Beleza pura: uma abordagem histórica e socioantropológica das representaçÕes do corpo e beleza no brasil



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BELEZA PURA: UMA ABORDAGEM HISTÓRICA E SOCIOANTROPOLÓGICA DAS REPRESENTAÇÕES DO CORPO E BELEZA NO BRASIL

Resumo:


Este trabalho está inserido na área de Sociologia do Corpo e permeia discussões acerca da Cultura e do Consumo. Interessados no grande índice de consumo de produtos e serviços relacionados à manutenção da aparência física no Brasil na contemporaneidade, nos centramos em compreender a maneira pela qual o corpo alcançou tamanha visibilidade entre as pessoas, e enfaticamente entre os jovens, atentando para aspectos de gênero e geracionais. Tomamos a ênfase dada ao corpo enquanto parte de um processo civilizador e reconhecemos a relevância de observar como as construções de representações e padrões são multiplamente influenciadas em processos caracterizados pela hibridez e efemeridade, e apresentam e ressignificam enunciados através de continuidades e descontinuidades históricas. Numa sociedade fluida, ou líquida, onde boas aparências são requisito social e o consumo é distintivo, classificador e meio de atingir notoriedade, necessitamos reparar responsavelmente nos discursos (verdades) disseminados, que atingem diferentemente e interseccionalmente cada indivíduo.

Palavras-Chave: Processo Civilizador; Corpos dóceis; Consumo.

Abstract:

This work is inserted in the area of ​​Sociology of the Body and permeates discussions about Culture and Consumption. Interested in the great index of consumption of products and services related to the maintenance of physical appearance in Brazil at the present time, we focus on understanding the way in which the body has achieved such visibility among people, and emphatically among young people, with regard to gender and Generations. We take the emphasis placed on the body as part of a civilizing process and recognize the relevance of observing how constructions of representations and patterns are multiply influenced in processes characterized by hybridity and ephemerality, and present and re-signify statements through historical continuities and discontinuities. In a fluid or liquid society, where good appearances are a social requirement and consumption is distinctive, classifier, and means of achieving notoriety, we need to responsibly repair the disseminated discourses (truths) that affect each individual differently and intersectively.

           Keywords: Civilizing Process; Docile bodies; Consumption

INTRODUÇÃO

Uma das noções seminais observada nas Ciências Sociais é a de que o “mundo a nossa volta”, (enquanto práticas, símbolos, regras e hábitos) é construído sócio-historicamente. A filósofa francesa Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo (1970), já comungava tal ideia com a sua conhecidíssima frase “Não se nasce mulher: torna-se (...)”, ao defender que o “papel feminino”, tal como o masculino, nos é ensinado/imposto a partir da socialização. Outro brilhante exemplo é o da construção social do tempo, apresentado pelo teórico alemão Norbert Elias, em Sobre o tempo (1998), no qual aponta que, durante a história da humanidade, o universo social (sócio-historicamente construído por homens/mulheres) acabou, muitas vezes, sendo tomado como coisa natural: o tempo é antes de tudo um símbolo conceitual e social, criado por nós, resultante de um extenso processo de aprendizagem. No que diz respeito ao corpo, o francês Marcel Mauss trata em As técnicas do Corpo (1935) das diversas formas pelas quais as pessoas, tradicionalmente, sabem se servir do seu corpo, nas diferentes sociedades. Neste texto é apresentado como ações exaustivamente repetidas no cotidiano, muitas vezes tomadas como naturais, como andar1, dormir2, nadar; comer; fazer a própria higiene3, entre outras, divergem em seu modo de povo para povo, ou de geração em geração, além do aspecto determinante do sexo/gênero. Há divisões das técnicas do corpo entre os sexos e variações dessas técnicas com as idades. As nossas maneiras são adquiridas, não naturais.

(...) Esses “hábitos” variam não simplesmente com os indivíduos e suas imitações, variam sobretudo com as sociedades, as educações, as conveniências e as modas, os prestígios. É preciso ver técnicas e a obra da razão prática coletiva e individual, lá onde geralmente se vê apenas a alma e suas faculdades de repetição (MAUSS, 1935, p. 404).

O corpo, segundo o autor, é o primeiro e mais natural objeto técnico, e simultaneamente meio técnico do homem. Os hábitos, costumes, crenças, regas, valores e tradições que integram uma cultura também se aplicam ao corpo, de modo que existem construções socioculturais de corpo, orientadas pela valorização ou desvalorização de determinados atributos/comportamentos, criando, assim, um ideal (corpo típico) em cada sociedade. Tal como os exemplos acima citados e para além da forma como utilizamos o nosso corpo no cotidiano, as concepções do (corpo) belo e do feio também são sócio historicamente construídos, e variam entre sociedades, sexo/gênero, idade e gerações, a partir das diferentes formas de como processos de socialização são conduzidos. Por socialização, e tomando o sociólogo Bodart (2015), entendemos “o processo pelo qual o indivíduo internaliza o coletivo”, em outras palavras, é por intermédio da socialização que ideias, valores e regras são estipulados pela sociedade e passam a integrar o comportamento das pessoas, adaptando-as aos grupos sociais dos quais são parte. É relevante ressaltar que a socialização é um processo constante que começa com o primeiro contato social e só se finda com o último, no entanto, tal formação é determinada por permanências e continuidades, o que nos permite afirmar que o novo e o velho se mesclam/misturam em nós.

Provocados pelo grande índice de consumo de produtos e serviços relacionados à manutenção da aparência física no Brasil4 na contemporaneidade, objetivamos compreender as maneiras pelas quais o corpo alcançou tamanha visibilidade entre as pessoas, enfaticamente entre os jovens, atentando para aspectos de gênero e geracionais. As representações de corpo e beleza, enquanto tema dessa pesquisa, podem nos dar indícios de aspectos extremamente relevantes para compreensão das construções identitárias de jovens5 no Brasil, o que toca também nos padrões de beleza vigentes6. A partir de obras da história, da antropologia e da sociologia nos foi possível compreender a ênfase dada ao corpo enquanto parte de um processo civilizador predominante nas sociedades ocidentais, onde este é construído como coisa e como capital, reconhecendo a relevância de observar como as elaborações de representações e padrões são multiplamente influenciadas em processos caracterizados pela hibridez e efemeridade. Os dois volumes de O Processo civilizador tornam-se essenciais, tal como a trabalho de Cas Wouters (2012), sociólogo holandês que se propõe a continuar o trabalho de Norbert Elias, estudando os “processos civilizadores” nos séculos XIX e XX, sendo eles fundamentais à medida que colaboram para a compreensão do processo de valorização e “construção do próprio corpo”. Algumas inquietações orientaram esta pesquisa, como de que forma explicar socialmente a busca pela beleza e o consequente uso de intervenções estéticas tão recorrente na atualidade? Quais são as representações de corpo e beleza vigentes nos jovens do século XXI? Como conceber essa tão discutida valorização da própria imagem, enfaticamente entre jovens e atentando para divergências baseadas no gênero?

Tratando da metodologia, tomaremos como modelo teórico a abordagem Figuracional do alemão Norbert Elias (1897-1990), criador de uma Sociologia considerada dos processos e do desenvolvimento, na qual o social é entendido como o conjunto das redes de inter-relações dinâmicas entre os indivíduos. Pensamos que o método de abordagem escolhida representa uma estratégia de pesquisa pertinente diante da complexidade dos aspectos de sociedades de consumo. Dentre as técnicas de pesquisa, tomamos a revisão bibliográfica, além da aplicação de questionários exploratórios (Questionários de identificação – QI) e a realização de entrevistas semiestruturadas, seguidas de transcrição e análise qualitativa dos elementos observados nos relatos colhidos (Análise de Discurso). Portanto, nossa análise assume um caráter qualitativo, considerando sua adequação ao objeto estabelecido, a partir do interesse nas experiências/realidade dos indivíduos e seu contexto social. Ressaltamos que os nomes dos estudantes foram alterados, tendo em vista que não havia necessidade/relevância de mantê-los neste trabalho e que eles optaram por não serem identificados.

Estabelecemos como recorte a turma de Terceiro Ano do Ensino Médio do ano de 2015 do CEC - Colégio Estadual de Cachoeira, cidade baiana7 localizada a cerca de 120 km de Salvador. Integravam a turma meninos e meninas com idade entre 16 e 22 anos, de modo que respondem ao recorte de gênero e geracional estabelecido. A respeito da definição étnica, 64% dos respondentes do QI declaram-se negros, o que evidenciou a importância de tratarmos da beleza negra no Brasil. Os dados desta pesquisa foram colhidos em novembro de 2015.

