Bioética: contexto histórico, desafios e responsabilidade



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Texto 03 - Bioética - contexto histórico, desafios e responsabilidade - HECK
ethic@,
 
Florianópolis, v.4, n.2, p.123-139 , Dez 2005.
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filosófica qualificada, quer dizer, as raízes da bioética encontram-se lançadas num hábitat esférico que
alberga culturas, valores e verdades cuja respectiva familiaridade equivale ao princípio de não-
contradição da tragédia. A bioética passa ao largo das crises paradigmáticas do conhecimento ao
longo da história e ignora ostensivamente la crème de la crème dos discursos pós-metafísicos, pós-
modernos e pós-revolucionários. A nova ciência normativa é movida por uma dinâmica trágica em vias
de ser globalizada. A nova ética traz para o primeiro plano o senso comum do antagonismo, a rotina
inata do conflito e a cotidianidade exemplar do repúdio, o que faz do esquecimento do ser, do nivelamento
da indústria cultural e da banalização política do corpo eventos pré-históricos da tragédia global de
alteridades.
Uma vez aldeia, o planeta deixa de acenar para alternativas. Não há mais ultramar para nenhuma
cultura, moral ou ética material. A exclusão de um humano pelo outro não vai além do experimento
mental. A bioética faz o caminho de volta de uma responsabilidade que abraça a natureza, envolve o
passado, o presente e o futuro das espécies, além de cuidar da arqueologia de um saber no qual o fato
de algo aparecer oferece a prova de que existe uma responsabilidade por detrás. O objeto da epistéme
bioética é o sintoma da perplexidade normativa de sociedades complexas cujos membros usufruem de
conhecimentos sem os ter ou, como escreve o filósofo alemão Wofgang Kersting (1946-): “A retórica
extasiada acerca da responsabilidade assemelha-se a assobios no fundo da floresta”
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.
A delimitação crítica da idéia abrangente de responsabilidade não pode retroceder à concepção
básica do iluminismo, onde a causalidade de ação e a causalidade de intenção definem o conteúdo, a
intensidade e o alcance de condutas responsáveis. Não há como e por que anular a transcendentalidade
que a esfera causal do agir e o conceito de responsabilidade adquirem nas sociedades complexas ao
longo da Modernidade. À luz dos ingredientes modernos de globalização, a auto-afirmação moral do
indivíduo exige a cuidadosa inclusão do não-responsável na esfera da responsabilização, ou seja,
postula uma aceitação normativa de responsabilidade por parte dos atores de sociedades complexas,
voltadas para fenômenos que repercutem difusamente para além do raio causal de ações individuais.
O princípio da responsabilidade é reativo por origem. Como cobrança conservadora, o conceito
acoberta o indistinto e presta-se a toda sorte de variações retóricas quando regras e categorias morais
já não mais descortinam horizontes para a conduta humana. O apelo à responsabilidade move a reação
em cadeia de ações programáticas. Uma vez chamado à responsabilidade, o agente sabe-se provido
de um leque de opções, expectativas e eventualidades. O conceito de responsabilidade revela a tendência
espontaneísta de romper os domínios da moral para cumprir tarefas que lhe sobrevêm de fora. De
responsabilidade fala-se, sem mais nem menos, quando algo longínquo é o caso, quer dizer, sempre
que há dificuldade para formular critérios precisos de ação e não se vislumbram soluções adequadas
para problemas candentes. Em situações incômodas, o apelo à responsabilidade desobriga do exame
e leva ao que interessa – apontar responsáveis e imputar irresponsabilidades. Pelo fato de a ética do
discurso dispensar magistrados, incumbidos de decidir à luz de normas processuais e materiais, o agir
procedimental-comunicativo do filósofo alemão Jürgen Habermas (1929-) reivindica ex cathedra a


HECK, J. N. Bioética: Contexto Histórico, Desafios e Responsabilidade

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