Benjamin alire Sáenz Copyright da edição original 2012 by Benjamin Alire Sáenz



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#24216
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Aristoteles e Dante descobrem os segredo
Por mim mesmo. Estava apaixonado por essa expressão. Eu não 
era muito bom em pedir ajuda, um mau hábito herdado do meu 
pai. E, além disso, os instrutores de natação que se consideravam 
salva-vidas eram uma droga. Não tinham o menor interesse em 
ensinar um pivete raquítico de quinze anos a nadar. Estavam mais 


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interessados nas garotas que começavam a ter peitos. Eram obce-
cados por peitos. Essa era a verdade. Ouvi um dos salva-vidas con-
versar com outro enquanto deveria estar de olho num grupo de 
crianças pequenas.
— Uma garota é como uma árvore. Dá vontade de escalar e 
arrancar todas as folhas.
O outro salva-vidas riu.
— Você é um babaca — disse.
— Não, sou um poeta — reagiu o primeiro. — Um poeta do 
corpo.
E os dois caíram na gargalhada.
Sim, claro, aqueles dois eram os novos Walt Whitman. Pois é, 
meu problema com garotos é que eu não fazia a menor questão 
de ficar perto deles. Quer dizer, me causavam desconforto. Não sei 
por quê, exatamente. É que… Sei lá, eu não fazia parte daquele 
mundo. Acho que o fato de eu ser um deles me deixava absur-
damente envergonhado. E a possibilidade de crescer e virar um 
daqueles babacas me deprimia. Uma garota é como uma árvore? 
Sim, e um cara é tão inteligente quanto um toco de madeira infes-
tado de cupins. Minha mãe diria que era apenas uma fase. Logo 
teriam seus cérebros de volta. Ah, claro.
Talvez a vida fosse mesmo só uma série de fases — uma depois 
da outra. Talvez em alguns anos eu passaria pela mesma fase em 
que os salva-vidas de dezoito anos estavam. Não que eu acreditasse 
na teoria da minha mãe sobre fases. Aquilo não parecia ser uma 
explicação — estava mais para uma desculpa qualquer. Acho que 
minha mãe não entendia a fundo os garotos. Nem eu. E eu era um.


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Tinha a sensação de que havia algo de errado comigo. Acho que 
eu era um mistério até para mim mesmo. Que saco. Eu tinha sérios 
problemas.
Uma coisa era certa: pedir para um daqueles idiotas me ensinar 
a nadar estava fora de questão. Melhor sofrer sozinho. Melhor mor-
rer afogado.
Então fiquei boiando no canto. Não que fosse muito divertido.
Foi então que ouvi uma voz meio esganiçada.
— Posso ensinar você a nadar.
Fui até a lateral da piscina e fiquei de pé, os olhos quase fecha-
dos por causa do sol. Ele estava sentado na beirada. Encarei-o com 
desconfiança. Um cara que se oferece para ensinar alguém a nadar 
com certeza não tem nada melhor para fazer da vida. Dois caras 
sem nada para fazer da vida? Quão divertido poderia ser?
Eu tinha uma regra: melhor se entediar sozinho do que acompa-
nhado. E quase sempre seguia essa ideia. Talvez por isso não tivesse 
amigos.
Ele me encarava. Esperando. Então, repetiu:
— Posso ensinar você a nadar, se quiser.
Por algum motivo, gostei da voz dele. Soava como se estivesse 
gripado, meio rouco.
— Você fala de um jeito esquisito — comentei.
— É alergia — ele disse.
— Alergia a quê?
— Ao ar — respondeu.
A resposta me fez rir.
— Meu nome é Dante — ele disse.


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Seu nome me fez rir ainda mais.
— Desculpe — eu disse.
— Tudo bem. As pessoas costumam rir do meu nome.
— Não, não — acrescentei. — É que o meu é Aristóteles.
Seus olhos brilharam. Tipo, o cara estava disposto a escutar cada 
palavra que eu dissesse.
— Aristóteles — repeti.
Então ambos perdemos o controle. De tanto rir.
— Meu pai é professor de inglês em uma faculdade — ele disse.
— Pelo menos o seu nome tem uma explicação. Meu pai é car-
teiro. Aristóteles é o nome do meu avô.
E então pronunciei o nome do meu vô, caprichando no sotaque 
mexicano:
Aristotiles. E, na verdade, meu primeiro nome é Angel. — 
Emendei em espanhol: — Angel.
— Seu nome é Angel Aristóteles?
— Sim. Esse é o meu nome de verdade.
Rimos de novo. Não conseguíamos parar. Perguntava a mim 
mesmo do que estávamos rindo. Era só dos nomes? Ou ríamos por 
estarmos aliviados? Felizes? O riso era outro mistério da vida.
— Eu costumava dizer às pessoas que meu nome era Dan. 
Sabe, só tirando duas letras. Mas parei de fazer isso. Não era 
verdade. E, no fim das contas, fui descoberto. Me senti um men-
tiroso idiota. Tive vergonha de mim mesmo por ter tido vergo-
nha de mim mesmo. Não gostei de me sentir assim — explicou, 
dando de ombros.
— Todo mundo me chama de Ari.


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— Prazer, Ari.
Gostei do jeito como disse “Prazer, Ari”. As palavras soaram 
sinceras.
— Tudo bem — eu disse —, me ensine a nadar.
Acho que pronunciei as palavras como se estivesse fazendo um 
favor a ele. Mas ele não percebeu ou não se importou.
Dante era um professor detalhista. Sabia nadar muito bem, 
entendia tudo sobre o movimento dos braços e das pernas e a respi-
ração. Entendia como o corpo funcionava na água. Ele amava e res-
peitava a água. Compreendia suas belezas e perigos. Falava de nadar 
como um estilo de vida. Ele tinha quinze anos. Quem era aquele 
cara? Parecia meio frágil, mas não era. Era disciplinado, rígido e 
inteligente; e não fingia ser burro e comum. Não era nem um nem 
outro.
Era engraçado, focado e impetuoso. Quer dizer, podia ser im pe-
tuoso. E não tinha nenhuma maldade. Eu não entendia como 
alguém podia viver em um mundo mau e não absorver um pouco 
dessa maldade. Como um cara era capaz de viver sem um pouco de 
maldade?
Dante se tornou mais um mistério em um mundo cheio de 
mistérios.
Durante todo aquele verão, nadamos, lemos quadrinhos e livros 
e conversamos sobre eles. Dante tinha revistas do Super-Homem 
que eram de seu pai. Ele adorava. Também gostava de Archie & 

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