Passearemos, então, por diversos autores e obras da história, da antropologia e da sociologia, traçando diálogos entre as revisões bibliográficas e os elementos empíricos obtidos através das entrevistas realizadas, observando com se construíram e se constroem as representações de corpo e do que é belo e como estes vêm sendo produzidos, consumidos, usados, controloados/regulados, civilizados/docilizados, expressados e descolonizados, ao longo da história e nos dias atuais.

OLHARES SOCIOLÓGICOS SOBRE O CORPO: CONSTRUÇÕES E REPRESENTAÇÕES

O antropólogo e sociólogo francês David Le Breton realiza em A Sociologia do Corpo (2007) uma revisão dos clássicos e diversos antropólogos e sociólogos que trataram do tema em suas obras, demonstrando que a “corporeidade é socialmente construída” (p. 19), sendo o corpo o “efeito de uma elaboração social e cultural” (p. 26). Conceituando esta sociologia, Le Breton aponta que “A sociologia do corpo constitui um capítulo da sociologia especialmente dedicado à compreensão da corporeidade humana como fenômeno social e cultural, motivo simbólico, objeto de representações e imaginários” (p. 7).

Destaca ainda que esta seria uma sociologia do enraizamento físico do ator no universo social e cultural. O autor salienta que o trabalho da antropologia ou da sociologia seria o de “compreender a corporeidade enquanto estrutura simbólica e, assim, destacar as representações, os imaginários, os desempenhos, os limites que aparecem como infinitamente variáveis conforme as sociedades”. (2007, p. 29-30). Sua grande contribuição está na observação de que o corpo é tomado, por vezes, como algo separado, dissociado do ser, a respeito do qual foi criada uma “opinião comum”, cuja definição parece ser um consenso geral. Ou seja, o corpo é vivido e tratado como coisa. Ressaltando que a caracterização do corpo está longe de ser uma unanimidade nas sociedades humanas, o francês defende que o que se vê não são corpos: o que vemos são pessoas, as representações de corpo, para ele, são representações da pessoa.

Esquecemos com frequência o quão absurdo é nomear o corpo como se fosse um fetiche, isto é, omitindo o homem que o encarna. É preciso ressaltar a ambiguidade que consiste evocar a noção de um corpo que só mantém relações implícitas, supostas, com o ator com quem faz indissoluvelmente corpo. (...) O próprio corpo não estaria envolvido no véu das representações? O corpo não é uma natureza. Ele nem sequer existe. Nunca se viu um corpo: o que se vê são homens e mulheres. Não se vê corpos. Nessas condições o corpo corre o risco de nem mesmo ser um universal. E a sociologia não pode tomar um termo como se apresenta na doxa para fazer dele um princípio de análise sem antes apreender sua genealogia, sem elucidar os imaginários sociais que lhe dão nome e agem sobre ele, e isso não só em suas conotações (a coleta dos fatos analisados pelos sociólogos é rica nesse domínio), mas também na denotação raramente questionada. O corpo não é uma natureza incontestável objetivada imutavelmente pelo conjunto das comunidades humanas, dada imediatamente ao observador que pode fazê-la funcionar como num exercício de sociólogo (LE BRETON, 2007, p. 24).

A dualidade entre homem e corpo traz o perigo de incorrermos em uma fragmentação da identidade humana, de modo que preocupar-se com as raízes sociais e culturais que intervêm na condição humana é indispensável ao trabalho sociológico, centrado em analisar as modalidades físicas da relação ator-mundo. Para Le Breton (2007) “o corpo é aqui o lugar e o tempo no qual o mundo se torna homem, imerso na singularidade de sua história pessoal, numa espécie de húmus social e cultural de onde retira a simbólica da relação com os outros e com o mundo” (p. 34).

Sobre intervenções estéticas, o autor aponta ainda que a marcação social e cultural do corpo pode tornar-se completa através da escrita direta do grupo/coletivo na pele do ator, podendo assumir diferentes formas, como por meio de remoção, deformação ou de acréscimo, marcas corporais cujas funções divergiriam de sociedade para sociedade.

O corpo também é, preso no espelho do social, objeto concreto de investimento coletivo, suporte de ações e de significações, motivo de reunião e de distinção pelas práticas e discursos que suscita. Nesse contexto o corpo é só um analisador privilegiado para evidenciar os traços sociais cuja elucidação é prioridade aos olhos do sociólogo, por exemplo, quando se trata de compreender os fenômenos sociais contemporâneos. (...) A aparência corporal responde a uma ação do ator relacionada com o modo de se apresentar e de se representar. Engloba a maneira de se vestir, a maneira de se pentear e ajeitar o rosto, de cuidar do corpo, etc., quer dizer, a maneira quotidiana de se apresentar socialmente, conforme as circunstâncias, através da maneira de se colocar e do estilo de presença. O primeiro constituinte da aparência tem relação com as modalidades simbólicas de organização sob a égide do pertencimento social e cultural do ator. Elas são provisórias, amplamente dependentes dos efeitos de moda. Por outro lado, o segundo constituinte diz respeito ao aspecto físico do ator sobre o qual dispõe de pequena margem de manobra: altura, peso, qualidades estéticas, etc. São esses os traços dispersos da aparência, que podem facilmente se metamorfosear em vários indícios, dispostos com o propósito de orientar o olhar do outro ou para ser classificado, à revelia, numa categoria moral ou social particular (LE BRETON, 2007, p. 77).

Le Breton nos apresenta o conceito de capital-aparência, que consiste na percepção de que a aparência física de alguém parece valer socialmente pela apresentação moral.

(...) Um mercado em pleno crescimento renova permanentemente as marcas que visam a manutenção e a valorização da aparência sob os auspícios da sedução ou da "comunicação". Roupas, cosméticos, práticas esportivas, etc., formam uma constelação de produtos desejados destinados a fornecer a "morada" na qual o ator social toma conta do que demonstra dele mesmo como se fosse um cartão de visitas vivo (LE BRETON, 2007, p.78).

Noção compartilhada por jovens que colaboraram com essa pesquisa, como demonstra a fala abaixo, surgida mediante questionamento a respeito da importância de preocupar-se com a aparência: “Eu nem sei se eu me preocupo muito. Mas acho que as pessoas se preocupam porque a aparência é um cartão de visita... tipo... deixa... muitas pessoas acreditam que a primeira impressão é a que fica... aí acho que é um cartão de visita.” (Umberto, 16 anos, estudante do CEC, entrevistado em 18/11/2015).

De modo que, para o autor, “o corpo é a interface entre o social e o individual, entre a natureza e a cultura, entre o fisiológico e o simbólico” (2007, p. 92).

BELEZA: PRODUÇÃO E CONSUMO SOCIAL

O antropólogo social Sérgio Alves Teixeira (2001) se preocupa com a produção e o consumo social da beleza humana, sobre a qual generalizações são comuns em todas as sociedades, o que a configura tema relevante de investigação. Analisando material midiático, romances, fábulas, poemas, músicas brasileiras, mas principalmente ditos populares/provérbios e anedotas, enquanto elementos estratégicos por serem tanto conteúdo (fornecendo informações) como veículo (ao fazerem circular amplamente esses tópicos de interesse geral), atenta para quais as principais características dessa beleza no Brasil. A escolha desses elementos é baseada na premissa de que estes são expressões coletivas de sentimentos e entendimentos comuns e mesmo inerentes à vida sociocultural, reforçada pela inquestionável ausência de autoria. Teixeira (2001) defende que “Independentemente da razão quanto à percepção da beleza estar com os que enfatizam sua objetividade ou sua subjetividade, é inquestionável que o interesse pela beleza diz respeito a todos os indivíduos em todas as sociedades. Pessoa alguma será indiferente a uma expressão de beleza” (p. 192).

O autor observa como, por exemplo, anúncios de emprego encontrados em vários países apresentam uma boa aparência como requisito aos candidatos, trazendo dois pontos importantes:

(...) é que ao procurarem pessoas com tais credenciais, para tratar dos mais diversos assuntos e com pessoas dos mais diversos tipos sociais, eles afirmam o valor generalizado dispensado à beleza humana. A outra é que assim mostram a continuidade do grande valor dispensado àquela que foi, seguramente, a primeira manifestação de beleza que interessou nossos ancestrais. Faço tal afirmação considerando que a atratividade sexual, obviamente presente desde o início da vida, tem na beleza corporal das parcerias potenciais um peso relevante (TEIXEIRA, 2001, p. 195).

Fica evidente, então, que a beleza corporal dá retorno ao seu portador, retorno este que, para Teixeira, pode ser maiúsculo. É, pois, por conta dessa valorização da beleza e das recompensas (emocionais, sociais ou materiais) ou facilidades por ela possibilitadas que se justifica a expansão dos variados procedimentos usados extensamente pelas pessoas na atualidade para adquirir/aumentar/preservar a beleza corporal, dissimulando aquilo que nessa época/lugar é tido por imperfeição, apesar dos custos (sejam eles emocionais, físicos, financeiros). Uma boa aparência, relacionada a questões como o fim de constrangimentos e o aumento da autoestima e do bem-estar, está entre as qualidades mais importantes e desejáveis.

