Barbara nadel



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BARBARA NADEL

Barbara Nadel, considerada uma das mais talentosas escritoras dentro do género de romance contemporâneo, apresenta-nos uma Turquia moderna, mas, ao mesmo tempo com

reminiscências ao passado longínquo deste antigo império otomano.

da cidade de Istambul. Para Çetin Ikmen, o inspector

a turca, trata-se de um caso difícil. A rapariga era amiga da filha, e o traje que usava quando foi encontrada, um vestido de princesa otomana do século XIX, não

oferece uma explicação fácil. Com a promessa de justiça que fez à mãe da jovem morta ainda fresca nos lábios, Ikmen é retirado do caso. É destacado para a investigação

do rapto da mulher de um actor de cinema que já não é nova. O actor está a esconder alguma coisa, e Ikmen receia que os seus superiores também. Na cidade labiríntica

existe um terrível segredo, um segredo que aqueles que se

encontram dentro dele, querem que não venha à superfície

BARBARA NADEL foi actriz, trabalhou num hospital psiquiátrico como consultora, e cor crianças e adolescentes vítimas de abusos sexuais e psíquicos. Hoje trabalha

como relações públicas do National Schizophrenia Fellowship-s Good Companions Project. Barbara Nadel nasceu em Londres e presentemente vive em Essex. A autora desloca-se

com frequência à Turquia a fim de fazer investigação para os seus livros.

BARBARA NADEL

O HARÉM


Título original: Harém

Autor: (c) 2002

DEDICATÓRIA

Tive um ano difícil e contei com a ajuda de muitas pessoas. Este livro é dedicado a elas, em particular à minha mãe, ao meu marido e ao meu filho, aos meus amigos

Peter, Kathy e Alison, e a todos os meus colegas dos Good Companions. Além disso, gostaria também de dizer um grande "obrigado" à minha agente Juliet Burton, a Anne

Williams, Sarah Keen e a Zoe Carroll, da Headline, e a Senay e Sirma, os meus editores turcos, e a Oglak em Istambul.

PRÓLOGO

O sangue nunca antes fizera parte da equação. Mas agora, de súbito, ali estava ele. É claro que as coisas se tinham vindo a... deteriorar há algum tempo. Mas ele

fechara os olhos a isso.

Baixou o olhar para as profundezas da sua enorme piscina em forma de crescente e pensou: Tenho depor as coisas em ordem. E não deixar mais o assunto entregue a Vedat.

E acrescentou depois em voz alta:

- Tenho de ir a casa quanto antes.

Afinal, não era só ele, pois não? Havia outras pessoas também envolvidas - pessoas muito acima dele no esquema das coisas. Pessoas que contavam com ele para resolver

a questão. Pessoas que, mesmo agora, ainda não sabiam toda a verdade...

G dissera: "Bem, são da tua gente, conhece-los. Faz alguma coisa, senão teremos de ser nós a fazer."

Isso fizera com que o seu sangue gelasse, isso e os sussurros de medo que ainda hoje cedo captara em volta da piscina - sussurros de homens que tinham sido seus

amigos. Homens que agora diziam que o "penduravam lá fora a secar", se a merda chegasse à ventoinha.

Com uma determinação nascida apenas do medo, abriu a porta que dava para a casa da piscina e entrou. Uma jovem mulher loura estava deitada num enorme sofá de pele

a ver um episódio antigo de The Cosby Show.

Ele gritou-lhe:

- Temos de fazer as malas esta noite. Tenho de ir a casa.

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A mulher, assustada por aquela afirmação súbita, virou-se e levantou o olhar para ele:



- Mas nós estamos em casa - disse ela. - Esta...

- Quer dizer, a minha casa - precisou o homem rudemente. - A Turkiye.

CAPÍTULO UM

Çetin Ikmen terminou o que restava do seu café e pousou a chávena na mesa do pequeno-almoço. A manhã quente de Istambul já estava a torná-lo irritável, e, assim,

a última coisa de que precisava era de uma criança rabugenta. Levantou o olhar para a bonita adolescente que era sua filha e que estava sentada à sua frente.

- Bem, Hulya - disse -, se não queres continuar a trabalhar na pastani, o que queres então fazer?

- Quero trabalhar na área do espectáculo - respondeu ela. Ikmen esfregou as faces em jeito de aborrecimento.

- Em que qualidade? - perguntou.

Antes de responder, Hulya lançou um breve olhar de través ao jovem que se encontrava sentado a seu lado. Só quando se certificou de que ele estava completamente

embrenhado no livro que estava a ler é que ela disse:

- Quero ser actriz.

Mas Hulya enganou-se redondamente. O rapaz, Búlent, atirou o livro para o chão e desatou a rir. Hulya caiu-lhe em cima, irritada.

- Eu não estava a falar contigo! - disse. - Estava a ter uma conversa com o pai!

- Filhos...

- É preciso talento para se ser actriz, sabes?! - Búlent, sem ligar ao aviso do pai, espicaçava-a. - E é preciso dormir-se com toda a gente...

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- Búlent!



- Bem, só estou a dizer o que penso. - Com um encolher de ombros, Búlent evitou a raiva crescente que via no rosto do pai. - E, de qualquer maneira, pai, desde quando

é que és tão decoroso em relação a essas coisas?

- Não sou decoroso! - E, virando-se para a filha, Ikmen acrescentou: - Mas a tua mãe é!

- Oh, então eu nem sequer posso pensar nisto porque a mãe não iria aprovar!

- Não!

- É o que estás a dizer, pai.



- Sim, é - concordou o irmão. - É exactamente o que estás a insinuar.

- Não te metas nisto! - Ikmen, agora furioso, apontava ao filho um cigarro ameaçador. - Alá, esta casa tem sido uma zona de guerra desde que a tua mãe se foi embora!

Rodeado de adolescentes! Alguma vez um homem pode descansar em sossego?! - E acendeu o que a experiência dizia ao filho ser, no mínimo, o quinto cigarro da manhã.

Búlent levantou-se.

- Bem, eu vou trabalhar - sorriu à irmã e acrescentou: - Nem todos podemos passar o tempo a sonhar com o estrelato.

- Não é isso que estou a fazer.

- O nome desta família é Ikmen, Hulya - afagou-lhe o ombro de uma forma profundamente protectora. - O nosso pai é polícia, o que significa que não há nem glamour

nem dinheiro nas nossas vidas. Aprende a aceitar as coisas como elas são. - E, com um sorriso afectado, saiu.

A irmã, furiosa, reagiu como que para ir atrás dele, mas foi impedida pelo não menos furioso, e ainda mais aborrecido, pai.

- Oh, deixa-o! - disse Ikmen. - Largou a mão da filha e voltou a deixar-se cair na cadeira. - Tu e o teu irmão parecem dois gatos à luta por um pedaço de carne.

E todos os dias a mesma coisa. Discussões, discussões, discussões! Como a vossa mãe vos controla não sei. Eu não consigo. Passei toda a minha vida de adulto a trabalhar

como polícia na cidade mais dura da Turquia e não consigo controlar os meus próprios filhos!

- Pai...

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- Quando a tua mãe regressar da casa do tio Talaat, bem posso quebrar uma vida inteira de ateísmo e dar graças ao Todo-Poderoso. - Reparando na expressão de choque



estampada no rosto da filha, continuou: - Sim, o caso é assim tão sério, Hulya! Passaram duas semanas e tudo o que ouço de vocês são queixas, indelicadeza e mau

comportamento. O tio Talaat está muito doente e, por isso, a tua mãe, quando telefona, precisa de saber que está tudo bem connosco. Está a cuidar do teu tio e dos

teus irmãos e irmãs mais pequenos, Antalya está tão quente como um forno, e, no entanto, sempre que ela telefona, tenho de falar com ela com as vossas discussões

como ruído de fundo! Hulya baixou os olhos grandes e escuros.

- Pai...

- Se os teus irmãos mais velhos não estivessem tão ocupados, mandar-vos-ia aos dois para casa deles. Separar-vos-ia. - Tirou uma fumaça furiosa do cigarro antes

de o apagar e de acender outro.

- Eu não me importava nada de ficar com Çiçek - disse Hulya, mencionando a irmã mais velha, que agora dividia um apartamento perto do Aeroporto de Atatúrk.

- Ai não? - respondeu o pai num tom azedo. - A sério?

- A sério.

Ikmen cruzou os braços magros e olhou por cima do seu considerável nariz para a filha que se intimidava à sua frente.

- Logo tu, que não és capaz de chegar ao trabalho a horas quando vives apenas a cinquenta metros dele, queres viver, no mínimo, a quarenta e cinco minutos de distância.

-Já te disse, não quero trabalhar mais napastane, eu...

- Oh, sim, é claro, queres ser actriz, não é? - Ikmen debruçou-se para a frente e mostrou-lhe um sorriso desagradável. - Desculpa ter esquecido.

- Pai!

Ikmen levantou-se rapidamente da cadeira e dirigiu-se ao vestíbulo.



- Agora vou trabalhar - disse. - Não tenho alternativa.

Hulya, que, apesar das suas necessidades e protestos, tinha consciência das dificuldades da vida, inclinou-se para a frente, apoiando-se nos cotovelos, e colocou

a cabeça entre as mãos.

No vestíbulo, um Ikmen de rosto sem cor tirava o casaco de um dos cabides da parede, quando a campainha tocou. Com um suspiro

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de resignação, sabendo que, se ele não respondesse, ninguém o faria, abriu a porta. Uma mulher baixa, que usava a farda azul-clara da Zabita, ou da polícia do mercado,



encontrava-se à sua frente.

Ikmen esboçou um sorriso de reconhecimento. Húrrem Ipek vivia há cerca de dez anos no apartamento era frente da casa dos Ikmen. Viúva, Húrrem era a mãe esforçada

de duas raparigas, o rosto marcado pelas preocupações a trair os trinta e oito anos que tinha.

- Oh, inspector Ikmen - disse ela -, peço desculpa pelo incómodo. Será que o senhor ou Hulya, especialmente, viram a minha Hatice esta manhã?

A mais velha das filhas de Húrrem Ipek, Hatice, era um ano mais velha do que Hulya e também trabalhava na pastane de Sultanahmet. As raparigas eram amigas desde

o liceu.


- Não, não vi. - Fez-lhe sinal para que entrasse. - Mas presumo que a minha filha a tenha visto no trabalho ontem à noite. Talvez tenha saído para comprar qualquer

coisa.


- A cama dela não mostra sinais de ela lá ter dormido, inspector - a mulher mordia nervosamente o lábio inferior. - Ontem à noite deitei-me cedo, estava cansada.

Normalmente Hatice entra por volta das dez e meia, mas às nove horas eu já estava a dormir.

- E a sua outra filha? - perguntou Ikmen. - Não ouviu a irmã entrar em casa ontem à noite?

- Canan está actualmente em casa da minha irmã - respondeu Húrrem. - É melhor para ela no Verão. Tem lá primos com quem brincar... - A mulher pousou os olhos no

chão.

Hulya entrou, vinda da cozinha.



- Ontem à noite vieste para casa com Hatice? - perguntou Ikmen à filha. Geralmente as raparigas vinham juntas para casa a pé, quando trabalhavam ao serão, como lhes

tinham dito para fazer. No pino do Verão, Sultanahmet podia ser uma zona algo tumultuosa.

- Sim - respondeu Hulya. - Porquê?

- Viste-a entrar em casa? - perguntou Ikmen. Hulya baixou os olhos.

- Sim. Ou pelo menos vi-a à porta.

- Não a viste entrar de facto?

- Não sei - a rapariga encolheu os ombros. - Talvez. Ikmen suspirou e em seguida virou-se para Húrrem com um leve

sorriso.


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- Lamento, senhora Ipek - disse ele -, mas, como pode ver, esta mente adolescente em particular não é muito atenta.

Em resposta, Húrrem conseguiu esboçar um pequeno sorriso de

compreensão.

- Oh, bem - disse a mulher. - Tenho a certeza de que deve haver uma explicação razoável. Mas se souberem de alguma coisa...

- Avisá-la-emos, é claro - respondeu Ikmen. Depois, à medida que a vizinha deixava o apartamento, acrescentou: - Talvez ela tenha simplesmente ficado a pé a ver

televisão e depois tenha saído. Os filhos fazem essas coisas hoje em dia... sei que os meus fazem. - Sorriu. - Hatice é uma boa menina, tenho a certeza de que está

bem.


- Obrigada.

Depois de ter fechado a porta após Húrrem ter saído, Ikmen virou novamente a sua atenção para a filha. Reparou que a rapariga tinha ainda os olhos fixos no chão

à sua frente.

- Por que será que tenho a sensação - disse ele - de que sabes mais dos movimentos de Hatice ontem à noite do que estás preparada para admitir?

Havia, pelo menos assim se dizia em alguns bairros, lojas muito melhores do que a que ficava situada na esquina da Kútlúgún Sokak com a Dalbasti Sokak. Havia algumas

que, para além dos tradicionais artigos de mercearia, vendiam brinquedos, capas para telemóveis e até roupas baratas. Mas não havia outra, pelo menos que Nese Fahn

tivesse visto desde que migrara para Istambul nos anos 1970 do século XX, que se gabasse de ter um lojista que realmente fosse oriundo da aldeia dela. Selim Bey,

embora muitos anos mais velho do que Nese, não só tinha vivido na mesma rua que ela, como também conhecera o seu falecido marido, Adnan. Era uma base que para Nese

valia mais do que ouro. É que, independentemente de tudo o resto que ele possa ter sido - desempregado, desleal -, Adnan Fahn fora, para além de pai do filho, Turgut,

e da filha, Fátima, o amor da vida de Nese.

Quando ela entrava na loja, Selim Bey levantou-se de detrás de uma grande caixa de cigarros Winston.

- Bom dia, Nese Hanim - disse ele. - Espero que estejas bem.

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- Alá ainda concede boa saúde a esta velha - respondeu Nese com um sorriso triste. Se ao menos o Todo-Poderoso tivesse estendido tal honra ao seu Adnan...



- Folgo em sabê-lo - respondeu Selim Bey. - E como está Turgut?

- O rapaz está bem - Nese suspirou, inclinando-se para abrir o armário de vidro do pão e tirar um dos pães de milho em forma de maçaroca. - Ainda está à mesa à espera,

mas está bem de saúde. Tem azeitonas verdes?

Selim Bey baixou a mão para o armário frigorífico à sua frente e franziu o sobrolho.

- Não. Mas tenho pretas, muito boas.

- Humm... - Nese parecia indecisa. - Bem, se as recomenda, Selim Bey...

- Recomendo.

- Nesse caso, aponte meio quilo no livro.

O lojista começou a pesar as azeitonas, ao mesmo tempo que acenava levemente com a cabeça a um jovem que entrou e pegou num maço de cigarros, colocou algumas notas

em cima do balcão e saiu.

Nese olhou para trás, perscrutando a loja e a rua à procura de outras pessoas. Quando se certificou de que não vinha mais ninguém, virou a cabeça bem coberta em

direcção ao lojista.

- Uma pá boa e forte pode também ir para o livro, se tiver alguma - disse ela.

- Oh, tenho sempre uma para ti, Nese Hanim - disse o lojista com um brilho nos olhos. - Ainda tenho fé.

- Insallah, quando encontrarmos o que procuramos, posso pagar tudo o que está no livro e muito mais.

Selim Bey deitou as azeitonas da balança para um saco de plástico, que fechou com um nó.

- Se Adnan acreditava que esse tesouro existia, embora nunca me tenha dito onde poderia estar, isso já me chega. - O lojista continuou:- És uma boa mulher, Nese

Hanim, para manteres vivas as ambições do teu marido.

Nese Hanim estendeu a mão por cima do balcão e pegou no saco de azeitonas que Selim Bey lhe estendia.

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- Que outra escolha tenho? O meu filho merece estudar. Como é que, de outra forma, eu, uma pobre viúva, lhe poderei dar isso nesta cidade de ladrões?



Selim Bey saiu de detrás do balcão e procurou algo atrás de um grande saco de arroz. Os olhos de Nese Hanim iluminaram-se ao olhar para a pá nova e brilhante que

lhe viu nas mãos.

- Bem, parece forte - disse a mulher.

- E é - respondeu Selim Bey, à medida que batia ruidosamente com a pá no chão, passando-a depois à mulher. Com cara de enterro, Nese Hanim acenou com a cabeça em

jeito de aprovação, virando depois a figura alta e seca em direcção à porta da loja.

- Que a sorte te acompanhe - disse Selim Bey, ao mesmo tempo que o seu olhar acompanhava Nese até à rua queimada pelo sol. Do Mar de Mármara, ali próximo, o som

da sirene de um navio ecoou como um queixume através das ruas estreitas do bairro fustigado de Kumkapi.

A pastani não ficava longe do local onde Ikmen costumava estacionar o carro. E, tendo recebido da parte de Hulya pouco mais do que negações enfadadas em relação

aos movimentos de Hatice Ipek, fazia sentido ir ver se o patrão das raparigas, que ele conhecia, podia esclarecer alguma coisa da situação. Além do mais, avesso

como ele normalmente era à comida, Ikmen possuía uma paixão por tudo quanto era de chocolate.

A medida que transpunha a elegante entrada estilo art nouveau, Ikmen passava os olhos pelas delícias com natas e açúcar que enchiam o armário de vidro à sua esquerda

e que era dedicado aos artigos de confeitaria. Numerosos bolos ricos, profiteroks e croissants que escorriam chocolate líquido competiam com doces locais pela supremacia.

Baklava ensopada em xarope, espessos pudins de arroz e asure, uma viscosa sobremesa de fruta e nozes com montes de gordura e calorias. Mas a figura franzina de Ikmen

podia aguentar um pouco de volume a mais. E assim, em vez do pequeno-almoço e porque a mulher se encontrava a centenas de quilómetros de distância, Ikmen encomendou

um cappuccino e um prato de profiteroks. Em seguida sentou-se, acendeu um cigarro e esperou que o servissem. Lá fora na rua, de

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cabelo encaracolado, Ali, um dos empregados de mesa, também conhecido por Maradona devido à semelhança de feições, cumprimentou-o com um alegre aceno de cabeça.



O café e as profiteroks foram finalmente trazidos a Ikmen por Has-san, o proprietário da pastani. Alto, esbelto e com pouco mais de trinta anos, Hassan começara

a tomar conta da loja do pai, o excelente pasteleiro Kemal Bey, no início do ano anterior. Hassan pousou os doces com uma pequena vénia e em seguida ofereceu a mão

a Ikmen, ao mesmo tempo que lhe perguntava pela sua saúde. Ikmen fez sinal a Hassan para que se lhe juntasse.

- Não é muito frequente termos o prazer da sua companhia, inspector - disse o homem mais jovem, gritando em seguida à mulher que se encontrava ao balcão para que

lhe trouxesse um Nescafé.

- Não - Ikmen encolheu os ombros -, mas a minha mulher foi visitar o irmão que vive em Antalya. E uma vez que um homem tem de comer...

- Ah! - Hassan sorriu.

- Não quer dizer que estar aqui não seja um prazer - acrescentou Ikmen, levando à boca uma garfada de profiterole. - Você e o seu pai sempre foram os Picassos do

chocolate e da doçaria, Hassan. É uma arte tão importante como a pintura e escultura, na minha opinião.

- É muito amável, inspector. Obrigado.

- Não tem de quê.

O polícia continuou a comer em silêncio, os olhos, por vezes, meio fechados, enquanto apreciava a comida. Pouco depois de ter chegado o Nescafé de Hassan, Ikmen

passou ao assunto da sua visita.

- A minha filha está a comportar-se bem? - perguntou. - E Hatice, a amiga dela?

- Claro que sim. - Hassan pigarreou, soltando um risinho abafado, quase feminino. - As raparigas são muito simpáticas. Os clientes gostam delas.

- Alguns clientes em especial? - perguntou Ikmen.

O rosto do dono da pastelaria adquiriu uma súbita expressão de seriedade.

- Refere-se a rapazes, inspector?

- Entre outros.

Hassan recostou-se na cadeira, banhando o rosto no sol da manhã, que começava a aquecer.

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- Bem, as raparigas são jovens e bonitas - disse -, e, por isso, os homens, naturalmente, tentam, de vez em quando, meter conversa com elas. Mas não se passa nada



de grave, isso posso garantir-lhe, inspector. Eu cuido do meu pessoal, especialmente das mulheres.

- Com certeza.

- E, além disso, tanto quanto eu sei, o único homem por quem elas mostram algum interesse é o velho Ahmet Silay.

Ikmen ergueu as sobrancelhas.

- Não havia um actor com esse nome? Há muito tempo?

- Sim, é o próprio. - Hassan bebericou o seu café antes de continuar. - Ele é cliente habitual, mas terá, no mínimo, sessenta anos. É contemporâneo de Hikmet Sivas,

de quem, para ser franco, ele fala muito. Quanto a Hulya e a Hatice, penso que não há nada com que tenha de se preocupar, além de um pouco de admiração por estrelas

de cinema. - sorriu. - Não por Ahmet, compreende, mas por Sivas.

- O nosso irmão turco que está em Hollywood - observou Ikmen.

- O nosso único irmão turco em Hollywood - corrigiu Hassan. - Embora ele agora já esteja longe do seu apogeu, não lhe parece?

Ikmen encolheu os ombros. Não se interessava muito por filmes. Sabia que Hikmet Sivas tinha aparecido em muitos filmes nos anos 1960, mas, para além disso, sabia

muito pouco do homem.

- E Silay esteve aqui ontem à noite? - perguntou Ikmen.

- Sim - Hassan franziu o sobrolho. - Porquê?

No ponto em que as coisas estavam, com a possibilidade de Hatice Ipek aparecer a qualquer momento, Ikmen não queria fazer soar quaisquer campainhas de alarme.

- Oh, é que Hulya não pára de dizer que quer ser actriz - disse ele. Era, afinal, verdade.

Hassan sorriu.

- Oh, bem, ela provavelmente foi buscar essa ideia a Ahmet - disse. - As histórias que ele conta de viagens que fez integrado em elencos de teatro na Turquia e noutros

países em que esteve nos anos 1950 são bastante exóticas, a que ele acrescenta, é claro, a associação com Sivas.

- Quer dizer que Silay ainda é amigo de Sivas?

- Parece que o visitou em Los Angeles no passado - respondeu Hassan. - Não tenho motivos para não acreditar nele.

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- Não.



- Mas se quiser que eu fale com ele relativamente ao facto de andar a meter essas ideias na cabeça das raparigas, eu falo - ofereceu-se Hassan, à medida que se levantava

e se preparava para voltar ao trabalho. - Afinal, não quero perder Hulya nem Hatice a favor do negócio duvidoso do espectáculo, pois não?

Ikmen sorriu.

- Não, mas, pelo que diz, tenho a certeza de que Silay é inofensivo. E se as raparigas se estão a divertir, não há mal nenhum nisso.

- Bem, é consigo, inspector - disse o homem mais novo, e, com uma vénia, afastou-se.

Ikmen terminou as suasprofiteroles e voltou a olhar pela janela. É claro que do nada nunca podia sair nada, e era interessante saber de onde vinham as ambições teatrais

de Hulya. E se, como Hassan parecia pensar, ambas as raparigas se sentiam actualmente inclinadas para carreiras na indústria do espectáculo, talvez Hatice tivesse

ido tentar encontrar-se com alguns agentes de cinema e de teatro em Beyoglu. Talvez por isso Hulya tivesse parecido tão relutante em falar da sua amiga. Mas certamente

que Hatice não teria ido visitar agentes a meio da noite!...

CAPÍTULO DOIS

O inspector Mehmet Suleyman estava a sair para o trabalho quando ouviu o grito percorrer o piso de cima da sua casa. Zelfa! Deixou cair o maço de papéis que trazia

na mão e, a correr, subiu as escadas para o seu quarto. Ao entrar, Patrick, o gato de quinze anos da mulher, saltou e passou por ele a grande velocidade, dirigindo-se,

presumivelmente, a algum local onde Zelfa não se encontrava.

A sua mulher, que ele aparentemente deixara a dormir apenas meia hora antes, estava sentada na cama, o rosto vermelho e contorcido de dor.

- O que é? Já começou? - disse ele, enquanto corria para junto dela e lhe colocava um braço em volta dos ombros trémulos.

Como resposta, Zelfa empurrou o edredão para trás, em direcção aos pés, e ficou de olhos esbugalhados, ofegante, perante o que pusera a descoberto. A parte de baixo

do edredão, assim como o lençol, estavam encharcados em água cor-de-rosa, manchada de sangue.

- Parece que está na hora de irmos para o hospital - disse o marido. Virou as costas à mulher e aproximou-se do roupeiro dela, de onde tirou uma mala e um casaco

de Inverno.

Zelfa, ainda ofegante enquanto observava o que o marido estava a fazer, franziu o sobrolho.

- Não posso vestir isso - disse ela no seu rude inglês com sotaque irlandês. - Vou morrer de calor.

Mehmet colocou-lhe o casaco solto em volta dos ombros.

- Não podes sair só com uma camisa de noite vestida - disse ele. - Vou ligar o ar condicionado no carro. Assim vai estar tudo bem.

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-Jesus Cristo!

Mehmet ajudou Zelfa a descer os pés inchados para o chão e em seguida puxou-a devagar para a colocar em pé.

Para uma mulher como Zelfa - uma mulher activa, psiquiatra de profissão, que crescera na Irlanda - estar assim tão gorda parecia errado e até confuso. Mas Zelfa

tivera desejos e comera uma enorme quantidade de chocolate durante a gravidez, o que parecera preferível aos seus cigarros habituais.

- Estou como aqueles brinquedos - disse ela, enquanto se arrastava pesadamente, com a ajuda do marido, em direcção à porta da casa de banho. - Aqueles palhaços gordos

que nunca caem, que estão sempre em pé, a balançar.

- Quando o nosso filho nascer, vais sentir-te melhor - disse Mehmet. Por dentro, o coração batia-lhe com força e a carne tremia-lhe dentro da pele. O seu filho!

Finalmente ia nascer, trazendo-lhe uma intensa sensação de alegria mas também de grande apreensão. Mesmo agora, no início do século XXI, havia uma percentagem de

bebés que ainda morriam à nascença. E Zelfa tinha, afinal, quase quarenta e oito anos, e este menino era o primeiro e provavelmente o último filho que iria ter.

À medida que desciam as escadas, Mehmet apertava tanto a mulher como o filho com força contra o corpo.

- O médico diz que pertenciam a uma rapariga que ainda não estava completamente desenvolvida - disse Orhan Tepe, ao mesmo tempo que colocava a fotografia de ossos

pélvicos e fémures à frente do seu superior, Çetin Ikmen.

- Está bem. Agora, é preciso verificar as listas de vítimas do terramoto desaparecidas nesse sector - respondeu Ikmen. Não era a primeira vez que eles tinham de

tentar fazer corresponder partes de corpos com os nomes daqueles cujos corpos nunca tinham sido recuperados a seguir à catástrofe de 1999. Passados quase dois anos,

os traumatizados sobreviventes ainda ficavam chocados com os ossos e a carne dos mortos que os seus jardins e parques de estacionamento continuavam a revelar-lhes.

Havia também a possibilidade de estes fragmentos encerrarem segredos mais sinistros. Afinal, que local melhor

cidade que eram, efectivamente, cemitérios? Era este o motivo pelo qual Ikmen e os colegas se tinham envolvido nestes assuntos. O homicídio era a sua especialidade,

e a luta para levar perante a justiça aqueles que tinham cometido tais actos fora a sua missão profissional durante quase toda a sua vida de trabalho.

Aos quarenta e quatro anos, Çetin Ikmen era subalimentado (devido à dor provocada pelas numerosas úlceras no estômago), mal pago e consumido pelo tabaco. Apesar

destas imperfeições, era apaixonado pelo seu trabalho, tinha uma mulher que o amava e apoiava e nove filhos saudáveis, ainda que, por vezes, problemáticos. Ao longo

dos anos, as suas excepcionais capacidades de detective e a sua inteligência viva tinham-lhe granjeado um êxito considerável no seio do departamento da polícia de

Istambul. Este facto, aliado à incorruptível honestidade que exigia tanto de si próprio como dos seus agentes, tinha-lhe conferido o género de estatuto lendário

que, pontualmente, permitia que ocorressem certas quebras de procedimento, sem que tal originasse comentários por parte dos seus superiores. Em suma, Ikmen era um

fenómeno, e, como tal, era admirado e até solicitado por outros. Isso nem sempre era fácil para aqueles que rodeavam Ikmen. O seu actual subalterno, o sargento Orhan

Tepe, sentia frequentemente que se esperava muito mais dele do que era razoável. Essa não era uma atitude que tivesse caracterizado o anterior sargento de Ikmen,

Mehmet Suleyman, agora promovido a inspector. Mas, como Tepe frequentemente observava para si próprio, Ikmen e Suleyman eram da mesma espécie. Ele era diferente.

Isso não era nada que o fizesse feliz. Na verdade, nada o fazia feliz, hoje em dia.

A medida que a lista de desaparecidos da região de Atakóy aparecia no ecrã do computador de Tepe, este colocou de parte tais pensamentos pessoais e concentrou-se

no trabalho. Do outro lado do pequeno gabinete em desordem, Ikmen franzia o sobrolho a uma pilha de papéis, até que foi interrompido pelo toque do seu telefone.

Pegou no auscultador.

- Ikmen.

- Pai?


Era Hulya, e, a julgar pelo tremor da voz, estava nervosa com alguma coisa.

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- Olá, Hulya, o que posso fazer por ti?

- Pai, acabei de falar com a senhora Ipek e ela diz que Hatice ainda não está em casa.

- Não? - Será que a filha ia finalmente contar-lhe exactamente o que acontecera quando se separara da amiga na noite anterior? Ikmen suspeitava de que era isso que

ia acontecer. Se se trataria de uma grande confissão ou, pelo contrário, algum disparate juvenil, isso ele não podia ainda dizer.

- Nesse caso - incitou ele -, tens mais alguma coisa para me contar sobre a forma como te separaste de Hatice ontem à noite, ou estás a telefonar só para me manteres

informado?

No curto silêncio que se seguiu, Ikmen viu Tepe levantar por breves instantes o olhar do ecrã do computador para mirar a figura bem torneada da sargento Ayse Farsakoglu,

que passava junto à janela do gabinete deles. Tão evidente era o desejo que o homem mais jovem, e casado, nutria pela colega que Ikmen virou a cadeira para ficar

de frente para a parede.

- Bem, Hulya, estou à espera.

- Pai...

- Sim?


- De facto, eu não vi Hatice regressar a casa ontem à noite. Isto dificilmente seria uma surpresa, embora Hulya obviamente sentisse que deveria ser.

- Nesse caso, aonde é que ela foi, Hulya? - perguntou ele. - Depois do trabalho, quando a deixaste...

- Não sei.

- Hã?


Ele ouviu-a engolir em seco.

- Não, sinceramente, pai, não sei.

- Então, se não sabes aonde ela foi, sabes o que ela poderia ter estado a fazer?

- Mas, pai, eu prometi que não contava.

Ikmen voltou a virar a cadeira para ficar de frente para a entrada do gabinete, as feições sombrias. Misericordiosamente, Tepe regressara ao trabalho. Não que Ikmen

reparasse muito, mas estava demasiado irritado com a filha para ser incomodado pelos pecadilhos do seu

sargento. Como Ikmen sabia da sua amarga experiência, as promessas entre adolescentes podiam ser coisas muito perigosas.

- Hulya, vais contar-me, senão não me tinhas telefonado, e assim eu teria continuado a investigar - disse ele.

- Oh, pai, mas vais ficar tão zangado...

- Uma vez que já estou furioso, não tens nada a perder, pois não?!

- Pai...

- Se tem alguma coisa a ver com o senhor Ahmet Silay ou outro tipo qualquer do teatro com quem vocês tenham falado por causa das

vossas ambições...

- Como é que soubeste? - Ela parecia ofendida e verdadeiramente chocada. - Falaste com o senhor Silay?

- Não - respondeu Ikmen com brusquidão -, mas penso que

estou prestes a fazê-lo.

- Mas isto não tem nada a ver com ele, pai! Ikmen tirou uma longa fumaça do seu cigarro.

- Então tem a ver com o quê, Hulya? - perguntou ele. Ouviu a filha suspirar e em seguida, com um encolher de ombros

quase visível na voz, ela cedeu, como era seu costume com o pai.

- Ontem à noite, Hatice tinha outro trabalho depois do emprego. Era uma grande oportunidade na área do espectáculo. Muito dinheiro.

Ikmen, que já ouvira tais histórias muitas, muitas vezes antes, contadas por raparigas ainda mais jovens e inocentes do que Hulya, enfiou a cabeça entre as mãos.

- Não me digas - disse ele penosamente. - Uns homens simpáticos queriam que ela dançasse para eles.

- Sim, e que representasse também - respondeu Hulya simplesmente. - Como sabias? Falaste com...

- Penso que devias vir aqui agora, Hulya - disse Ikmen, ao mesmo tempo que apagava o cigarro e acendia outro.

- O quê? A esquadra? - Ela parecia aterrada.

- Sim - respondeu o pai por entredentes. - É onde trabalho, Hulya. Sou polícia. Tens informações sobre alguém que pode estar desaparecido e a correr perigo. Por

favor, vem até aqui. Agora!

Tepe, assustado pelo súbito rugido enraivecido do seu superior, imprimiu sem querer a lista que estava no ecrã.

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Embora Turgut Fahn se distinguisse por um apetite intelectual voraz, o seu entusiasmo por actividades físicas era bastante mais modesto. Está bem, a mãe já não era



jovem, mas por que é que ele tinha sempre de carregar todas as ferramentas quando faziam as suas expedições ao mundo subterrâneo? Ele era o cérebro da família. Tanto

a mãe como a irmã diziam-no a toda a gente, e, quando estava vivo, também o pai concordara com esta análise. Fora, afinal, Turgut quem metera na cabeça de Adnan

toda esta ideia da cisterna, embora a mãe se referisse sempre a estas diligências como tentativas para realizar os sonhos do marido.

As cisternas que crivam as fundações da cidade velha foram construídas pelos imperadores bizantinos. Alimentadas com água da Floresta de Belgrado por meio de aquedutos,

estes enormes espaços asseguravam que, em caso de seca ou cerco, a cidade de Constantino nunca passava sede. Foi um sistema com muito êxito - durante um tempo. Contudo,

durante o período otomano, as cisternas caíram em ruína e só foram "redescobertas" por um viajante francês do século XVI, que ficou pasmado ao ouvir histórias sobre

habitantes locais que pescavam debaixo do chão. E não foi senão no século XX que começaram a ser extensivamente exploradas. E mesmo nessa altura só se explorou uma,

a Yerebatan Saray, que desde os anos 1980 albergava diariamente espectáculos de som e luz para turistas. Assim, não era decididamente para Yerebatan Saray que Turgut

e Nese Fahri, juntamente com as suas ferramentas, se dirigiam. Não. Se a teoria de Turgut estava correcta e se se encontrasse escondido nas cisternas um tesouro

grego de valor incalculável, não seria na única que já fora exaustivamente escavada. Seria numa das outras que continuava serena e tranquila por baixo de bazares

e cafés, quarteirões de casas e apartamentos, a apodrecer lentamente no seu próprio lodo espesso e escuro. De facto, uma cisterna exactamente igual àquela em que

Turgut entrava agora.

Através de uma combinação de trabalho de detective amador e de suborno, Turgut e Nese tinham, uns meses antes, identificado esta cisterna em especial. Havia algum

tempo que circulavam rumores da existência de uma pequena cisterna logo a norte da grande Cisterna de Binbirdirek - que estava actualmente a ser escavada. Fora apenas

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uma questão de tempo até que os intrépidos Fahn a localizassem. Situada no jardim de uma casa velha de Túrbedar Sokak, a entrada para a cisterna era um buraco no



chão, que, até há pouco tempo, estivera coberto por uma grosseira tampa de madeira. Agora prestavelmente removida do local pela mulher idosa que era proprietária

da casa, o acesso à entrada estava a custar aos Fahn quase metade do ordenado semanal de Turgut. Aparentemente, a idade não apaziguara o desejo que a proprietária,

a senhora Oncú, nutria pelas jóias baratas que este pequeno empreendimento lhe permitia comprar.

- Que a sorte vos acompanhe - disse a senhora Oncú, à medida que passava a pá a Nese, já no interior da cisterna.

Turgut acendeu a tocha e dirigiu-a para aquilo que, ao longo das semanas, se tornara um cenário sombriamente familiar. Cheio de lodo até quase metade da altura das

colunas que serviam de suporte ao tecto. Uma grande parte da sujidade que existia na cisterna, pensou Turgut, devia datar dos tempos pré-otomanos. Até agora, eles

ainda nem sequer tinham vislumbrado o chão.

Nese caminhou até à pequena cova que tinham escavado da última vez e começou a afastar o lodo com uma colher de pedreiro. Quando se debruçava sobre o trabalho, levou

uma mão aos rins e gemeu.

- Não sei por quanto mais tempo é que poderei continuar a fazer isto - disse ela, enquanto observava o filho a dar início ao pesado e rítmico trabalho de escavação.

- Que Alá me perdoe, mas nem sempre me sinto com forças suficientes para isto. Tenho o coração bom, mas estou velha.

- Não, não estás - respondeu-lhe o filho, ofegante, ao mesmo tempo que removia a imundície para a pirâmide de lodo que tinham construído ao lado da escavação. -

E, seja como for, tudo isto acabará quando tivermos encontrado o que procuramos. - Fez uma pausa momentânea para limpar a testa e recuperar o fôlego. - Toda a gente

sabe que quando conquistámos a cidade, os Gregos não tinham tanto ouro como o Sultão Fatih Mehmed pensava. Deve ter ido para qualquer lado. E, como o pai sempre

disse, tem de estar num local onde as pessoas não tivessem estado antes. Um local como este.

- Sim, sim, sei isso tudo - respondeu Nese, à medida que limpava irritadamente o lodo que lhe escorregava debaixo dos pés. - Estou só a dizer que, para mim...

- Para ti é o mesmo que é para mim - respondeu Turgut. - Muito trabalho, só com os sonhos do pai a darem-nos força para continuar. - E o rapaz virou-lhe as costas

e começou de novo a escavar.

Escavou durante algum tempo, ritmicamente, com determinação, sem se aperceber de que havia algum tempo que a mãe interrompera o trabalho. Mas quando reparou, Turgut

ficou preocupado. Parecendo congelada na sua dolorosa posição inclinada, Nese tinha uma mão trémula estendida à sua frente.

Alarmado, Turgut deixou cair a pá e aproximou-se dela.

- Mãe!


Mas ela não respondeu. Os olhos vítreos, Nese soltou apenas um pequeno som gorgolejante e rouco - o tipo de som que poderão emitir aqueles que acabam de sofrer um

ataque.


- Mãe!

Turgut agarrou-a pelos ombros e tentou puxá-la para cima, para si. Mas Nese, pregada ao chão, não se mexia. Hipnotizada por um local qualquer mesmo à sua frente,

ela não deixava de olhar em frente, até que o filho viu o que lhe captara e paralisara a atenção.

Agora era a vez de Turgut ficar boquiaberto à medida que a beleza da coroa antiga lhe atingiu os olhos. A luz da tocha que segurava passeava-se pelo artefacto. Havia

também ouro e jóias - esmeraldas, rubis, diamantes do tamanho de punhos de bebé...

Turgut, o corpo todo a tremer de emoção, estendeu o braço para além da mãe e tocou-lhe suavemente com os dedos. A coroa produzia uma estranha sensação de calor.

CAPÍTULO TRÊS

Ambos ocuparam os seus lugares em silêncio. De calções e t-shirts de cores vivas, os rostos quase completamente obscurecidos pelos óculos de sol, o seu aspecto não

se distinguia particularmente do comum - para habitantes de Los Angeles. Se se encontrassem em Nova Iorque ou Seattle, teriam parecido bizarros, mas não aqui na

Cidade dos Anjos.

Não é que os óculos de sol enganassem alguém. Desde que nascem que os habitantes de Los Angeles são treinados para verem a celebridade através de paredes de tijolo,

se necessário. E, além disso, os óculos não tinham a intenção de esconder, de facto, alguma coisa - faziam parte do uniforme. Comprimidos de vitaminas, pequenas

cicatrizes atrás das orelhas, jóias da Tiffany, óculos escuros.

Alguns dos seus companheiros de viagem, especialmente as mulheres, reconheciam-nos na mesma. Mas uma vez que estavam, como sempre, a viajar em primeira classe, nenhuma

das mulheres lhes disse, na realidade, alguma coisa. No entanto, ele sabia que, num voo tão longo, era apenas uma questão de tempo. Provavelmente, pensou ele, elas

usariam o assunto do seu recente casamento com Kaycee para entabular conversa. Ele virou-se para ela e sorriu, observando-a enquanto ela tentava encurtar o cinto

de segurança o suficiente para se ajustar às suas ancas magras.

- Meu Deus - disse ela, ao mesmo tempo que lhe retribuía o sorriso, a voz funda do Sul a arrastar-se num desdém inteligente -, se eu emagrecer ainda mais, de certeza

que me vou juntar ao mundo dos espíritos!

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O marido, o actor com mais êxito que a Turquia alguma vez viu nascer, riu:

- Quando chegarmos a Istambul, podes comer exactamente o que te apetecer - disse Hikmet Sivas. - De facto, se não o fizeres, a minha irmã Hale ficará muito ofendida.

- Então sempre é verdade o que dizem de vocês? - perguntou Kaycee.

- E o que é que dizem?

- Que vocês gostam de comer e de mulheres avantajadas. Hikmet Sivas soltou uma gargalhada.

- Sim, gostamos - disse. - De todos os prazeres sensuais... - E nesse momento o seu rosto ensombrou-se.

Kaycee tirou da bagagem de mão um livro de capa grossa e abriu-o a meio.

- Nesse caso, talvez eu possa ganhar mais uns quilinhos por algum tempo - disse ela, baixando o olhar para a página aberta à sua frente.

- Sim.

- É uma pena ter de voltar a perdê-los antes de regressarmos.



- Hmm.

Então Kaycee levantou os olhos do seu tratado sobre a natureza da função teórica dos buracos negros e olhou pela janela do avião. Lá fora estava Los Angeles, o seu

rico e privilegiado lar. Estranhamente, ela fez uma careta.

- Maldita cidade de merda! - disse, e olhou para o marido. - Vou para Istambul! Mal posso esperar!

- De facto.

Ainda sorridente, ela regressou à leitura.

Istambul. Hikmet Sivas estremeceu por dentro. A sua casa. Havia algum tempo - demasiado tempo. As coisas tinham mudado. Já lá ia o tempo em que ele mal podia esperar

por chegar a casa. Mas agora não. Desta vez era diferente, desta vez estava sob pressão.

- É Ali Bey, não é?

Em resposta ao seu agora raramente usado nome artístico, Sivas voltou-se. A pele da mulher, queimada pelo sol, fazia lembrar a de um crocodilo. Ela rasgou os lábios

cor de laranja num sorriso.

Sivas fez uma vénia graciosamente.

- Sim - disse.

- Eu disse a Miriam que tinha de ser você - explicou a mulher, indicando outra mulher, ainda mais queimada, que estava sentada num dos lugares à direita deles. -

Eu reconhecê-lo-ia em qualquer parte. Conheci o meu segundo marido num dos seus filmes, The Manfrom Acapulco. Estreou-se seis meses depois de Kennedy ter sido assassinado.

Nunca vou esquecer isso.

- É muita simpatia da sua parte - e, em seguida, o actor virou a cabeça e fechou os olhos. Ali Bey, há quanto tempo isso fora, e quanto custara a Sivas sê-lo.

A mulher, não recebendo mais resposta nenhuma do seu ídolo, voltou a ocupar o seu lugar.

Sivas/Ali Bey fingiu estar a dormir até que o avião levantou voo.

- É falsa.

Instantaneamente, os olhos de Nese encheram-se de lágrimas.

- Não pode ser!

- Bem, então pega-lhe e diz-me o que pensas - Turgut passou a coroa à mãe.

Nese endireitou as costas ao mesmo tempo que agarrava o objecto brilhante que o filho lhe estendia e soltou um gemido, embora fosse impossível dizer se essa reacção

se devia à dor que o movimento lhe provocava ou à tristeza que agora sentia ao segurar o objecto na mão.

- É leve, não é? - disse o filho, abanando a cabeça, incrédulo. - O ouro e as jóias são pesados e frios. Isto não é.

- É como uma daquelas coroas que as jovens noivas usam aqui - disse Nese, fazendo alusão aos longos casos de amor que as noivas turcas continuavam a ter com coroas

como esta.

- E é, de facto, uma dessas, mãe.

- Sim, mas como é que isto veio...

- Não sei! - disse o jovem com brusquidão.

- Turgut!

O rapaz levantou a pá e escavou mais uma vez na imundície em volta dos pés.

- Atira-a para a pilha - disse ele, apontando com a cabeça para o lodo que já tinham escavado.

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- Oh, mas, Turgut, podíamos guardar...



- Não vale nada, mãe! - Irritado e exausto, Turgut, ainda assim, escavava com um feroz sentido de objectivo que não permitia divergências com facilidade.

- Está bem, está bem.

Ultrapassada alguma dificuldade, Nese transpôs a superfície irregular da sujidade, até que, de coroa na mão, chegou à pirâmide de lodo. Com um leve suspiro de pena,

a mulher baixou os olhos para o objecto e, embora lhe tivesse passado pela cabeça a ideia de que a coroa poderia ficar bem na cabeça da filha, deu um passo em frente

para a atirar para a pilha. Contudo, quando se debruçava, os pés encalharam em qualquer coisa e ela escorregou.

- Turgut!

Quando começava a cair, ele veio a correr, mas não com rapidez suficiente para poder apanhá-la.

- Mãe!


Nese caiu no lodo sem um único som nem nada para além de um pequeno desconforto, a imundície viscosa a amortecer-lhe a queda. Foi uma surpresa agradável descobrir

que não se magoara e que nada lhe acontecera, exceptuando o facto de se encontrar suja da cabeça aos pés. Turgut percorreu com a tocha o corpo tingido de negro da

mãe, de cima abaixo, e lutou para reprimir uma gargalhada. Com todas aquelas camadas de roupa que ela usava no corpo e na cabeça, mais a sujidade, Nese ainda se

parecia mais com um monte de trapos do que habitualmente. Pobre e velha mãe, pensou Turgut com ternura, nada do que ela faz alguma vez se aproxima da realização

dos seus sonhos. Pobre camponesa.

A medida que se inclinava em direcção a ela para a ajudar a levantar-se, perguntou:

- O que te fez cair?

- Qualquer coisa que está ali - respondeu Nese com brevidade, acenando com uma mão aborrecida na direcção dos pés.

Turgut apontou a tocha para baixo, para o local que ela indicara.

Parecia um ramo de árvore. Comprido e branco, estendia-se para um lado da pirâmide de lodo. Turgut deslocou o feixe da sua tocha a todo o comprimento do objecto

até chegar àquilo que deveria ter sido uma parte mais grossa da árvore ou uma lasca onde o ramo se quebrara. Mas, em vez de qualquer uma destas coisas, havia apenas

uma mão, graciosa e magra, os longos dedos decorados por numerosos anéis multicolores.

Quando, depois de ter tomado um duche, de se ter maquilhado e de ter trocado de roupa, Hulya Ikmen chegou finalmente à esquadra, descobriu que o pai alterara os

seus planos e se preparava para sair.

- Teremos de falar mais tarde - disse ele, empurrando-a para fora do gabinete, mal ela entrou.

Mesmo através da névoa de fumo de cigarro que pairava por cima do nariz dele e lhe turvava os olhos, Hulya viu que o rosto do pai estava muito sombrio. Ela já o

vira assim antes - depois do terramoto e quando o avô dela falecera - e ficou alarmada.

- Pai...


- Vai para casa agora, Hulya, por favor - disse ele.

Ela olhou para trás do pai, para o sargento Orhan Tepe. Mas não obteve quaisquer respostas do seu inexpressivo semblante. E assim, com um encolher de ombros, a rapariga

começou a encaminhar-se de volta para as escadas. Com alguma sorte, pelo caminho poderia ver alguns agentes jovens e bonitos que pudessem olhar para a sua maquilhagem

cuidadosamente aplicada e para as suas calças de ganga novas. Se eles o fizessem, os esforços dela não teriam sido em vão, embora o alvo do seu afecto se encontrasse

noutro lugar. Mas tentasse o que tentasse, não era capaz de sorrir - nem sequer perante aquele agradável pensamento. Talvez fosse por causa do aspecto do pai, ou

da sua preocupação em relação a Hatice - ou melhor, do que ela sabia sobre Hatice... O coração queria saltar-lhe do peito.

Hulya colocou a máxima distância que pôde entre si e o pai e desceu as escadas a correr até ao rés-do-chão.

Assim que viu a filha a romper escadas abaixo, Ikmen voltou a vestir o casaco e tacteou nos bolsos à procura de cigarros.

- Pronto, Orhan - disse ao seu subalterno - , vamos para lá.

- Sim, inspector.

Apenas minutos antes, quando recebera a chamada, Ikmen quisera "ir para lá" imediatamente. No jardim, ou melhor, por baixo do jardim de uma casa em Túrbedar Sokak,

uma mãe e um filho que andavam

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à caça de um tesouro tinham descoberto um cadáver numa cisterna pouco conhecida. O corpo era jovem, recente e de sexo feminino, e Ikmen tivera um mau pressentimento.



Mesmo antes de ter tido conhecimento destes pormenores, tivera um mau pressentimento. O coração começara a bater-lhe com força e a pele da nuca arrepiara-se-lhe

desagradavelmente debaixo do cabelo. Pressentimentos que o seu falecido pai descrevera sombriamente como "percepção de bruxa", ou, mais frequentemente, "aquela coisa

que fazes, como a tua mãe". A mãe, Ayse, possuíra, de facto, algumas capacidades muito estranhas e enervantes. Largamente reconhecida como bruxa, a mãe albanesa

de Ikmen, há muito falecida, transmitira uma grande parte da sua energia moral ao mais novo dos seus dois filhos. Agora era uma daquelas ocasiões em que essa herança,

pelo menos para Ikmen, era mais evidente.

Por enquanto, ele guardava para si o que sentia. Precisava de ter a mente livre e aberta para lidar com aquilo que os esperava no local. Afinal, podia estar enganado.

Era improvável, mas não inteiramente sem precedentes. E neste exemplo em particular, ele desejava muito estar enganado.

As esperanças de Ikmen explodiram em amargura assim que viu o rosto da jovem. Acocorado no lodo com cheiro orgânico, os olhos a esforçarem-se por se habituarem tanto

à luz da lanterna em arco como à densa escuridão circundante, Ikmen soltou um gemido quando olhou para os olhos mortos dela. A rapariga fora, ainda era, tão bonita.

- Chama-se Hatice Ipek - disse ele num tom pesado ao seu subalterno. - Tem dezassete anos.

- É nossa conhecida?

- Não, não - Ikmen, com alguma relutância, voltou a colocar a cabeça de Hatice no lodo e, em seguida, levantou-se devagar. - Não, é amiga de uma das minhas filhas.

Vivia com a mãe e a irmã no apartamento em frente ao nosso.

- A julgar pela forma como está vestida...

- Desde quando é que viste uma rapariga trabalhadora vestida assim? - disse Ikmen, e ambos baixaram novamente o olhar para o corpo. - Desde quando é que viste alguém

vestido assim?

Embora as roupas dela estivessem cobertas de sujidade, era fácil ver que a probabilidade de Hatice as ter comprado era muito reduzida. O vestido, já para não falar

nas numerosas jóias baratas, era extremamente elaborado. Comprido, era de cetim finamente jaspeado, que ainda era, aqui e ali, decorado com minúsculas rosas de tecido.

Cingido à cintura por um cinto largo de metal, o vestido era generosamente decotado para permitir que toda a glória dos seios de Hatice fosse apreciada. Em volta

do pescoço, dos pulsos e dos tornozelos, assim como em todos os dedos, brilhavam artigos de joalharia barata. Só a coroa, que levara os Fahn à descoberta do corpo

de Hatice, é que estava longe dela, a única coisa que se encontrava fora do sítio.

- O que pensa que ela pode ter estado a fazer aqui, inspector? - perguntou Tepe, mexendo os pés para evitar afundar-se no lodo.

Ikmen encolheu os ombros.

- Não sei, mas suspeito de que não estava a fazer nada - também ele mexeu desconfortavelmente os pés sobre a superfície inconsistente da imundície. - Quero eu dizer,

não estou a ver ninguém a ter um encontro amoroso aqui, tu estás?

- Não.


- E, no entanto, vestida como ela está, é óbvio que não andava simplesmente a fazer as compras à mãe - suspirou. - Eu diria que, provavelmente, ela foi atirada para

aqui depois... de alguma coisa. A medicina legal e o doutor Sarkissian poderão dizer-nos mais, depois de terem exercido a sua magia mórbida, mas, a julgar pela forma

como ela está deitada, penso que não foi simplesmente atirada para aqui sem mais nem menos - voltou a olhá-la por breves instantes e, em seguida, virou as costas.

- Ela parece ter sido aqui colocada com todo o cuidado.

Tepe, que estivera a olhar para o corpo de Hatice enquanto Ikmen falava, inclinou a cabeça para cima em sinal de concordância.

- Conseguiste alguma informação útil das pessoas que a descobriram? - perguntou Ikmen.

- Pouca coisa - respondeu Tepe. - São conhecidos caçadores de tesouros. O tipo de pessoas que os bombeiros detestam. Conheces o estilo. Metem-se em problemas e depois

têm de ser resgatados. A velhota que é dona da propriedade cobra-lhes dinheiro para escavarem aqui. Aparentemente pagam-lhe bastante bem.

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- Realmente! E ela, a velhota, viu alguma coisa de estranho a passar-se no jardim ontem à noite ou esta manhã?



- Ela diz que não - respondeu Tepe. - Mas, se os Fahn sabem que esta cisterna está aqui, outros também podem saber. Não que eles tenham dito a alguém. - O sargento

esboçou um sorriso afectado. - Eles são muito reservados em relação à localização das suas escavações, aparentemente. O filho contou-me que o pai, já falecido, estava

convencido de que havia muito ouro grego para ser encontrado por baixo das ruas da cidade.

- Podia muito bem ter razão - disse Ikmen. - Há anos que correm por aí histórias sobre o ouro que os gregos podiam ter desejado esconder de nós quando Mehmet Fatih

conquistou a cidade. É por isso que pessoas consideradas mentalmente sãs ficam de tempos a tempos presas debaixo do chão e têm de ser resgatadas. A tentação do dinheiro

fácil.


Tepe olhou em redor, enojado.

- Eu preferia continuar a jogar na lotaria - disse.

- Sim. Embora a experiência me diga - disse Ikmen - que a possibilidade de descobrir ouro grego perdido seja provavelmente uma via mais realista para alcançar a

riqueza.


Tepe manifestou a sua concordância com um sorriso triste. A lotaria, como todos os outros tipos de dinheiro fácil, era um tiro no escuro. Infelizmente.

Apesar dos olhares incrédulos e de desaprovação de vários dos seus colegas, Ikmen - aparentemente insensível ao fedor rançoso do lodo - voltou a olhar o cadáver

e acendeu um cigarro. A medida que Tepe observava o fumo a subir em espiral em direcção à entrada da cisterna, por cima, Ikmen disse:

- Ela queria ser actriz, sabias?

- Humm.

- Ela e a minha filha Hulya partilhavam um sonho, aparentemente. - O facto de não ter sabido nada sobre as aspirações da filha até esta manhã era algo que agora

entristecia Ikmen. Sempre demasiado ocupado, até para os filhos. Se ele tivesse sabido quais eram os interesses das raparigas, poderia, pelo menos, tê-las preparado.

Simplesmente não se confiava em homens que queriam que raparigas dançassem para eles, por mais que isso pudesse ser uma grande

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oportunidade na área do espectáculo". Mas, se ele falhara, a mãe de Hatice, Húrrem Ipek, também falhara - mais uma mãe que trabalhava para fazer cumprir a lei, observou



Ikmen amargamente.

- Quer dizer que pensa que as ambições desta rapariga podem ter alguma coisa a ver com a sua morte? - perguntou Tepe.

Ikmen suspirou.

- Penso que é possível. A minha filha contou-me, quando eu finalmente consegui convencê-la a contar-me, que Hatice tinha ido trabalhar para outro sítio, participar

num espectáculo para homens, depois de ter saído do emprego na pastani ontem à noite. Estou tão aliviado por ela não ter pedido a Hulya que a acompanhasse!

- Quer dizer que ela andava metida na prostituição.

- Não me parece que o tenha feito conscientemente, isso não - respondeu Ikmen. - O médico confirmará se ela esteve envolvida em actividades sexuais... - Fechou os

olhos por breves momentos para não ver a imagem desagradável que se estava a formar na sua mente das densas profundezas negras dos cantos afastados da cisterna.

- Mas tanto tu como eu sabemos que a palavra "espectáculo" é frequentemente usada como capa para actividades bastante mais sinistras. Penso que devemos começar pela

pastane de Sultanahmet, que é o local onde Hatice trabalhava. Conheço Hassan Bey, o proprietário. Precisamos também de falar com um velho actor, com certeza que

não te lembras dele, Ahmet Silay.

Tepe mudou novamente os pés de lugar, os sapatos começavam a ficar húmidos.

- Pensa que ele poderá estar envolvido nisto?

Os dois homens desviaram-se para permitir que o fotógrafo da polícia tivesse acesso ao corpo.

- Silay gostava de regalar as raparigas com histórias dos seus triunfos passados - disse Ikmen, enquanto apagava o cigarro no aco-modatício lodo. - A minha filha

pensa que ele não tem nada a ver com o local onde Hatice foi ontem à noite, mas poderá valer a pena falar com ele. Ele pode até conhecer as pessoas com quem ela

foi. Quando tivermos terminado o trabalho aqui, terei de ir dar a notícia à mãe de Hatice. Se fores apastane perguntar por Silay, eles devem saber onde ele vive,

há anos que ele lá vai.

- Sim, inspector.

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Caíram em silêncio, ao mesmo tempo que o fotógrafo fotografava o corpo de todos os ângulos concebíveis. Não que houvesse nele algo de dramático, para além da tragédia

inerente. A causa da morte ainda não fora determinada. Não havia sangue nem qualquer equimose que se visse. Os primeiros pensamentos de Ikmen iam no sentido de que

talvez a morte de Hatice tivesse sido quimicamente induzida. Era sobejamente conhecido que os maiores marginais da cidade estavam todos de alguma forma envolvidos

no tráfico de droga, e, se tivessem dado à rapariga uma dose rápida de cocaína para que ela se desinibisse e Hatice tivesse reagido mal... Mas, nesse caso, o que

estava por detrás da sua roupa elaborada não se enquadrava muito bem com a noção de bandos de marginais brutos e ignorantes envolvidos em prostituição.

As considerações de Ikmen foram interrompidas por alguns sons bastante caóticos vindos da superfície. Tepe caminhou, com alguma dificuldade, até à entrada e gritou

lá para cima para saber o que se passava. Ikmen não ouvia o que diziam, mas virou-se quando ouviu Tepe rir.

- O que é? - perguntou o inspector, ao verificar que o sargento se esforçava por reprimir outro riso abafado. - O que se passa?

- O doutor Sarkissian acabou de chegar - disse Tepe. - Os homens estão a tentar... descobrir uma forma de o trazerem aqui abaixo.

O doutor Arto Sarkissian, patologista, era o mais velho amigo de Çetin Ikmen e também aquele que ele mais estimava. Cristão arménio, Sarkissian partilhava o intenso

amor do amigo Çetin pela cidade natal de ambos. Contudo, o seu gosto pela comida, em especial por açúcar, evidenciava-se num corpo cada vez mais volumoso, o que

era agora um problema. A entrada para a cisterna não era grande e a descida para o lodo que se encontrava por baixo, embora não constituísse qualquer dificuldade

para alguém de estatura média, podia ser um problema para um homem baixo como o médico. Resumindo e concluindo, fazê-lo descer ao local não ia ser fácil.

Com um resmungo de desagrado, Ikmen passou pelo seu subalterno e dirigiu-se à entrada. Um agente chamado Avci, sem sequer tentar esconder os risinhos abafados, estudava

o cenário em baixo.

- Eu preferia realmente que não se risse na presença de uma criança morta - disse Ikmen bruscamente, enquanto espreitava para

cima, para o rosto agora surpreendido de Avci. - Se tivesse usado o tempo que já passou a rir, poderia ter chegado à conclusão de que uma escada é a solução para

o seu problema. Embaraçado, Avci pigarreou:

- Sim, inspector.

- O médico é um homem importante - continuou Ikmen -, não pode esperar que ele se atire, assim, sem mais nem menos, para um buraco no chão. Não me agrada nada o

seu comportamento.

- Desculpe, inspector. Vou já buscar uma escada.

- Sim, faça isso - disse Ikmen. Em seguida fixou os olhos num Tepe subitamente sério. - E se apanho algum de vocês a rir outra vez, exercerei sobre vocês o tipo

de vingança que só eu sei qual é.

A conversa e o riso, tanto em cima como em baixo, terminaram imediatamente. Como toda a gente que trabalhava com ele sabia, Ikmen era justo, honrado, generoso ao

extremo, e absolutamente terrível de ter como inimigo.

Quando o médico, finalmente, desceu à cisterna, foi com dignidade e relativo conforto.

- Como está ela? - perguntou Mehmet Suleyman ao sogro, que agora se lhe juntava do lado de fora da entrada principal do hospital.

- Ainda está em trabalho de parto - respondeu o homem idoso secamente. Em seguida sorriu. - Estas coisas levam tempo.

Mehmet, os olhos, mesmo debaixo dos óculos de sol, semicerrados perante a intensa luminosidade dos meados do Verão, acendeu mais um cigarro e suspirou. Detestava

hospitais. O facto de a esposa e o sogro serem ambos médicos era uma ironia. O facto de ele próprio se encontrar em hospitais e noutros estabelecimentos de saúde

durante o curso do seu trabalho como um dos mais proeminentes detectives da brigada de homicídios da cidade era sombriamente divertido.

Há anos, quando começara neste emprego sob a tutela do seu velho chefe Çetin Ikmen, achara perturbadora uma tão estreita proximidade com os mortos. Contudo, agora,

ou melhor, neste dia em especial, eram os vivos que lhe estavam a causar hesitação. Doentes, centenas deles, tinham-lhe passado à frente dos olhos durante aquelas

horas e horas que passou sentado no corredor que dava acesso à unidade

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de maternidade. A sangrarem, ligados ao soro, a gritarem por mais analgésicos - o grau de doença deles não podia superar o grau de pressão a que estava submetido

o pessoal, cujo excesso de trabalho era tal que não lhes permitia atender todos convenientemente. Era apenas mais uma manifestação da forma como se encontravam sob

pressão todos os serviços no monstro, sempre em expansão, em que se tornara a cidade de Istambul dos tempos modernos. Virou-se para o sogro e sorriu.

- Tive de vir cá para fora - disse com voz cansada. - Não me estava a sentir nada bem.

- Sabes que no país da mãe de Zelfa, na Irlanda, os homens entram para assistirem ao nascimento dos filhos - disse-lhe o doutor Babur Halman. - É claro que isso

não acontecia quando Zelfa nasceu. Na década de 1950, em Dublin era ainda como é aqui.

- Aqui, alguns homens assistem aos partos - respondeu Mehmet. - Ouvi dizer. Mas...

- Mas não gostas muito da ideia para ti próprio? - Babur sorriu. - Talvez não. Tendo passado pela experiência de ver como a minha filha pode ser quando tem dores,

não é provavelmente uma boa ideia.

Os dois homens trocaram um breve olhar conhecedor.

- Mas dizem-me que nem ela nem o bebé estão mal, no sentido médico, e, por isso, não estou demasiado preocupado - continuou Babur. - Tu terás um filho e eu um neto

antes do fim do dia. Insallah.

Mehmet encostou-se à parede do hospital e virou o rosto magro e bem-parecido para cima, em direcção à sombra oferecida por uma árvore próxima. Aos trinta e seis

anos, Mehmet era doze anos mais novo do que a "estrangeira" loira que estava agora em trabalho de parto para dar à luz o filho de ambos. E embora fosse bom saber

que a esposa, que era mãe pela primeira vez numa idade para isso avançada, estava a passar bem, havia também outras coisas a ocuparem-lhe os pensamentos. O filho,

quando nascesse, seria, na família dele, a primeira criança do sexo masculino a nascer de um membro da sua geração. Ele sabia que era um acontecimento de importância

considerável. Não que o nascimento de uma criança do sexo masculino alguma vez fosse insignificante; esse jamais poderia ser o caso no seio de uma família tradicional

turca como os Suleyman.

A família de Mehmet tinha uma ascendência nobre. Até ao início do século XIX, os seus antepassados tinham sido proeminentes dignitários da cidade de Trabzon, no

Mar Negro. No entanto, quando um certo antepassado, um jovem chamado Suleyman, exibiu uma coragem invulgar na luta contra os Russos, o sultão da altura recompensou

a família com avultadas riquezas e o próprio Suleyman com a mão de uma das suas filhas. Este antepassado dos turcos "comuns" agora conhecido como Mehmet Suleyman

tinha, assim, trazido a dignidade real à sua família, e ele e os seus descendentes tinham continuado a prosperar, adquirindo riqueza e casando com outras princesas.

As coisas tinham começado a azedar a seguir à Grande Guerra e com o colapso do Império Otomano.

Agora, a muitos quilómetros assim como a muitos anos de distância do seu velho palácio no Bósforo, a família Suleyman sofria tanto como qualquer pessoa devido aos

rigores da hiperinflação. O pai de Mehmet, o homem a que algumas pessoas ainda chamavam "Príncipe" Muham-med, para além do sangue e do seu amor pela língua francesa,

pouco possuía que o lembrasse do que a sua família fora. Contudo, um neto era algum consolo, e, mesmo sendo a mãe da criança uma estrangeira e, ainda por cima, de

descendência "comum", o rapaz que ainda não nascera era esperado com ansiedade. A mãe de Mehmet haveria de querer cuidar da criança sempre que a oportunidade surgisse,

e, com o próprio Mehmet a trabalhar na polícia e Zelfa ocupada com a sua prática psiquiátrica, não haveria de faltar oportunidade para ela o fazer. Ou não. Só o

facto de pensar nisso fez com que Mehmet franzisse o sobrolho. Embora fosse, ela própria, de descendência "comum", Nur Suleyman tinha grandes pretensões. Apoiada

por uma língua viperina e por um rancor quase sem limites, isso fazia dela uma adversária perigosa. O próprio Mehmet tinha-a contrariado - uma vez. Agora detestava

vê-la. O que faria a mãe, perguntava-se ele, para atrofiar e distorcer a mente do neto? Não havia dúvida de que ela fizera um bom trabalho tanto em relação a Mehmet

como ao irmão Murad. Mas, na verdade, a mãe só poderia fazê-lo se ele, Mehmet, deixasse, e ele já decidira que isso não iria acontecer. De alguma maneira, embora

ele ainda não soubesse exactamente como, ele e Zelfa ganhariam o dinheiro de que precisavam para proporcionarem ao filho os cuidados necessários, com amor e responsabilidade.

E Nur Suleyman, esposa de um príncipe, mãe de filhos "decepcionantes", não desempenharia aí qualquer papel.

CAPÍTULO QUATRO

Definitiva e inevitavelmente a boa sorte acaba-se. Se assim não fosse, todos os seres seriam imortais. Se a concessão e o subsequente afastamento desta boa graça

vêm de Alá ou dos braços inconstantes do destino, ou se não passam de actos do acaso, é uma questão debatida em todo o globo. E embora os religiosamente inclinados

possuam a sua própria resposta firme a perguntas sobre a identidade e o objectivo da divindade encarregue dos acontecimentos, de acordo com as suas crenças, mesmo

esses não estão imunes à dor que provém da perda. Dito isto, porém, o instinto humano não quer acreditar no que aconteceu. A reacção humana consiste em ganhar só

mais alguns segundos de normalidade ao negar vigorosamente que o que aconteceu seja, de facto, a verdade.

- Não. Não, deve estar enganado - disse Húrrem Ipek, ao mesmo tempo que recuava, tentando desaparecer ao canto do seu canapé. - Não, não pode ser a minha Hatice,

não...


- Receio que seja - disse Ikmen. Tanto ele como a agente que o acompanhava estavam de pé quando lhe deram a notícia. Tal como os agentes que tinham vindo informá-la

da morte de Celal, estes recusaram sentar-se. Celal! Como o coração dela ainda sofria passados todos estes anos - como o corpo dela ainda doía de saudades do dele!

As lágrimas juntavam-se ao canto dos olhos de Húrrem, enquanto ela sussurrava um último suspiro de recusa.

- Não.


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- O nosso médico ainda tem de determinar a causa da morte de Hatice - persistiu Ikmen, que estava acostumado, ainda que não habituado, a este tipo de reacção.

A agente sentou-se ao lado de Húrrem e pegou-lhe nas mãos.

- Mas tenho de a avisar - continuou Ikmen num tom de gravidade - de que receamos que a morte da sua filha tenha sido um acto criminoso. Tem de se preparar para isso.

A única reacção de Húrrem foi visível nos olhos, que se esbugalharam.

A agente Gún, que era uma jovem de mente tradicional, murmurou a frase usada em momentos como este.

- Que a sua cabeça esteja viva - disse ela a Húrrem.

Ikmen concordou com um gesto, baixando ligeiramente a cabeça.

- Oh, mas eu não quero estar viva! - respondeu Húrrem, a voz carregada de dor - Quero morrer agora! Quero...

E soltou um grito.

- Lamento muito - disse Ikmen, a voz praticamente inaudível no fundo da aguda torrente de dor da mulher. - Hatice era uma boa menina, amiga da minha filha...

- Não!


Soltou as mãos das de Gún. Levou-as ao rosto e ao cabelo, agredindo-se, puxando violentamente, transformando a dor que sentia em algo quase tangível. Algo que ela

podia ver mais tarde ao olhar para o espelho da casa de banho e saber a realidade do que tinha acontecido.

Quanto a Ikmen e a Gún, deixaram-na fazê-lo. Para quem esta era a única forma, tinha de ser assim. Húrrem Ipek, como tantos dos familiares chorosos com que Ikmen

se deparara ao longo do seu trabalho, era muçulmana. E uma vez que todos os muçulmanos deviam ser enterrados dentro das 24 horas que se seguiam à morte, esses familiares

das vítimas de homicídio não só tinham de resignar-se perante o falecimento de um ente querido, como também tinham de aceitar que era impossível proceder ao enterro

dentro do tempo estabelecido: tinha de ser determinada a causa da morte, tinham de ser tiradas amostras de tecido, fluidos, etc, e o corpo precisava de ser autopsiado.

Ikmen sabia que, para a família Ipek, isso seria muito difícil de suportar.

Ao mesmo tempo que Húrrem Ipek arrancava da cabeça grandes pedaços de cabelo ensanguentado, Ikmen ergueu a voz entre os gritos

dela e deu-lhe o único raio minúsculo de luz que podia penetrar a sua

escuridão.

