capítulos do texto correspondem a uma série de artigos, já publicados anteriormente, à exceção do capítulo no
qual o autor tematiza o conceito de “bioética”, à época inédito.


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27
KERSTING, W. Verantwortliche Verantwortung (Vorwort). In.: HEIDBRINK, Ludger. Kritik der
Verantwortung. Zu den Grenzen verantwortlichen Handelns in komplexen Kontexten. Weilerswist:
Velbrück Wissenschaft, 2003, p. 10. “Die überbordende Verantwortungsrhetorik gleicht dem Pfeifen
im dunklen Wald”.
28
LUDGER, H. Grundprobleme der gegenwärtigen Verantwortungsdiskussion. In.: Information
Philosophie, Heft 3, pp. 18-31, 2000.


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