Seu trabalho nos permite observar quatro aspectos principais: A beleza pode abrir portas, no sentido de agir como facilitadora; a vaidade no Brasil não é considerada luxo, mas uma necessidade; a associação entre beleza e juventude é muito forte; e, por fim, a beleza é característica muito mais cobrada e admirada nas mulheres que nos homens; nestes, por sua vez, são admiradas a força, bom desempenho e a estabilidade financeira.

Continuando com a associação idade/estética é oportuno ter presente que, ao contrário do que se dá com a juventude, que é condição necessária para a beleza, a velhice se apresenta como condição quase que suficiente para sua ausência. Condição esta que se intensifica à medida que a idade avança. A razão para isto é evidente: a velhice, que deteriora o corpo, acentua o que já não era belo ou lhe retira a beleza que ostentava. O amplo repertório de juízos consagrados a respeito de tais metamorfoses é indicador da intensa atenção que elas despertam. Refiro-me a juízos do tipo: parece outra pessoa; está irreconhecível; que pena, era tão linda; no seu tempo, encantava a todos; não guarda mais nada do que foi. Daí ser congruente que as revistas de futilidades e as secções de crônicas da vida mundana presentes na quase totalidade dos jornais, reservem os adjetivos de belas, lindas, etc. para a mulheres jovens e elegantes, chiques, charmosas, etc, para as mais velhas (TEIXEIRA, 2001, p. 217).

Estendendo a discussão do consumo da beleza, em Vida para Consumo: A transformação das pessoas em mercadoria, Zygmunt Bauman (2008), baseado em observações de redes sociais na internet, discorre sobre o esforço das pessoas para não se tornarem obsoletas, demonstrado pela grande procura a produtos e serviços de manutenção da aparência estética/corporal. Em um mundo marcado pelo arranjo social do consumismo, a subjetividade do indivíduo é construída a partir de opções de compra, de consumo de bens e, poderíamos dizer, de serviços. Cria-se uma “imagem ideal” a ser publicada, compartilhada com os demais, objetivando atrair atenção e demanda. Como aponta: “São, ao mesmo tempo, os promotores das mercadorias e as mercadorias que promovem. São, simultaneamente, o produto e suas agências de marketing” (2008, p. 13).

O corpo, enquanto potencial veículo de comunicação, considerando que o nosso primeiro contato com o outro é visual, é culturalmente construído/modelado/trabalhado e ornamentado (vestido) para corresponder aos anseios, adequar-se ao esperado (como belo). Perpassando a imagem construída através das práticas de consumo e colocada nas redes sociais, a busca em “vender a própria imagem” torna-se cotidiana e real, não apenas cibernética, tendo em vista que coerções estéticas, as preocupações diárias com a aparência e os diversos investimentos feitos no corpo representam os meios para alcançar isso: conquistar a atenção, a admiração do outro, e posicionar-se socialmente enquanto indivíduo. Mesmo não realizando trabalhos empíricos e sendo alvo de diversas críticas no campo das Ciências Sociais, algumas das noções apresentadas por Bauman colaboram com o entendimento de dinâmicas sociais atuais.

As redes sociais, objeto de sua análise, são, atualmente, ferramenta indispensável no cotidiano dos indivíduos da Geração Z, denominados nativos digitais. O Instagram8 é amplamente utilizado, não apenas para visualização de fotos de outras pessoas e postagem de fotos pessoais, como para o acompanhamento de tendências de moda e estilo, como aponta a fala a seguir: “Eu gosto de ver essas parada de estilo na... na internet, sigo no Instagram os cara barril9 que eu curto, tal, o estilo... Thiaguinho10, eu viajo no estilo dele, esses caras assim...” (Carlos, 19 anos, estudante do CEC, entrevistado em 18/11/2015).

A internet (onde se promove o outro e a si mesmo), citada por quase todas/todos as/os entrevistadas/entrevistados, é a tecnologia digital mais proficiente em termos de ajudar/orientar a definição de estilos entre elas/eles, seguida das coisas que o círculo de amizades usa e, por último, da televisão.

OBSERVANDO A HISTÓRIA: NOÇÕES DE CORPOREIDADE E BELEZA

O pernambucano Gilberto Freyre (1987) se dedica a compreender aspectos da moda no Brasil, relacionando as modificações nas maneiras de se vestir/arrumar com mudanças no comportamento e em concepções das pessoas. Apesar de fortemente influenciada pela moda francesa, o autor defende que a moda brasileira se reinventou, criando novos estilos e usando diferentes materiais, considerados mais adequados ao clima tropical.

Pode-se dizer da mulher que tende a ser, quanto a modas para seus vestidos, seus sapatos, seus penteados, um tanto maria-vai-com-as-outras. Portanto, a corresponder ao que a moda tem de uniformizante. Mas é da argúcia feminina a iniciativa de reagir contra essa uniformização absoluta, de acordo com características pessoais que não se ajustem a imposições de uma moda disto ou daquilo. Neste particular, é preciso reconhecer-se, na brasileira morena, o direito de repudiar modas norte-européias destinadas a mulheres louras e alvas. (FREYRE, 1987, p.33).

Criticava o que chamava de “impacto norte-europeizante” e valorizava traços femininos considerados genuinamente brasileiros, ilustrados pela figura de Sônia Braga11, criticando ideais de beleza que tomava como imitadores de modelos estrangeiros, tal qual Vera Fischer12. Como mostra Goldemberg (2006),

Freyre enaltecia o corpo da mulher brasileira, “miscigenado”, um “corpo equilibrado de contrastes” e propunha uma “consciência brasileira”, dizendo que a brasileira deveria seguir modas adaptadas ao clima tropical, em vez de “seguir passivamente e, por vezes, grotescamente, modas de todo européias ou norteamericanas”: na roupa, no sapato, no adorno, no penteado, no perfume, no andar, no sorrir, no beijar, no comportamento, no modo de ser mulher. Eu ainda acrescentaria, no corpo. Freyre sugeria que as modas e os modismos não diziam respeito apenas às roupas ou penteados, mas também poderiam se tornar modas de pensar, de sentir, de crer, de imaginar, e assim, subjetivas, influírem sobre as demais modas. (GOLDEMBERG, 2006, p. 02).

Gilberto Freyre identificava aspectos percebidos até hoje, como a resistência e a preocupação em evitar o envelhecimento. Segundo o autor, é a partir da década de 1970 que a moda brasileira passa o olhar mais para a própria cultura, criando estilos e tendências, assim como usando tecidos mais leves, que considerava mais adequados ao Brasil.

A brasileira Renata Ashcar (2001) apresenta, em sua obra Brasilessência, um cenário relativo aos ideais/tendências corporais dos anos 70, 80 e 90. Apesar de não abordar o aspecto em profundidade, a autora afirma que os Anos 70 foram a década da paz e amor, uma era pop, psicodélica, embalada pelos Beatles e Rollings Stones, marcada pela liberdade impulsionada pela pílula anticoncepcional, onde os cabelos deviam ser longos e livres, inclusive os black’s e os corpos passaram a ser bronzeados e cultuados: revistas publicavam dezenas de artigos com programas de exercícios e dietas. A saúde psicológica passou a ter importância: mente e corpo sãos. Nos Anos 80 a ordem foi consumir, a década foi marcada por mudanças em vários aspectos socioculturais, como a crescente preocupação com o meio ambiente, e outras não tão positivas como a competição em todos os níveis: beleza, estudos, trabalho, aquisições, poder. Nunca se fez tantos cursos, nem se trabalhou ou comprou tanto. A paixão pelo dinheiro movimentou homens e mulheres, onde corpo tinha que ser perfeito, dando espaço para o surgimento da aeróbica e a da musculação. Um novo conceito de que beleza emerge: a saúde. Devidamente emancipadas, as mulheres partiram em busca da feminilidade, valorizando a cintura fina e os saltos altos, sem abrir mão das suas conquistas. Os Anos 90 representaram, segundo ela, a busca do essencial, sendo marcados pela globalização e pela aceleração da tecnologia da informação. A ostentação cedeu espaço para a austeridade, onde o materialismo ficou fora de moda em prol de um mundo mais fraterno, marcado pela interatividade. A oferta de confortos foi enorme, e as taxas de desemprego ficaram altas. Uma eficaz geração de antidepressivos foi lançada para contornar as crises decorrentes, a aeróbica deu lugar ao yoga e os exercícios radicais deram lugar às massagens de inspiração oriental. A mensagem era: fique em paz com o próprio corpo e preze a qualidade de vida, a beleza ficou zen. As “ancas e quadris monumentais” tão valorizadas outrora, perderam seu valor na cultura brasileira, dando espaço a silhuetas cada vez mais finas.