- Dou-lhe a minha palavra de que levarei perante a justiça quem quer que tenha feito isto - disse ele. - Não descansarei enquanto

não o fizer.

Enquanto a agente Gún ficava para trás com Húrrem Ipek, ele saiu para fazer uma curta visita ao seu próprio apartamento. Disse a Hulya, que recebera instruções para

esperar por ele, que a amiga estava morta. Hulya chorou, enterrando a cabeça no pescoço de Búlent, até que Ikmen se aproximou dela e a abraçou. Embalando-a suavemente

para trás e para a frente, ele falou-lhe ao ouvido da mesma forma que vira Fatma, a esposa, fazer quando acalmava os filhos nos seus desgostos.

Assim que o 747 pousou no solo do Aeroporto de Heathrow, em Londres, Hikmet e Kaycee Sivas encaminharam-se para a porta de embarque onde deviam apanhar o voo de

ligação para Amesterdão e

daí para Istambul.

Kaycee, que estava um pouco nervosa com medo de perder a ligação, quase que corria. Hikmet, bastante mais acostumado à forma como as coisas funcionavam no mundo

real (não nos EUA), caminhava mais devagar.

- Provavelmente o voo vai sofrer um atraso - disse ele, enquanto observava o cabelo loiro e comprido de Kaycee a bater para cima e para baixo, ao mesmo tempo que

ela caminhava apressada. - Isto é Heathrow. É o aeroporto mais movimentado da Europa. Eu nunca aqui passei sem um atraso.

E, de facto, quando, por fim, chegaram à porta em questão, o voo

tinha meia hora de atraso.

- Oh, merda! - disse Kaycee, e atirou primeiro a bagagem de mão e depois o corpo alto e magro para cima de uma das cadeiras que estavam longe de ser confortáveis.

- Detesto esta coisa de estar à espera.

Hikmet sorriu.

- Ah, bem, agora estás na Europa - disse, ao mesmo tempo que, também ele, se deixava cair num assento. - O Velho Mundo. O tempo é visto aqui com muito mais indiferença

do que nos Estados Unidos. E, como nos dirigimos para Este, vais ver que a indiferença se transforma praticamente em menosprezo. No meu país o tempo é quase irrelevante.

Kaycee franziu o sobrolho.

- Óptimo! - Mas, depois, também ela sorriu. - Ah, mas que diabo - pegou numa das mãos dele e colocou-a entre as suas -, isto é uma aventura. E, seja como for, onde

é que eu apareço assim, como uma estrela de cinema, heim?

Hikmet beijou-a.

- Não foi por acaso que casei com uma professora universitária - disse ele.

- Pois não.

Hikmet Sivas fora casado três vezes. Em todos os casos com estrelas menores, com ideias acima da sua fama. Nenhuma delas alguma vez o acompanhara à Turquia - nenhuma

delas alguma vez quisera fazê-lo. Mas Kaycee Durand era de um género bastante diferente. Embora parecesse uma estrela menor típica de Los Angeles, não era nem tão

jovem nem tão idiota como muitos observadores casuais imaginavam. Com trinta e dois anos, ela não tinha, de facto, menos de metade da idade do marido, e, sendo professora

de Astrofísica na Universidade da Califórnia em Los Angeles, estava muito longe de ser estúpida. Não que Hikmet achasse sempre a inteligência dela a seu gosto. Na

verdade, a pergunta que ela fez a seguir era um caso a propósito.

- Então, Hi - disse ela, usando a versão abreviada do nome dele que parecia adequar-se muito mais facilmente à sua pessoa americana do que Hikmet -, vais dizer-me

a verdadeira razão para estas súbitas férias de Verão ou não?

Hikmet Sivas franziu o sobrolho.

- Quero eu dizer, aceito que esteja provavelmente relacionada com algum assunto familiar...

- O meu irmão e a minha irmã estão a ter... problemas - soltou a mão das dela e afastou o olhar.

- Sim, e que não vais especificar - respondeu Kaycee. - Não que isso seja muito importante. Só que, vindo da Terra das Oportunidades como eu venho, sei tudo sobre

essas coisas de família, por mais estranhas que elas possam ser. Quer dizer, já tenho tido necessidade de ir a casa só para levar a minha mãe à bruxa para mandar

fazer um feitiço para afastar um marido da vida dela.

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- Não é nada disso - Hikmet virou-se novamente para a olhar de frente, as feições súbita e invulgarmente tensas. Tal expressão, pensou Kaycee, fazia-o parecer aquilo



que ela imaginava ser "muito turco".

- Então o que é, Hi? - perguntou. - Que problemas são esses?

- Eles são turcos - respondeu ele. - Não posso dizer mais porque tu simplesmente não irias compreender. - E em seguida, com uma dureza na voz que era totalmente

desconhecida a Kaycee, acrescentou: - Tal como eu não compreendo as tuas bruxas de Nova Orleães nem aquilo que elas fazem.

- Mas...

- Lê o teu livro e espera pelo teu avião, Kaycee - disse ele. - Vais passar umas boas férias no meu país. Vais gostar. E quando todos os problemas estiverem resolvidos,

regressaremos aos Estados Unidos e terás muitas histórias para contar e boas recordações.

Hikmet levantou-se e foi até à janela. Um airbus da British Airways aproximava-se lentamente da porta de embarque deles. Em breve ele estaria em casa, na sua bela

Turquia. Desejava ansiosamente voltar a fumar uns cigarros por algum tempo, mas ninguém o diria, a julgar pela expressão do seu rosto, que era indescritivelmente

triste.


O bairro de Cankurtaran fica situado entre a gloriosa zona da cidade a que se dá o nome de Sultanahmet, dominada por monumentos, e o Mar de Mármara. Caracterizado

por ruas pobres, ainda que timidamente pitorescas, é um bairro de pequenas escolas, muitas crianças e as ruínas de um melancólico palácio bizantino chamado Bukoleon,

agora pouco mais do que uma parede com três enormes janelas com molduras em mármore. O palácio já estava em ruínas quando o sultão Mehmed II conquistou Constantinopla

em 1453 e diz-se que inspirou o vitorioso monarca a recitar os seguintes versos, quando passou por ele pela primeira vez:

A aranha fazia o trabalho de porteiro à entrada dos salões abobadados de Chosroes, O mocho canta a música dos guardas no palácio de Afrasiyab.

Este bairro, especialmente em redor do velho palácio e da estação de caminho-de-ferro de Cankurtaran, não é particularmente seguro.

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Há assaltos e ataques a transeuntes e não é aconselhável que as mulheres andem sozinhas por estas partes, especialmente à noite. Diz-se que os alcoólicos se juntam



frequentemente para beberem raki nos velhos jardins do palácio. Por vezes podem tornar-se ameaçadores e insultuosos. Outras vezes ficam simplesmente em casa para

o fazerem. Ahmet Silay, em tempos actor, agora bebedor e contador de histórias a tempo inteiro, era um destes casos. Sentado num kilim no chão da sua pequena vivenda

em Cankurtaran Caddesi nesta tarde cheia de luz, Ahmet recebia um jovem agente da polícia à sua maneira única.

- Sim, gosto de falar com as raparigas nà pastani - disse em resposta à pergunta de Tepe sobre Hatice Ipek e Hulya Ikmen. - Elas gostam de falar comigo. - Tomou

um generoso gole do seu copo de raki, limpando em seguida a boca com uma mão. - Sou um sacana velho mas interessante.

Tepe, sentado perto da janela inundada pelo Sol, descobriu que os seus olhos eram atraídos para uma fotografia de um jovem bem-parecido que se encontrava em cima

da mesa à sua frente. Era uma fotografia a preto e branco e mostrava um indivíduo elegante que usava um desses fatos largos tão típicos da moda masculina dos anos

1950.


Silay, que viu para onde ele estava a olhar, sorriu.

- Esse sou eu - disse -, no Egipto. Tinha dezoito anos e, como pode ver, era terrivelmente bem-parecido. Essa fotografia foi tirada no cenário do meu primeiro filme.

- Quer dizer que é a sua carreira de actor que fascina as raparigas? - disse Tepe.

- A minha carreira? - Silay inclinou a cabeça para trás para indicar a sua discordância. - Não. O facto de eu ter trabalhado com o maior realizador de todos os tempos

não as impressionou. O que as impressionou foi o facto de eu ter trabalhado com um homem que foi para Hollywood.

- E quem foi esse homem? - Apesar da sua necessidade de não se afastar do assunto com quem era, na realidade, um suspeito, Tepe deu consigo inclinado a fazer mais

perguntas sobre a vida anterior deste homem. A julgar por todos aqueles cartazes de filmes e pelos variados objectos relacionados com cinema que lhe adornavam a

casa, ele tivera uma vida muito interessante.

- Hikmet Sivas, ou Ali Bey, o Sultão, como veio a ser conhecido em Hollywood - respondeu Silay. - Conheci-o no Egipto quando ambos aparecemos numa monstruosidade

deoO Bengii. Foi ele que me tirou essa fotografia. Demo-nos bem e até regressámos juntos a este país. - Encolheu os ombros. - Mas depois Hikmet partiu para Hollywood

e eu fiquei aqui e trabalhei com o maior realizador de todos os tempos.

Tepe franziu o sobrolho. Tanto quanto ele sabia, nem Steven Spielberg nem Ridley Scott eram turcos.

Silay, vendo que ele estava confuso, explicou.

- Refiro-me a Yilmaz Gúney - disse, citando discutivelmente o maior e o mais controverso realizador cinematográfico da Turquia. - Um artista de génio e um verdadeiro

herói do povo.

No olhar de Silay havia agora um elemento de desafio. Mas Tepe pensou que, se ele, de facto, tivesse trabalhado para Gúney, partilharia provavelmente algumas das

ideias do falecido realizador em relação à política e à sociedade. A forma como ele falava parecia fazer realçar isso. Mas depois Tepe lembrou a si próprio com firmeza

de que não fora ali para falar com Silay sobre Sivas nem sobre Gúney, que andava sempre preso.

- Quer dizer que não pediu a nenhuma das raparigas, nem a Hatice Ipek nem a Hulya Ikmen, que o acompanhassem até aqui para verem a sua colecção de coisas de cinema?

- perguntou.

- Não. Por que haveria de o fazer? Enquanto estou na rua, sou velho e interessante. Porquê destruir essa ilusão trazendo-as a este local, onde elas me podem ver

como sou?

Para além das coisas efémeras do cinema, os únicos outros artigos dignos de nota existentes na casa eram as centenas de garrafas de raki vazias que se viam em todas

as divisões em grupos silenciosos. Silay, o alcoólico, estava em vantagem.

- E, ontem à noite, falou com as raparigas...

- Como sempre faço - Silay franziu o sobrolho. - Aconteceu alguma coisa a Hatice ou a Hulya?

- Responda apenas às minhas perguntas, por favor, senhor Silay - disse Tepe, recuando verbalmente para o carácter oficioso do seu papel no cumprimento da Lei.

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Silay, que, com toda a probabilidade, dadas as suas relações passadas, se deparara anteriormente com este tipo de atitude, limitou-se a tomar outro gole da garrafa



e deixou cair os ombros.

- A que horas saiu da pastan? - perguntou Tepe.

- Por volta das dez.

- Pouco antes de ter fechado.

- Sim.

- Onde foi depois?



- Fui para Bebek.

Para Tepe, Silay, actor ou não, não parecia exactamente o género de pessoa que iria para um subúrbio elegante como Bebek. Gelados, por que Bebek é famoso, não pareciam

ser o género de coisas que ele apreciasse, mesmo no mais quente dos serões.

Silay sabia o que o polícia estava a pensar. Respondeu com uma boa dose de arrogância de actor.

- O meu pai, que vive em Bebek, confirmará a minha história - disse ele. - Fui visitá-lo. Ele é muito velho, e embora, como tenho a certeza de que está a ver, eu

seja uma grande decepção para ele, continuo a ser seu filho e mantenho-me em contacto com ele.

- Compreendo.

- E em resposta à sua pergunta seguinte, agente, sim, também fui lá buscar dinheiro - Silay sorriu, mas sem qualquer calor. - Não represento desde 1983 e não sei

fazer mais nada. Alguém tem de manter um tecto por cima da minha cabeça, e o meu pai é muito rico.

Não era o tipo de pessoa que Tepe podia imaginar a sentir muita simpatia nem pela origem nem pelas ideias políticas de Yilmaz Gúney. Deveria ter sido extremamente

humilhante para o velho Silay ver o filho, a quem sem dúvida proporcionara uma educação bonita, misturado com comunistas e cadastrados. Mas talvez o homem idoso

simplesmente pagasse para que Ahmet se fosse embora - se fosse embora e se embriagasse numa parte "má" da cidade, bem longe da sua vista.

- Não trouxe raparigas nenhumas comigo - continuou Silay, ao mesmo tempo que acendia um charuto fino, tirando depois uma fumaça apreciadora. - Fui simplesmente buscar

o meu dinheiro, dormi uma noite em casa do meu pai. - Pode perguntar à enfermeira

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dele, se quiser uma testemunha independente, e depois vim aqui para casa de manhã.



- Quer dizer que em relação a Hatice e a Hulya...

- As raparigas disseram-me que queriam ser actrizes e eu divertia-as com as minhas histórias. Não aconteceu nada. Nunca as convidei para virem aqui nem me encontrei

com elas noutro sítio que não fosse à pastani.

Tepe ficou com bastante certeza de que o homem estava a dizer a verdade. Outrora um jovem rico, rebelde e socialmente consciente, Silay nunca alcançou a fama por

que ansiava, por isso começou a beber, acompanhando o que comia fora de casa com gabarolices sobre um homem com quem trabalhara apenas pouco tempo. Era uma personagem

triste e falida, cujo amor pelo cinema e conhecimento que dele possuía era tudo o que conservava do jovem bem-parecido de fato largo.

Tepe acendeu um cigarro dos seus.

- Então, se não tinha nenhum relacionamento menos próprio com nenhuma destas raparigas, tem conhecimento de alguém que possa ter tido? Homens que possam ter tentado

incitar as raparigas a ir com eles, usando as ambições delas para as atrair?

Ahmet Silay suspirou.

- O pai de Hulya, eu sei, tem um cargo importante na polícia. Toda a gente sabia, e isso aborrecia-a. Os homens, novos e velhos, mantinham-se longe dela.

- E Hatice?

O homem bebeu um trago do copo e voltou a limpar a boca com a mão.

- Bem, essa, penso eu, poderá ter sido uma questão completamente diferente.

- O que quer dizer com isso? - perguntou Tepe.

- Quero dizer que, se quer saber da relação de Hatice com homens, pode começar por perguntar a Hassan Bey.

- O dono da pastani?

- Sim. Ao contrário do pai, que é um homem educado e de princípios, Hassan Bey acredita que eu não passo de um velho bêbedo inofensivo preso às histórias da minha

juventude. Mas tenho olhos na cara e sei como é quando um homem apalpa o seio de uma rapariga e ela gosta.

CAPÍTULO CINCO

Embora fosse óbvio que a rapariga fora violentada sexualmente tanto na vagina como no ânus, e que perdera sangue em ambos os actos, não fora isso que a matara. Apresentava

lacerações na zona púbica, assim como algumas feridas profundas, mas a causa da morte de Hatice Ipek era difícil de determinar.

Não que o patologista Arto Sarkissian estivesse a desistir. Havia ainda muito mais informações que podiam ser obtidas através de uma melhor observação do cadáver,

assim como testes a realizar em amostras de tecido. Mas agora era tarde e ele estava cansado. Voltaria a Hatice pela manhã. Afinal, ela não ia a lado nenhum. O rosto

amplo do arménio rasgou-se num sorriso quando pensou naquela pequena piada de mau gosto - o género de observação pesada que ele e o amigo Çetin Ikmen trocavam frequentemente.

Provavelmente, neste preciso momento, Çetin ainda estava a tentar consolar a filha, de quem a pobre criatura ao cuidado de Arto fora amiga.

Pobre rapariga. Quem quer que tenha sido o homem ou os homens que a violaram, tinham usado de uma violência brutal. Surpreendentemente, Hatice não era virgem antes

da violação, um pormenor que Arto não submeteu a qualquer julgamento, embora soubesse que muita gente teria condenado a rapariga por isso. Tanto quanto lhe dizia

respeito, dificilmente seria um aspecto relevante. Hatice fora sujeita a violência sexual, cujos perpetradores eram obviamente tanto perigosos como sem consciência.

Era algo que Çetin precisava de saber para poder agir - e depressa. Felizmente, os crimes sexuais não aconteciam

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todos os dias, mas, quando aconteciam, os violadores tinham de ser apanhados rapidamente. Com quase trinta anos de experiência atrás dele, assim como, bastante mais



recentemente, um contacto próximo com a esposa de Mehmet Suleyman, a psiquiatra Zelfa Halman, Arto sabia que a violência sexual tinha tendência a aumentar. E se

aquilo que ele vira dos ferimentos de Hatice fosse tomado como indicador, este homem, ou estes homens, possuíam já uma grande rodagem nessa estrada em particular.

Quer a tenham assassinado ou não, tinham-lhe violado o corpo em quase todos os orifícios. Da próxima vez, quem é que sabia aonde o seu depravado apetite sexual os

levaria?


Arto considerou a hipótese de telefonar a Ikmen para lhe dar a notícia, mas depois pensou melhor e decidiu ir contar-lhe pessoalmente. Este não era, afinal, um corpo

qualquer que ele aqui tinha, era o corpo da melhor amiga de Hulya. Çetin teria de pensar muito bem na forma como contaria à filha o que a autópsia revelara até agora,

por isso era talvez melhor discutir completamente o assunto com ele antes. Teria, é claro, de o levar para fora do apartamento para poder falar livremente - provavelmente,

conhecendo Çetin, para um dos seus bares preferidos.

Arto esfregou as mãos e os braços até ficarem vermelhos, vestiu o casaco e saiu em direcção ao parque de estacionamento. Já passava das seis horas quando, finalmente,

saiu da morgue. No entanto, o Sol ainda estava forte, por isso o médico despiu o casaco antes de entrar no carro. Assim que ligou o motor, carregou no botão para

ligar o ar condicionado - um luxo que Arto, com o seu palácio na margem norte do Bósforo e a sua esposa elegante e rica, tomava por garantido. O amigo Çetin Ikmen

tinha um género de vida completamente diferente e, assim, Arto precisava do ar condicionado para o arrefecer, antes de subir penosamente as muitas escadas para o

caótico e abafado apartamento do polícia em Sultanahmet.

Quando saía da cozinha para o vestíbulo, Ikmen baixou o olhar para Hulya, para o local onde ela estava sentada no chão, com o telefone no colo, a falar com a mãe.

O seu rosto pequeno, que agora parecia crispado de desgosto, ainda estava húmido de lágrimas. Mais cedo nesse dia, quando Canan, irmã de Hatice, regressara a casa

depois de

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ter passado um tempo em casa de uma das tias, Hulya correra ao apartamento dos Ipek para a consolar. As raparigas abraçaram-se, a chorar de dor e sem poderem acreditar.



Atrás delas, nas escuras profundezas do apartamento, Ikmen vislumbrara o rosto devastado de Húrrem Ipek, agora calmo e sem vida como se o âmago do seu ser tivesse

secado e se tivesse transformado em pedra. O facto de ter de interrogar formalmente tanto a vizinha como a filha relativamente aos acontecimentos que rodearam a

morte de Hatice, não era nada que ele desejasse. Entretanto, porém, deixaria Hulya falar a sós com a mãe.

- Mas, quero eu dizer, não podemos saber realmente para onde as pessoas vão quando morrem, pois não? - ouviu ele a filha perguntar à mulher. Observou o rosto de

Hulya adquirir uma expressão carregada por breves instantes, enquanto a rapariga ouvia a resposta de Fatma. Não fosse uma delas decidir envolvê-lo na conversa, Ikmen

fez uma retirada rápida para a sala de estar, e depois para fora, para a varanda. Muito bem; assim, tal como a sua falecida mãe, ele poderia ter aqueles estranhos

pressentimentos, sentir a presença do espírito ocasional, mas a vida depois da morte, e, em especial, os conceitos islâmicos tradicionais, não eram a sua especialidade.

Essa era a área de Fatma; ela, afinal, quase sozinha no seio da vasta família Ikmen, acreditava.

Búlent já estava na varanda quando Ikmen chegou. O seu rosto jovem e doce estava tingido de ouro, quando ergueu as feições para o Sol que se punha, ainda intenso.

O pai sentou-se a seu lado e acendeu um cigarro.

- A tua mãe está a ajudar a tua irmã a encontrar alguma paz devido ao que aconteceu - disse ele, ao mesmo tempo que expirava fumo por cima de Divanyolu Caddesi com

os seus passeios repletos de gente e os eléctricos apinhados. - Ainda bem que é ela a fazê-lo. Eu não seria capaz.

Búlent encolheu os ombros.

- Mas estás sempre a ver a morte - disse.

- Isso não quer dizer que esteja habituado - respondeu Ikmen. - Mesmo quando acontece com pessoas que não conheço, fico chocado na mesma. Mas quando se trata de

alguém próximo... - Suspirou. - É uma coisa que não se ultrapassa, apenas nos acostumamos à ideia. Há alturas em que penso no teu avô, e a dor é tão intensa que

parece que levei um soco no estômago.

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Búlent bebericou um pouco de água da sua garrafa, em seguida encostou-se para trás e fechou os olhos. Aos dezoito anos, ainda não tinha maturidade suficiente para



se sentir à-vontade a falar de emoções como as que o pai estava a expressar. E, assim, ficaram os dois sentados em silêncio, até que o telemóvel de Ikmen começou

a tocar.


Hassan Seker, vestindo um fato de corte elegante e emanando uma colónia cara, tinha um aspecto completamente incongruente, sentado atrás da velha mesa manchada da

Sala de Interrogatórios Número 2. A luz fraca que provinha da única e insuficiente lâmpada que estava por cima da sua cabeça fazia com que a sua aparência imaculada

parecesse ainda mais bizarra. Orhan Tepe sabia que Seker pertencia a um clube diferente do seu. O homem pertencia à mesma categoria que Mehmet Suleyman, pensou Tepe

com azedume. Nos antigos tempos otomanos, quando a família de Suleyman era constituída por aristocratas, a de Seker era composta por artistas de culinária que os

serviam. Protegidos e elogiados pelos seus clientes nobres, muitos pasteleiros, joalheiros e outros artesãos tinham-se, consequentemente, tornado admirados e tinham

enriquecido. Apesar da passagem do tempo e da declaração da República Turca em 1923, tais pessoas conservavam a sua riqueza e a sua reputação.

Tepe olhou novamente o pasteleiro de lado e franziu o sobrolho. Muito parecido com Suleyman, de facto, pensou - bem-parecido, amado pelas mulheres e rico... em comparação

com ele próprio. O franzir de sobrolho aprofundou-se - o que não passou despercebido a Hassan Seker.

- Alguma coisa o está a incomodar, senhor agente? - perguntou, a cabeça levantada de imperiosa indignação.

Tepe deixou o olhar deslizar para o jovem agente que estava de guarda à porta. Geralmente as pessoas não eram tão confiantes e descaradas neste tipo de cenário e

o agente parecia pouco à-vontade.

- Só espero que o inspector Ikmen chegue depressa, senhor Seker - respondeu Tepe. - Seria bom que pudéssemos despachar isto.

- Só posso concordar com isso - disse Seker, olhando Tepe de alto a baixo com um desdém muito óbvio.

Em seguida, a sala voltou a cair em silêncio, até que se ouviu bater à porta. O agente abriu imediatamente e Ikmen entrou. Hassan Seker levantou-se.

- Ah, inspector - disse. - Vai ser um aborrecimento, eu sei, mas se pudesse chamar a atenção a este idiota relativamente ao erro grave que ele cometeu, ficar-lhe-ia

agradecido.

Antes de se sentar, Ikmen lançou um olhar a Tepe, ao mesmo tempo que sorria a Seker.

- Se quer dizer com isso que o sargento Tepe cometeu um erro ao trazè-lo aqui, senhor Seker, terei de discordar - Ikmen acendeu um cigarro. - Se tivesse respondido

às perguntas dele...

- Ele e os subordinados marcharam simplesmente pelo meu estabelecimento dentro e fizeram-me perguntas insultuosas!

- Senhor Seker, temos razões para crer que é provável que tenha tido uma relação com uma rapariga que encontrámos hoje morta.

- Sim, sim. - Passou uma mão pelo cabelo, a cabeça baixa. - Ele contou-me sobre Hatice, e lamento muito. É tudo muito perturbador. Mas quanto ao facto de eu ter

uma relação com ela...

- Oh - disse Ikmen -, concordo que posso ter exagerado no que diz respeito à sua relação com Hatice. A julgar pela informação que recebemos, parecia que não passava

de sexo. Se, de facto, foi tão longe. Mas você foi visto a tocar-lhe os seios, e ela parecia não se sentir mal com isso.

Seker levantou um pouco a cabeça, os olhos furiosos.

- E quem é que diz isso?

- Senhor Seker, deve saber que não posso...

- Oh, mas é claro, eu disse aos seus homens qual era o paradeiro de Ahmet Silay, não disse? - riu sem alegria. - E você acredita na palavra de um alcoólico politicamente

dúbio. Tais observações são pura fantasia, produto de uma mente obcecada com celulóide.

- Para além do senhor Silay, há uma testemunha que pode confirmar esta ideia e que não é dada à bebida.

- Quem? - a voz de Seker, tal como os olhos, eram de desafio, imperiosos. - Então?

- Senhor Seker, não tenho a liberdade de...

- Mas se eu tiver de enfrentar esta acusação, terei de saber com quem tenho de me defrontar! Isso é mentira! Tenho plena consciência

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de que algumas das pessoas que trabalham para mim não gostam necessariamente de mim.



Perante o silêncio estóico de Ikmen, Seker sentou-se. À medida que o fazia, pareceu aflorar-lhe à cabeça um pensamento. Foi talvez inspirado pela gravidade que via

gravada nas feições de Ikmen.

- A não ser, é claro, que fosse a sua filha - disse. - E nesse caso posso também, penso eu, confessar, quer o tenha feito ou não.

Ikmen suspirou. Esta era uma direcção em que ele não desejara seguir neste interrogatório. Mas quando Tepe lhe telefonou a falar de Seker, ele tivera de fazer perguntas

a Hulya sobre o patrão e Hatice.

- Senhor Seker, dizer a verdade pode ajudar - disse Ikmen. - Tocar no seio de uma rapariga ou ter consentido em ter relações com ela não é nenhum crime. Não estamos

a acusá-lo de lhe ter feito mal, precisamos simplesmente de saber quem eram os contactos dela. E uma vez que o senhor deve ter sido uma das últimas pessoas a vê-la

viva...


- Depois do trabalho, ela saiu com a sua filha.

- E não voltou a vê-la nessa noite?

- Não. Fui para casa, para junto da minha mulher, como sempre faço. Nunca fiz nada com essa rapariga, nem nunca lhe fiz mal algum. Se algumas pessoas tomam erradamente

a minha simpatia natural por outra coisa qualquer, é problema delas, não meu. - E, dizendo isto, Seker afundou-se na cadeira, como que tendo temporariamente perdido

todo o ar que o fazia parecer um balão prestes a rebentar.

Ikmen apagou o cigarro e acendeu outro.

- Bem, é capaz de ter razão - disse o inspector. - É possível que haja algum engano...

- Obrigado!

- No entanto, não interfiro nos actos dos meus agentes. Fomos obrigados, senhor Seker, a prosseguir com essa acusação.

- Bem, com certeza. - As feições de Seker tinham-se acalmado consideravelmente. Embora não exactamente a sorrir, o homem parecia mais descansado. Foi nessa altura

que Ikmen mandou agradavelmente parar com os procedimentos e permitiu que Seker se fosse embora.

Assim que ouviram os passos do pasteleiro a desaparecer pelo corredor lá fora, Tepe virou-se para o seu superior e disse:

- Acredita nele, inspector?

- Não - Ikmen franziu o sobrolho. - É a palavra dele contra a de Ahmet Silay e a de Hulya. Sei que a minha filha, pelo menos, não mente. Ela viu o homem passar as

mãos pelo corpo todo de Hatice. E, além disso, mesmo que eu não soubesse isso, mesmo assim ainda diria que Hassan Seker é um mentiroso.

- Porquê? Ikmen sorriu.

- Oh, Tepe, porque sim. São pressentimentos que eu tenho em relação às pessoas. Chama-lhe qualquer coisa de sobrenatural, por falta de um termo mais adequado.

Confuso, Tepe limitou-se a repetir:

- Sobrenatural?

- Sim - disse Ikmen, enquanto abria a porta que dava para o corredor-, tal como na precognição, esse tipo de coisa. Mas, por favor, não fales nisto ao comissário

Ardiç, ele detesta essas coisas. - E, com um sorriso, saiu.

Apesar da diferença de altura e do facto de Mehmet ser mais bem-parecido do que Murad, era fácil ver que os irmãos Suleyman eram parentes próximos. A forma como

estavam sentados, encostados à parede do hospital, o queixo apoiado nas mãos compridas e magras, fazia com que parecessem crianças repreendidas e não homens de meia-idade.

Havia mais de uma hora que Murad se encontrava na companhia de Mehmet, assim, falando de vez em quando, mas, mais frequentemente, passando a noite quente e abafada

a fumar e a bebericar a sua lata de Coca-Cola. O parto da sua cunhada Zelfa estivera a decorrer durante a maior parte do dia, tão ao contrário da experiência que

Murad tinha de paternidade iminente. A sua falecida esposa, Elena, uma vítima tão chorada do monstruoso terramoto de 1999, dera-lhe uma filha num espaço de duas

horas. Mas ela era jovem; mesmo agora, se fosse viva, teria apenas vinte e oito anos. Esse pensamento, juntamente com o ar pesado devido ao calor, fez com que Murad

se sentisse ligeiramente enjoado, por isso distraiu-se a olhar para Mehmet. O rosto do homem mais jovem estava bastante pálido.

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Murad estendeu a mão e pegou na mão do irmão.



- Hoje em dia, não é uma cirurgia complicada - disse com o que pôde reunir de um sorriso. - E, seja como for, o médico disse que daria a Zelfa mais uma hora.

- Sim, mas se ela não tiver o meu filho dentro de uma hora...

- Nesse caso, fazem uma cesariana - respondeu Murad -, tal como disse o médico. Fazem-nas todos os dias, Mehmet. Ela vai ficar bem. Insallah.

- Humm.


Ficaram sentados em silêncio durante algum tempo, observando as ambulâncias e os carros que iam e vinham, participando na telenovela de vinte e quatro horas que

é a vida de um hospital. Nascimento, morte, doença, alegria, dor e raiva - Mehmet vira tudo isso desde que viera para este sítio, que preconizaria um ponto de viragem

na sua vida. As coisas nunca mais voltariam a ser as mesmas. Era certo que não o tinham sido para Murad desde o nascimento do pequeno Edibe. Mehmet olhou o irmão

mais velho e mais sensato e sorriu.

- Então o que disseram o pai e a mãe quando lhes contaste? - perguntou.

Murad sorriu.

- O pai mostrou-me a moeda que comprou para o teu filho - disse ele, referindo-se ao velho costume turco de comprar uma moeda de ouro para um bebé novo. - É uma

das maiores que alguma vez vi. Disse-me que é do reinado do sultão Abdul Mecit.

Mehmet fechou os olhos e abanou a cabeça.

- Mas ele não tem dinheiro para comprar uma coisa assim, pelo menos contigo a pagar metade das despesas dele da casa e...

- Mehmet, ele tem de o fazer, bem sabes - respondeu Murad simplesmente. - Como ir só aos melhores restaurantes e mandar fazer os fatos ao alfaiate, é isso que ele

faz. Foi assim que foi criado.

Mehmet ergueu os olhos para o céu.

- Ah, sim - disse em voz baixa -, junto às águas brilhantes do Bósforo, com carpetes preciosas em todas as divisões da casa; com criados e amas a vigiá-lo enquanto

passeava a sua família de gatos brancos Angora em redor dos jardins verdes e luxuriantes.

- Mais ou menos isso - disse Murad, e, em seguida, tanto ele como Mehmet riram. Em breve, muito em breve, esperavam eles, viria ao mundo outro pequeno Suleyman.

De certeza que, com a mulher

prática que a mãe irlandesa era e com o pai trabalhador que tinha, o filho de Mehmet apreciaria a acto generoso, ainda que anacrónico e insensato, que o seu curioso

avô empreendera em seu nome. Agora apenas um eco dos príncipes que os seus antepassados outrora tinham sido, o filho de Mehmet iniciaria, pelo menos, a sua existência

num antiquado estilo régio.

A sala de estar familiar, no piso de cima, estava misericordiosamente vazia. Com excepção de um par de jovens estudantes que se encontrava a um canto, só lá estavam

eles. Assim, não seriam vistos, o que era bom. Contudo, a sargento Ayse Farsakoglu olhava à sua volta com grandes olhos tristes. Estas pequenas fa-, embora asseadas

e baratas, eram tão aborrecidas. Não que ela não gostasse de pide, aquele pão pesado e plano coberto de queijo, carne ou ovos ou quase qualquer coisa que se pudesse

desejar. Como apisa italiana, a que é muitas vezes comparado, é fácil gostar-se de. pide. Não, não era a comida nem sequer as melodias monótonas e plangentes que

vinham do rádio ao canto que estavam a incomodar Farsakoglu.

- Daqui a três semanas faço trinta anos - disse ela ao homem que estava sentado à sua frente.

Orhan Tepe levantou o olhar do seu pide e fixou-o num par de olhos que brilhavam com uma intensidade aumentada.

- Sim - respondeu ele simplesmente. - Eu sei. Vamos sair para comer em Tarabya.

- Onde ninguém nos conhecerá - disse ela, os lábios generosos agora apertados em volta das palavras. - No meu trigésimo aniversário vou sair com o meu amante, não

com o meu marido, na minha idade!, e para um local onde ninguém nos conhece.

- Sim - ele encolheu os ombros. - Sou casado. Por enquanto, tem de ser assim.

- Quero ir ao Four Seasons, ao Çati ou ao Rejans - disse ela, mencionando três dos restaurantes mais caros da cidade.

O rapazinho que era o empregado de serviço à mesa deles naquele serão aproximou-se e levou o copo de Coca-Cola vazio de Tepe. Podia igualmente ter estado a tentar

ouvir a conversa entre eles, agora bastante carregada, mas se tinha, nenhum deles reparou.

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Assim que o rapaz se afastou, Tepe inclinou-se para a frente, para a amante, e disse:



- Sabes bem que neste momento não tenho dinheiro para te levar a sítios como esses. Temos de ir a sítios que eu possa pagar.

- Sítios como este! - disse ela, o rosto agora bastante vermelho de raiva crescente e de genuína perturbação.

- É simplesmente umzpideà comum...

- Sim, exactamente! - A mulher olhou-o nos olhos, profundamente. - E depois de sairmos daqui vamos ao apartamento vazio do teu irmão, onde eu...

- Fala baixo! - Ele olhou nervosamente em redor, mas, para seu alívio, os estudantes e o empregado de mesa já ali não estavam.

- Eu quero mais da minha vida, Orhan - continuou ela. - Mereço-o. Tu merece-lo. Um lugar adequado e confortável para descansarmos, roupas bonitas, boa comida, alguma

certeza de que temos um futuro juntos.

- Que eu te disse que havemos de ter! - disse Tepe com rispidez, a voz ainda um sussurro. - Estou a trabalhar nisso. Penso nisso todos os dias. Por fim...

- Por fim, se não fizeres alguma coisa depressa, posso deixar-te entregue às carícias tímidas da tua frígida mulher e...

- Vais voltar a tentar seduzir Mehmet Suleyman? - Orhan olhou-a com um misto de desejo e de nojo. De alguma forma, a obsessão prolongada que ela ainda sentia em

relação ao seu ex-amante, Suleyman, excitava-o. Sempre o excitara. Desde o início que ele invejava Suleyman, mas a ideia de agora possuir o que o muito mais culto

e aristocrático inspector deixara de ter fazia-o sentir-se superior. Ayse Farsakoglu era ao mesmo tempo uma mulher bonita e uma amante desinibida - Suleyman tinha

de ter saudades dela. Afinal, o que tinha ele agora? Uma bruxa velha e de língua afiada como esposa, monstruosamente gorda na gravidez. Orhan sorriu. Ayse, porém,

não o fez.

- A única vez em que penso em Mehmet Suleyman - disse ela com uma voz gelada - é quando penso em todos os sítios bonitos a que ele me podia ter levado. Sítios a

que tu e eu temos de ir, a não ser, é claro, que queiras que Aysel descubra.

Com a velocidade de uma víbora, ele agarrou-lhe o pulso por cima da mesa.

- Nem sequer penses em fazer chantagem comigo!

- Não estou a fazer chantagem contigo, estou a prometer-te que o farei! - respondeu ela, o rosto fixo numa expressão dura e determinada, apesar da dor infligida

pelas mãos dele. - Quero melhor do que isto, Orhan. Tenho quase trinta anos. Quero que tenhamos coisas. Quero-te a ti! Quero ser tua esposa. Farei tudo o que tiver

de fazer para que isso aconteça!

Por um momento, ficaram sentados assim, as mãos unidas como se medissem forças por cima da mesa. E embora receasse aquilo que sabia que ela podia fazer e dizer,

Orhan Tepe sentia-se também excitado pela forma como Ayse estava neste momento. Quando ela estava assim, determinada e manipuladora, era também muito sexy. Pela

sua mente, voltaram a passar velhas cenas com ela ajoelhada no chão à frente dele, colocando-o na boca, ao mesmo tempo que ele empurrava e lhe percorria a cabeça

com as unhas. Sentiu o pénis a endurecer. - Vá lá, vamos embora - disse ele com voz rouca. Ela puxou o pulso do aperto agora lasso das mãos dele e levantou-se. Orhan

levou-a para o apartamento que o irmão usava nas raras ocasiões em que vinha de Ancara para visitar a família. Aí, ele, em primeiro lugar, voltou a reconstituir

a cena que imaginara antes, e, em seguida, deitou Ayse na cama do irmão e penetrou-a com força, da forma que a esposa, Aysel, detestava. Mal atingira o clímax dentro

dela, já a desejava outra vez. Não se fartava. Só depois é que pensou na forma como iria continuar com isto. Sim, ele queria, de facto, dar-lhe todas as coisas,

os bons momentos, que ela queria. Se fizesse isso, sabia que ela se tornaria ainda mais obsequiosa, mais aberta à experimentação sexual. Mas ele não podia fazer

isso neste preciso momento, e essa incapacidade irritava-o. Uma mulher como hassan precisava de mais do que simples promessas vagas para se manter interessada e

fora do caminho da esposa dele. Se, ao menos, ele não tivesse de gastar o dinheiro todo com a família! Este pensamento lançou-lhe uma nuvem temporária sobre as feições

- até que ela voltou a montá-lo, fazendo com que todos os pensamentos desaparecessem. Orhan Tepe abraçou o esquecimento de boa vontade.

Não tinham planeado uma interrupção da viagem em Amesterdão, mas quando Hikmet ouviu que o voo de aviação Tstamhnl pct-ii estava

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atrasado pelo menos três horas, decidiu que tanto ele como Kaycee precisavam de uma pausa. E, uma vez que o dinheiro não constituía objecção, ele começou por alterar



os voos, fazendo depois marcações para o hotel flutuante exclusivo Boatel. Aí fizeram amor, beberam várias garrafas de champanhe e assistiram ao pôr do Sol por cima

da cidade. Foi idílico e estavam ambos muito felizes, até que Kaycee, completamente despreocupada, adormeceu, deixando o marido sozinho a franzir o sobrolho e depois

a virar as costas ao seu reflexo no espelho que estava pendurado na parede. Não lhe agradava o facto de a mulher nem sequer ter uma pista do verdadeiro motivo por

que iam regressar ao local onde ele nascera. Com Kaycee ele tivera esperança, velho como era, de começar de novo. Mas, no fundo do seu coração, Hikmet sabia, sempre

soubera, que isso não ia ser possível. ligou o telemóvel e telefonou ao irmão Vedat.

Quando Vedat respondeu, Hikmet anunciou-se e disse:

- Houve uma alteração do plano.

- Mas isto é urgente - respondeu Vedat, a voz pesada com o que soava a ansiedade.

- Sim, eu sei, e lamento - disse Hikmet. - Mas o voo estava atrasado e eu precisava de descansar. Tudo isto tem sido muito... preo-cupante. Já não sou jovem, Vedat,

não sei se sou capaz...

- Então quando é que cá chegas? - perguntou o irmão, a voz mostrando mais impaciência do que compreensão.

- O nosso voo chega amanhã à tarde, às três e um quarto. Insal-lah, vai chegar a horas.

- Lá estarei à tua espera.

- Obrigado - Hikmet passou as mãos pelo rosto fatigado, para cima e para baixo. - Estou tão desejoso de te ver, Vedat, a ti e à nossa querida Hale.

- Sim.

Foi uma resposta estranha e fria que fez com que Hikmet franzisse o sobrolho. Não via o irmão nem a irmã Hale desde muito antes do seu casamento com Kaycee. Colocando



de lado o facto de ele, efectivamente, os manter, os três eram, ou tinham sido, irmãos muito chegados. Mas, quem sabe, talvez Vedat o tenha culpado pelo que acontecera.

Ele estava, afinal, a viver com isso, enredado de uma forma que Hikmet, durante algum tempo, optara por ignorar. Tinham magoado Vedat...

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Enquanto murmurava um adeus distante ao irmão, Hikmet Sivas estremeceu. Hoje estava em Amesterdão, amanhã estaria em Istambul. Só Alá sabia o que aconteceria então,



o que já estava escrito.

Hikmet Sivas, estrela de cinema e milionário, deitou-se ao lado da esposa adormecida e fechou os olhos.

CAPÍTULO SEIS

Era sempre difícil de adivinhar quando Ikmen estava particularmente cansado ou tenso. O seu aspecto habitual era, segundo os padrões de qualquer outra pessoa, marcado

por rugas de descontentamento. O contacto próximo com o homem tinha, porém, ensinado a Orhan Tepe que um brilho particularmente maníaco nos olhos de Ikmen era a

chave para a quantidade de descanso que ele conseguira obter. Hoje, dado que os olhos de Ikmen estavam lacrimosos e um pouco tresloucados, parecia que ele dormira

ainda menos do que o próprio Tepe. Mas Tepe estivera a deliciar-se de prazer com Ayse Far-sakoglu, ao passo que Ikmen tinha ar de quem estivera envolvido em tarefas

muito mais aborrecidas.

- Hatice Ipek foi violada e sodomizada antes da morte - disse Ikmen, sem qualquer preâmbulo, assim que Tepe entrou no gabinete. - A zona púbica foi cortada, provavelmente

com uma lâmina.

- De facto. - A resposta de Tepe foi dita com frieza e o que Ikmen achou estranho, sem comentários.

- Ela não era virgem antes de ter sido atacada - continuou Ikmen -, mas não considero isso relevante, dada a natureza dos ferimentos que apresenta. Foi cortada e

espancada. Resistiu. Isso é violação. É um crime, quem quer que lho tenha feito será castigado.

- Então qual foi a causa da morte, inspector? - perguntou Tepe, ao mesmo tempo que se sentava à sua secretária e olhava para o rosto carrancudo e sombrio de Ikmen.

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- Não sei - respondeu Ikmen. - O doutor Sarkissian ainda tem de descobrir. Entretanto, precisamos de descobrir quem é que andava a ter relações sexuais com esta



rapariga. Ele ou eles podem ser os perpetradores que procuramos. Hatice não contou nada à minha filha, que, como sabemos, fez as suas próprias observações e chegou

às suas próprias conclusões; mas a mãe de Hatice ainda está convencida da castidade da filha. E depois há o senhor Seker. - Ikmen esboçou um sorriso de desagrado.

- Deixámo-lo ir - disse Tepe, acendendo aquele que para ele era o primeiro cigarro do dia.

- Sim - respondeu Ikmen -, deixámos. E se as histórias contadas pela minha filha e pelo senhor Silay não se encaixassem tão bem e não fossem também adendas tão interessantes

ao estado "lastimável" de Hatice, eu provavelmente daria a Seker o benefício da dúvida. Mas Hatice não era virgem e a minha filha está convencida das observações

que fez. Seker tocou-lhe e ela gostou. Ela era uma rapariga bonita e ele é um homem bem-parecido.

- O facto de ele ter relações com ela não significa que a tenha assassinado.

- É verdade, mas, de qualquer maneira, eu gostaria de conhecer os factos envolvidos - disse Ikmen. - Deixei-o ir ontem à noite, mas ontem foi ontem e agora é agora.

- Acendeu um cigarro e apoiou-se com ar cansado sobre os cotovelos. - Pega em dois homens e aplica alguma pressão ao senhor Seker. Convence-o de que a humilhação

de fornecer uma amostra de sémen pode ser evitada, desde que ele faça o que é correcto. Sê simpático.

- Sim, inspector - Tepe levantou-se.

- Ah, e enquanto estás na rua, podes também ir pensando na questão do que Hatice vestia quando morreu.

- Era um género de vestido comprido, não era, inspector?

- Sim - Ikmen franziu o sobrolho. - O doutor Sarkissian pensa que, além de parecer arcaico, na realidade também é bastante antigo. Não me parece provável que uma

rapariga moderna como Hatice escolhesse, ela própria, aquela peça de vestuário, por isso o vestido pode apontar para um tipo de preferência por tais roupas no seu

agressor.

- Quer dizer que acha que quem quer que a tenha violado a vestiu primeiro? Assim

mesmo?


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- Segundo a minha filha, Hatice ia dançar para uns homens simpáticos que tinham prometido apresentá-la ao mundo do espectáculo. Ora, como tu e eu sabemos, as raparigas

que "dançam" para homens "simpáticos" geralmente não o fazem com muita roupa, e muito menos com vestidos tão elaborados. Não. - Ikmen recostou-se na cadeira e, com

um sopro, empurrou uma grande torrente de fumo para o tecto. - Estive a pensar no assunto e cheguei à conclusão de que as pessoas que fizeram isto não são provavelmente

do tipo a que possamos estar habituados em casos como este.

- Ah.


Era uma palavra simples, que pouco significava, e que irritou Ikmen tremendamente. Tepe não tinha compreendido e limitou-se a pronunciar um som para transmitir o

facto. Tão ao contrário de Suleyman, que sempre fizera perguntas, comentara e formara opiniões. Mas, como Ikmen tão bem sabia, Suleyman não só era mais bem-educado

do que Tepe, era também muito mais amigo de manter a mente afastada da sua vida privada durante as horas de trabalho. Em alturas como esta, Ikmen sentia muito a

falta dele. Contudo, pelo menos com o senhor Seker, era improvável que Tepe pudesse causar muito prejuízo, mesmo que passasse o tempo todo a pensar em Ayse Farsako-glu.

Hassan Seker podia muito bem ter roubado a virgindade a Hatice, mas não era - Ikmen sentia-o - um sério candidato a autor nem do ataque à rapariga nem do seu homicídio.

Afinal, tanto Hulya como Ahmet Silay tinham dito que Hatice gostava quando Hassan se aproximava dela. O homem ou os homens que tinham vestido aquela roupa a Hatice

tiveram de lutar com ela, de a magoar e ferir para obterem o que queriam.

Ikmen mandou Tepe executar a tarefa de que o incumbira e, por breves momentos, afastou os pensamentos da pobre Hatice agora morta.

Às primeiras horas daquela manhã, Zelfa Halman Suleyman dera à luz um filho - um rapaz muito grande e saudável, segundo o amigo do seu antigo parceiro, Balthazar

Cohen. Mutilado em resultado do terramoto de 1999, o ex-agente Cohen ocupava-se agora quase exclusivamente a seguir as vidas e as aventuras dos seus amigos. Eterno

bisbilhoteiro, Cohen reunia e passava informações de uma forma muito mais eficiente do que a maior parte dos meios de comunicação

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encontros no seu apartamento de Karakóy e tinha uma variedade de telefones, um dos quais usara, às cinco horas dessa manhã, para telefonar a Ikmen a dar a notícia



do nascimento do filho de Suleyman.

O bebé, contou Cohen a Ikmen, ia chamar-se Yusuf Izzeddin. Era, aparentemente, o nome de algum antepassado nobre. Ainda segundo Cohen, isso agradara ao pai de Mehmet,

que se dizia que ia dar à criança a maior e a mais pesada moeda de ouro de toda a cidade. Ikmen sorriu. Tão otomano que tudo aquilo era! A criança com o nome de

um nobre, parentes principescos a trazerem ouro... Também ele teria de arranjar uma moeda, certamente de qualidade inferior, para comprar à criança. Mehmet era seu

amigo, assim como seu colega, e, de qualquer maneira, com dinheiro ou sem dinheiro, Fatma ficaria escandalizada se ele não comprasse nada.

Isso teria de ficar para mais tarde. Entretanto, era importante que ele acrescentasse o conhecimento que tinha de Hatice Ipek, o que significava falar, mais formalmente

do que antes, com a mãe da rapariga.

Esta era a segunda vez que a polícia visitava o pastani. Em ambas as ocasiões tinham vindo falar com Hassan e, embora Suzan Seker tentasse convencer-se de que devia

ter ouvido mal, lembrava-se perfeitamente do nome de Hatice Ipek aparecer naquela primeira conversa entre o marido e o sargento. Hatice, Suzan franziu o sobrolho

ao lembrar-se dela. Era uma rapariga simpática, popular entre os clientes e boa no seu trabalho - perfeita, na realidade, não fosse o facto de se ter oferecido a

Hassan. Suzan só os vira uma vez, mas foi suficiente. Através de uma fresta da porta do escritório, ela vira o marido pegar nos seios da rapariga e beijá-los. O

arfar de prazer de Hatice ainda a perseguia.

Mas agora a rapariga estava morta e, sabe-se lá como, a polícia viera a saber da relação de Hassan com ela - pelo menos Suzan presumia que assim era. Interrogar

um simples patrão três vezes, uma delas na esquadra, não era, certamente, habitual. Agora o marido estava sozinho no escritório com o sargento. Dois agentes fardados

estavam sentados do lado de fora, à espera, a tomarem o café que ela lhes servira e, sem dúvida, à escuta das vozes ocasionalmente levantadas que vinham do interior

do escritório. Accionar tanta gente durante tanto tempo, desta vez, parecia não fazer sentido, a não ser que fossem prender

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Hassan. E, no entanto, Suzan, apesar de tudo, estava convencida de que ele estava inocente. É claro que o facto de ele ser seu marido, o pai dos seus filhos e o



homem que, apesar de tudo, ela amava, comandava-lhe os sentimentos. Mas havia outra coisa também: o facto de Hassan, apesar de todos os seus defeitos, não ser um

homem violento. Ele detestava a violência. Uma das razões por que eles não eram tão ricos como as pessoas pensavam era devido a Hassan detestar tanto a violência.

O pai, Kemal, fora de outro género. Quando estava à frente do negócio, enfrentara corajosamente pessoas como os três homens que tinham acabado de entrar e que se

tinham sentado junto à porta da frente. Rapidamente, Suzan acabou de limpar alguns tabuleiros e, em seguida, com uma expressão séria, aproximou-se dos recém-chegados.

Os homens, todos de camisas coloridas abertas e jóias de gosto duvidoso, sorriram afectadamente quando ela se aproximou deles. Ela ia gostar de lhes dizer quem é

que estava neste preciso momento escondido atrás do tabique em frente do escritório do marido.

A mulher debruçou-se para falar com o mais velho dos três, um homem que não teria mais de vinte e cinco anos, que usava cabelo curto com gel e que infundia medo.

- A polícia está aqui - disse ela, ao mesmo tempo que mudava nervosamente os talheres de lugar em cima da mesa.

O homem de cabelo esquisito franziu o sobrolho.

- O que é que eles querem? - perguntou numa voz áspera e seca.

- Não sei - mentiu Suzan. - Mas estão agora a falar com Hassan. Penso que vocês se devem ir embora.

- Por que estão eles a falar com Hassan? - perguntou o mais jovem dos três, um indivíduo de rosto triste, a fungar, que pouco mais era do que um rapaz. - Ele não

é ninguém. Ele só...

- Cala-te, Celal - disse o líder com brusquidão, após o que se levantou, virando-se para Suzan: - Diz ao teu marido que me deve telefonar assim que acabe de falar

com eles.

Suzan endireitou-se, em toda a sua considerável estatura.

- E se o levarem com eles, quando saírem?-perguntou. - O que faço, então?

- Nesse caso, terás de me telefonar, não é verdade, Suzan? - respondeu ele, enquanto levantava o olhar de esguelha para cima, para o rosto de dela.

72 - Precisamos de mais café aqui. - Embora arrogante e exigente, o pedido do jovem agente não podia ter vindo em melhor altura. Suzan virou-se para olhar para o

polícia que acabara de surgir de detrás do tabique.

- Com certeza - disse a mulher com um sorriso. - Não há problema. - E, à medida que se deslocava atrás do balcão para ir buscar a cafeteira, os três homens que se

encontravam junto à porta deixaram o edifício.

Todavia, sem que eles se tivessem apercebido, não saíram com rapidez suficiente para escaparem à atenção do agente Hikmet Yildiz. Não sabia quem eles todos eram,

mas já se deparara com dois dos homens antes, no decurso das funções inerentes à sua profissão. Não eram propriamente "bons rapazes". Yildiz não gostara da familiaridade

com que tratavam a senhora Seker. O que viu causou-lhe uma sensação de apreensão.

Kaycee não sabia o que esperava quando aterraram, mas um enorme aeroporto novo não ocupava o topo das suas expectativas. Imaginara vagamente um conjunto de cabanas

à maneira do terceiro mundo, e, de certa forma, quase que ficou decepcionada por não ser assim. Os funcionários da imigração e da alfândega eram, no entanto, consoladoramente

ameaçadores, tal como os agentes da polícia que pareciam preferir deambular em volta dos letreiros com os dizeres "Proibido Fumar", enquanto tiravam longas fumaças

dos seus charutos malcheirosos.

- Muito Expresso daMeia-Noite-disse ela, ao mesmo tempo que seguia Hikmet para fora da zona da alfândega em direcção à área das chegadas.

O marido sorriu.

- Eu não diria isso muito alto aqui - disse ele. Em seguida vislumbrou um homem baixo, de fato, à frente da multidão, e levantou os braços:

- Vedat! - gritou.

O homem, que era uma versão ligeiramente mais baixa e mais preocupada da estrela de Hollywood, avançou a correr para o enorme e esmagador abraço que o esperava.

73

- Meu irmão!



- Vedat, estou... - E, sem encontrar as palavras certas, Hikmet fez uma coisa que Kaycee nunca o vira fazer antes e desatou a chorar. Entre copiosas quantidades

de água, Hikmet beijou o irmão sonora e repetidamente em ambas as faces, interrompendo-se apenas de vez em quando para limpar suavemente as lágrimas dos olhos, que

transbordavam. Era, pensou Kaycee, uma coisa tão distante quanto se poderia imaginar do esterilizado "beijo no ar" em voga na sociedade do Sul da Califórnia. Fazia-a

lembrar aqueles funerais puros de Nova Orleães da sua juventude, ocasiões em que os familiares do morto bebiam, beijavam-se e batiam no peito, à medida que davam

livre expressão à tristeza que lhes arrancava as entranhas e que caracterizava tais acontecimentos. Consequentemente, ela preferia o que estava a testemunhar aqui.

Quando Hikmet finalmente se recompôs, voltou a pegar na mão da esposa e, em inglês, apresentou-a ao irmão. De uma forma bastante encantadora, pensou Kaycee, Vedat

Sivas executou uma pequena vénia, ao mesmo tempo que lhe apertava a mão e, em seguida, disse:

- Que Alá te faça feliz. Bem-vinda a Istambul.

- Obrigada - respondeu ela. - É muito simpático da sua parte. E, para surpresa de Vedat, que, de facto, quase tocava o choque, ela

beijou-lhe uma das faces húmidas. Hikmet, por qualquer razão que Kaycee não entendeu, achou isso muito divertido e riu.

Seguiram os três atrás uns dos outros através do átrio das chegadas cheio de gente, e saíram para o ar livre. Estava calor, o que era agradável, mas era um calor

menos húmido do que no Sul da Califórnia. Esta constatação era um alívio, dado que Hikmet dissera que o ar condicionado não estava ainda instituído aqui. O que era

menos agradável e, na verdade, bastante perturbador, era o cheiro que parecia existir em toda a parte. Kaycee não podia colocá-lo para além da realidade de que lhe

era desagradável, e que era vagamente orgânico. Mas, uma vez que o marido não parecia estar incomodado com ele, ela guardou a sua opinião para si própria. Localizaram

o carro de Vedat no parque de estacionamento e colocaram a bagagem na mala. Embora o carro estivesse apetrechado com cintos de segurança, estes não pareciam funcionar

e, por isso, Kaycee resignou-se a depositar a sua confiança nos airdo carro.

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a seu lado, para que ele pudesse apontar locais de interesse durante a viagem. O interior do carro, que era um Volvo novo, cheirava a cigarro e a chocolate.



Minutos depois encontravam-se na ampla estrada nacional Londra Asfalti, com destino a uma cidade que, à primeira vista, parecia tão exótica e misteriosa como Novajérsia.

A não ser, é claro, que se olhasse realmente: o edifício otomano quase totalmente escondido no meio de uma fila de prédios; os minaretes a espreitarem de detrás

das lojas; as mais bonitas fontes municipais do mundo... Mas tudo isto implicava um género de conhecimento de que Kaycee não dispunha. Também requeria um pouco menos

de velocidade da parte do Volvo e do seu condutor. Mas, como Hikmet observou enquanto tirava do bolso do casaco do irmão o seu primeiro cigarro desta sua visita,

Vedat, como turco, nem sabia conduzir devagar nem compreendia por que o deveria fazer. Alá, que decidia o destino de todos os seres vivos, cuidaria das consequências,

independentemente da velocidade a que se seguisse e com ou sem cintos de segurança ou air b.

A medida que Hikmet acendia o cigarro, Kaycee franziu o nariz, enojada. Ele não só estava a fumar, o que, por si só, já era grosseiro, mas, o que quer que fosse,

cheirava muito mal. Incapaz de se conter, ela afastou o fumo do rosto com um gesto e disse:

- Isso é tão nauseabundo! Ambos os homens riram.

- Ah, mas uma vez em Roma, tens de ser romano - disse Hikmet. - Não é o que diz o ditado?

- Bem...

- Bem, o mesmo se aplica a Istambul. - Ele encolheu os ombros e inclinou-se para a frente para lhe dar uma palmada animadora no ombro. - Antes de partires, vais

estar a comer açúcar, a beber raki e a dançar no trânsito como um verdadeiro peão turco. - E voltou a rir.

Kaycee não achou graça. Estava, tal como dissera antes, preparada para fazer cedências enquanto se encontrasse neste país, mas se Hi esperava que ela mudasse completamente

a sua vida, era melhor pensar duas vezes. Virou-se para Vedat e disse:

- Então qual é o melhor sítio para ter uma aula de yoga?

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O quarto de Hatice Ipek não era muito diferente daquele que Hulya ocupava. A cama, como a de Hulya, estava coberta com um sortido de brinquedos macios, havia calças



de ganga e casacos espalhados ao acaso pelo chão, as paredes estavam cobertas de cartazes que exibiam, principalmente, jovens cantores. Era, em todos os aspectos,

o quarto de uma adolescente - com uma excepção.

Fora Canan, a irmã mais nova de Hatice, quem primeiro chamara a atenção de Ikmen para a pilha de cadernos que se encontrava em cima da secretária da rapariga morta.

A maior parte datava dos seus velhos tempos de liceu: listas de verbos ingleses, trabalhos de História e cálculos matemáticos. Um deles, no entanto, tinha um carácter

muito mais pessoal. Com o nome escrito na capa, "O meu Diário", - em letra de criança, era uma leitura perturbadora para qualquer pai de qualquer jovem.

Sentado numa cadeira ao lado da cama de Hatice, Ikmen folheou o livro, parando ao acaso naquilo que, depressa se apercebeu, eram entradas típicas. Franzindo o sobrolho,

leu:

4 de Abril. Hoje, Hassan Bey fechou o pastani cedo. Depois de todos terem saído, levou-me para o seu escritório. Tirei todas as minhas roupas e ele também tirou



as suas. Disse-me quanto eu era bonita e tocou-me os seios. Voltei a experimentar aquela sensação boa quando ele o fez. Depois, quando ele já estava suficientemente

grande, entrou em mim. Desta vez, sentei-me em cima dele para que ele me fizesse subir e descer. Depois, Hassan Bey disse que lamentava que não durasse muito, mas

a culpa é minha por ser tão bonita.

Outra entrada, mais próxima da data da morte de Hatice, chamou a atenção de Ikmen porque mencionava Hulya.

22 de Junho. Hassan Bey pediu-me que o chupasse outra vez, o que eu fiz, mas durante pouco tempo. Ele gostaria de fazer sexo para a minha boca, mas não vai fazê-lo

ainda porque eu não quero. Em vez disso, fez para a minha mão, e então, mais tarde, fez para a sua própria mão, enquanto me via dançar.

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Quando me encontrar com essas pessoas do mundo do espectáculo, vou dançar assim, mas vestida, é claro! Só espero que eles gostem de mim e me dêem emprego. Não contei



nada disto a Hulya porque eles podem gostar mais dela, e sei que é maldade da minha parte. E que quero mesmo ser uma estrela e ela está só a imitar-me. No fim, Hassan

Bey beijou-me os seios e disse que me amava.

Escrita, segundo os cálculos de Ikmen, duas semanas antes da sua morte, esta entrada revelava uma faceta de Hatice que nem ele nem Hulya conheciam. Egoísta e sexual,

Hatice não quisera simplesmente ser actriz, ela quisera ser uma estrela. E, sem dúvida encorajada pela reacção de Hassan Seker ao seu corpo, era óbvio que a rapariga

pensara que essas pessoas com quem de alguma forma entrara em contacto antes da sua morte a ajudariam a alcançar a sua ambição. Ela apenas contara a Hulya sobre

essa oportunidade na véspera do encontro - demasiado tarde, felizmente, para que Hulya tratasse de tudo para a acompanhar. Hatice dissera à irmã que tinha um plano

para tornar a família, que era pobre, mais rica, mas não entrou em pormenores. Canan, como a mãe, só conhecia Hatice como a rapariga casta e encantadora que sempre

fora.


Quando Ikmen sentiu que já lera o máximo que podia suportar, deixou a chorosa família Ipek e fez uma curta visita ao seu próprio apartamento.

Hulya, que não regressara à pastani desde que o corpo de Hatice fora descoberto, estava em casa sozinha. Invulgarmente, quando o pai chegou, a rapariga fez um copo

de chá ao pai e, em seguida, colocou-lhe os braços em volta do pescoço.

- Vais descobrir quem matou Hatice, não vais, pai? - disse ela no meio de mais uma torrente de lágrimas.

Ikmen colocou-lhe os braços em volta dos ombros e puxou-a a si.

- Claro que vou - afirmou, guardando firmemente para si próprio, como sempre, as dúvidas que lhe costumavam assaltar a mente no início de uma investigação.

- O tio Halil telefonou esta manhã, logo assim que saíste - disse Hulya, referindo-se ao irmão mais velho do pai. - Ele leu o caso de Hatice nos jornais porque alguns

artigos falavam no teu nome.

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Ikmen soltou suavemente os ombros da filha e sentou-se à mesa da cozinha.



- O que é que o tio Halil queria?

- Só queria que soubesses que leu sobre ti - Hulya juntou-se ao pai à mesa, limpando as lágrimas dos olhos. - Eu disse-lhe que havias de descobrir quem matou Hatice

e ele concordou. Ele disse que se alguém podia descobrir, eras tu.

Ikmen sorriu. Era bom saber que a família depositava tanta confiança nele, mas era também uma pressão. E com tensão acrescentada que vinha do facto de a melhor amiga

da filha ser a vítima neste caso, a vida não ia ser fácil durante uns tempos.

Até certo ponto, Ikmen sabia que devia discutir Hatice e o seu comportamento com Hulya mais aprofundadamente do que o fizera até aqui. Mas não agora. Agora ele bebia

apenas o chá que ela lhe preparara e, a sorrir, mudou de assunto.

- Quando eu terminar o trabalho hoje, tenho de ir ao bazar do ouro - disse -, e reduzir-nos à miséria para comprar uma moeda para o filho de Mehmet Suleyman.

Uma expressão que só o pai mais perspicaz podia detectar atravessou o rosto de Hulya, trazendo-lhe um leve rubor às faces.

- Tens em mente alguma loja em especial? - perguntou ela, enquanto olhava não para o pai mas para a parede atrás da cabeça dele.

Ikmen, só para a arreliar, mencionou primeiro a loja onde não estava empregado o jovem que interessava à filha, mas quando viu o rosto da rapariga adquirir uma expressão

triste, compadeceu-se e disse-lhe a verdade.

- Vou visitar o velho senhor Lazar - disse, mencionando o ourives que conhecia melhor e também aquele para quem trabalhava o filho do seu antigo colega Balthazar

Cohen, Berekiah, o rapaz de que a filha gostava. - Podes vir comigo, se quiseres - acrescentou. - Lazar dá-me sempre crédito, mas posso levar alguém para controlar

os meus gastos.

Hulya, ainda sem olhar o rosto do pai, encolheu os ombros.

- Se achas que te posso ajudar.

- Sim. Sim, acho - disse Ikmen, e observou o rápido acesso de excitação a enviar um tremor pela elegante espinha da filha abaixo. Lembrava-se de se sentir assim,

ele próprio. De facto, sentira a mesma

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excitação da última vez que ele e Fatma tinham dormido juntos, na noite que antecedeu a partida dela para Antalya. De cabelo grisalho, com peso a mais e torturada



pelas varizes, Fatma Ikmen era, ainda assim, uma mulher bonita e apaixonada, e Çetin adorava-a. Era, sentia ele, um homem com muita sorte.

- Nesse caso, é claro que te vou ajudar - respondeu a filha, ao mesmo tempo que voltava a lançar os braços em volta do pescoço do pai. - Encontro-me lá contigo ou

vens primeiro a casa para me vires buscar?

- Venho-te buscar primeiro - disse Ikmen. - Por isso vê se estás pronta.

- Está bem.

E em seguida Hulya mergulhou em silêncio, os olhos a brilharem. Estava, pensou Ikmen, provavelmente a tentar decidir qual a melhor roupa que deveria usar para a

ocasião - matutando no que poderia impressionar mais um jovem judeu. E embora soubesse que a mulher, que era religiosa, não concordaria com ele, Ikmen, no seu íntimo,

desejava bem à filha e ao objecto do seu desejo. Afinal, Berekiah Cohen era um jovem muito simpático, que, ao contrário do pai mutilado - ou talvez por causa dele

- tratava todas as mulheres com grande respeito. Tão diferente dos homens que tinham violado Hatice Ipek - e também o oposto do exteriormente generoso Hassan Seker.

Todos homens maus. Homens para quem um pai não quereria que a filha sequer olhasse. ,. ,.

Quando Flikmet Sivas mudou de nome para Ali Bey, no bairro de Hollywood dos anos 1960, uma das primeiras coisas que fez foi comprar uma casa sumptuosa na sua cidade

natal, Istambul. Natural do bairro asiático de classe trabalhadora de Haydarpasa, uma vez fornecido de dólares, Hikmet optara por ficar naquele lado da cidade, se

bem que no mais asseado subúrbio de Kandilli.

Como ele agora explicava a Kaycee, a casa que ele adquirira naquela altura fora comprada principalmente para realizar os sonhos e as ambições da mãe. Ela era a pessoa

a quem ele, afinal, devia tudo. Viúva aos vinte cinco anos, quando o pai, trabalhador do caminho-de-ferro, falecera num acidente, Gúlnús Sivas deitara mãos até a

duro trabalho

físico, trabalho de homem, para sustentar os seus três filhos e para permitir ao seu bem-parecido Hikmet fazer os estudos de que precisava. Já falecida, é claro

que ela nunca soube que, enquanto que as aulas de inglês que ela pagou com o seu trabalho de escrava foram de grande valor para o filho, o que ele fez, primeiro

em sofás baratos e gordurosos de castings, e, sobretudo, mais tarde em casinos de Las Vegas, foi muito mais pertinente para aquilo em que ele se tornou do que as

suas capacidades linguísticas. Não que ele fizesse qualquer alusão a isso agora. Kaycee queria saber como era a casa dele e, por isso, falaram do assunto. A casa

dele, ou yah, nome que é dado às vivendas no Bósforo, era agora habitada e conservada pelo irmão Vedat e pela irmã mais velha, Hale. Kjak, que era do tipo vermelho-rosa,

até dispunha daquele elegante ornato, a cumba, ou grande janela saliente da parede, sobranceira à água, que conferia à luz da sala de estar uma qualidade brilhante

e luminosa. O assunto de que ele tinha de tratar aqui em Istambul significava que teria de deixar Kaycee sozinha wàjah por um considerável período de tempo, por

isso ele confiava que ela acharia todas as características - as piscinas, os lagos e as antiguidades - de algum interesse. Pelo menos, em Kandilli ela seria poupada

ao cheiro da velha Istambul, àquele fedor intenso e subterrâneo dos esgotos velhos e gastos, das cisternas ácidas e dos poeirentos túneis bizantinos. Não que ela

tivesse falado no cheiro, mas Hikmet vira pela expressão do seu rosto que ela o detectara assim que chegaram.

Vedat, que até ali conseguira manter um razoável, ainda que nervoso, comentário sobre o tema dos edifícios e ruas de interesse, virou na principal Yeniçeriler Caddesi,

logo a seguir à Mesquita do sultão Bayezit. Esta parte da cidade, que na realidade se chama Beyazit, respira cultura e má fama em simultâneo. Ao mesmo tempo que

alberga o complexo da Universidade de Istambul, vangloria-se das suas várias mesquitas imperiais e das suas excelentes bibliotecas. Lado-a-lado com isso, porém,

estão ruas cheias de gente, de duvidoso asseio, onde sobrevivem negócios claramente suspeitos e outros de uma natureza mais subtilmente "fina". Aqui, à vista do

mundo inteiro, os oriundos da Chechénia, da Geórgia e de outras ex-repúblicas soviéticas agora empobrecidas exercem os seus ofícios, que consistem em qualquer coisa,

incluindo as suas mulheres loiras e ossudas. Estas mulheres, as Natashas, como são aqui conhecidas, são

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óbvias do que os próprios negócios, que anunciam abertamente as suas mercadorias em caracteres cirílicos.



- Vou chegar daqui a pouco à Ponte Gaiata - explicou Vedat, ao mesmo tempo que reduzia o Volvo para a terceira mudança, de forma a poder lidar com aquilo que ia

ser um avanço lento na subida da estrada íngreme e cheia de gente. - Dali podem ver-se todos os principais pontos de interesse da cidade.

Kaycee sorriu.

- Bestial.

Hikmet, ainda a fumar no banco de trás, não estava tão impressionado.

