Bioética: contexto histórico, desafios e responsabilidade


– Horizontes e Responsabilidade



Baixar 89.09 Kb.
Pdf preview
Página6/11
Encontro02.08.2022
Tamanho89.09 Kb.
#24422
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   11
Texto 03 - Bioética - contexto histórico, desafios e responsabilidade - HECK
3 – Horizontes e Responsabilidade
Desde os seus primórdios na segunda metade do século XX até o presente, a bioética interage
com múltiplos fatores circunstanciais na medicina. Por um lado, os desafios à vida no micro e
macrouniverso em escala planetária e, por outro, o desenvolvimento tecnológico desenfreado levantam
uma série de perguntas acerca da capacidade humana de sentir, julgar e agir adequadamente em
relação a um patrimônio que vem dos primórdios da vida sobre o planeta. À luz dessa constelação, a
bioética vai além de uma ética médica e herda boa parte das tarefas da filosofia ocidental no afã de
monitorar a conduta humana.
À medida, porém, que o espectro temático se distende para fora da medicina, a bioética corre
o risco de perder contorno, mascarar realidades e desentender seus agentes, razão pela qual importa
explicitar seu caráter interdisciplinar, sua genuína demanda científica e seu desafio filosófico mais
instigante.


HECK, J. N. Bioética: Contexto Histórico, Desafios e Responsabilidade
ethic@,
 
Florianópolis, v.4, n.2, p.123-139 , Dez 2005.
130
Por origem e herança, a bioética é um rebento da medicina
24
. Essa lhe assegura um
desenvolvimento multidisciplinar. Enquanto tal, a nova disciplina agrega várias frentes de conhecimento
e diversas práticas médicas em torno de problemas e pólos temáticos novos em cuja dinamicidade
acadêmica cada área afetada mantém sua metodologia e preserva intacta sua raiz epistêmica. O fato
de ser oriunda da medicina deixa a bioética imune à charlatanice intelectual e lhe facilita manter incólume
o núcleo biológico que lhe dá origem, vale dizer, eventuais oscilações entre darwinismo, literalismo
bíblico e doutrinas divergentes sobre origem da informação genética não afetam o universo da medicina
que, porquanto fincada na biologia, tem por objeto a diferença terapêutica entre saúde/doença dos
seres humanos. Na medida em que os pólos temáticos iniciais adquirem destaque e suficiente
independência cognitiva, a bioética irrompe no horizonte da ética biomédica, torna-se interdisciplinar
e, com sinergia acadêmica própria, amplia as fronteiras tecnocientíficas por meio da transferência de
métodos e habilidades transversais para gerar novos conhecimentos em agentes com perfil distinto dos
clássicos profissionais nas ciências médicas.
Uma vez consolidada como ciência, com objeto e métodos não mais restritos ao universo da
medicina, a bioética fica em condição de hospedar múltiplas disciplinas com conteúdos acadêmicos
diversos para interagir, na teoria e na prática, com as diferentes áreas do conhecimento sem abdicar da
identidade, refazer objetivos e/ou descartar métodos. Dada sua destinação interdisciplinar, a ciência
da bioética tem a tarefa de aplicar a pluralidade de seus princípios e suas regras às várias frentes de
geração, elaboração e administração do saber. À diferença do Imperativo Categórico de Immanuel
Kant (1724-1804) e do Princípio da Utilidade de John S. Mill (1806-1873), o principialismo bioético
não reivindica posição absoluta, mas tem validade prima facie
25
, quer dizer, princípios bioéticos
estabelecem padrões que orientam, guiam e avaliam condutas, enquanto não são sobrepostos pela
alegação de fatos ou argumentos dos quais, novamente, resulta prima facie um bem maior, mais útil,
mais justo, e assim por diante.
Assegurada a universalidade de seu objeto, a bioética não pode furtar-se ao confronto com a
diversidade cultural que mundo afora determina condutas, sustenta razões, plasma indivíduos e agrega
multidões. Em pauta entram não apenas as práticas de mutilação genital feminina, o castigo do
decepamento de órgãos e a pena de morte, mas também o imperialismo humanitário, os limites da
tolerância e a falência de lidar com “a tragicidade do choque entre as ilusões”
26
.
No mais tardar ao atingir este ponto de concreção programática, a bioética não mais poderá
adiar questões que envolvem a definição, o conteúdo e o raio de ação do que entendemos, de longa
data, por responsabilidade.
Aqui o impacto da bioética mostra sua genuína nervura filosófica. Não tivesse a nova ciência,
por um passe de mágica, nascido no tempo heideggeriano do triunfo da técnica, ao ritmo dos vaivéns
adornianos da dialética negativa e sensível à glamourosa era do biopoder foucaultiano, ninguém haveria
registrado a sua falta. Por mais ontológica, radical ou refratária que a pós-modernidade possa ser
configurada, a esfericidade da terra permanece, como logomarca da Modernidade, uma referência


HECK, J. N. Bioética: Contexto Histórico, Desafios e Responsabilidade

Baixar 89.09 Kb.

Compartilhe com seus amigos:
1   2   3   4   5   6   7   8   9   10   11




©historiapt.info 2023
enviar mensagem

    Página principal