Em A História da Beleza no Brasil, obra que trata mais detalhadamente do que esteve em voga no país, a historiadora brasileira especialista em história do corpo Denise Sant’Anna (2014) busca entender como surge a atual e considerável inquietação em ser belo, crescente no século XX (século que ficou profundamente marcado pela transformação do embelezamento), considerando as especificidades do Brasil. Atentando para aspectos como a crescente individualidade e a preocupação consigo próprio, a autora trata dos esforços de homens e mulheres para tornarem-se belos, além das dificuldades, ao longo da história, de não ter um corpo modelar. A beleza, que dentre outros fatores pode ser considerada um instrumento de poder e uma moeda de troca em diversas sociedades, tem como adversários o envelhecimento, a solidão e o fracasso. A preocupação com a aparência passa a ser bem-vista e comum, tanto para homens quanto mulheres, jovens e idosos, homo e heterossexuais, principalmente a partir dos anos 1950, quando “o embelezamento se transformou em gênero de primeira necessidade, uma megaindústria que reúne alimentação, cosmética, saúde e atividades esportivas” (2014, p. 10). O livro evidencia a importância inegável da aparência física no mundo contemporâneo, demonstrando também que a cobrança exercida nas mulheres tem raízes no passado: “Beleza escrevia-se principalmente no feminino” (p. 14). Um aspecto enfatizado em sua obra é a relação do brasileiro com o envelhecimento, evitado e esperado cada vez mais tarde, como demonstrou acima Teixeira (2011). Com o avanço tecnológico, o desejo de adiá-lo e evitá-lo se tornou mais viável.

O desejo de se manter fisicamente atraente após os 50 anos ganhou legitimidade e grande apoio do mercado de cosméticos e das técnicas cirúrgicas. Há certamente algumas diferenças nas maneiras de perceber a cirurgia plástica entre os sexos, as classes sociais e as idades; mas, para todos, retardar os sinais do envelhecimento tende a ser uma estratégia que melhora a posição de cada um na concorrência com os mais jovens (SANT’ANNA, 2014, p. 170).

O ponto de vista dos estudantes do CEC sobre o envelhecimento revela um pensamento negativo relativo ao mesmo. Na fala abaixo, o envelhecimento é tomado como sinônimo de falta de capacidade e de provável perda da autoestima, pela qual, a partir do que temos observado, a satisfação com a aparência física é responsável.

Eu tenho medo da velhice. Sei lá... assim... eu vejo as pessoas velhas, elas ficam tão indispostas. Não todas, né... mas boa parte. Daí eu tenho medo. Perder a minha capacidade, a minha autoestima, não sei se é algo bom... eu tenho medo. (Rafaela, 16 anos, estudante do CEC, entrevistada em 21/11/2015).

Sant’anna aponta que, na percepção de milhares de brasileiros, “melhorar o visual” é como uma oportunidade de, finalmente, consertar uma injustiça, representando ainda uma prova de autoestima e, simultaneamente, uma maneira de potencializar-se. No país, a cirurgia plástica atuaria como um meio de adquirir um corpo que funciona plenamente, ou seja, a ser usado como estímulo a vencer na vida, não sendo, em tempo algum e de nenhuma forma, contribuinte do fracasso. A justificativa para tamanha preocupação, no caso específico brasileiro, segundo a autora, seria a alta concorrência, tanto no aspecto trabalhista quando no relacional.

(...) comparado aos países europeus, o Brasil é uma sociedade majoritariamente jovem; por isso, a concorrência para adquirir e manter tanto empregos quanto os cônjuges é extremamente violenta, especialmente para quem tem mais de 40 anos e é mulher. Além desse aspecto, há outros: as cirurgias embelezadoras (mesmo transformando o paciente num cliente comprador de serviços) tendem a ser assumidas como um merecido presente (SANT’ANNA, 2014, p. 171).

O escritor, filósofo, semiólogo, linguista e bibliófilo italiano Umberto Eco (2004) coloca em História da Beleza (ilustradamente, a partir de obras-primas de todos os tempos), que aquilo que é considerado belo depende da época e da cultura em que está, considerando que não apenas em épocas diferentes, mas até mesmo em uma mesma cultura, diversas noções de beleza entraram em conflito. A beleza é concebida como algo que jamais foi absoluto ou imutável, assumindo diversas faces ao longo do tempo. Em seu último capítulo, intitulado A Beleza da Mídia, Eco observa a primeira metade do século XX e traz a ideia de uma beleza do consumo, que teria como aliados principais os mass media (revistas, cinema, televisão), que seguiriam os ideais de beleza propostos pelo consumo comercial, grande adversário da arte das vanguardas. Seu argumento se dá no sentido de apontar o que concebe como a contradição típica do século XX: apesar da luta da arte das vanguardas contra esse consumo comercial, os visitantes e compradores dessas artes seguem-no. Os mass media se utilizariam de diversos parâmetros de beleza, objetivando contemplar a todos os públicos, não apresentando, portanto, um único ideal de beleza: esta passa a ser ilimitadamente politeísta. São disseminadas diferentes belezas, de modo que cada um pode aproximar-se de um desses modelos através do consumo de serviços e produtos estéticos.

HISTÓRIA DA BELEZA NEGRA NO BRASIL

Amanda Braga (2013) realiza em sua tese de Doutorado nomeada Retratos em preto e branco: discursos, corpos e imagens em uma história da beleza negra no Brasil uma análise histórica que busca compreender as origens dos conceitos construídos acerca da beleza negra no Brasil, por meio de uma análise discursiva. A autora trata da beleza castigada pela escravidão, posteriormente, pelo alinhamento moral oferecido pelo século XX, até chegar à pluralidade característica da contemporaneidade. A beleza negra estaria apoiada em um paradoxo constituído pelo acontecimento estampado incansavelmente pelos mais diversos meios, e pelo discurso que precisa reafirmar-se constantemente enquanto tal. Braga aponta que até fins do século XIX o corpo ocupava apenas um papel secundário, teoricamente falando, e só depois disso é que a separação entre corpo e espírito deixou de existir.

As mídias audiovisuais de comunicação ao longo da história, formada por outdoors e anúncios em jornais, agiram no sentido de fazer circular informações sincréticas, fluidas e aceleradas, onde imagens – enquanto signos, passaram a integrar/constituir imaginários, discursos e identidades. Braga defende que atentar para a história de uma estética africana no período do Brasil escravocrata é imprescindível para entender as representações da beleza negra atual. Olhando para a mulher – cujo comportamento devia ser marcado pela reserva, sempre orientada para o domínio privado -, e mais especificamente para a beleza feminina, esta assumiu diversos papéis ao longo do tempo. De maneira sucinta, a mulher passa de deusa-mãe da natureza, da vida e da morte (a escultura Vênus13); para, na Idade média, ser considerada ardilosa, acusada de ter relações com o Satã (período Medieval); na Idade Moderna, começam a ser exaltados não só os atributos físicos quanto os espirituais: no Renascimento, a beleza feminina passa a ser canal de condução ao divino, representando a perfeição e a sabedoria de Deus, a nobreza; na passagem para o século XVI, um toque de sensualidade surge, de modo que a “beleza feminina ganha uma estética luxuosa, animada por composições que ressaltam o lirismo e a volúpia numa atmosfera de sensualidade e prazer” (2013, p. 62). Uma concepção de beleza que funde atributos físicos e virtudes morais predominaria até o século XVIII.

Analisando os anúncios de jornal da época, conclui que a diversidade estética apresentada por estes é tão plural quanto às minúcias que lhes acentuam. São marcas, deformações, cicatrizes e adereços de diferentes procedências e sentidos atribuídos. Tudo isso, sobrevivendo através da memória, são, em meio a continuidades e descontinuidades, parte da história dos nossos tempos. O que Braga demonstra é que as práticas se reinventam, são carregadas de pontos que apresentam uma relação de intericonicidade, corpos que passeiam pela memória e elaboram sentidos a partir das condições de produção que possuem. É deste modo que vestígios da Vênus Hotentote14 são encontrados nos arquivos do período escravocrata brasileiro, assim como marcas de corpos esteatopígicos ocupam nosso imaginário e alcançam a publicidade. São corpos iguais, mas distintos, sendo iguais na forma e distintos na maneira como significam/simbolizam. A valorização dos quadris (enquanto reverberação de sentidos realizada pela mídia) é um exemplo usado pela autora, demonstrando uma ressignificação decorrente da movência da história. Braga aponta que sensualidade, prazer, erotismo e luxúria são características que permanecem associadas à mulher negra. Por fim, Braga demonstra que o corpo assume um caráter plural. De maneira similar ao “reconhecimento” do negro, que atualmente ultrapassa a esfera corporal, abrangendo aspectos como o engajamento político, o samba no pé, a visibilidade profissional e outros diversos signos da negritude.