- Desde quando é que nos tornámos parte da Rússia? - perguntou ao irmão no turco em que sabia que Vedat estaria mais à vontade.

Mas Vedat não respondeu. Concentrado a negociar uma esquina enganadora e cheia de gente agraciada com uma loja de cabedais enorme e bem iluminada, ele limitou-se

a resmungar qualquer coisa, ao mesmo tempo que o carro lutava com um dos buracos da estrada.

Abanando a cabeça perante o estado extremo a que as estradas tinham chegado, Hikmet ia dizer qualquer coisa sobre a forma como as autoridades locais estavam a negligenciar

as suas obrigações, quando a porta da frente, do lado oposto ao condutor, se abriu de repente. De início, pensou que a mulher perdera a paciência com a condução

laboriosa de Vedat ou o sangue-frio devido à inclinação da descida atrás deles. No entanto, quando uns desconhecidos braços morenos mergulharam no corpo do carro

e, imediatamente antes ou imediatamente a seguir, ouviu Kaycee gritar, ele apercebeu-se de que ela não estava a sair do veículo de sua própria vontade.

Hikmet precipitou-se para a frente, tentando agarrá-la.

- Kaycee!

Mas ela desaparecera, num denso emaranhado de homens, e, a julgar pelo som da voz dela, cada vez mais longe, a chamar ininterruptamente pelo nome dele, esfumara-se

aparentemente no ar.

Hikmet empurrou violentamente a porta do carro e atirou-se para o passeio. Enquanto o fazia, homens morenos e grupos de mulheres loiras pobremente vestidas rodearam-no.

Olhou, desvairado, à sua volta, para os rostos indiferentes e húmidos devido ao calor, a voz de

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Kaycee ainda a chegar, quase inaudível, aos seus ouvidos. Por esta altura, o irmão também saíra do carro e gritava-lhe - uma algaraviada num turco ininteligível,



foi o que pareceu a Hikmet, na sua aflição.

E no momento seguinte encontrava-se a exercer pressão contra os rostos, os cotovelos e os corpos que o cercavam. Cediam facilmente, mas, mesmo assim, ele empurrava-os

grosseiramente para o lado, ao mesmo tempo que, meio a correr, meio a caminhar, se dirigia para o local onde pensava que Kaycee desaparecera. A gritar pelo nome

dela, Hikmet abriu caminho com os cotovelos e entrou na loja de artigos de cabedal, onde, aos berros, perguntou ao espantado proprietário por uma mulher loira e

bonita, que o homem, manifestamente, nunca vira. Voltando a mergulhar na rua, Hikmet embateu num polícia, que se virou para olhar com uma expressão de poucos amigos

o rosto corado da estrela.

Hikmet ouviu Vedat gritar "Não!" imediatamente antes de se lançar a contar o que acontecera, mas ignorou-o. O polícia ouvia calmamente, à medida que o curto relato

de Hikmet degenerava numa torrente de lágrimas. O agente, então, anunciou o incidente no seu rádio e pediu ajuda.

CAPÍTULO SETE

Embora de corte moderno, o casaco que Nur Suleyman tirara do seu guarda-vestidos era de um amarelo bastante forte, e, por isso, apesar do extremo calor, ela trocou-o

por um preto, mais convencionalmente elegante. Magra e atraente, ainda que de uma forma desprovida de alegria, o rosto de Nur, cuja conservação era caríssima, desafiava

os seus sessenta e cinco anos. Proporcionaria, pensou, ao mesmo tempo que sorria à imagem cuidadosamente trabalhada de si própria que via no espelho, um contraste

interessante em relação àquele traste gordo e linguareiro com quem o filho mais novo casara. Que demónio possuíra o seu belo Mehmet para sequer reparar numa mulher

tão velha e vulgar, ela não conseguia imaginar. Mas os seus filhos pareciam ambos ter uma predisposição para casamentos inadequados; Mehmet com esta estranha intelectual

estrangeira e Murad com a filha de um merceeiro grego que, embora infelizmente já falecida, ainda exercia alguma influência sobre ele na forma dos seus ruidosos

parentes gregos. Era realmente triste que uns rapazes tão bem criados se desperdiçassem assim. No entanto, podiam-se pelo menos aproveitar as crianças. Edibe, filha

de Murad, era uma menina muito bonita e simpática, e o bebé Yusuf Izzeddin ia ser simplesmente perfeito - apesar da mãe. Ela lutaria com os filhos, aqueles estúpidos

e ingratos, para bem dos netos e assegurar-se-ia de que estes casariam com dinheiro e classe. Muham-med, o marido, muito mais condescendente em relação a tais assuntos,

naturalmente que se oporia a tal interferência. Mas ele não passava de um aristocrata estúpido e, por isso, seria fácil lidar com ele. Afinal, não

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se tinha ele simplesmente recostado, sem dizer nada, quando Mehmet casara com a sua primeira e perfeita esposa, Zuleika, sua prima? Oh, ele resmungara qualquer coisa



sobre o rapaz estar infeliz com o casamento, mas não fizera nada - além de assinalar o erro de Nur quando esse casamento falhara. Não, os aristocratas eram quase

exclusivamente moles, na opinião de Nur. Se Muhammed tivesse nascido na dureza do centro da Anatólia, como ela, conheceria o valor da ambição que a levara à mansão

de um príncipe, como fora o seu lar nos primeiros tempos do seu casamento. Tudo tinha agora desaparecido, mas não fora por culpa dela. Sim, ela gastara dinheiro,

mas não fora isso que constituíra o verdadeiro golpe à fortuna da família. Isso acontecera devido aos inúmeros parentes mais velhos que Muhammed tentara apoiar.

Velhos príncipes que nem sequer eram capazes de calçar as próprias botas sem ajuda e cuja ideia de arranjar emprego começou e terminou com a venda ocasional de jóias

e antiguidades. O marido era exactamente igual, razão pela qual tudo falhara. Mas os netos, pensou Nur com um sorriso, seriam diferentes. Pais burgueses e mães inadequadas

de lado, as crianças ainda tinham nas veias sangue rico, otomano - algo que ela não ia deixar que eles nem ninguém esquecesse.

Nur colocou um pequeno chapéu redondo sobre o farto cabelo esplendorosamente colorido, e, em seguida, pegou na encomenda embrulhada em papel brilhante que se encontrava

em cima do seu toucador. O seu presentinho para o neto, do Centro Comercial Carou-sel, em Bakirkóy - roupas bonitas, escolhidas com gosto e caras. Juntamente com

a maior moeda de ouro que o dinheiro podia comprar, que Muhammed adquirira através da sua habitual e dúbia linha de crédito, estas roupas representavam o futuro

do pequeno Yusuf Izzed-din, que estaria repleto de pessoas e coisas bonitas. Mesmo que o pai fosse polícia.

Com mais um breve sorriso dirigido à sua própria imagem no espelho, Nur deixou o seu quarto e desceu as escadas. O seu Mehmet, outrora encantador e agora de olhos

fundos, encontrava-se no vestíbulo, a agitar nervosamente na mão as chaves do carro, ansioso por regressar ao hospital, para junto do seu filho recém-nascido. À

medida que se aproximava dele, Nur colocou-lhe no rosto uma mão protegida por uma luva. Que terrível, terrível desperdício!

Imediatamente antes de sair para ir buscar a filha, Ikmen recebeu uma perturbadora chamada telefónica. Embora as suas investigações sobre a causa e a forma como

ocorrera a morte de Hatice Ipek ainda não estivessem completas, Arto Sarkissian chegara a algumas conclusões.

-A causa da morte foi um enfarte do miocárdio - disse o médico. - A não ser que eu encontre qualquer indicação do envolvimento de narcóticos, parece que a causa

é natural.

Ikmen franziu a testa.

- Natural, o que queres dizer com isso? - perguntou. - A rapariga tinha sido violada, sodomizada e cortada!

- Sim, mas creio que a morte dela, propriamente dita, não esteve relacionada com isso - respondeu o arménio. - O que eu penso que aconteceu foi que um pequeno coágulo

impediu que o sangue fluísse dentro do coração. Isso provocou a morte de tecido nessa área, o que resultou num ataque cardíaco.

- Mas alguma coisa deve ter causado o coágulo.

- Bem, obviamente, mas pode não ter sido de natureza sinistra. Todos os cortes que o corpo suportou aconteceram depois da morte. E verdade, ela foi atacada, violada

e sofreu ferimentos no decurso da sua provação anterior à morte. Mas não posso dizer que foi isso que a matou. Este tipo de morte súbita é mais comum do que se pensa.

Também não tem a ver com factores relacionados com o estilo de vida, como sejam o estado de saúde, a idade ou ferimentos acidentais. Acontece, simplesmente, e se

eu puder excluir os narcóticos, terei de declarar que a morte dela se deveu a causas naturais.

- Mas é óbvio que ela foi colocada naquela cisterna, Arto - disse Çetin, enquanto verificava os bolsos à procura dos cigarros que sabia que não estavam lá.

- Admito que a morte dela pudesse ter ocorrido no decurso da sua provação sexual, mas, se assim foi, não passou de uma coincidência, Çetin. Estas coisas podem acontecer

em qualquer altura. É possível que os homens que atacaram a menina Ipek tenham pensado que a mataram, e, por isso, decidiram ver-se livres do corpo dela.

Ikmen, perturbado com esta notícia e irritado devido à falta de nicotina, voltou a sentar-se à sua secretária.

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- Sem homicídio e à luz do facto de que a rapariga não era virgem, será difícil até convencer os meus superiores de que nos encontramos perante um caso de violação.



Se o que dizes estiver correcto, tudo o que me resta é agressão física e ocultação ilegal do corpo.

- Eu sei. Mas não posso alterar os factos, por mais desesperante que isso possa ser - disse Arto. - Recolhemos amostras de líquido seminal, que pode ser útil quando

se fizer a comparação com criminosos conhecidos.

- Sim.


- Lamento, Çetin. Ikmen suspirou.

- Não tens culpa nenhuma - disse, voltando a colocar o auscultador do telefone no lugar.

À medida que caminhava de volta ao seu apartamento, depois de parar por breves instantes num quiosque para comprar cigarros, Ikmen pensou no que iria dizer, se é

que iria dizer alguma coisa, à família Ipek e à sua própria filha. A violação de alguém com "certa reputação" era notoriamente difícil de provar e se o violador

não matou a vítima, bem...

Ikmen sabia que Arto não apresentaria as suas descobertas ao comissário Ardiç enquanto não estivesse absolutamente certo dos factos. E o patrão de Ikmen não estava,

ele próprio, suficientemente interessado para andar atrás do patologista. Assim, realmente, havia trabalho a fazer, como de costume, mesmo que a sua confiança em

alcançar uma conclusão satisfatória tivesse sido abalada.

A Hulya que ele levou ao bazar de ouro era muito diferente da rapariga geralmente vestida de calças de ganga que Ikmen tão bem conhecia. Vestindo uma blusa branca

fresca e uma elegante saia direita, ela parecia mais alguém que ia a uma entrevista de emprego do que a adolescente relativamente despreocupada que era. Não que

Ikmen fizesse algum comentário sobre isso. A pobre rapariga já teria muito trabalho a tentar deixar de corar quando visse Berekiah Cohen, sem que o pai acrescentasse

o seu embaraço.

Quando entraram na loja de Lazar, o judeu, foram calorosamente recebidos por aquele cavalheiro idoso que interrompeu imediatamente o que estava a fazer para envolver

Ikmen no seu frágil e trémulo abraço.

- Oh, Çetin Bey, muito honras a nossa humilde casa - disse ele, recorrendo, como era seu costume, a formas de saudação otomanas.

Ikmen, retribuindo-lhe o abraço, sorriu perante a falta de correspondência entre as palavras usadas e a brilhante e rica realidade que os rodeava. Mas Lazar era

mesmo assim.

- Certamente que tomas chá connosco - continuou o homem idoso.

- Claro que sim.

Lazar gritou ao "rapaz" - o seu mais jovem aprendiz e um dos seus netos - que saísse para comprar chá, assim como uma caixa de Haa Bekir lokum. Esta última era para

Hulya, que, como parente feminina de um convidado de honra, justificava só a mais requintada marca de doces turcos. O facto de Hulya prestar, sem razão, muito atenção

ao peso, era algo que Lazar não sabia. A medida que o homem idoso conduzia os Ikmen para a sua sala privada nas traseiras da loja, Çetin sussurrou à filha que ela

devia, talvez, esquecer a sua dieta para não causar ofensa. A rapariga franziu o sobrolho por breves instantes, antes de ceder ao inevitável.

A sala em que se encontravam estava decorada a vermelho - carpetes vermelhas, sofás vermelhos e cortinas vermelhas. Tudo muito confortável, ainda que bastante quente

para as actuais condições climatéricas. Ikmen instalou-se, tirando o casaco enquanto se sentava. Um jovem de olhos ligeiramente tristes entrou, vindo de uma das

salas de trabalho, trazendo um tabuleiro coberto de muitas moedas de ouro de tamanhos diferentes. Por breves instantes, os olhos dele encontraram os de Hulya, que

corou.

- Boa tarde, Berekiah - disse Ikmen. - Vejo que adivinhaste o que eu precisava.



Berekiah Cohen sorriu.

- O nascimento do filho dos Suleyman já foi hoje celebrado muitas vezes nesta humilde casa - disse Lazar, ao mesmo tempo que incitava Berekiah para que saísse da

sala e voltasse ao trabalho.

Ikmen sorriu.

- Felizmente para ti, Lazar - disse ele -, os bebés são um excelente negócio.

- O facto de a criança ser saudável e do sexo masculino é a minha única preocupação. A família precisava de um herdeiro. - O homem

idoso segurava o tabuleiro de moedas para que Ikmen o examinasse. Apontou para uma moeda particularmente grande. - Esta data do reinado do sultão Abdul Mecit. Muhammed

Suleyman Effendi é um dos seus descendentes directos. É, por isso, muito a propósito.

- Sim - Ikmen ergueu uma sobrancelha duvidosa. - E também é extremamente cara.

- Ah, mas Çetin Bey...

- Sou um simples polícia, Lazar. Quer dizer, quero fazer o melhor que puder pela criança, mas...

Se havia alguma coisa que aborrecia realmente Hulya, era o regateio. E porque o pai era tão bom a fazê-lo, ela sabia que a visita poderia levar um tempo enorme,

regado com chá e lokum. Assim, ela podia escapar-se por um bocado. E foi o que fez.

- Olá, Berekiah - disse ao entrar na sala de trabalho.

O jovem levantou o olhar da peça que estava a trabalhar e que envolvia engastar diamantes num anel.

- Olá, Hulya. Como estás?

- Estou bem, obrigada. - Caminhou na direcção dele, reparando, à medida que a luz atravessava o rosto do rapaz, que ele tinha um fino rasto de pó de ouro no nariz.

- O que estás a fazer?

- Estou a engastar um anel para uma senhora que vai casar em breve. - E, apontando com a cabeça para um manequim que se encontrava na sombra, ao canto da sala, disse:

- Tudo deve condizer com aquele vestido que ela vai usar.

Tendo acabado de chegar junto de Berekiah, Hulya não queria realmente afastar-se dele. Mas, uma vez que o rapaz parecia tão interessado na sua actual tarefa, sentiu-se

obrigada a dar pelo menos uma olhadela ao vestido. Quando se aproximou, depois de Berekiah ter ligado a luz por cima do manequim, a rapariga ficou contente por se

ter dado ao trabalho.

O vestido comprido era de cetim branco e forte. Tinha mangas compridas, elaboradamente ornamentadas, feitas em renda. Pequenas rosas brancas cobriam a saia e a estreitíssima

cintura era realçada por um cinto largo de metal, produzindo um efeito maravilhoso.

- É de ouro verdadeiro - disse Berekiah em resposta à pergunta muda de Hulya sobre o cinto.

- A sério?

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O rapaz sorriu.



- O pai da senhora é um homem muito rico.

Hulya passou suavemente os dedos em volta do decote cavado e debruado a renda do vestido e suspirou.

- Oh, como deve ser a sensação de casar com um vestido destes!

- Bem, nunca vais saber, não é verdade? - A voz do pai era tão severa como inesperada.

- Pai!

Ikmen deslocou-se com aquilo que era para ele uma rapidez fora do comum.



- Afasta-te dessa coisa - disse ele, ao mesmo tempo que puxava grosseiramente a filha para longe do manequim, o rosto pálido de algo que parecia fúria.

- De onde veio isto? - perguntou Ikmen a um espantado Lazar que entrara na sala atrás dele.

- O vestido?

- Sim. Onde o arranjaste? A quem pertence? O que...

- Çetin Bey! - Lazar levantou a mão para fazer calar este homem, que parecia, por qualquer razão, estar a delirar. - Não sei de que se trata, mas, a julgar pela

expressão do rosto da tua filha, perturbaste-a consideravelmente. A rapariga não estava a fazer mal nenhum ao vestido.

- Ela nem lhe tocou, Çetin Bey - disse Berekiah. - Estava só a ver.

Hulya, que tinha, de facto, uma expressão de choque estampada no rosto, sorriu por dentro. Berekiah tinha, de uma forma mínima, enganado o pai dela para a defender.

Que alegria!

Ikmen, a raiva aparente agora gasta, acalmou-se subitamente, enquanto continuava a olhar para o vestido.

- Desculpa, Lazar - disse, ao mesmo tempo que abanava a cabeça devagar. - É que foi um choque para mim.

- O quê?


Ikmen estendeu uma mão na direcção do manequim.

- Isto - disse. - O modelo e até alguns pormenores são quase exactamente os mesmos de um vestido que vi há pouco tempo no corpo de uma mulher morta, uma vítima.

- Ah, a rapariga Ipek...

90

Sem saber realmente por que motivo é que ele chegara a tentar manter o seu trabalho confidencial nesta cidade de doze milhões de bisbilhoteiros insaciáveis, Ikmen



limitou-se a concordar com um encolher de ombros, colocando depois uma mão por breves instantes no ombro da filha. O facto de se ter falado em Hatice fez com que

ela ficasse mais uma vez com os olhos húmidos.

- Podes dizer-me alguma coisa sobre o vestido? - perguntou Ikmen a Lazar.

- O modelo é otomano - disse o homem idoso, aproximando-se do manequim e pegando numa das delicadas mangas. - Este é baseado num vestido de casamento do século XIX,

usado, imagino, por uma senhora da realeza ou da nobreza e constante de alguma descrição. Estamos a fazer jóias no mesmo estilo para uma senhora rica que, no seu

casamento, deseja parecer uma princesa otomana.

- Sabes onde é que ela comprou o vestido? Lazar esboçou um sorriso lento e astuto.

- Sim. Como espero que também saibas, Çetin Bey, sendo natural de Úskúdar como és.

De início, Ikmen franziu o sobrolho. O que tinha um vestido tão magnífico a ver com o bairro de classe trabalhadora em que ele fora criado? Era mais natural que

as pessoas de lá estivessem mais interessadas em fatos baratos e fatos-macaco do que em vestidos magníficos feitos de tecido caro. Mas depois, continuando a olhar

para os olhos inteligentes e divertidos de Lazar, lembrou-se.

- Estamos a falar das irmãs Heper? - perguntou. Lazar sorriu ainda mais francamente.

- As filhas do general Heper, de facto, não têm par - disse ele.

- A cegueira da menina Muazzez não parece afectar a qualidade da sua costura, que continua a parecer que foi feita à máquina. Aquelas mulheres são verdadeiramente

extraordinárias.

- E embora eu saiba que elas jamais o admitiriam, são, é claro, produto das antigas maneiras otomanas, não são? - Ikmen suspirou.

- Devia ter pensado nelas antes.

- Mas tinhas a cabeça cheia de moedas de ouro e pequenos príncipes e todos os géneros de outras coisas por resolver. - Lazar colocou um braço em volta dos ombros

de Ikmen e conduziu-o de volta à sua sala privada. - As irmãs Heper estão velhas, e, por isso, não

91

podem ir a lado nenhum, Çetin Bey. As minhas moedas exóticas, no entanto...



Os dois jovens observaram os dois homens a saírem da sala de trabalho. Hulya passou uma mão pelo rosto para limpar alguma lágrima perdida. Em seguida, fixou os olhos

no chão.


- Imagino - disse Berekiah, ao mesmo tempo que se aproximava mais um pouco dela - que essa menina Ipek era tua conhecida.

- Era a minha melhor amiga.

Ele estendeu a mão e pegou-lhe apenas na ponta dos dedos.

- Lamento, Hulya - disse o rapaz. - A sério.

Ela sorriu, à medida que o som cacofónico de numerosas sirenas da polícia tornava a conversa impossível.

Metin Iskender não era o tipo de polícia que se deixasse impressionar facilmente pela celebridade. Fora promovido a inspector ainda muito novo, e, embora tivesse

apenas vinte e nove anos, lidara com algumas pessoas ricas e famosas durante o tempo que tinha de serviço. O facto de ter uma esposa com uma carreira de sucesso

na área das publicações também ajudava - Belkis Iskender era o género de mulher que gostava de conviver com os seus clientes, e com o marido, em restaurantes extremamente

elegantes. E assim, quando ele se sentou com Hikmet Sivas e o irmão Vedat, Iskender comportou-se bastante mais "normalmente" do que a estrela de cinema podia ter

esperado.

- Para além de si próprio, a sua esposa tinha outros contactos na Turquia? - perguntou, fascinado pela expressão de horror do rosto de Hikmet, ao observar o estado

sombrio da sala de interrogatórios.

- Não.

- Para além do seu irmão, mais alguém sabia que estavam de visita à Turquia?



- Só a nossa irmã, Hale, e o meu filho - apressou-se a dizer Vedat. - Hikmet e Kaycee vieram numa visita particular, à família.

Hikmet olhou para o irmão, o rosto pálido de ansiedade.

- Sim - disse. - Uma visita à família. Sim.

Em comum com muitas vítimas de crime, Hikmet Sivas estava a comportar-se como se estivesse a sonhar, respondendo às perguntas de uma forma automática, olhando distraidamente

em redor, como se

92

tivesse acabado de recuperar o poder da visão. Os sintomas físicos do choque também estavam presentes: a forma como ele tremia naquele calor de quarenta e cinco



graus e a palidez do seu rosto.

Iskender ajustou a gravata ao pescoço para que lhe assentasse de uma forma mais elegante. Bem-parecido, o inspector gostava de destruir o mito de que todos os agentes

da polícia eram, por definição, despenteados. Juntamente com Mehmet Suleyman, e, em menor escala, Orhan Tepe, ele representava o rosto mais moderno e profissional

das forças policiais urbanas.

- Da nossa conversa anterior - disse, dirigindo-se a Hikmet Sivas -, depreendo que não vive aqui no nosso país há muitos anos.

- Não.


- Agora o meu irmão é americano - disse Vedat com muito mais orgulho na voz do que Iskender gostaria de ter ouvido.

- Estou a ver. No entanto, terei de lhe perguntar se tem inimigos neste país, senhor Sivas. Pessoas que possam desejar prejudicá-lo ou manipulá-lo através da sua

esposa.

- Não, não tem.

Iskender dirigiu a Vedat um olhar carrancudo.

- Preferia que fosse o seu irmão a responder à pergunta - disse, tornando a virar-se para Hikmet. - Então?

Hikmet, agora de cabeça baixa, o queixo apoiado na pele vermelha do peito, murmurou.

- Não.


- Tem a certeza?

- Sim.


- E na América? O senhor ou a sua esposa têm inimigos lá? Pela primeira vez no decurso do interrogatório, Hikmet Sivas

olhou realmente para os olhos bonitos e imóveis de Metin Iskender. Aqui estava um homem, sentia ele, que abordava a sua vida profissional com uma completa falta

de emoção. O que ele estava agora a fazer, a abrir uma investigação relacionada com o rapto de uma mulher jovem e bonita adorada pelo marido, não passava de uma

tarefa como outra qualquer. Haveria de querer recuperar Kaycee para que se visse que desempenhava bem a sua profissão, mas isso era tudo. Não havia empatia naqueles

frios olhos pretos dele. Lembravam Hikmet de alguns dos olhos que vira nos rostos de pequenas estrelas de estúdio

93

com quem ele trabalhara anos antes - mulheres que se deitavam com muita gente para conseguirem papéis em filmes horríveis mas lucrativos. Apesar de tudo, Hikmet



forçou um sorriso ao mesmo tempo que respondia à pergunta de Iskender.

- Posso ser velho, inspector - disse -, mas ainda sou uma estrela de cinema de Hollywood. Coloque-se bem alto, num ecrã gigante em frente de milhões de pessoas,

e a maior parte delas vai gostar de si. Mas algumas não. Algumas terão inveja, algumas não gostarão simplesmente de si, algumas detestá-lo-ão. Algumas gostarão até

de mais de si a ponto de o apunhalarem.

- Isso alguma vez lhe aconteceu, ou à sua esposa?

- O quê? Ser apunhalado? - Hikmet Sivas encolheu os ombros. - Há anos andava um homem a rondar a minha casa, queria falar comigo, usava as mesmas roupas que eu,

dizia que me amava... - Levantou o olhar para verificar se isso chocava o polícia turco ou não. Mas os olhos frios não deixaram transparecer nada. - Foi levado para

um hospital psiquiátrico. Ainda lá está, tanto quanto eu sei.

Iskender recostou-se na sua cadeira e respirou fundo. Para além do facto de Kaycee Sivas ter sido raptada numa parte da cidade em que uma em cada duas pessoas vivia

para além dos limites do que era estritamente legal, havia pouca matéria para continuar. Previsivelmente, o jovem agente que chegara logo após o incidente não conseguira

encontrar quaisquer testemunhas entre a multidão que se empurrava, e que, na sua maioria, falava russo. Ninguém entrara na loja de cabedais para a qual Sivas, que

agora já não tinha, ele próprio, tanta certeza disso, sentira que a mulher fora levada. E mesmo que Iskender tivesse uma sensação muito profunda de que estes homens

não lhe estavam a dizer tudo o que precisava de saber, não poderia prová-lo. Observou os irmãos Sivas com um olho crítico. O seu superior, porém, ao entrar na sala,

não revelava nada para além de admiração perante a conhecida estrela. Um homem corpulento, cujo rosto muito corado apenas apontava para a vermelhidão natural do

seu carácter; quase que tropeçou nos próprios pés, ao apresentar-se nervosamente a Hikmet Sivas.

- É realmente uma honra, ainda que tenha o triste dever de o servir, senhor Sivas - disse o homem, ao mesmo tempo que pegava na mão da estrela e a abanava entusiasticamente.

Estamos prontos para receber as suas ordens.

94 - Obrigado.

- E, por favor, permita que lhe assegure que não serão poupados esforços para localizar a sua esposa e trazê-la de volta em segurança - e, em seguida, olhando Iskender

de lado, disse: - Não é assim, inspector?

Iskender, agora em sentido, disse:

- Sim, comissário.

- Agradeço a sua preocupação - Hikmet Sivas sorriu.

- Oh, é uma honra, senhor Sivas, uma honra! Os homens sob o meu comando não descansarão enquanto esta terrível mancha sobre a integridade da nossa cidade não for

esclarecida.

- Obrigado.

-Não tem de quê.-Virou-se para Iskender e disse:

- Se já terminou, vou levar o senhor Sivas e o irmão lá para cima, para o meu gabinete.

Iskender esboçou um sorriso breve para manifestar a sua concordância. Lá para cima, para o gabinete de Ardiç, para receberem um chá e cigarros de melhor qualidade,

sem dúvida. Que diferente da forma como estas coisas se processavam com o homem comum! Fama e dinheiro, dinheiro e fama... Assim que a estrela e o irmão saíram da

sala, Iskender retirou as suas notas de cima da mesa e começou a encaminhar-se para a saída, também.

Mas, à porta, deparou com a ampla estatura do seu chefe. Rapidamente, como que a verificar se alguém estava à escuta, Ardiç olhou para trás, antes de sussurrar a

Iskender:

- Entre em contacto com o quartel-general em Ancara e informe-os. Isto é uma questão internacional, eles têm de saber. E depois descubra-a, inspector, antes que

Ancara pense sequer em exercer pressão. Destrua Beyazit, se tiver de ser, mas descubra-a.

Nesse fim de tarde, quando Ikmen e Hukya regressaram ao apartamento, Búlent já tinha saído. Embora estivesse cansado e ligeiramente aborrecido consigo próprio por

ter gasto tanto dinheiro naquilo que era, admitia, uma moeda de ouro muito bonita, Ikmen decidiu que chegara a altura de falar com Hulya sobre Hatice. Armados de,

no caso de Ikmen, uma garrafa de cerveja EfesPilsen, e, no de Hulya, uma

95

Coca-Cola, foram sentar-se os dois na varanda, agora a ficar coberta pela noite.



- Quer dizer que tens a certeza de que, até ao serão em que morreu, Hatice não te falou nessa oportunidade de ir dançar? - perguntou Ikmen.

- Não, pai, não falou - Hulya baixou o olhar para o copo, uma expressão séria no rosto.

- E quando falou nisso, não mencionou Hassan Seker?

- Não.


- Quer dizer que, na tua opinião, ele não teve nada a ver com essa história da dança.

- Não sei - Hulya levantou o olhar, os olhos apenas ligeiramente vítreos. - Mas penso que Hassan Bey não teria feito nada que a magoasse. Ela gostava realmente dele.

Ele não a teria violado.

- Ah... - Ikmen desviou o olhar.

- O quê?

- Bem, Hulya, sabemos que Hatice tinha tido antes relações sexuais com Hassan Bey.

- Não estás a dizer que, porque ela não era uma "boa" rapariga antes, não podia ter sido violada, pois não?

Ikmen tomou um gole da sua garrafa antes de responder.

- Não, não estou. Mas isso é o que muita gente irá pensar.

- Quem, homens velhos e pessoas religiosas? - Hulya esboçou um sorriso de escárnio. - Não me importa o que eles pensam!

- Não, mas... - Ikmen acendeu um cigarro, soltando um suspiro. - Olha, Hulya, há mais uma coisa.

- O quê?


- Embora este homem ou estes homens tenham, sem dúvida, magoado a tua amiga e tenham tido relações com ela, sabemos agora que, de facto, não a mataram.

Hulya franziu o sobrolho.

- O que queres dizer com isso?

Ikmen disse à filha o que Arto Sarkissian lhe tinha explicado sobre a natureza e a causa provável da morte de Hatice Ipek. Enquanto falava, reparou que a expressão

dela endureceu, parecendo quase envelhecer, à medida que ela interiorizava as implicações do que ele estava a dizer.

96

No final da exposição, ela disse:



- Mas, pai, é claro que, mesmo que Hatice tenha morrido de causas naturais, mesmo assim terás de descobrir esses homens horríveis!

- Bem, é claro que sim - respondeu Ikmen. - Mas o que eu estou a dizer, Hulya, é que, mesmo que eu os descubra, não me parece provável que eles possam ser julgados

por homicídio, e provar que uma rapariga solteira que não era virgem não estava disposta...

- Eles magoaram-na, pai!

- Sim, querida, eu sei.

- E então?

- Hulya, presta atenção - Ikmen, nervoso, engoliu em seco. - Sei que te é difícil compreender, mas algumas pessoas gostam de dor...

- Os homens gostam de dor, não as mulheres! - disse Hulya bruscamente, furiosa. - Os homens batem nas esposas e forçam as mulheres a ter relações com eles, e a lei

protege-os! - A rapariga baixou os olhos para o chão. - Tu não, não me refiro a ti.

- Todas as coisas de que falas são contra a lei, Hulya - começou Ikmen -, mas...

- As mulheres têm de ser "boas" mulheres se quiserem realmente justiça!

- Não - Ikmen pigarreou -, mas a opinião daqueles que se intitulam de moralistas têm poder. Uma vez que sejam conhecidos todos os factos, algumas pessoas sentirão

pouca simpatia por Hatice. E, embora eu, tal como prometi, acabe por encontrar esses homens e os leve perante a justiça, o castigo deles pode não ser tão pesado

como eu gostaria que fosse. Se eles não a mataram, se o advogado deles convencer o juiz de que ela consentiu em ter relações sexuais com eles...

Ficaram sentados em silêncio por algum tempo, entregues aos seus próprios pensamentos. Finalmente, Hulya falou.

- Sabes, pai - disse ela calmamente -, falar sobre isto faz com que me pergunte a mim mesma se será possível que homens e mulheres sejam iguais neste país, quando

algumas pessoas pensam que as raparigas têm de ser "boas", ao passo que os homens podem fazer o que quiserem.

Ikmen sorriu tristemente.

- Eu sei - disse -, mas nem toda a gente pensa assim. Eu não penso. Como sabes, fazia parte da missão do nosso Ghazi Mustafá

97

Kemal dar liberdade às mulheres para atingirem o seu potencial. Mas algumas pessoas, algumas mulheres até, acreditam que a liberdade só pode ser conseguida através



da submissão aos homens e a...

- Alá? - Hulya abanou a cabeça. - Sabes que eu penso que a religião é horrível, pai. A doutora Halman uma vez contou-me que, na Irlanda, quando ela era jovem, as

mulheres não podiam fazer abortos mesmo que estivessem muito doentes, por causa da religião. Não sei como é que a mãe consegue tolerar a religião. Ela não é estúpida,

pois não?

Ikmen riu.

- Não, não é - disse -, e por isso é que ela só presta atenção aos pedaços do Islão que lhe agradam. As mulheres turcas, na generalidade, são muito sensíveis, Hulya.

Tal como a tua mãe, muitas delas rezam, ficam em casa a cuidar da família e governam os seus lares como imperatrizes. Se reparares, eu desafio a tua mãe apenas em

relação a questões muito importantes que têm a ver com os filhos, e só isso. Ela governa-me e pode votar tal como eu, também.

- Sim, mas, pai, se a República não tiver uma religião, e dizem-nos que não tem...

- Olha, Huya - disse Ikmen com ar sério -, sem saber como, estamos a entrar em política. Eu não queria, mas... As democracias só se esforçam por atingir os ideais

inerentes a essa palavra. Nenhum lugar, creio eu, é verdadeiramente democrático. Mas uma coisa que os que se dizem democratas têm de fazer é ouvir e aceitar muitas

ideias diferentes. As pessoas religiosas, os moralistas seculares, eu próprio, todos temos a nossa opinião.

- Sim, mas... e se eu não gostar de uma determinada opinião?

- Nesse caso, quando chegar a altura, votas num partido que se oponha a essa opinião - disse Ikmen.

- Sim, mas e se...

- Olha, se não gostares de alguma coisa, opões-te a ela da forma que achares correcta. Eu oponho-me àquilo que algumas pessoas possam pensar de Hatice e vou lutar,

dentro da lei, para provar que aqueles que a atacaram são perigosos e merecedores de castigo. O que eu não posso fazer é mudar o que os outros pensam ou evitar o

efeito que isso eventualmente possa ter na minha investigação.

- Mas...

98

- Mas se alguém me tentar convencer de que não vale a pena prosseguir com este caso, vou lutar, e, se não puder continuar, perseguirei os violadores de Hatice no



meu tempo livre. - Ikmen apagou o cigarro e bebeu mais um gole da sua garrafa. Hulya, que estivera a observar como o rosto do pai endurecera com a força da sua convicção,

estendeu a mão e pegou-lhe na mão livre.

CAPÍTULO OITO

Alguma coisa de grande estava a acontecer - alguma coisa que não tinha nada a ver com a investigação da morte de Hatice Ipek. Tepe estava satisfeito. A última coisa

de que ele precisava era de que o agente Yildiz o interrogasse logo de manhãzinha. Especialmente porque as perguntas envolviam acontecimentos recentes na pastani

de Sul-tanahmet.

- Quer dizer que viste Ekrem e Celal Múren e um dos rapazes deles na pastani. E depois?

- Estavam a falar com a mulher de Seker - disse Yildiz. Tepe encolheu os ombros.

- E depois? Ouviste o que eles lhe estavam a dizer? Estavam a ameaçá-la?

- Bem, na verdade, não ouvi...

- Nesse caso, não te preocupes com isso - disse Tepe. Nessa altura, deixara Yildiz, que ainda parecia muito inseguro.

Contudo, agora, tanto ele como Yildiz tinham outras coisas em que pensar. Ardiç chamara-os a todos para falar do facto de que o bairro de Beyazit fora praticamente

arrasado durante a noite. Pelo menos era o rumor que corria. Por que é que isso acontecera, ninguém sabia ou não estava preparado para dizer, a não ser que se tratava

de alguma coisa de "grande".

Quando Tepe entrou na sala da esquadra, tanto o nível de actividade como o barulho diziam-lhe que Ardiç ainda não chegara. Nem Ikmen, tanto quanto ele via. Após

um breve aceno de cabeça a Ayse

100 101

Farsakoglu, Tepe pegou num jornal abandonado e instalou-se num

canto da sala.

Geralmente as pessoas não se sentavam no gabinete do comissário Ardiç - a não ser que ele as convidasse a fazê-lo. Todavia, nesta ocasião, ele estava preparado para

fazer uma excepção. E assim, quando um Metin Iskender pálido e de ar cansado entrou no seu gabinete e se sentou sem ser convidado, Ardiç não fez qualquer comentário.

Afinal, o homem tinha estado a pé toda a noite, abrindo caminho com gritos e ameaças através dos bordéis ilegais, antros de marginais e transacções de droga em caves

do bairro de Beyazit. Curiosamente, não conseguira localizar Kaycee Sivas nem sequer adquirir qualquer informação sobre uma bela americana anónima. Mas ele e os

seus homens tinham prendido várias pessoas procuradas por outros delitos e ainda se tinham apoderado de uma quantidade de cocaína. Como sempre, Iskender atirara-se

ao trabalho com determinação.

Quase imediatamente após a chegada de Iskender, apareceu Ikmen. Parecia inquieto, e Ardiç desconfiava que, antes que a reunião< terminasse, ele ainda iria ficar

mais preocupado. A medida que Ikmen, seguindo o exemplo de Iskender, se sentava na presença do comissário, Ardiç pensava como poderia evitar um confronto com o seu

detective mais experiente e mais bem sucedido. Basicamente não podia, mas, primeiro, precisava de colocar Ikmen ao corrente dos acontecimentos, e, assim, optou por

fazê-lo antes de entrar em quaisquer pormenores desconfortáveis.

- Como sabes, Ikmen - disse ele -, ordenei que todos os agentes disponíveis se reunissem lá em baixo.

- Presumivelmente é sobre o que aconteceu em Beyazit ontem à noite - respondeu Ikmen, que, virando-se para Iskender, disse: - Um acontecimento e tanto, pelo que

vejo.


Iskender fungou e desviou a cabeça. Conhecia bem o desagrado de Ikmen em relação a operações de grande envergadura e violentos que, sentia o homem mais velho, apenas

serviam para levar os criminosos mais experimentados a esconderem-se melhor.

Ardiç, ignorando a tensão entre os seus dois inspectores, continuou:

- Ontem à noite, Ikmen, tudo aquilo foi uma tentativa nossa para localizar uma vítima de rapto. - E passou-lhe por cima da secretária uma fotografia de uma jovem

loira e esbelta. - Kaycee Sivas foi raptada do carro do cunhado, ontem, aproximadamente às quatro e quarenta e cinco da tarde. Aconteceu no exterior da Boutique

de Cabedal e Antiguidades, na Fetihbey Caddesi.

- Que fica em Beyazit.

- Que fica em Beyazit - Ardiç fez uma pausa para acender um charuto. - Uma zona a que não é estranha a actividade criminosa, incluindo o rapto. No entanto, o que

faz com que este rapto seja um pouco diferente é o facto de a mulher envolvida ser americana. É também esposa da estrela de cinema de Hollywood, Hikmet Sivas, ou

Ali Bey, como lhe chamavam. O marido estava no carro, juntamente com o irmão deste, quando a senhora Sivas foi arrastada do veículo. Segundo Sivas, estiveram envolvidos

dois, talvez três homens. Puxaram a senhora Sivas do carro e desapareceram na multidão.

Iskender virou-se para enfrentar Ikmen.

- Não ficará surpreendido ao saber que ninguém viu nem ouviu nada - disse.

Ikmen fez uma careta. Ardiç pigarreou.

- Ora, como podes imaginar, Ikmen, isto é uma grande notícia - disse ele. - Ainda não rebentou, mas não há-de faltar muito, e, quando isso acontecer, precisamos

de estar preparados. Beyazit, como sabes, foi alvo de considerável atenção da nossa parte durante a noite, mas, até agora, ainda não conseguimos nada. Eu, já para

não falar dos nossos chefes na capital, quero esta mulher encontrada. Não quero desculpas, nem que se poupem despesas, e quero todos os agentes disponíveis a trabalhar

no caso.


- Mas eu já estou a trabalhar num caso, comissário. Hatice Ipek...

- Que, segundo o doutor Sarkissian me diz, morreu de causas naturais - contrapôs Ardiç. - Sim, Ikmen, eu sei. Telefonei-lhe esta manhã para saber se a rapariga tinha

sido assassinada. Precisava de descobrir se estavas livre para dirigir esta nova investigação juntamente com o inspector Iskender.

Ikmen abriu a boca para falar, mas foi silenciado quando Ardiç levantou uma das suas grandes mãos.

102 103

- A rapariga morreu de causas naturais, Ikmen, não houve homicídio. Por isso, estás livre para ajudar a encontrar Kaycee Sivas.

- Mas, comissário, com homicídio ou sem homicídio, a rapariga foi brutalmente violada, cortada e sodomizada, e o corpo foi escondido depois da morte. Foi cometido

um crime.

- Sim, mas não um homicídio! - Ardiç deslocou o seu amplo traseiro agitadamente no assento. Por que não podia simplesmente começar a fazer aquilo que lhe diziam,

sem toda esta discussão?! Ora, se formos a isso, será que ele próprio discutiu com Ikmen?

- Olha, Ikmen - disse o comissário -, a rapariga Ipek não era, nós sabemos, uma rapariga "às direitas". Jovem como era, não era virgem. Tanto quanto sabemos, gostava

de brutalidade.

- O doutor Sarkissian pensa que havia vários homens.

- Alguns homens pagarão bom dinheiro por sexo violento. Correu mal. A profanação do cadáver e o facto de ter sido escondido dizem-nos isso. É claro que penso que

quem quer que tenha feito isso precisa de ser apanhado e castigado, mas se a rapariga, de qualquer maneira, tinha relações sexuais...

- Comissário, não acredito que ela tenha consentido. O local em que foi encontrada, as roupas que usava...

- Vais juntar-te ao inspector Iskender na busca de Kaycee Sivas e ponto final! - gritou Ardiç, agora irritado até à fúria.

Ikmen pôs-se em pé de um salto.

- Ah, estou a ver. E que devo eu dizer à senhora Ipek? O que devo dizer aos chorosos parentes e amigos de Hatice? A vossa menina era uma puta e mereceu tudo o que

lhe fizeram?

- No ponto e que as coisas estão, quando regressar ao serviço, o inspector Suleyman será destacado para o caso Ipek.

Ikmen abananou a cabeça, incrédulo.

- O inspector Suleyman não estará de volta esta semana, comissário.

- Eu sei disso, Ikmen.

- E nessa altura...

- Cala a boca, senão calo-ta eu! Este caso é a minha prioridade agora! Este caso envolve alguém que, se tivermos muita sorte, ainda pode estar vivo! - Agora de pé,

Ardiç apontava o fumacento charuto directamente ao rosto de Ikmen. - Vais cumprir o teu dever da forma

que eu mandar e vais apoiar-me quando formos lá abaixo falar com os meus homens. - E, transferindo o olhar do rosto furioso de Ikmen para as feições passivas de

Iskender, disse: - Se quiser ir dizer-lhes que já vamos a caminho, faça favor, inspector. Aborrecido, Iskender aprumou-se.

- Sim, comissário.

Depois de Iskender ter saído e ter fechado a porta atrás de si, Ardiç caminhou na direcção de Ikmen. Pegando grosseiramente nos ombros de Ikmen com as mãos carnudas,

segurou-o com força, enquanto lhe dizia:

- É claro que a verdade é que penso que Iskender não consegue fazer isto sem ti, Ikmen.

Çetin Ikmen não era homem que se deixasse levar facilmente pela lisonja e, em resposta, limitou-se a resfolegar.

- Ele é muito jovem, pode ser impulsivo e os modos dele não são nada meigos.

Sabendo que não ia chegar a lado nenhum com esta linha de argumento em particular, Ardiç sentou-se novamente e fixou os olhos no chão. Foi nesta altura que adoptou

o seu tom mais natural.

- Mas o que Iskender sabe mesmo é que Hikmet Sivas está a esconder alguma coisa. Não sabe o que é...

- Então como é que ele sabe que ele está a esconder alguma coisa? - perguntou Ikmen. - Tem algum pressentimento, uma intuição?

- Não sei, Ikmen -, disse Ardiç, ao mesmo tempo que reunia tudo o que precisava para a reunião. - O facto é que o irmão do senhor Sivas tentou mesmo impedi-lo de

falar com o nosso agente no local. Um pouco estranho, sinto eu. Talvez se tu próprio falasses com o senhor Sivas e com o irmão...

Ikmen sabia exactamente o que o seu superior estava a tentar fazer - espicaçar-lhe o interesse - e fora o que Ardiç fizera. Ikmen sabia que Iskender não era do tipo

de ceder assim facilmente a sensações viscerais, mas tinha de as ter, como acontecia com todos os agentes, de vez em quando. Não que isso fosse relevante; Ikmen

sabia que tinha de se envolver neste caso, quer quisesse ou não. Provavelmente era melhor fingir que caíra no desajeitado estratagema de Ardiç. Depois, quando saísse

de serviço, podia fazer o que lhe apetecesse, de preferência

104


sem perguntas da parte de Ardiç. Desta forma podia ser possível continuar a investigar a morte de Hatice e descobrir Kaycee Sivas também. Quando iria dormir, não

sabia, mas resolveria isso noutra altura. O importante era descobrir quem atacara Hatice e porquê. Ele fizera uma promessa tanto a Húrrem Ipek como à sua própria

filha, e, com ou sem americana rica, ia honrar essa promessa.

Assim, Ikmen sorriu a Ardiç e disse que iria falar com a família Sivas assim que a reunião terminasse. Tivera uma discussão, acalmara-se e fora apaziguado por um

homem que pensava que o tinha sob o seu controlo. E, à medida que Ardiç saía da sala seguido, respeitosamente, por Ikmen, o comissário sentia, de facto, que tinha

ganho. Mas isto, ou melhor, situações como esta, já tinham acontecido antes - situações após as quais Ikmen se afastara e fizera na mesma o que queria fazer. Assim,

só para cobrir tal eventualidade, Ardiç tomou, na verdade, a precaução de se virar para Ikmen mais uma vez, imediatamente antes de chegarem ao seu destino.

Zelfa baixou o olhar para o bebé que dormia pacificamente nos seus braços e não sentiu nada a não ser desespero. Sim, via que o menino era bonito e, sim, estava

espantada por ter sido capaz de produzir um bebé tão perfeito, embora tardio. Mas não sentia nada por ele. Ele estava ali de uma forma muito parecida à do tubo que

drenava líquido do local em que tinha sido operada - algo produzido pelo hospital e que fazia parte dele. Quando saísse, Zelfa sabia que o pequeno Yusuf Izzeddin,

ao contrário do tubo, iria com ela. Mas ela não queria realmente que ele fosse. A barriga dela, que nunca fora exactamente lisa, parecia agora um enorme balão esvaziado,

flácido e cheio de rugas. Nas poucas ocasiões em que lhe permitiram sair da cama - aqui eram muito antiquados no que dizia respeito ao descanso na cama - ela sentira

a barriga a bater contra a parte de cima das pernas, todas sem energia e escorregadias de suor.

E fora ele, Yusuf Izzeddin, o seu bebé, que fizera isto. É claro que a parte lógica dela sabia que não fora. Como médica e como mulher, ela sabia que ela e o marido

é que lhe tinham, na realidade, feito isto. Mas não podia culpar Mehmet porque o amava, e, quanto a culpar-se a si própria, bem, isso era pensar erradamente, não

era? A auto-responsabilização

105

não fazia qualquer sentido, era inútil - ela sempre dizia aos seus pacientes que não deveriam perder tempo com isso. Passou-lhe pela cabeça que talvez isto fosse



depressão pós-parto, mas, mal o pensamento lhe surgiu, Zelfa pô-lo de parte. Dignificar o que sentia com o estatuto de um estado clínico nesta fase inicial da maternidade

era absurdo. E, no entanto, não havia dúvida de que estava infeliz. Embora conseguisse controlar-se sempre que o marido se encontrava com ela, assim que ele se ia

embora, ela mergulhava num choro muitas vezes incontrolável. O pai estava a par dos sentimentos dela, mas, o que ele achava estranho, não ajudou muito Zelfa. Mas,

provavelmente, as tias eram culpadas disso.

Babur Halman tinha duas irmãs, Alev e Zehra, ambas mais velhas e muito mais descaradas do que o irmão. Governadas pela tradição e pelos costumes religiosos que Bubur

tinha, em grande parte, perdido ou esquecido ao longo dos anos em que vivera e trabalhara na Irlanda, Alev e Zehra não tinham perdido tempo e logo aconselharam Zelfa

em relação à "forma certa" de cuidar de bebés. Para além de temperaturas superiores a quarenta e cinco graus, a criança precisava de ser mantida longe de correntes

de ar e enfaixada da forma mais apertada possível. Isto, sem que Zelfa fosse consultada, foi o que as duas irmãs fizeram, lembrando, ao mesmo tempo, a sobrinha de

que quando, finalmente, saísse do hospital, teria de permanecer em casa com o pequeno Yusuf Izzeddin durante, pelo menos, um mês. Os bebés eram vulneráveis a todos

os tipos de forças do mal durante os primeiros quarenta dias de vida.

E o pai de Zelfa, pediatra, não dizia nada. Mesmo quando aquela velha cabra horrível da sogra lembrava a Zelfa que o anúncio do nascimento de Yusuf Izzeddin nos

jornais deveria ser discreto e fino, ela sabia o que se encontrava entre linhas. A ostentação atraía o "mau-olhado", que podia trazer azar à criança. Nur Suleyman

não passava, afinal, de uma mulher de origem camponesa, e, como Alev e Zehra, acreditava nestas práticas ridículas. Babur Halman, porém, era letrado, viajado e informado,

por isso não tinha desculpa, e Zelfa estava muito zangada com ele.

Se as coisas não mudassem em breve, Zelfa sabia que, provavelmente, teria de começar a tomar antidepressivos. Não queria, mas, mesmo com tudo por que estava a passar,

o seu lado profissional reconhecia que isso poderia ser essencial. De forma a permitir que os seus

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sentimentos em relação ao bebé evoluíssem, ela precisava de estar relaxada, o que não era fácil com pessoas em volta e em ambientes que não eram os seus. Embora



tivesse vivido e trabalhado no país do pai durante os últimos treze anos, Zelfa, ou Bridget, como lhe chamavam em casa, era, contudo, irlandesa de coração. E, como

tal, não queria saber de "maus-olhados", nem de enfaixes, nem sequer do descanso forçado na cama de que actualmente estava a "sofrer". Mas tinha de ser muito forte

quando a Irlanda lhe vinha à mente, por isso afastou todos os pensamentos com isso relacionados. Se não o fizesse, sabia que arrancaria simplesmente o tubo da barriga

e iria directamente para lá agora - provavelmente sem o pequeno Yusuf Izzeddin. Pobre principezinho. Zelfa começou a chorar de novo.

- Senhor Sivas, tenho a máxima confiança nas capacidades do sargento Çòktin como negociador - disse Ikmen, cáustico. - E se isso o deixa mais descansado, posso dizer-lhe

que os métodos que ele utiliza são semelhantes aos que o FBI usa. Sei o valor que vocês, americanos, dão às vossas próprias instituições.

Sublinhou a palavra "americanos", que pareceu perder-se em Hik-met Sivas. Claramente abalado com os acontecimentos das últimas vinte e quatro horas, caminhava de

um lado para o outro na sua sala, agora cheia de fumo, fumando cigarro atrás de cigarro e explodindo, de vez em quando, de raiva impotente.

- Mas quem quer que tenha a minha mulher em seu poder não me vai contactar se souber que você está aqui - disse ele, murmurando, em seguida, mais para si próprio

do que para outra pessoa: - Eu devia ter dado ouvidos a Vedat. Nunca me devia ter aproximado daquele agente.

- Sim, mas aproximou-se, não é verdade, senhor Sivas? - disse Ikmen. - Concordo que quem quer que tenha a sua esposa deve saber que o senhor nos contactou. Mas se

o plano era trocar a senhora Sivas por dinheiro, nesse caso não vejo que isso possa ter mudado. Os raptores pensam sempre que conseguem ser mais espertos do que

nós, e, por isso, tenho confiança em que eles o contactarão.

Enquanto aceitava que Iskender fora cuidadoso ao usar outros pretextos durante a rusga efectuada em Beyazit, Ikmen não estava

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contente - embora nunca o dissesse a Hilmet Sivas. Os responsáveis pelo rapto saberiam por que motivo Beyazit fora virado do avesso. Istambul, como ele tão bem sabia,



podia ser, por vezes, uma cidade muito pequena, especialmente no seio da fraternidade criminosa. Ele não teria lidado com o problema da forma que Iskender o fizera.

No entanto, e apesar disso, ele ainda estava confiante de que, se o dinheiro fosse o motivo, quem quer que tivesse Kaycee em seu poder haveria de telefonar. Se não,

se estivesse envolvido um elemento ainda por descobrir, poderia ser um problema. Segundo Çóktin, Hikmet Sivas não fora a vítima de crime mais colaboradora que ele

alguma vez vira, e continuava a exibir alguma resistência aos esforços do jovem agente.

- Então, senhor Sivas - disse Ikmen, juntando-se à estrela de cinema na sua pesada sessão de fumo -, há alguma outra razão, para além do dinheiro, de que se lembre

para explicar o desaparecimento da sua esposa?

- Já lhe disse a ele que não! - explodiu Sivas, apontando para Çóktin, que estava sentado ao lado da extensão do telefone que estava agora ligada ao equipamento

de gravação.

- O seu irmão tentou impedi-lo de falar com o nosso agente no local.

- Porque estava assustado! - gritou a estrela. - Eu também já vos disse isso!

Ikmen encolheu os ombros. Hikmet Sivas não era como ele imaginara. Não era tão alto como aparentava no ecrã, parecia bem conservado para a idade, mas isso era tudo.

Era nítido que usava o cabelo pintado, e a operação plástica que fizera sem dúvida que foi cara para o pouco que contribuiu para melhorar as peles caídas que tinha

no pescoço ou a flacidez em volta da linha do maxilar. Apesar de se encontrar muito perturbado, era claramente uma estrela, mas uma estrela que passara o seu apogeu

e que se devia dar por feliz por ainda ser tão rica. Nem todas as velhas estrelas de Hollywood tinham tanta sorte - pelo menos era o que Ikmen ouvira dizer. Os investimentos

insensatos, a droga, a bebida, as ex-mulheres e os "amigos" gananciosos arruinavam frequentemente essas pessoas. Mas com a sua mulher jovem e encantadora, as casas

que tinha em Los Angeles, Nova Iorque, Havai e Istambul, era óbvio que Hikmet Sivas fizera com que o dinheiro que ganhara nos anos 1960 e 1970 trabalhasse muito

bem para ele.

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- Quer dizer - continuou Ikmen -, que nem o senhor nem a sua esposa tinham inimigos.

- Que eu tenha conhecimento, não. Sabe - lançou mais uma vez um olhar sinistro ao infeliz Çõktin -, preciso mesmo de telefonar ao meu agente.

Ikmen ignorou o que ele disse.

- E não havia problemas entre o senhor e a senhora Sivas? De novo, Sivas explodiu:

- Não! - gritou. - E antes que comece a especular sobre se a minha mulher não teria preparado tudo isto ela própria com algum jovem amante turco de modos agradáveis,

lembre-se de que ela nunca estivera neste país antes!

- Senhor Sivas, eu...

- Não sei por que motivo Kaycee foi levada! - berrou o homem. - Não faço ideia...

- Aconteceu porque está escrito.

Ikmen virou-se em direcção à voz e viu a pequena figura de uma mulher que trazia um tabuleiro cheio de copos de chá. Teria, provavelmente, cerca de setenta anos,

embora o rosto, ainda que sombrio, não apresentasse muitas rugas. Envolta num casaco escuro, a cabeça coberta por um lenço castanho e liso, a mulher era, obviamente,

se as palavras que proferira não falassem por si, muito religiosa. Hikmet Sivas colocou-se imediatamente a seu lado, enquanto ela pousava o tabuleiro em cima de

uma das mesas de café.

- Oh, Hale, minha alma - disse ele. - Sei qual é a tua opinião, mas agora não, querida irmã, por favor, não digas essas coisas agora!

- Se vives a tua vida à margem das leis do Corão, o que esperas? Heim?

- Hale...

- Correr em cenários de cinema com mulheres nuas! Viver como um americano! Bebida e prostitutas e a trabalhar para judeus.

- Hale, sei que não sou digno de deitar água para lavares as mãos.

A mulher resfolegou, antes de indicar que os polícias deviam servir-se de chá. Depois saiu. Ikmen ouvira com interesse Hikmet Sivas a humilhar-se tão completa e

publicamente perante a irmã. Ou ele lhe estava grato por algo muito valioso ou sentia-se culpado. Talvez também quisesse alguma coisa dela. Fosse o que fosse, o

interlúdio que Ikmen acabara de testemunhar tivera tanto de interessante como de surpreendente. Apesar de ter passado a maior parte da sua vida como um americano,

Hikmet Sivas não esquecera as regras da sua terra natal nem as expressões rituais que datavam dos tempos otomanos e que davam forma ao modo como uma pessoa sentia

a sua posição social e moral em relação aos outros. E ao não responder à declaração de inferioridade por parte do irmão, Hale Sivas deixara bem claro que sabia,

de facto, que se encontrava acima dele. Estranho, dado que ele era o irmão rico e famoso, o filho de sucesso com que a maior parte das famílias se congratulariam,

independentemente dos seus pecadilhos.

Çõktin e o técnico responsável pelo equipamento de gravação levantaram-se e tomaram chá com Iskender, que acabara de regressar. Ikmen, consciente de que Hikmet Sivas

precisaria de algum tempo para se voltar a concentrar, deixou a sala para ir lá fora. O carro que Vedat Sivas conduzia quando Kaycee fora raptada estava a ser investigado

por uma equipa do Instituto Forense. O inspector deixara Tepe, que estava bastante calmo nessa manhã, como responsável.

Lá fora, Ikmen parou por breves momentos para observar como o sol do meio-dia tocava as águas vítreas do Bósforo. Este lado da cidade, se não o bairro, ainda era

a sua casa. Ao longo de toda a sua infância vira Istambul desta perspectiva. As mesquitas imperiais, ficavam "do outro lado da água", tal como Pêra, a cidade "nova",

que tinha tudo o que era europeu e que era travessa e tantalizante - e importante. A Ásia, onde ele agora se encontrava e onde nascera no velho e pobre Úskúdar,

o bairro da classe trabalhadora, era diferente - quase mais velha, sentia ele, por vezes, mesmo sabendo que não era assim. Talvez fosse uma inclinação da mente -

da mente asiática, trabalhadora e dada ao sofrimento e à realidade da morte; toda a zona era caracterizada por cemitérios massivos, com árvores a roubar-lhes a luz.

Até aqui, no elegante Kandilli, havia um cemitério enorme a menos de cinco minutos do local onde ele se encontrava agora a olhar para Tepe, a observar a actividade

dentro e em volta do carro. Foi talvez esta fugaz contemplação da morte que o fez regressar ao assunto da pobre e pequena Hatice Ipek.

- Quer dizer, então - disse, ao mesmo tempo que oferecia um cigarro ao seu subalterno -, que achas que o pasteleiro Hassan Seker não tem mais nada a dizer-nos sobre

a amiga da minha filha?

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Tepe pegou no cigarro e encolheu os ombros.

- Para além do que lhe disse ontem ao telefone, não, inspector. Ele continua a afirmar que a "relação" que tinha com ela só existiu na cabeça da rapariga e de outras

pessoas.

- Incluindo a minha filha - disse Ikmen com ar sombrio.

- Sim. Mas está disposto a fornecer uma amostra de sémen para análise e parecia estar confiante em relação a isso - disse Tepe, esforçando-se por passar por cima

da referência à filha de Ikmen.

- Hmm.

- Quer que eu trate das coisas para que ele forneça a amostra?



- Sim, Tepe, faz isso - disse Ikmen, indo depois olhar para a água mais de perto.

Hulya não estava a mentir. Pelo menos em relação a este assunto. Hassan Seker estava disposto a fornecer uma amostra de sémen provavelmente porque não tinha tido

relações sexuais com Hatice na noite em que ela morreu. Tepe ouvira depoimentos de empregados da pastani que asseguravam que o patrão estivera com eles, ou em sua

casa, pelo menos à hora da morte da rapariga. Mas, nesse caso, por que é que Seker ainda insistia em que nunca tivera relações sexuais com Hatice? É verdade que

a esposa dificilmente ficaria satisfeita se descobrisse, mas ele era um homem rico e, por isso, não era provável que ela o deixasse. A sua continuada recusa em admitir

aquilo que era um caso amoroso com uma pessoa adulta que não fora forçada parecia ridícula - e, a Ikmen, suspeita. Por qualquer razão, Seker estava a tentar distanciar-se

de Hatice Ipek.

Ahmet Silay, como Hulya, também insistia em que Seker e Hatice tinham estado envolvidos em relações sexuais, e Ahmet Silay tinha, em tempos, sido amigo íntimo do

homem cuja esposa estava agora desaparecida, Hikmet Sivas. De forma a cobrir qualquer eventualidade, Ikmen decidiu perguntar a Sivas pelo amigo, apenas de passagem,

para tentar verificar até que ponto o alcoólico idoso era sincero. Não queria que o depoimento de Hulya se tornasse uma voz solitária de divergência contra Hassan

Seker. Hulya era jovem e susceptível ao tipo de fantasias a que, segundo Seker afirmava, tanto Hatice como Hulya se entregavam relativamente ao alegado caso amoroso.

Quem sabe, exagerou Ikmen, talvez elas tivessem até escrito no diário de Hatice só para embelezar tal fantasia. Ele sabia que as raparigas podiam fazer

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e faziam essas coisas. Mas não neste caso. Hulya era, afinal, filha de um polícia. Ela sabia perfeitamente o que acontecia às pessoas que inventavam histórias à



polícia. Hulya não mentira.

Ikmen regressou ao interior da casa, onde encontrou um Iskender exausto à entrada da sala da estrela. Sivas, agora sentado, estava ao telefone.

- Com quem está ele a falar? - perguntou Ikmen.

- Não parava de me convencer de que precisava de falar com o seu agente - respondeu Iskender com azedume -, por isso dei-lhe autorização.

Ikmen encolheu os ombros, e, em seguida, virou a sua atenção para Sivas.

- Estou a dizer-te,- gritava a estrela num inglês-americano quase sem sotaque -, a minha vida está acabada, tudo correu redondamente mal... É fodido, é o que estou

a dizer! Sim, sim, com certeza que estão, mas... - Virou a cabeça aos dois inspectores antes de continuar. Mas ainda estava a gritar, por isso, de qualquer maneira,

eles ouviam o que ele dizia. Eles e Çòktin, que também ainda se encontrava na sala, trocaram um olhar de desdém.

-Já alguma vez viste a polícia turca em acção? - continuava Sivas. - Bem, imagina um monte de retardados violentos e aí tens a imagem. Não, não a vão encontrar.

Preciso de ajuda, pessoas como deve ser. Sim, sei que tenho de tratar do assunto, mas...

No silêncio durante o qual o agente de Sivas estava, sem dúvida, mais uma vez a tentar acalmar Sivas, Ikmen saiu. Sabia que não era um "retardado violento" e não

queria ouvir mais nada. Sivas era ainda oficialmente uma vítima de crime e Ikmen não queria sentir-se tão irritado como estava rapidamente a ficar em relação a um

homem inocente.

CAPÍTULO NOVE

Quando Ikmen chegou a casa nesse serão, não foi directamente para o seu apartamento depois de ter estacionado o carro. Precisava de mais cigarros, e, por isso, atravessou

Divanyolu Caddesi até ao quiosque. Fornecido com quarenta Maltepe, Ikmen atravessou novamente a rua, passando depois pela pastane de Sultanahmet. Hassan Seker encontrava-se

no exterior a fumar um cigarro, mas os seus olhos nem sequer pestanejaram quando Ikmen passou, embora ele tenha visto o inspector.

Ikmen ouvira dizer algumas coisas sobre Hassan muito antes de todo este assunto relacionado com Hatice ter começado. As pessoas diziam que ele era mais fraco do

que o pai, que era um homem formidável; diziam que ele permitia que alguns dos seus empregados e amigos tomassem liberdades com o seu tempo e os seus produtos. Algumas

até diziam que os seus bolos e pastéis eram de qualidade inferior àqueles que Kemal Bey preparava. Ikmen tinha dúvidas relativamente à última observação, ainda que

compreendesse o que as pessoas queriam dizer quando se referiam à atitude muito mais relaxada de Hassan para com a vida comercial. No entanto, o que era muito claro,

desde que se acreditasse no que fora escrito no diário de Hatice Ipek - e Ikmen, que agora o tinha lido todo, acreditava - era que o homem não era nenhum animal.

Embora detalhados e específicos nas descrições da rapariga, os relatos que Hatice fazia das relações sexuais que mantinha com Hassan não eram desagradáveis nem pornográficos.

Centravam-se mais na forma como a maneira dele de fazer amor a

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fazia sentir-se, maneira essa que parecia ter sido muito boa. E embora ele, por vezes, lhe pedisse para fazer coisas que ela realmente não queria, nunca a forçava.



Hatice, pelo menos assim transparecia do seu diário, atingia a satisfação sempre que Hassan Seker lhe lambia, acariciava ou penetrava o corpo. Ikmen perguntava-se

quantas mulheres poderiam reivindicar tal recorde.

Estava exactamente a virar para a rua estreita que servia de atalho para as traseiras do seu prédio, quando alguém lhe agarrou o pulso. Instintivamente, Ikmen levantou

o outro braço para se defender. Mas quando viu de quem se tratava, soube que não haveria qualquer ameaça.

- Ah, és tu - disse num tom de desdém, ao mesmo tempo que baixava novamente o braço e soltava o pulso do aperto seboso do atacante.

- Sim, Çetin Bey - respondeu o homem baixo e imundo, revelando, ao fazê-lo, um conjunto de dentes seriamente danificados.

- O que queres, Rat? - perguntou Ikmen, embora estivesse mais preocupado em remover todos os vestígios do toque do homem no seu pulso. Rat, além de ser um informador

algo casual, era também conhecido por jantar fora, junto aos contentores do lixo. Não sendo tão indigente como parecia, aparentemente Rat gostava de certos aspectos

do estilo de vida errante.

- Quero ajudá-lo, Çetin Bey - disse Rat, usando o seu gambito inicial do costume.

- Ah sim? E queres ajudar-me com quê, Rat? Algum grupo de carteiristas liderado pela mente superior de um rapaz de oito anos? Ikmen estava cansado. Tivera um dia

longo e a informação de Rat raramente valia o preço de uma visita a um balneário público. Ikmen abanou a cabeça e mostrou intenção de se deslocar em direcção ao

seu apartamento.

- Sabe que ainda há odaliscas nesta cidade, não sabe, Çetin Bey? Ikmen virou-se.

- Os cavalheiros de países árabes que vêm visitar-nos podem ter mais do que quatro esposas, raparigas que nós descreveríamos como odaliscas, sim - disse ele. - E

depois?


- Estou a falar de raparigas turcas, Çetin Bey. Raparigas que se vestem com vestidos bonitos, raparigas que dançam e que, perante os homens, fingem que são princesas.

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Ikmen voltou para trás, para junto de Rat, e agarrou-lhe os ombros.

- O que sabes, Rat?

- Sei que uma rapariga dessas morreu.

- E sabes também quem a matou?

Rat baixou a cabeça e fixou os olhos no chão, o rosto firme e impassível.

- Se, de facto, souberes quem a matou, Rat, posso levar-te para a esquadra e extrair-te a informação sem que dinheiro algum tenha mudado de mãos - disse Ikmen com

alguma ameaça na voz.

- Mas eu não sei quem a matou, Çetin Bey - respondeu Rat, sem sinais de perturbação. - Só ouvi dizer que isto, aparentemente, não tinha acontecido antes.

Ikmen franziu o sobrolho.

- Antes? O que queres dizer com isso?

- Quando os homens foram com estas mulheres antes, as mulheres não morreram.

Ikmen puxou Rat mais para o interior da sombra projectada pela roupa que as mulheres tinham estendido nas traseiras do prédio, por baixo do local onde a antiquada

caldeira gorgolejava e batia. Então, sem oferecer ao informador, acendeu um cigarro para si próprio.

- De que mulheres estás a falar, Rat? - perguntou. - E quando dizes "homens", estás a referir-te a clientes?

- É um grande segredo, Çetin Bey - disse Rat, os olhos a esbugalharem-se-lhe ao verem o cigarro. - Não sei nada, para além do facto de que mulheres jovens se vestem

de odaliscas e dão prazer aos homens. Sempre o fizeram.

Ikmen voltou a levar a mão ao bolso e tirou de lá os cigarros.

- E esses homens - começou ele -, são...?

- Oh, não sei quem são! Sei que são importantes, mas... - respondeu Rat, os olhos praticamente a devorarem o cigarro que Ikmen lhe agitava em frente do rosto. -

Como eu disse, é um grande segredo e há muito tempo que existe.

Ikmen estendeu o cigarro a Rat, que o acendeu com um fósforo macio.

- Presumo que as mulheres o façam por dinheiro - disse Ikmen.

- Sim.

- Mas há outras pessoas que organizam ou controlam o negócio.



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- Bem... - Rat olhou furtivamente por cima do ombro e só quando estava convencido de que não havia ninguém por perto é que continuou. - Ninguém sabe quem é que tem

andado a fazer isso, Çetdn Bey, ninguém. Mas...

- Sim, Rat?

- Mas ultimamente algumas pessoas envolvidas em negócios "familiares" compraram a sua entrada na operação. Ouvi dizer que o que era dantes uma coisa, desconhecida

de todos, é agora outra completamente diferente. Agora há sangue.

- Como é que soubeste tudo isto, Rat? - perguntou Ikmen, ao mesmo tempo que tentava controlar a familiar sensação de frieza que geralmente o invadia em momentos

de revelação.

- Ora, nas ruas, Çetin.

A mão de Ikmen ergueu-se num rompante e o inspector agarrou o pescoço descarnado de Rat. Encostou-o com firmeza à parede. O fedor e o contacto com ele era terrível,

mas, da experiência que tinha, Ikmen sabia que havia apenas uma forma de lidar com os da laia de Rat, a Ratazana de Sultanahmet.

- Não me lixes com essa conversa das "ruas", Rat. - E cuspiu através dos dentes cerrados. - Quem te contou? A janela de quem é que estavas à escuta?

-Juro...

- Posso levar-te para a esquadra...

