Benjamin alire Sáenz Copyright da edição original 2012 by Benjamin Alire Sáenz



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#24216
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Aristoteles e Dante descobrem os segredo

parte ela concordava comigo.
— E então? Por que essa grande reunião?
— Vamos reorganizar o banco de alimentos.
— Banco de alimentos?
— Para distribuir alimentos pra quem não tem.
Minha mãe se sensibilizava com a pobreza. Já fora pobre. Tinha 
passado por situações que eu jamais passaria.
— Entendi — comentei.
— Talvez você possa ajudar…
— Claro — concordei.
Eu odiava ser escalado para essas funções. O problema da minha 
vida era que ela tinha sido ideia de outra pessoa.
— O que você vai fazer hoje? — a pergunta soou como um 
desafio.
— Vou entrar em uma gangue.
— Não tem graça.
— Sou mexicano. Não é isso que a gente faz?


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— Já disse que não tem graça.
— Não tem graça mesmo — eu disse, por fim. É, não tinha graça.
Precisava sair de casa. Não que tivesse algum lugar para onde ir.
Me sentia sufocado quando minha mãe convidava as amigas da 
igreja para ir em casa. Não era porque elas tinham mais de cinquenta 
anos… Não, não era. Nem por causa dos comentários sobre como eu 
estava virando homem tão rápido. Quer dizer, eu sabia que era bes-
teira. E, dentre todas as besteiras possíveis, aquela era até simpática, 
inofensiva e carinhosa. Dava para suportar quando elas me pegavam 
pelos ombros e diziam: “Deixe-me olhar para você. Déjame ver. Ay, 
que muchacho tan guapo. Te pareces a tu papa”. Não que houvesse 
alguma coisa para ver. Era só eu. Tudo bem, eu era mesmo parecido 
com meu pai. Mas não achava aquilo grande coisa.
O que realmente me incomodava era o fato de minha mãe ter 
mais amigos do que eu. Tem coisa mais triste?
Resolvi ir nadar na piscina do Memorial Park. Uma ideia boba, 
mas pelo menos era minha.
Enquanto seguia em direção à porta, minha mãe pegou a toa-
lha velha apoiada em meu ombro e trocou por uma melhor. O 
mundo da minha mãe tinha algumas regras que eu simplesmente 
não entendia. E as regras não paravam nas toalhas.
Ela encarou minha camiseta.
Eu sabia reconhecer um olhar de censura. Antes que ela me 
fizesse trocar de roupa, retribuí o olhar.
— É minha camiseta predileta — falei.
— Você não usou ontem?
— Sim — confirmei. — É do Carlos Santana.


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— Eu sei que é — ela disse.
— Meu pai me deu de aniversário.
— Se bem me lembro, você não demonstrou tanta empolgação 
quando abriu o presente.
— Eu esperava outra coisa.
— Outra coisa?
— Sei lá, outra coisa. Uma camiseta de aniversário? — Olhei 
para ela e completei: — Acho que eu não entendo ele.
— Ele não é tão complicado, Ari.
— Mas ele não fala.
— Às vezes as pessoas falam, mas não dizem a verdade.
— Talvez — eu disse. — Só que agora eu gosto da camiseta.
— Dá pra notar — ela comentou, com um sorriso no rosto.
Eu também estava sorrindo.
— O papai me disse que comprou no primeiro show que ele foi.
— Eu estava junto. Lembro bem. Já está velha e gasta.
— Tem um significado sentimental.
— Ah, claro.
— Mãe, é verão.
— Sim — ela disse. — É verão.
— Regras diferentes — eu disse.
— É, regras diferentes.
Eu adorava as regras do verão. Minha mãe as tolerava.
Ela estendeu a mão e passou os dedos no meu cabelo.
— Só prometa que não vai usar de novo amanhã.
— Tudo bem. Prometo. Mas só se você prometer que não vai 
colocar na secadora.


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— Talvez você mesmo devia lavar — ela disse, achando graça. 
— Só não vá se afogar.
Retribuí o sorriso.
— Se acontecer, não se desfaça do meu cachorro.
O negócio do cachorro era piada. Não tínhamos animais de 
estimação.
Minha mãe entendia meu senso de humor; e eu, o dela. Dava 
certo. Não que ela não tivesse seus mistérios. Mas uma coisa eu de 
fato entendia: por que meu pai tinha se apaixonado por ela. Já o 
porquê de ela ter se apaixonado por meu pai era algo que não me 
entrava na cabeça. Uma vez, quando eu tinha cinco ou seis anos
fiquei com muita raiva. Queria que ele brincasse comigo, e ele era 
tão distante. Parecia que eu nem estava lá. Com toda minha raiva 
infantil, perguntei à minha mãe:
— Como você pôde casar com esse cara?
Ela sorriu e passou os dedos no meu cabelo. Sempre fazia isso. 
Então me olhou bem nos olhos e respondeu tranquilamente:
— Seu pai era lindo.
Minha mãe nem sequer hesitou.
Fiquei com vontade de perguntar para onde tinha ido toda 
aquela beleza.