PROCESSO CIVILIZADOR

"Muitos dos progressos desejados tendiam a seguir as tendências burguesas e parisienses, a primar pelo que entendiam ser o refinamento das aparências e dos costumes" (SANT’ANNA, 2014, p. 13). O trecho, referente ao Brasil no passado, nos ajuda a pensar os processos que nos trouxeram até aqui. O alemão Norbert Elias apresenta, em O Processo Civilizador vol. 1 (1994) e O Processo Civilizador vol. 2 (1993), a noção de que a condição humana consiste em uma longa e prolongada construção do próprio homem e mulher. Tomando manuais de etiqueta europeus de diferentes épocas, o autor observa as modificações comportamentais adquiridas com o tempo: eis o que chama de Processo Civilizador. O autor, que trata de primeira natureza (entendida como mais instintiva) e segunda natureza (marcada pelo autocontrole), aponta que, ao longo da história ocidental, velhos hábitos/comportamentos são contidos/evitados/reprimidos/negados, ao passo que surgem novos comportamentos marcados por uma auto-regulação/autocontrole, aspecto novamente percebido na história brasileira:

Durante anos, o sentimento de “estar à vontade” careceu dos charmes atuais. Tendia ser um atestado de excentricidade, quando não de doença. Uma aparência descontraída não era reconhecida como sedutora, podendo denotar desleixo ou indesejada rusticidade. A contração da postura (e isso vale para várias idades e ambos os sexos) indicava elegância e primor (SANT’ANNA, 2014, p. 23).

Em tal processo, até mesmo os usos do corpo, ou mais especificamente, dos sentidos, foram modificados, onde o olhar obteve considerável valorização sob os demais.

Hoje essa regra é aceita quase como natural. É altamente característico do homem civilizado que seja proibido por autocontrole socialmente inculcado de, espontaneamente, tocar naquilo que deseja, ama, ou odeia. (...) O emprego do sentido do olfato, a tendência de cheirar o alimento ou outras coisas, veio a ser restringido como algo animal. Aqui vemos uma das interconexões através da qual um diferente órgão dos sentidos, o olho, assume importância muito específica na sociedade civilizada. De maneira semelhante à da orelha, e talvez ainda mais, um olho se torna um mediador do prazer precisamente porque a satisfação direta do desejo pelo prazer foi circunscrita por grande número de barreiras e proibições (ELIAS, 1994, p. 200).

Cas Wouters, se propondo a continuar o trabalho realizado por Elias, identifica a existência de uma terceira natureza, a qual ele concebe como um “processo de integração psíquica desencadeado por um processo de integração social continuada” (2012, p. 546). Esta terceira natureza seria marcada por condutas descontraídas, reflexivas, flexíveis e alertas, tal como uma emancipação das emoções, que recebem nova aceitação nos códigos sociais (de modo distinto ao da primeira natureza, é claro), eis o processo de informalização, que Wouters busca compreender. Em outras palavras, a segunda natureza seria a contraposição da primeira, a partir da contenção dos impulsos, enquanto a terceira se caracterizaria por um relaxamento, à medida que as regras/autocontrole já estavam devidamente internalizadas, de modo que “a emergência de uma terceira natureza depende da emancipação da primeira e da segunda natureza” (p. 53). Dizer o que se sente (seja medo, raiva, etc.) passa a ser mais aceitável.

Nesse sentido, os processos sociais através dos quais as relações e tratamentos entre grupos se tornaram menos rígidos e hierarquizados estiveram conectados com os processos psicossociais nos quais as relações entre funções psíquicas das emoções e impulsos se tornaram mais livres e fluidas. Um tipo de autorregulação marcado pelo funcionamento automático de contraemoções e contraimpulsos da consciência cedeu lugar para uma regulação marcada pela "sensibilidade". À medida que as fronteiras sociais e mentais foram diluídas, tanto os grupos sociais, como as funções psíquicas, se tornaram mais integrados – isto é, a comunicação e conexão entre grupos sociais e entre funções psíquicas se tornaram mais fluidas e flexíveis. Eis a sociogênese e a psicogênese da terceira natureza (WOUTERS, 2012, p. 563)

Tomando as discussões de Processo Civilizador e terceira natureza aplicadas ao tema corpo, as mudanças na maneira de vestir, tal como a manutenção da aparência física são identificados enquanto parte de um processo civilizador, onde há o elemento de relaxamento, no que diz respeito às roupas hoje utilizadas sem constrangimentos ou perigos, e a atual preocupação com a aparência (diante dessas novas formas de exposição). A questão a ser aqui observada é a vergonha/pudor, que outrora surgia da exposição do corpo, para agora dedicar-se às consideradas imperfeições corporais, sejam elas o sobrepeso, excesso de pelos ou estrias, dentre outras.

De qualquer modo, mesmo que o controle do medo da vergonha na nova cultura, com indivíduos do tipo voltado para os outros, seja diferente da velha cultura, com indivíduos voltados para a tradição, a preocupação continua a mesma: degradação, perda de valor, respeito e autorrespeito (WOUTERS, 2012, p. 567)

O filósofo, historiador e teórico social Michel Foucault apresenta em Vigiar e Punir (2009) um estudo do sistema prisional, destacando o processo de disciplinarização dos corpos presente nas diversas instituições sociais (como a família, a escola, o trabalho, por exemplo), resultante no que chama de docilização dos corpos. Conceituando corpos dóceis, defende que “é dócil um corpo que pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado” (p. 132). Este tipo de dominação ou controle social é exercido cotidianamente, na socialização, agindo de maneira sutil e, por isso, mais eficaz: por vezes, as práticas derivadas desse processo nem mesmo são percebidas enquanto tais. As técnicas reinventam-se com o tempo, de modo que as disciplinas (enquanto anatomia política do detalhe) que buscam estabelecer uma relação de docilidade – utilidade, aplicam uma coerção/manipulação detalhada, coordenando movimentos, gestos, comportamentos e atitudes. A noção de docilização abordada por Foucault assemelha-se ao processo civilizador de Norbert Elias, nos servindo também como fonte para o entendimento deste fenômeno.

A antropóloga social Mirian Goldenberg (2002) traz em Nu & Vestido análises baseadas em diferentes abordagens a respeito do corpo carioca (especialmente nas camadas médias). Apesar de concentrar-se em apenas um estado brasileiro, a autora traz aspectos interessantes para se pensar o corpo de modo mais amplo e considerando uma perspectiva do consumo: a noção da cultura do corpo enquanto uma “cultura do narcisismo”. Apesar da preocupação com o corpo, a beleza e a preservação da juventude serem fenômenos antigos, é a partir da segunda metade do século XX que o culto ao corpo adquire uma dimensão social nunca vista, entrando na era das massas e realizando um movimento novo na história da beleza feminina, assim como na masculina, embora com menos intensidade, como nos mostra Sant’Anna em sua análise, demonstrando que antes desse período os corpos não eram vistos como exclusividades individuais, mas “costumavam servir como instrumentos de gestão da vida coletiva, pertencentes a uma comunidade” (p. 56):

Até meados do século XX, para ambos os sexos, ter direitos sobre o próprio corpo tendia a ser uma excentricidade típica de pessoas da elite mundana ou um capricho afeito aos malandros, libertinos, homossexuais e prostitutas (SANT’ANNA, 2014, p. 58).

Vários foram os acontecimentos que colaboraram para esse crescimento do culto ao corpo no século XX: industrialização, mercantilização, divulgação de normas e imagens, aumento dos cuidados com corpo/rosto e a profissionalização do ideal estético, em que a mídia fomentou a paixão pela moda e o consumo de produtos de beleza, que se tornariam essenciais na identidade de homens e mulheres, ao passo em que corpo e moda seriam aspectos fundamentais no estilo de vida e o cuidado com a aparência requereria investimento pessoal. A participação de meios de comunicação que difundiam as tendências e maneiras estrangeiras eram comuns:

A influência do american way of life sobre os modelos de beleza divulgados pela imprensa aumentou a partir dessa época, contribuindo para modernizar os manuais de beleza: no lugar de descrever os modelos de beleza do passado grego, eles começaram a prescrever conselhos breves e diretos, incluindo exercícios para “manter a linha”, cremes e regimes embelezadores. Nos anos 1940, a revista Seleções do Reader’s Digest, traduzida para o português, circulava no Brasil e teve importante papel na difusão do americanismo (SANT’ANNA, 2014, p. 93).