- E eu não lhe digo nada! - gritou o homem baixo, agora corado - Não vai ganhar nada com isso! Pode dar-me bastonadas durante dez dias seguidos! Não posso dizer-lhe,

Çetin Bey. Isto é uma coisa de "famílias", sabe? Não há nada que a polícia me possa fazer que possa ser pior do que o que eles me fariam.

E é claro que ele tinha razão. Ikmen soltou o pescoço escanzelado, e, em seguida, fumou em silêncio por alguns momentos. Negócio de "família" significava que, se

Rat estava a dizer a verdade, Ikmen tinha todos os tipos de problemas. As Máfias locais, embora não fossem tão famosas como as suas congéneres sicilianas ou até

russas, não eram uma força para levar de ânimo leve. Para começar, ninguém sabia exactamente e em momento algum onde se encontravam em determinada altura as várias

famílias que se dedicavam a actividades ilegais. Estavam profundamente envolvidas no tráfico de droga e tinham

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tendência a movimentar-se entre Istambul e as províncias orientais e a viajar para o estrangeiro - frequentemente para a Alemanha ou Inglaterra. De facto, tão móveis



eram algumas destas famílias que se dizia que os informadores como Rat, se fossem apanhados, nunca sabiam quem eram os seus carrascos. Outra coisa que se dizia frequentemente

sobre as famílias era que os pagamentos que faziam a determinados agentes da polícia eram avultados. Ikmen suspirou. Com o envolvimento de famílias mafiosas, a operação

que Rat descrevera - prostituição - tomava um aspecto muito mais sinistro. Um aspecto que, possivelmente, custara a vida a Hatice Ipek.

- Nesse caso, se há famílias envolvidas, por que estás a correr o risco de falar comigo, Rat? - perguntou Ikmen.

- Bem, Çetin Bey, como sabe, gosto de ajudar.

- Oh, por favor, poupa-me a obra de ficção do costume, Rat! Correste um grande risco.

- Preciso de duzentos milhões de libras para pagar ao meu senhorio. - A cabeça de Rat afundou-se-lhe no peito. - Preciso desse dinheiro hoje.

- Não tenho esse dinheiro - disse Ikmen. - E, além disso, se eu vou pagar por aquilo que diz alguém como tu...

- Mas é tudo verdade!

- Talvez, mas a não ser que me possas dizer de onde vieram essas informações...

- Não posso!

Ikmen encolheu os ombros.

- Nesse caso, vais ter de te habituar a dormir na rua, não é verdade? Já comes nos caixotes do lixo porque estás demasiado apertado para comprar comida. Agora vais

ter de dormir neles também. - E começou a afastar-se em direcção ao seu apartamento. Estava a abrir a porta do prédio, quando chegou até ele a voz de Rat:

- As costureiras, as senhoras Heper, de Uskúdar, elas sabem.

As mulheres que tinham feito o vestido que ele vira na sala de trabalho da loja de Lazar. As mulheres que podiam também ter feito o vestido de Hatice. Embora Ikmen

não conseguisse imaginar o que duas costureiras, filhas de um velho general, tinham a ver com prostituição e negócios de "famílias". Mas era a segunda vez que os

nomes da menina Muazzez e da menina Yúmniye Heper vinham à baila desde

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a morte de Hatice, e, por isso, íkmen tomou nota, ainda que, não conseguisse perceber como é que alguém como Rat podia sequer saber que elas existiam.



Tirou a carteira do bolso e deixou cair notas para o chão num total de cinquenta milhões de libras.

- Terás de vender o traseiro a um cego para conseguires o resto - disse, empurrando a porta que dava acesso à comparativa fresquidão do vestíbulo.

Depois de ter feito a chamada telefónica do costume para Fatma, Ikmen preparou um copo de chá, que levou para a varanda. Búlent deixara um bilhete para dizer que

ia passar o serão fora com o amigo Sami e com Hulya, que voltara ao trabalho na pastane, por isso, o apartamento estava temporariamente livre de adolescentes. Por

agora, Ikmen podia estar em sossego, livre para pensar.

Não que Ikmen se sentisse propriamente feliz pelo facto de a filha ter voltado a trabalhar ao lado de Hassan Seker. Mas ela insistira em que queria voltar ao trabalho,

embora detestasse a ideia. Algo parecido com "necessidade" de comprar roupas - provavelmente para proveito de Berekiah Cohen. Mesmo assim, mais tarde Ikmen escoltá-la-ia

até casa para se assegurar de que nada de inconveniente acontecera. Tal parecia bastante improvável, se Hassan sabia que se encontrava sob suspeita.

Fora um dia estranho. Hikmet Sivas não fora a vítima mais fácil de interrogar e, como já se passara antes com Iskender, Ikmen estava agora bastante seguro de que

a sua falta de cooperação e, por vezes, o seu estranho comportamento - para com a irmã, por exemplo indiciavam segredos. Se estavam ou não relacionados com o desaparecimento

de Kaycee, ele não sabia. Talvez Sivas, por qualquer razão, quisesse a sua nova e jovem esposa fora do caminho e tivesse preparado tudo isto antes da sua chegada

à Turquia. Não era segredo que muitos americanos consideravam que os polícias estrangeiros eram estúpidos, e Sivas, claramente, não era excepção. Para um americano,

cometer um homicídio fora do alcance do temido Departamento de Polícia de Los Angeles haveria de parecer uma boa ideia - se se pudesse ignorar a genuína preocupação

de Sivas perante a ausência continuada da mulher, o que Ikmen não podia fazer.

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O desaparecimento de Kaycee chegara já aos ouvidos da imprensa tanto estrangeira como doméstica. Ikmen vira alguns dos títulos no quiosque. Um dos jornais publicara



até uma fotografia bastante desfocada de Metin Iskender. Ikmen sorriu. Bem, era um pouco diferente de ver o seu próprio rosto carrancudo a gritar "Sem comentários!",

seguido de um silencioso "Foda-se!" que lhe ia na cabeça. Iskender, a contrastar, parecera muito mais relaxado em presença da imprensa. Calado mas educado.

Ikmen acendeu um cigarro e recostou-se na cadeira. Uma música, sobre a qual Búlent o informara uma vez de que se chamava rave, batia ritmicamente, vinda do apartamento

por baixo, aquele que fora há pouco tempo alugado a recém-casados. Ikmen não gostava da música, mas não permitiu que ela o obrigasse a voltar ao interior abafado

do apartamento. Como a maioria dos turcos, ele suportava-a, simplesmente, e, no seu caso, pensava noutra coisa.

Ahmet Silay. Mas havia uma coisa estranha. Tal como Hulya, ele tinha livremente afirmado que Hatice e Hassan Seker eram íntimos. Era também, por coincidência, e

se se acreditasse em tais coisas, um velho amigo de Hikmet Sivas. De facto, parecia que Silay quase que fazia profissão da sua relação de longa data com o actor

de Hollywood. Aparentemente, as pessoas pagavam-lhe bebidas para o encorajarem a entregar-se a reminiscências. Que estratégia excelente para um alcoólico! Sivas,

por seu lado, tinha recordações muito menos caridosas do seu velho amigo.

Quando Ikmen mencionara casualmente o nome de Silay na conversa que estavam a ter na casa em Kandilli, fizera questão de esclarecer que o actor mais velho estava

a ajudar a polícia noutra investigação, que não tinha qualquer relação com esta e que Ikmen não especificou. Mas o que Sivas nessa altura dissera provocou em Ikmen

hesitação.

- Oh, eu não daria muita atenção ao que Ahmet lhe diz, inspector - exclamara Sivas com uma gargalhada. - Ele é um completo fantasista, sempre foi.

E passara a dar a Ikmen vários exemplos credíveis das fantasias de Ahmet Silay e do seu subsequente desmascaramento. O que parecia estar a surgir era a imagem de

um homem rico e mimado possuído por aspirações tanto artísticas como de classe trabalhadora. Sem ser particularmente dotado de talento, Silay sempre tivera inveja

do seu amigo

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com mais êxito, que, aparentemente, tentara ajudá-lo e que até o recebera na América. Mas a amargura de Silay e a bebida, a que se entregara, tinham posto fim a



tudo isso havia algum tempo e, nos últimos cinco anos, Sivas não soubera nada dele.

Estes factos, na realidade, minavam as observações de Silay em relação a Hatice e a Hassar Seker. Até um advogado medíocre podia argumentar que as provas fornecidas

por um conhecido fantasista não eram, na melhor das hipóteses, de confiança. Isso deixava-o apenas com as observações de Hulya e o diário de Hatice, em relação ao

qual aquele mesmo advogado podia argumentar tratar-se de meros anseios de rapariga. Ikmen discordava fortemente, mas isso não contava para nada.

E agora, havia apenas dez minutos, ele fora convidado para um encontro com Rat. O que Rat dissera era que alguém andara a fornecer mulheres para agirem como antigas

odaliscas otomanas - um grupo que podia incluir Hatice Ipek. Isto vinha a acontecer havia algum tempo, mas agora, por razões desconhecidas, uma das famílias mafiosas

tomara conta do negócio. Por que motivo é que alguém, hoje em dia, haveria de querer uma odalisca coberta de roupa, quando podia ter uma russa completamente nua

disposta a fazer tudo por quase nada, Ikmen não conseguia imaginar. Por que motivo é que ele não ouvira falar no assunto antes, era outro mistério.

Quanto às encantadoras irmãs Heper, era certamente possível que a menina Muazzez e a menina Yúmniye tivessem feito o vestido que Hatice usava quando morreu. Mas

dizer que elas sabiam alguma coisa sobre o uso que era dado ao seu trabalho só podia ser ridículo. Embora criadas por um homem que nascera otomano e que servira

no exército do sultão, as raparigas, tal como o pai, tinham sido entusiásticas convertidas ao Atatúrkismo e eram, consequentemente, independentes e emancipadas.

Na verdade, a lenda local de Uskúdar dizia que a mulher do general, a mãe das raparigas, fora a primeira mulher em toda a Turquia a andar de bicicleta sem véu. As

irmãs Heper eram inteiramente respeitáveis. Ikmen recordava-as com afecto dos tempos da sua infância. A menina Yúmniye fizera o vestido de casamento da mãe dele

- Ikmen teria de ter cuidado para não pensar nisso quando apresentasse às senhoras o vestido que Hatice usava quando morreu. Porque, qualquer que fosse a verdade,

ele teria de ir visitar a menina Muazzez e a menina Yúmniye e teria também de convencer Arto SarOHARÉM

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kissian a "emprestar-lhe" o vestido da rapariga morta - sem, é claro, alertar Ardiç para esse facto. Ikmen sabia que Kaycee Sivas era a única jovem mulher que ele

deveria ter na cabeça agora. Kaycee, que ainda podia estar viva algures, ao contrário da pobre Hatice, que já estava morta. Mas o que Ardiç não valorizava era que

Ikmen prometera à filha que descobriria as pessoas que tinham abusado da sua amiga e castigá-las-ia. E, com Kaycee Sivas ou sem Kaycee Sivas, era isso que ele ia

fazer.


- Em que ponto é que nos encontramos, iskender? - Ardiç nem sequer levantou o olhar do que estava a fazer.

Metin Iskender, como estava a tornar-se seu costume, sentou-se antes que o superior lhe oferecesse esse privilégio.

- Ninguém está a falar, comissário - disse, enquanto acendia um cigarro com o elegante isqueiro de prata que a mulher lhe comprara. - Significativamente, nem sequer

os meus mais desesperados informadores estão a fazer progressos.

Ardiç levantou os olhos dos papéis, o rosto amplo a parecer dividido pelo enorme charuto que tinha na boca.

- E pedidos de resgate? - perguntou. - Há alguma coisa?

- Por enquanto, não, o sargento Çõktin e os técnicos têm estado a verificar cuidadosamente o registo de todas as chamadas para a casa de Sivas, mas não apareceu

nada. E também não veio nada no correio.

- E que é que conclui disto? - Ardiç recostou-se na sua cadeira. Fazia isto muitas vezes. Dava mais espaço ao estômago e era, por isso, uma posição muito mais confortável.

Metin Iskender franziu o sobrolho.

- Estou desconfiado do silêncio das ruas, comissário. Kaycee Sivas é conhecida. Um informador podia conseguir dinheiro fácil da imprensa por qualquer informação

sobre a esposa de uma estrela de cinema. No decurso normal dos acontecimentos, eu esperava que já tivesse aparecido qualquer pista dela, por esta altura.

- Por que é que pensa que ainda não apareceu?

- Bem, uma razão de que me lembro, ou melhor de que tive experiência no passado, é "o envolvimento de famílias", comissário - inclinou-se para a frente para colocar

a cinza do cigarro no grande cinzeiro

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de ónix de Ardiç. - Há vários clãs activos em Beyazit, embora não possamos também excluir aqueles que vêm de fora, suponho. Edirnekapi, Yedikúle...

- Mas, nesse caso, não teriam as famílias pedido dinheiro, por esta altura? - perguntou Ardiç. - E, além disso, a não ser que Sivas ou os seus parentes estejam envolvidos

em negócios mafiosos, algo de que não temos conhecimento, como é que essa gente teria sabido que ele e a mulher se encontravam na cidade?

Iskender encolheu os ombros.

- Não sei, comissário. Mas há qualquer coisa que não bate certo em tudo isto. O inspector Ikmen esteve todo o dia em casa dos Sivas e achou o comportamento e a atitude

da estrela tão difíceis e, por vezes, tão incompreensíveis, como eu próprio. Por exemplo, durante horas, Sivas resmungou que tinha de telefonar ao seu agente nos

Estados Unidos, que precisava de lhe dar instruções relativamente à cobertura de imprensa lá. Por isso deixámo-lo telefonar, e, quando ele telefonou a esse tal agente,

Gee, parece-me que era esse o nome dele...

- Sim? E então? Iskender encolheu os ombros.

- Bem, nada - disse. - Depois de toda aquela insistência, ele não disse nada ao homem, a não ser mencionar o facto de que tudo lhe corria mal na vida e que a polícia

de Istambul era estúpida.

- Pensa que Sivas pode ter encenado tudo isto, ele próprio? Possivelmente com ajuda vinda dos Estados Unidos...?

- Não sei, mas, se juntarmos a afirmação de Sivas de que nem ele nem a mulher tinham inimigos e a falta de um resgate ou de qualquer outro tipo de exigência convincente,

teremos de concluir que alguma coisa não é genuína. Quer dizer, porquê levar a mulher, quem quer que o tenha feito, se não se pretende fazer alguma coisa com ela?

- Pensa que ele tem capacidade para organizar tal coisa sozinho?

- Ele certamente tem dinheiro suficiente para o fazer, embora eu não consiga imaginar por que motivo ele se haveria de querer livrar de uma mulher tão encantadora.

Ele também está genuinamente perturbado.

- Nesse caso, para além de continuarmos as nossas operações na rua e na casa de Sivas, precisamos de descobrir mais coisas sobre o

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próprio Hikmet Sivas. E com isso refiro-me a coisas para além da publicidade - Ardiç voltou a acender o charuto. - Todos sabemos que ele é a única grande estrela



de Hollywood de origem turca, o Sultão, como lhe chamavam lá nos primeiros tempos, segundo me lembro - sorriu. - Mas tem de haver mais qualquer coisa sobre ele do

que simplesmente dinheiro e fama. Deve ter amigos, ex-mulheres, esse tal agente... De facto, se pensar no assunto, Iskender, ele tem de ser uma pessoa e tanto. Segundo

creio, é difícil para os americanos chegarem a Hollywood. Mas para um turco... - Encolheu os ombros.

- Está a dizer que os patrões de Hollywood não gostam particularmente de nós.

- O que eu quero dizer é que, se compararmos o número de nomes turcos em Hollywood com o número de outros estrangeiros a quem deram lá emprego, a proporção não é

a nosso favor - disse Ardiç. - Penso que sou capaz de dizer a Ikmen que dê uma olhadela a isso, ele é bom a investigar o passado das pessoas. A propósito, como se

está a dar com Ikmen, Iskender?

- Para dizer a verdade, não sei, comissário. Hoje andámos a fazer coisas bastante diferentes e tivemos pouco tempo para nos reunirmos.

Era uma resposta verdadeira e, simultaneamente, diplomática, e ambos o sabiam. Até ao momento, Iskender não tivera muito a ver directamente com Ikmen, mas era conhecido

que ambos possuíam estilos radicalmente diferentes. Enquanto que Ikmen levava tempo e usava de uma paciência infinita ao lidar com testemunhas e suspeitos, Iskender

seguia uma abordagem mais directa e, por vezes, não muito agradável. Num mundo obcecado por resultados e estatísticas, Iskender era, sem dúvida, o mais imediatamente

eficaz dos dois. No entanto, Ikmen obtinha resultados, especialmente em casos como este, que podiam ser delicados e morosos. Os estranhos "pressentimentos" que o

homem mais velho ocasionalmente experimentava em relação a certos casos podiam ser enervantemente exactos. E independentemente do que Ardiç pudesse sentir sobre

essas coisas do oculto, até ele tinha de admitir que, geralmente, eram úteis. Eram, no entanto, apenas uma das muitas coisas em relação às quais Ikmen e Iskender

haveriam de zangar-se no futuro, e, por isso, era boa ideia dar-lhes, de momento, tarefas separadas.

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- Temos uma reunião de manhã - disse Ardiç, os olhos regressando aos papéis que tinha em cima da secretária. - Vou decidir exactamente o que quero que faça e dir-lhe-ei

então.


- Sim, comissário.

Sem mais comentários, Ardiç fez sinal a Iskender para que saísse da sala. Trabalhou em silêncio por alguns minutos, antes de receber uma chamada do quartel-general

da Polícia Estatal de Ancara. Esteve ao telefone durante algum tempo, a maior parte deste a ouvir o que os seus superiores tinham para dizer. O chamamento para a

oração do pôr do Sol já tinha terminado quando, finalmente, Ardiç pousou o auscultador.

CAPÍTULO DEZ

Hulya Ikmen acabara de fechar atrás de si a porta do apartamento da família, quando avistou a mãe da sua falecida amiga, Húrrem Ipek. O rosto sem cor, os olhos negros

devido ao choro interminável, Húrrem não usava o seu habitual uniforme da Zabita e tinha a cabeça coberta por um lenço escuro e forte.

- O doutor Sarkissian diz que posso agora tratar dos preparativos para o funeral de Hatice - disse ela, ao mesmo tempo que atravessava a rua em direcção a Hulya,

que, perante a abordagem da mulher, se sentiu arrefecer por dentro. A lembrança do que o pai lhe contara sobre a morte "natural" de Hatice fazia com que Hulya se

sentisse embaraçada na presença de Húrrem. Oficialmente o pai estava agora a trabalhar no caso Sivas e, embora Hulya soubesse que ele estava a continuar com as investigações

relacionadas com a morte de Hatice, não se sentia, mesmo assim, à-vontade. Não que duvidasse de que o pai faria o melhor que pudesse. Ele prometera-lhe que o faria

e ela sabia que ele nunca faltava à palavra dada.

- O meu pai vai descobrir quem fez mal a Hatice - disse Hulya, colocando suavemente uma mão no ombro de Húrrem.

- Sim - Húrrem não conseguiu ir além da sombra de um sorriso de gratidão. - Eles dizem que o caso não é uma prioridade, mas... É um homem muito generoso, o teu pai.

- Sim.

- E a minha filha era uma rapariga tão malcomportada... - Apesar de todo o pó e lixo que o preguiçoso kapta Aziz do edifício permitira que se acumulasse à entrada,



Húrrem Ipek, de repente, sentou-se.

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- Senhora Ipek!

- Ela era uma prostituta, Hulya, a entregar-se àquele homem, ao patrão, um homem casado! - Levantou o olhar para o rosto de Hulya, as suas próprias feições um retrato

de dor. - O que estava ela a pensar? Não lhe ensinei eu o suficiente sobre os valores do seu pobre e falecido pai? Serei eu própria uma pessoa assim tão má? - E,

dizendo isto, pegou em mãos cheias do lixo que a rodeava e, a chorar, esfregou-o no rosto e no peito, como se o usasse para se lavar.

Hulya, horrorizada pela profundidade da agonia que estava a testemunhar, tentou impedi-la, mas Húrrem era demasiado forte para ela.

- Não, eu devo ser castigada! Devo!

Pêlos de gato, pontas de cigarro, invólucros de doces e pedaços de papel de jornal - a mulher deixava cair tudo cabeça abaixo até parecer uma velha boneca abandonada,

perdida e para sempre sozinha no fundo do caixote do lixo.

- Senhora Ipek... - Hulya estava prestes a puxar para cima o seu vestido comprido às flores para poder acocorar-se para falar com Húrrem, quando ouviu passos nas

escadas. - Tem de se levantar, senhora Ipek! - Estendeu a mão a Húrrem. - Vem aí alguém!

- Não!

Ainda com mais urgência do que antes, Húrrem Ipek esgaravatou no pó, deitando a sujidade por cima de si própria, a chorar e a gritar.



- Hulya?

A rapariga virou-se e, quando viu quem era, corou.

- Berekiah!

- A senhora caiu? Está doente? - O rapaz colocou-se ao mesmo nível de Hulya, tão próximo que ela podia sentir o calor intenso da rua a irradiar-lhe do corpo. Teve

de engolir em seco antes de responder:

- É a mãe da minha amiga - disse. - Da minha amiga que faleceu recentemente. Está perturbada.

- Como é natural - respondeu Berekiah. Acocorou-se em frente de Húrrem e ofereceu-lhe a mão. A medida que se agachava, Hulya reparou que a fresca camisa branca que

ele vestia resmalhou quando ele se inclinou.

- Venha, minha senhora - disse ele com firmeza, pegando na mão de Húrrem. - Deixe que a ajude a levantar-se e depois podemos tratar de todo este lixo.

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E, tão rapidamente como começara, o choro de Húrrem parou. A boca abriu-se-lhe como que num grito silencioso e ela tombou para a frente, para os braços dele, a cabeça

escondida no diafragma. Ficaram assim por algum tempo, enquanto Hulya os olhava e se perguntava o que o teria trazido ao prédio dela, antes de mais nada.

A reunião fora mais curta do que Ikmen, pelo menos, imaginara que fosse. Basicamente, Ardiç ventilara a ideia do envolvimento de famílias turcas, enquanto que, simultaneamente,

enfatizara que deviam continuar a verificar cuidadosamente a actividade dentro e em redor da casa dos Sivas. Segundo Ardiç, era demasiado cedo para começarem a perseguir

activamente as famílias, contra as quais não havia, por enquanto, quaisquer provas. Isto, vindo do homem que pedira a Iskender para "arrasar Beyazit"! Mas não hostilizar

as famílias fazia, de facto, todo o sentido para Çetin Ikmen. Ninguém desejava uma guerra nas ruas.

- Oh, inspector...

Ikmen, que ia a sair da sala da esquadra com Tepe, olhou em redor e viu atrás de si a pequena figura elegante de Metin Iskender. Bem apresentado e perfumado até

à perfeição, usava um fato que Ikmen nunca vira antes e que, pensou ele pouco caridosamente, tinha de ser mais um presente da mulher de muito sucesso de Iskender.

Ikmen e Tepe pararam.

- Sim?

- O comissário falou-lhe em investigar o passado de Hikmet Sivas?



Ikmen franziu o sobrolho.

- Não. Mas, sendo meu superior há tantos anos, o comissário sabe que eu faria isso, de qualquer maneira. O passado geralmente é útil em situações como esta. Porquê?

- É que ele falou nisso numa reunião que eu tive com ele em privado ontem à noite. - Tanto a palavra "eu" como a palavra "privado" foram realçadas.

- A sério? - Ikmen olhou Tepe e sorriu. - Óptimo, ainda bem que eu tinha agendado um pouco de pesquisa para esta manhã, não é verdade?

- Sim, inspector.

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Iskender fez-se às suas próprias tarefas, que envolviam estar de serviço em casa dos Sivas, de uma forma o mais prática e interessada possível. Mas Ikmen, que, segundo

alguns diziam, já levara a melhor sobre um homem para quem a promoção e a posição social eram muito mais importantes do que tudo o resto excepto talvez a riqueza,

tinha de levar as coisas até um pouco mais longe.

- Na verdade, identifiquei um velho amigo de Sivas, um homem que o conhecia antes de ele se ter tornado famoso - sorriu. - O sargento Tepe já falou com ele, não

é assim, Tepe?

- Sim, inspector.

- Oh, óptimo - Iskender dirigiu a Tepe um sorriso tenso. Bom trabalho. - E em seguida, com as costas tão direitas como o cabo de uma vassoura, marchou ao longo do

corredor.

Ikmen limitou-se a abanar a cabeça e a sorrir. Pobre Iskender. Geralmente os seus esforços para se auto-elevar eram bem sucedidos, mas com ele não. Ele, Ikmen, ainda

conduzia este caso e precisava de toda a gente, incluindo Iskender; era bom que não se esquecesse isso.

- Então vai visitar Ahmet Silay esta manhã, inspector? - perguntou Tepe, enquanto seguia o superior na direcção do parque de estacionamento.

- Sim. E, já que lá estou, vou aproveitar para lhe fazer mais algumas perguntas sobre a relação de Hatice Ipek com Hassan Seker respondeu Ikmen. - Depois de ter

falado com o senhor Sivas ontem, não tenho tanta certeza de que as provas por ele apresentadas sejam consistentes.

- Pensei que era suposto deixar isso para segundo plano, agora que sabemos que a rapariga morreu de causas naturais - disse Tepe.

Ikmen tirou do bolso as chaves do carro.

- Não - disse. - Ardiç poderá querer que assim seja, mas eu pretendo continuar a perseguir quaisquer pistas com que me depare. E, uma vez que o senhor Silay, por

coincidência, está relacionado com ambos os casos...

- Muito bem.

- Como te disse antes, Tepe, tenho informações independentes, segundo as quais as circunstâncias que rodeiam a morte de Hatice são suspeitas.

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- Sim. - Tinham falado brevemente sobre isso assim que Ikmen chegara ao gabinete. - O informador que falou em envolvimento de famílias e daquelas senhoras Heper

que quer visitar.

- Sim - Ikmen suspirou. - Não é propriamente um bom carácter, o meu informador, mas, mesmo assim, seria estúpido ignorá-lo.

O que Rat lhe contara no serão anterior ocupara, na verdade, uma grande parte dos pensamentos de Ikmen desde então. Se membros de "famílias mafiosas" se tinham envolvido

ou não nalgum tipo de operação de prostituição, não era inteiramente relevante para a forma como Ikmen estava a abordar a situação. A medida que o tempo passava,

a ideia de mulheres jovens a vestirem-se e a comportarem-se como odaliscas tornara-se, na mente do inspector, cada vez mais bizarra. Tanto quanto ele se lembrava,

as odaliscas eram célebres pela passividade do seu desempenho sexual. Deitadas em camas como pedaços de madeira, oferecendo pouco mais do que orifícios nos quais

os seus reais senhores se aliviavam. Os homens modernos precisariam certamente de bastante mais estímulo do que isso. No caso de Hatice, fora com certeza assim.

Arto Sarkissian identificara dois tipos de sémen no corpo dela e um terceiro na boca. Nenhum sultão de que Ikmen tivesse conhecimento alguma vez reuniu os amigos

para formar um bando de violadores. Mas anotou mentalmente para não se esquecer de fazer perguntas a Suleyman sobre práticas palacianas, quando o voltasse a ver.

Afinal, se um príncipe não sabia dessas coisas, quem haveria de saber?

Hikmet Sivas não conseguia imaginar como é que a caixa viera parar ao seu quarto. Não era pequena - tinha cerca de setenta e cinco centímetros de altura e era bastante

larga. Para além da polícia e dos seus técnicos, ninguém entrara na casa havia um dia e meio. Não houvera correio nem quaisquer entregas. Vedat saíra uma vez, acompanhado

de um dos agentes, para ir comprar cigarros, mas isso fora tudo, e, além disso, se Vedat tivesse colocado a caixa no quarto de Hikmet, ter-lhe-ia dito.

Hikmet sabia que devia chamar um dos polícias. A caixa era grande e o seu conteúdo desconhecido. Podia tratar-se de uma bomba, ou até, e isso acontecera uma vez

nos Estados Unidos a uma estrela de telenovela, uma admiradora muito pequena. Não que Hikmet acreditasse

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que fosse esse o caso. Mais provavelmente, tratar-se-ia de uma mensagem dos raptores. E, a confirmar-se essa probabilidade, ele já cometera um erro ao envolver a

polícia. Assim, se, de facto, esta encomenda vinha da parte deles, ele não devia alertar o sargento Çóktin nem nenhum dos seus colegas. Devia abrir, ele próprio,

a caixa e enfrentar as consequências, fossem elas quais fossem. Se se tratasse de uma bomba e ele morresse, bem, seria simplesmente o destino.

Hikmet aproximou-se da secretária que se encontrava ao lado da cama e pegou no corta-papéis que estava em cima do tampo. A caixa era de madeira, mas, a julgar pelo

aspecto, era apenas balsa. Seria fácil de abrir com uma faca embotada. Mas não se abriu e, porque estava muito calor, visto ser quase meio-dia, bastaram duas tentativas

falhadas para a abrir para que Hikmet se cansasse. A arfar, sentou-se na cama por uns momentos, ainda a tentar não tocar na caixa enquanto o fazia. Foi só nessa

altura que viu o bilhete.

Não olhara ainda para a caixa deste ângulo. A caixa não estava lá quando ele acordara, por isso não a vira da cama. Aparecera em algum momento entre as sete da manhã

e há cinco minutos atrás, quando ele regressara ao quarto. E agora havia este bilhete...

Preso a um dos lados com fita-cola, era um envelope amarelo-claro, dirigido a ele. Depois de se acalmar primeiro, respirando fundo algumas vezes, Hikmet inclinou-se

para a frente e arrancou a pequena missiva da madeira. Depois virou-a. A aba do envelope não estava colada mas metida para dentro. Levantou-a suavemente e olhou

para o que estava no interior.

O bilhete estava dobrado ao meio e, por isso, para o ler, ele teve de o retirar para fora do envelope. Contudo, quando o leu, o rosto mudou de cor, passando de moreno

a pálido, e Hikmet teve de enfiar uma ponta da coberta bordada na boca. Não queria que os polícias que se encontravam lá em baixo o ouvissem gritar.

Agora, pensou, enquanto, como louco, atravessava precipitadamente o quarto em direcção à janela, terei de sair daqui e de dizer a verdade a G. Agora é que não tenho

mesmo nada, que tenha valor, a perder.

- Hikmet foi sempre um actor medíocre. Sabia representar heróis unidimensionais, mas nada mais do que isso

Ainda não era uma hora da tarde e Ahmet Silay já estava embriagado. Enquanto falava, gesticulava profusamente para enfatizar os seus pontos de vista.

- A sua interpretação do perverso general Bekir Pasa no último filme que fez para Yesilcam foi verdadeiramente horrorosa - continuou Silay. - Quando ele saiu de

Istambul a dizer que ia ser uma estrela de Hollywood, ninguém acreditou nele. Eu só me ri.

- Mas ele, de facto, conseguiu fama, não conseguiu, senhor Silay? - disse Ikmen. - Enquanto que o senhor não - Silay tomou outro trago da sua garrafa de raki antes

de responder.

- Ah, sim - disse. - Mas isso não teve nada a ver com talento.

- Então teve a ver com quê, senhor Silay?

O actor idoso inclinou-se na direcção de Ikmen e sorriu. O hálito dele, sentia Ikmen, teria petrificado um homem mais baixo do que ele próprio.

- Ele tornou-se amigo de algumas pessoas de Las Vegas - disse Silay num sussurro de cena. - Pessoas que eram donas de Las Vegas naquela altura, se é que entende

o que eu quero dizer.

- Isso foi no início dos anos 1960, não foi?

- Quando Las Vegas estava cheia de italianos, sim. - O sorriso dele era torcido e amargo. - Quando todas as estrelas iam com as mulheres para Las Vegas. Quando um

homem disposto a fazer qualquer coisa para essa gente podia fazer a si próprio muitos favores.

Embora dificilmente fosse fã dos filmes de Hollywood, Ikmen tinha conhecimento de que se dizia que a Máfia estava envolvida na indústria do espectáculo, especialmente

em Las Vegas, naquela altura. Circularam até rumores da implicação de pessoas tão proeminentes como Frank Sinatra - rumores que, em relação a Frank, Fatma Ikmen

sempre refutara resolutamente. Nunca se chegou a provar nada, e nem o nome de Hikmet Sivas nem o mais conhecido Ali Bey tinham sido mencionados em ligação com tais

alegações. Se isso tivesse acontecido, Ikmen teria sabido. A imprensa turca ter-se-ia assegurado de que toda a gente soubesse.

Mas se Sivas tivesse estado envolvido com a Máfia, se tivesse enganado essa gente de alguma forma, isso poderia explicar o desaparecimento da mulher.

Como se estivesse a ler-lhe os pensamentos, Silay disse:

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- Provavelmente vai pensar que a Máfia tem a mulher dele. Ele decepcionou-os de alguma forma. Hikmet acaba sempre por decepcionar as pessoas. É internacional, essa

gente. Provavelmente esperaram que ele chegasse aqui para a raptarem porque sabem que a polícia turca não pode apanhar uma constipação sem ser ajudada.

Ikmen virou-se brevemente para olhar Tepe, que se limitou a encolher os ombros.

Ikmen voltou a olhar para os olhos vermelhos de Ahmet Silay.

- O senhor Sivas disse-lhe que estava envolvido com a Máfia?

- Não.


- Então...

- Olhe, ele costumava escrever-me, nos anos 1960 - o actor sorriu. - E depois, há dez anos, quando fui visitá-lo a Hollywood, estavam todos em volta da piscina turca

dele em forma de crescente.

- Quem? - perguntou Ikmen. - A Máfia?

- Os italianos! Alberto e Martino, Giovanni, Giulia; - todos em volta de uma piscina que "fazia publicidade" a este país. - Inclinou-se novamente para a frente e

o sorriso regressou. - Digo-lhe, a não ser alguém com relações poderosas, quem é que diria ao mundo que é turco? Na América? Não. Os Americanos e os Europeus odeiam

os Turcos. Çetin Ikmen, meu caro inspector, o senhor sabe que é assim, eu sei que é assim, somos criados a compreender isso.

Ikmen, que ouvira e que, ele próprio, sentia o mesmo, apesar disso não encorajou Silay a prosseguir por este caminho em particular.

- O senhor Sivas diz que o senhor inventa histórias, senhor Silay

- disse. Acendeu um cigarro e em seguida deu lume ao actor idoso.

- Gostaria de me falar disso? Silay riu.

- Bem, ele não quer que o senhor saiba que ele trabalha para a Máfia - disse. - Ele sabe que eu sou esperto, sabe que eu descobri.

- Na verdade, o assunto veio à baila quando eu perguntei ao senhor Sivas se podia confiar no que o senhor disse em relação ao caso Hatice Ipek - disse Ikmen. - Se

se lembra, o senhor disse que Hatice estava a ter um caso com o pasteleiro Hassan Seker.

- Sim, e mantenho! - respondeu Silay, os olhos agora furiosos.

- Lá porque eu bebo...

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- Geralmente os advogados esfolam pessoas como o senhor em tribunal, senhor Silay. Pessoas que fodem o cérebro todas as manhãs antes do pequeno-almoço! Perguntei



ao senhor Sivas qual era a opinião dele porque precisava de saber se podia sequer pensar em levar o caso a tribunal, se conseguisse mais provas. Desconfio que seria

difícil.


- Oh, advogados, advogados! - Silay levantou a garrafa em direcção ao tecto e soltou um riso rouco. - Não passam de prostitutas que trabalham para o estado! Não

se preocupam com o homem comum, apenas com dinheiro, dinheiro; tal como Hikmet!

- O dinheiro é importante, senhor Silay.

- Não, não é!

- Para aqueles que nunca sentiram falta dele, suponho que pode ser periférico - disse Ikmen num tom cáustico, lembrando-se do que Tepe lhe contara sobre as origens

privilegiadas de Ahmet Silay.

- Hikmet Sivas vendeu o corpo, a alma e os princípios por dinheiro.

- Sim, e o senhor provavelmente teria feito a mesma coisa, se tivesse nascido pobre - disse Ikmen, a sua paciência a atingir o ponto de rotura, provocada por este

velho amargo e falido, outrora um menino rico. E teria dito mais coisas nessa ordem de ideias, não lhe tivesse começado a tocar o telemóvel nesse momento.

Virou-se para atender. Tepe e Silay observavam ambos a parte de trás da sua cabeça, enquanto ele falava, por vezes impetuosamente, para o pequeno aparelho. A conversa

durou menos de um minuto. Mas quando Ikmen se virou para ficar de frente para os outros homens, o seu rosto adquirira a cor do pó. Tepe sentiu o coração a bater

acelerado.

- Inspector?

- Temos de ir, Tepe - disse Ikmen, levantando-se rapidamente. - Imediatamente.

Ela tivera todo o tempo que levaram a acalmar a senhora Ipek para pensar por que motivo Berekiah teria vindo ao seu apartamento. Primeiro, ela fizera chá para a

mãe da amiga, enquanto Berekiah desaparecera por breves instantes para comprar um maço de cigarros para Húrrem. E em seguida tinham conversado os três. Por vezes

sobre Hatice, mas, quase sempre e em termos mais gerais, sobre o quanto a vida

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podia ser cruel e como essa crueldade podia surgir tão repentinamente. Hulya sabia que Berekiah tinha experiência pessoal dessas coisas. Houvera apenas o brevíssimo

aviso do esgotamento nervoso do irmão mais velho, Yusuf, e não houvera tempo nenhum para se preparar para o grande terramoto de 1999, que tinha levado as pernas

ao pai de Berekiah.

Húrrem Ipek sentia-se encantada e consolada por Berekiah, mas Hulya só queria saber, antes de mais nada, o que o trouxera ali.

Finalmente, sentiram-se capazes de deixar Húrrem, e os dois jovens caminharam de volta ao vestíbulo cheio de pó e lixo.

- Na verdade, eu vim cá para ver se alguém da tua família queria ir ao hospital visitar o bebé de Mehmet - disse Berekiah. - Zelfa não pode receber pessoas em casa

normalmente porque fez uma operação. Mas a família fica muito feliz por ver os amigos no hospital e sei que Çetin Bey comprou um presente para o bebé.

- Quer dizer que vieste visitar o meu pai - disse Hulya, ao mesmo tempo que lutava para disfarçar a sua decepção.

- Não sabia quem é que estaria em casa - respondeu Berekiah. - Mas hoje é o meu dia de folga e ia a passar. Queres vir?

Hulya foi. E, assim, foram juntos, levando, de caminho, vários produtos alimentares, como a mãe de Berekiah tinha instruído o filho.

No entanto, quando chegaram ao hospital, Hulya viu imediatamente que nem tudo estava bem com a nova família. A doutora Halman, como ela agora se sentia obrigada

a chamar à esposa de Mehmet, ainda parecia exausta do mau momento que passara e mal conseguiu esboçar um sorriso, mesmo quando lhe trouxeram o pequeno Yusuf Izzeddin.

O pai, o doutor Babur, fez numerosas tentativas forçadas de entabular uma conversa alegre e que nem sempre resultaram. Sentia-se em tudo um constrangimento que Hulya

não conseguia compreender. Quando os bebés vinham ao mundo, as pessoas ficavam felizes. A mãe dela ficara sempre feliz quando chegava um bebé novo. A rapariga não

conseguia compreender por que motivo a doutora Halman tinha um ar tão triste.

Mas quando, um pouco mais tarde, Mehmet Suleyman chegou, o comportamento da doutora Halman modificou-se. Agora animada, ela passou rapidamente o bebé ao avô, e,

em seguida, segurou as mãos do marido nas suas. Levantando os olhos para os dele, ela ria muito perante

qualquer pequeno comentário que ele fazia, mesmo que fosse apenas remotamente divertido. Era quase como se, sentia Hulya, fosse o primeiro encontro da doutora Halman

com Mehmet e ela estivesse a tentar impressioná-lo. A mãe não olhara para o bebé nem por uma única vez desde que o marido chegara, e quando o próprio Mehmet queria

passar algum tempo com o filho, a doutora Halman deu nitidamente a impressão de estar com ciúmes. Tudo aquilo era muito estranho. Mas Hulya não disse nada sobre

as suas observações, nem sequer depois de ela e Berekiah terem saído.

Contudo, no caminho de regresso ao apartamento de Hulya, ao qual Berekiah insistira em levá-la, ele puxou o assunto do que tinham acabado de ver no hospital.

- Penso que a minha mãe tem razão quando diz que ter bebés tira muita energia às mulheres - disse ele, ao mesmo tempo que pegava na mão de Hulya para atravessarem

a rua. - Parece-me que Zelfa ainda está muito doente.

E Hulya concordou, embora não tivesse atribuído o que observara na doutora Halman a uma "doença" como tal.

- Mas nem todas as mulheres ficam assim doentes - disse ela.

- Não? - Agora que estavam de volta ao passeio, ele deixou que os seus dedos se desprendessem suavemente dos dela.

Hulya, sentindo que o perdera subitamente, forçou um sorriso.

- A minha mãe esteve sempre bem - disse ela. - E penso que eu também estarei... - se alguma vez tiver filhos. Hatice e eu sempre sonhámos ter o papel principal em

filmes...

- Bem, tu és... - Ele baixou os olhos por breves momentos, sorrindo depois para os olhos dela -, tu és muito bonita e, por isso, espero que consigas...

Hulya sentiu que o rosto se lhe incendiava, por isso desviou os olhos dos dele, fixando-os num eléctrico que passava.

- Obrigada - disse ela.

Ele puxou-a para que ela o encarasse e tocou-lhe a face com a mão.

Era uma imagem comovente, uma imagem que afectou Ayse Farsakoglu, que reparara que uma das filhas do inspector Ikmen estava a ser cortejada pelo filho do velho Cohen,

o Judeu. Ayse encontrava-se do outro lado da Divan Yolu, onde, cheia de calor, parara para comprar uma bebida. Por um momento, sentiu ciúmes. Nunca mais um

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jovem a faria corar, nem lhe pegaria ternamente na mão. Não que ela desejasse alguma dessas coisas de gente nova, é claro que não queria. Ela queria um homem, ter



um lar que fosse seu, e que a família deixasse de ter pena dela. Se não podia ter Suleyman, teria Orhan em vez dele. Assim que ele se divorciasse da mulher, ela

podia tê-lo e ninguém voltaria a ter pena dela.

Mas depois desligou a mente de Orhan e voltou a olhar para os jovens, desta vez franzindo o sobrolho.

CAPÍTULO ONZE

íkmen baixou o olhar para a figura enrolada de Metin Iskender, quando este inclinava a cabeça por cima do balde mais uma vez, a vomitar, mas sem conseguir fazê-lo.

- Quantas vezes é que ele vomitou? - perguntou Ikmen a Isak Çõktin, que, juntamente com todos os outros agentes colocados no interior da casa de Sivas, se encontrava

no patamar do lado de fora do quarto de Sivas.

Çòktin encolheu os ombros.

- Não sei, inspector - disse. - Não tenho estado assim tão preocupado com ele, para ser sincero.

Ikmen acenou com a cabeça. Podia compreender aquela atitude. Para além do facto de que Iskender não era particularmente estimado, o que acontecera na casa nas últimas

duas horas ensombrava quaisquer outras considerações.

Naquela manhã, cerca das onze e quarenta e cinco, Hikmet Sivas dissera que ia subir ao seu quarto para se deitar. Não conseguira dormir o suficiente na noite anterior

e estava cansado. Çõktin dissera que estava tudo bem, embora quando, passados cinco minutos, o inspector Iskender chegara, lhe tivesse perguntado se alguém devia

ir com Sivas para o quarto. Iskender dissera que não era necessário. Dali a pouco ele iria ver como estava a estrela. E fê-lo meia hora depois. O que encontrou foi

a ausência de Sivas e a presença de uma caixa desconhecida que ele cometeu o erro de abrir. Desde então que vomitava.

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Çóktin, as mãos cobertas pela fina brancura familiar das luvas cirúrgicas, segurava um pequeno pedaço de papel em frente do rosto de Ikmen.

- Encontrei isto junto à caixa - disse.

Ikmen fez-lhe sinal para que abrisse o bilhete para que ele o lesse.

- Marfim japonês -para ser pessoalmente entregue a Sua Majestade, o Sultão. - Ikmen, estranhamente, sorriu. - Que apropriado.

- Inspector?

- Tem a ver com História, Çòktin - disse Ikmen. - Com uma parte da História relacionada com traição descoberta e uma crueldade notável.

- E então o que quer isto dizer, inspector? - Tepe olhou por cima do ombro de Ikmen para o pequeno pedaço de papel que Çõktin segurava entre os dedos.

- As palavras são as mesmas que foram alegadamente escritas num bilhete enviado ao sultão Abdul Hamid II pelos homens que ele encarregou de executar o nosso grande

vizir reformador, Midhat Pasa. Midhat foi assassinado na Arábia, para onde fora exilado uns anos antes. Assim, o sultão, estando em Istambul, não viu, de facto,

o seu velho inimigo morrer. Mas porque era paranóico, razão pela qual, antes de mais, tinha mandado matar Midhat, ele não acreditou que isso tinha acontecido enquanto

não viu a cabeça de Midhat, que chegou, segundo consta, passadas algumas semanas juntamente com um bilhete como este.

- Ah.


- Para alguém que conheça esta história, faria sentido. E o senhor Sivas, obviamente, conhecia-a, porque não abriu a caixa. - Ikmen suspirou e levou a mão à cabeça,

que lhe começava a doer. - Ele simplesmente fugiu de uma casa cheia de agentes da polícia e agora ou está em perigo ou escondeu-se. Como é que isto aconteceu, sargento

Çòktin?

Çõktin, que conhecia suficientemente bem Ikmen para reconhecer que a sua calma exterior não estava destinada a durar, começou:

- Bem...

- Aconteceu porque todos vocês meteram água, não foi?

- Aaaa...

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- Não ficaram com o senhor Sivas todo o tempo, como tinham sido instruídos, e também não conseguiram vigiar esta propriedade como devia ser. - Sentou-se ao lado

de Iskender no banco estofado a brocado que se encontrava do lado de fora do quarto de Hikmet Sivas. - Comportaram-se todos como um punhado de amadores. Facilitaram

uma catástrofe.

Metin Iskender, que só agora conseguira parar de vomitar, levantou o olhar.

- Sivas já tinha estado sozinho no quarto antes - disse -, para ir dormir.

- Não quando eu estava nesta casa! - gritou Ikmen, à medida que as comportas da sua raiva finalmente cediam. - Enquanto eu aqui estive, houve sempre pelo menos um

homem no exterior das divisões em que se encontravam membros da família Sivas! Até quando a irmã ia à casa de banho!

- Inspector...

Ikmen virou-se para Iskender.

- Tu e eu ambos sentimos que Sivas estava a esconder alguma coisa. Agora que ele desapareceu, perdemos a única ligação, sem dúvida ténue, que poderíamos ter tido

com os assassinos de Kaycee! Tu lixaste tudo e de que maneira!

O rosto de Iskender, já sem cor, tornou-se ainda mais pálido.

- E, como inspector à frente desta investigação - disse Ikmen furiosamente -, sou eu que agora tomo conta das coisas pessoalmente. - Olhou em redor, para todos os

outros agentes que se encontravam no patamar, antes de voltar a fixar Iskender. - Acabou-se o trabalho paralelo entre nós. Tu fazes sempre o que eu disser, e, se

não fores capaz, não fazes nada!

- Mas isso o comissário é que...

- O comissário, quando souber disto, ficará louco! - gritou Ikmen na cara de Iskender. - Tu eras o responsável! Fizeste asneira e vais arcar com as consequências,

como um homem!

Levantou-se e dirigiu-se a Tepe Orhan:

- Bem, é melhor darmos uma olhadela ao que está ali e depois vou começar a ver se salvo alguma coisa desta catástrofe.

- Sim, inspector.

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Ikmen caminhou em direcção à porta do quarto, respirou fundo e entrou.

A caixa estava exactamente como Iskender a deixara. A tampa estava de fora e o jornal manchado de sangue que servira de enchimento estava espalhado pelo chão.

Antes que lhe faltasse a coragem, Ikmen atravessou o quarto em direcção à caixa e olhou lá para dentro. O rosto estava virado para cima, obviamente para exercer

o máximo impacto na pessoa que abrisse a caixa. E embora os olhos estivessem apenas meio abertos, o olhar que Kaycee Sivas parecia estar a dirigir-lhe era um olhar

cheio de acusação. Quem quer que lhe tivesse cortado a cabeça tinha-o feito de uma forma muito limpa, logo abaixo do queixo. Em seguida tinham-lhe puxado o cabelo

comprido e loiro para cima, para o alto da cabeça, de forma a parecer uma grande almofada na coroa do crânio dela.

Ikmen afastou-se para permitir a Tepe olhar rapidamente para a cabeça.

- O inspector Iskender e eu vimos uma cabeça como esta em Edirnekapi, quando eu trabalhava com ele, há uns anos atrás - disse Tepe, usando as palavras para impedir

que o enjoo lhe subisse à garganta. - Provavelmente é por isso que o inspector está tão enjoado agora.

- Neste momento não me interessa, Tepe - Ikmen sentou-se à ponta da cama e acendeu um cigarro. - Teremos de informar o doutor Sarkissian. Para ver o que ele nos

pode dizer sobre isto.

- Sim, inspector.

Ikmen tirou uma forte fumaça do cigarro e deixou sair o fumo com um suspiro.

- Vou precisar de interrogar o irmão e a irmã - disse. - Trata disso.

- Sim, inspector. Quer que eu contacte também o doutor Sarkissian?

- Não. Eu faço isso.

Tepe congratulou-se por deixar a sala. Ikmen, agora sozinho, tirou o telemóvel do bolso e marcou o número do médico. Enquanto esperava que a voz familiar respondesse,

voltou a olhar para a caixa por um

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segundo apenas, e depois fechou os olhos. Kaycee Sivas era jovem e muito bonita e, fosse o que fosse que ela tivesse ou não tivesse feito na vida, não merecera um



fim tão horrível. Ela devia ter ficado tão aterrorizada...

Mas Ikmen não ficou e não podia ficar a matutar em tais assuntos, e, quando o doutor Sarkissian finalmente atendeu o telefone, deu-lhe a informação que precisava

com uma fria indiferença.

O homem que todo o bairro conhecia como Rat estava morto. Sob tortura, confessara que falara com Ikmen sobre uma coisa que não devia. E eles tinham-no assassinado.

Só para terem ainda mais a certeza, também queimaram o corpo num depósito de lixo junto ao miserável Topkapi Bit Pazan, a "feira da ladra" onde a pobreza significava

roupas que se desfaziam nas nossas mãos e onde o corpo de um homem podia ser queimado como um pedaço de um farrapo. Rat, quem quer que ele fosse, ou fora, não seria

mais encontrado.

Hassan Seker chorava ao pensar nestas coisas. Chorava porque era culpado. Se não tivesse contado que vira Rat seguir Ikmen para a Ticarethane Sokak, nada disto teria

acontecido. Mas ele fizera-o; Rat era um conhecido informador da polícia e Hassan estava assustado. Tão assustado!

Ainda estava. O medo não diminuíra. Como a sua mulher era tão amiga de dizer quando um ou outro dos seus "sócios de negócio" aparecia napastane. "Tu vês estes rapazes

falsos e duros, mas não sabes realmente para quem eles trabalham, pois não?"

Suzan estava enganada, neste caso. Hassan sabia, de facto, agora, e era por isso que o seu sangue era como gelo. Mesmo tendo feito tudo o que podia para agradar

àqueles em cujos nomes ele nem sequer podia pensar com medo de ser descoberto, sabia que eles o culpavam por muita coisa que correra mal - simplesmente devido à

sua relação romântica com Hatice. Se ao menos ele possuísse a força do pai! Kemal Seker resistira sempre e com paixão a todas as tentativas de aproximação, ofertas

e ameaças dessa gente. Nenhum bem poderia daí advir, dizia ele. E tinha razão. Apesar de todas as esmolas e de todos os favores que Hassan recebera, o que agora

experimentava, a agonia do medo, não valia nada disso.

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Com Rat afastado dos seus pensamentos, o que acontecera à pequena Hatice era insuportável. Não que ele tivesse tido alguma coisa a ver com o assunto. Na verdade,



se ele tivesse sabido o que estava planeado, o que realmente estava planeado, em oposição às meias verdades que lhe diziam, ele nunca a teria envolvido. A rapariga,

dissera-lhe Ekrem, fora vista e profundamente desejada. E embora Hassan lhes tivesse dito que ela estava apaixonada por ele, isso não alterara nada não com "aquele

homem" envolvido. Não. Mas, se ele não lha tivesse dado a eles, àquele homem de que não se pode dizer o nome, eles tê-la-iam levado. Nada teria mudado.

Mas o facto de pensar na morte de Hatice como algo inevitável não o fazia sentir-se melhor. Tinha saudades dela, ela fora tão doce. E ele não beneficiara em nada

com as suas próprias acções. Não agora, que outro sócio mais poderoso e, para os seus "amigos", muito mais útil, estava envolvido. Para além do dinheiro que ele

lhes pagava numa base mensal, Hassan era agora quase supérfluo. Quase, mas não verdadeiramente. Alguém que carregasse com as culpas das acções deles era sempre útil,

e o polícia Ikmen, apesar de Hassan se ter esforçado ao máximo, continuava a persegui-lo. Em breve estaria de volta, a fazer perguntas, a avançar. O que iria dizer

Hassan, o que poderia ele dizer sem deixar escorregar nada?

Hassan Seker baixou a cabeça, segurando-a com as mãos, e chorou novamente. Desta vez a mulher, ao ouvir ruídos que pareciam de um animal dorido, entrou no escritório

do marido sem bater. Ficou à entrada a observá-lo. Pobre fraco, ele dera realmente cabo da sua vida ao misturar-se com pessoas como Ekrem Múren. Ou talvez ele estivesse

simplesmente a chorar porque Hatice morrera. Ao contrário de todas as outras raparigas que ele seduzira ao longo dos anos, Hassan parecera mesmo gostar dela. Não

que essa certeza tornasse as coisas mais fáceis para Suzan. Ela amava e odiava o marido em igual medida, e, por isso, em vez de se aproximar para o consolar, limitou-se

a fechar a porta do escritório com um pé e foi tratar da sua vida.

- Vou precisar de ajuda - disse Ikmen, enquanto andava agitadamente para trás e para a frente pela sala, um cigarro sempre presente nos lábios.

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- E vais tê-la - respondeu o superior. - Basta dizeres quem queres e o que queres e ser-te-á dado.



Ardiç estivera em casa de Sivas apenas durante meia hora. Durante esse tempo, Ikmen e os seus homens, incluindo o inspector Iskender, tinham-no colocado ao corrente

dos factos relacionados com Hikmet e Kaycee Sivas. Por vezes ele parecera ameaçador, mas não ficara louco. Tendo em conta o que acontecera e como, com efeito, se

deixara que acontecesse, isso era surpreendente. Ardiç era famoso pelo seu carácter vulcânico, e, dada a natureza deste caso, de altos contornos, podia-se esperar

que ele estivesse furioso. Mas não estava, o que fez com que Ikmen se sentisse enervado e profundamente desconfiado.

- Se Ahmet Silay tiver razão sobre as ligações de Sivas à Máfia disse Ikmen -, vou precisar de falar com agentes na América. Na verdade, eu devia falar com eles

agora, se Sivas for "conhecido".

- Sim, daqui a algum tempo isso será possível - respondeu Ardiç, limpando com um lenço o rosto, que transpirava abundantemente, enquanto falava. - Mas uma vez que

isso é tudo bastante especulativo...

- Bem, para mim há provas suficientes! - gritou Ikmen. - Até me basta a sugestão de que a Máfia possa estar entre nós. As nossas próprias famílias mafiosas já são

suficientemente más, mas estas pessoas são peritas. Inventaram o crime organizado!

- Não temos provas.

- Quero saber o que sabem os americanos, se é que sabem alguma coisa.

- E eu estou a dizer que enquanto não tivermos mais alguma coisa para além das recordações amargas de um rival invejoso e embriagado, dominado por uma imaginação

fértil, não posso...

- Sim, pode! - Ikmen encontrava-se agora perto de Ardiç, suficientemente perto para ver a agitação que lhe aflorava às faces cheias de veias. - Você é o comissário

da Polícia, tem razões para suspeitar de que Hikmet Sivas tem ligações com a Máfia! - Apontou com um braço na direcção das escadas que conduziam ao quarto de Sivas.

Tenho a cabeça da mulher dele ali em cima! As coisas não podem ficar mais sérias do que isto!

Ardiç, num acto de autodomínio raramente associado a ele, baixou o tom de voz.

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- Tal como te disse antes, íkmen - disse -, respeitaremos os procedimentos. Tu e eu interrogaremos Vedat e Hale Sivas. Com base nisso e nas eventuais informações



que os nossos agentes consigam reunir de pessoas que vivam nas redondezas, montaremos uma busca a Hikmet Sivas.

- Ele pode estar em qualquer sítio! - Ikmen apagou num dos cinzeiros o que restava do cigarro e acendeu um novo.

- Razão pela qual precisamos de falar com aqueles que lhe são mais próximos - respondeu Ardiç -, para descobrirmos aonde é que ele possa ter ido.

Ikmen sabia que, em certo aspecto, Ardiç tinha razão. Sem uma noção do local para onde Sivas pudesse ter ido, a polícia andaria apenas às voltas sem obter quaisquer

resultados. Não que Vedat ou Hale tivessem, de alguma maneira, colaborado particularmente, por enquanto. A mulher não fizera mais do que jorrar intermináveis lamentações

de inspiração religiosa através das lágrimas, enquanto que o irmão, o rosto transformado numa transpirada sombra pálida, sentara-se simplesmente, em silêncio, como

alguém numa fuga. Sem dúvida em estado de choque, Ikmen sentia que eles falariam em breve. Mas quando o fizessem, o que diriam? Havia quarenta anos que o irmão Hikmet

não vivia na cidade; como é que eles haveriam de saber onde ele podia ter ido? A não ser, é claro, que também eles tivessem ligações com a Máfia. Ikmen achava improvável

que Hikmet tivesse participado ou tivesse tido conhecimento do rapto e da morte de Kaycee. Parecia que ele lera apenas o bilhete colado à caixa, percebera exactamente

o que significava, e em seguida, no seu sofrimento, fora enfrentar o que quer que fosse que estivesse guardado para ele - ou isso, ou simplesmente fugira de terror.

Escrito em turco, provavelmente para que não houvesse dúvidas de que Hikmet compreenderia o seu significado, o bilhete fora inteligentemente dirigido a um homem

que toda a gente sabia - era fascinado pela história da sua nação e cuja alcunha nos seus primeiros dias de Hollywood fora o Sultão.

Embora não fosse, de modo algum, uma pessoa intuitiva, Ardiç estava também a pensar na língua em que o bilhete estava escrito.

- O facto de o bilhete ter sido escrito em turco não me sugere o envolvimento da Máfia - disse o comissário, ao mesmo tempo que observava o suave reflexo das águas

do Bósforo, lá fora, formarem

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padrões no tecto do enorme salão. - Quer dizer, já alguma vez viram um americano que saiba falar turco? Eles não precisam do turco. E quanto aos sicilianos...

Ikmen suspirou. Não sabia se Ardiç estava a ser deliberadamente obtuso ou apenas completamente estúpido.

- Não me parece, comissário - disse com firmeza -, que o turco seja uma língua assim tão estranha que as famílias do crime internacionais e sofisticadas não tenham

acesso a ela.

- Duvido que as nossas próprias famílias mafiosas saibam sequer escrever na sua própria língua.

- Comissário, não estamos a falar das nossas próprias famílias mafiosas!

- Mas estávamos, na reunião desta manhã.

- Sim, porque o inspector Iskender sentia que o envolvimento de famílias mafiosas era possível por causa do silêncio existente nas ruas - disse Ikmen. - Mas a cabeça

de Kaycee, que está lá em cima dentro de uma caixa que aparentemente entrou misteriosamente nesta casa por artes de djinn, juntamente com o que eu consegui saber

hoje através de Ahmet Silay, sugere um nível de sofisticação muito mais avançado do que qualquer coisa que se pudesse encontrar em Edirnekapi. Segundo Iskender,

o próprio senhor comissário queria que eu descobrisse mais sobre as origens de Sivas. Pensei que podia começar por esse tal agente, Gee.

- Humm, temos de ter cuidado, Ikmen - Ardiç franziu o sobrolho. - Sivas é uma estrela de cinema muito respeitada. Há alguns anos adquiriu a nacionalidade americana.

Agora é um deles. Este país tem boas relações com os Estados Unidos. Qualquer insinuação de que os impérios deles do crime estão a operar noutro sítio poderia ser

uma ofensa, a não ser que fosse bem fundamentada, e, se se revelasse errada, poderia ser extremamente embaraçosa para nós.

Ikmen, exasperado, levantou os braços.

- Oh, por favor, não ofendamos nem pareçamos estúpidos aos olhos dos Americanos! - fixou o rosto de Ardiç. -Já lhe ocorreu, comissário, que a própria polícia deles

possa ficar contente com essa informação? Se falássemos com eles, poderíamos saber em que ponto é que eles estão. É só isso que eu quero fazer.

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- Está bem! Está bem! - Ardiç, aparentemente derrotado, suspirou. - Mas eu é que falo com eles, e com esse tal agente também, se quiseres, mas tu não. E, a partir

de agora, rodeamos este caso de silêncio. Os meios de comunicação social não publicarão mais nada sobre o assunto; já tratei disso.

- Comissário...

- Eu assumi o comando. Por breves momentos, os olhos de Ardiç incendiaram-se. - Não quero que andes por aí a perseguir as tuas próprias teoriazinhas e suposições

nas minhas costas. - Olhou Ikmen fixamente. - Sei que ainda andas a intrometer-te na investigação do caso Hatice Ipek, Ikmen. Sei também que deduziste, ou pensas

que deduziste, a existência de um envolvimento qualquer de famílias mafiosas também nesse caso.

- Como sabe isso? - Ikmen sabia que não discutira e jamais teria discutido nada daquilo com Ardiç.

- Deixa Hassan Seker em paz - disse-lhe o superior, e, cansando-se, finalmente, da conversa, levantou-se laboriosamente. - É tudo o que tenho para dizer, Ikmen.

Não tens quaisquer provas contra ele, para além do seu envolvimento romântico com aquela rapariga.

- Ele apresentou queixa contra mim? - Ikmen sentia que o rosto lhe corava de raiva. - Eu nem sequer falei com ele.

- Deixa simplesmente as coisas como estão!

E assim, por enquanto, foi o que Ikmen fez. Parecendo intimidado, seguiu o superior para o escritório da casa de Sivas, onde Hale e Vedat estavam à espera deles,

impassíveis.

Mas, por dentro, Ikmen fervia. Vira Hassan Seker na noite anterior, quando chegara a casa ao fim do dia de trabalho, mas não tinham falado. Será que Hassan o vira

com Rat? Toda a gente sabia quem era Rat e o que era, mas se Hassan ouvira alguma informação acerca de assuntos de "famílias mafiosas", não se percebia por que contara

a Ardiç. Por que motivo Ardiç só agora falava nisto a Ikmen, também era um mistério.

A não ser, é claro, que Hassan Seker não tivesse apresentado qualquer queixa. A não ser que a informação viesse algures de uma fonte mais próxima de casa...

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Era uma reacção extrema a uma linha de interrogatório a que, de forma alguma, se poderia chamar agressiva. Aconteceu simplesmente, quase antes de Vedat Sivas ter

tido consciência de que tinha acontecido. Urinou-se. O polícia baixo e magro, Ikmen, fez-lhe uma pergunta e Vedat, torturado por pensamentos sobre o que o irmão

poderia estar a fazer agora, urinou-se literalmente.

- Não faço ideia onde o meu irmão Hikmet possa ter ido - disse ele, baixando o olhar para o chão, horrorizado, à medida que o líquido da sua bexiga se espalhava

pelo veludo vermelho do estofo da cadeira em que estava sentado. - Hikmet é uma grande estrela. Eu não passo de um simples guarda-nocturno. Posso viver na magnífica

casa do meu irmão, mas, mesmo assim, sou um simples guarda-nocturno.

- Tu é que quiseste assim - disse a irmã, enquanto lhe passava uma caixa de lenços de papel, no rosto uma expressão de desgosto profundo.

- Talvez. Deu uma pancada leve e precipitada no gancho das calças com um lenço de papel e em seguida, envergonhado, atirou a caixa para o chão.

Todos sabiam - bem se via - o que ele fizera. Mas ninguém falou no assunto. Nem Ikmen nem o seu corpulento superior, nem sequer Hale.

- Onde trabalha, senhor Sivas? - perguntou Ikmen, sorrindo até, enquanto falava.

Bem dentro de si, Vedat rezava para morrer. Precisava de ter cuidado, muito cuidado, ao falar com estes polícias. Respirou fundo. Com sorte, não voltaria a respirar

novamente, talvez...

Mas respirou e, assim, tinha de falar.

- Trabalho em vários sítios... - A voz diminuiu-lhe de intensidade, a garganta demasiado seca para que ele pudesse continuar.

- Ah sim? - disse Ikmen com um sorriso. - E onde são eles, senhor Vedat?

Hale olhou de lado para o irmão, e voltou a dirigir modestamente o olhar para o chão. Vedat pigarreou.

- Trabalho duas noites no Hotel Etap Marmara, uma no Palácio Yildiz e uma no Hotel Cirran Kempinski.

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- Mas neste momento está de férias, não é verdade?

- Sim. Para ver o meu irmão. Amanhã à noite regresso ao trabalho, no Ciragan - disse isto com alguma urgência, como se tal lhe tivesse acabado de ocorrer.

Ikmen encolheu os ombros.

- Bem, isso pode não ser possível, senhor Vedat. - Anotou qualquer coisa no bloco de apontamentos e, feito isso, levantou o olhar. Foi aqui cometido um homicídio.

Ninguém pode sair. Vamos precisar de revistar a casa e os terrenos em volta à procura de mais provas, possivelmente até do corpo da sua cunhada.

Hale tapou os olhos com as mãos e disse:

- Alá!

- E o meu trabalho?



- O seu irmão sabia onde você trabalha e em que dias? - perguntou Ikmen.

Vedat sentiu que a bexiga se lhe soltava mais uma vez.

- Não.

- Quer dizer que pensa que ele não pode ter ido a nenhum dos locais onde você trabalha para esperar por si, não é verdade? Ambos os hotéis e o palácio são complexos



de dimensões consideráveis. Um homem podia esconder-se lá durante dias.

- Mas Hikmet sabe que estou de férias.

- Ah, sim - Ikmen sorriu -, é claro.

- Não consigo compreender é por que estamos aqui sentados enquanto o meu irmão foi misteriosamente levado por assassinos disse Hale, os olhos agora a brilharem,

marejados de lágrimas. Embora exteriormente ela desse sempre a impressão de ser dura, Hale tinha, de facto, um coração bastante sensível, especialmente quando se

tratava de Hikmet. Desde que ele ouvisse de vez em quando os discursos de motivação religiosa dela, Hikmet podia fazer o que lhe apetecesse.

- Estamos a fazer-vos estas perguntas agora para podermos ter alguma hipótese de encontrar o seu irmão - disse o polícia gordo, que aparentava ser mais velho.

- Mas se ele se encontrar na mão de assassinos...

- Pensam, então, que o meu irmão pode ter assassinado a mulher? - perguntou Vedat. Era provavelmente uma estupidez dizer aquilo. Mas ele tinha de saber, de tentar

descobrir o que se passava, na realidade, na cabeça deles.

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Os polícias olharam um para o outro e, em seguida, Ikmen, novamente com um sorriso, disse:



- Não, senhor Vedat, não pensamos.

Vedat sentiu o sangue desaparecer-lhe do rosto.

- Ah.

Apercebeu-se demasiado tarde de que a sua reacção fora demasiado em surdina. Ikmen já ia bem avançado no seu discurso sobre a forma como a ideia era absurda, quando



Vedat, finalmente, conseguiu parecer aliviado.

CAPÍTULO DOZE

Mesmo agora, aos sessenta e tal anos, Muazzez e Yúmniye Heper eram mulheres "modernas". Tal como Atatiirk, o general Heper, seu pai, acreditava que as mulheres podiam

trabalhar como os homens, podiam tomar decisões "de homens" e deviam ter o mesmo valor que os filhos homens. As meninas Heper tinham escolhido ser costureiras porque

gostavam de coser e gostavam de moda, e não por sentirem que apenas poderiam desempenhar trabalho "de mulheres". Contudo, mesmo depois dos sessenta anos, elas não

se vestiam nem como costureiras nem como modelos da Vogue.

Um filme que ganhara alguma popularidade nos anos 1950 era Nebahat, o Motorista. Contava a história de uma mulher motorista de táxi que se vestia como um homem e

que se juntava aos homens seus colegas de profissão para dizer piadas. Nebahat, embora inteiramente casta, era um dos rapazes. E embora as irmãs Heper fossem demasiado

finas para se comportarem assim, vestiam-se ambas como Nebahat. A menina Muazzez, em especial, lembrava-se Ikmen, tinha uma grande paixão por casacos curtos de cabedal

e calças de tecido grosseiro, práticas. Sorriu ao pensar nisso agora, enquanto caminhava ao longo da Nuhkuyusu Caddesi em direcção à fachada inclinada da casa das

irmãs Heper. Já não havia muitas casas antigas de madeira, como esta, nesta parte de Uskúdar; havia apenas esta e aquela ligeiramente mais pequena um pouco mais

atrás, na direcção do cemitério, e em que o próprio Ikmen crescera.

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Empurrando com o pé a cancela do jardim agora muito deteriorada, Ikmen olhou a casa das irmãs Heper por um momento. Feita toda ela em madeira, erguia-se sobre o



terreno considerável de uma existência solitária e pouco cuidada e entre uma bomba de gasolina e uma fileira de lojas sem graça que tinham sido construídas nos anos

1970. Tal como a casa do próprio pai de Ikmen, fora sempre negra, mas agora o edifício tinha também um aspecto sujo, a tinta a despegar-se em enormes tiras das colunas

que suportavam a varanda ornamentada por cima, fendas consideráveis nas telhas do telhado. A medida que Ikmen subia as escadas que levavam à porta da frente, por

baixo dos seus pés as tábuas gemiam sob o seu magro peso. Colocou junto aos pés o saco com o vestido que Hatice Ipek usava quando morreu e tocou à campainha. Enquanto

esperava que alguém atendesse, Ikmen olhou casualmente para trás, para a rua. Uma mulher baixa, de meia-idade e flamejante cabelo ruivo encontrava-se junto à cancela

das irmãs Heper e olhava-o atentamente. Era enervante e Ikmen estava prestes a dizer qualquer coisa à mulher quando a porta se abriu atrás dele.

Como era de esperar, foi Yúmniye Heper que o mandou entrar aquela que, como Lazar, o ourives, dissera a Ikmen, não era cega.