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Três
deBaixo daquele Calor, até oS lagartoS SaBiam
que não era dia de ficar rastejando por aí. Até os passarinhos esta-
vam quietos. Os remendos de asfalto nas ruas derretiam. O céu 
tinha um azul pálido, e me veio a ideia de que talvez as pessoas 
tivessem fugido da cidade e do calor. Ou talvez tivessem morrido 
— como nos filmes de ficção científica —, e eu estava sozinho. Mas 
bem no momento em que essas coisas me passavam pela cabeça, 
um bando de moleques do bairro me ultrapassou de bicicleta, o 
que me fez desejar realmente estar sozinho. Riam e faziam bagunça, 
aparentemente se divertindo. Um dos caras gritou para mim:
— Ei, Mendoza! Passeando com seus amigos?
Acenei, fingindo levar na esportiva, ha, ha, ha. E depois mostrei 
o dedo do meio.
Um dos caras parou, deu meia-volta e começou a me cercar 
com a bicicleta.
— Faz de novo — ele desafiou.
Mostrei o dedo outra vez.
Ele parou a bicicleta bem na minha frente e tentou me intimi-
dar com o olhar.


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Não funcionou. Eu sabia quem ele era. O irmão dele, Javier, 
já tinha mexido comigo uma vez. E eu tinha socado a cara dele. 
Viramos inimigos. Não me arrependia. Bom, eu tinha personali-
dade difícil. Admito.
Ele fez uma voz de mau. Como se me assustasse.
— Não me provoca, Mendoza.
Mostrei o dedo mais uma vez, apontando para a cara dele como 
se fosse uma arma. Ele logo desceu da bicicleta. Eu tinha medo de 
muita coisa… mas não de caras como ele.
A maioria não mexia comigo. Nem mesmo os que andavam 
em bando. Eles passaram de novo por mim com suas bicicletas, 
gritando besteiras. Tinham entre treze e catorze anos. Mexer com 
garotos como eu era a diversão deles. Assim que as vozes ficaram 
distantes, comecei a sentir pena de mim mesmo.
Sentir pena de mim mesmo era uma arte. Acho que parte de 
mim gostava disso. Talvez tivesse a ver com o momento em que 
nasci. Não sei, acho que influía. Não me agradava o fato de ser 
pseudo filho único. Era assim que eu me via. Era filho único sem ser 
de verdade. Um saco.
Minhas irmãs eram gêmeas e tinham doze anos a mais do que 
eu. Doze anos era uma vida, sério. Sempre faziam que eu me sen-
tisse um bebê, um brinquedo, um trabalho de escola ou um animal 
de estimação. Eu gosto de cachorros, mas às vezes tinha a sensação 
de que eu mesmo não passava de uma mascote da família. Em espa-
nhol, é o termo para o cachorro de estimação: mascoto. Mascote. 
Ótimo. Ari, a mascote da família.
Meu irmão era onze anos mais velho. Ele era ainda mais 


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inacessível que minhas irmãs. Eu não podia nem mencionar o 
nome dele. Afinal, quem gosta de falar de irmãos mais velhos que 
estão na cadeia? Meu pai e minha mãe não, com certeza. Menos 
ainda minhas irmãs. Talvez todo aquele silêncio sobre meu irmão 
mexesse comigo. Acho que sim. Não falar pode deixar alguém 
muito solitário.
Meus pais eram jovens e batalhadores quando minhas irmãs 
e meu irmão nasceram. “Batalhador” é a palavra favorita de meus 
pais. Em algum momento entre os três filhos e a tentativa de termi-
nar a faculdade, meu pai se tornou fuzileiro naval. E então partiu 
para a guerra.
A guerra o transformou.
Nasci quando ele voltou para casa.
Às vezes, penso em todas as cicatrizes de meu pai. No coração. 
Na cabeça. Em toda parte. Não é fácil ser filho de um homem que 
já esteve na guerra. Aos oito anos, ouvi uma conversa da minha mãe 
com a tia Ophelia ao telefone.
— Acho que a guerra nunca vai acabar para ele.
Mais tarde, perguntei à tia Ophelia se aquilo era verdade.
— É — ela confirmou. — É verdade.
— Mas por que a guerra não deixa ele em paz?
— Porque seu pai tem consciência — ela respondeu.
— O que aconteceu com ele na guerra?
— Ninguém sabe.
— E por que ele não conta?
— Porque não consegue.
Era isso. Quando eu tinha oito anos, não sabia nada sobre guerras. 


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Não sabia sequer o que era consciência. Tudo que sabia era que 
às vezes meu pai ficava triste. Eu odiava quando ele ficava triste. 
Aquilo me deixava triste também. E eu não gostava de tristeza.
Então eu era filho de um homem que tinha o Vietnã dentro 
de si. Sim, eram muitos motivos trágicos para sentir pena de mim 
mesmo. Ter quinze anos não ajudava. Às vezes achava que ter 
quinze anos era a pior tragédia de todas.


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Quatro
eu PreCiSava tomar uma duCha anteS
de entrar 
na piscina. Era uma das regras. Pois é, regras. Odiava tomar banho 
com um bando de estranhos. Não sei por quê, simplesmente não 
gostava. É aquilo, alguns caras falam sem parar, como se fosse nor-
mal entrar no chuveiro com um monte de gente e contar da pro-
fessora que você odeia, do último filme que você viu ou da garota 
de quem você está a fim. Eu não gostava; não tinha nada para falar. 
Caras no chuveiro. Não era minha praia.
Caminhei até a piscina, sentei na beirada da parte rasa e botei 
os pés na água.
O que você faz numa piscina quando não sabe nadar? Aprende. 
Acho que essa era a resposta. Eu tinha ensinado meu corpo a boiar 
na água. Sem perceber, aplicara um dos princípios da física. E o 
melhor é que tinha feito a descoberta por mim mesmo.

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