Os mecanismos de intervenção/manipulação na imagem (que não necessariamente condiz com o corpo real) e no corpo propriamente dito surgidos desde então se tornaram os mais variados: Photoshop, cirurgias plásticas, dietas, cosméticos, bronzeamento, maquiagens, botox, implantes de silicone, apliques e tratamentos químicos capilares, depilações definitivas, suplementos alimentares, tratamentos dermatológicos, academias, anabolizantes, manicures, medicamentos inibidores de apetite, e até mesmo transtornos modernos como os distúrbios vigorexia15, anorexia16 e a bulimia17, entre tantos outros. Práticas que parecem evidenciar um imaginário em que o corpo humano é algo “sujo”18 e “feio”. De acordo com Elias (1994), “Repetidamente iremos ver como é característico de todo o processo que chamamos de civilização esse movimento de segregação, este ocultamento ‘para longe da vista’ daquilo que se tornou repugnante” (p. 128)

O corpo comporta a necessidade de ser humanamente controlado, pois é a comprovação/evidência de que somos também natureza. Na maneira como foi conduzido e vivenciado no Ocidente, o Processo Civilizador reprime a primeira natureza, tentando romper com esta. Como isto não é possível, desenvolvem-se ideais corporais que chegam ao ponto de negar a vitalidade, a saúde e até mesmo a fome, constituindo ironicamente um corpo quase inumano. Todos os mecanismos de intervenção/manipulação da imagem que citamos são tentativas de exercer poder sobre aquilo que, a rigor, não está sob o nosso controle: o corpo que herdamos e que apenas modificamos, controlamos parcialmente.

Cada pessoa passa a ser absolutamente responsabilizada pelo seu próprio corpo (juventude, beleza e saúde), e deve buscar corrigir as suas “imperfeições”, já que um corpo “em forma” é a representação do sucesso pessoal. Diante disso, o corpo assume também o papel de capital, ao passo em que é objeto de diversos investimentos, de tempo, de dinheiro, de expectativas, tornando-se alvo de inveja, desejo e admiração em homens e mulheres. As atitudes corporais por vezes concebidas como “naturais” são culturalmente construídas/modeladas. O corpo é “naturalmente cultivado”. Trazendo mais uma vez Goldenberg (2002), “O corpo (...) é uma construção cultural e não algo ‘natural’. Nesse sentido, também é roupa, máscara, veículo de comunicação carregado de signos que posicionam os indivíduos na sociedade” (p. 10).

A antropóloga afirma que muitos indivíduos têm se apropriado do corpo como um meio de expressão/representação do “eu”. Em fins do século XX e início do século XXI o que se nota é o surgimento de signos relativos a uma nova moralidade, onde em contrapartida a uma aparente liberação física e sexual (mudanças nas vestimentas, por exemplo), há um fomento a conformidade a um determinado padrão estético denominado boa forma. Aponta ainda que “Se é bem verdade que o corpo se emancipou de muitas de suas antigas prisões sexuais, procriadoras ou indumentárias, atualmente encontra-se submetido a coerções estéticas mais imperativas e geradoras de ansiedade que antigamente” (2002, p. 09).

O constrangimento de muitas pessoas diante da nudez/semi-nudez não reside mais na decência/pudor, mas no temor/vergonha de que suas “imperfeições” corporais sejam vista. Tomando Norbert Elias, Goldenberg aponta que "devido à mais nova moral, a da “boa forma”, a exposição do corpo, em nossos dias, não exige dos indivíduos apenas o controle das suas pulsões, mas também o (auto)controle de sua aparência física" (2002, p. 24). A autora observa um processo civilizador que se empreende e se legitima a partir da mídia, e que sustentaria essa aparente liberação dos corpos, tão sugerida e onipresente na publicidade e nas interações cotidianas. E por intermédio da publicidade, do cinema, televisão, jornais e revistas, a exigência por uma boa forma física torna-se cobrança rotineira para as pessoas em geral. O autocontrole da aparência física é mais estimulado a cada dia.

A influência disso, para além do corpo, atinge o vestuário, no qual o uso de roupas “inadequadas” ao seu corpo/forma física é condenado e o exercício de buscar peças que “disfarcem” características tidas como indesejáveis é estimulado: diante da pergunta sobre como escolhe o seu estilo, Íris19 responde: “eu escolho aquilo que me deixa mais magra”. Atualmente, a gordura, a flacidez ou a moleza são concebidos como símbolos da indisciplina, da falta de cuidado e da preguiça, indícios latentes da falta de investimento do indivíduo em si mesmo. Dentre os jovens cachoeiranos entrevistados, a “barriguinha” é o aspecto que mais incomoda, tanto meninos como meninas. Nas perguntas “o que você menos gosta no seu corpo?” ou “o que você modificaria?”, as respostas “a minha barriga, odeio a minha barriga”20; “essa barriga grande, gorda... Me acho barrigudo e acho feio pra mim21”; “tiraria a barriga”22, são recorrentes. Ou o contrário: ser magro demais acaba sendo um tormento para os garotos:

Não. Sei lá, assim, desde pequeno eu venho... Desde pequeno não, ultimamente, eu tenho ouvido falar assim: “Ô Matheus, se você ganhar um corpinho aí, pô, eu lhe pego”. Aí, entendeu? Eu tenho essas desavenças comigo mesmo, com meu corpo, pelo fato de eu ser magro. Nas férias agora que eu vou entrar na academia. Aí eu não me acho bonito (Matheus, 17 anos, estudante do CEC, entrevistado em 21/11/2015).

A beleza não é mais “obra da natureza divina”, mas resultado de um trabalho, quase uma “auto-lapidação”: há um estímulo incessante para alcançar a perfeição estética. Como aponta Bauman, a sociedade de consumidores “representa o tipo de sociedade que promove, encoraja ou reforça a escolha de um estilo de vida e uma estratégia existencial consumistas” (2008, p. 71). No sistema econômico em que vivemos, o capitalismo, tudo vira produto, adquire preço. Neste cenário, onde é sua a responsabilidade do seu corpo, o mesmo surge como “o mais belo objeto de consumo”, diante do trabalho fundamental da mídia e da publicidade em criar o consumo enquanto estilo de vida, alimentando perpetuamente o mercado de cosméticos, cirurgias estéticas, malhação, entre outros, a partir da inquietação/insatisfação do consumidor relativa à sua aparência, que custa a tornar-se “perfeita” e completamente “civilizada”. Nas palavras da própria Goldenberg (2002) “O corpo é um corpo coberto de signos distintivos. Um corpo que, apesar de aparentemente mais livre por seu maior desnudamento e exposição pública, é, na verdade, muito mais constrangido por regras sociais interiorizadas pelos seus portadores” (p. 38).

CIVILIZAÇÃO E PROCESSO COLONIZADOR: UMA ABORDAGEM DECOLONIAL

Compreendendo as questões referentes ao processo civilizador, nos resta buscar entender a chegada dessa civilização ao Brasil, ou seja, a difusão desse processo civilizador através do processo colonizador europeu, enquanto uma “evidente disseminação das instituições e dos padrões de conduta do Ocidente” (Gonçalves, 2013, p. 217). A influência da colonização nos processos civilizatórios que alcançaram o Brasil é inegável. Conhecer e reconhecer processos hegemônicos de civilização/colonização mostra-se essencial para a elaboração de estudos que apresentam preocupações com questões contra-hegemônicas. É nesse sentido que o estudo do processo civilizador europeu – disseminado mundo a fora posteriormente através das colonizações - pode nos ajudar, através da observação das semelhanças e peculiaridades presentes na constituição das nações colonizadas.

(...) a obra de Norbert Elias também trata do processo de colonização enquanto uma difusão do processo civilizador para além dos limites da Europa. Isto torna sua teoria uma potencial ferramenta para analisar a realidade social de regiões que sofreram o colonialismo europeu, como a América Latina e o Brasil, para compreender a dinâmica civilizatória que a Europa ocidental imprimiu nos territórios que colonizou (GONÇALVES, 2013, p. 203).

O historiador Sérgio Campos Gonçalves (2013) observa como a teoria Elisiana contribui ao adotar e nos ajudar a pensar, a partir de uma perspectiva de abordagem historiográfica, os contextos coloniais gerados pelo expansionismo europeu.