- Çetin Ikmen! - disse Yúmniye, ao mesmo tempo que o seu rosto idoso mas ainda claramente bonito se abriu num sorriso - Que surpresa!

Estendeu-lhe a mão e Ikmen apertou-a nas suas. Como dois homens, dois homens europeus, apertaram as mãos. O aperto de mão dela era firme, embora Ikmen sentisse nitidamente

a pressão de ossos contra ossos, enquanto lhe apertava os dedos. Artrite - aquela "dádiva" do duro Inverno de Istambul. E que também atormentara o pai dele.

Depois de dispensar as tradicionais perguntas sobre a saúde dele e da família, Yúmniye conduziu Ikmen a uma grande sala nas traseiras da casa e que era agraciada

com numerosos e confortáveis canapés e bonitas carpetes, ainda que algo desbotadas. Depois de o ter instalado no mais confortável dos canapés e de lhe ter trazido

um cinzeiro, Yúmniye afastou-se para ir buscar a irmã, que, disse ela, estava ocupada na sala de trabalho. Durante a sua ausência, Ikmen pensou como poderia abordar

o assunto do vestido que Arto Sarkissian tão gentil e arriscadamente colocara à sua disposição. A sala não deixava de ser, para ele, um espaço familiar. Não mudara

nada, esta sala a que o velho

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general costumava chamar o seu "salão". Até à morte da mãe, tinha ele dez anos, Ikmen e o irmão Halil eram visitas regulares da casa dos Heper. As provas de pequenos

fatos, para casamentos de parentes, para a festa que o pai de vez em quando dava para os membros da sua faculdade e por altura da circuncisão dos filhos - todas

aconteceram aqui. Por vezes, lembrava-se Ikmen, o general Heper, ainda refém da sua educação nobre, enfiava a cabeça à porta para espreitar e dizia qualquer coisa

em francês.

- Há muito tempo que o nosso estimado inspector não se sentava nesta sala - disse Yúmniye Heper, voltando a entrar, desta vez na companhia da irmã, uma versão elegante

e ligeiramente mais jovem de si própria.

- É verdade. - E Muazzez Heper sorriu, os olhos a movimentarem-se como se ainda possuíssem visão. No entanto, quando se dirigiu a Ikmen, era óbvio que não o via.

A medida que Yúmniye a ajudava a sentar-se na única cadeira próxima das janelas francesas, Muazzez falou com a visita como se ela se encontrasse junto à lareira

- até que lhe ouviu a voz e virou a sua figura vestida de cabedal para ficar de frente para ele.

- Então o que o traz a Uskúdar, inspector? - perguntou Muazzez, depois de a irmã ter saído para fazer chá e para ir buscar o número necessário de doces que imaginava

que a visita pudesse desejar.

Ikmen sorriu. Mesmo desprovida de visão, Muazzez Heper, que sempre fora a mais directa e a mais "europeia" das duas, via que esta não era uma visita social. Afinal,

Ikmen visitara apenas as irmãs Heper três ou quatro vezes desde que entrara para a polícia no final dos anos 1960. Depois disso, ele, a sua jovem noiva e o filho

pequeno, Sinan, tinham-se mudado para Sultanahmet, do outro lado do Bósforo. Aí ele alcançara êxito, empurrando Uskúdar e a amargura que rodeou a morte da mãe, em

1957, para a escuridão do passado.

- Na verdade, vim mostrar-vos um vestido, menina Muazzez disse.

- Sim? - A mulher tirou um maço de cigarros de um dos bolsos das calças e acendeu um cigarro. - Porquê?

Ikmen baixou-se para abrir o fecho do saco.

- Porque penso que é possível que a senhora ou a menina Yúmniye o tenham feito - respondeu. - Há algum tempo, já é velho.

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- É possível - Muazzez encolheu os ombros. - De que cor é? E qual é o padrão?

- É parecido com um que creio que fez recentemente para uma noiva rica - respondeu Ikmen. - Século XIX, estilo otomano. Vi o vestido de noiva na loja de Lazar em

Kapali Çarsi.

Yúmniye regressou com um tabuleiro de copos de chá e pratinhos com lokum e chocolates, que colocou em cima da mesa que se encontrava entre os canapés. Serviu Ikmen

e a irmã e só quando eles estavam acomodados é que ela se sentou, ao lado de Ikmen.

Muazzez Heper foi a primeira a quebrar o silêncio.

- Çetin tem um vestido para nos mostrar, Yúmniye - disse Muazzez. - Pensa que é capaz de ser um dos nossos.

Yúmniye olhou a visita com um ar intrigado. Ikmen enfiou a mão no saco e tirou o vestido de forma a que a saia ficasse aberta no chão como um leque.

- Hmm - Yúmniye Heper franziu o sobrolho. - Sim, penso que é capaz de ter razão.

- É um dos nossos?

- Talvez - Yúmniye pegou na ponta da saia e passou-a entre os dedos para examinar mais atentamente o ponto na bainha. - Embora tivesse de ser um que fizemos há muito

tempo. É cetim jaspeado disse ela, fitando de lado os olhos invisuais da irmã. - Creme e cor-de-rosa. Embora esteja desbotado, como é de esperar, pelo tempo.

- E o padrão?

Os olhos e as mãos de Yúmniye viajaram pelo vestido acima até às mangas.

- De noiva otomana - disse. - Coberto com aquelas pequenas rosas de tecido tão em voga naquele tempo. Fizeste-as em tule verde

e...


- Não, rosas não...

A irmã levantou os olhos do tecido. O rosto de Muazzez não estava agora virado para ela e para Ikmen. O perfil dela, as acentuadas curvas delineadas pela luz que

entrava através das janelas francesas, apontava directamente para a velha lareira coberta ao canto da sala.

- Muazzez - começou Yúmniye -, penso que...

- Eu fiz tulipas. A tulipa é uma flor otomana. As rosas não teriam sido adequadas. Se tem rosas, não pode ser um dos nossos vestidos.

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- Mas...

- Não. Não é, Yúmniye. As rosas dizem-me que não pode ser. Apagou o cigarro no cinzeiro e acendeu outro imediatamente. - Tu esqueces estas coisas. Eu não, sabes?

Yúmniye encolheu os ombros e colocou o corpete do vestido novamente no saco, levantando depois o olhar para Ikmen.

- Bem, Çetin - disse ela -, eu teria jurado que era um dos nossos, mas se Muazzez pensa que não é...

- A minha pobre irmã sofre da mesma doença que o general disse Muazzez. - Confunde-se facilmente.

Ikmen suspirou.

- Compreendo - Olhou para Yúmniye e acrescentou: Lamento muito, menina Yúmniye.

Ela limitou-se a sorrir. A história do general Heper e do seu falecimento era bem conhecida. Alguns diziam que o estado dele começara com a morte da sua segunda

mulher, quando Muazzez tinha apenas doze anos, outros diziam que o que ele testemunhara durante a Primeira Guerra Mundial e a Guerra de Independência apanhara-o

completamente. Outros ainda defendiam que o seu estado de demência tinha origem nos seus genes. O facto era que, algures no início da década de 1950, o general Heper

desenvolveu uma forma de demência que, por volta de 1960, resultou no seu total afastamento da vida social. As filhas cuidaram dele até à sua morte, que ocorreu

em 1973. Recebeu o melhor acompanhamento médico que o dinheiro podia comprar, e, através do talento que evidenciavam para lidar com agulhas e máquinas de costura,

as filhas conseguiram comprar ao senhorio a casa onde moravam. Desta forma, asseguraram tanto o seu próprio futuro como o dele. Agora, contudo, pelo menos era o

que transparecia do que acabara de ser dito, as coisas tinham tomado um rumo triste. Com Muazzez cega e Yúmniye aparentemente nos estádios iniciais de demência,

seria necessário mais dinheiro do que aquele que elas possivelmente podiam ganhar. As irmãs Heper, afinal, só se tinham uma à outra. De súbito, Ikmen sentiu-se mal

por tê-las incomodado. É que, embora o seu comportamento estivesse agora calmo, a menina Muazzez não gostara quando a irmã discordara dela em relação às rosas do

vestido. Muazzez, bastante literalmente, afastara-se do assunto. O facto de que as irmãs tinham, muito mais recentemente,

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feito outro vestido no estilo otomano que estava coberto com rosas em tecido era algo que Ikmen não se sentiu à-vontade para mencionar.

- Então podemos saber por que se interessa pelo vestido, Çetin? - perguntou Yúmniye, interrompendo os pensamentos de Ikmen.

- Tem a ver com um caso em que estou a trabalhar - respondeu ele, ao mesmo tempo que recolhia o vestido e o voltava a colocar no saco.

- Ah, então está relacionado com Hikmet Sivas. Com o desaparecimento da mulher dele - Yúmniye sorriu excitadamente. - Vi-o, a si, na televisão, no plano de fundo.

Falou outro agente, mas eu sabia que era você. Penso que foi há uns dias atrás, ou ontem. Ainda não acabou?

- Mas esse vestido não pode ter nada a ver com isso, pois não? disse Muazzez com brusquidão, virando a cara mais uma vez. Aquela mulher é americana. Não podia estar

a usar um vestido otomano.

- Ah, sim, mas se Çetin sabe certas coisas sobre o assunto que nós não sabemos...

- De facto, tem razão, menina Muazzez - disse Ikmen, e sorriu-lhe de esguelha. - Este vestido não faz parte dessa investigação. Fez uma pausa de um segundo apenas,

antes de continuar, um segundo durante o qual pensou se lhes devia contar a elas, ou melhor, a Muazzez, a verdade. Decidiu que ia fazê-lo. - Uma rapariga que pensamos

que pode ter-se envolvido em prostituição estava a usá-lo quando morreu.

- A sério?

- Sim.

- Que coisa terrível!



Mas Ikmen não viu a expressão de Muazzez. Ela dera quase uma volta completa na cadeira, e tinha agora o rosto completamente escondido do olhar dele. A medida que

Yúmniye continuava a falar sem parar, agora de uma forma irritante, sobre o horror em que a cidade se tornara e sobre o quanto era escandaloso o facto de mulheres

jovens serem ainda tão vulneráveis a tais práticas maléficas, Ikmen sabia que Muazzez sentia o calor dos olhos dele na parte de trás do seu farto cabelo curto. Quando

ele era criança, fora sempre Muazzez que comentara a inteligência dele; naquela altura ela achara isso divertido.

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Ikmen, com apenas quatro anos, lera, nesta mesma sala, excertos de um livro de poesia inglesa. Já nessa altura, a voz dele era invulgarmente profunda e sonora, e



Muazzez recompensara-o com o chocolate mais delicioso que ele alguma vez provara. Viera de Paris, dissera ela. Ele ficara extraordinariamente impressionado. No entanto,

agora a presença dele parecia estar a enervá-la. Ou melhor, o assunto das perguntas dele - a origem do vestido coberto de rosas de Hatice Ipek. Ikmen perguntava-se

por que motivo ela fora tão veemente ao negar o seu próprio envolvimento e o da irmã na sua feitura. Mas, espantosamente, ele tinha a certeza de que o ter mencionado

as últimas aventuras do vestido a tinha chocado. E, perante o facto de que nenhuma destas mulheres se esquivava a palavras ou conceitos desagradáveis, ele só podia

deduzir que alguma coisa relacionada com a ligação existente entre o vestido e a prostituição fizera com que Muazzez lhe virasse tão completamente as costas. Como

aquele animal nojento, a Ratazana de Sultanahmet, lhe dissera, talvez as irmãs Heper soubessem mesmo alguma coisa.

- Têm a certeza absoluta de que não fizeram este vestido? perguntou Ikmen, dirigindo a pergunta a ambas as mulheres. - Não é vergonha nem crime nenhum fazer vestidos

para mulheres que trabalham.

- Bem, quer dizer...

- Yúmniye, nós nunca fizemos nada com rosas! As rosas são comuns, podem ser feitas por qualquer pessoa! - O rosto de Muazzez, agora pálido, estava novamente virado

para eles. Apenas uma pequena lágrima se encontrava ao canto do seu olho esquerdo. - Já lhe disse que não sabemos nada sobre este vestido, Çetin, e não sabemos mesmo.

No curto silêncio que se seguiu, Ikmen terminou o seu chá e acendeu um cigarro. E tiveram então uma conversa de natureza educada e geral, até que ele finalmente

saiu, cerca de meia hora depois.

Perturbado e também confuso, arrastava os pés quando se dirigia para o local onde deixara o carro, na rua por detrás da casa. Certamente que as irmãs Heper não podiam

ter nada a ver com aqueles que tinham atacado Hatice... Mas, se não tinham, por que se tinha Muazzez mostrado tão precipitada ao querer distanciar-se, a si própria

e à irmã, do vestido? E, para aumentar a confusão, por que lhe dera ela

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uma razão para que ele lhe contasse o que acontecera a Hatice? Muazzez podia simplesmente ter deixado que Yúmniye continuasse a pairar sobre o envolvimento dele



com Hikmet Sivas e deixar as coisas por aí, não podia?

À medida que caminhava pelo carreiro infestado de ervas daninhas que se estendia ao longo do jardim das irmãs Heper, Ikmen olhou para trás, para a casa. Yúmniye

e Muazzez estavam a gritar uma com a outra em frente das janelas francesas, agora fechadas. E a mulher de cabelo ruivo que ele vira quando chegara ainda lá estava,

os olhos permanentemente fixos no rosto dele.

Com o pôr do ardente Sol de Verão chegavam os clientes. Embora com uma afluência moderada durante o dia, era ao final da tarde que 2Lpastane ganhava a fama de que

gozava. Pândegos locais, turistas e gente de negócios, fatigada, que entrava subitamente para tomar um refrescante copo de chá gelado ou até um pastel pecaminosamente

pegajoso constituíam o volume do negócio, que era considerável nos meses de Verão. Mas, se assim não fosse, a mafiosa família Múren nem sequer teria olhado para

Hassan nem para os seus lucros. Suzan Seker fitou ansiosamente a porta do escritório do marido e, em seguida, com um sorriso, virou-se para o cliente.

- Boa noite. Vai tomar alguma coisa?

- Um chá gelado e um copo de água. - O homem era bem-parecido, da forma que um profissional, talvez um advogado, poderia ser.

Suzan escreveu a encomenda no bloco de apontamentos.

- Muito bem.

- Obrigado. - O homem virou novamente a sua bela cabeça e a sua atenção para o jornal que estivera a ler.

A medida que voltava a colocar o bloco no bolso do avental, Suzan perguntava-se se este "advogado" amuaria e procuraria chamar a atenção da esposa da mesma forma

que Hassan fazia com ela. Havia horas que o marido estava fechado à chave naquele escritório, sozinho e em silêncio. Ela entrara por breves momentos, à hora do almoço,

mas ouvira-o girar a chave na fechadura, por isso afastara-se. Hassan fazia essas coisas quando estava preocupado, e, neste momento, ela tinha de admiti-lo, ele

sentia-se extremamente deprimido. Mas esperar que a

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esposa o consolasse pela perda da amante era de mais. Suzan estava contente por se manter afastada dele e estava disposta a fazer o trabalho de ambos, mas não lhe

mostraria qualquer tipo de afecto enquanto esta disposição não lhe saísse do sistema. Se ele queria ficar no escritório toda a noite, para ela não havia qualquer

problema.

Suzan estava prestes a dirigir-se ao balcão para satisfazer as várias encomendas que recebera, quando a explosão aconteceu. Ou pelo menos isso foi o que ela pensou

que era, embora ela não tivesse sido arrastada pelo impulso nem nenhum dos clientes tivesse ficado magoado. Os seus rostos, porém, tinham gravado neles o medo que

ela também sentia perante o enorme estrondo que viera do escritório de Hassan.

- Esta casa é sua? - O homem bem-parecido estava de pé, e, com uma mão, apertava o pulso de Suzan.

- Não, é do meu marido, ele...

- Quem está naquela sala? - perguntou baixinho. Vários dos outros clientes também se tinham levantado.

- Bem, só o meu marido - respondeu Suzan.

- Por favor, fique onde está - ordenou ele, examinando zpastane com o olhar. - Sou polícia.

- Mas...


- Por favor, dirijam-se todos para a frente do edifício. - Acenou para que as pessoas se afastassem do tabique atrás do qual se encontrava a sala de onde viera a

explosão. Um estranho cheiro a queimado saía agora de lá.

- O que se passa? - perguntou Suzan, ao mesmo tempo que o ajudava a conduzir os clientes para o exterior.

- Não sei - disse ele. - Mas mantenha-os afastados. Vou dar uma olhadela. - Então enfiou a mão no casaco e tirou uma pistola.

Suzan, em choque, colocou uma mão em frente da boca.

- O seu marido está sozinho? - perguntou ele, enquanto passava pelo tabique e se dirigia para a porta do escritório.

- Sim, humm... mas a porta está... está fechada à chave.

- Está bem.

Colocando-se agora de um dos lados da porta, fez sinal a Suzan para que se juntasse aos seus clientes à frente do edifício.

- Não! - disse ela. - É o meu marido...

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O inspector Mehmet Suleyman empurrou-a rudemente, para detrás do pouco sólido tabique, e, em seguida, com um brusco torcer do corpo, abriu a porta com um pontapé.



A madeira lascou-se facilmente debaixo do seu pé, e foi atingido por toda a intensidade daquele odor de que se apercebera logo a seguir à explosão. Sabia que aquele

cheiro a fumo e ligeiramente ácido tinha pouco a ver com o cinzeiro a transbordar que se encontrava ao lado do braço ensanguentado estendido em cima da mesa. Algures

por perto, teria de haver uma arma de fogo.

- Ele está bem? - A voz da mulher era tensa de ansiedade. Posso...

- Fique onde está! - ordenou Suleyman. - Não saia daí!

É claro que ela sempre teria de ver o marido. Ou melhor, o que restava dele. A arma fora disparada directamente por baixo do queixo. O resultado foi que parte do

crânio e a maior parte do cérebro tinham atingido a parede por trás. Suleyman, sentindo-se agora levemente enjoado, baixou os olhos para o chão, onde, debaixo da

secretária do homem, como ele adivinhara, se encontrava uma arma. Não era exactamente disto que ele estava à espera quando entrou aqui para tomar uma bebida fresca.

Se Çetin Ikmen tivesse estado em casa quando ele lá foi, Suleyman nem sequer estaria aqui agora. Tirou o telemóvel do bolso e marcou um número. Enquanto esperava

que começasse a chamar, reparou num grande envelope que estava em cima da mesa, em frente do cinzeiro. Tinha apenas uma palavra escrita: "Polícia".

- Não estou a dizer que Talaat devia ir necessariamente para nossa casa - disse Fatma. - O que estou a dizer é que ele devia regressar a Istambul. Receberá um tratamento

melhor em casa.

- Sim. Possivelmente. - Ikmen empurrou o auscultador do telefone contra a parte lateral da cabeça, segurando-o depois com o ombro. Acendeu um cigarro.

- Bem, decididamente, pelo menos foi o que o médico de Talaat lhe disse - respondeu a voz longínqua da mulher.

Ikmen exalava fumo. Sabia exactamente onde esta conversa iria dar, tal como Fatma.

- Sim, mas ele terá de ficar nalgum sítio, quando chegar, não é verdade? - disse Ikmen, de mau humor. - E perdoa-me, Fatma, mas não estou a vê-lo a viver com nenhuma

das tuas irmãs.

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- Bem...

- Nilúfer tem ainda mais filhos pequenos do que nós, e penso que os rituais de limpeza de Sibel não poderiam alojar um homem de meia-idade com cancro, pois não?

- O meu irmão tem dinheiro, tu sabes! - disse Fatma, lançando o seu familiar modo de ataque. - Ele só precisaria de estar connosco até encontrar um apartamento para

si próprio.

- Para o qual eu e os meus filhos teríamos de ajudá-lo a mudar-se. E que tu visitarias diariamente para ver como ele estava.

- Talaat é meu irmão e está com problemas.

Ikmen deixou-se cair na cadeira ao lado da mesa do telefone. Para ser honesto, Fatma não lhe telefonara na altura mais oportuna. O telefone começara a tocar quando

ele estava a abrir a porta do apartamento, cansado e mal-humorado, após um dia de cabeças cortadas, Ardiç, e os estranhos e impenetráveis negócios das irmãs Heper.

A última coisa de que ele precisava neste momento era a perspectiva de o cunhado vir viver para sua casa. O homem não falava de mais nada a não ser da vida na praia,

desportos aquáticos e estúpidas namoradas estrangeiras com metade da idade dele. Embora ele provavelmente não falasse dessas coisas agora. Desde Fevereiro, quando

a dor nos intestinos fora finalmente diagnosticada como cancro do cólon. Talaat estava muito mais preocupado com medicamentos que lhe faziam cair o cabelo e com

operações que lhe ameaçavam a vida. Pobre homem. Agora Ikmen sentia-se mal devido à sua própria falta de generosidade, e, por isso, fez o que sempre fazia com Fatma

e capitulou desajeitadamente.

- Bem, se o médico acha que é melhor para Talaat...

- Vai levar alguns dias até que resolvamos os assuntos de Talaat por aqui - disse Fatma com os modos despachados que tinha tendência a adoptar quando acabara de

ganhar uma discussão com o marido. - Haldun já disse que cuidará da gestão dos apartamentos até que Talaat esteja suficientemente bem para regressar.

- Está bem.

É claro que tudo aquilo fora decidido antes de ela ter telefonado.

- E onde é que ele vai dormir? - perguntou Ikmen. - Esta casa está entulhada.

- Talaat pode ficar com o quarto de Búlent - respondeu Fatma. - Ele pode mudar-se para o quarto dos irmãos.

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A cabeça de íkmen começou a latejar. O altar de Búlent ao clube de futebol de Galatasaray não era um quarto que se desmontasse facilmente - pelo menos sem uma briga.



- Bem, podes dizer-lhe, Fatma - disse ele num tom cansado. Ele esperou anos para ficar com aquele quarto.

- Sim, e que terá de deixar em breve, quando for para a tropa.

- Sim.

- Mas se queres que eu lhe diga, eu digo. Tenho a certeza de que quando ele souber que vai cedê-lo ao pobre tio Talaat, só poderá ficar muito contente por fazê-lo.



Ikmen, através dos dentes cerrados e do cigarro, disse:

- Bem, esperemos que sim.

Depois disso, Fatma conduziu sensatamente a conversa para um território menos contencioso. Falaram dos filhos, lamentaram-se em relação aos preços sempre a subirem,

e, finalmente, falaram durante breves instantes sobre a forma como sentiam a falta um do outro. Neste ponto, Ikmen colocou um ponto final na conversa. Fatma, apesar

de toda a sua força, chorava, por vezes, nesta altura, e ele, egoistamente, sabia que não suportava ouvi-la.

Acabara de colocar o auscultador no descanso, quando a porta da frente se abriu e Hulya entrou no apartamento. Ikmen olhou para o relógio.

- Vens cedo - disse ele, franzindo o sobrolho. - Eu ter-te-ia ido buscar.

- Hassan Bey está morto - disse ela.

- Morto? - Tarde de mais, Ikmen reparou no quanto ela parecia tensa.

- Mehmet fechou apastane. Ele estava lá, a tomar uma bebida. Ikmen aproximou-se de Hulya e pegou-lhe numa mão. Estava

gelada. Conduziu-a para a sala de estar e sentou-a num dos canapés. Apesar do calor da noite, ainda enfastiante, ele colocou-lhe um cobertor sobre os joelhos e,

em seguida, baixou-se ao lado dela.

- Mehmet?

- Suleyman - respondeu ela. - Tinha entrado para tomar uma bebida, quando aquilo aconteceu. Eu estava na cozinha. Houve um tiro.

Hulya contou-lhe como Mehmet Suleyman arrombara o escritório e como ela,

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ignorando todos os conselhos, olhara pela porta do escritório e gritara como uma maníaca, ao ver o que lá estava.

- O tio Arto acabava de chegar quando eu ia a sair - disse ela, referindo-se ao doutor Sarkissian. - Assim, acho que, se o tio Arto foi chamado e Hassan Bey levou

um tiro, ele deve ter sido assassinado.

- Não sei, Hulya - disse Ikmen, ao mesmo tempo que puxava o pequeno e frio corpo dela para junto do seu. Na verdade, ele próprio estava a começar a sentir um pouco

de frio. Quem quereria matar Hassan Seker? Ou será que ele se teria suicidado? Quer se tratasse de uma coisa ou de outra, porquê?

Em vez de ir para casa quando saiu da mansão de Hikmet Sivas em Kandilli, Orhan Tepe foi para o apartamento de Ayse Farsakoglu, na Inónú Caddesi. Telefonou-lhe antes

para lhe dizer que ia a caminho e depois esperou no exterior do edifício, dentro do carro. Ali, o irmão de Ayse, com quem ela partilhava o apartamento, não tinha

a certeza de qual era o estatuto de Tepe na vida da irmã, mas já deixara bem claro que detestava o "colega" dela e que não aprovava a relação que ela mantinha com

ele. E uma vez que Ali estava, de facto, em casa neste momento, a decisão de Tepe de não se encontrar com ele era, talvez, a melhor.

Quando lhe telefonara, Tepe pedira a Ayse que vestisse algo de especial para o encontro desta noite. No local onde eles iam as pessoas só usavam roupas boas e comiam

boa comida. Para variar, ele tinha dinheiro suficiente e acesso a mais, se mais tarde viesse a precisar. Era bom poder dirigir à-vontade tanto o seu dinheiro como

a forma de se divertir, pensou. E quando a viu caminhar a passo determinado em direcção ao carro, o cabelo preto comprido a oscilar-lhe provocadoramente sobre os

ombros nus, ocultou com um sorriso vitorioso os pensamentos bastante mais perturbadores que se encontravam por detrás da sua boa situação financeira. Embora o vestido

dela fosse descoberto em cima, a saia vermelha redonda cobria-lhe completamente as pernas. Era um vestido que Ayse usava muitas vezes, mas Tepe gostava dele. Ao

entrar no carro, ela teve de levantar todo o tecido e colocá-lo no interior do veículo para que não ficasse preso na porta.

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- Então onde é que vamos? - perguntou ela, virando-se para ele, após ter, finalmente, fechado a porta do carro.

- Bem, pensei que podíamos começar por jantar no Rejans disse ele, colocando o carro em funcionamento e dirigindo-se para a torrente de trânsito.

- Rejans!

Para além de ser caro, o Restaurante Rejans é um dos mais antigos de Istambul. Aberto nos anos 1920 por imigrantes bielorrussos, há muitos anos que tem recebido

a preferência da elite da cidade. Não é nem nunca foi o género de local onde se possa encontrar um polícia e a sua amante - a não ser, é claro, que esse polícia

fosse, por acaso, Mehmet Suleyman. Ayse Farsakoglu, bastante consciente desse facto, disse:

- E Suleyman? E se...

- A mulher dele ainda está no hospital - respondeu o amante, sorridente. - Não vai estar aqui. A família talvez, mas não nos conhecemos.

- Mas é demasiado caro!

- Pensa nisso como um presente de aniversário antecipado disse ele, virando para Taksim e depois para Galatasaray.

- Disseste que íamos ao Tarabya. Ele encolheu os ombros.

- Ainda podemos fazer isso. Afinal, as probabilidades de a minha mulher e a família dela se encontrarem no Tarabya ou aqui no Rejans são iguais.

- Mas o dinheiro! Como...

- Só o que fiz foi reorganizar as minhas finanças - ele riu. Até nem foi difícil. - Olhou-a de lado, sentindo, ao fazê-lo, aquele familiar acesso de paixão nos rins

que ela tão frequentemente provocava nele. - Queria agradar-te.

Ela sorriu.

- Bem, conseguiste-lo.

- Óptimo - Tepe transferiu novamente a sua atenção para a estrada, e, após um curto silêncio, disse: - E depois podemos ir para o apartamento. Eu disse a Aysel que

estou de serviço esta noite. Podemos fazer amor até de manhã. Temos de praticar para quando estivermos casados - disse com um sorriso.

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- Vamos casar-nos, não vamos, Orhan? - disse ela, feliz mas ainda afectada pela ansiedade. - Estás a falar a sério?

- Sim, já te disse antes. Quero uma mulher, não uma criança voltou a olhá-la de lado. - Alguém que goste tanto de sexo como eu. - Fez uma pausa, e, ainda a olhá-la,

continuou: - Suleyman gostava tanto de sexo como eu?

Ela virou as costas, ofendida com a pergunta.

- Orhan!

- Então?


- Eu, eu não... - balbuciou ela, embaraçada e ao mesmo tempo magoada pela pergunta que ele fizera em relação a um homem que ainda não lhe era indiferente.

- Não tem um coiso tão grande como eu, pois não? - disse Orhan. - Não há muitos homens que o tenham. - Pegou-lhe numa mão e empurrou-a para baixo, pressionando a

braguilha. Só o facto de ter pensado nisso fizera com que um órgão grande se tornasse ainda maior. - Quando casarmos, este pode ser teu sempre que quiseres disse.

- Mas esta noite vamos jantar ao Rejans e vamos beber champanhe. Depois faço amor contigo. Podes ser a minha odalisca, se quiseres. - Riu novamente. - A dar prazer

ao seu muito grato sultão, o teu futuro marido!

As palavras dele e o facto de o sentir sob a sua mão incendiaram-na. Com dedos trémulos e ansiosos, ela abriu a braguilha e pegou-lhe.

- Oh, que bom - disse ele, ao mesmo tempo que ela percorria o pénis dele com a mão, em movimentos ascendentes e descendentes.

- Tu amas-me mesmo, não amas, Orhan? - perguntou ela, enquanto ele levava rapidamente o carro para uma rua secundária deserta.

- Sim - respondeu ele com voz rouca. Desligou o motor e estendeu a mão para lhe massajar os seios. -Desculpa, Ayse, não posso esperar.

- E vamos casar?

- Sim, vamos - disse ele, a arfar. - Prometo. A boca, depressa. Ayse baixou a cabeça e Orhan cravou-lhe os dedos na parte de trás

do pescoço, ao mesmo tempo que atingia o clímax. Magoou Ayse, mas ela não se importou. Era só mais uma demonstração do quanto ele precisava dela.

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E mais tarde, no restaurante, ele mostrou-lhe de outra forma que a amava, com presentes bonitos e um jantar que ela calculou que lhe tivesse custado uma semana de



salário. Tepe contou as notas à frente dela para que Ayse visse o quanto ele se preocupava com ela.

Saíram do Rejans às dez horas e ele levou-a para Pertevpasa Sokak, que distava do apartamento apenas escassos minutos a pé. Não era sensato da parte deles serem

vistos a entrarem no prédio juntos, por isso ela concordou era ir a pé até lá.

Ayse Farsakoglu gostava do vestido que estava a usar. Realçava-lhe tanto a sua cor bronzeada como os seus seios grandes e cheios, e ela sabia-o. Aparentemente para

benefício de Orhan Tepe, este vestido fora originariamente comprado com a intenção de perseguir novamente Mehmet Suleyman - ela até o usara no casamento dele. Mas

não surtira qualquer efeito. O orgulhoso otomano casara com a sua doutora e agora tinha um filho, e a história acabava aí, excepto, é claro, na cabeça de Ayse. Quando

ela tinha relações sexuais com Orhan, até mesmo quando ele falava em casamento, tal como já acontecera, ela costumava ter fantasias com Mehmet. Mais tarde, no apartamento

do irmão de Orhan, ela faria com que ele fizesse amor com ela com o vestido posto. Só pensar nisso fez com que ela se apressasse para chegar ao apartamento em Çemberlitas.

Ia a atravessar de Pertevpasa Sokak para Piyerloti Caddesi, quando o som distinto do assobio apreciador de um homem lhe chegou aos ouvidos. Com a aparência que tinha,

não era a primeira vez que ela provocava tal reacção. E geralmente ignorava, pura e simplesmente, o que lhe diziam. Mas desta vez, possivelmente porque se estava

a sentir tão sexual, após uma curta pausa torturante, virou-se para ver quem estava a apreciá-la. Infelizmente, os homens em questão não lhe agradavam. Mas conhecia-os.

Celal Múren, embora pouco mais fosse do que uma criança, era um indivíduo desagradável. Passara tempo de mais para o gosto dele, suspeitava ela, sob custódia da

polícia. Numa ocasião fora ela própria que o prendera - por perturbação da ordem pública. E embora nenhum dos delitos que ele cometera fosse, em si, muito grave,

Ayse sabia que era apenas uma questão de tempo até que ele fizesse algo em

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grande escala. Afinal, com um irmão mais velho como Ekrem, que estava de pé a seu lado, a sorrir pretensiosamente, era quase uma conclusão antecipada. Ekrem Múren,



tal como o pai, era um bandido. E, tal como o pai, Ekrem não se limitava apenas a um tipo de negócio ilegal. Ao longo da sua curta vida, ele estivera implicado em

prostituição e extorsão, droga, e, dizia-se, em homicídio por contratação.

Celal, cuja língua estava agora literalmente de fora da boca, não reconheceu Ayse, o que era realmente bastante delicioso. Toda a gente sabia quem era a família

Múren, ainda que pouco se pudesse provar contra ela - os mortos não falam - e, assim, seria engraçado surpreender Celal e Ekrem só um bocadinho. Ayse Farsakoglu

aproximou-se deles, as pernas altas a moverem-se agora despreocupadamente, em preguiçosas e provocadoras passadas. Quando parou em frente deles, Ekrem passou uma

mão pelo farto cabelo untado de gel, lambendo os lábios a apreciá-la.

Sorridente, Ayse virou a sua atenção para o irmão de Ekrem.

- Olá, Celal - disse. - Há algum tempo que não te via. O que tens feito?

Tomado inteiramente de surpresa, Celal só olhava para ela.

Ekrem avançou, colocando-se à frente do irmão. Tinha os olhos ao mesmo nível dos seios de Ayse. Estendeu as mãos na direcção deles, e os dedos só pararam quando

estavam quase a tocá-los.

- E como é que um passarinho bonito como tu conhece o meu irmão? - perguntou. - Ele não passa de um menino.

- Ora, prendi o teu irmão no ano passado - respondeu Ayse, divertindo-se ao ver o sangue abandonar subitamente o rosto de Ekrem Múren.

- És polícia?

- Sim, é verdade, senhor Múren - respondeu uma voz grossa, de homem.

Ayse Farsakoglu virou-se e viu Orhan Tepe atrás de si. O rosto dele, mesmo na escuridão, parecia corado de fúria.

- Ela é sargento - continuou ele, os olhos fixos nas mãos de Ekrem Múren, que agora se afastavam rapidamente dos seios de Ayse.

Celal Múren lançou ao irmão um olhar assustado.

- Não me lembro dela - disse. - Eu ter-me-ia lembrado dela, Ekrem.

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- Cala-te.

- Ponham-se a andar - disse Tepe com frieza, acrescentando: - Rapazes.

- Nós não estávamos a fazer nada, senhor agente...

- Não, mas não passam de escumalha - disse Tepe, e, com um gesto, enviou os irmãos para fora da órbita perfumada da sua amante.

Com um sorriso pretensioso e um olhar de lado que Ekrem lançou a Tepe, os irmãos afastaram-se na direcção da principal Okçularbasi Caddesi. Regressando assim, pelo

menos foi o que sentiu Farsakoglu, ao apartamento do pai em Beyazit, a base da família.

Depois de eles terem desaparecido, Ayse olhou para Tepe, um sorriso a rasgar-lhe o rosto.

- Voltaste atrás para me seguir, Orhan? - disse, satisfeita perante a ideia.

- Não. - Mas desviou o olhar ao dizê-lo.

Em regra, não se encontravam na rua. Ele dirigia-se ao apartamento do irmão, ou a qualquer outro local onde tivessem combinado encontrar-se, por um caminho e ela

por outro. Fora sempre assim. Os encontros na rua podiam ser perigosos - a mulher de Orhan tinha muitos amigos e parentes - e eles, ou melhor, Orhan, queria sempre

evitar tal eventualidade. O facto de se terem agora encontrado exactamente quando ela decidira divertir-se um pouco à custa dos irmãos Múren não era habitual e,

sentia Ayse, também extremamente divertido. Se ele, de facto, a seguira, talvez estivesse com ciúmes.

- Os irmãos Múren são perigosos - disse ele quando começaram a caminhar. - Devias afastar-te deles.

- Prendi Celal no ano passado - disse ela. - Ele é um miúdo traquinas, admito, mas...

- Afasta-te deles! - Virou-se rapidamente e agarrou-lhe os braços.

- Orhan!

- Eles são escumalha e não vou permitir que esta escumalha olhe para ti assim!

- Mas Orhan, eu estava só a brincar com eles.

- Bem, não teve muita graça - disse ele entredentes. - E tu não vais voltar a fazer nada assim, com homem nenhum. - E em seguida, pegando-lhe numa mão, atraiu-a

a si de forma a que o rosto dele ficasse de fronte do dela.

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- Entra no carro. Não me importa quem nos possa ver esta noite. Quero-te agora. Tenho tudo o que precisas.

E embora ela tivesse sentido paixão por Orhan antes, desta vez era avassaladora, desta vez essa paixão apagou Mehmet Suleyman completamente da sua cabeça.

CAPÍTULO TREZE

- Decididamente, foi suicídio.

Ikmen olhou o seu velho amigo nos olhos, profundamente, não porque não acreditasse nele, mas porque queria certificar-se de que o próprio Arto não era assaltado

por quaisquer dúvidas.

- Não é só por causa do bilhete que ele deixou - continuou Arto. - Tudo na cena, especialmente o facto de a sala só ter uma entrada, tudo me diz que o suicídio tem

de ser a única explicação.

Mehmet Suleyman suspirou. Uma vez que fora ele quem encontrara o corpo de Seker na véspera, ao final da tarde, juntara-se à reunião matinal deles.

- Mas se, como diz o bilhete, ele de facto matou Hatice Ipek -disse ele -, então...

- Na verdade, ninguém matou a rapariga - interrompeu Ikmen rapidamente. - Ela morreu durante ou logo a seguir aos actos sexuais de que foi vítima, praticados por

vários homens.

- Uma das cavidades do coração dela ficou obstruída. A sua morte foi inteiramente natural - acrescentou Arto.

- O que significa que, quando Seker se responsabilizou pela morte dela no bilhete que escreveu, tinha de estar a mentir - disse Ikmen.

- Ou então sentia-se apenas responsável por ter sido um dos homens que a atacaram - sugeriu Arto. - Quer dizer, alguma vez lhe disseram que a morte dela foi natural?

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- Não sei. Eu disse à minha filha e à mãe da rapariga, é claro, mas a não ser que elas lhe tenham contado a ele...

- Nunca chegámos a recolher uma amostra de sémen enquanto ele estava vivo, pois não? - disse Arto. - Talvez ele estivesse com medo disso, afinal. O tempo dirá.

Passaram todos vários minutos em silêncio, o médico, os dois inspectores e o jovem agente, Yildiz, que, ao final da tarde do dia anterior, fora o primeiro a chegar

ao local da tragédia para ajudar Suleyman. Ikmen, em particular, estava preocupado. Perante o bilhete que Seker deixara e onde admitia ter sido responsável pela

morte de Hatice, não havia agora qualquer esperança de que Ardiç permitisse que se continuasse a trabalhar no caso Ipek. E, contudo, Ikmen tinha ainda muitas dúvidas.

Não só porque Hassan Seker, apesar de todos os seus defeitos, não parecia ser esse tipo de homem, mas também porque não tinha motivos nenhuns para o fazer. Mais

do que uma pessoa o vira ir para casa naquela noite, depois de Hatice ter saído.

- É claro que poderia haver outra explicação para a morte dele disse Yildiz, que estivera a fumar silenciosamente ao canto.

Todos se viraram para olharem para ele.

- E qual é ela, agente Yildiz? - perguntou Ikmen, franzindo o sobrolho.

- Bem, havia uma ligação qualquer com os irmãos Múren.

- Celal e Ekrem Múren?

- Sim.

Ikmen empalideceu.



- Mas eles pertencem a uma família de mafiosos, Yildiz! Uma ligação, o que queres dizer com isso?

Yildiz encolheu os ombros.

- Não sei bem, inspector - respondeu ele inocentemente Tudo o que sei é que quando fomos à pastane pela segunda vez, os irmãos Múren e outro rapaz qualquer estavam

a falar com a senhora Seker de uma forma... bem... bastante séria. Quer dizer, a senhora Seker não parecia nada contente. Olhou de soslaio para a porta do escritório

do marido, assim como que furtivamente, antes de falar com eles, como se quisesse que eles se fossem embora rapidamente. O sargento Tene estava lá dentro com o senhor

Seker.


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- Por que não me disseste isso antes? - gritou Ikmen. - Se os irmãos Múren queriam Seker, nesse caso devia haver dinheiro envolvido.

- Ou droga ou prostituição ou homicídio por contratação acrescentou Suleyman, completando o conjunto dos crimes prováveis da família Múren.

- Absolutamente. - Ikmen virou-se para Yildiz. - Então? O jovem baixou os olhos para o chão antes de falar.

- O sargento Tepe disse-me que esquecesse o assunto, inspector, que esquecesse a visita dos Múren.

Os outros três homens presentes na sala trocaram olhares antes de Ikmen voltar a fixar Yildiz para lhe perguntar:

- Porquê?

- Porque ele disse que não era importante - respondeu Yildiz.

- Ah disse?

- Sim.


Antes que pudessem discutir qualquer outra coisa, a porta do gabinete de Ikmen abriu-se e Orhan Tepe entrou. Embora evidenciasse sinais de cansaço em volta dos olhos,

estava sorridente. Ikmen viu instantaneamente que ele não fora a casa mudar de roupa. Era óbvio que dormira em qualquer outro sítio, daí o sorriso que trazia estampado

no rosto. Ikmen não levaria muito tempo a apagá-lo.

Esperou até o médico, Suleyman e Yildiz terem saído para começar.

- Por que não me disseste que Hassan Seker andava metido com os irmãos Múren? - perguntou Ikmen no tom controlado que usava sempre antes de explodir.

Tepe sorriu.

- Porque não anda - respondeu ele calmamente. - Quem é que diz...

- Hikmet Yildiz acabou de me contar o que aconteceu quando visitaste apastane pela segunda vez, Tepe - disse Ikmen. - Contou-me que viu os irmãos Múren a falarem

com a senhora Seker, que parecia assustada.

- Bem, eu não vi.

- Não quero saber se viste ou não! - berrou Ikmen. - Quando Yildiz te disse o que rinha visto, deviam ter tocado sirenes na tua cabeça!

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- Eu...

- O que é que te deu para dizeres ao rapaz que o facto de ter visto os irmãos Múren no local não era importante? A Máfia é sempre importante! Se prestasses tanta

atenção ao teu trabalho como prestas à tua vida sexual...

- Inspector!

- Oh, não te ofendas comigo! - vociferou Ikmen. - Não... Foi interrompido pelo telefone. Com um gesto, Ikmen apontou

a Tepe a sua própria secretária.

- Não saias daí - disse. - Ainda não acabei. Pegou no auscultador.

- Ikmen.


- É Iskender. - A voz na outra extremidade da linha soava incaracteristicamente nervosa.

Os olhos de Ikmen ainda fixavam Tepe com uma expressão de desaprovação.

- Sim? - disse ele ao telefone.

- Vedat Sivas desapareceu. Ikmen sentou-se, o rosto branco.

- Diz-me que é uma piada, Iskender - disse com voz calma.

- Não é. Quem me dera que fosse. Homens a desaparecerem sem deixarem rasto, caixas arrepiantes a aparecerem do nada... Foda-se! Será que estou a enlouquecer ou...

- Ouve, tenta controlar-te até que eu chegue aí - disse Ikmen interpretando o uso incaracterístico de palavrões por parte de Iskender, assim como o óbvio nervosismo

da sua voz, como sinais de que devia passar pela casa dos Sivas o mais depressa possível. - Ardiç sabe?

- Não - Iskender suspirou. - Ontem à noite, ele ficou aqui até depois da meia-noite. Penso que ele ainda não deve ter chegado aí, ou já chegou?

- Ainda não - disse Ikmen, ao mesmo tempo que dirigia um olhar nervoso em direcção à porta, não fosse o seu superior estar a aparecer algures lá fora. - Presumo

que tenhas a menina Hale Sivas aí contigo.

- Sim, sim. Ainda não consegui perdê-la - respondeu Iskender com voz cansada.

175

- Bem, não a largues até eu chegar aí - Ikmen agarrou o casaco, que estava pendurado nas costas da cadeira, e começou a vesti-lo. Ela nem sequer podeà casa de banho



sozinha, estás a perceber?

- Sim.


- Vou a caminho - disse Ikmen e, sem dizer mais nada, pousou o auscultador e atirou a Tepe um conjunto de chaves do carro. Depois de todos os choques por que passara

nas últimas doze horas, sentia que conduzir era um esforço demasiado grande para os seus nervos.

- Tu conduzes - disse. - Para casa de Sivas. Tepe levantou-se.

- Mas... inspector...

- Oh, não te preocupes, que ainda não acabei de te aborrecer, Orhan - Ikmen procurou nos bolsos os requisitos para fumar. Vou continuar quando entrarmos para o carro.

- Inspector...

- Tu conduzes, eu grito, mas quando chegarmos a casa dos Sivas, agimos como profissionais. Aparentemente, Vedat também desapareceu, só Alá sabe para onde.

- Vedat Sivas? O irmão?

- Sim, Tepe - Ikmen abanou a cabeça, não podendo acreditar.

- Primeiro Hikmet, agora Vedat... Ainda por cima, Hassan Seker. Tepe franziu o sobrolho.

- Hassan Seker? Como assim?

Não houvera tempo para dizer a Tepe por que motivo Suleyman, Yildiz e o médico tinham estado no seu gabinete naquela manhã. Ikmen ia dizer-lhe quando foi interrompido

pela chamada de Iskender. Afinal, a morte de Seker tinha tudo a ver com a discussão que ele encetara com Tepe relativamente aos irmãos Múren. Se ele tivesse sabido

que eles estavam envolvidos, poderia tê-los tirado da rua e tê-los-ia afastado de Seker, o que poderia ter evitado que eles o tivessem encostado à parede por causa

do dinheiro ou do que quer que fosse que fez com que Seker pusesse termo à vida. Ocorreu a Ikmen que Hassan Seker se pudesse ter suicidado e tivesse deixado aquele

bilhete em que se acusava a si próprio de forma a afastar todas as suspeitas de envolvimento da Máfia na morte de Hatice Ipek, devido a ameaças dirigidas contra

a mulher e os filhos. Ameaçadores e violentos como

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pertencia ao pai, Ali. Mas era certo que podiam assustar alguém como Hass.in Seker, e sodomizar a pobre Hatice Ipek. Depois de lidar com a última incompetência de

Iskender, Ikmen pretendia ir à procura deles.

- Hassan Seker está morto - disse ele a Tepe secamente. - Suicidou-se ontem ao final da tarde. E antes de sairmos daqui vou pedir ao inspector Suleyman que fale

com a viúva sobre os irmãos Múren.

O rosto de Tepe ficou sem pinga de sangue e Ikmen reparou que as mãos lhe tinham começado a tremer.

Embora fosse grande, a mansão de Hikmet Sivas em Kandilli não dispunha de quaisquer saídas que não pudessem ser facilmente observadas. A porta da frente estivera

sob guarda desde que a polícia chegara à casa na companhia da estrela de cinema logo após o rapto de Kaycee. Tinham sido posicionados agentes tanto no interior da

casa como no jardim, dia e noite. E embora as traseiras da propriedade dessem directamente para o Bósforo, nem a casa dos barcos por baixo da yali nem sequer os

barcos que se encontravam no interior tinham sido acordados do seu torpor que uma crosta de pó há muito cobria. A não ser que Hikmet e Vedat se tivessem afastado

a nadar...

- Uma pessoa teria de conhecer muito bem este pedaço do Bósforo - observou Isak Çóktin quando Ikmen lhe colocou esta possibilidade. - Se bem entendo, é fácil ser-se

arrastado num barco. As correntes são complexas e muito perigosas. Se um ou ambos os homens saíram daqui a nadar, mesmo que tenham seguido junto à costa, estarão

agora provavelmente mortos.

- Não observaste nada de estranho durante a noite? - perguntou Ikmen, sentando-se numa das cadeiras ricamente estofadas que ofereciam belíssimas vistas sobre o Bósforo.

A água batia na margem com um ruído leve e borbulhava por baixo da janela aberta à sua frente.

- Não. O próprio comissário esteve aqui até à uma hora.

- Hmm - Ikmen olhou para o rosto da mulher idosa sentada a seu lado e suspirou. - Bem, menina Sivas - disse -, até parece que os seus irmãos desapareceram por magia.

Hale Sivas inclinou para trás a cabeça cansada e fechou os olhos.

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- Tais coisas são possíveis - disse ela. - Como eu sei que você sabe.



Ikmen franziu o sobrolho.

- O que quer dizer com isso?

- Eu nasci no bairro de Haydarpasa - disse Hale, abrindo os olhos, que apontou a Ikmen com grande intensidade. - Suficientemente perto de Uskúdar para que eu tivesse

conhecimento da existência da bruxa Ayse Ikmen.

- Sim - Ikmen acenou com a cabeça. - É triste, não é? Mesmo com uma mulher tão famosa como mãe ainda sou um homem pobre. Mas com o devido respeito pela minha mãe,

não acredito que os seus irmãos tenham simplesmente atravessado as paredes destayak, menina Sivas.

- Não?

- Não. Penso que eles partiram através de um método que ainda não compreendemos. Penso também - fez uma pequena pausa para acender um cigarro - que você sabe mais



sobre os motivos deles para o fazerem do que nos está a dizer.

- O que quer dizer com isso?

Ikmen levantou o olhar para Çõktin, indicando que queria que ele os deixasse a sós. Depois de o curdo ter saído, Ikmen disse:

- A mulher do seu irmão não foi raptada e assassinada sem ter havido um motivo. O aparecimento da cabeça dela nesta casa diz-me que alguém estava a enviar uma mensagem

ao seu irmão Hikmet, uma ameaça ou um aviso.

- Um americano - disse Hale com firmeza, os lábios comprimidos em volta da palavra, em sinal de nojo.

- Possivelmente.

- Não sei nada sobre a vida de Hikmet na América.

- Ah não? Quando cá estive antes você parecia saber bastante sobre a forma como ele anda por aí com mulheres e trabalha para judeus. - Hale desviou os olhos dele

e Ikmen passou a outro ataque. - Mas sabe alguma coisa sobre a vida do seu irmão Vedat, não sabe?

Ela encolheu os ombros.

- Vedat trabalha em hotéis, palácios. Vivemos aqui juntos.

- Com bastante conforto também - disse Ikmen, ao mesmo tempo que lançava um olhar aprovador em redor, ao grande salão decorado com gosto.

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- Somos irmãos. Nunca casei. Hikmet adora-nos.

- Tenho a certeza que sim - respondeu Ikmen com um sorriso. - O que faz com que me pareça algo estranho o facto de Vedat ainda levar uma vida de homem pobre.

- Mas ele não leva uma vida pobre - disse ela com brusquidão.

- O que eu quero dizer é que ele enviuvou, mas não voltou a casar, e tem empregos humildes.

- Ele prefere assim.

Ikmen deitou a cinza do cigarro para um cinzeiro de ouro maciço.

- Sim. Embora, é claro, nada disto explique por que motivo Vedat, segundo o jovem agente que se encontrava no local quando a sua cunhada foi raptada, estava tão

desejoso que Hikmet não nos envolvesse no crime. Por que fez ele isso?

O rosto de Hale Sivas não revelou qualquer tipo de emoção quando ela encolheu os ombros mais uma vez.

- Vedat, como toda a gente, não confia na polícia.

- Não me diga! - Ikmen sorriu e levantou-se. - Sabe, os criminosos estão sempre a dizer-me isso. Não é estranho? - Endireitou-se e dirigiu-se ao centro da sala.

- Mas talvez esteja enganada em relação a Vedat. Afinal, ele não é nenhum criminoso, pois não? Além disso, nem o inspector Iskender nem eu próprio ficámos com a

impressão de que ambos os seus irmãos estavam a dizer toda a verdade quando falámos com eles.

E, sem dizer nem mais uma palavra, Ikmen saiu do salão e dirigiu-se ao amplo e gracioso vestíbulo. Metin Iskender, os olhos vermelhos de sono, estava encostado a

um kilim que estava pendurado numa das paredes cor-de-rosa.

- Eu só precisava de um momento - disse quando Ikmen se aproximou. - Parece que não durmo quando estou aqui à noite.

O som de muitas pessoas a explorarem muitas divisões chegou até eles vindo de todas as partes do edifício.

- Nada de anormal até agora? - perguntou Ikmen depois de ter apagado o cigarro no cinzeiro de ouro que trouxera consigo do salão.

- Não. Mas estamos a trabalhar no assunto. Alguns de uma forma bastante mais singular do que outros.

- O que queres dizer com isso? - perguntou Ikmen.

- Hikmet Yildiz está convencido de que há uma passagem secreta algures na casa. Não pára de bater nas paredes.

- E pode bem ter razão - disse Ikmen com um encolher de ombros. - Isso poderia explicar como é que uma caixa grande se materializou num quarto do primeiro piso e

como é que dois homens adultos desapareceram sem deixar rasto.

- Bem, sim, mas não estamos propriamente aqui a explorar o interior de um castelo da Renânia - Iskender limpou com as costas da mão o suor que se lhe juntara na

testa. - Falou com a menina Hale?

Ikmen acendeu outro cigarro.

- Apesar de não me ter servido de nada. A propósito, por que não temos uma agente no local? Devíamos ter.

- Farsakoglu devia ter substituído Gún às oito horas - respondeu Iskender -, mas está doente.

- Ah sim? - Na noite anterior, Tepe, pelo menos fora o que parecera a Ikmen, estivera algures onde não devia ter estado. Seria que a "dama" estava a recuperar?

Iskender encolheu os ombros.

- Não sei mais nada - disse. - Ouvi dizer que aquele pasteleiro que você insistiu em perseguir se suicidou ontem.

Irritado tanto pela insinuação de que ele tinha alguma responsabilidade pela morte de Hassan Seker como pela atitude indiferente de I Iskender para com o assunto,

Ikmen disse:

- Sim, é verdade, Metin. Mas penso que isso não teve nada a ver comigo. Eu até podia dizer-te quais são as minhas suspeitas em relação

a essa situação, mas como ainda não estou preparado para dar a conhecer os meus pensamentos ao comissário Ardiç, vou guardá-los para mim próprio, por enquanto.

- Çetin...

- Bem, alguém disse a Ardiç que eu ainda andava a investigar a morte de Hatice Ipek!

- E pensa que fui eu? - Iskender abanou a cabeça, não podendo acreditar, e acendeu um dos seus cigarros antes de responder: - Ora ouça, Çetin, embora reconheça que

você e eu somos homens muito diferentes, penso que ambos estamos de acordo quanto ao respeito profissional que temos um pelo outro. Eu não gosto de si como pessoa,

nunca poderia ser seu amigo, mas tenho de respeitar as decisões que você toma num caso em que

-

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tenho conhecimento. Numa altura ou noutra, já todos nos encontrámos na situação em que você está agora. Ikmen franziu o sobrolho.

- Você queria continuar a sua investigação - disse Iskender. E, baixando a voz, continuou: - Ardiç, que não tem os pés assentes na terra e, sejamos honestos, que

sabe tão pouco, afasta-o do caso. É claro que adivinhei o que você andava a fazer. Mas, pela minha honra e com a mão metaforicamente pousada no Corão, juro-lhe que

Ardiç não soube pela minha boca o que você andava a fazer!

Apesar da frase bastante pomposa de Iskender sobre a forma como era suposto eles terem respeito profissional um pelo outro, Ikmen acreditou nele. O homem era ambicioso,

tinha uma inclinação para a teimosia e era desprovido de charme, mas Metin Iskender não era conhecido como uma pessoa desonesta. Os seus modos tornavam difícil que

se sentisse simpatia por ele, mas isso era tudo. Ikmen olhara-o atentamente enquanto ele fazia o seu pequeno discurso e tinha a certeza de que Metin não estava a

fingir. E assim, para variar, Ikmen pediu mesmo desculpa, ainda que muito rapidamente e sem esperar por qualquer género de manifestação de apreço.

- Peço muita desculpa, Metin - disse ele -, julguei-te mal. E caminhou em direcção à porta da frente dayaà, que estava aberta.

Saiu para o jardim verde e luxuriante de Hikmet Sivas e ficou a olhar para a grande fonte que se encontrava em frente da casa, ao meio do largo que servia de estacionamento.

Ornamentada com cisnes pobremente executados em gesso, era uma cópia muito má da magnífica fonte que se pode ver frente à entrada para o Palácio Dolmabahçe. Talvez

Hikmet Sivas possuísse pretensões régias. Ikmen sorriu levemente perante a ideia. A arte a imitar a vida ou, dadas as fantásticas riquezas de Sivas, a vida a imitar

a arte?

Ikmen levantou o olhar para a casa e localizou movimento junto a uma janela. Era Tepe ocupado num dos quartos. Ikmen via o aspecto sombrio do rosto dele, guarnecido

com aqueles seus olhos impenetráveis. No curso normal dos acontecimentos, Ikmen teria enviado Tepe para interrogar a senhora Seker, mas dada a omissão que ele anteriormente

fizera em relação aos irmãos Múren, Ikmen não o queria mais em lado nenhum próximo do caso Ipek. Mehmet Suleyman, embora ainda oficialmente de licença, concordara

prontamente em ir visitar

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Ayse sabia que em breve teria de fazer alguma coisa relativamente à sua situação. O tempo estava quente, e, por isso, estar assim deitada nua em cima da cama, de

barriga para baixo, muito quieta, era uma ideia bastante boa. O facto de que não tinha outra alternativa senão fazer isso era outro assunto.

Como viera do apartamento do irmão de Orhan para casa era ainda um mistério. Ah, sabia que Orhan a trouxera, de carro. Ele ajudara-a a subir as escadas para o seu

apartamento e, surpreendentemente, conseguira até colocá-la no quarto sem acordar Ali. Do que ela não se lembrava era da forma como lidara com a dor.

Tudo começara tão bem. Assim que chegaram ao apartamento do irmão dele, Orhan começara a beijá-la apaixonadamente, dizendo-lhe quanto a amava e acariciando-lhe o

corpo enquanto o fazia. Ela ficara tão excitada que quando ele sugeriu que jogassem um jogo, isso ainda a excitou mais.

- Imagina que estamos nas celas - dissera ele -, e que és minha prisioneira.

Fê-la despir-se. Gostara de a observar. Em seguida tirou as algemas do bolso. Ela devia ter terminado ali com a brincadeira, mas não o fizera. Deixou que ele lhas

pusesse nos pulsos; era excitante, estar ajoelhada entre as pernas dele, dando-lhe prazer, algemada. E quando ele atingiu o clímax, chamou a Ayse nomes feios, o

que, uma vez que estavam apenas a jogar um jogo, era perfeitamente admissível e, mais uma vez, excitante.

Mas em determinada altura as coisas mudaram. Na sua mente, estava tudo agora envolto em névoa. Orhan ordenou-lhe que lhe dissesse o quanto ele era bom, o que ela

fez, e depois, sem saber como, foi algemada à cama. Pensou que ele ia simplesmente penetrá-la por detrás, já o fizera antes... Mas ela devia ter sabido que algo

de diferente estava prestes a acontecer.

- Vou aonde o Príncipe Mehmet nunca esteve - dissera ele, ofegante. A medida que ele lhe forçava o ânus, a dor era excruciante. Ela implorara-lhe que parasse, mas

ele limitou-se a continuar, batendo-lhe na cabeça, soprando-lhe palavras ao ouvido, a arquejar. - Diz-me que sou muito bom.

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E ela dissera. Dorida e aterrorizada, ela, mesmo assim, fizera o que ele pedira.

- Cabra imunda! - dissera ele quando terminara. - Diz-me outra vez!

- És fabuloso - mentiu ela -, o melhor amante do mundo!

- Melhor do que Suleyman?

- Sim!

Depois, por um momento, fez-se silêncio. Demasiado assustada agora para olhar em redor e ver o que ele estava a fazer, Ayse estava simplesmente deitada na cama,



a arfar de medo. O seu verdadeiro suplício ainda estava para vir.

- Desejava poder acreditar em ti - dissera ele e, em seguida, o seu cinto caiu em cima das costas dela. Ayse gritara quando o couro e a forte fivela de metal lhe

rasgaram a carne.

- Exibindo o corpo em frente daquela escumalha dos irmãos Múren!

- Não! Orhan, não!

Por fim, perdeu os sentidos por alguns momentos. E quando os recuperou, ele parara misericordiosamente de lhe bater. Mas a pausa foi de curta duração. Ouvia a respiração

dele, irregular e difícil, algures atrás dela. Devagar, Ayse virou a cabeça para ver o que ele estava a fazer. Nu agora, um joelho de cada lado das nádegas dela,

Orhan Tepe estava a masturbar-se para cima das costas ensanguentadas dela, os olhos fixos e fascinados pelos ferimentos por ele provocados. Assim que obteve alívio,

deixou-se cair para a frente, para cima dela, e beijou-lhe o rosto e o cabelo com paixão e ternura.

- Eu amo-te de verdade, bem sabes - dissera ele depois, quando a ajudava cuidadosamente a vestir o vestido. - Amo-te tanto, preciso de estar dentro da tua carne.

Preciso de entrar em todas as partes de ti.

Tinha de haver alguma coisa errada com Orhan que o fizesse dizer e fazer tais coisas. Aquilo por que ele a fizera passar não era um jogo. Era sadismo. Ele sempre

fora um amante duro e muito másculo que gostava de ter e dar prazer de forma violenta, mas, até agora, ela nunca o considerara um animal. Mas era isso que ele era,

e estava consumido de ciúme de Mehmet Suleyman. Os dois homens não podiam ser mais diferentes. Mehmet pertencia a uma classe completamente diferente. Sofisticado,

delicado e hábil como amante, sabia que não se batia

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numa mulher para lhe dar prazer. Era por isso que ela pensava nele a toda a hora, ansiava por um simples sorriso ou pelo toque ocasional do corpo dele, quando passava

por ela na rua ou num dos corredores da esquadra.

Com calor e desidratada, Ayse estendeu a mão para o armário ao lado da sua cama numa tentativa de chegar à garrafa da água. Quando o fazia, a mão encalhou em algo

duro e aguçado. Ah sim, as jóias. Brincos e uma pulseira a condizer, ouro e diamantes. Orhan oferecera-lhos no Rejans. Onde ele arranjara o dinheiro para lhos comprar,

ela não fazia ideia. Pegou na pulseira e olhou-a. Teria de devolvê-la. Não podia ficar com nada que fosse dele, não depois do que ele fizera. Mas isso significaria

ter de encontrar-se com ele de novo a sós. Só o facto de pensar nisso fazia com que a carne lhe tremesse de medo.

No entanto, para já, teria de tentar encorajar o corpo a sarar o mais depressa possível. Amanhã teria de continuar a trabalhar. Não o fazer podia suscitar comentários

e levantar suspeitas. Ikmen, pelo menos, sabia que ela e Orhan tinham um género de "compromisso" e a última coisa que Ayse desejava era que o inspector lhe aparecesse

à porta. Como lhe explicaria o sangue, não sabia. Fosse como fosse, teria de lavar os lençóis e as roupas da noite anterior antes de Ali regressar.

Mas isso teria de ficar para mais tarde. Por agora, tudo o que ela podia fazer era ficar deitada na cama por baixo da janela aberta e rezar para que a ténue brisa

do Bósforo lhe sarasse as feridas que sangravam.

Quando a pastane voltou a abrir ao final da tarde, Hassan Seker, que ainda na tarde anterior rebentara com a sua própria vida, já se encontrava na sua sepultura.

A viúva, apesar da desaprovação do sogro, regressara kpastane directamente do cemitério.

- Preciso do dinheiro - dissera ela a Kemal Bey quando ele, de lágrimas nos olhos, resmungou o seu desagrado perante aquilo que ele entendia como uma falta de respeito

para com o filho. - O meu marido gastou muito do que tínhamos para manter os bandidos contentes.

Bem, se ela contara ao inspector Ikmen sobre os irmãos Múren, por que não contar a Kemal Bey? Não era como se ele não tivesse

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suspeitado de nada. Hassan tentara ser um dos "rapazes" com os bandidos que o aterrorizavam, recebendo-os bem e confraternizando alegremente com eles. Suzan já decidira



que as coisas iriam continuar de uma forma muito mais recta agora que ela era responsável pelo negócio - na verdade, de uma forma muito mais parecida com aquela

como Kemal Bey gerira as coisas. Fora por isso que ela contara ao inspector Ikmen sobre os irmãos Múren. Eles que venham ameaçar uma mulher viúva, dissera-lhe ela

num tom de desafio; não quero nada com eles. Ora Suzan não tinha assim tanta certeza de que fizera a coisa certa.

O inspector Suleyman ficara impressionado. Ficara também preocupado. A família Múren era controlada por um poderoso sultão do crime. Os Múren tinham, acreditava-se,

ligações com pessoas terrivelmente assustadoras do mundo da droga e da extorsão. Arranjariam problemas a Suzan e aos filhos se soubessem que ela falara com a polícia.

E, por isso, ele dissera-lhe que, se Ekrem ou Celal a fossem visitar, ela devia ser o mais agradável possível e dizer-lhes que lhes arranjaria algum dinheiro em

breve. Se eles a deixassem falar e não lhe batessem só. Os rapazes, dissera o inspector Suleyman, deviam uma visita às suas celas. Aparentemente, o pai de Hulya,

o inspector Ikmen, tinha qualquer assunto a resolver com eles. Ele andava a investigar a morte daquela pequena cabra, Hatice Ipek...

- Senhora Seker?

E aqui estava, de súbito, Hulya Ikmen, amiga e companheira da prostituta que obcecara o marido. A rapariga parecia muito fresca e bonita nos seu vestido comprido

de algodão. Toda a raiva mal contida de Suzan se esvaneceu.

- O que queres? - perguntou Suzan, olhando com desconfiança Hulya e o jovem alto que a acompanhava através da montra-armário da pastelaria.

- Pensei que não ia abrir apastane hoje - começou Hulya.

- Sim, bem, enganaste-te - Suzan estendeu a mão para o armário para pegar num éclair àe. chocolate para servir ao homem que estava sentado sozinho junto à janela

da frente.

Embora Hulya se sentisse desencorajada tanto devido à falta de clientes na pastani, geralmente cheia de movimento, como à hostilidade da viúva de Seker, continuou:

185

- Mas não pode trabalhar sozinha, não...



- Posso fazer o que me apetecer! - O rosto de Suzan era agora vermelho-vivo e os tendões do seu pescoço faziam forte pressão contra a carne. Berekiah Cohen, alarmado

por este rosto feroz, colocou um braço protector em volta dos ombros de Hulya. Infelizmente este pequeno gesto de afecto inflamou Suzan Seker até ao ponto de explosão.

- Sai da minhapastane, Hulya Ikmen! - gritou ela. - E leva contigo a tua mais recente conquista!

- Mas senhora Seker...

- Não perdeste tempo a pegar noutro par de calças assim que o meu Hassan partiu, pois não?!

O homem que estava pacientemente à espera do éclair junto à janela pigarreou de uma maneira muito óbvia. Mas Suzan só lhe dirigiu o mais breve dos olhares antes

de continuar o seu discurso de censura.

- Pensas que sou estúpida? - gritou ela para o rosto chocado de Hulya. - Pensas que acredito que Hassan te passou completamente ao lado, quando fodeu alegremente

todas as outras raparigas que trabalharam nesta pastane?!

- Não, é... isso não é verdade! - Lágrimas, mais de raiva do que de tristeza, saltaram aos olhos de Hulya.

Suzan deu rapidamente a volta ao balcão e aproximou-se dela, o éclairoo prato que o continha a tremerem-lhe na mão. O homem que se encontrava junto à janela dobrou

depressa o jornal que estivera a ler e saiu.

Antes que ela tivesse tempo para resistir, Berekiah Cohen colocou Hulya atrás de si e levantou a mão para Suzan.

- Mas, minha Senhora...

O bolo atingiu-o exactamente entre os olhos, chocolate e creme batido escorriam-lhe pelo nariz e caíam-lhe na camisa. Suzan Seker, como que voltando, de repente,

a si, colocou a mão na boca e desfez -se em lágrimas.

Hulya, sem realmente saber se devia dirigir-se a ela ou ajudar Berekiah a limpar-se, avançou com uma mão estendida. Suzan, no entanto, recusou este gesto.

- Não! - gritou Suzan, correndo depois, a chorar, em direcção à parte de trás do edifício. - Lamento muito! - A mulher desapareceu,

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entrando para o escritório em que o marido se suicidara e fechando a porta atrás de si.



Por esta altura, já Berekiah retirara o éclair do rosto e estava a limpar o nariz. Olhou Hulya.

- Tem de ser do desgosto - disse ele calmamente. - A minha mãe também disse uma série de loucuras quando Yusuf adoeceu.

- Eu nunca dormi com o senhor Seker, tu sabes - disse Hulya, ao mesmo tempo que lhe passava uma pilha de guardanapos de papel que pegou de cima do balcão. - Tens

de acreditar em mim.

Berekiah aceitou os guardanapos que ela lhe estendia e sorriu por entre chocolate e creme.

- Claro que acredito - disse ele, e, em seguida, mostrando que não dera absolutamente qualquer crédito à explosão de Suzan, acrescentou: - É melhor limparmos isto

tudo, senão ela ainda vai perder mais clientes.

Depois de olhar em redor para se certificar de que mais ninguém entrara na pastane vazia, Hulya esticou-se e beijou-o na face.

CAPÍTULO CATORZE

Embora não tivesse sido inteiramente em vão, o dia verificara-se frustrante para os que estavam empenhados em tentar resolver o enigma de como Hikmet e Vedat Sivas

tinham saído dayah sem serem vistos. Todas as divisões, todos os armários, todos os anexos e antigos balneários "orientais" abandonados tinham sido vasculhados,

investigados e, nalguns casos, virados do avesso. Mas não valeu de nada.

- Não há nada minimamente estranho nesta casa nem nas coisas que cá estão dentro - disse Iskender com ar cansado, juntando-se a Ikmen, que se encontrava a uma das

janelas que davam para o Bósforo, agora envolto em escuridão. Vindo de outra parte da casa, o som de passos ansiosos em escadas e soalhos foi vagamente registado

pelos dois homens exaustos.

- Çóktin acabou de telefonar do palácio - disse Ikmen, oferecendo um cigarro a Iskender. - Vedat não apareceu.

Iskender pegou no cigarro com um aceno de cabeça de agradecimento.

- Você esperava que ele aparecesse?

- Não. Mas Çóktin e Ayci vão ficar lá a dar uma olhadela. O Palácio Yildiz é um local grande, escuro e misterioso. Parece que estão a fazer uma visita guiada.

- Ele devia estar definitivamente a trabalhar no palácio esta noite? - perguntou Iskender.

- Sim, o gerente do hotel foi peremptório ao afirmar que Vedat Sivas não voltaria a estar de serviço no Ciragan senão na próxima terça-feira. Estavam à espera dele

no Yildiz.