O conceito de civilização carrega desde o berço o julgamento de valor baseado em um etnocentrismo ocidental e europeu. Ao procurar definir como o processo de civilização instaurou-se durante a história moderna, Elias assume existir uma espécie de “conteúdo ideológico” impregnado no conceito de civilização e observa que essa palavra pode variar de sentido de acordo com o lugar, a época e com as interpretações próprias de cada nação. Consciente de seu significado abertamente eurocêntrico, Elias ilustra que o termo civilização designou, no fim do século XIX e início do XX, o sentimento de superioridade mantido pelos membros das sociedades ocidentais em geral (GONÇALVES, 2013, p. 206)

Para Elias, o indivíduo não existe isoladamente, tal como a sociedade: eles se constroem mutuamente. Os conceitos de psicogênese (mudanças que acontecem na estrutura de personalidade do indivíduo provocando transformações na estrutura social) e sociogênese (concepção de que mudanças na estrutura social advindas das relações sociais resultam em remodelações da estrutura de personalidade dos indivíduos) elucidam em que consiste o processo civilizador, que seria o produto/resultado das mudanças/transformações advindas da psicogênese e da sociogênese. Ainda a partir da análise de Gonçalves (2013):

Apesar de o comportamento estruturalmente civilizado assinalar rigorosamente a altivez do branco-colonizador-civilizador europeu, conforme observa Elias (1993, p.213), o movimento geral em longo prazo tendeu a reduzir as diferenças entre os padrões de conduta. Ainda que o comportamento civilizado fosse o emblema distintivo que conferia superioridade aos colonizadores, ao exportar e instalar seus modos de conduta e suas instituições, os “povos do Ocidente” criaram, com a colonização, uma dinâmica civilizatória análoga àquela que os fizeram “civilizados” em sua terra natal. Enquanto os colonizadores construíram barreiras separando-os daqueles que colonizavam e que consideravam inferiores, por meio de suas instituições e de sua rigorosa autorregulação de conduta, ao mesmo tempo, acabaram por disseminar nesses lugares tanto suas formas sociais quanto suas instituições e modos de conduta (GONÇALVES, 2013, p. 218).

Apesar de existir uma divisão rígida entre colonizador e colonizado em alguns autores, é importante pensar nas ambivalências que surgem nos processos de colonização. Nas relações, mesmo as coloniais, não é possível se colocar ao outro de modo intacto, ou seja, o contato promove integração e ressignificações: os fenômenos sociais são híbridos23.

Uma vez instalados via colonização na rede de interdependências dentro do processo civilizador ocidental, os indivíduos “absorvem o código dos grupos superiores e passam, assim, por um processo de assimilação”. Desse modo, Elias propõe que os processos de colonização protagonizados pelos países da Europa ocidental representam a difusão do processo civilizador para além dos limites europeus, onde teria sido assimilado e adaptado conforme as realidades locais (GONÇALVES, 2013, p. 219).

O fim de dicotomias teóricas (enquanto tensões por vezes observadas entre estudos Culturais e Decoloniais) pode resultar em influxos que ajudariam na complementação em suas limitações. A desconstrução dos “essencialismos” aos quais algumas das teorias que pretendem explicar a sociedade incorrem é um dos objetivos centrais dos estudos Decoloniais, perspectiva que não se opõe aos interesses dos estudos em Cultura. Os ditos “colonizados” não estão fora da “modernidade”/“pós-modernidade”, mas são parte dela, inclusive como seus construtores. Pensando na teoria de Elias, o sociólogo trata de interpenetrações: as relações não são unilaterais, se influenciam mutuamente, embora seja reconhecido que existem relações de poder que favorecem o colonizador. Tratando dos objetivos das reflexões Decoloniais, a sua crítica ao mundo ocidental pretende, em suma, ultrapassar os dualismos ocidentais, enquanto mecanismos que fundamentam preconceitos, desrespeitos, intolerância, exclusão e discriminações. Enquanto os estudos culturais voltam os olhares para a multiplicidade de significados usados pelos diferentes grupos sociais e suas conjunturas, os pensamentos Pós/Des coloniais apontam para os efeitos dos discursos hegemônicos nos modos de representação, perspectivas que podem perfeitamente assumir um caráter complementar.

Tal como Norbert Elias, Foucault é considerado eurocêntrico por autores decoloniais, por não apontar em suas teorias o processo do colonialismo. Apesar disso, suas teorias podem ser proveitosamente aplicadas em trabalhos decoloniais, ao passo que fornecem elementos primordiais para compreender relações de poder e dominação. Segundo Alcantara (2013), “Entender o ‘brasileiro’, a partir de suas heranças coloniais e a partir da concepção da colonialidade do saber, do poder e do ser, abre novos horizontes para discutir ética, diversidade, subjetivação e liberdade” (p. 09).

Portanto, a teoria de Foucault aparece mais uma vez, ao a considerarmos pertinente na compreensão do debate a respeito da manutenção dos padrões de beleza e decolonialidade, com sua noção de verdade, saber e poder. Primeiramente, para Foucault, é necessário considerar o tempo, a história e o espaço dos acontecimentos. Ademais, concebe que o poder está no saber: aquele que domina o conhecimento é socialmente legitimado, ou seja, pode exercer dominação. Afirma que para ser o proprietário do poder, necessariamente, tem de possuir o saber, ou seja, aquele que detém o saber também é o dono do poder, pois o conhecimento é uma fonte direta de dominação. Já a verdade aparece como determinada pelo conceito de poder, cada grupo estabelece sua verdade a partir do seu contexto, de modo que as verdades são variantes entre diferentes sociedades e grupos sociais. Em Foucault o poder é tomado como um nexo flutuante, que não habita em instituições ou indivíduos. Como traz Ferreirinha (2010), enquanto o poder se posiciona por meio da força, o saber está nos processos de aprendizagem/ensino, e é o resultado da sua junção que constitui o sujeito. A agência do poder/força sobre o corpo gera obediência, aceitação das regras/normas acatadas sem um exercício de reflexão crítica: eis a dominação sutil, e por isso mais eficaz da qual tratamos no tópico sobre o Processo Colonizador e Corpos Dóceis. Desta forma, os enunciados considerados “verdades” vão se reconfigurando com o tempo e se disseminando através de relações de poder, que legitimam discursos, como o que é determinado como belo por determinado grupo social, exercendo tipos diversos de coerção: não seja gordo, não seja magro demais, como exemplos. É válido ressaltar que essa coerção não se dá apenas no discurso direto, mas também quando, a nível de ilustração, se entra em uma loja e não se encontra uma roupa do seu tamanho.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este trabalho se propôs a observar como se constituíram as representações de corpo e beleza no Brasil, resultantes em uma significativa valorização corporal na contemporaneidade. Nos foi possível perceber que o corpo assume diversos valores e papéis, de modo que são vários os aspectos observados. Primeiramente, nos foi possível compreender que os ideais estéticos são construídos sócio historicamente, se modificam com o tempo, sendo internalizados/aprendidos por meio dos processos de socialização. Em outras palavras, o corpo é efeito de uma elaboração social e cultural, além de representar, como aponta Le Breton, a interface entre o social e o individual, funcionando como um potencial veículo de comunicação.

O corpo é capital, requerendo investimentos diversos (e contínuos) de tempo, de dinheiro e de expectativas, e mercadoria, no sentido de que se “vende” a própria imagem em troca de atenção, demanda, admiração, desejo e inveja, ao mesmo tempo em que se “compra” a imagem do outro, tal como aponta Bauman (2008). É também representação do “eu” e de sucesso pessoal, como aponta Goldemberg (2002), e comporta a busca de uma imagem “perfeita”, “limpa” e “civilizada”. Essa busca, discutida através de Norbert Elias, Cas Wouters e Mirian Goldemberg, pode ser compreendida como fruto do desenvolvimento de um processo civilizador/colonizador ocidental que afetou o Brasil, marcado, principalmente, por influência (nas modas e estilos) francesas, no início, depois norte-americanas, e de todo o mundo, posteriormente - (eis os impactos norte-europeizantes já criticados por Freyre em 1987), através da trama complexa de influências resultante do agigantamento da globalização, o que nos leva a considerar, inclusive, as relações com o chamado Oriente - no qual regras/tipos de comportamento são, cada vez mais, internalizados e praticados, e cujo produto são corpos dóceis, modificáveis, aperfeiçoáveis: civilizados. Ou seja, surgem novos comportamentos marcados por uma autor-regulação/autocontrole (que, diga-se de passagem, não pode ser exercido completamente) tomados como a terceira natureza apresentada por Wouters, em que o autocontrole da aparência física é mais estimulado a cada dia e o corpo assume o papel de “mais belo objeto de consumo”.