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Estivera tanto calor ultimamente e, além disso, ela não confiava nos agentes anti-sépticos que eram usados aqui. Não confiava "neles" de todo - com excepção do pai.



Abriu a porta do quarto e arrastou os pés para o corredor, uma estrangeira conspícua vestindo um enorme casaco de Inverno. Olhando primeiro para a esquerda e depois

para a direita, movimentou-se o mais depressa que pôde em direcção à entrada. Imaginava que devia parecer um daqueles corajosos prisioneiros de guerra aliados dos

filmes britânicos sobre a Segunda Guerra Mundial. Casaco grande, cabeça baixa, tentando passar pelos guardas sem serem vistos. Zelfa riu, ainda que em silêncio,

perante a imagem. Bem, pelo menos sabia falar a língua!

Lá atrás, no seu quarto, o pequeno Yusuf Izzeddin continuava a dormir, sem ter conhecimento do facto de que a mãe o abandonara.

- Inspector - disse Hikmet Yildiz, ao mesmo tempo que se acocorava ao lado da pequena estrutura de vidro -, a questão é que há um poço ou um género de fenda por

baixo deste... - Esforçava-se para encontrar a palavra certa e não conseguiu.

- Parece uma estrutura por baixo da qual as pessoas por vezes cultivam plantas - disse Ikmen, de sobrolho franzido. - Não que eu seja algum perito.

- As caves por vezes têm clarabóias como esta - acrescentou Iskender.

Instantaneamente, Yildiz ficou excitado.

- Exactamente! - disse. - Exactamente!

Estar lá fora no jardim de Hikmet Sivas iluminado pelo luar não fora o plano original de Ikmen. Tencionara dizer a Yildiz que fosse para casa e revezar-se com Iskender

para conseguirem dormir um pouco. Mas o rapaz estava tão animado.

Esta estrutura ou janela que ele descobrira encontrava-se na parte oriental dayaà, pegada ao edifício, logo acima do nível do solo. E embora não fosse possível ver

o que se encontrava por baixo, era óbvio que havia um vazio qualquer. Porém, o que era também óbvio era que este buraco não seria suficientemente grande para permitir

o acesso nem tão-pouco à pessoa mais magra, como era Ikmen.

- Então o que é que está no interior do edifício neste sítio? perguntou Ikmen devagar.

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- Nada - Yildiz suspirou. - Já me fartei de olhar. Só há uma parede vazia. A menina Sivas diz que não há cave. Ela não sabe para que serve esta... coisa.

- E esta parede é sólida? - perguntou Ikmen, sabendo que alguém que andasse à procura de passagens secretas já o teria verificado.

- Não, mas há muitas paredes ocas nestayah - respondeu Yildiz. - Há muito tempo, algum antigo paxá mandou colocar aqueles grandes lambris, para fazer com que a casa

ficasse mais parecida com um castelo francês ou coisa assim, foi o que a menina Sivas disse.

- A menina Sivas parece saber muito - comentou Ikmen. Então o que há no primeiro andar? - Levantou o olhar para uma janela escura que se encontrava por baixo do

tecto sobressaído.

- Aquele é o quarto de Hikmet Sivas - disse Yildiz.

- Está coberto de lambris, não está?

- Sim, mas há um recesso para dentro da janela. É preciso abrir um conjunto de portas para lá se chegar - respondeu Yildiz. - É um pouco estranho.

- Vamos lá dar uma olhadela - disse Ikmen. Yildiz levantou-se.

- Mas, inspector, é lá em cima.

- Eu sei, Yildiz.

Ikmen, seguido de Iskender, já ia a caminho para entrar na casa. Yildiz correu para os alcançar.

- Em tempos remotos, na era otomana, os criados costumavam dormir em armários assim - disse Ikmen enquanto examinava o pequeno cubículo de madeira, a janela de vidro

simples proporcionando uma vista ampla do jardim. - Naquela altura, a janela deve ter sido protegida por um anteparo, em vez de ter cortinas - o inspector sorriu.

- Os cavalheiros otomanos eram muito meticulosos em relação à sua privacidade.

Iskender entrou no armário e olhou em redor para as portas ornamentadas e para as fortes cortinas verdes, que estavam abertas.

- Não parece estar a ser usado agora seja para o que for - disse.

- Não.

- Nesse caso, por que motivo teriam tirado os anteparos, inspector? - perguntou Yildiz. - Algumas das outras janelas ainda os têm.



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- Quem sabe? Talvez este conjunto tenha apodrecido - Ikmen esfregou uma mão contra a parte lateral de uma das portas. - Por vezes isso acontece. Ou talvez tivessem

sido retirados por qualquer outra razão, que desconhecemos.

Todos ficaram em silêncio por alguns momentos. Ikmen olhou atentamente em redor, franzindo o sobrolho.

- Embora aqui o jovem Yildiz esteja um pouco inclinado de mais para a ideia de passagens secretas - disse ele após uma pausa -, estou convicto de que ele está apenas

a responder a alguma coisa que lhe está no sangue e que todos partilhamos.

Iskender saiu do armário e deixou-se ficar diante do homem mais velho, parecendo confuso.

- Inspector?

- Não sei se tem a ver com esta cidade ou se tem a ver com o facto de se ser turco - disse Ikmen. - Mas quando tu, inspector Iskender, disseste que procurar passagens

secretas era algo mais apropriado à Europa do que a este país, não estavas totalmente certo.

- O que quer dizer com isso?

- Esta cidade está repleta de passagens subterrâneas - respondeu. - Os gregos que cá estiveram antes de nós fizeram túneis debaixo da cidade para construírem as

suas cisternas. - O rosto tornou-se-lhe momentaneamente sombrio. - Locais onde os homens modernos escondem os corpos de jovens raparigas, segundo a minha experiência

recente. Há também caves e túneis de construção turca por toda a zona da cidade velha. Fomos o primeiro país a ter um comboio subterrâneo com o nosso Túnel em Beyoglu.

Como diz sempre um amigo meu que é descendente de uma antiga família otomana, os otomanos gostavam que as suas vidas privadas fossem muradas. Eram reservados, misteriosos.

Os sultões corriam apressadamente pela cidade, disfarçados, a horas mortas da noite, apanhando mulheres baratas. - Sorriu. - E nós somos descendentes deles, turcos

que, em parte, ainda aderimos ao secretismo rígido dos nossos antepassados e, é claro, à modéstia que o Islão exige das nossas mulheres.

Iskender, que ouvira dizer como Ikmen podia "disparar" quando formulava uma teoria ou resolvia um problema, pigarreou. Ikmen sorriu.

- Imagino que estejam a pensar que estou a perder o juízo. Entrou no armário e olhou primeiro para as paredes em redor e depois

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para o tecto. - Mas quanto mais penso nisto... Não há razão para supor que pessoas que vivessem fora da cidade velha não construíssem também túneis. Há construções

subterrâneas em Beyoglu.

- Em Beyoglu, sim - respondeu Iskender -, e talvez até aqui. Mas, inspector Ikmen, estamos no primeiro andar de um edifício de madeira. O agente Yildiz explicou

que há cavidades nas paredes.

- Sim. Mas o que ele não explicou, ou em que talvez nem sequer tenha reparado, é isto - Ikmen mostrou ao colega a ponta do que parecia um puxador de corda de uma

cortina.


- É para as cortinas - começou Yildiz -, isso...

- Não, não é - Ikmen apontou para cima, em direcção ao local em que a outra ponta daquilo que ele estava a segurar desaparecia num buraco do tecto do armário. -

Afastem-se.

- O que está a fazer? - perguntou Iskender, ao mesmo tempo que observava Ikmen a desenrolar a corda do seu suporte na parede.

- Penso que vou descer para o que quer que esteja por baixo daquela clarabóia - disse Ikmen.

E, bastante determinado, depois de ter desenrolado a corda toda, o fundo do armário começou a baixar devagar.

- Estão a ver, isto é um elevador - disse Ikmen, à medida que a sua cabeça ficava ao mesmo nível da cintura de Iskender. - É primitivo, mas move-se facilmente, por

isso deve ter sido oleado recentemente. Suspeito de que os irmãos Sivas o podem ter feito.

- Quer dizer que Hikmet e Vedat mandaram construir esta coisa?

- Duvido - respondeu a voz abafada de um Ikmen agora invisível. - Parece demasiado velho para isso. Não, penso que eles provavelmente descobriram-no... Está muito

escuro...

- Tem uma tocha, inspector? - perguntou Yildiz ansiosamente.

- Sim.

Iskender e Yildiz olharam para baixo, para o buraco onde estivera o chão do armário. Quando o tecto do elevador parou, tudo o que realmente viam era a corda a desaparecer



numa escuridão profunda e quase palpável.

- Inspector Ikmen...

Durante alguns momentos não se ouviu nada. Os dois polícias olharam um para o outro, os olhos subitamente ansiosos. Iskender começava a pensar que nunca deveria

ter permitido que Ikmen estivesse

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sozinho num local desconhecido. Era verdade que o homem mais velho era conhecido pela sua impetuosidade, mas isso não absolvia necessariamente Iskender de qualquer



culpa, se acontecesse alguma coisa de desagradável. Ele poderia ter entrado no elevador com Ikmen. Só Alá sabia o que poderia estar lá em baixo.

- Há uma passagem - Ikmen teve de gritar para se fazer ouvir. Iskender soltou um suspiro de alívio.

- Suba - disse. - Vamos descer consigo.

- Está bem.

Das profundezas do buraco, algo começou a mover-se novamente para cima.

Iskender lançou um olhar de soslaio a Yildiz, que proferiu abruptamente:

- Eu bem lhe disse que tinha de ser uma passagem secreta, inspector.

Iskender, invulgarmente perante uma insubordinação, ainda que suave, riu.

Hale Sivas não tinha conhecimento da existência do túnel que levava, através daquele estranho e arcaico elevador, do quarto do irmão à fila de pequenas casas otomanas

que se encontravam fora dos muros do jardim. Construídas num caminho de terra que se estendia ao longo do lado oriental do jardim, estas estruturas em ruínas estavam

completamente desertas - ou pelo menos estavam-no, quando Ikmen e os colegas saíram do túnel para entrarem na cozinha da casa do meio. Não que tivessem dito alguma

coisa sobre isto à menina Sivas - por enquanto.

- As casinhas pertencem àjaú-disse ela, sentando-se numa das cadeiras viradas para o Bósforo agora negro como azeviche. Não conseguia compreender por que é que o

filho da bruxa Ayse a arrancara do seu sono para falar da propriedade, quando Vedat e Hikmet possivelmente ainda corriam perigo. Puxando a ponta do seu lenço de

cabeça o mais que pôde em volta do rosto mas sem o esconder completamente, a mulher acrescentou: - Hikmet nunca as aproveitou. De qualquer maneira, eu ter-me-ia

oposto, mesmo que ele quisesse fazê-lo. Estão num estado lastimável.

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- Foram usadas para quê? - perguntou Ikmen, acendendo o seu cigarro e o de Iskender. - Parecem-me ser do século XIX.



- Sim, são - respondeu ela, o rosto agora mais tenso do que antes, como se se fechasse para evitar algo difícil ou desagradável. Diz-se que foram construídas por

Mahmud Effendi.

Seguiu-se um silêncio durante o qual ela desviou os olhos.

- Mahmud Effendi?

- O pasa que era proprietário desta yaú na altura - explicou ela. - Um homem desagradável e imoral. Eu disse a Hikmet que não devia comprar esta casa, que nenhum

bem daí poderia advir. E verificou-se que eu tinha razão.

- Porquê? - perguntou Iskender.

- Porque algumas casas são assombradas pelo azar - disse ela, não tirando os olhos de Ikmen. - Você sabe o que quero dizer. Dizem que Mahmud Effendi era daqueles

que forneciam ao sultão Abdul Hamid informações sobre as pessoas; mentiras. Depois essas pessoas eram torturadas. Muitas morreram. - Abanou a cabeça tristemente.

- Outras histórias falam dos seus vícios abomináveis. As casas de que falou era o local onde ele tinha o seu verdadeiro harém, de rapazes. Eu até ouvi dizer que

ele mandou construir uma passagem subterrânea desta jaú para as casas, para poder visitar os rapazes sempre que quisesse sem ser visto. Mas isso pode ser simplesmente

um mito. As vidas das pessoas eram muradas, nesses tempos.

- A senhora nunca descobriu tal passagem? - perguntou Ikmen.

- Não.


Ikmen, Iskender e Yildiz trocaram olhares. Ikmen pigarreou.

- A senhora disse que, na sua opinião, nenhum bem poderia advir de se ser proprietário destajaú.

- Ela tem uma história de mau agoiro - a mulher hesitou. Não foi só Mahmud Effendi... Eu não vos contaria isto se Hikmet e Vedat estivessem aqui, mas... - Hale Sivas

olhou cada um dos polícias individualmente, antes de continuar: - O meu irmão comprou esta casa com dinheiro sujo.

- O que quer dizer com isso, menina Sivas? - perguntou Ikmen. A mulher fez uma pausa momentânea antes de responder.

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- Só fui visitar Hikmet uma vez quando ele se mudou para a América. Vedat vai todos os anos. Mas quando eu fui, Hikmet tinha acabado de terminar apenas o seu segundo

filme em Hollywood. Levou-me a Las Vegas. Vi Frank Sinatra cantar com Dean Martin. Então Hikmet apresentou-me a eles - sorriu. - Eles foram encantadores com uma

jovem rapariga turca que não falava inglês. - O rosto tornou-se-lhe sombrio. - Mas mais tarde, quando nos encontrámos com alguns dos seus, deverei dizer, amigos

mais chegados, as coisas não correram tão bem. Não sei falar inglês, e, por isso, não sei de que se falou realmente, mas... não sou estúpida. Tenho olhos para ver

quando o dinheiro passa de umas mãos para outras, tenho ouvidos para ouvir os sons de actos abomináveis em grandes quartos de hotel. Hikmet parecia muitas vezes

tenso...


- Tenso?

- Não sei com que Hikmet está ou esteve envolvido, ou Vedat, só digo que Alá os castigará no fim, e que Hikmet, eu sei, está despedaçado por dentro.

- Por que não nos contou nada disto antes? - perguntou Ikmen. Hale Sivas encolheu os ombros.

- Contar-vos o quê? Que o meu irmão anda metido com gente má?

- Gente que pode ser responsável pelo que aconteceu à sua cunhada - contrapôs Ikmen -, sim.

- Mas como é que isso pode ajudar? - A mulher idosa abanou a cabeça. - Não sei quem eles são. São estrangeiros. Eu não falo a língua deles.

- E nunca fez perguntas sobre eles a Hikmet nem a Vedat?

- Só digo aos meus irmãos que se comportem como muçulmanos dignos e que rejeitem o infiel. Eles sabem ambos o que eu penso. O mundo ama Hikmet Sivas, mas, para mim,

ele é uma decepção as lágrimas começavam agora a marejar-lhe os olhos e a voz embargou-se-lhe de emoção. - Digo-lhe que não vá para a América, que faça filmes aqui,

mas ele vai para lá sem se preocupar comigo! Digo-lhe que não case com mulheres infiéis que só lhe darão filhos cristãos, mas ele ignora-me. Digo-lhe que não compre

estayak, e ele compra-a. Oh, ele pede sempre muita desculpa depois, implorando a toda a hora que lhe perdoe, prometendo-me que Vedat estará sempre aqui para viver

comigo.


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- Por que vive aqui, se não concorda com a compra destayah nem com aquilo a que ela está ligada?

Hale Sivas virou-se para lançar um olhar duro a Iskender.

- Porque tenho de viver comomeu irmão Vedat, não há mais ninguém que cuide de mim. Eu vivo onde ele viver, e com as minhas orações e a pureza da minha vida, trabalho

para manter afastados os fantasmas perversos de Mahmud Effendi e dos seus crimes. Talvez Alá, em toda a Sua sabedoria, veja o meu sofrimento e perdoe os meus irmãos

por andarem metidos com mulheres e pela sua maldade.

Yildiz, para quem a conversa de fantasmas era uma experiência mais fora do comum do que para Ikmen, tossiu, contrariado. Hale Sivas olhou-o no rosto.

- Não acredita em fantasmas? - perguntou ela bruscamente. Não acredita que as almas penadas erram por aí? Você é demasiado racional, não é?

- Não. - Mas o jovem baixou a cabeça.

- Penso que o agente Yildiz, o inspector Iskender ou eu próprio não estamos em posição de refutar a possibilidade da existência de tais coisas, depois daquilo a

que acabámos de assistir - disse Ikmen.

Ela virou-se para olhar para ele.

- Ah!?... Ikmen sorriu.

- Compreende, menina Sivas, é que a passagem secreta de Mahmud Effendi existe mesmo. Atrás de um dos seus finos lambris franceses, acessível através de um elevador.

Estivemos lá em baixo agora mesmo. A passagem vai do quarto do seu irmão Hikmet para as casas, passando por baixo do jardim. É muito escura e arrepiante, mas foi

usada há pouco tempo. Pensamos que os seus irmãos podem tê-la usado para desaparecer.

Hale Sivas pareceu genuinamente surpreendida.

- A única coisa que não sabemos é porquê - disse Ikmen. - Se nenhum dos seus irmãos matou a sua cunhada, não tinham razão para sair daqui a não ser que soubessem

quem matou Kaycee.

- Mas, nesse caso, não vos teriam dito?

- Não, se eles próprios estivessem envolvidos em alguma actividade ilegal com essas pessoas - respondeu Ikmen. - Como já lhe disse eles não tinham vontade nenhuma,

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de nos envolver. Deve ter havido uma razão para isso, para além da explicação que a senhora nos forneceu, que, se bem me lembro, foi falta de confiança na polícia.

Pessoalmente, acredito que o homicídio da sua cunhada teve muito mais a ver com as relações de Hikmet do que com as dela. Penso, como também já tive oportunidade

de lhe dizer, que foi um aviso qualquer-aproximou-se dela e disse: - O que lhe parece?

Hale Sivas, incapaz de aguentar o olhar de Ikmen por muito tempo, desviou os olhos.

- Não sei - disse tristemente. - Por vezes Vedat começa a falar das suas inquietações, mas eu viro sempre a cabeça e fecho os ouvidos. Não quero saber de nada que

tenha a ver com o mal. Ele pode contaminar a alma de uma pessoa...

- Bem, é pena - disse Ikmen, levantando-se, irritado, com um movimento brusco. - Se a senhora tivesse arriscado a sua alma, poderíamos ter agora alguma ideia de

onde os seus irmãos estão e com quem. Las Vegas, onde a senhora encontrou uma vez Frank Sinatra e Dean Martin, era dominada pela Máfia no início dos anos 1960, e

se Hikmet e Vedat estão, ou estiveram, ligados a ela, estão agora provavelmente fora do alcance das nossas orações.

E, com isso, Ikmen saiu da sala. Iskender e Yildiz seguiram-no pouco depois, saindo o mais silenciosamente possível, enquanto a velha senhora chorava para as fortes

dobras do seu lenço de cabeça.

CAPÍTULO QUINZE

Muazzez Heper permitiu que a irmã a acompanhasse até ao passeio e até que lhe chamasse um táxi, mas mais nada.

- Foi a mim que ele pediu para ver - disse ela, agarrada ao braço de Yúmniye, enquanto se dirigiam para o passeio. - Eu disse sempre que tu não sabias de nada.

Yúmniye, sem que a irmã pudesse saber, franziu o sobrolho.

- Devíamos ter contado a Ikmen.

- Foi por pouco que não contaste - respondeu Muazzez num tom ácido.

- Sim.


- Isto é muito mais abrangente do que aquilo que sabes, Yúmniye.

- Sim, mas não tivemos nada a ver com a morte daquela rapariga!

- Isso é irrelevante! - Muazzez virou os olhos vazios na direcção da irmã e franziu o sobrolho. - Agora chama-me um táxi, por favor. Não tenho tempo a perder.

Com um suspiro relutante, Yúmniye libertou o braço do aperto de Muazzez e aproximou-se da estrada. Uma das muitas coisas que existem em abundância em Istambul são

táxis. De cor amarela-viva e exibindo o número de registo de lado, são conduzidos por um grupo de pessoas dedicadas aos dois ideais machistas da velocidade e da

supremacia posicional na estrada. Quase imediatamente, um parou em frente das duas mulheres.

Yúmniye abriu a porta de trás mais próxima do passeio e ajudou a irmã a entrar no veículo. Não era sensato sentar-se ao lado do

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motorista, especialmente nos táxis mais velhos, como este, que podiam ter travões velhos e ineficazes.

- A minha irmã quer ir para Sultanahmet, Ishak Pasa Caddesi disse ela -, pouco antes da passagem inferior à linha do caminho-de-ferro.

O motorista encolheu os ombros e mostrou firmeza.

- Tem cuidado, Muazzez - disse Yúmniye, ao mesmo tempo que a irmã se afastava no táxi em direcção à Ponte do Bósforo. Fora encontrar-se com "ele", aquele que Yúmniye

nunca conhecera e que quisera sempre conhecer, apesar de tudo. Afinal, ele tinha tornado a vida delas possível. Salvara o General da ignomínia.

Ikmen viu Ardiç a falar com Iskender por breves instantes, lá fora no jardim. Iskender ia a caminho de casa. Provavelmente dormira ainda menos do que Ikmen. O mobiliário

de Hikmet Sivas, embora fosse bonito, dificilmente seria confortável e, durante toda a noite, ambos os homens tinham dado voltas e mais voltas, a tentar instalar-se,

à escuta, ao mesmo tempo, do telefone e de eventuais sons estranhos existentes na casa. Fora horrível e, provavelmente, a última coisa de que Iskender precisava

agora era de Ardiç, que, segundo parecia, não se poderia dizer que se demorara em Ancara.

Ikmen pegou na pequena chávena de chá que um dos polícias mais novos lhe oferecia e sentou-se. Çòktin, que por esta altura também regressara a sua casa, não descobrira

nada de útil no Palácio Yildiz na noite anterior. O pessoal de lá conhecia Vedat, e também sabia quem era o irmão. Vedat começara a trabalhar no palácio quarenta

anos antes e nessa altura estava todos os dias de serviço; agora trabalhava lá apenas uma vez por semana. Guardava para si a sua própria vida e não se aproximava

muito dos colegas. Talvez o facto de ter um irmão famoso fosse a razão disso. Ikmen duvidava de que algum dos colegas de Vedat vivesse nalguma coisa parecida com

o esplendor de que ele gozava.

Um som azafamadamente impaciente atrás de si alertou Ikmen para o facto de que o comissário Ardiç entrara no edifício. Virou-se e viu que Tepe, pálido e ansioso,

estava de pé na generosa sombra de Ardiç.

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- Pareces uma alma penada - disse Ardiç num tom de desaprovação, ao mesmo tempo que vinha sentar-se junto a Ikmen.



- Não dormi muito a noite passada, comissário - respondeu Ikmen.

Ardiç virou-se para Tepe.

- Bem, nesse caso vai à tua vida - disse, acenando ao sargento com uma mão elucidativa.

- Sim, comissário - Tepe saiu prontamente da sala.

- O que está ele a fazer? - perguntou Ikmen, inclinando a cabeça na direcção do homem que se retirava.

- Quero que ele se certifique de que a imprensa não está lá fora - explicou Ardiç.

- Pensei que tinha combinado um blackout.

- E combinei, mas sabes como eles são. Não nos podemos dar ao luxo de permitir quaisquer escorregadelas. Ninguém deve saber o que se passa nesta casa. Para o mundo,

Sivas está aqui.

- E se alguém o vê na rua? - perguntou Ikmen.

- Bem, ninguém o vai ver, Ikmen! - Ardiç acendeu um dos seus gordos charutos cubanos, recostando-se em seguida na cadeira, que era demasiado pequena para albergar

a sua figura. - Ele desapareceu.

- Mas podem ver - insistiu Ikmen, entredentes, ao mesmo tempo que acendia um cigarro que há muito que lhe andava à solta no bolso. - É possível.

Ardiç tossiu.

- Bem, se é ou não, não te diz respeito, Ikmen - disse ele. -Já deixou de te dizer respeito.

Ikmen, os olhos semicerrados para se protegerem do fumo detestável do seu velho cigarro, inclinou-se para a frente e franziu a testa.

- Comissário?

- Quero que vás para casa e tires uns dias de licença - Ardiç mexeu-se na sua cadeira, mudando de posição de forma a fazer com que a sua avantajada barriga ficasse

mais confortável. - Para já, vou trabalhar com Iskender.

- Mas eu não quero...

- É uma ordem, Ikmen - disse Ardiç na voz baixa e ameaçadora que usava apenas quando estava a ser terrivelmente sério. - Vai para casa, fica com os teus filhos,

come alguma coisa. Pareces ainda mais esquelético do que de costume.

202

- Não como quando estou ocupado, não sou capaz - Ikmen baixou a cabeça e perguntou. - Porquê?



- Porque eu digo para o fazeres - respondeu Ardiç, desta vez com voz suave. - Porque tem de ser assim.

Ikmen levantou o olhar. Isto não era ideia de Ardiç. Era algo que lhe tinham dito para fazer.

- Quem lhe disse para se ver livre de mim? Acabou de chegar de Ancara...

- Preciso de um relatório sobre este caso - disse Ardiç, mudando de assunto sem pestanejar.

Ikmen, irritado, levantou-se rapidamente.

- Muito bem - disse -, embora Metin e eu estejamos mais acostumados um ao outro ultimamente e eu pense que ele está completamente dentro do assunto.

- Escreve tudo, de qualquer maneira, Ikmen. Volta à esquadra, escreve o teu relatório e depois vai para casa. Tens tantos dias de licença que não gozaste que é quase

incalculável. - Olhou Ikmen fixamente. - Tira uma semana.

- Uma semana!

- Uma semana, Ikmen - resmungou Ardiç. - Com os teus filhos. Vai ser muito bom.

Lágrimas de frustração e raiva erguiam-se atrás dos olhos de Ikmen. Tinha trabalhado muito para chegar ao ponto em que estava neste caso. Agora alguém hierarquicamente

superior a Ardiç estava a livrar-se dele. Porquê? Mas não valia a pena argumentar, isso era evidente, a julgar pela expressão pesada do rosto de Ardiç.

- Sim, comissário - disse, com ar infeliz.

E então Ardiç, numa reacção nada característica nele, sorriu.

- Esquece isto tudo - disse, à medida que acenava expansivamente o cigarro no ar. - Recupera as forças. As pessoas serão sempre gananciosas, violentas e insensatas,

ainda haverá muita coisa para fazer quando voltares.

- Sim. - O rosto de Ikmen, cheio de rugas e, a maior parte das vezes, carrancudo, parecia agora derrotado, e, como que movendo-se sob o peso de uma carga enorme,

o inspector levantou-se devagar e penosamente da sua cadeira.

203

Para alívio óbvio de Ardiç, Ikmen virara, de facto, costas para se ir embora, quando, de repente, deu meia volta. Não podia deixar passar isto, assim, sem mais nem



menos!

- Foram as mesmas pessoas que lhe disseram para me tirar do caso Ipek? - disse ele, a voz rouca de amargura. - Elas disseram-lhe que me afastasse também deste caso?

- O caso Ipek, como lhe chamas, dificilmente existirá - disse Ardiç, os olhos agora perigosos. - A rapariga morreu de morte natural. Suleyman tomará quaisquer medidas

necessárias contra quem a atacou.

- Assim que ele regresse ao trabalho e o rasto tiver arrefecido, sim - disse Ikmen -, eu sei.

- É um não-caso, Ikmen! - A cor normalmente rosada de Ardiç adquirira uma alarmante sombra pálida. Se Ikmen não estivesse tão irritado, teria feito uma pausa para

pensar no efeito que as suas palavras poderiam estar a exercer sobre o estado de saúde do seu superior. Mas era coisa que nem lhe vinha à cabeça agora.

- Eu estou a fazer progressos aqui! - gritou. - Descobri como os irmãos Sivas se eclipsaram deste edifício. Descobri ainda mais provas de uma ligação entre Hikmet

e a Máfia.

- Põe isso no teu relatório e eu vou ler tudo! - Ardiç tentou colocar-se em pé de um salto, furiosamente, mas apenas conseguiu levantar-se devagar.

- Está bem, comissário! Está bem! - Ikmen inclinou-se para a frente de forma a que o seu nariz quase que tocava o rosto de Ardiç. - Mas digo-lhe, se não contactar

imediatamente as autoridades americanas como eu sugeri inicialmente...

- Vou fazer o que for necessário!

Ikmen afastou-se. Ficou por um momento a observar o chefe com uma expressão de profundo desdém.

- Mesmo que aqueles que, por qualquer razão, estão a puxar-lhe os cordelinhos neste momento não queiram que o faça?

O queixo de Ardiç tremeu de indignação.

- Foda-se! Não sejas tão insolente! Agora sai antes que eu faça alguma coisa que vás lamentar!

Ikmen virou-se rapidamente e encaminhou-se para a porta.

- Diga a Metin que lhe desejo sorte - disse enquanto abria a porta, virando-se depois para olhar Ardiç mais uma vez. - Espero que

204


o que quer que seja que se esteja aqui a passar não o contamine também a ele.

Ardiç sentou-se novamente e recostou-se na cadeira, voltando a acender o charuto. Ikmen fechou silenciosamente a porta atrás de si.

A extremidade sul da Ishak Pasa Caddesi desaparece por baixo da linha do caminho-de-ferro imediatamente antes da estação de Cankurturan. Para quem vê, a estação

surge ao fundo, quando se desce a passagem inferior. Não sendo agora mais do que uma linha de caminho-de-ferro suburbano, esta linha costumava levar e trazer da

luminosa Paris o famoso Expresso do Oriente. Muazzez Heper lembrava-se bem disso. Não do seu luxuoso auge, é claro, mas do seu lento declínio, nos anos 1950 e 1960,

quando era sobretudo usada por camponeses que iam ou regressavam dos seus empregos de imigrantes na Alemanha. Contudo, ela ainda sonhara ser passageira das suas

velhas carruagens um belo dia.

No entanto, assim que a mente do General começou a deteriorar-se, todos esses sonhos desapareceram da sua jovem vida. Era tudo o que ela e Yúmniye podiam fazer para

pagar o tratamento dele e para tentar manter a renda em dia sem pensarem em viajar para o estrangeiro. Muazzez, porém, incapaz de suportar os delírios do pai, tinha

de se soltar e de ir espreitar a vida para além da casa em Úskúdar. Por vezes ia simplesmente dar um passeio, mas, de vez em quando, juntava todo o dinheiro que

as dificuldades permitiam e ia ao Cinema Alkazar, em Beyoglu. Aí, olhava as heroínas de seios generosos que tremiam perante vilãos de bigode e cabelos em pé da última

epopeia de Yesilcam, ou aplaudia alegremente a última oferta de Hollywood - filmes de inacreditável sumptuosidade - com verdadeiras estrelas como Cary Grant, Frank

Sinatra e Marilyn Monroe. Foi no cinema que ela encontrara o homem que mudara a sua vida para sempre - tanto no bom como no mau sentido, mas, sobretudo, no bom.

Após esse encontro, a renda deixou de ser uma preocupação e, com a grande comissão ocasionalmente vinda da mesma fonte para aumentar o próprio trabalho delas, as

irmãs Heper tinham melhorado muito de vida. Muazzez nunca conseguira viajar no Expresso do Oriente nem atravessar a Europa por quaisquer outros meios, mas não se

podia ter

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tudo. O general vivera e morrera com dignidade e isso valia por tudo. Foi por isso que ela o fizera, em primeiro lugar, e, apesar do que seria dito sobre o assunto



por amigos, vizinhos e até parentes, se alguma vez viessem a saber, porque fora a atitude mais certa a tomar. Muazzez não lamentava nada.

Fatigada pelo calor, que nem a mais leve brisa vinda do Mar de Mármare temperava, Muazzez encostou-se à parede da passagem inferior. Era demasiado idosa para estar

de pé durante muito tempo, em lugares que não lhe eram familiares. Onde estava ele? Fortes vibrações na parede de betão da passagem inferior diziam-lhe que um comboio

acabara de chegar à estação de Cankurturan. Fora das horas de ponta, não havia muitas pessoas que optassem por viajar para a cidade de comboio e, por isso, não havia

grande agitação em volta da chegada do comboio. Apenas mais calor e um silêncio salpicado pelas vozes distantes das crianças que brincavam nas ruas pobres da zona

de Cankurturan. Muazzez sorriu. A noite este local tinha fama de antro de ladrões, prostitutas e alcoólicos. Mas de dia não havia problema, pelo menos ela pensava

que não.

O comboio começou a arrancar da estação e rolou sobre a passagem inferior. O carro que estivera estacionado duzentos metros mais à frente, na Ishak Pasa Caddesi,

ganhou vida e começou a avançar. Ganhando velocidade ao mesmo tempo que o comboio que partia, o Volvo branco já adquirira uma velocidade considerável quando fez

a curva para entrar na passagem inferior.

Muazzez, que estava concentrada no som do comboio por cima da sua cabeça, não ouviu o carro senão quando era tarde de mais. Mesmo quando a pesada capota de metal

se precipitou contra as suas pernas, ela nem por um segundo imaginou que o que acontecera fosse outra coisa que não um acidente. Mas quando o carro fez marcha atrás

e, ainda a coberto do barulho do comboio que passava por cima, avançou para ela uma última, e fatal, vez, Muazzez soube que queriam que ela morresse. E, à medida

que a realidade da morte iminente a engolia, ela ficou triste por, após todos aqueles anos, ele ter sentido que tinha de fazer aquilo para a silenciar. Ele devia

ter sabido que não havia necessidade.

À medida que o carro desaparecia pela Kennedy Caddesi a alta velocidade, Muazzez Heper morria no chão, sozinha.

206

Por vezes, mesmo do maior dos vagos, escondem-se certas coisas. Sabemo-lo pela forma como o amigo se comporta, pela atmosfera dentro da sala, casa ou apartamento.



Como um cheiro incómodo, a sensação permanece, tornando pesada a conversa mais banal, enchendo-lhe os espaços de perguntas silenciosas.

Ikmen soube que algo de estranho se passava em casa de Suleyman mal atravessou a soleira da porta. Não foi só por Mehmet parecer despenteado, o que não era comum

nele, mas também pelo arranhão muito desagradável que lhe viu no rosto. Ikmen não tocou no assunto, embora tivesse reparado que o velho doutor Halman, que entrou

no salão trazendo o bebé Yusuf Izzeddin ao colo, olhara para a ferida com uma preocupação que não tentou disfarçar. E depois havia a visita que recebiam. Ikmen não

conseguiu lembrar-se do nome, mas quando o jovem desceu dos quartos do piso superior, Ikmen reconheceu-o como um dos colegas psiquiatras de Zelfa. Babur Halman foi

ter com ele. E embora Mehmet tivesse fechado a porta depois de o sogro ter saído da sala, Ikmen ouviu-lhes as vozes a falar baixinho durante muito tempo.

Mas Mehmet era otomano e era reservado em relação à sua vida particular. Era um direito e uma opção seus e, assim, Ikmen ignorou o que de estranho o rodeava e lançou-se

às causas do seu recente afastamento do serviço activo.

- Mandaram Ardiç afastar-me do caso Sivas. Eu sei! - disse ele, recostando-se na desbotada poltrona de Babur e acendendo um cigarro. - Ele foi a Ancara falar com

os superiores. Devem ter dito coisas.

- Sivas é uma estrela de Hollywood, Çetin - disse Mehmet com voz suave. - Tu e eu bem sabemos como as coisas são com os americanos.

- Queres dizer que o mundo lhes faz vénias.

- Porque a maior parte do mundo lhes deve ou dinheiro ou gratidão, sim. - Suleyman sorriu. - Provavelmente eles querem alguém estupidamente jovem que não fume.

- Metin Iskender fuma! - retorquiu Ikmen.

- Sim, o que quer dizer que eles vão fazê-lo trabalhar sob as ordens de outra pessoa - disse Suleyman. - Um homem de Ancara, talvez.

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- Um turco que não fume? - Ikmen abanou a cabeça, não podendo acreditar. - Para além de ti quando eras jovem, não conheci uma tal criatura. É ridículo!

Suleyman encolheu os ombros.

- Seja qual for a verdade do caso, é assim que as coisas são, Çetin.

- O que eu quero dizer é... se me tivessem só deixado falar com os americanos...

- Sim, mas Ardiç não te deu autorização, pois não? - Suleyman esfregou a testa com uma mão muito cansada. - E, de qualquer maneira, se Sivas tiver, de facto, ligações

com a Máfia, isso é assunto para os americanos tratarem, não é verdade? Já temos problemas suficientes com a nossa própria Máfia sem importarmos assassinos de Nova

Iorque e Chicago ou de outro sítio qualquer.

Ikmen, temporariamente com as energias esgotadas, fechou os olhos. Sabia que devia estar agora na esquadra a escrever aquele relatório sobre o caso Sivas para entregar

a Ardiç. Afinal, o que ele descobrira tinha de ter valor para Ardiç e/ou quem quer que ficasse no seu lugar. Túneis secretos, murmúrios de mafiosos, uma estranha

e rápida ascensão ao estrelato por parte de um jovem de Istambul, num país onde, segundo parecia, ninguém gosta de turcos...

- Quer dizer que Suzan Seker te disse que o marido andava a pagar aos irmãos Múren... - disse Ikmen, mudando subitamente o assunto para o seu outro caso anterior.

A sua mente tinha, afinal, de fazer qualquer coisa, já que não podia ocupar-se com Hikmet e Vedat Sivas.

- Mas ela não está preparada para que as suas declarações sejam registadas - respondeu Suleyman com ar sombrio. - De início ela foi muito corajosa e determinada,

mas mudou de ideias. Telefonou-me. Eu disse que tu estavas interessado em ter uma conversa com os irmãos Múren, mas ela não ficou impressionada. Penso que a senhora

Seker vai continuar no ponto em que o marido ficou. A realidade é que ela tem poucas alternativas.

Ikmen suspirou.

- Sabes, a não ser que estejamos preparados para lidar com o crime organizado nesta cidade, vamos perder o controlo.

- Ah sim? E fazemo-lo ao entrar numa guerra com a família Múren, não é verdade? - Suleyman levantou-se e caminhou agitadamente

208

de um lado para o outro durante alguns instantes. - Çetin, não sabemos se a família Miiren esteve envolvida no que aconteceu a Hatice ípek.



- Rat disse-me que a Máfia estava por detrás de um negócio de prostituição.

- Rat! - Suleyman tirou um maço de cigarros do bolso e acendeu um. - Ele é doido!

- Ele também me disse que duas costureiras do bairro onde eu vivia, as irmãs Heper, sabiam tudo sobre este assunto da prostituição de classe alta.

- E sabiam?

Ikmen encolheu os ombros.

- O que elas não me disseram ou não me quiseram dizer sugeriu-me que provavelmente sabiam.

Suleyman voltou a sentar-se. Embora longe de estar convencido de que o informador notoriamente duvidoso conhecido por Rat, A Ratazana de Sultanahmet, soubesse, de

facto, alguma coisa de valor sobre o caso Ipek, ele não duvidava do que Ikmen sentira em relação às irmãs Heper. Usados ao longo de muitos anos e em numerosos casos,

os instintos de Ikmen só eram questionados por Ardiç, que geralmente vivia para lamentar o seu cepticismo.

- Como é que pensas que essas irmãs possam estar envolvidas?

- perguntou Suleyman.

- É certo que elas fizeram aquele vestido de que te falei - disse Ikmen. - Aquele que Hatice usava quando morreu.

- Mas elas não disseram ou não quiseram dizer que fizeram esse vestido?

- Não. O que me sugere que elas sabem mais sobre o assunto ou têm um envolvimento maior neste... - Ikmen encolheu os ombros

- nem sei o que lhe chame. Neste negócio de raparigas com vestidos bonitos e que passou recentemente para a mão de famílias de mafiosos, segundo Rat.

- Segundo Rat. Hmm - Suleyman fitou Ikmen com um olho desconfiado. - Para mim, Çetin, devo dizê-lo, essa é a única falha em tudo isto.

- Rat?

- Sim. Para além de estúpido, ele não é de confiança.



209

- Bem, não posso discutir contigo sobre isso - disse Ikmen. Geralmente Rat é uma perda de tempo. Mas, desta vez, ele estava assustado. - Franziu o sobrolho ao lembrar-se

da conversa com o informador. - Está bem, ele queria dinheiro, como de costume, mas isso não diminui o risco que ele correu, na minha opinião.

- Quer dizer que esta rede de prostituição...

- Tanto quanto eu compreendo - disse Ikmen -, alguém durante muito tempo, forneceu odaliscas a homens com um gosto especial pelos tempos antigos. Rat disse que o

negócio existia há anos. Mas agora uma das famílias de mafiosos tomou o controlo, e há pessoas, talvez não só Hatice, que estão a magoar-se.

- Bem, suponho que ter uma mulher totalmente subserviente a todos os caprichos ou, nalguns casos, a todas as perversões de um homem possa ser atraente - observou

Suleyman. - Tradicionalmente, as odaliscas eram criadas que satisfaziam as necessidades do sultão quer na cama, quer na sua qualidade de criadas propriamente ditas,

quer na recepção primorosa de convidados. Uma odalisca, para além de aprender a ser sexualmente submissa, era treinada para se vestir de forma agradável, para cantar,

tocar um instrumento musical e lavar roupa. Tinha também de ser perfeita - sorriu. - A Sombra de Alá na Terra não podia ser submetida à visão de um defeito físico.

- Então talvez as famílias mafiosas estejam agora a fazer dinheiro com as fantasias de pervertidos - disse Ikmen. - Embora, se as irmãs Heper faziam os vestidos

para essas escravas do sexo modernas, o serviço não possa ter saído barato. Pervertidos ricos...

- Que possivelmente estão agora a pagar a uma das famílias?

- Ah, mas a que família? - Ikmen ergueu as mãos como que a convidar uma resposta que Suleyman não podia fornecer. - A única ligação mafiosa com isto é a ligação

dos Múren com Hassan Seker, que tinha um caso com Hatice Ipek e que, na carta de suicídio que deixou, afirma que a matou. Mas não acredito nisso. Os Múren podiam

ter tido relações sexuais com ela, sim. Mas tomar o controlo de uma coisa assim tão... sofisticada, superior, bem organizada como isto parece-me improvável. Ali

Múren é tão baixo quanto os filhos, basicamente não passa de um reles bandido. Não. Eles são demasiado estúpidos para se envolverem naquilo que parece ser uma operação

que dá muito trabalho. Se estivéssemos a falar dos Galikos ou dos Edips, eu diria que sim, mas os Múren não.

210

- Então talvez haja outra família por detrás dos Múren - disse Suleyman. - Os Galikos, talvez. Talvez até o búlgaro.



- Pensei que ele estava morto.

- Aparentemente não está. - Suleyman deixou cair a cabeça cansada em direcção ao chão. - Está vivo e mexe, ouvi dizer. - Levantou o olhar e acenou com o cigarro

a Ikmen. - Mas ele é perigoso disse. - Metin Iskender tentou apanhá-lo há uns anos atrás. Ele e a sua equipa, que penso que incluía Tepe, trabalharam muito durante

quase seis meses no caso de Zhivkov e do seu bando. Depois, quando fizeram uma busca à casa dele, encontraram-na vazia, com excepção da cabeça empalada da mulher

do búlgaro, Nina, a informadora de Iskender.

- Metin ainda tem problemas com isso. Reagiu muito mal àquilo que encontrámos no quarto de Hikmet Sivas. Mas Zhivkov está relacionado com os irmãos Múren?

Suleyman encolheu os ombros.

- Não sei, mas é possível. Como toda esta gente, os Múren são difíceis de encontrar quando os queremos, mas podias tentar mandá-los seguir. Ou podes simplesmente

perguntar-lhes.

Ikmen abanou a cabeça, incrédulo, e acendeu outro cigarro.

- Não há tempo para brincadeiras, Mehmet.

- Não, estou a falar a sério - respondeu Suleyman, que geralmente falava a sério. - Se conseguires apanhá-los, ou melhor, se conseguires usar o incentivo certo para

os apanhar, nesse caso penso que é possível convencê-los. - Vendo a expressão confusa do rosto de Ikmen, Suleyman explicou: - Estou a falar de Alev Múren, Çetin.

A irmãzinha que veio do Inferno.

- Ah.

Suleyman sorriu perante a expressão de Ikmen.



- Prende Alev e os rapazes vêm atrás. Não será difícil, ela é incapaz de fazer compras sem roubar pelo menos metade delas.

- Então só terei de estar à espreita em centros comerciais, não é verdade?

- Arranja um homem dos mais novos para a seguir à Galeria ou ao Akmerkez - disse Suleyman, mencionando dois dos novos e populares centros comerciais de estilo americano

de Istambul. - Alev Múren é uma diva da moda, faz compras de manhã à noite. O papá

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todos os dias lhe dá dinheiro para fazer compras. Mas quando esse dinheiro se acaba, ela rouba. Já roubou em lojas espalhadas por toda a cidade. Podes prendê-la



só pela fama que tem.

- E depois? - perguntou Ikmen.

- Assim que os rapazes souberem que ela está presa, virão logo

- disse Suleyman. - Tentarão comprar todos os agentes que encontrarem pelo caminho. Mas quando chegarem junto de ti, deixa bem claro que desta vez Alev vai ficar

presa. Podes mesmo dar a entender que gostas dela.

- Que ideia mais desagradável - disse Ikmen, lembrando-se das feições nédias e enfatuadas de Alev Múren.

- Se eles pensarem que a honra de Alev pode estar ameaçada, é possível que falem - disse Suleyman. - O velho Ali Múren matá-los-ia certamente a ambos se pensasse

que eles tinham permitido que a sua menina fosse violada. Nessa altura podes fazer-lhes perguntas sobre as outras famílias.

- Pensas que eles dariam informações sobre o búlgaro? - perguntou Ikmen, pouco confiante.

Suleyman encolheu os ombros.

- Penso que não é impossível. Se alguma coisa for o seu calcanhar de Aquiles colectivo, é aquela rapariga horrível. De qualquer maneira, Çetin, que mais temos?

Não havia muita coisa. Na verdade, pouco mais havia do que rumores, sugestões e pressentimentos. O único facto concreto era que uma rapariga fora brutalmente violada

e o seu corpo fora atirado para uma cisterna de importância secundária, e agora a mãe e a irmã da rapariga não paravam de chorar em sua memória. Ikmen sentiu que

os olhos lhe começavam novamente a arder.

- O problema é que é suposto eu estar agora de férias - disse, ao mesmo tempo que olhava interrogativamente o rosto de Suleyman.

- Oh, eu próprio vou ter de tirar mais uns dias de licença, Çetin

- respondeu o homem mais jovem, enquanto levantava as mãos para significar o seu afastamento. - Zelfa ainda precisa... ela não está...

Ikmen sorriu. Então Zelfa estava com problemas. Acontecia a algumas mulheres. Insallah, qualquer que fosse o problema, oxalá passasse depressa.

- Não faz mal - disse. - Cuida da tua família.

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- Çetin, lamento... - Suleyman desviou o olhar.

- Bem, não lamentes - Ikmen inclinou-se para a frente e colocou uma mão pequena e seca no ombro de Suleyman. - Cuida dos vivos, da tua mulher e do teu filho. - Colocou

a outra mão no bolso do casaco e retirou de lá uma pequena caixa brilhante. - Dá-lhe isto - disse, levantando-se para se ir embora. - Eu trato dos mortos. E saiu.

Suleyman, que, na realidade, estava exausto das acusações e das alucinações de Zelfa, deixou-se simplesmente ficar sentado e sentiu-se incapaz. Mais tarde abriu

a caixinha e encontrou lá dentro uma moeda de ouro de tamanho médio que datava do reinado do sultão Abdul Mecit, cujo sangue corria nas suas veias e nas do filho.

Como Ikmen tinha dinheiro para comprar uma coisa assim, ele não sabia, mas sorriu na mesma.

CAPÍTULO DEZASSEIS

O Sol já se pusera quando Ikmen regressou à esquadra. Apercebera-se vagamente do chamamento para a oração do pôr do Sol quando ralhava com os filhos adolescentes

por causa do estado aterrador em que se encontrava o apartamento. Mas depois saíra - deixando a casa tão desarrumada como a encontrara - para fazer o que Ardiç lhe

pedira e para tentar pensar no que poderia fazer agora com as suas "férias" e como poderia continuar as suas investigações no caso Ipek, agora "morto". Dificilmente

poderia prosseguir sozinho, mas não queria Tepe com ele. O homem, na melhor das hipóteses, demonstrara um comportamento desmazelado em relação aos Miiren e ao envolvimento

destes com Hassan Seker. Na pior das hipóteses, bem... Talvez fosse melhor não pensar em quantos e quais de entre os agentes que ele conhecera ao longo dos anos

tinham tido alguma ligação financeira com membros do submundo. Além disso, Tepe parecia estar a trabalhar directamente para Ardiç agora. Talvez o comissário o quisesse

manter por perto para o poder vigiar. Ardiç não era, afinal, nenhum idiota, mesmo que actualmente a sua boca estivesse a ser comandada por criaturas sem rosto em

Ancara - ou talvez Washington.

- Quer chá, inspector?

Ikmen levantou o olhar e viu o rosto pálido de Ayse Farsakoglu fitá-lo com uma expressão estranha do exterior do gabinete dele.

- Sim, por favor. Num copo grande - disse ele, virando-se depois para o ecrã do computador, que agora lhe mostrava que ele tinha um longo caminho a percorrer com

o seu relatório. Ikmen suspirou.

214


Fizera uma série de descobertas durante o pouco tempo que passara dentro e em redor da casa de Hikmet Sivas, mas do homem propriamente dito ficara a saber pouco.

O telemóvel começou a tocar. Ikmen pegou-lhe e resmungou para o bocal.

- É Cohen - disse uma voz de tabaco. - Achei que era melhor telefonar-te porque tu conhecias a senhora...

- Que senhora? De que estás a falar, Cohen? - Ikmen estava realmente demasiado cansado para ouvir as coscuvilhices de Cohen neste momento. Era solidário com a situação

do ex-agente; se ele próprio tivesse ficado incapacitado devido ao terramoto, provavelmente também passaria a vida ocupado com coscuvilhices, mas agora não era uma

boa altura.

- A costureira - disse Cohen. - Muazzez Heper. Morreu atropelada por um carro na passagem inferior junto à estação de caminho-de-ferro de Cankurtaran.

Ikmen sentiu que os cabelos se lhe eriçavam na nuca.

- Tens a certeza?

- Foi Avci que me contou - disse Cohen, referindo-se a um dos seus velhos colegas de farda. - Aconteceu por volta do meio-dia. Quem quer que o fez fugiu e pronto.

Ela estava sozinha, a menina Muazzez. Um homem que saía da estação naquela altura viu um carro branco, mas não foi capaz de dizer de que carro se tratava. Muazzez

e Yúmniye Heper fizeram o vestido de casamento da minha Esther.

- Tens a certeza de que foi Muazzez e não Yúmniye? - perguntou Ikmen. O que estaria uma mulher cega a fazer sozinha num bairro tão distante de sua casa?

- Oh, sim - disse Cohen -, tenho a certeza absoluta. Trágico.

Sim, e arrepiante, pensou Ikmen. Da última vez que ele vira Muazzez Heper, ela fizera furiosos trejeitos de boca à irmã depois de ele lhes ter mostrado aquele bonito

e terrível vestido. Exactamente antes de ele ter voltado a ver aquela estranha mulher ruiva que o fixava do lado de fora da cancela.

- Mas a vida continua - disse Cohen com um suspiro -, especialmente para o meu filho e para a tua filha.

Ikmen, cuja mente não tinha acompanhado esta súbita mudança de assunto, limitou-se a resmungar.

215

- Sim - continuou Cohen alegremente -, eles têm-se encontrado muitas vezes ultimamente. Tu e eu vamos ter de vigiar a situação atentamente.



- O que queres dizer com isso? - Parecia claramente a Ikmen que alguém tencionara matar Muazzez Heper. Mas quem e porquê? Certamente não era só por causa daquele

vestido...

- Bem, caso eles queiram estar juntos - disse Cohen. Ikmen, que agora conseguira apanhar a conversa, franziu o sobrolho. Sabia que Hulya gostava de Berekiah, e que

tinha isso?

- Não vejo mal nenhum nisso - disse. - Berekiah é um rapaz muito simpático.

- Um rapaz judeu muito simpático, sim - respondeu Cohen, algo cáustico. - A tua Hulya é muçulmana.

- Ora, Cohen, não me digas que, de repente, te tornaste religioso! Não me lembro de nenhuma das tuas amantes que fosse judia.

- Sim, mas a minha mulher é! Esther é! E ela é a mãe dos meus filhos. Há quinhentos anos que a minha família vive aqui e nem por uma vez nos casámos com alguém que

não fosse judeu! É importante para mim, inspector, para Esther, para os meus irmãos!

Ayse Farsakoglu entrou no gabinete de Ikmen trazendo um fumegante copo de chá, que colocou em cima da secretária, à frente dele. O inspector levantou os olhos e

dirigiu-lhe um sorriso cansado.

- Bem, Cohen - disse -, vamos ver no que dá, está bem? Neste momento eles só gostam um do outro.

- Sim, mas e se o meu filho for ter contigo e te pedir a mão de Hulya?

- Bem, Cohen... - começou Ikmen.

Ayse Farsakoglu virou-se para sair, ao mesmo tempo que Ikmen, vagamente, ainda a observava.

- É importante que falemos disto, inspector - disse Cohen.

- Tenho de me ir embora, Cohen - disse Ikmen carregando com o dedo o mais depressa que pôde no botão para terminar a conversa. - Sargento Farsakoglu!

Ela virou-se.

- Sim, inspector?

Ikmen levantou-se e contornou a sua secretária na direcção dela.

- Tem sangue nas costas da camisa - disse ele. - Esteve envolvida em alguma coisa?

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Ela virou-lhe a cara e as costas.

- Não.


- Bem, então teve algum acidente?

A inquietação que se instalara no rosto dela fez surgir em Ikmen um muito mau pressentimento.

- Ayse?

- Caí em casa - disse ela -, e bati no fogão. Na cozinha. Ikmen movimentou-se para olhar para a grande mancha de sangue, mas Ayse esquivou-se novamente.

- Quando é que isto aconteceu? - perguntou ele.

- Oh, ontem à noite... - Era óbvio que ela acabara de inventar aquilo.

- Deve ter um fogão com umas arestas bastante cortantes disse ele. - Foi ao médico?

Ela baixou os olhos.

- Não.

- Bem, penso que devia ir. - Suavemente mas com firmeza, ele pegou-lhe no cotovelo e tentou virá-la para poder olhar mais uma vez para a mancha.



- Inspector!

Mas Ikmen era mais forte do que Ayse e conseguiu que ela se virasse de forma a que ele pudesse ver facilmente a mancha. Não só era muito grande, como o sangue era

obviamente fresco. O inspector franziu o sobrolho.

- Mais alguém comentou isto?

- Não, inspector. - E então, baixinho, ela começou a chorar. As pessoas não se metem...

- Não se metem com o quê? - perguntou Ikmen. - Anda alguém a magoar-te?

- Não!

- Ayse, anda alguém, algum homem...



- Meta-se na sua vida! - gritou ela. - Isto não tem nada a ver consigo!

Mas, ao longo da sua carreira, Ikmen vira suficiente violência doméstica e os seus resultados para conhecer os sinais. Soltou-lhe o braço por breves instantes e

avançou para ir fechar a porta do gabinete. Em seguida ficou de pé atrás dela e respirou fundo. A mancha

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era, na verdade, mais escura em alguns locais do que noutros, e era atravessada por um padrão horizontal, que, presumivelmente, estava em linha com as feridas.

- Bem, se não vai ao médico, é melhor que me deixe ver. Dispa a camisa - disse ele.

O rosto dela, manchado de lágrimas, virou-se rapidamente, chocado:

- Não!


- É uma ordem! - disse Ikmen com firmeza. - Perder o emprego ou tirar a camisa, é consigo. Eu não vou dar a volta para olhar para o seu peito. Só quero ver-lhe as

costas.


- Não!

- Dispa a camisa! - Em sinal de aviso, colocou-lhe uma mão no colarinho e aplicou apenas uma leve pressão. - Por favor.

Os soluços dela tornaram-se ainda mais pungentes. A cada botão que ela desapertava, a sua angústia e a sua humilhação cresciam. E depois de ter deixado escorregar

a camisa pelos ombros, Ayse estava quase dobrada pela cintura, protegendo o peito com as mãos.

Ikmen olhou as marcas das chicotadas e as feridas das costas dela e sentiu-se enojado. Já tinha encontrado homens que gostavam de fazer este tipo de coisa, homens

em quem ele quisera bater até ficarem sem sentidos. Mas isso fazia-o igual a eles, por isso ele sempre detivera a mão - era famoso por isso. Agora, porém, o desejo

era muito forte. Entrelaçou os dedos com força atrás das costas.

- Orhan Tepe fez-lhe isto? - perguntou calmamente.

Ela virou-se e olhou para ele, não dizendo nada, mas ele sabia.

- Oh, Ayse - disse tristemente. - Rapariga tonta.

Orhan Tepe, tal como o relatório de Ikmen a meio de escrever, não ia a lado nenhum. Tanto um como o outro teriam de esperar. E, além disso, pensou Ikmen, ele dificilmente

poderia confrontar Tepe em frente da mulher. Talvez ele a chicoteasse também, quem sabe? Os velhos costumes otomanos custavam a morrer, Ikmen sabia. Por isso muitas

vidas eram "muradas". Ministros do governo elegantemente enfatiados podiam proferir à-vontade empolados discursos de censura sobre os males da agressão às esposas

e sobre a forma como ela não

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tinha lugar numa sociedade moderna, mas alguns homens fá-lo-iam sempre; até homens pertencentes às culturas mais "avançadas" o faziam. Ele só esperava que Ayse Farsakoglu



fizesse o que dissera e que, de futuro, se afastasse de Tepe. Que lhe devolvesse todas as prendas caras que ele, sabe-se lá como, adquirira para ela, renunciasse

às refeições em restaurantes elegantes e regressasse àquilo que ela era antes, uma jovem triste apaixonada por Suleyman, que só tinha olhos para o filho recém-nascido.

Finalmente um verdadeiro patriarca otomano, para consternação e incompreensão de Zelfa Halman Suleyman, segundo parecia. Que confusão.

Ikmen levantou o olhar da ponta do seu cigarro a arder e transferiu-o para os olhos cristalinos de Yúmniye Heper.

- Conte-me tudo - disse ele. - Sem a verdade, não posso fazer nada.

A mulher idosa parecia arrasada. Que dia terrível este fora para ela. Não só perdera o único familiar que ainda possuía, como perdera também a companheira da sua

alma, a razão da sua existência. Yúmniye e Muazzez - os nomes eram um só, eram sempre pronunciados de um só fôlego, como uma frase que nunca muda ou uma fórmula

mágica. Nenhuma delas trabalhava sozinha. Até mesmo esta vigília na escuridão da noite tristemente quente era uma abominação - porque ela estava sozinha.

Yúmniye Heper passou o lenço de bolso levemente pelos olhos e recostou-se na grande cadeira castanha que fora em tempos o assento preferido do general seu pai.

- Por volta de 1960, a doença do pai tinha levado grande parte das nossas finanças - disse ela com tristeza. - O senhorio ameaçava despejar-nos. Eu estava paralisada

de medo. Mas Muazzez era feita de um material mais forte do que eu e continuou a sua vida como sempre tinha feito - suspirou. - Pareceu um milagre quando ela chegou,

depois de ter estado fora durante toda aquela estranha noite, trazendo dinheiro suficiente para comprar esta casa.

- Como é que ela arranjou esse dinheiro? - perguntou Ikmen. - O que aconteceu?

Yúmniye sorriu tristemente.

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- Sexo, foi o que aconteceu, Çetin - disse. - Ela conheceu um homem no cinema. Hoje ainda não sei quem ele era ou é. Mas ele pagou a Muazzez aquele dinheiro para



que ela tivesse relações sexuais com outro homem, um estrangeiro.

- Ela conhecia o estrangeiro?

- Não. Mas ela contou-me muito pouco sobre isso. Quer dizer, sei que você sabe que o general nos criou para sermos mulheres independentes e liberais, mas Muazzez

sentia vergonha. Ser usada por homens daquela maneira... Eles queriam que ela se vestisse como uma princesa otomana. Com aquele vestido, o mesmo que trouxe para

nos mostrar. Aquele que a rapariga usava quando morreu. Eu sabia que o tinha visto antes. Sei que agora me esqueço de muita coisa, mas... foi Muazzez que o fez.

De início, depois do encontro no cinema, ela pensava que a comissão era só para o vestido, mas depois o homem disse que queria que Muazzez o usasse e... que fizesse

coisas. Depois não voltou a haver sexo. Muazzez só era solicitada para fazer vestidos para outras raparigas. E assim, a partir daí fizemos vários vestidos por ano

para serem usados por outras raparigas enquanto proporcionavam prazer a homens. A julgar pela quantia que pagavam à minha irmã, os homens tinham de ser ricos, e

estrangeiros, penso. Muazzez tratava sempre da entrega. Pagavam-nos muito bem por eles. - Fez uma breve pausa para bebericar o seu chá. - Muazzez foi escolhida para

ir com aquele homem porque o pai era um general otomano. O homem sabia de nós, das irmãs Heper, de alta linhagem, que gostavam de se vestir como rapazes.

- Toda a gente vos conhecia - disse Ikmen com um sorriso. Foram sempre as melhores costureiras de Istambul.

- Sim - Yúmniye olhou para o retrato de um militar de ar severo que usava fez, que estava pendurado por cima da lareira vazia. - Eles queriam raparigas verdadeiramente

otomanas para o seu harém; era este o termo que esse homem e os seus clientes usavam. Muazzez era perfeita. Mais tarde, qualquer rapariga servia, desde que usasse

as roupas adequadas. Ultimamente as coisas mudaram, não sei como, mas Muazzez andava assustada. Esta manhã foi encontrar-se com o tal homem, ele tinha-a chamado.

- Você nunca foi ter com ele?

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- Não. Nunca. - Ela desviou os olhos do retrato e voltou a fitar Ikmen. - Muazzez assegurou-se de que eu me mantinha sempre afastada deste negócio. Ela amava-me...

- Sim - Ikmen inclinou-se para a frente, franzindo o sobrolho. - Assim, esse harém, menina Yúmniye...

- Não sei onde esta actividade se desenvolvia, Çetin - disse ela, ao mesmo tempo que limpava novamente as lágrimas. - Perguntei uma vez a Muazzez, no início, mas

ela disse apenas que foi levada vendada para o local. Ela própria não fazia ideia. O único pormenor que ela alguma vez mencionou foi o facto de ter ido para lá através

de um bosque ou de um parque qualquer. Ela fez isso só uma vez, num quarto cheio de seda, cristal e ouro.

- Como um palácio.

- Bem, sim, em que outro lugar é que se dormiria com uma princesa otomana?

Ikmen baixou os olhos para o chão e abanou a cabeça.

- E, no entanto, podia ser em qualquer lugar, não podia, menina Yúmniye? Podia ser um quarto secreto na vastidão de Topkapi ou uma imitação, nas traseiras de algum

gecekondu horrível.

- A julgar pelo dinheiro que lhe pagavam, penso que a primeira hipótese é a mais provável - disse Yúmniye. - Era muito dinheiro, Çetin.

- Para um turco, sim, mas não necessariamente para um estrangeiro. Naquele tempo, este país era muito barato para os europeus.

- Não sei se ele era europeu - contrapôs Yúmniye. - Muazzez só fez alusão ao facto de ele ser estrangeiro.

- Mas esse harém ainda hoje existe.

- Sim. Com novas raparigas e novos vestidos. Embora, como eu disse antes, Muazzez não se sentisse tão à-vontade com isso como antes. E quando você nos disse que

aquela pobre rapariga morreu usando um dos nossos vestidos... eu quis dizer-lhe, mas Muazzez foi inflexível. Era demasiado perigoso, disse ela. Esta coisa do harém

era grande.

- Grande? - Ikmen apagou o cigarro no cinzeiro e acendeu outro. - O que quer dizer com isso?

Yúmniye encolheu os ombros.

- Não sei, Çetin. Estou a usar as palavras de Muazzez. Tudo o que, de facto, sei é que, embora tivéssemos ambas consciência de que o

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que estávamos a fazer, ao costurar os vestidos, era errado, Muazzez só ficou assustada este ano. Ela foi sempre, como sabe, muito corajosa e, de qualquer maneira,



tanto ela como eu estávamos ambas muito gratas àquele homem que ela conheceu no exterior do cinema Alkazar há todos esses anos. Ele deu-nos esta casa, uma vida boa

e, quase exclusivamente, permitiu que o general tivesse alguma dignidade nos seus últimos anos. Eu sempre o quis conhecer.

- Nesse caso, pensa que ele não matou a sua irmã? - perguntou Ikmen.

A menina Yúmniye pareceu chocada.

- Oh, não - disse ela. - Penso que não. Quer dizer, por que o faria ele, após todo este tempo?

-Talvez ele ou alguma das pessoas que trabalham para ele me tenha visto vir a esta casa. Eu sou um polícia conhecido, menina Yúmniye.

- Sim, é - disse ela. - Tem progredido na vida, Çetin. Mas como é que o homem de Muazzez saberia que veio cá para fazer perguntas sobre o harém? Trazia o vestido

num saco, e, de qualquer maneira, ele sabia que Muazzez nunca lhe teria contado nada. Mesmo depois de sabermos que a rapariga tinha morrido a usar aquele vestido,

Muazzez continuou inflexível. Discutimos sobre isso. Ela disse que era totalmente impossível que aquele homem ou os seus clientes tivessem morto aquela rapariga.

Devem ter sido outras pessoas que o fizeram, disse ela.

- Mas ela não disse quem?

- Não.


Ikmen recostou-se na preguiçosa maciez do sofá e suspirou. Assim, Rat sempre tivera razão em relação às odaliscas. Há muitos anos que elas eram "vendidas" na moderna

cidade de Istambul. Um prazer especial turco para estrangeiros curiosos, ricos e provavelmente enfadados. Velhos europeus idiotas que, pelo preço de uma casa velha

turca, podiam brincar aos sultões com uma princesa otomana "genuína" durante uma hora. E talvez não. Talvez aqueles que estavam envolvidos não fossem assim tão idiotas,

talvez fossem melhores do que isso, mais importantes. Afinal, fora um segredo grande e bem guardado. E se, como Rat tinha dito, a Máfia estava agora envolvida, devia

sentir que os clientes do harém eram suficientemente ricos e poderosos para justificar o tempo que gastavam com isso.

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- Menina Yúmniye - disse ele devagar -, alguma vez ouviu falar na família Múren?

O rosto de Yúmniye não revelava qualquer expressão.

- Não. Porquê?

- Oh, por nada - Ikmen encolheu os ombros. - Foi só uma ideia que me passou pela cabeça.

Ficaram ambos sentados em silêncio por alguns momentos, até que Yúmniye, franzindo o sobrolho como se estivesse a fazer um esforço para se lembrar de alguma coisa,

disse:


- Você podia falar com Sofia, suponho. Se quiser saber mais sobre o harém.

- Sofia?


- Sim, Sofia Vanezis. Sabe, é mais ou menos da sua idade. Era uma rapariga muito bonita, de raciocínio um pouco lento.

- A rapariga que veio viver para casa de Panos, o sapateiro? perguntou Ikmen.

Yúmniye sorriu.

- Sim. Ela e a mãe mudaram-se de Fener para cá quando o pai de Sofia morreu. Panos era, penso, irmão dele.

- Sim - Ikmen acenou com a cabeça. - Eram muito pobres. Mas a mãe dela era uma mulher orgulhosa, sempre bem-vestida.

- Maria Vanezis era uma Phanariote, da velha aristocracia bizantina - disse Yúmniye. - Uma das últimas. Mas, como diz, viviam em circunstâncias muito precárias quando

vieram para cá. Como todos nós. - Suspirou, o rosto novamente triste perante mais uma recordação dolorosa. E, por alguns instantes, ficou apenas sentada, perdida

em qualquer pequeno recanto do passado. Mas então Ikmen pigarreou e o som trouxe-a de volta à presença dele. - Bem, seja como for - continuou Yúmniye -, o que interessa

é que, quando Maria estava a morrer, Sofia precisava de dinheiro. Era bastante jovem e estava com medo. Não podia trabalhar porque era lenta de raciocínio, e Panos

queria que ela saísse de casa. Muazzez teve pena dela e, por isso, arranjou maneira de ela ir... trabalhar para o harém. Muazzez gostava sempre de pensar que eu

não sabia, mas eu ouvia-as a falar. Sofia ainda vem... vinha visitar Muazzez de vez em quando. Sente-se grata, compreende? Por intermédio de Muazzez ela conseguiu

o tratamento para a mãe e comprou aquela pequena pensão onde vive agora.

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- Então Sofia teve relações sexuais por dinheiro?



- Sim. Havia vários anos que a pobre criatura deixava que os homens lhe tocassem porque não sabia o que fazia. Muazzez deve ter sentido que essa era a única maneira

de ela conseguir arranjar algum dinheiro, e talvez tivesse razão.

Ikmen acendeu outro cigarro.

- A atracção, presumo, era a origem aristocrática de Sofia Phanariote.

- Penso que sim.

- Mas pensa que ela poderia falar comigo sobre o harém, não é verdade, menina Yúmniye?

- Não sei - respondeu Yúmniye. - Se ela falasse consigo, provavelmente poderia contar-lhe muita coisa. Ela tem uma memória notável e muito precisa. É assim que ela

é. Posso falar com ela, tentar convencê-la. Mas ela, na verdade, nunca me dirige uma palavra. Iimita-se a ficar ali de pé a olhar, de boca aberta, com toda aquela

juba ruiva que ela tem.

Queria dizer que essa era a mulher que estava a olhar para ele quando Ikmen visitara as irmãs Heper para lhes mostrar o vestido de Hatice. A estranha Sofia. Tudo

lhe voltava agora à memória - o segredo que trazia a Ikmen uma sensação de culpa. O primeiro seio feminino que ele vira em carne e osso pertencera à estranha Sofia.

Ela era muito bonita naquele tempo e ele tinha fantasias com ela. Ikmen tinha doze anos na altura. Ela envelhecera assustadoramente. Perguntava-se se Sofia o teria

reconhecido.

A educação pode ser um esplêndido indicador em relação àquilo que uma pessoa pode tolerar. A família Yildiz era um desses casos. Mustafá e Ann Yildiz, embora tivessem

nascido e sido criados na aldeia, havia cerca de trinta anos que viviam nos bairros mais agitados da cidade. Primeiro numa cabana de gecekondu em Gaziosmanpasa,

onde tinham nascido os seus três filhos - Ismet, Hikmet e Suleyman -, e depois no apartamento de três assoalhadas em que viviam agora. Quase tão pequeno e barulhento

como o gecekondu, o apartamento dos Yildiz, num prédio de muitos andares, dava para a estrada Londra Asfalti e ficava situado, juntamente com numerosos edifícios

semelhantes, a cerca de quatro quilómetros

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Apinhados de adultos barulhentos, adolescentes que gritavam alto e hordas de crianças, os edifícios tremiam dia e noite ao som da televisão, da música Arabesk e



dos nervos em franja. Não que alguma destas coisas tivesse qualquer efeito sobre o agente Yildiz e os irmãos, quando dormiam a bom dormir em cima dos canapés duros

que sempre tinham sido as suas camas. Mesmo quando o telefone tocou pouco depois da meia-noite, nenhum dos rapazes se mexeu. Arin é que teve de fazer com que Hikmet

se levantasse para o atender.

- É da polícia - disse ela nervosamente, ao mesmo tempo que o filho cambaleava, embriagado de sono, para o apertado vestíbulo pintado de cinzento. Mesmo com um filho

na polícia, Ann ainda sentia um arrepio sempre que a polícia contactava a casa dos Yildiz. Lá na aldeia, todos aqueles anos antes, a polícia era receada e apaziguada

em igual medida. Nunca foi amada.

Hikmet tirou o auscultador da mão da mãe.

- Sim?


A voz na outra extremidade da linha parecia urgente, sobressaltada, até.

- Hikmet, é o inspector Ikmen.

- Ah, viva, inspector.

- A que horas é que sais de serviço amanhã, Hikmet?

- Hmm... - Teve de pensar por um momento -, às três.

- Ouve, Hikmet - disse Ikmen -, confias em mim? No meu bom senso?

Hikmet franziu o sobrolho. O que era aquilo?

- Sim - respondeu -, é claro.

- Então, se eu te pedisse para fazeres uma coisa que pudesses achar estranha ou irregular, sem te dar qualquer explicação, fá-la-ias?

- Bem, sim, suponho...

- Óptimo - respondeu Ikmen. - Telefono-te amanhã.

- Inspector, é...

- Não perguntes, Hikmet, eu não te vou dizer. Quanto menos souberes, melhor. Tens a certeza de que não há problema?

Ele não tinha bem a certeza, mas, de qualquer forma, disse que sim, e Ikmen desligou.

Hikmet pousou o auscultador ao som do ressonar do pai e de uma explosão de música de garagem vinda do apartamento do outro lado

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do corredor. Mas nem o barulho nem a natureza inquietante do pedido de Ikmen o mantiveram acordado. Precisava de dormir. Só ele e ismet estavam empregados de momento,

e o jovem polícia sabia que se chegasse atrasado ou se não fizesse o que lhe diziam, as consequências podiam ser terríveis.

Deixou-se cair novamente no canapé no momento exacto em que Ismet murmurava o nome de uma mulher e gemia.

CAPÍTULO DEZASSETE

Orhan Tepe esfregou os olhos vermelhos com a palma da mão e em seguida bebericou o seu café. Sentado na pequena varanda das traseiras do seu apartamento, podia observar

as idas e vindas no biife em frente. O Sol só se levantara havia pouco mais de meia hora e a maior parte das pessoas que compravam borek e chá no biife eram trabalhadores

pobremente vestidos - motoristas de táxi, simitàs, seguranças. Entre eles encontrava-se um polícia fardado, um jovem cujas roupas não lhe assentavam bem. Orhan torceu

o nariz num sorriso de escárnio. Alá, mas este país precisava de qualquer coisa! Não que ele soubesse exactamente o quê. Supunha que tinha de ser uma atitude mais

semelhante àquela que ele testemunhara quando levara Ayse a sair entre aquelas pessoas elegantes no Rejans. Uma limpeza, uma confiança - um pacote inteiro que só

o dinheiro podia comprar. Um dia, pensou ele a sorrir, um dia não muito longe. Mas essa ideia não fez com que ele se sentisse melhor; na verdade, fazia-o sentir-se

pior, e o sorriso desapareceu-lhe dos lábios. Mais tarde, quando saísse de serviço, talvez comprasse um daqueles leitores de CDs por que há tanto tempo ansiava talvez

isso o fizesse sentir-se melhor. Talvez comprasse também um para Ayse...

A porta da sala de estar abriu-se, interrompendo-lhe os pensamentos. Orhan olhou em redor e viu a mulher, Aysel, sorridente.

- Çetin Bey veio visitar-te, Orhan - disse ela, afastando-se para o lado para permitir que a pequena figura amarrotada saísse para a varanda. - Quer café, Çetin?

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Ikmen sorriu.

- Muito obrigado, senhora Tepe - disse -, seria muito agradável. Aysel saiu. Os dois homens ouviram-na a falar alegremente com

o pequeno Cemal, enquanto se dirigia para a cozinha.

- Então como vai a tua busca de Hikmet Sivas e do irmão? perguntou Ikmen, à medida que dava repouso à sua forma fatigada e que tresandava a cigarro na cadeira em

frente de Tepe.

- Pensei que estava de férias - respondeu o subalterno, com uma rudeza que Ikmen teria desafiado se tivesse dormido alguma coisa nessa noite.

- Sim, estou, Orhan.-Tirou do bolso o que restava de um amarrotado maço de cigarros e acendeu qualquer coisa que se assemelhava a um velho pedaço de fio. - Mas mesmo

que Ardiç me tenha negado o acesso à casa de Kanddli, posso ainda interessar-me pelo assunto. Isso ele não pode impedir.

- Não.


- E então?

Tepe encolheu os ombros.

- Estamos a interrogar pessoas relacionadas de que temos conhecimento. Demos uma olhadela ao velho túnel do pasa. O comissário Ardiç tem a base de operações na casa.

Para a hipótese de alguém telefonar.

- Ele já contactou as autoridades na América? - perguntou Ikmen.

- Penso que não.

- O pobre Metin Iskender deve sentir-se como se este caso fosse enterrar-lhe a carreira - disse Ikmen, cáustico.

- Porquê?

- Porque não vejo nenhum de vocês a fazer grande coisa - respondeu Ikmen. - Tanto a irmã como Ahmet Silay insinuaram que Hikmet Sivas tinha ligações com a Máfia.

- O comissário Ardiç diz que isso são só boatos.

- Sim, mas mesmo assim ele devia certificar-se. Eu certificar-me-ia! Estúpido...

Neste ponto, Aysel voltou com o café, interrompendo o discurso empolado de Ikmen contra o superior. A medida que a mulher lhe colocava a chávena à frente, ele levantou

o olhar e sorriu-lhe.

- O café cheira muito bem, senhora Tepe - disse.

- Também temos açúcar cristalizado - respondeu Aysel, colocando o açucareiro cheio de açúcar brilhante ao lado da chávena.

- Que delícia! - Ikmen fez uma vénia com a cabeça em sinal de apreço. - Café francês e açúcar cristalizado. Não me digas que finalmente ganhaste a lotaria, Orhan?!

Só Ikmen e Aysel riram, e, em seguida, ela retirou-se para voltar aos seus deveres domésticos. Ikmen mexeu pensativamente o café durante alguns instantes, antes

de voltar a falar.

- Mas não vim cá para te falar de Sivas nem sequer deste café tão caro.

- Eu tenho cartão de crédito - respondeu Tepe com firmeza.

- Ah tens? Bem, vê lá não te metas em problemas com ele disse Ikmen. - Café, refeições no Rejans e brincos de diamantes podem arruinar uma pessoa, como sabes, Orhan.

Tepe baixou os olhos e bebericou o seu café, franzindo o sobrolho.

- Sim, mas eu vim cá para falar contigo sobre Ayse Farsakoglu disse Ikmen. - Vim dizer-te que seria insensato voltares a comprar-lhe presentes tão extravagantes.

- O dinheiro é meu.

- Não, não é. É um cartão de crédito, pelo menos é o que dizes - Ikmen fez uma pausa. - Mas dinheiro e bugigangas não são o que está aqui em questão - inclinou-se

para a frente. - Não quando são dados às mulheres em troca de favores sexuais pervertidos.

A cor do rosto de Tepe incendiou-se.

- O que quer dizer com isso? O que tem ela andado por aí a dizer?

- Não é muitas vezes, felizmente, que eu tenho oportunidade de ver as costas de alguém depois de terem sido chicoteadas - disse Ikmen entredentes, mantendo a voz

baixa para não atrair a atenção inocente de Aysel Tepe. - Se lhe voltares a tocar, Orhan, acabo contigo!

- Eu não lhe fiz nada! - Tepe, o rosto agora contorcido de raiva, disse baixinho: - Ela está a mentir! É uma cabra que vai com qualquer um! Bem vê como ela se veste.

- Não me interessa a maneira como ela se veste! - respondeu Ikmen. - Sei que te tens encontrado com ela. Sei que prometeste deixar a tua mulher por ela. Sei como

ela se sente usada e enganada.

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- Está a mentir, a cabra gananciosa. Eu nunca disse que me casava com ela! É uma prostituta barata, só à procura do que puder

conseguir!

- Não sei nada disso. Mas mesmo que assim seja, ela não merece que lhe batas a ponto de a deixares assim desfigurada! Ela não merece que lhe mintam!

- Se ela está a acusar de violência sexual um agente no activo, está a insultar as nossas forças de segurança e a nossa nação - disse Tepe.

- Pode ser presa.

- Oh, sim - disse Ikmen, agora a sorrir, ainda que desagradavelmente -, essa lei. Que eu não vou comentar, a não ser para dizer que a sargento Farsakoglu também

é uma agente no activo. Por isso, qualquer acção legal pode ir para um lado ou para o outro. Eu pessoalmente apoiaria Ayse.

- Você sempre me odiou! - Tepe cuspiu enquanto procurava furiosamente, e em vão, os cigarros. - Tal como aquela cabra, também você está ressentido por Mehmet Suleyman

o ter deixado.

- Por recomendação minha, Orhan - corrigiu Ikmen. - Eu queria que Suleyman progredisse porque ele é um bom polícia. Fiquei contigo porque eras um bom polícia. Ayse,

admito, não foi boa para ti. Pensou que tinha hipótese com o nosso príncipe residente, mas não teve, e, por isso, virou-se para os teus braços ansiosos, ainda que

secundários. Não sei quando é que a tua obsessão por Ayse e a tua inveja de Suleyman te transformaram num sádico, mas isso tem de parar.

- Senão...?

Ikmen bebericou o seu café por alguns momentos, apagou o cigarro e acendeu outro. Não ofereceu o seu maço a Tepe.

- Senão destruo-te - disse simplesmente o homem mais velho.

- Posso fazê-lo, Orhan, e fá-lo-ei. Deixa-a em paz e pensa também na tua carreira. Não posso ter a trabalhar comigo uma pessoa que agride outros agentes e que, além

disso, fala das minhas actividades aos nossos superiores nas minhas costas. - Ele queria especialmente mencionar esta suspeita. Afinal, se Iskender não tinha contado

a Ardiç sobre Hassan Seker...

O rosto de Tepe empalideceu, o que parecia confirmar que era, de facto, ele que tinha contado ao comissário sobre o envolvimento continuado de Ikmen no caso Ipek.

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- Qualquer pedido de transferência que faças será totalmente apoiado por mim - disse Ikmen, terminando o seu café. Levantou-se. - Pensa nisso. Depressa.

A porta, parou.

- É verdade, e o café estava excelente, o melhor que tomei este ano - sorriu. - Os meus cumprimentos ao teu cartão de crédito. E saiu.

Tepe cobriu a cabeça com as mãos e fechou os olhos, reprimindo lágrimas de raiva. Nem sonhara que isto podia acontecer. Muitas outras coisas podiam correr mal, e

assim, de facto, acontecera, mas ele confiara absolutamente em Ayse. Ele fizera tudo isto por ela - tinham morrido pessoas, indirectamente, é claro, ele não era

nenhum assassino, afinal, tudo para que ela pudesse ter o que queria. Tudo o que ele quisera em troca era algum reconhecimento como homem, alguma validação das suas

necessidades, da sua superioridade em relação ao "Príncipe" Mehmet. O que iria agora fazer, não sabia. Precisava de estar de serviço em Kandilh dentro de menos de

uma hora, mas como podia ele concentrar-se com tudo isto a encher-lhe a cabeça? Se Ikmen o ia enviar para algum ermo, ele teria de tentar pôr as mãos em algum dinheiro.

Mais dinheiro. Teria de vender alguma coisa, tal como fizera da última vez. De qualquer maneira, nunca houvera possibilidade de voltar atrás. Hassan Seker deixara

isso bem claro quando ele falara com ele da segunda vez, sozinho, no escritório. Hassan Seker, que estoirara os seus próprios miolos com uma pistola.

- Bem, nesse caso, dá-me o dinheiro! - disse a rapariga, estendendo os dedos rechonchudos ao homem mais velho que estava sentado à sua frente.

- Só se fores com Abdullah - respondeu Ali Múren com ar severo.

- Oh! - A filha bateu com o sapato de salto em cunha com força no chão.

- Estou farto de ter de pagar a lojas de roupas que roubaste depois de teres gasto todo o dinheiro que te dei, Alev - disse o pai. - Quando o dinheiro tiver acabado,

Abdullah pode trazer-te para casa.

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- Mas ele é tão anormal! Não posso levar Abdullah a Akmerkez ou à Galeria!

- Então vai a outro lado! - Ali Múren levantou-se. Não era alto, mas era consideravelmente mais alto do que a filha. Baixou para ela os olhos, onde se podia ver

um misto de frustração, fúria e adoração. Vai a Istiklal Caddesi.

- Isso é velho e aborrecido! - Alev fez beicinho.

- Vai lá na mesma. - Estendeu-lhe dois enormes maços de notas. - Um é para ti, leva o outro a Túrbedar Sokak.

- Oh, não tenho de ir visitar a avó, pois não? Ali suspirou de desespero.

- Sim, tens, estamos em dívida para com ela-disse o pai, virando-se depois para o homem de meia-idade que estava sentado em silêncio ao canto da sala. - Leva a minha

filha a Túrbedar Sokak e depois a Istikal Caddesi, Abdullah, e vê se ela não rouba nada.

- Sim, Ali Bey - disse Abdullah por entre dentes partidos e manchados de nicotina.

Alev sacudiu em jeito de desprezo a cabeça coberta por uma touca e encaminhou-se petulantemente para a porta. A medida que se movia, os rolos de gordura que tinha

nas costas balançavam a cada passo pesado. Abdullah levantou-se da sua cadeira e seguiu-a.

Depois de eles terem saído, Ali Múren abriu a porta que dava para a sua ampla varanda e sorriu ao homem alto e loiro que estava de pé a olhar para baixo, para a

rua cheia de gente.

- A minha filha. A mais nova - disse, juntando-se ao outro homem perto da grade. - Fica-me cara, mas...

- Ama-a - respondeu o outro, com voz grossa e um sotaque muito acentuado. - É capaz de lhe dar logo tudo o que ela quer. O homem sorriu.

- Insallah\

Ficaram ambos a ver Alev e Abdullah - homem de confiança após ter sido posto à prova - entrarem num grande carro japonês que arrancou mesmo à frente de um Mercedes

de aspecto miserável. Ambos os carros e uma carroça avançavam devagar através das densas multidões multinacionais de Beyazit.

- Vamos - disse ele, assim que se certificou de que a filha ia a caminho. - Vamos almoçar e falar de negócios.

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Os olhos azuis-claros do outro homem brilharam em sinal de agrado.

Zelfa estava agora cheia de lágrimas. O misterioso soporífero psiquiátrico que Sadri lhe dera para a acalmar tinha agora deixado de actuar e ela estava cheia de

remorsos. Como podia ter sido tão fria para com o filho, o bebé mais precioso do mundo inteiro? Como podia ter atacado Mehmet com tal ferocidade? Ele estava, afinal,

apenas a dormir, sozinho, na cama deles. Que diabo a possuíra?

- A depressão pós-parto pode ser uma coisa terrível - disse o pai, ao mesmo tempo que a embalava suavemente para trás e para a frente para a confortar. - Bem sabes

que é assim.

- Sim, tenho pacientes...

- Ah, mas não é a mesma coisa de experimentar na pele, pois não? - disse Babur Halman calmamente.

- Não - Zelfa levantou os olhos para os dele, o rosto pálido de tensão. - Mehmet vai perdoar-me, não vai, pai?

- Desde que não voltes a esbofeteá-lo, sim - respondeu o pai com um sorriso.

- Perdi o contacto com a realidade, não perdi?

- Momentaneamente. Acontece. E não é em cinco minutos que ultrapassas isto, Zelfa. Sadri ainda vai ter de acompanhar o teu estado durante algum tempo. Mas esperemos

que o pior já tenha passado Babur saiu de detrás da filha e levantou-se. - Tiveste de ser submetida a uma cirurgia, foi muito traumático, a experiência aumentou

temporariamente as tuas inseguranças.

- Sim, mas eu devia estar à espera disso!

- Por seres psiquiatra? - Babur sorriu. - Zelda, querida, lembras-te da história de The Irish Times sobre o doutor McConnel que em tempos te contei?

Ela olhou-o, indiferente.

- Ele barricou-se no seu próprio gabinete para poder ter um pouco de paz e sossego - disse Babur. - Era um iminente psiquiatra de Belfast - sorriu novamente. - Agora

tenta dormir mais um pouco. Vou mandar Mehmet cá acima mais tarde, quando o pai dele se tiver ido embora.

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Zelfa voltou a deitar-se encostada às almofadas e fechou os olhos.

- Obrigada, pai.

- Não tens de quê, minha querida - respondeu ele num inglês com ligeiro sotaque irlandês.

Babur fechou a porta atrás de si e desceu para a sala onde Suleyman e o pai estavam sentados em silêncio. Estranhamente, Muhammed Suleyman viera visitá-los sem a

sua enérgica esposa. Babur sabia que Mehmet não contara nada aos pais sobre os problemas de Zelfa, e, sempre que pudera, desencorajara-os de virem visitá-la, o que

eles devem ter achado estranho. Os avós turcos, em geral, têm absolutamente rédea solta com os filhos e os netos. Talvez Muhammed tivesse apenas passado por lá para

tentar descobrir o que estava a acontecer por si próprio - e pela esposa, é claro.

A medida que entrava na sala, Babur dirigiu a Mehmet, que tinha os olhos postos na primeira página do jornal que o pai segurava, um olhar encorajador.

- Ela está bem - disse baixinho. - Mas está a dormir. Vai vê-la mais tarde.

Mehmet, cujo rosto emagrecera bastante e se tornara mais tenso desde o nascimento do filho, sorriu.

-Já procurei no jornal inteiro e não consigo encontrar qualquer informação sobre o rapto da mulher de Hikmet Sivas - ressoou uma voz grossa e culta de detrás do

jornal Cumhuriyet. - É quase como se o acontecimento tivesse desaparecido completamente.

Isso queria dizer que o que Ikmen lhe dissera sobre um **bhckouíeiã verdade. Mehmet Suleyman ergueu uma sobrancelha.

- Imagino que histórias mais importantes o substituíram, pai disse ele. - Essas coisas acontecem.

Muhammed Suleyman deixou cair o jornal no regaço. Embora mais velho e com o cabelo já bastante grisalho, ele ainda era, como o filho, um homem muito bem-parecido.

- Tu não estavas a trabalhar no caso, pois não? - perguntou.

- Não, pai. Tenho estado muito ocupado com outras coisas.

Babur Halman saiu para ir fazer chá. Mehmet e o pai tinham uma

relação gelada e estranha que ele não compreendia bem, e, por isso, sair era provavelmente uma boa ideia neste ponto da conversa.

235


- Hmm - Muhammed Suleyman colocou um cigarro na ponta da sua cigarrilha de prata e levou-a à boca. Mehmet, como sabia que devia fazer, aproximou-se para lhe acender

o cigarro. - Vi Hikmet Sivas, o sultão, uma vez. Deve ter sido no final dos anos 1950.

- Ah viu, pai? Onde?

- O meu tio, Selim, tinha sido autorizado a vir a casa depois de muitos anos passados no exílio. Em Malta, creio - sorriu. - Tinha sido criado no Palácio Yildiz.

E levou-me a dar uma volta por lá. É um local extraordinário, se se vir tudo como eu vi; não que se possa vê-lo todo, hoje em dia. É como um padrão ou plano da mente

do tio dele, o Sultão que o concebeu. Era um homem muito perturbado, o sultão Abdul Hamid... a tua mulher devia ter achado o palácio fascinante. Voltou a erguer

o jornal.

- Sim, pai. E Hikmet Sivas?

-Ah, sim. - Voltou a pousar o jornal. - Estavam a filmar lá, uma epopeia histórica qualquer. Um filme de Yesilcam. É claro que Sivas não era, na altura, famoso,

mas eu reconheci-o mais tarde num filme de Hollywood. Estranhamente, ele estava vestido de janízaro, o que era absurdo, uma vez que Mahmud II destruiu os janízaros

antes até de Abdul Hamid ter nascido. Ele, Sivas, estava de pé em frente do Pavilhão de Venda, aquele que é parecido com um chalet suíço. Foi um momento incongruente,

e penso que foi por isso que o retive na memória. Mehmet sorriu.

- De facto.

- Sim. - E Muhammed voltou a desaparecer atrás do jornal. Em comum com tantos dos seus antepassados aristocratas, o pai

de Mehmet estava a tornar-se mais excêntrico a cada ano que passava. Mas, ao contrário de alguns dos seus mais famosos e poderosos antepassados, muitos deles sultões,

os pecadilhos de Muhammed não eram letais nem loucos. Fraco, libertino e pouco à-vontade com emoções fortes, ele viera a casa de Mehmet não só a mandado da mulher,

que estava sempre a ralhar, mas também porque estava preocupado com Zelfa. Ao contrário de Nur, Muhammed gostava da irlandesa baixinha e adorava o neto, Yusuf Izzeddin.

Não que ele, sendo homem, tivesse pedido para ver o bebé. Mas quando Mehmet, finalmente, sugeriu que dessem uma rápida olhadela à criança que dormia, Muhammed Suleyman

assentiu.

236


Ikmen parecia mais um espectro do que uma pessoa, quando puxou um Hikmet Yildiz aterrorizado para Saka Selim Sokak, em frente à Igreja de Santo António de Pádua.

- O que estás a fazer em Istiklal Caddesi? - perguntou o homem mais velho, a voz baixa e sibilante como se tentasse que ninguém ouvisse. - Por que não estás em Kandilli?

- Mandaram-me apresentar na esquadra.

- Isso não explica o motivo por que estás aqui.

- Vim de autocarro, inspector. O comissário Ardiç mandou muitos de nós embora: - o inspector Iskender, o sargento Çóktin, o técnico. Todos os carros estavam cheios

e por isso tive de vir de autocarro. Desci em Taksim. Vou a pé por Karakõy e atravesso a Ponte Gaiata.

Ikmen, o rosto pálido e tenso de cansaço, fez uma careta.

- Não acredito nisto - disse. - Não compreendo. O que se passa?

Yildiz encolheu os ombros.

- Não sei.

- Oh, Alá! - Ikmen tossiu. -Já que estás aqui, podes ajudar-me - disse. - Na verdade, o facto de estares aqui agora podia ser casual.

- Sim. Está bem. Então quer que eu faça aquilo de que falámos ontem à noite. Não fazer perguntas e...

- Há uma loja de roupas de senhora a menos de cem metros daqui, na Istiklal, do lado direito - disse Ikmen. - Chama-se XOOX Boutique.

Yildiz, oriundo de um lar quase exclusivamente masculino, não estava a gostar nada daquilo. Franziu o sobrolho.

- Quero que vás lá - continuou Ikmen. - Tira um artigo pequeno de uma das prateleiras, anda por lá a ver durante algum tempo, e depois prende a rapariga gorda vestida

de cor-de-rosa e preto, quando ela for a sair do local.

Yildiz, chocado, perguntou:

- Prendê-la em que base? Por que é que eu havia de prendê-la?

- Por roubo, Yildiz! Pelo roubo do pequeno artigo que vais deixar cair dentro de um dos muitos sacos que ela traz!

- Quer mesmo isso?

237

- Sim.


- Mas...

- Sei que conheces a família Múren, Hikmet - disse Ikmen, à procura dos cigarros que sabia que não tinha.

Yildiz levantou o olhar para o céu azul sem nuvens e semicerrou os olhos a pensar.

- Droga, prostituição, alguma protecção...

- Sim, e podes acrescentar a isso uma relação estranha com o falecido HassanSeker - Ikmen colocou um braço em volta dos ombros de Yildiz e fez com que ele avançasse

até à rua principal. Apontou para uma pequena loja de moda, de uma só cor, à direita. - Bem, Alev Múren, a filha querida do velho Ali Múren, é a dita rapariga gorda

que está naquela loja.

- Ah!


- Exactamente. Por isso vais lá e compras qualquer coisa para a tua irmã.

- Eu não tenho...

- Então finge! - disse Ikmen por entre dentes cerrados.

- E quando a trouxeres cá para fora, eu estarei à espera. Nem quero pensar há quanto tempo ando a seguir aquela criança mimada. Sei o que ela tem andado a tramar

- acrescentou em tom de secretismo.

- E sei o que isso podia significar para os irmãos!

CAPÍTULO DEZOITO

Ikmen apontou com a cabeça para a sala de interrogatórios mais próxima.

- Ponha-o ali - disse ele ao agente atarracado que prendia o braço de Ekrem Múren a meio das costas.

- Se acontecer algum mal à minha irmã... - vociferou Múren, o rosto vermelho de fúria.

- Sim, sim - disse Ikmen num tom aborrecido, seguindo o agente que se debatia com o prisioneiro que levava para a sala. - Arrancas-me as pernas e os braços e atira-los

aos lobos. - Sentou-se e acendeu um cigarro.

Enquanto o outro agente, Roditi, se esforçava para fazer com que Ekrem Múren se sentasse, Hikmet Yildiz entrou na sala e sentou-se à mesa ao lado de Ikmen.

- Não têm motivo para deter Alev.

- Ah, isso é que temos - disse Ikmen com um sorriso. - Foi um lenço de pescoço que a menina Múren tentou desviar da XOOX, não foi, agente Yildiz?

- Sim, Inspector, um lenço azul.

- Que bonito. - E, com uma brusca mudança de disposição e de tom, Ikmen disse: - Senta-te e cala-te, Múren!

- Se algum daqueles animais lá em baixo tocar na minha irmã ameaçou Ekrem, referindo-se ao pequeno contingente de agentes muito corpulentos a que Ikmen o apresentara

quando visitaram Alev nas celas. - Se eles...

240


- Nesse caso, é muito importante que a tiremos de lá depressa, não é verdade? - disse Ikmen. - E o facto de ficares sentado quieto para que aqui o agente Roditi

possa descansar um pouco é um primeiro passo para isso.

Ainda a estrebuchar, Ekrem disse com um sorriso de desprezo:

- Sacana.

- Isso é mesmo o melhor que podes fazer? - disse Ikmen. Suspirou, fatigado. - Olha, Ekrem, quero fazer um acordo, por isso pára de estrebuchar e vamos ao que interessa.

Ekrem Múren olhou-o, desconfiado. Já sentira as mãos de Suleyman e de Iskender no seu pescoço antes - fizera outros acordos mais agradáveis com polícias menos importantes

- mas nunca tivera experiência pessoal de Ikmen. A medida que deixava o corpo relaxar tanto quanto possível, pensou na fama que este homem tinha de pessoa de total

incorruptibilidade e, estranhamente, nada disso condizia com a noção de um acordo. Mas nem todos os que rodeavam Ikmen eram íntegros, como Ekrem sabia por experiência

própria, e, assim, talvez as histórias sobre a honestidade de Ikmen não passassem, afinal, de mentiras.

Olhou para trás, para o local onde Roditi ainda se encontrava de pé, embora sem lhe tocar, e em seguida girou a cabeça para fixar Ikmen.

- Quanto quer? - perguntou. - Posso ter aqui qualquer quantia dentro de uma hora.

- Oh, ainda bem - disse Ikmen, e, virando-se para Yildiz, acrescentou: - É muito rápido, não te parece?

- Sim, inspector.

- Então afinal quanto é que quer? Enquanto estamos aqui a falar, a minha irmã está lá em baixo com eles! - A raiva fê-lo levantar-se, e, de imediato, a mão dura

do agente Roditi fê-lo voltar a sentar-se. Quente e abafada, a Sala de Interrogatórios Número 2 apenas servia para aumentar o calor que lhe inundara a mente assim

que soubera o que acontecera a Alev.

Ikmen fingiu estudar as unhas das mãos durante alguns momentos até que Ekrem pareceu estar mais calmo. Então levantou o olhar e sorriu.

- Não quero o teu dinheiro - disse simplesmente. - Não me serve para nada.

Por um momento, Ekrem pareceu desconcertado, os olhos a virarem-se em todas as direcções. Estava verdadeiramente confuso.

241


- Bem, o que...

- Se queres que Alev vá para casa esta noite com o rosto e a honra intactos, preciso de saber para quem trabalhas - disse Ikmen, apagando o cigarro com o pé. Acendeu

outro.

- Trabalho para o meu pai.



- Sim, disso eu sei! - Ikmen rejeitou a resposta acenando com uma mão em frente do rosto de Ekrem. - Mas com quem é que ele tem ligações, Ekrem? Ele é bom, o teu

pai, da forma tradicional, prostituição, droga, extorsão... - Debruçou-se por cima da mesa de forma a que o rosto quase que tocava o de Ekrem. - Mas não é muito

imaginativo, pois não? Quer dizer, são só prostitutas velhas e cansadas, aquelas com quem ele trabalha, é esse o nível dele, não é? Ele não trabalha com jovens elegantes

que usam vestidos de princesas, pois não? Pelo menos não trabalhava.

- Não sei de que está a falar.

- Hassan Seker não se matou por causa do dinheiro da protecção que era obrigado a dar-te - disse Ikmen. - Ele podia pagar. Também não se suicidou por ter assassinado

Hatice Ipek, porque não assassinou mesmo. Ele deixou-a depois do trabalho e foi para casa. Mas sabia quem a matou, e tu, penso eu, também sabes.

Ekrem virou-se de lado na cadeira e olhou para a parede.

- Essa rapariga não tem nada a ver comigo.

- Hassan Seker morreu e deu-se por culpado porque queria proteger a família dele de alguém que o deve ter assustado muito.

Ekrem abanou a cabeça, sem se aperceber de quanto o seu rosto empalidecera.

- Sabemos que tu e o teu irmão extorquiam dinheiro a Hassan Seker - disse Ikmen.

- Isso é mentira!

- Também descobri, através da tua irmã, para ser mais exacto continuou Ikmen -, que a mãe do teu pai vive ao lado da propriedade de uma tal senhora Oncú, a senhora

que é dona da entrada para a cisterna onde encontrámos o corpo de Hatice Ipek. Queres explicar?

Passou um momento de silêncio, durante o qual Ekrem Múren pareceu estar a pensar.

- Estás aqui num beco sem saída, não estás, Ekrem? - disse Ikmen.

242


- Mas isso não prova nada! - disse Ekrem, abruptamente. - Nós não matámos aquela rapariga!

- Nesse caso, tu e o teu irmão não se importarão de me fornecer algumas amostras para serem analisadas e comparadas com os dados em poder da medicina legal.

Ekrem acenou com a cabeça.

- Podemos fazer isso.

- Óptimo. E os amigos para quem vocês estavam a trabalhar?

- Estamos limpos, Ikmen - disse o bandido com um sorriso de escárnio. - Nem vai conseguir nada contra nós.

O rosto fatigado de Ikmen tornou-se, de súbito, vermelho.

- Não tenho tempo para isto - disse, virando-se rapidamente para Yildiz. - Dá-me a tua arma.

- Inspector?

- Dá-ma! Uma criança está morta. Prometi à mãe que ia descobrir quem a matou e estou exausto!

Com alguma relutância, Hikmet Yildiz levou a mão ao coldre e tirou de lá a pistola. Ikmen arrancou-lha e apontou-a a Ekrem.

- Segura-o nessa cadeira, Roditi - disse Ikmen ao outro agente agora assustado.

- Inspector...

- É uma ordem, Roditi!

O agente apertou os braços de Ekrem atrás das costas do bandido. Os olhos de Ekrem escancararam-se, alarmados, e Ikmen destravou o mecanismo de segurança e avançou.

- Se não me dizes para quem trabalhas e qual foi o envolvimento dessas pessoas na morte de Hatice Ipek, mato-te - disse Ikmen calmamente, levantando a arma e encostando-a

à fonte de Ekrem.

-Já disse, não há nada para contar!

- Errado! Tenta outra vez!

Yildiz e Roditi trocaram olhares alarmados. Por mais que gostassem de Ikmen e o respeitassem, isto já fora longe de mais. Era óbvio que o inspector, desesperadamente

necessitado de dormir e comer, estava fora de si. Ikmen não magoava as pessoas, nem sequer andava armado.

- Como vai explicar, se me matar? - Ekrem, que agora perdera a atitude pretensiosa de antes, tremia.

243

Ikmen aproximou o rosto da sua presa.



- Não sei e nem quero saber - respondeu. - A minha mulher está a centenas de quilómetros de distância, não há nada para comer no meu apartamento, os meus superiores

dizem-me que já não gostam de mim e não vejo razão nenhuma para não me vingar de tudo isso em ti. Agora diz-me quem está por detrás do vosso recente interesse em

prostitutas com vestidos invulgares!

- Não posso!

- Porquê?

- Porque... - Ekrem deixou escorregar os olhos na direcção do cano da arma. - Porque eles e o meu pai... Não...

- Tens duas hipóteses, Múren - disse Ikmen, a voz grossa de tensão. - Ou ficas calado e morres às minhas mãos ou dizes-me o que eu quero saber e eu dou-te a protecção

de que precisas.

Apesar da gravidade da sua situação, Ekrem soltou uma gargalhada.

- Oh, estúpido...

- Ikmen!

A voz de Ardiç irrompeu pela sala, ao mesmo tempo que a porta se abria de repente.

- Gostaria que saísse agora para o corredor, inspector - disse ele, à medida que os seus olhos furiosos apreendiam o que parecia ser uma cena ao velho estilo de

intimidação, agora ilegal.

- Mas, comissário...

- Agora!- Ardiç deu meia volta e saiu.

Ikmen, segurando ainda a arma, a cabeça baixa, seguiu-o.

- Que raio pensas que estás a fazer? - disse Ardiç em voz baixa, aproximando furiosamente o amplo rosto do de Ikmen.

- Ele estava quase a dizer-me...

- Essa arma está descarregada? - Tendo reparado que Ikmen ainda tinha a arma na mão, o rosto de Ardiç empalideceu de alarme.

- Claro que está - disse Ikmen com uma expressão de cansaço. - Quem é que pensa que eu sou?

- Penso - disse-lhe o chefe com algum azedume -, que estás num estado lastimável! Quando é que dormiste pela última vez, Ikmen? Ou comeste? Ou te lavaste?

244

- Já terminei o relatório para lhe entregar. Tenho estado ocupado.



- Ocupado? Nem sequer devias estar de serviço! - Ardiç lançou-lhe um olhar de desagrado. - Pareces um bêbedo! Estás uma lástima total!

Ikmen endireitou as costas.

- Múren estava prestes a contar-me para quem trabalha, o nome da pessoa que eu creio que é responsável pela morte de Hatice Ipek...

- Esse assunto outra vez, não! - Ardiç agarrou a parte da frente da camisa de Ikmen e puxou-o para si. -Já te disse que deixasses esse assunto! É um não-caso. E

antes que comeces a dizer-me que prometeste à mãe da rapariga que ias descobrir quem foi que a atacou, deixa que te lembre que a rapariga, que, de qualquer forma,

de perfeita tinha pouco, morreu de causas naturais!

- Sim, eu sei - disse Ikmen, a boca agora a escassos centímetros do rosto vermelho e a transpirar de Ardiç -, mas ela foi violada e cortada. E além disso, comissário,

descobri o que eu penso que pode ser uma conspiração, uma organização formada à volta de raparigas como Hatice, raparigas fornecidas para se comportarem como odaliscas

perante pessoas ricas cuidadosamente escolhidas. Penso que Múren pode ter-se envolvido nisso recentemente.

O rosto de Ardiç, agora mais preocupado do que furioso, afrouxou o aperto à camisa de Ikmen.

- Como chegaste a essa informação?

- Através de várias fontes.

- Que fontes? - Ardiç olhava Ikmen com ar grave. Os agentes tinham muitas vezes relutância em mencionar os seus informadores, até aos seus superiores. Ikmen fora

sempre um dos mais acusados disso. - Então?

- Um dos meus informadores - disse Ikmen - foi um homem conhecido por Rat.

Ardiç revirou os olhos.

- E também duas senhoras idosas e respeitáveis, uma das quais está agora morta. Muazzez Heper. Morreu ontem debaixo das rodas de um condutor que a atropelou e fugiu.

- O que tu pensas, presumo, que está relacionado com esta... fez uma pausa para encontrar as palavras certas - ... bizarra fantasia das Mil e Uma Noites que essa

escória te impingiu...

245


- Comissário, esta organização, o Harém, como eles lhe chamam,

e...


- Oh, poupa-me! O Harém? - Ardiç levantou os braços e riu. - Isso é um disparate, Ikmen! Informações soltas que tu resolveste reunir numa estranha teoria de conspiração.

- Rat contou-me que a Máfía está agora envolvida com essa organização. A família Múren estava ligada a Hassan Seker, que pode ter sido o instrumento que envolveu

Hatice. Na sua carta de suicídio, ele disse que a matou, mas nós sabemos que não foi ele. Ele estava efectivamente em casa. Hassan Seker devia estar a proteger a

família dele de alguém, talvez dos irmãos Múren. Ou talvez de alguém com quem eles têm ligações, alguém mais poderoso e sofisticado do que Ali e os filhos. Comissário,

Muazzez Heper fez o vestido que Hatice usava quando morreu. Fê-lo no início dos anos 1960, quando ela própria se envolveu com o Harém.

- Mas dizes que agora ela está morta? É verdade?

Ikmen baixou a cabeça, gasta uma grande parte da sua energia.

- Sim, comissário.

- E a irmã que resta conhece a família Múren?

- Ela diz que não, comissário, mas está em contacto com outras mulheres que...

- ERat?

- Há um tempo que não vejo Rat. Anda por aí.

- Estou a ver - Ardiç suspirou e estendeu a mão em direcção a Ikmen. - Dá-me a arma, Ikmen.

O inspector entregou-lha automaticamente e sem proferir uma palavra.

- Agora vai para casa - disse o comissário calmamente -, e fica lá, como te disse, durante uma semana.

Ikmen levantou o olhar, os olhos brilhantes de lágrimas de cansaço.

- Não acredita em mim, pois não?

- Não - respondeu Ardiç, ao mesmo tempo que tomava agitadamente o peso à pistola. - Penso que acreditas nisso, mas eu não. Impingiram-te uma fantasia, um estúpido

argumento de um filme.

- Ah sim?

- Sim. Agora vai mas é dormir.

246


Ardiç moveu-se como que para regressar à sala de interrogatórios onde Múren e os dois agentes ainda estavam sentados, sem dúvida naquele tipo de silêncio que permite

às pessoas ouvirem o que se passa atrás de portas fechadas.

No entanto, antes de ele lá ter chegado, Ikmen disse:

- O que vai fazer agora com Ekrem Múren, comissário?

- Ele é da minha responsabilidade, não da tua - Ardiç apontou um dedo acusador a Ikmen. - Vai para casa!

- Vai libertá-lo, não vai?

- Vai para casa!

Ikmen virou-se e caminhou, hesitante, pelo corredor em direcção às escadas. Magoava-o o facto de Ardiç não acreditar nele, mas também ficara magoado quando o comissário

o afastara do caso Sivas. Estava convencido de que isso era influência de "outras pessoas", pessoas de Ancara, que tinham ordenado a Ardiç que o afastasse: um género

de conspiração de alto nível... Alá, mas estavam a aparecer de repente em toda a parte! O Harém, a suspeita de envolvimento da Máfia no passado de Hikmet Sivas,

e talvez também no seu presente, o voo rápido de Ardiç para a capital...

Talvez pensou Ikmen, eu esteja mesmo a ficar louco. Quem sabe se a exposição a tanta coisa "exótica" numa sucessão tão rápida, juntamente com um estilo de vida que

só estava à espera de lhe passar por cima, acabou finalmente por levar a melhor?!

Sentiu que o sangue lhe escoava do rosto, à medida que o corpo respondia a este medo. Mas depois aprumou-se e continuou a caminhar com mais determinação. O facto

era que estas coisas de que ele falara a Ardiç tinham acontecido. Hatice morrera vestida de odalisca otomana, Hassan Seker suicidara-se e Muazzez Heper fora atropelada,

se Yúmniye e Rat tinham razão, numa altura muito conveniente. Alguém não queria que isto viesse à superfície. Talvez até o próprio Ardiç... Fora, afinal, Ardiç que

efectivamente encerrara o caso Hatice Ipek. Talvez Ardiç tivesse, ele próprio, visitado o Harém. Ikmen estremeceu, ao mesmo tempo que tentava afastar da mente essa

imagem.


Embora a presunção de que Belkis Iskender estava exclusivamente

Emersa no seu trabalho não fosse errada,

247

dedicava, de facto, algum tempo ao marido, que sempre excitara tanto a sua paixão como a sua solidariedade. Afinal, embora consideravelmente mais baixo do que ela



e nem de perto tão astuto, Metin era um homem bem-parecido que gostava de literatura e que cultivava a companhia. Ela podia falar com ele sobre o trabalho dela,

que ele parecia compreender. O mesmo não se podia dizer relativamente à atitude dela para com o emprego dele, de que Belkis não queria saber e que não queria compreender.

A autoridade e a arte não se misturavam, e, assim, a maior parte do tempo, Belkis optava por ignorar o facto de que o marido era polícia.

Este final de tarde, no entanto, era diferente. Metin saíra de serviço muito mais cedo do que Belkis estava acostumada e vinha de mau humor. Não, não era mau humor,

era inquieto. Era por isso que se encontravam agora no Malta Kiosk, no Parque Yildiz, o oposto de qualquer restaurante elegante do centro da cidade, que era a preferência

habitual de Belkis.

- Eu podia ter resolvido o caso, sabes - disse ele, enquanto empurrava desinteressadamente com o garfo a sua salada de beringelas para a borda do prato. - Se me

tivessem dado tempo. Ikmen e eu estávamos a fazer progressos. Mas primeiro eles vêem-se livres dele, e depois sou eu que saio. - Esbracejou, agitado. - Eu estava

na televisão, ao princípio. Um momento de fama. Agora isto.

- Penso que devias considerar a hipótese de fazer outra coisa, querido - respondeu a mulher, deitando o resto do champanhe para o seu copo. - Sabes que eu apoiaria

qualquer projecto que resolvesses empreender.

Ele esboçou um leve sorriso.

- Eu sei.

- Sempre pensei que depois daquela situação terrível em Edirnekapi tu irias desistir - disse ela, aludindo ao mau bocado por que o marido passara após a sangrenta

e falhada altercação com um traficante de droga da Europa de Leste.

- Mas bem sabes que não posso - respondeu ele. - Tenho de fazer isto e ter êxito, Belkis.

Ela estendeu a mão por cima da mesa e tocou-lhe o braço.

248


- Porque por mais que tu possas gostar de me vestir com fatos de alta costura e de vibrar com o prazer que os livros me dão, eu continuo a ser aquele miúdo de Umraniye

- disse ele. - Entrei para a polícia para sair de lá, o que fiz. Estudei, casei com uma mulher bonita e bem sucedida na vida, mas ainda preciso de me pôr à prova

nos olhos deles - disse, aludindo à família pobre que ainda visitava semanalmente.

- Mas podias fazer isso noutra carreira. Conheces todas as pessoas com quem trabalho.

- Mas ser polícia é trabalho de homem! - disse ele, libertando-se da mão dela e virando-se para estender o olhar pela colina atapetada de bosques, em direcção ao

Bósforo. - O meu pai e os meus irmãos nunca compreenderiam a publicação de livros. Se eu entrasse para a tua empresa, eles ainda me veriam mais como um cãozinho

de salão do que agora!

- Metin, querido, deves libertar-te do passado - Belkis apoiou a cabeça nas mãos e suspirou. - És uma pessoa sensível. Podias exorcizar tanta coisa se tivesses tempo

e espaço e pudesses simplesmente sentar-te a escrever. Não tens de entrar para a minha empresa. Sei que tens um livro dentro de ti, eu apoiaria...

- Oh, Belkis, desiste, por favor! - disse ele. Tinham estado neste ponto antes, tantas vezes.

Belkis colocou as mãos no regaço e baixou os olhos, triste. Na sua opinião, a única coisa a fazer em relação à infância desesperada de Metin em Umraniye era escrever

sobre ela e esquecer. Metin já era um êxito. Apesar de ter crescido sem o benefício da água canalizada num bairro onde as lixeiras ardiam permanentemente em fogo

lento e de vez em quando explodiam, ele estudara, subira muito rapidamente a escada do êxito e parecia suficientemente maduro. Por que motivo ele queria ainda pôr-se

à prova perante pessoas analfabetas, nojentas e, frequentemente, criminosas, ela não conseguia entender. Mas ela nem sequer podia imaginar o que se passava na cabeça

do marido.

Metin deixou os olhos pousarem no caminho que atravessava o cimo da colina coberta de bosques em direcção ao restaurante. Aproximavam-se casais e algumas famílias,

a arfar e a transpirar e cujo destino eram as refeições do final da tarde no cenário gracioso do Malta Kiosk. Pessoas bem-vestidas e asseadas que sabiam, tal como

ele, que o edifício de estilo esplendorosamente italiano em frente do qual ele

249

estava sentado servira em tempos para enclausurar o pobre Murad V, o sultão que bebera muito e reinara pouco. Ninguém em Umraniye saberia isso. Ninguém em Umraniye



tinha roupas bonitas, a não ser que as tivessem roubado. Ele ainda se lembrava de revolver as pilhas de lixo à procura de sapatos de Inverno. Jamais esqueceria.

Porque essas coisas não se esquecem. As coisas regressavam, estavam sempre a regressar, tal como o homem cujo farto cabelo louro brilhava tanto ao Sol que se punha,

à medida que se materializava no caminho à frente de Metin Iskender. Alá, não! E, por um momento, o mundo tornou-se silencioso e fixo - um feitiço apenas quebrado

por Belkis quando aproximou o rosto do dele e gritou: - Metin! Metin, o que é? Querido!

CAPÍTULO DEZANOVE

Mehmet Suleyman deveria ter calculado. Nunca se aparecia no apartamento de Çetin Ikmen esperando sair meia hora depois. O que começara por ser uma visita social

a meio da manhã, para agradecer a Ikmen o presente que ele oferecera ao bebé Yusuf Izzeddin, acabou por tornar-se uma longa conversa.

- O que eu não compreendo - disse Suleyman, terminando a sua segunda chávena de chá e acendendo um cigarro -, é como, dado que esse Harém existe, nunca ouvimos falar

dele antes.

- Se eles usavam apenas raparigas da alta sociedade, como aparentemente acontecia - respondeu Ikmen -, elas não falavam. Mulheres como as irmãs Heper preferiam morrer

a que se tornasse público o facto de que tinham tido relações sexuais por dinheiro.

- Mas isso não explica Hatice Ipek, pois não?

- Não - Ikmen acendeu mais um Maltepe. - Mas se a menina Yúmniye e Rat tiverem razão em relação a uma recente mudança de dono desta operação, aí Hatice Ipek encaixa-se.

Quer dizer, se uma ou mais famílias mafiosas estiverem envolvidas, não estou a ver nem a mais inteligente delas a compreender minimamente o que uma senhora possa

ter para oferecer que qualquer miúda bonita ou rapariga barata não tenha. E, de qualquer maneira, quantas raparigas hoje têm ligações com a velha ordem?

- - Suleyman franziu o sobrolho. - Só que, certamente, a natureza do Harém exigia senhoras. Como eu vejo as coisas, os que criaram a ideia estavam a vender uma fantasia

otomana. Filhas

252


genuínas àtpasa, vendidas por um preço elevado a estrangeiros e talvez até a turcos. Embora eu suponha que, se considerarmos a morte de Hatice Ipek, seja possível

que a clientela tenha mudado.

Ikmen abanou a cabeça, colocando a ideia de parte.

- Não me parece - disse. - Se as famílias mafiosas quiseram começar e controlar uma operação como esta, não há nada que as impeça. Segundo a menina Yúmniye e Rat,

os clientes originais eram ricos e importantes, e penso que as famílias mafiosas tomaram conta desta operação porque queriam ganhar acesso a esses clientes importantes.

Suleyman inclinou-se para a frente na cadeira e apoiou pensativamente o queixo nas mãos.

- Mas porquê? Por que aceitariam esses homens raparigas comuns, trabalhadoras, se tinham o produto genuíno antes? Empregadas de balcão e raparigas do género não

saberiam como comportar-se adequadamente. Mas alguns desses clientes originais devem ser bastante velhos agora, não devem?

- Velhos, ricos, e importantes - disse Ikmen com um leve sorriso. - Às primeiras horas desta manhã pensei na possibilidade de chantagem.

O som da campainha da porta ouviu-se, vindo do vestíbulo, fazendo com que ambos os homens olhassem para a porta da sala de estar.

- Hulya vai ver quem é - disse Ikmen, e para ter a certeza de que ela ia, gritou o nome da filha.

Suleyman, a mente ainda concentrada na conversa que estavam a ter, suspirou.

- O que eu também não compreendo, dado que este assunto deveria estar envolto em grande segredo, é como as famílias mafiosas tomaram conhecimento da existência do

Harém.


Ikmen, que, apesar de ter conseguido dormir alguma coisa na noite anterior, se sentia ainda extremamente cansado, limitou-se a encolher os ombros.

A porta da sala de estar abriu-se e Hulya entrou.

-Pai, o inspector Iskender veio visitar-te. A rapariga virou-se para permitir ao jovem inspector dirigir-se à presença do pai.

Tanto Ikmen como Suleyman mostraram intenção de se levantarem, mas Iskender fez-lhes sinal para que ficassem onde estavam.

253

- Senta-te, Metin - disse Ikmen. - Posso oferecer-te chá?



- Sim. Obrigado.

Parecia nervoso, as mãos inquietas no regaço, como um homem num encontro importante. Ikmen virou-se para a filha.

- Podes fazer isso, por favor, Hulya?

- Sim, pai.

Era realmente espantoso como ela ficara muito mais dócil e até agradável desde que se andava a encontrar com Berekiah Cohen. Balthazar podia dizer o que quisesse

sobre as diferenças religiosas entre os filhos de ambos, mas se este era o resultado, Ikmen estava contente

- não que isso alguma vez o tivesse incomodado.

Depois de ter perguntado se o pai ou Suleyman também queriam chá, Hulya saiu da sala.

- Então a que devemos o prazer da tua companhia, Metin? perguntou Ikmen, acrescentando em seguida: - Posso adivinhar que alguma coisa se passa.

- Vi Zhivkov - respondeu Iskender.

- Bem, ouvi dizer que ele estava vivo - disse Suleyman -, mas não sabia que, na realidade, ele se encontrava na cidade.

- Sim, está na cidade - Iskender levou a mão ao bolso e tirou os cigarros.

- Tens a certeza de que é Zhivkov? - perguntou Ikmen. Iskender acendeu o cigarro.

- Vigiei-o durante quase seis meses - disse. - No ficheiro dele há centenas de fotografias dele em todos os géneros de situações. Por vezes, ainda agora as tiro

para fora. E como se eu tivesse de continuar a recordar a mim próprio a verdadeira aparência do mal. Era ele. Iskender baixou o olhar para o seu cigarro. Ikmen e

Suleyman trocaram olhares preocupados.

- Onde o viste, Metin?

Neste ponto, Hulya entrou por breves instantes para dar aos três homens o chá que tinham pedido. Só depois de ela ter saído é que Iskender respondeu.

- Bem, esse foi o pormenor mais assustador - respondeu.

- Apareceu, simplesmente.

- Com certeza que sim - disse Suleyman. - Não estavas à espera de vê-lo, e, de súbito, lá estava ele.

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- Não, Mehmet - Iskender levou as mãos ao rosto. Depois de se ter recomposto, disse: - Olhem, sei que parece loucura, mas, ontem à noite, Belkis e eu estávamos a

jantar no Malta Kiosk, no Parque Yildiz. Estávamos sentados cá fora. Eu estava a olhar para o caminho que vai dar ao quiosque, passando pelo cimo da colina. Vi famílias

e casais a arfar depois da subida... e depois lá estava Zhivkov, de repente, no caminho, como se tivesse saltado de um alçapão no chão.

- Talvez estivesse atrás das famílias e dos casais - disse Ikmen.

- Não me parece.

- Eles podiam tê-lo ocultado e, por isso, não o vias.

- Sim, mas não foi isso que aconteceu! - Iskender agitava as mãos à frente do corpo para reforçar as palavras. - Foi assim mesmo! Num momento as pessoas estavam

lá sem ninguém atrás delas, e, de súbito, lá estava o búlgaro. - Olhou para os rostos cépticos que o rodeavam com algo que se aproximava a pânico. - Belkis conta-vos.

Ela pensou que eu estava a ter um ataque cardíaco!

- Não duvido de que tivesse parecido isso, Metin - disse Suleyman.

- Estou-te a dizer, Mehmet - insistia Iskender veementemente - , foi tal qual como naquele espectáculo que Belkis e eu vimos em Paris. David Copperfield, o ilusionista

americano. Num momento ele não está lá, no momento seguinte... - Iskender estalou os dedos.

- Sim, mas...

- Não, não - Ikmen, que estivera silenciosamente a ponderar a situação durante os últimos momentos, levantou a mão para calar Suleyman. - Seja o que for que tu e

eu possamos pensar, Metin teve uma experiência autêntica. Posso dizê-lo a julgar pela voz dele, e, além disso, sei que é um homem sincero.

- Obrigado.

- Se toda a vida, como alguns acreditam, é, de qualquer maneira, uma ilusão, nesse caso, quem somos nós para dizer o que é e o que não é assim? - Ikmen sorriu. -

E que era que Sherlock Holmes costumava dizer? Quando já se esgotaram todas as explicações lógicas, o que fica, por mais improvável que seja, tem de ser a solução,

ou, neste caso, a realidade.

- Então estás a dizer - perguntou Suleyman - que devemos acreditar mesmo que Zhivkov se materializou assim, do ar, sem mais

255

- Ou pareceu que assim foi, sim - Ikmen olhou para os dois rostos perturbados à sua frente. - Têm ideias?



Em dois dias, ele apanhara dois sustos. Primeiro tinham sido as ameaças de Ikmen, e depois a notícia de que o informador conhecido por Rat estava morto. A última,

se não a primeira notícia, tivera o objectivo de o assustar. A pessoa que telefonara, alguém cuja voz ele não reconheceu, entrara em pormenores sinistros. O corte

de orelhas e de outras partes mais delicadas... Dizendo, é claro, que "isto é o que fazemos àqueles que nos traem". Como se ele precisasse que lho recordassem. Como

se, agora, isso tivesse alguma coisa a ver com ele! O homem que lhe tinham pago para proteger, Hassan Seker, estava morto. Deveria ter terminado aí. Mas não tinha,

e, como Orhan Tepe tão bem sabia, tinha tudo a ver com ele, por causa, e só por causa, do seu desejo insaciável por dinheiro. E claro que, uma vez que uma pessoa

se envolvia neste tipo de coisas, era para sempre. Se ao menos ele não tivesse tido necessidade de impressionar tanto Ayse! Se ao menos ele, como Ikmen observara

com tanta perspicácia, não tivesse estado tão consumido pela inveja que sentia de Suleyman.

Havia mais de um ano que Hassan Seker andava a comer Hatice Ipek. Ele gostava da rapariga e Tepe acreditara nele quando ele disse que não a matara. Sabia quem o

fizera, embora nunca tivesse revelado quem fora. A única certeza era de que não fora Ekrem nem Celal Múren. Eles eram, como Tepe estava a começar a perceber, apenas

moços de recados - de quem, ele não sabia. Mas em breve iria descobrir.

Aparentemente, precisava-se de um favor. Ekrem disse que a presença de Tepe seria solicitada em qualquer altura durante o fim-de-semana. Tepe olhou de esguelha para

a mulher idosa que estava sentada à sua frente, aparentemente a dormir, e, em silêncio, amaldiçoou o seu azar. Era suposto ele estar de serviço aqui, em Kandilli,

até domingo de manhã. O que iria ele fazer se a sua presença fosse solicitada antes disso?

- Eu sugeriria que recorresse ao seu Corão - disse Hale Sivas, abrindo os olhos. - Posso ler no seu rosto que a sua mente está preocupada. Mas todas as respostas

a todas as perguntas encontram-se nas Escrituras.

256 257


Tepe tentou um sorriso e disse:

- Sim, obrigado, menina Sivas, vou lembrar-me disso.

A velha mulher endireitou-se na sua cadeira e observou Tepe ainda mais atentamente. Abanou a cabeça tristemente.

- Não, não vai - disse ela. - Os meus irmãos concordavam sempre demasiado prontamente com as minhas sugestões, tal como você. Nenhum deles sequer abriu o livro sagrado

durante décadas.

- Bem, quando encontrarmos os seus irmãos, pode perguntar-lhes, não é verdade?

- Não - Hale Sivas agarrou com força os braços da cadeira para se apoiar enquanto se levantava. - Os meus irmãos estão mortos. O contacto com pessoas más começa

por corroer a alma, sabe? Depois, mais tarde, ela leva atrás de si o corpo vil. Os meus irmãos estão mortos e não tenho piedade suficiente, tão-pouco na minha alma

generosa, para os salvar do inferno.

A mulher encaminhou-se lentamente para a porta, o lenço de cabeça a apertar-lhe fortemente o cabelo. Por breves instantes, Tepe desejou que ela estivesse morta.

Velha cabra sem graça! Oh sim, ela podia dar-se ao luxo de ter uma alma inocente, a viver numa casa fantástica como esta, a sugar o irmão bem sucedido, que ela tanto

amava como desprezava. Se Hikmet Sivas de facto conseguira grande parte da sua riqueza por meios não propriamente legais, fizera-o, em parte, por Hale. Ele amava-a,

segundo Ikmen; respeitava-a, querendo sempre agradar-lhe.

Ele próprio fora assim para com Ayse. Quisera tanto agradar-lhe que entrara nesta confusão para poder agradar-lhe. Mas ela, tal como esta velha Hale Sivas, não dera

valor nenhum a isso. A única vez que ele fizera algo para satisfazer as suas próprias necessidades e fantasias, ela começara por comportar-se como uma estúpida desmancha-prazeres,

e depois, fora chorar no ombro de Ikmen, que ficara do lado dela. Sacana! Como podia ele dizer que era homem quando era óbvio que não compreendia as necessidades

de um homem, era coisa que Tepe não podia entender. No entanto, o facto era que Ikmen lhe arranjaria agora sarilhos. Tinha de pedir transferência, e rapidamente.

Não devia pensar agora no que se passara com Ayse. Não. A lembrança do aspecto dela, nua, assustada e a sangrar só faria com que ele se excitasse e não havia saída

para isso aqui. Com Ardiç no edifício, ele nem sequer podia

ir à procura de uma casa de banho para se aliviar - isso seria demasiado arriscado.

Ardiç andava de olho nele. Estava convencido disso. Livrara-se primeiro de Ikmen, depois de Iskender, e tomara pessoalmente o comando da operação. Mas não se descartara

dele. Não se descartara de outros agentes mais novos, nem de Yalçin, aquele velho idiota, nem dele próprio. O que andava Ardiç a tramar? A única coisa que todos

eles faziam era esperar, mas esperar por quê? A única afirmação razoável que Hale Sivas fizera durante a sua última pequena homilia foi que os irmãos estavam provavelmente

mortos. As pessoas que tinham assassinado Kaycee não tinham feito as coisas indolentemente. E assim, se Hikmet ou Vedat, ou ambos, estivessem envolvidos com essas

pessoas, estavam certamente metidos num grande sarilho. Se a Máfia, que era o nome que estava a ser murmurado em alguns bairros como a culpada do assassínio de Kaycee,

estivesse envolvida, Tepe mal ousava pensar no que poderia estar a acontecer aos irmãos Sivas.

- O facto é que - disse Ikmen, levantando-se para andar de um lado para o outro na sala de estar, o que era o que fazia quando pretendia explorar ideias -, Isak

Çóktin e um grupo de agentes mais novos passaram quase um dia inteiro a explorar Yildiz e os arredores depois de Vedat Sivas ter desaparecido. Excluindo as caves,

tudo o que examinaram estava bem acima do solo.

- Bem, e era para estar - respondeu Suleyman. - Não há mais nada, para além de uma velha e estúpida história sobre túneis secretos.

Ikmen, agora a franzir o sobrolho, estacou.

- Conheço a lenda a que te referes. Isso explicaria...

- Oh, poupa-me, Çetin! - Suleyman abanava a cabeça, não podendo acreditar no que ouvia. - Sei que Abdul Hamid era paranóico, mas as velhas histórias sobre as suas

deslocações de local para local em túneis porque receava ser assassinado não passaram de sensacionalismo jornalístico. Se os túneis existissem, o pessoal que trabalha

no palácio teria levado Çõktin e os seus rapazes lá abaixo, quando estavam a inspeccionar a casa.

- Se soubessem que eles existiam - disse Ikmen.

- Bem, e saberiam, certamente!

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- Se os túneis tivessem sido obstruídos há muitos anos atrás...

- Apenas para serem miraculosamente descobertos por Zhivkov? - Suleyman agitava petulantemente a mão no ar. - Oh, por favor!

Ikmen virou as costas a Suleyman e aproximou-se de Iskender.

- O Parque Yildiz fez, sem dúvida, parte das nossas vidas ultimamente. Efectuámos buscas no local porque Vedat Sivas trabalha lá há muitos anos.

- E o próprio Hikmet também lá trabalhou. Ikmen e Iskender olharam ambos para Suleyman.

- O meu pai viu-o lá a representar, a fazer um filme de Yesilcam

- disse. - Representava o papel de um janízaro.

- Quando foi isso? - perguntou Ikmen.

- Antes de ele ter ido para Hollywood - respondeu Suleyman.

- O meu tio-avô Selim, que nasceu em Yildiz, estava a mostrar a casa ao meu pai nessa altura.

- Ah - disse Ikmen.

- O meu pai não falou em túneis, Çetin - disse Suleyman com um sorriso.

- Perguntaste-lhe?

- Não. Ele havia de pensar que eu estava louco.

Ikmen tirou o telemóvel do bolso das calças e estendeu-o a Suleyman.

- Talvez devesses testar essa tua suposição, Mehmet. Abanando a cabeça em sinal de descontentamento, Suleyman pegou

no telemóvel da mão de Ikmen e levantou-se.

- Vou fazê-lo - disse -, mas se algum dos colegas da minha mulher vier à minha procura com um colete de forças, tu és o responsável.

Saiu para a varanda para ter mais privacidade - não tanto em relação a Ikmen como em relação a Iskender. Ikmen estava familiarizado com as conversas tensas que existiam

entre os membros da família Suleyman; Metin Iskender não.

Depois de ele ter saído, Iskender virou-se para Ikmen.

- Ainda queremos Zhivkov pelo homicídio da mulher - disse ele -, entre outros crimes.

- Sim - Ikmen, franzindo o sobrolho, acendeu outro cigarro. Ele foi visto recentemente em mais algum sítio da cidade?

- Que eu saiba, não.

- Assim, dada a singularidade do seu aparecimento junto ao Malta ; Kiosk, ele poderia estar escondido no palácio.

- Penso que sim.

- Humm - Ikmen voltou a mergulhar nas profundezas da sua velha e puída cadeira de braços. - Lembras-te - disse ele -, quando 1 tu e eu começámos a trabalhar no caso

Sivas, de ter sentido que poderia haver envolvimento de famílias mafiosas algures no caso?

- Sim.

- E nessa altura falámos sobre a possível ligação de Hikmet Sivas à Máfia siciliana.



- Que Ardiç não viu qualquer vantagem em investigarmos - disse Iskender num tom de pesar.

- Estás desconfiado, Metin? - perguntou Ikmen. - De Ardiç. O homem mais jovem baixou os olhos, não proferindo palavra.

Mas os seus movimentos diziam tudo.

- Foi o que pensei - Ikmen abanou tristemente a cabeça. - Eu também estou. Não resta ninguém da equipa original, a não ser Ardiç, o velho Yalçin, ainda estranhamente

a fugir à morte, e Orhan Tepe. Não estou a gostar nada disto. Temos Vedat Sivas, irmão de Hikmet, estrela de cinema, que, segundo parece, tem importantes relações

italianas, e que há quarenta anos que trabalha em Yildiz. Zhivkov, bandido búlgaro que gosta de decapitar mulheres, é visto a surgir do ar em Yildiz. Kaycee Sivas,

decapitada...

- Mas por um método diferente - disse Iskender. - Kaycee foi morta de um só golpe. A pobre Nina Zhivkov serraram o pescoço com uma faca de pão. O doutor Sarkissian

disse que ela pode ter levado uma hora a morrer.

- O que me incomoda - disse Ikmen -, é que as nossas famílias mafiosas e as deles, dos americanos, sicilianos, sei lá, podem, por qualquer razão, ter entrado em

conflito nesta cidade através de Hikmet Sivas. - Inclinou a cabeça para um lado, franzindo o sobrolho. - E os polícias entram também aí algures, os polícias mais

velhos...

Iskender acenou com a cabeça.

- Referes-te a Ardiç, segundo compreendo.

- Não-disse Ikmen -, na verdade não. - Olhou Iskender - Se te lembras,

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Metin, foi depois de Ardiç ter ido a Ancara que eu fui afastado do caso e que terminou tudo o que havia de construtivo na investigação.

Ficaram sentados em silêncio durante alguns momentos, à medida que as implicações desta dedução se abatiam sobre eles.

Suleyman, regressando da varanda, pousou o telemóvel de Ikmen junto ao cinzeiro e voltou a ocupar o seu lugar.

Ikmen, observando-o com olhos vermelhos de cansaço, perguntou:

- Então?

Suleyman encolheu os ombros.

-Tinhas razão, e, surpreendentemente, eu estava errado. Há túneis, ou melhor, passagens subterrâneas, construídas pelo sultão para lhe permitirem uma deslocação

segura de uma parte do palácio para outra. O meu pai, na companhia do tio, desceu a uma por baixo do complexo principal do palácio. Ele pensa que algumas das outras

passagens tinham sido obstruídas.

- E o Malta Kiosk?

- Ele não sabe. E essa é que é realmente a questão.

- O que é? - perguntou Iskender.

- Ninguém sabe - respondeu Suleyman. - Abdul Hamid usou arquitectos e artesãos diferentes para cada parte do seu palácio. Os homens trabalhavam por turnos e estavam

proibidos de se juntarem. Só o sultão conhecia o desenho completo. A única pista que temos é que o Malta Kiosk foi em determinada altura usado como prisão para Murad,

o irmão alcoólico do sultão. Segundo o meu pai, Abdul Hamid gostava de ir, de vez em quando, regozijar-se com o mal do seu irmão mais velho, por isso poderia haver

uma passagem do complexo principal para o quiosque. E se for esse o caso, pode passar por baixo ou próxima do caminho em que tu viste Zhivkov, Metin.

- E tanto Hikmet Sivas como quem quer que lhe tenha assassinado a mulher conheciam as lendas sobre Yildiz - disse Ikmen.

- Conheciam? - perguntou Suleyman. - Como sabes?

- Bem - respondeu Ikmen -, quem quer que tenha enviado a cabeça de Kaycee ao marido colou um bilhete muito pertinente a um dos lados da caixa. O bilhete aludia directamente

a uma dessas lendas.

- Sim - disse Iskender, entusiasmado -, é verdade! Disseste na altura que Sivas provavelmente sabia o que estava no interior da caixa só pelas palavras do bilhete!

- Parece que é assim, não parece? - disse ikmen calmamente.

- Inclinou ainda mais a cabeça para trás e fechou os olhos.__Yildiz

está relacionado com Vedat e Hikmet Sivas. Zhivkov apareceu lá ontem. A questão é, qual é a relação, se é que ela existe, entre Zhivkov e os irmãos Sivas?

CAPÍTULO VINTE

Quando Suleyman e Iskender saíram, Hulya abordou o assunto de Berekiah Cohen com o pai, mas a campainha da porta interrompeu-a.

A visita, uma mulher baixa de meia-idade, tinha o cabelo mais ruivo que Hulya alguma vez vira. Desejava, disse, falar com Çetin Ikmen. Hulya conduziu-a à sala de

estar.


O rosto de Ikmen revelou verdadeira surpresa quando a viu.

- Sofia Vanezis!

- Tocaste-me o peito em 1959 - respondeu Sofia, enquanto uma Hulya, chocada, deixava a sala e fechava a porta atrás de si.

- Eu...


- A menina Yúmniye Heper disse-me que tinha de vir falar contigo. - Sofia sentou-se pesadamente na cadeira mais próxima da porta. - A menina Muazzez Heper morreu.

- Sim, eu sei - Ikmen, que não estava acostumado a um embaraço desta natureza, esfregava nervosamente uma das mãos no queixo. - Quer chá?

- A menina Muazzez disse sempre que eu não devia contar nada, e eu nunca contei - continuou Sofia. - Mas agora a menina Yúmniye disse-me que devo fazê-lo. Por isso

vou contar, mas não tudo. A menina Muazzez disse que eu nunca devo contar tudo. Lembro-me de tudo.

- A sério? - Ikmen sentou-se no sofá em frente da sua hóspede e acendeu um cigarro. Sofia, com as pernas inchadas e a barriga como uma bola de futebol, não parecia

de forma alguma a rapariga cujo seio

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ele apertara por breves instantes em 1959. Só aquele cabelo ruivo e aquele discurso monótono, vazio de toda a emoção, lhe eram familiares.



- Mil novecentos e sessenta e cinco. Havia um quarto sem janelas - disse ela -, tecido dourado em todas as paredes, de seda no chão, uma cama muito grande, lençóis

brilhantes.

- Isso é o Harém.

- É um lugar onde se tem relações sexuais. Havia um homem.

- E lembra-se...

- Não posso dizer-te quem ele era. A menina Muazzez disse que não, em nenhumas circunstâncias. A menina Muazzez tratou de tudo para que eu recebesse algum dinheiro

desse homem. Ele disse-me que eu tinha de esquecer o que aconteceu naquele quarto com paredes de tecido dourado, e foi o que eu fiz. Ele deu-me algum dinheiro. Eu

saí. Estive lá trinta e um minutos. Exactamente trinta e um minutos.

Sofia Vanezis sempre fora estranha. Algumas pessoas, como Yúmniye Heper, diziam que ela era "lenta de raciocínio". Mas o que diziam estava muito longe da verdade,

como Ikmen podia agora ver. Sofia Vanezis era incisiva, observadora e, quase com toda a certeza, sentia ele, autista. E, se ele tivesse razão em relação a isso,

desde que ele não lhe perguntasse a sua opinião sobre as coisas nem lhe perguntasse directamente o nome da pessoa, podia, mesmo assim, descobrir quem o homem era.

As pessoas autistas, segundo Ikmen ouvira dizer algures, não eram capazes de mentir. Eram, com efeito, desprovidas da capacidade de forjar.