A respeito da produção e consumo social da beleza, os pontos que traz Teixeira (2001) são, quinze anos depois, deveras pertinentes. A beleza corporal, tão valorizada, rende recompensas (sejam elas emocionais, sociais ou materiais) e facilidades, o que estimula as pessoas a dissimular “imperfeições”24, apesar dos custos (emocionais, físicos ou financeiros). Uma boa aparência, relacionada a questões como o fim de constrangimentos e o aumento da autoestima e do bem-estar, está entre as qualidades mais importantes e desejáveis. Os quatro aspectos destacados em seu trabalho, também tocados por vários autores que nos referenciaram, se mantêm até hoje: a atuação da beleza como facilitadora; o fato de a vaidade no Brasil não ser considerada luxo, mas uma necessidade; a forte associação entre beleza e juventude e a preocupação com o envelhecimento; e, por fim, a beleza ser uma característica muito mais cobrada e admirada nas mulheres que nos homens (aos quais estão associadas força, bom desempenho e estabilidade financeira).

O teor das matérias online encontradas na internet25 - tanto as destinadas ao público feminino, quanto ao masculino – evidenciam o quanto o corpo e a aparência têm inquietado as pessoas no Brasil, ao direcionarem atenção a incentivar/alimentar a autoestima dos seus leitores. A percepção de que a mídia tem grande responsabilidade neste processo e que o padrão é excludente (e angustiante) e não condiz com a realidade de muitos brasileiros também é notável, de modo que o papel da mídia/publicidade perpassa a simples incitação do consumo, ao determinar/difundir também padrões de beleza, ou seja, ao disseminar enunciados considerados “verdades”, que se reconfiguram ao longo da história e estabelecem relações de poder, como o que é determinado como belo por determinado grupo social, exercendo tipos diversos de coerção que podem funcionar interseccionalmente, e são determinantes na construção das identidades, assim como difundindo padrões de feminilidade e masculinidade. As motivações que levam os jovens a preocupar-se com uma boa aparência vão além da sedução e o prazer em ser admirado ou elogiado. A sensação é a de uma obrigação social em estar bem: a aparência é concebida como um dever, uma preocupação relativa à aceitação, inclusive profissionalmente falando. Para as brasileiras e brasileiros, melhorar a aparência é potencializar-se. A noção trazida por Sant’Anna (2014), de que o “culto ao corpo” é reflexo da forte concorrência (no que diz respeito tanto a empregos quanto a relacionamentos) existente no Brasil, considerando que sua população é majoritariamente jovem, nos parece pertinente ao entendimento do fenômeno tomado como objeto de reflexão nesta pesquisa.

Tomando os padrões apresentados, a beleza feminina, no Brasil, está associada a curvas generosas, o chamado Mulherão, enquanto a masculina associa-se à altura e aos músculos. O peso é a característica física que mais incomoda os jovens, ressaltando que o corpo carrega as marcas da educação diferenciada a cada sexo, e as posturas corporais são também meios de expressão/exteriorização de estruturas socialmente construídas. O que se observa é que os homens tendem a valorizar as partes superiores do corpo (força, altivez) e desejam ser maiores, e as mulheres, por sua vez, valorizam as partes inferiores (submissão e delicadeza), tomando Bourdieu, e apresentam grande satisfação em ter partes do corpo menores. Práticas específicas que demonstram também que a cultura da beleza e da forma física transforma o corpo outrora natural em um corpo distintivo.

Apesar de a maioria das/dos jovens considerarem-se bonitos, a satisfação nunca é plena, há sempre algo a ser melhorado, o que corrobora duas ideias apresentadas neste trabalho: o caráter politeísta da beleza contemporânea ao qual Eco (2004) se refere: como as características físicas desses jovens diferem entre si, é perceptível, portanto, se que acredita em diferentes modelos de beleza, aos quais podemos alcançar ou nos aproximar através do consumo de serviços e produtos estéticos; e a busca pela “perfeição” trazida por Goldemberg (2002), marcada por um cenário onde é sua a responsabilidade do seu corpo, o que o torna “o mais belo objeto de consumo”, ao passo em que a inquietação/insatisfação do consumidor com relação à sua aparência, que custa a alcançar a “perfeição”. Sobre o consumo, a outrora habitual associação realizada a este – e enfaticamente o consumo de produtos voltados à manutenção da aparência - como característica feminina, enquanto o trabalho era associado ao universo masculino, não se sustenta entre os jovens: os meninos e as meninas apresentam anseios profissionais, tal como expõem tranquilamente suas práticas consumo, um provável reflexo da entrada de homens nos padrões morais e estéticos antes tidos como domínio das mulheres, apesar de ainda existir, no imaginário social, uma associação entre vaidade e homossexualidade, como vimos. Alguns meninos apresentam resistência em discutir/falar a respeito da beleza masculina (a beleza do outro, tendo em vista que valorizar, prezar e se preocupar com a própria beleza é corriqueiro e declarado sem constrangimentos), o que, segundo Molina (2014), pode ser entendido como fruto de uma elaboração social onde só o corpo feminino é tomado como público, digno de admiração e exposição, enquanto é designado ao corpo masculino a omissão e displicência.



A respeito da beleza negra no Brasil, Braga (2013) traça as etapas pelas quais esta passou até chegar à pluralidade característica da contemporaneidade. A erotização do corpo da mulher negra é pauta indispensável de reflexão, nos levando a pensar como diferentes aspectos existentes desde o Brasil escravocrata vão se ressignificando, desenvolvendo continuidades e descontinuidades. Os símbolos culturais e identitários tomam, na atualidade, a forma da liquidez, tendendo a se transformar, desfazer, multiplicar e construir em curto espaço de tempo. Essa fugacidade e a heterogeneidade dos padrões expandem-se à discussão relativa a estética negra, de modo que não há como apreender ou apontar, atualmente, um único padrão estético para o corpo negro, se considerarmos que o reconhecimento do negro, atualmente, ultrapassa a esfera do corpo: está no engajamento político, na visibilidade profissional, entre tantas outras esferas. As pessoas não têm mais uma identidade fixa desde o seu nascimento, se configurando mais comumente como um sentimento de pertencimento a um grupo social, por meio da incorporação de aspectos dos diversos espaços sociais dos quais faz parte e busca suas referências. O antropólogo e professor congolês Kabengele Munanga (2013), especialista em Antropologia da População Afro-brasileira, defende as identidades culturais como processos, jamais produtos acabados. As percepções de beleza e consumo de produtos do setor pelos jovens colaboradores deste trabalho sofrem influências do que Crenshaw (2002) chama de Interseccionalidade, onde gênero, raça/cor, geração e classe social, funcionam se influenciando, mutuamente, integrados, em intersecções. Diante da solicitação de que indicassem modelos femininos e masculinos de beleza, dentre nomes como Juliana Paes, Bruna Marquezine26, Anitta27, Eliana28, Gisele Bündchen29, Caio Castro, Bruno Gagliasso, Reinaldo Gianecchini, Cauã Reymond30, Cristiano Ronaldo31, surgem Taís Araújo32, Lázaro Ramos33 e Thiaguinho34 como figuras negras admiradas fisicamente e cujos nomes foram citados em maior número que as artistas/celebridades brancas, o que deixa claro que o número de negros na TV e na mídia nacionais é muito menor, mas que, mesmo em menor número, essas figuras são buscadas e admiradas em um processo de identificação. Um processo que evidencia que Representatividade importa35.
Nos cabe reconhecer a importância de observar como a constituição de identidades, multiplamente influenciadas, em um processo cada vez mais caracterizado pela hibridez, fluidez e efemeridade, resultante em identidades-cadentes, como diria Braga (2013), apresenta e ressignifica enunciados através de continuidades e descontinuidades históricas. Numa sociedade fluida, ou líquida, tomando Bauman (2001), onde a aparência, ou melhor, boas aparências, são requisito social, e o consumo é distintivo, classificador, construtor de identidades e meio de atingir notoriedade, necessitamos reparar responsavelmente nos discursos (verdades) disseminados e fomentar debates dispostos a desconstruir/descolonizar estereótipos contraproducentes.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

ALCANTARA, Ramon Luis de Santana. Apontamentos Para Pensar O Uso Dos Estudos Foucaultianos, Mediados Pelas Teorias Pós-Coloniais: ferramentas para problematizar o entendimento de diversidade no Brasil. VI Jornada internacional de Políticas Públicas. Maranhão, 2013. 10 p.

ASHCAR, Renata. Brasilessência: a cultura do perfume. São Paulo: Nova cultural, 201 p., 2001.

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 260 p., 2001.

_________________. Vida para Consumo: A transformação das pessoas em mercadoria. Rio de Janeiro: Zahar, 199 p., 2008.

BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo. São Paulo: Difusão Europeia do livro. 309 p. 1970.

BRAGA, Amanda. Retratos em Preto e Branco: discursos, corpos e imagens em uma história da beleza negra no Brasil. 2013. 229 p. Tese (Doutorado em Letras). Programa de Pós-Graduação em Letras, Universidade Federal da Paraíba. João Pessoa. 2013.



CRENSHAW, Kimberlé. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial relativos ao gênero.


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