- Esse homem...

- Tinha cabelo preto, olhos castanhos. Usava camisa azul e calças pretas. Sei o nome dele, mas não te digo. Vi-o uma vez num filme, antes de 1965. A mamã levou-me

a vê-lo em 1959. Não sei qual era o título, não sei ler. 1959. Quando me tocaste no peito. Setembro. Eu disse-te para o fazeres. Deixei-te fazê-lo. Era quinta-feira.

Sofia levantou-se, com alguma dificuldade, como que para se ir embora.

Ikmen, impulsivamente, saltou da sua cadeira e bloqueou-lhe a saída com o corpo. O homem, o cliente do Harém de que Sofia se ocupara, fora actor de cinema.

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- Sofia - apressou-se ele a dizer, não fosse ela voltar a interrompê-lo -, esse homem que viu no filme em 1959, quem era ele no filme? Não quero o nome dele mas

da personagem que ele representava. Lembra-se?

Ela olhou-o sem emoção.

- Lembro-me de tudo - disse. - Era Bekir, um general muito mau.

Ahmet Silay usara a palavra "perverso" em oposição a "mau" quando falara daquele filme em particular. A representação de Hikmet Sivas naquele papel fora, dissera

Silay, verdadeiramente horrível.

- Pai?

Hulya entrara na sala e sentou-se em frente de Ikmen sem que ele tivesse sequer dado por isso.



O inspector levantou o olhar cansado e sorriu.

- Hulya.


- Quem era aquela mulher? Ikmen suspirou.

- Não quero falar disso agora, Hulya.

- Sim, mas ela disse...

- Eu sei o que ela disse - respondeu ele calmamente. - E, para que saibas, eu tinha doze anos, e ela, creio, cerca de dezasseis, quando o incidente que ela mencionou

aconteceu. Os rapazes tocam as raparigas e as raparigas tocam os rapazes. Acontece. Os seres humanos, particularmente os seres humanos jovens, desenvolvem fantasias

uns pelos outros de vez em quando.

- Sim, eu sei - Hulya olhava para baixo, para as mãos pousadas no regaço, os dedos nervosamente entrelaçados. - Pai, Berekiah Cohen levou-me ao trabalho duas vezes

e fomos visitar a doutora Halman juntos ao hospital.

- Sim, Hulya, eu sei. Que tem isso? A rapariga pareceu chocada.

- Sabes?


- Sim. - Por que motivo é que os adolescentes pensavam sempre que os pais não sabiam nada das suas vidas? - Vocês são amigos - disse. - Que tem isso?

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- Bem, o senhor Cohen, o pai de Berekiah, quer que deixemos de nos ver!

- Mas vocês são só amigos, não são? - Ikmen observava-a atentamente para avaliar a reacção dela.

Hulya baixou convenientemente os olhos.

- Sim.


- Então não há problema, pois não?

- Não. - Ela levantava agora o olhar, e Ikmen viu desafio nos olhos da filha. - Mas se Berekiah e eu desenvolvêssemos fantasias um pelo outro...

- Então isso seria outro assunto - disse Ikmen. - És muito jovem, e, como teu pai, eu haveria de querer algum tipo de garantia da parte de Berekiah de que te trataria

com respeito. Tenho a certeza de que ele o faria.

- Quer dizer que não te oporias a ele por ser judeu?

- Não - Ikmen inclinou-se para a frente e olhou a filha nos olhos. - Mas se o senhor Cohen estiver preocupado porque receia que vocês os dois se possam envolver,

temos de respeitar o seu ponto de vista, Hulya.

As lágrimas saltaram de repente aos olhos da rapariga.

- O que queres dizer com isso?

- Quero dizer que os judeus de Istambul têm uma tradição muito antiga e que honram nesta cidade. Há quinhentos anos, a família de Berekiah fugiu de Espanha para

cá, e embora tenham sempre participado na vida do nosso país, nunca casaram fora da sua religião.

- Como é que eles sabem? - perguntou Hulya desdenhosamente, ao mesmo tempo que limpava desajeitadamente uma lágrima. - Como é que eles podem saber?

- Não sei - respondeu Ikmen com um encolher de ombros -, mas é isso que eles dizem. E é importante para eles, por isso temos de respeitar esse ponto de vista.

- Sim, mas, pai, o que eu quero saber é se concordas com isso disse Hulya com ansiedade. - Isto é, digamos, se eu quisesse casar com Berekiah, o que farias?

- Para além de acalmar a tua mãe e de me perguntar onde é que poderia arranjar dinheiro para te comprar uma cama e uma cozinha, queres tu dizer?

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- Então tu...

- Não te impediria, Hulya. Mas o senhor Cohen e a tua mãe podem impedir, e eu estaria a mentir se dissesse que lutaria renhidamente com eles por ti - suspirou. -

No entanto, espero sinceramente que tudo isto não passe de uma suposição - disse ele com ar sério. - Confio que vocês sejam ainda só amigos. Para se casar com alguém

tão diferente é preciso pensar-se bem. É preciso considerar a língua, - os Cohen falam ladino entre si, tu não, e os filhos e, quer queiras quer não, as opiniões

dos outros.

- Tu costumavas sempre dizer que não te importavas com o que as outras pessoas pensavam - contrapôs a filha com alguma petulância.

- E não me importo - respondeu Ikmen. - Mas tenho a pele como a de um crocodilo.

Hulya, apesar de tudo, sorriu.

- Só quero que não te magoes - disse o pai com sinceridade. Talvez vocês devessem deixar de se encontrar por acaso. Isso faz com que os pais fiquem muito desconfiados.

Pede a Berekiah que venha jantar connosco quando a tua mãe regressar. O senhor e a senhora Cohen, eu sei, irão retribuir. Podem não gostar de o fazer, mas fá-lo-ão.

- Humm - Hulya baixou novamente o olhar para as mãos e suspirou.

- O que estou a dizer é que penso que vocês devem ir devagar disse Ikmen. - O casamento, mesmo sem todas as diferenças culturais de que temos estado a falar, é um

passo muito importante. Tens de ter a certeza de que é o que queres, e que o homem com quem desejas casar é alguém com quem podes passar o resto da tua vida. Por

vezes isso leva tempo. Como infelizmente descobriste hoje, eu senti alguma coisa pelo menos por outra rapariga, antes de ter conhecido a tua mãe. Mas desde que estou

casado com ela que não houve mais ninguém. Mas tu ainda és muito jovem.

- Muitas raparigas casam com a minha idade.

- Sim, eu sei, mas geralmente não são raparigas ambiciosas e cultas como tu.

Ela levantou o olhar sério para o rosto do pai.

- Penso que já não quero ser actriz - disse ela -, não depois do que aconteceu a Hatice.

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Ikmen levantou-se da cadeira e foi sentar-se ao lado da filha. Colocou-lhe os braços em volta dos ombros. Era bom que ela já não pensasse em entrar para o mundo

incerto do espectáculo, mas agora que a atenção dela se virara para Berekiah Cohen, a vida não era menos problemática. O que se passava com esta rapariga? Nunca

fora fácil Fatma disse que ela nascera com "carácter".

O som de uma porta a bater percorreu o corredor e fez com que Ikmen desse um salto. Búlent andava por ali. Obviamente ainda furioso por ter de ceder o seu quarto,

o outro filho adolescente de Ikmen estava a demonstrar algum carácter próprio. Ikmen fechou os olhos e esperou que o filho não decidisse entrar para terem mais uma

discussão sobre o quarto. Ele precisava de sossego para pensar no que Sofia Vanezis acabara de lhe contar, e onde poderia precisar de ir com essa informação.

A ponta da faca estava tão próxima da artéria principal do seu pescoço que Suzan Seker mal se atrevia a respirar com medo de sangrar até à morte.

- Sei que contaste à polícia sobre o nosso acordo com o teu falecido marido - disse Ekrem Múren enquanto afastava a lâmina apenas ligeiramente para que ela pudesse

falar. - Quem mais é que poderia ter feito isso? Tiveste de ser tu.

- Não!


- Eles prenderam Ekrem! - disse Celal, irmão daquele, do local onde se encontrava encostado à porta da cozinha. - libertaram-no, mas o facto é que o prenderam...

Disseram que extorquíamos dinheiro a Hassan.

- Deixa-te de lamúrias, Celal! - Ekrem inclinou-se para o rosto de Suzan, soprando-lhe as feições com um hálito de cerveja. - Na verdade, já não quero saber - disse

ele -, porque o nosso acordo contigo está prestes a terminar.

Suzan, os lábios a tremerem de medo, fechou os olhos. Então era isso. Era aqui que ela se juntava a Hassan na escuridão e dor que esperavam as almas impuras na outra

vida. Os seus filhos seriam órfãos! Os olhos escancararam-se-lhe perante o horror desta imagem, e Suzan engoliu em seco. Como podia ter sido tão estúpida? Nunca

se falava

269


à polícia em acordos! Nem sequer confidencialmente. Não havia tal coisa. Suleyman usara a informação contra os desejos dela. O que lhe dera a ela, afinal? O desgosto

que se seguiu à morte do marido? O desejo de impressionar o sogro, Kemal Bey, com a coragem que o filho dele nunca possuíra? Ela não sabia. A única coisa de que

tinha a certeza era de que não ia implorar a estes brutos pela sua vida. Era isso que eles haveriam de querer, mas essa era a única coisa, uma vez que ninguém viria

em seu socorro de detrás das portas fechadas à chave da pastani, a única coisa que ela tinha poder para não lhes dar.

- Façam o que quiserem - disse ela, olhando furiosamente Ekrem nos olhos. - Mas deixem os meus filhos em paz.

- Oh, não temos problemas com os teus filhos - respondeu o bandido. - Este negócio já não nos interessa.

- Não precisamos mais de recolher pequenas quantias de merda como esta-vangloriou-se o irmão. - Vamos ser ricos, o meu pai diz...

- Celal!


O homem mais jovem baixou a cabeça e murmurou:

- Desculpa.

- Então vocês vão matar-me.

- Oh, não - disse Ekrem. - Não, não, não! - Pressionou mais uma vez a lâmina no sentido ascendente de forma a produzir uma cova na pele junto à garganta dela. -

Não, vais ter de nos pagar o que nos deves, mas já vendemos este negócio a outro.

- A quem? - perguntou Suzan cuidadosamente, para não aumentar a pressão da faca que o seu carrasco tinha na mão.

- A um grupo, digamos, menos experimentado de jovens - respondeu Ekrem. - Muito mais insensatos do que nós.

- Azerbaijanis.

- Celal!

- Bem, ela tem de saber.

- Cala-te! - Ekrem riu para o rosto pálido de Suzan. - Eles vão gostar de ti - murmurou ele suavemente. - Eu gosto de ti. Talvez eles permitam que lhes pagues sem

dinheiro.

- Eu...

- Vê os teus novos donos como um castigo da minha parte disse ele -, e lembra-te de que se alguma vez os enganares, eles cortarão os teus filhos em pedaços mesmo

à frente dos teus olhos.

270 271


As lágrimas jorraram dos olhos de Suzan como a cheia de um rio a transbordar.

Ekrem exibiu um sorriso pretensioso.

- Mas agora tens de pagar a tua dívida para comigo - e, agarrando-lhe no ombro, empurrou-a com força para baixo com a mão que tinha livre.

- Mas eu pus o dinheiro todo no banco - balbuciou Suzan, caindo de joelhos à frente dele.

- Não faz mal - disse Ekrem. - Eu aceito pagamento em serviços.

Abriu o fecho das calças e puxou com brusquidão a cabeça dela para si.

Estava demasiado calor para andar na rua. Mesmo com a sombra oferecida pelas árvores, o ar era abafado, húmido e desagradável. Se ele tivesse juízo estaria em casa,

dormitando em frente de uma porcaria qualquer que estivesse a dar num dos canais por satélite. Com ambas as portas da varanda abertas de par em par, o apartamento

que ele partilhava com Belkis podia ser muito arejado e havia no frigorífico um enorme jarro de chá gelado...

Metin Iskender olhou para o Malta Kiosk. Teria de ir lá acima em breve para comprar uma bebida fresca, algumas das pessoas que estavam a jantar no exterior estavam

a começar a lançar-lhe olhares estranhos. Percorrera este caminho, apenas a parte que se via do quiosque, durante algum tempo. Para cima e para baixo, os olhos fixos

no chão e nos espaços entre a espessa folhagem ao lado do caminho. Até agora não descobrira nada. Não tinha a certeza do que esperava ver. Um alçapão de madeira

que saltava para fora quando accionado por algum dispositivo por baixo do chão, a tampa de um cano de esgoto com um aspecto suspeito, uma clareira estranha e inexplicável

no meio da folhagem...

Mas ele sabia que não seria nenhuma destas coisas, esse tal mecanismo que trazia à superfície um homem vindo das "passagens subterrâneas", como Mehmet Suleyman as

descrevera. Não, se aquele espectáculo de David Copperfield a que ele assistira em Paris lhe tinha ensinado alguma coisa, era que as melhores ilusões eram simples

e

envolviam a manipulação da percepção. De alguma forma, os olhos eram desviados daquilo que estava realmente a acontecer e atraídos para algo muito mais interessante



ou activo dentro do ambiente imediato. Iskender sentou-se num dos muros de pedra baixos que ladeavam o caminho e acendeu um cigarro. A principal distracção neste

ambiente era o próprio Malta Kiosk. Sempre cheio de gente, especialmente aos fins-de-semana e em serões quentes de Verão. Ninguém que lá jantava era pobre; de facto,

quando Zhivkov aparecera no caminho vestido com um fato de Verão cinzento-claro e com uns elegantes sapatos italianos, o aspecto dele era o de qualquer outro homem

bem sucedido na vida que saíra para jantar ao fresco. Não que Zhivkov tivesse jantado. Rodeara o restaurante, seguindo pelo caminho que atravessava a galeria coberta

por videiras, e em seguida, presumivelmente, descera a colina em direcção à entrada, na Ciragan Caddesi. Iskender, embora se encontrasse na companhia de Belkis,

extremamente preocupada com ele na altura, seguira, mesmo assim, todos os movimentos do bandido.

Levou a mão à testa para limpar algum suor que aí se juntara e apagou o cigarro no chão, com o pé. Agora precisava de ir buscar uma bebida. Atravessou para a varanda

em frente do quiosque e pediu água e uma lata de sumo de cereja. Sentado à mesa logo à esquerda daquela que partilhara com Belkis, deixou que os seus olhos deambulassem

ao longo do caminho, captando quaisquer características que se evidenciassem. Estava agora simplesmente acordado. Não dormira muito na noite anterior, atormentado

como estava por imagens da cabeça cortada de Nina Zhivkov. Depois, no apartamento de Ikmen, tentaram febrilmente os três compreender a grande quantidade de acontecimentos

aparentemente confusos e sem relação. À medida que as suas pálpebras pendiam sob o peso daquilo que pareciam barras de ferro, ele teve consciência de alguma coisa

que se perdia no fundo do seu cérebro, mas não sabia nem sequer agora lhe importava o que aquilo poderia ser. Precisava de dormir, quer se encontrasse ou não num

local público.

O queixo caíra-lhe para o peito quando o som de uma voz conhecida o fez abrir os olhos. Surpreendido, como as pessoas ficam sempre, com o quanto é imediata a reacção

a algo familiar, abanou a cabeça para se concentrar, para se poder dirigir ao colega que parecia estar mesmo atrás dele.

272


- Você disse oito - ouviu ele a voz dizer, ao mesmo que passava a seu lado e começava a sair da varanda.

- Sim - respondeu o homem que estava com ele. - Às oito, aqui.

Iskender, que já vira de perfil a pessoa que acompanhava o colega, colocou rapidamente os óculos de sol. Mesmo por baixo do chapéu grande e do bigode que não costumava

usar, o nariz e os olhos bonitos, tal como os do irmão, não deixavam lugar a dúvidas.

Iskender observava, fascinado, Vedat Sivas a dar o braço a Orhan Tepe, seguindo depois juntos em direcção à galeria, usando exactamente o mesmo caminho que Zhivkov

tomara no dia anterior.

Ikmen inclinou-se para a frente, apoiou-se nos cotovelos e esfregou o rosto quente com a água-de-colónia que Suleyman lhe estendia.

- Nós, ou melhor, tu, Metin - disse ele, dirigindo-se a um Iskender cansado da viagem e que estava sentado do outro lado da mesa -, devias contar a Ardiç.

- Sim, eu sei.

A cozinha encheu-se de silêncio por alguns momentos, enquanto os três homens tentavam lidar tanto com o calor como com a natureza perturbadora do que Iskender vira.

Reunidos pela segunda vez nesse dia, todos estes inspectores da polícia se sentiam bastante sós com a informação que viera ter com eles.

- Mas será que podemos confiar em Ardiç? - Suleyman ofereceu os seus cigarros aos colegas e tirou um para si próprio.

- Não sei se podemos confiar em alguém - respondeu Ikmen, sombrio.

- Se Ardiç estiver a receber instruções de Ancara - disse Iskender -, é possível que Tepe faça parte disso. Ele podia estar a armar uma cilada a Vedat de alguma

forma.

- É verdade. Embora Orhan, segundo parece, tenha conseguido bastante dinheiro muito rapidamente. Ele disse-me que tem um cartão de crédito. Mas, segundo Ayse Farsakoglu,



ele pagou a refeição que tomaram no Rejans, que incluía champanhe francês, em dinheiro vivo. Não estou a ver Ancara a pagar mais a Tepe para fazer o que pareceria

trabalho de polícia e que é, afinal, o trabalho dele.

273

- Lá isso é verdade - disse Suleyman -, mas, ainda assim, podemos estar a interferir numa operação que provavelmente está a ser comandada a um nível hierárquico



muito acima de nós.

- Nesse caso, talvez não devêssemos interferir mas simplesmente observar - respondeu Ikmen.

Iskender franziu o sobrolho.

- Mas como é que íamos saber, sem mais informações, o que estávamos a observar?

- Não sei - disse Ikmen -, mas sinto que devíamos lá estar. Alguma coisa vai acontecer naquele parque esta noite às oito horas, e eu quero saber o que é. Vedat Sivas



está vivo e aparentemente de boa saúde. Está a fazer alguma coisa com Tepe. Pode haver ou não relação com Zhivkov, mas uma coisa é certa: após quarenta anos, Vedat

conhece Yildiz muito bem.

- Ele também vos deve conhecer muito bem aos dois - disse Suleyman, olhando ambos os colegas de alto a baixo.

- Bem, se alguém tem de o fazer, terás de ser tu a segui-lo, Mehmet - disse Ikmen. - Metin pode dar-te uma descrição, se, é claro, quiseres entrar nisto connosco.

- E por que é que não haveria de entrar?

- Acabaste de ser pai - disse Ikmen. - Podes não querer arriscar assim a tua carreira.

- Ou a tua vida - acrescentou Iskender. - Seja o que for que possamos pensar que sabemos deste assunto, um facto que é irrefutável é que Kaycee Sivas foi brutalmente

assassinada. E quem quer que seja o assassino, é perigoso e implacável.

- Pensa nisso, Mehmet - disse Ikmen com gravidade. Suleyman sorriu.

- Sem mim, vai-vos ser difícil seguir Vedat.

- Difícil mas não impossível. Podemos não deixar que ele nos veja e mantermos o contacto por telemóvel.

- Sim, mas eu posso segui-lo abertamente, sempre, até que ele se encontre com Tepe. Eu quero fazer isto, Çetin - continuou Suleyman. - Lembro-me sempre de me contares

a história daquele assassino de Londres, Jack, o Estripador. Disseste que agora ninguém chegará a saber quem ele era e quanto isso foi frustrante. Sei que isto não

é a mesma coisa, mas é um mistério e eu erstou muito interessado em desvendá-lo. Ainda por cima, os nossos superiores podem estar envolvidos, e, se estiverem, quero

ajudar a chegar ao fundo da questão.

- Bem, se tens a certeza.

- Tenho.

Combinaram encontrar-se às seis horas num bufe que todos conheciam em Besiktas. Dali levariam cerca de dez minutos a chegar aos portões do palácio, e, embora não

tivessem ainda a certeza do que poderiam fazer para além de observar o que acontecesse ou não, para já Ikmen sentia que era importante que as suas actividades não

fossem muito limitadas. Tinham de ter mobilidade e capacidade de reacção, uma vez que não faziam ideia do que poderiam encontrar no palácio. De certa forma, não

queriam pensar nisso com muita profundidade.

Iskender foi o primeiro a sair. Como os outros, queria trocar de roupa.

Depois de ele ter saído, Ikmen virou-se para Suleyman.

- Penso que Hikmet Sivas - disse -, pode ter sido um dos clientes do Harém.

O rosto de Suleyman adquiriu uma expressão séria.

- Por que pensas isso?

- Tenho uma fonte bastante especial.

- Alguém muito estranho e que não é de confiança - disse Suleyman, demasiado familiar com o tipo de informadores que o seu antigo chefe parecia atrair.

Ikmen sorriu.

- Pode-se dizer que sim. - Em seguida a sua expressão voltou a ficar séria. Embora a decisão de entrarem no que quer que fosse em que estavam prestes a embarcar

tivesse sido tomada em conjunto, ele sentia-se, mesmo assim, responsável. Contrariando as ordens que recebera, estava a levar dois jovens para algo que podia destruir-lhes

as carreiras ou matá-los a todos.

CAPÍTULO VINTE E UM

Esta era a noite em que todas as coisas se tornavam possíveis. O momento em que ele pensara, que planeara, para o qual fizera as coisas mais horríveis, estava prestes

a acontecer. Por vezes pensara que nunca iria chegar, que os "amigos" de Hikmet simplesmente os suplantariam a todos. E, de facto, tê-lo-iam feito, não fosse a intervenção

do búlgaro. Fora principalmente por isso que Vedat o procurara. Sozinho, mesmo com todos os conhecimentos que tinha, ele nunca poderia sequer ter pensado nisso.

O dinheiro de Zhivkov comprara tanta coisa: silêncio, lealdade, morte. Até a polícia.

Apesar de a subida ser tão íngreme, Vedat sorria. Aquele jovem sargento iria ficar mudo, quando visse com quem é que ele ia partilhar uma mesa de jantar esta noite.

Nos anos futuros, as pessoas iriam falar desta noite com temor respeitoso. Mas só algumas pessoas. A maior parte jamais viria a saber que uma "nova ordem", como

Zhivkov colocara a questão, fora instituída. Desde que tivessem televisão e telemóveis, as pessoas pouco se importavam com quem puxava os cordelinhos.

Era estranho pensar que aquilo que estava prestes a acontecer nascera da fraqueza. Hale sempre dissera que só a condenação e a morte podiam advir da devastidão e

da ganância, e tinha razão. O próprio Vedat nunca ficara perturbado com demasiados sentimentos sexuais, e, quanto a ser ganancioso, bem, ele estava apenas a receber

o que merecia, não estava? Passara anos e anos naqueles estúpidos empregos de segurança, levado apenas para ajudar Hikmet e os "amigos", a ver o filho ir para a

universidade por cortesia

276

o tio, sabendo sempre o que se passava, porquê e quem eram os intervenientes. Hikmet devia estar agora a amaldiçoar-se por ter partilhado tudo de tão boa vontade



com o irmão pobre e aborrecido.

Houve momentos em que teve medo. Quando Hikmet simplesmente desapareceu depois de ter descoberto a cabeça de Kaycee, Vedat tivera medo. Determinado a vingar-se como

estava, havia sempre a possibilidade de Hikmet matar Zhivkov. Além disso, não podia ter a certeza de que a polícia não encontrasse o velho túnel depasa e não cortasse,

assim, o seu próprio caminho de fuga. Mas quando isso aconteceu, ele já tinha desaparecido, através das casas destruídas na extremidade da propriedade, o Harém de

rapazes de Mahmud Pasa. Vedat teria esboçado um sorriso, se esta fosse a única lembrança que aqueles velhos edifícios lhe traziam, mas havia outra coisa. Também

Kaycee estivera, de certa forma, naquelas casas...

Só por isso Vedat Sivas sabia que haveria certamente de arder no Inferno. Mas ainda não. A morte estava ainda, esperava ele, muito longe, ainda tinha tempo de gozar

a liberalidade dos ricos e poderosos antes de as chamas separarem a carne dos ossos da sua alma, como uma virgem a tirar a camisa de noite. Forçando um sorriso,

olhou em redor da sala privada que o maítre do Malta Kiosk lhes preparara. Arranjar tudo isto não ficara barato a Zhivkov - não tanto pela comida como pelo silêncio

do maítre e de algumas outras pessoas importantes, os homens e as mulheres que a polícia interrogara sem ter ficado a saber nada. Não que eles soubessem alguma coisa

para além do facto de que Vedat nunca desaparecera realmente. Esta noite estariam aqui a ser oferecidos biliões, mas eles nunca saberiam isso, só muito poucos viriam

a saber.


Depois de ter inspeccionado os talheres e os copos que adornavam a longa mesa de mogno preparada para o jantar, Vedat voltou a sair para o exterior. Embora não fosse

ainda final de tarde, percebia-se uma vaga sensação de que a temperatura podia estar quase a descer um pouco. Isso seria um alívio. Andar por aí sob disfarce deixava

uma pessoa exausta, especialmente com aquele chapéu enorme e sufocante. A única consolação era saber que estava mais confortável do que o irmão. Todos tinham de

estar mais confortáveis do que Hikmet. Vedat baixou o olhar para o solo crivado de passagens e túneis do Palácio Yildiz, que estava a pisar, e sorriu.

277

- Pensei que íamos passar o serão juntos - disse Zelfa, ao ver o marido vestir uma camisa azul, lavada. Ele acabara há pouco de tomar duche, e, como era seu costume,



preocupara-se com a forma como estava penteado e inspeccionou as roupas antes de se vestir.

- Sim, desculpa - respondeu ele -, mas tenho de sair. Zelfa franziu o sobrolho.

- Para onde?

- Como te disse, em trabalho - respondeu ele calmamente.

- Mas só voltas ao trabalho na...

- Estou a ajudar Çetin numa coisa, Zelfa. - Tirou as calças da barra da cama e vestiu-as. Enquanto o fazia evitou propositadamente os olhos da mulher.

- De que se trata? - perguntou ela. - Isso em que estás a ajudar Çetin Ikmen?

Mehmet puxou o fecho das calças e em seguida baixou o olhar para Zelfa, que estava deitada em cima da coberta da cama.

- É uma coisa de que não posso falar, Zelfa - disse. - Desculpa.

- Então trata-se de algo perigoso - disse ela com ar petulante.

- Não.

- Nesse caso, alguma loucura, conhecendo Ikmen como conheço.



- Mudando rapidamente de linguagem e começando a falar no seu inglês de origem, ela acrescentou: - Os rapazes na rua a perseguirem os bandidos só pela "pica" que

isso dá.


- O quê?

- Oh, são uns malditos miúdos, vocês todos! - explodiu Zelfa.

- Pistolas e futebol, pavoneando-se por aí.

- Ah, quer dizer que agora sou algum rufião do futebol, não é verdade? - respondeu Mehmet, ao mesmo tempo que lutava com a fúria que sentia a subir dentro dele.

- Primeiro eu andava na rua a perseguir outras mulheres, e agora...

- Pedi-te desculpa por isso! - gritou ela. - Eu disse que estava errada!

- Sim - Mehmet tirou bruscamente as chaves e os cigarros de cima da mesinha-de-cabeceira. - Pediste desculpa. E eu aceitei as

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tuas desculpas. Senti-me muito insultado com o facto de tu simplesmente teres pensado de que eu podia ter um caso enquanto tu estavas a ter o nosso filho, mas perdoei-te.

- Oh, tens de fazer com que isso soe como se me estivesses a fazer um grande favor?

- Chega! - Mehmet estava agora a gritar. - Não continues, Zelfa! Vou sair.

- Mehmet!

Seguindo exactamente o padrão de comportamento que exibira quando saíra do hospital para vir para casa acusar Suleyman de infidelidade, Zelfa, de súbito, voltou

a si e começou a chorar. Desta vez, porém, o marido não se aproximou para a consolar. Mehmet colocou o relógio no pulso e em seguida enfiou vários artigos nos bolsos

do casaco.

- Mehmet, lamen...

- Sim, sei que lamentas, Zelfa - disse ele, num tom que era mais controlado do que afectuoso.

- Bem, e lamento, a sério! - Zelfa soluçava. - Só que...

- Não sei quando vou voltar - disse Mehmet, encaminhando-se para a porta do quarto e evitando ainda os olhos dela. - Por isso não fiques a pé à minha espera.

- Mehmet!

- Adeus.

Suleyman abriu a porta, saiu e fechou-a com força atrás de si.

Os gritos de Zelfa tornaram-se mais amargos, acordando o bebé recém-nascido que estivera a dormir no pequeno quarto de crianças ao lado.

Ela não era suficientemente rica para grandes gestos. As estrelas de cinema, Arabesks amuadas e as odaliscas mimadas podiam deitar fora as jóias que os amantes infiéis

lhes tinham dado, podiam atirá-las para a rua como dejectos de um antigo vaso de noite. Uma princesa qualquer, ou lá o que ela era, tinha até esmagado um grande

diamante que o marido lhe tinha oferecido até ficar em pó, que depois lhe atirara aos olhos, juntamente com as suas unhas afiadas - pelo menos era o que se dizia.

De qualquer maneira, longe de ser infiel, o amante dela própria

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fora demasiado atento, estivera demasiado interessado em conhecê-la, para ver a mulher debaixo da pele - literalmente.

Ay se afastou as jóias da janela aberta do seu quarto e voltou a colocá-las nas caixas. Lá porque não queria ter nada a ver com Orhan Tepe, isso não queria dizer

que tinha de ficar mais pobre. As jóias eram bonitas, valiosas, ela gostava de as usar. Por que não deveria ficar com elas? Afinal, se se visse apertada de dinheiro,

podia sempre vendê-las.

O telemóvel, que tinha no bolso, tocou e vibrou contra a sua coxa. Dolorosamente, pois as costas estavam longe de estar saradas e encontravam-se ainda em carne viva

nalguns pontos, baixou a mão para o tirar do bolso das calças.

- Está?

- Olá, Ayse.

- Não quero falar contigo, Orhan - respondeu ela bruscamente.

- Porque contaste os teus segredos de cama a Ikmen? Posso compreender isso.

- Não!

- Mas eu perdoo-te e, por isso, não tens de te preocupar, sabes disse ele.



- Deixa-me em paz, - Ouvia o tremor na sua própria voz, sentia como se ela vibrasse e lhe descesse pelos braços até às mãos.

- Oh, Ayse.

Por que estava tão assustada? Não era como se ele estivesse no quarto com ela, por isso não tinha nada a recear. Havia apenas a voz dele na outra extremidade da

linha, uma voz que era tão fresca e normal, embora ela soubesse o quanto ele era forte, suficientemente forte para agredir e rasgar...

- Sai da minha vida! - gritou ela, carregando no botão offe desligando em seguida o telemóvel. A medida que o visor se apagava, Ayse atirou-o grosseiramente para

cima da cama e desviou o olhar.

Mas por mais que tentasse, não podia impedir os olhos de serem atraídos novamente para ele. Orhan dissera que deixava a mulher por ela. Talvez ele ainda tivesse

intenção de fazer o que prometera e torná-la numa mulher casada como devia ser.

Estúpida, pensou Ay se, olhando pela janela para uma das suas vizinhas formalistas de lenço na cabeça que estendia a roupa na varanda. Nunca serás gorda e satisfeita

como ela. Orhan haveria de querer que

280

fosses sempre elegante e provocadora, sempre pronta para o sexo. Para a sua marca de sexo especial...



De mansinho, não fosse Ali, que ainda não sabia nada das suas recentes experiências, ouvi-la, Ayse começou a chorar. Agora estava novamente sozinha e isso doía muito

mais do que as suas feridas físicas. Orhan, apesar de toda a sua bestialidade, representava o que podia ter sido a última hipótese de casamento. Estava tão farta

de ser a solteirona da família. Os pais eram camponeses analfabetos que acreditavam que o casamento era a coisa mais importante e sagrada na vida de uma mulher.

Ela sabia que eles suspeitavam de que ela já perdera a virgindade e que pensavam que era isso que fazia com que ela permanecesse solteira. Uma vez que receava que

eles se sentissem ultrajados, ela não podia explicar-lhes que só deixara o seu primeiro amante tirar-lhe a virgindade porque ele prometera casar com ela, se ela

o fizesse. Ela dera-lhe o que ele queria da mesma forma que cedera a Orhan. Orhan quisera-a para afirmar a sua superioridade em relação a Suleyman, pelo menos em

parte. Mas, ao contrário do seu primeiro amante, Orhan não a deitara fora depois de ter atingido o seu objectivo. Telefonou. Amava. Mas agredira-a quase a ponto

de ficar inconsciente. Ela não poderia tolerar isso, nunca mais!

A chorar ainda mais agora, Ayse abriu as caixinhas que continham as jóias que ele lhe dera. Ia fazer trinta anos muito em breve. Sozinha e com trinta anos! Era horrível.

Mulheres melhores do que ela estavam sempre a levar sovas dos maridos; a mulher camponesa turca sofria muitas vezes em troca de um lar seguro. E Ayse, apesar da

sua moral condenável e de todas as suas pretensões de sofisticação, não passava de uma rapariga oriunda de uma família camponesa. Agarrou o telemóvel e ligou-o novamente.

Sabia o número dele de cor e marcou-o assim que o instrumento ficou activo. Mas ele não respondeu, por isso ela deixou uma mensagem.

Ela não queria sobrecarregá-lo com as suas preocupações. Tinham-lhe dito muitas vezes que o caso não estava nada mais nada menos do que encerrado. A filha, uma prostituta,

morrera de morte natural enquanto dava prazer a vários homens. O pasteleiro não lhe chegara, o porco imundo!

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Ao ver Ikmen sair do seu apartamento, um pequeno abraço a Hulya à saída, ela sabia que ele não iria ficar zangado se ela se limitasse a mencionar simplesmente o



assunto...

- Inspector? Ikmen virou-se.

- Senhora Ipek.

Húrrem dirigiu-se a ele, a cabeça ligeiramente baixa.

- Inspector, sei que é um incómodo, mas... mas Hatice...

- Eu sei. - O rosto magro dele descontraiu-se lentamente para produzir um sorriso triste. - A morte dela nunca me sai dos pensamentos e, tal como lhe prometi, senhora

Ipek, vou descobrir quem desonrou a sua filha. - Baixou os olhos para o chão coberto de lixo e suspirou. - Mas com tão pouca ajuda dos meus superiores, vai levar

tempo.


- Eu sei! Eu sei! - Húrrem torcia nervosamente as mãos à frente do peito.

Impulsivamente, Ikmen estendeu a mão e tocou-lhe levemente o cotovelo.

- Olhe - disse -, a senhora trabalha neste serviço, sabe que não posso dizer-lhe nada enquanto não tiver a certeza sobre as informações que reuni.

- Eu sei. - Moveu o braço de forma a deixar de estar em contacto com a mão dele. Uma senhora viúva decente.

- Mas asseguro-lhe que não tenho estado de braços cruzados.

- Oh, inspector, eu nunca...

- Dei-lhe a minha palavra de que levarei os carrascos de Hatice perante a justiça e é o que farei.

E foi-se embora.

Novamente sozinha no vestíbulo quente e escuro, Húrrem Ipek lutava contra as imagens que não paravam de lhe atormentar a mente. Imagens de Hatice a vir da escola

a correr, o rosto corado da alegria inocente de estar mais uma vez em casa com a mãe e a irmã queridas. Onde estava agora essa menina?

CAPÍTULO VINTE E DOIS

Era um final de tarde ideal para se comer ao fresco. Quente e calmo, o horrível calor do dia dera lugar ao género de final de tarde que era perfeito para uma refeição

com a pessoa amada. Ele estaria vestido com o mais leve fato de Verão, ela embrulhada em delicada musselina branca; deliciar-se-iam com um mele acompanhado de champanhe,

que seria francês, porque só o melhor seria adequado.

Pensamentos idiotas! Suleyman sorriu. As suas divagações estavam a começar a lembrar-lhe tanto o pai que era assustador. Mas este local tinha tendência a encaminhar

os pensamentos de uma pessoa para o desesperadamente romântico. O Malta Kiosk, o Palácio Yildiz, com as suas vistas panorâmicas do distante Bósforo, o elegante restaurante,

a ecoar de grandiosidade otomana... Suleyman olhou em redor, para as numerosas pessoas que jantavam na varanda do restaurante e perguntou-se como é que eles reagiriam

se soubessem que era, de certa forma, em casa dele que estavam a jantar. Perguntou-se também como Vedat Sivas, aquela figura sombria que se encontrava logo à entrada

do edifício, podia estar tão calmo num local tão público. Ele andava, afinal, escondido da polícia, pelo menos. Mas Suleyman tinha outras actividades e outras pessoas

na cabeça. Pessoas como Orhan Tepe, que, observado por Mehmet por detrás de uns óculos de sol e de um jornal aberto, fora introduzido por Vedat nas profundezas do

edifício havia algum tempo, juntamente com um homem muito elegante, provavelmente estrangeiro, e Ali Múren. Ikmen e Iskender encontravam-se por perto.

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Ikmen ficara surpreendido quando Suleyman usara o telemóvel para o informar da presença de Ali Múren. Ali Múren não era nada, um reles marginal responsável por uma

família mafiosa de segunda categoria - um bandido. Mas, mesmo assim, era "bem relacionado". Por intermédio dos filhos, ele podia estar ligado ao caso Hatice Ipek,

que, por sua vez, tinha uma ténue ligação com Vedat Sivas, através do irmão, Hikmet. Ikmen acreditava agora que Hikmet fora um dos clientes de classe alta do Harém.

E assim, se Ali Múren estava aqui com Vedat e um grupo de homens obviamente ricos, isso poderia significar que este encontro tinha alguma coisa a ver com o Harém.

Mas era tudo bastante bizantino.

Suleyman bebericou o seu café muito caro e acendeu um cigarro. Uma mulher jovem de cabelo preto e liso cortado de forma a parecer uma deusa antiga egípcia sorriu-lhe

da mesa em frente. O polícia retribuiu a saudação, baixando em seguida os olhos atrás dos óculos de sol. Zhivkov ainda não aparecera. Vários homens tinham chegado

depois de Tepe e dos seus novos amigos, mas Suleyman não reconhecera nenhum deles. Um tinha um aspecto obviamente estrangeiro. Falara assim que entrara no quiosque,

e Suleyman captara o inglês com sotaque americano. Ele e o estrangeiro que entrara com Tepe tinham ambos parecido tensos e pouco à-vontade. Nenhum deles aceitara

a mão estendida de Vedat Sivas quando este os cumprimentara. Ao contrário dos turcos, partindo do princípio que os homens de cabelo preto e que falavam turco que

ele vira eram, de facto, turcos. Os europeus de Leste, tal como os georgianos e os azeris, adaptavam-se rapidamente e depressa aprendiam a falar turco.

Suleyman deixou cair a cinza para o cinzeiro, recostando-se depois na sua cadeira. Vinham dois homens pelo caminho em direcção à varanda. O que vinha à frente, alto

e elegante, tinha a cabeça virada para falar com o homem que vinha atrás, que era jovem e pálido, com olhos papudos de mongol. Parecia nervoso. Turcos, provavelmente.

Mas não se dirigiam necessariamente ao encontro, fosse ele qual fosse, que Vedat Sivas estava a realizar no quiosque. De qualquer forma, Suleyman estava de olho

neles. Quando o homem mais alto e mais velho virou costas ao amigo e olhou para cima, para o quiosque, o seu rosto ficou claramente visível. Uma vez que tinha os

olhos escondidos atrás dos óculos, Suleyman podia dar-se ao luxo de olhar fixamente. Não estava sozinho, havia

285

outras pessoas também a olhar, à medida que o conhecido oficial do exército e o seu ajudante passavam por Suleyman e entravam no quiosque. No entanto, só Suleyman



foi suficientemente curioso para os seguir com o olhar depois de terem passado. Viu o general Pamuk dar o casaco a Vedat Sivas e depois desaparecer na mesma direcção

que tinham tomado os estrangeiros, Ali Múren e Orhan Tepe.

Pouco depois, Vedat desaparecia pelo mesmo corredor por onde tinham seguido todos os seus convidados, e um desconhecido fechou atrás de si a porta que dava acesso

a esta parte do quiosque.

- Nalguns países os generais são quase invisíveis ao público disse Ikmen a um Iskender ainda incrédulo. - Mas aqui, porque temos esta longa tradição militar, eles

são mimados, famosos e venerados.

- O que só torna ainda mais incrível o facto de o general Pamuk estar aparentemente ligado a homens procurados, bandidos e quem sabe a que mais - respondeu Iskender.

- Sim - Ikmen puxou algumas folhas de um arbusto próximo e deixou-as cair aos pés. - E à vista de todos.

- Exactamente. O que está ele a fazer? Ikmen encolheu os ombros.

- Estão a acontecer coisas, têm vindo a acontecer desde há algum tempo coisas que não compreendemos - disse. - Coisas bem acima das nossas cabeças - levantou o olhar

para a canópia de folhas, agora a escurecer, e murmurou: -Tudo ocorreu em plena luz do dia. O rapto de Kaycee Sivas, a entrega da sua cabeça, o encontro de Tepe

com Vedat. Seja qual for a mão que estiver a conduzir os acontecimentos, pertence a alguém muito confiante e seguro.

- Mas não há sinal de Zhivkov - disse Iskender.

- Não. A não ser que já esteja no quiosque.

- Ou a não ser que não tenha nada a ver com isto, afinal.

- Sabes - disse Ikmen após uma pausa -, a menina Yúmniye Heper pensa que este Harém em que se envolveu a irmã podia ter estado situado num dos palácios.

Iskender deu um irritante estalido com a língua.

- Isso é outro assunto - disse. - Isto tem de ser sobre Hikmet.

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- Sobre inimigos, os inimigos deles, as famílias mafiosas - disse Ikmen -, pessoas envolvidas em homicídio e extorsão, prostituição. Algo que estava escondido e



que agora não está, tal como Rat disse. E continuou para contar a Iskender o que Sofia Vanezis lhe confidenciara sobre as suas experiências antigas.

- Assim - disse o homem mais novo, quando Ikmen terminou -, isto aqui esta noite, isto poderá ser o Harém?

- É possível - disse Ikmen pensativamente. - É possível. Olhou em redor, para as árvores e arbustos, para a relva e alguma

flor ocasional, e para o caminho.

- Metin, penso que devíamos voltar ao local onde viste Zhivkov.

- Mas eu já lá estive - disse Iskender num suspiro cansado. Tu conheces o caminho. Não há lá nada.

- Bem, mesmo assim, faz-me a vontade - Ikmen acendeu um cigarro e partiu em direcção ao caminho.

Assim que viu fechar-se aquela porta interior, Suleyman pagou o café e em seguida caminhou normalmente em volta de todo o edifício. Mas para onde quer que o homem

fora, não se percebia do exterior. Apesar do calor, nenhuma das janelas estava aberta e não havia qualquer ruído para além do que vinha da varanda. E assim, seguindo

as instruções de Ikmen para permanecer no local, regressou à sua mesa anterior, tencionando pedir uma refeição ligeira.

- Estamos a fechar - disse o empregado de mesa. Suleyman olhou para o seu relógio.

- Mas são só oito e quarenta e cinco - disse. - Pensava que estavam abertos até às dez.

- Estamos a fechar. - E, com isso, o empregado de mesa afastou-se para levantar uma mesa que acabara de ficar vaga.

Suleyman recostou-se na cadeira e suspirou. E agora? Não podia ficar sentado onde estava. Era óbvio que alguma coisa fora do normal estava a acontecer e que o pessoal

sabia. Não levariam muito tempo a pedir-lhe que saísse. Olhou para o caminho e viu Ikmen e Iskender surgirem da vegetação rasteira. Deveria ir juntar-se a eles?

A rapariga "egípcia" da mesa em frente estava a terminar um grande orato de baklava. Sorriu-lhe novamente, enquanto colocava na boca

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a última colherada. Desta vez Suleyman retribuiu-lhe adequadamente o sorriso e acendeu um cigarro.



Não havia nada.

- Eu bem lhe disse - afirmou Iskender, observando Ikmen a percorrer o caminho de cima abaixo, olhando atentamente para o chão.

- Mostra-me outra vez o local exacto onde o viste.

- Ali - Iskender apontou para uma leve curva no caminho murado, em frente a uma árvore muito grande.

- Hmm - Ikmen franziu a testa. - Volta para trás em direcção ao quiosque, está bem, Metin?

Iskender olhou por cima do ombro e logo vislumbrou Suleyman.

- Pensei que era suposto não sermos vistos - disse.

- Vedat e os amigos estão lá dentro agora - respondeu Ikmen -, e, de qualquer forma, algumas das pessoas que estavam a jantar parecem estar a ir-se embora. Vai até

ali, está bem?

Iskender subiu alguns metros do caminho e virou-se. Ikmen não se via em lado nenhum. Um casal jovem e uma criança, descendo o caminho de regresso do quiosque, passaram

por Iskender, a criança a saltar alegremente.

Ikmen voltou a aparecer no caminho. Franzindo o sobrolho, Iskender foi juntar-se a ele.

- Como é que fez isso? - perguntou. - Foi exactamente assim que aconteceu com Zhivkov!

Ikmen sorriu.

- Eu só saí de detrás daquela árvore - disse, apontando para um grande teixo à sua esquerda. - Pus o pé na parede e depois saltei para o caminho.

- Sim, mas...

- Não há mistério nenhum - continuou Ikmen. - Quando viste Zhivkov, tal como há um momento atrás, os teus olhos foram distraídos por outras figuras.

- Mas não foram. Eu estava a fixar o caminho e ele materializou-se, simplesmente.

- Atrás de outras pessoas - disse Ikmen. - É muito raro olharmos só para uma coisa num cenário, especialmente se não estivermos

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a tentar concentrar-nos nela, o que era o teu caso. Tu não esperavas ver Zhivkov, o aparecimento dele foi como um choque. Penso que os teus olhos estavam a fixar

outro local qualquer que não aquela árvore, quando Zhivkov apareceu. Parecia que ele se tinha materializado porque não se espera ver pessoas saírem da vegetação

rasteira, e também devido a factores especiais para ti.

- O que quer dizer com isso?

- Quero dizer que tens uma história com ele. Zhivkov é um bandido de proporções míticas. Os seus crimes são violentos e sangrentos e escapou-nos muitas vezes, assim

como aos seus rivais, ao longo de muitos anos. Tu viste o trabalho dele em primeira mão, e não estou a dizer isto para te denegrir, Metin, mas penso que ele te assusta.

Pessoalmente, penso que é uma reacção normalíssima.

Iskender acenou lentamente com a cabeça.

- Então foi uma ilusão, ou coisa parecida, como eu pensei de início. Podia ter poupado as minhas energias mais cedo, em vez de andar a passar o local a pente fino

à procura de túneis, como um idiota.

- Ainda bem que o fizeste - disse Ikmen. - Se não o tivesses feito, não terias ouvido Orhan Tepe a combinar vir aqui e não saberíamos que um homem que eu quero interrogar

sobre a morte da cunhada está neste preciso momento naquele quiosque, na companhia, entre outros, de um general turco muito importante e do já mencionado Tepe.

- Nesse caso, não sou um completo idiota? Ikmen sorriu.

- Não mais do que qualquer um de nós.

Acendeu um cigarro, e os dois homens ficaram em silêncio por um momento. Lá em cima no quiosque, Suleyman estava agora quase completamente sozinho.

- E agora? - perguntou I.

- Penso que todos precisamos de regressar juntos - disse Ikmen, procurando o telemóvel.

Oficialmente, os portões do parque encerravam às dez. Mas com o Malta Kiosk a fechar cedo, era possível que o parque o imitasse. Se assim fosse, os homens responsáveis

pela segurança estariam em breve

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a percorrer os caminhos principais e secundários, à procura daqueles que se demoravam: os românticos solitários, os casais ávidos de sexo, o mirone que ocasionalmente

se babava. Ikmen estava confiante de que não seriam descobertos se mantivessem a cabeça baixa. Ele queria ficar para ver a separação final do grupo no interior do

quiosque. Que benefício daí recolheriam, ele não sabia, mas se tal significasse que podiam seguir Vedat Sivas e descobrir onde ele se escondia, isso teria de ser

alguma coisa. Ardiç certamente que não podia dar-se ao luxo de ignorar uma informação tão importante. A não ser, é claro, que também o comissário estivesse envolvido

no que quer que fosse que estava a acontecer dentro do quiosque.

- Aquele é o último - sussurrou Suleyman, à medida que acenava com a cabeça em direcção à figura do maítre do restaurante.

O homem encontrava-se suficientemente bem iluminado para que os polícias vissem que devia ter quarenta e tal anos. Fechou a porta principal atrás de si e desapareceu.

Não fechou a porta à chave nem verificou se estava bem fechada.

- Uma vez que ele não fechou aquela porta à chave, nós podíamos entrar - disse Ikmen.

- E fazer o quê?

- Descobrir para onde os homens foram e o que estão a fazer.

- Mas não fazemos ideia daquilo em que nos podemos estar a meter - respondeu Iskender. - Tenho a certeza de que Ardiç se livrou de nós dois e manteve Orhan Tepe

por alguma razão. Deve ter sido isso.

- Como eu já disse antes, creio que já é suficiente ter um dos meus agentes ligado a um homem procurado por estar relacionado com um homicídio - disse Ikmen. - E

depois há a hipótese desesperadora do Harém.

- Mas mesmo que descobríssemos que alguma coisa ilegal estava a acontecer, que poderíamos fazer? - perguntou Suleyman. - Está um general lá dentro.

. - Que está tão sujeito à lei como qualquer um de nós - disse Ikmen. - Também quero saber o que está Ali Múren a fazer ali. Quando arrastei Ekrem para a esquadra,

ele deu-me a impressão de que os Múren não estão a agir sozinhos, hoje em dia. Há ali estrangeiros que podem pertencer à Máfia. - Ikmen fixou a fachada do quiosque,

que estava a ficar envolta na escuridão.

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- Não estás a tentar dizer-me que um homem como o general Pamuk, que se cobriu de tanta honra, sujaria as mãos ao envolver-se com a Máfia, pois não? - protestou

Iskender.

- Detesto destruir as tuas ilusões - disse Ikmen causticamente -, mas, ao contrário da crença popular, qualquer pessoa pode ceder à corrupção. Sei que somos encorajados

a pensar que todos os nossos soldados são perfeitos...

- Uma noção que não se estende a nós - contrapôs Suleyman.

- Não. E ao longo dos muitos, muitos anos que tenho desta profissão - disse Ikmen -, tenho sempre tentado procurar o melhor até no indivíduo mais bem posicionado

na vida. Em resultado disso, tenho apanhado muitas decepções, o que quer dizer que agora confio em muito poucos e não tomo ninguém pelo aspecto exterior - sorriu.

- É um cepticismo que sugiro que cultives, Metin.

Iskender olhava, triste, para os pés. Como muitos jovens, sempre venerara o exército. Quando era pequeno, o seu maior desejo era conseguir entrar para a escola militar.

E embora rapazes oriundos de famílias pobres conseguissem, de facto, entrar, os rapazes de Umraniye eram outro assunto. Mesmo que o pai tivesse ficado suficientemente

sóbrio para o levar a candidatar-se a uma vaga, ele não teria tido nada para vestir que não cheirasse a caixote do lixo e a animais mortos. Tivera de lutar arduamente

para entrar para a polícia, tendo de combater sobretudo os pais, cuja atitude para com a lei consistia em infringi-la para sobreviver.

- Não és obrigado a vir, bem sabes - disse Ikmen, irrompendo pelos pensamentos de Iskender. - Sei quanto a carreira é importante para ti. E isto é, bem, não é exactamente

autorizado, nem sequer é necessariamente a coisa mais acertada para se fazer.

- Bem sei que tenho fama de ser um maçador frio e ambicioso - respondeu Iskender num tom amargo.

- Com integridade - lembrou Suleyman. Embora nunca tivesse gostado muito de Iskender, respeitava-o e ficou perturbado com esta súbita descida a uma autoflagelação

verbal. Ele próprio não estava absolutamente seguro de que queria fazer o que Ikmen propusera, mas o que sabia ao certo era que agora não era altura para pensamentos

autodestrutivos. - Trabalhaste muito para chegar onde estás agora, Metin - acrescentou -, e respeito-te por isso.

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Ikmen, que estava rapidamente a perder a paciência com as amabilidades muito turcas que estavam a acontecer, pigarreou.



- Então, algum de vocês vai lá comigo ou não? - perguntou, apontando um cigarro por acender na direcção do quiosque.

Suleyman suspirou. Seria tão fácil levantar-se agora, assim, simplesmente, e ir para casa. Ikmen não o recriminaria por isso. Mas confiava em Ikmen e nos seus palpites.

Raramente se tinham verificado infundados. E se estava a acontecer algo de corrupto, ele queria saber o que era, não que sabê-lo significasse necessariamente que

pudessem fazer alguma coisa para o evitar.

- Bem, eu alinho - disse, antes de poder pensar mais e mudar de ideias.

- E suponho que eu também - disse Iskender, sombrio. - Tenho de correr alguns riscos.

- E vocês querem saber a verdade tanto quanto eu - disse Ikmen com um sorriso. - Estão armados?

- É claro.

- Presumo que não estejas, Çetin, não é verdade? - disse Suleyman, sabendo já qual seria a resposta.

- Não - Ikmen olhou a expressão incrédula do rosto de Iskender e voltou a sorrir. - Não sabias? Nunca estou. Se, a falar, eu não for capaz de sair de uma situação,

não mereço estar nesta profissão. Mas sei que vocês os dois andam armados, e isso é lá com vocês. Tudo o que peço é que, se acontecer alguma coisa, não reajam sem

pensar. Não sabemos no que podemos estar a meter-nos. O nosso objectivo é apenas observar sem intervir, se possível. - Olhou-os com ar severo, um de cada vez. -

Combinado?

Com um aceno de cabeça, Iskender e Suleyman concordaram.

- Muito bem, nesse caso vamos lá descobrir de que se trata aqui - disse Ikmen. - Vamos separar-nos, inspeccionar a área, e depois, se estiver livre, encontramo-nos

junto à entrada principal.

- Pensas que eles podem ter pessoas cá fora? - perguntou Suleyman.

- Não faço ideia - respondeu Ikmen -, mas se o general Pamuk tivesse alguma coisa a ver com a organização deste encontro, ou o que quer que isto seja, penso que

é muito provável.

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Suleyman concordou em ficar com as traseiras do edifício, enquanto que os outros dois se aproximavam dele de lados opostos. Havia algum luar, apenas o suficiente

para conferir à fachada do edifício um ténue brilho prateado. Arrepiante. Esta casa, com os seus túneis desconhecidos e a sua história ainda mais obscura... Suleyman,

pelo menos, lembrava-se da história, contada e recontada pelo avô, em tons de triste lamento, sobre a forma como este palácio fora tomado pelos Jovens Turcos, em

1908. Avançando furtivamente através dos bosques, todos os nervos tensos perante os ruídos produzidos pela colecção de animais exóticos do sultão, estes jovens sabiam

exactamente onde o monarca se encontrava devido ao som estranho e desafinado da sua interpretação ao piano. Não que tivessem entrado para o confrontarem. Não, o

louco de Yildiz teve de esperar até que amanhecesse para descobrir o que já deveria saber: o facto de que fora deposto, de que o povo tinha final e irremediavelmente

falado. Agora, numa inversão directa dessa situação, o descendente do velho sultão avançava para voltar a tomar o palácio, embora não tivesse a certeza de quem eram

exactamente os seus adversários, e, sem música para o guiar, também não sabia o local exacto em que eles se encontravam no interior do edifício.

CAPÍTULO VINTE E TRÊS

Manter-se baixo não era difícil para Metin Iskender. Manter-se em silêncio era outra coisa. Em toda esta folhagem, cada passo parecia trazer consigo uma explosão

de ramos a quebrarem-se ou de folhas a resmalharem. Os ouvidos encolhiam-se-lhe a cada som, e o coração batia-lhe fortemente contra as costelas. Podia não haver

ninguém aqui fora, em todo este verde que o rodeava, e, se fosse preciso, ele podia tentar fazer o que Ikmen, aparentemente, fazia sempre, que era livrar-se de sarilhos

por intermédio de conversa. Com sorte, a segurança do parque podia pensar que ele era só um retardatário. Afinal, nem sequer era ainda a hora oficial de o parque

fechar. Ele podia ser qualquer pessoa, um pobre e triste pervertido que estivera o dia nos arbustos a masturbar-se enquanto as raparigas passavam. Pensava que não

tinha aspecto disso, mas...

Se fossem descobertos e o general Pamuk e os seus companheiros não estivessem a fazer nada de incorrecto, o general podia acabar com a carreira de alguém como Iskender.

O general Pamuk podia acabar com ele mesmo que estivesse a fazer algo de incorrecto. E com Ikmen e Suleyman. No entanto, mantinha-se o facto de que Ikmen tivera

razão. Ele, Iskender, precisava de saber. Ardiç acabara de o afastar da investigação do caso Sivas, descartara-se dele como de um saco de lixo. A imagem fez Iskender

sorrir. lixo. Era daí que ele viera, e não ia voltar para lá, por ninguém. As visitas que fazia à família davam-lhe vómitos. O cheiro de tudo aquilo, a putrefacção

e a imundície

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melhor, do pai. Tanto ele próprio como a irmã Meral tinham bons empregos e teriam de boa vontade ajudado os Iskender mais velhos, desde que o pai não gastasse o



dinheiro na bebida. Mas ele havia de gastar. Haldun Iskender era alcoólico. A mãe de Metin podia arranjar todas as desculpas que quisesse para o marido, mas essa

era a verdade.

Iskender via agora o brilho das escadas de mármore que levavam lá acima ao quiosque. Não havia, por enquanto, qualquer sinal de Ikmen nem de Suleyman. E enquanto

ele não tivesse uma ideia do seu paradeiro, não queria subir sozinho. Não via, não ouvia nem tinha qualquer percepção da presença de alguém nas proximidades. Começou

a pôr em questão os motivos por que se encontravam no parque. Alguns homens bastante diferentes uns dos outros estavam reunidos, talvez até a tomarem uma refeição

no Malta Kiosk. Não havia nada de errado nisso - excepto, é claro, a presença de Vedat Sivas e a desagradável sensação que tinha no fundo do estômago, a mesma que

nunca mais o abandonara desde que Zhivkov lhe "aparecera". Estúpido! A solução da árvore fora óbvia, ele até se sentara naquele muro a considerar a possibilidade

de uma simples ilusão de óptica qualquer. Então por que é que ele não chegara a essa conclusão sozinho? Estava absolutamente convencido de que vira Zhivkov sair

do ar.

Talvez fosse a sua origem camponesa. Os camponeses estavam sempre demasiado dispostos a acreditar em milagres. A mãe todos os anos levava o pai àquela igreja arménia,



aquela em que era suposto ocorrer uma cura milagrosa num festival ou noutro que organizavam. Nunca aconteceu nada, mas a mãe continuava a ir, uma mulher muçulmana

de lenço na cabeça, arrastando atrás de si um alcoólico encharcado em raki. Mistério e magia. Da mesma forma que Zhivkov, aos seus olhos o mal em pessoa, escapara

consistentemente à morte. Um género de demónio, só podia ser! Novamente a forma camponesa de pensar. Suleyman pensava racionalmente em túneis construídos pelos seus

fabulosos antepassados aristocratas; esconjurava demónios e djinn e coisas que estendem as mãos e nos agarram de noite.

O coração dele falhou uma batida, sentiu-o distintamente. Sem sequer um segundo de aviso. Algo grande e escuro enrolou-se-lhe à volta da garganta e levantou-o do

chão.


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- Sou polícia! - Suleyman levantou a sua identificação até às ranhuras para os olhos rasgadas nos capacetes de balaclava.

Aquele que tinha o pé sobre o peito de Suleyman olhou para o documento por breves instantes, antes de encolher os ombros para o colega de uma forma que poderia ser

muito significativa. Quem eram eles, estes homens enormes e vestidos de negro que exibiam as suas armas?

- Quem são vocês? - Assim que ele fizera a pergunta, soube que não valia a pena. A única resposta deles foi virá-lo sobre a barriga e algemá-lo. A seguir veio um

grosseiro pedaço de tecido que lhe vendou os olhos. Era óbvio que a identificação não os impressionara. Será que reconheceram, ao menos, o que o documento significava?

Será que iam matá-lo?

Sentiu que um deles se agachou a seu lado, ouviu como que um fecho a abrir-se junto ao seu ouvido.

- Dorme - disse uma voz, exactamente antes de algo doloroso lhe ter picado o bicípite. Dorme, uma palavra, curta, staccato, em inglês. Com uma rapidez nauseabunda,

a mente de Suleyman mergulhou num profundo buraco negro.

Ele tinha razão, a porta não estava fechada à chave. Num esforço para conter o seu nervosismo, Ikmen levou um punho à boca e mordeu com força os nós dos dedos. Olhou

em redor por breves instantes. Não havia nada para ver, para além das árvores e dos arbustos que se estendiam pela encosta abaixo, até à massa escura do Bósforo,

no sopé da colina. Nada de Suleyman nem de Iskender, por enquanto. Eles viriam, mas, entretanto, ele sentia-se exposto. Não havia provas para sustentar a ideia de

que se encontrava alguém por ali, excepto eles próprios, mas, não fosse a segurança passar e olhar para cima, para o edifício, ele tinha de entrar.

A porta cedeu facilmente e sem ranger. Ikmen entrou para o vestíbulo escuro, os olhos rapidamente à procura da porta que Suleyman descrevera, aquela que todos os

homens tinham transposto. Lá estava ela. Pôs a cabeça de fora da porta principal e procurou novamente os colegas. Estavam ambos a demorar-se. Tal não era próprio

de Suleyman, pelo menos. Ikmen franziu o sobrolho. Se acontecesse alguma coisa, teria de ir sozinho

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a porta interior. Não parecia haver luz do outro lado, sugerindo que o local para onde quer que os homens tinham ido ficava a alguma distância dali. Ele esperava

que também ela não estivesse fechada à chave. Se não estivesse, ele provavelmente seria capaz de a abrir. Mas seria bom saber ao certo. Olhou novamente para fora.

Nada. Isto estava a ficar preocupante, ele era mais velho e estava muito menos em forma do que os outros.

Devolveu o olhar à porta interior. Não faria mal nenhum ir verificar o estado dela, enquanto esperava. E assim fez, incapaz de acreditar na sua sorte quando o puxador

girou sem fazer ruído sob a pressão da sua mão e a porta se abriu. Independentemente do resto que podiam ter feito, os antigos sultões asseguravam sempre que os

seus palácios funcionavam. Os melhores pedreiros, os melhores carpinteiros, canalizadores que percebiam realmente de lençóis de água. Era pena que os criminosos

que tinham construído todas aquelas abominações que se tinham abatido sobre si próprias durante o terramoto não tivessem olhado para a história para se guiarem.

Onde estavam Suleyman e Iskender? Olhou por cima do ombro para a porta principal, agora aberta, e sentiu que o coração lhe começava a bater com força. Nada. Isto

não era nada de bom. Devia ter acontecido alguma coisa. Ou isso, ou tinham-se simplesmente ido embora. Nenhum deles ficara muito contente com isto. Oh, mas isso

não tinha pés nem cabeça! Iskender podia possivelmente ter-se ido embora, mas Ikmen não podia acreditar que Suleyman o abandonasse.

Se não o tinham abandonado e tivessem caído em qualquer tipo de desgraça, não devia ele ir tentar descobrir o que se passava? Por onde devia começar a procurar?

Do outro lado da porta que se encontrava à sua frente, havia um corredor comprido ladeado de outras portas e culminando num portal muito grande, debaixo do qual

ele via uma tira de luz. Se esforçasse realmente o ouvido, conseguia ouvir vozes.

Escutar do lado de fora da porta ia ser demasiado perigoso. Não, teria de tentar apanhar o que pudesse a partir do que quer que fosse que se encontrava atrás de

uma das portas contíguas. Mas que era feito de Suleyman e Iskender?

Não havia qualquer som nem movimento vindo do exterior e, se ficasse onde se encontrava, estava totalmente exposto. Teria de presumir que eles não viriam. Se ficasse

aqui a perguntar-se porquê, nunca

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conseguiria nada. Avançou alguns passos para a carpete e parou. O chão por baixo era de mármore, e, por isso, não podia ranger. Por breves instantes, recordou a

si próprio quem se encontrava atrás daquela porta ao fundo e deslocou-se rapidamente em direcção à porta ao lado.

A transpirar agora abundantemente, verificou o espaço em volta da porta, à procura de fendas de luz. Não havia nenhuma. Uma gargalhada rouca vinda da sala iluminada,

ao lado, fez com que ele reagisse inadvertidamente e a próxima coisa que soube foi que se encontrava numa sala completamente às escuras. Mas não estava sozinho.

- Eles não o vão comprar, sabe? Matar-vos-ão a todos no fim. A voz era americana, as palavras inglesas, tingidas de um sotaque turco.

Embora as suas mãos não quisessem de forma alguma mover-se, Ikmen tirou do bolso do casaco a lanterna em forma de caneta e acendeu-a. De início pensara que reconhecia

a voz, mas não podia fazê-la corresponder à figura amarrada a um dos velhos e enormes radiadores imperiais. Salpicado de sangue, metade do cabelo arrancado pela

raiz, parecia mais uma incompreensível obra de arte moderna do que uma pessoa. Apenas os olhos extraordinários e mesméricos confirmavam que Ikmen tinha, de facto,

reconhecido a voz.

- Senhor Sivas?

- E qual é o seu método particular de tortura? - disse Hikmet Sivas, cáustico.

- Senhor Sivas, sou eu - disse Ikmen, em turco. - O inspector Ikmen. - Aproximou-se da figura deitada de bruços e agachou-se ao lado. - O que lhe aconteceu?

Começou a desatar as cordas com os dedos. Os grandes olhos negros olharam para cima, para os dele.

- Isto é algum truque?

- Não! Senhor Sivas, o que está aqui a fazer?

- Vim matar o homem que assassinou a minha mulher. Mas agora - esboçou um sorriso de esguelha - ele vai matar-me.

- Há alguns homens reunidos na sala ao lado. Alguns deles são homens muito perversos. Um dos meus agentes está com eles. - Através das pestanas salpicadas de sangue,

Ikmen olhou para os olhos pisados. - Quero saber porquê.

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Hikmet Sivas desatou a rir. Ikmen colocou rapidamente uma mão a tapar uma boca agora desfigurada por dentes partidos.



- Esteja calado! - disse baixinho.

Quando Hikmet Sivas conseguiu finalmente recuperar a compostura, Ikmen tirou a mão e continuou a desatar as cordas.

- Então?

- Eles estão todos aqui por minha causa - disse Sivas -, porque eu sempre quis estar no centro das atenções.

Ikmen franziu o sobrolho, ao mesmo tempo que libertava uma das mãos de Sivas.

- Eu queria ser estrela de cinema.

- O que é.

- Que é uma honra que comprei - corrigiu Sivas. - Vendi a nata das donzelas turcas, já para não falar no meu próprio sentido de quem eu era, a um grupo de cavalheiros

siciliano-americanos muito bem colocados na vida e que, em troca, fizeram de mim uma estrela. Sei que viu um dos vestidos com que vestíamos as raparigas, Muazzez

Heper disse-me. Muazzez e Yúmniye vestiam todas as minhas raparigas, como sabe.

Ikmen interrompeu o que estava a fazer para prestar mais atenção.

- O Harém. Era você que o dirigia?

- Sim, fui eu que o comecei. A ideia foi minha. Um napolitanozeco de meia tigela, o único executivo de Hollywood que me abriu a porta quando lá cheguei, disse-me

que, para as pessoas, a única coisa que os turcos tinham de interessante eram os haréns. Ele tinha lido que as odaliscas faziam qualquer coisa que o seu senhor pedisse

sem dizerem uma palavra. Disse-me que, como turco, eu não lhe servia para nada, que Valentino e toda essa moda do Médio Oriente tinham acabado. No entanto, se eu

tivesse conhecimento de um harém...

- Bem, você não pode ter sabido. Ninguém podia, em 1960 não havia nenhum. - Ikmen abanou a cabeça perante tal ignorância.

- Não, claro que não, razão pela qual eu tive de criar um. Nos primeiros tempos eram genuínas senhoras otomanas. Aristocratas desesperadas, atingidas pela pobreza

- disse Sivas, enquanto Ikmen lhe libertava o outro pulso. - Pensei que teria de o fazer apenas uma vez. Vim à Turquia. Instalei-o. Convidei o napolitano para vir

visitar a nossa organização

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e podia fodê-las num palácio genuíno. - Os olhos dele brilharam perante a lembrança. - Arranjei Muazzez e três outras raparigas, separadamente, como compreende.



Ele fez tudo o que é possível um ser humano fazer a outro, e elas, pobres criaturas desesperadas, nem sequer chiaram. Ele, o italiano, começou mesmo a gostar daquilo.

Gostava do silêncio, da submissão. Era como brincar com bonecas morenas e gordas, dizia ele.

- E esse napolitano recompensou-o.

- Contou aos amigos. O rosto de Sivas tornou-se sombrio. Era tão diferente. Eles já tinham passado por tudo o resto, os amigos dele. Estrelas, crianças, rapazes,

Marilyn. Agora turcas, princesas gordas, silenciosas, sub-humanas. E assim, como retribuição por dar à Cosa Nostra e aos amigos uma experiência genuinamente otomana,

eu tornei-me uma estrela. Nos anos 1960, toda a gente vinha cá - continuou ele amargamente. - Alguns deles em visitas de Estado. Até me pagavam. Ainda me pagam.

- Recebia-os todos aqui?

- Nos quartos que o louco construiu por baixo do palácio. O governo republicano tinha-os obstruído, mas as pessoas que trabalhavam aqui sabiam onde eles ficavam

situados. Todos buscam tesouros sob o pavimento desta cidade, inspector. Os habitantes de Istambul estão sempre à espreita de uma oportunidade fácil. Assim, uma

vez por ano eu vinha a casa, e uma vez por ano Vedat decorava os quartos de forma a ficarem lindíssimos - sorriu desagradavelmente. - Recebíamos apenas os melhores

dos melhores: padrinhos, políticos, estrelas de cinema, líderes mundiais. Ninguém no seu juízo perfeito teria alguma vez pensado que tal coisa podia acontecer num

país atrasado como a Turquia. Os meus clientes estavam entusiasmados. Eu estava entusiasmado. Um rapaz camponês de Haydarpasa que não só era uma estrela de cinema,

como também o criador do clube mais exclusivo do mundo.

- Que você próprio também usou - disse Ikmen, lembrando-se da história que lhe contara Sofia Vanezis.

Hikmet Sivas franziu o sobrolho.

- Não, por que o faria? Eu era jovem e atraente. O que o faz pensar assim?

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- O nome Sofia Vanezis, uma grega - disse Ikmen -, o nome significa...

A estrela ferida interrompeu-o com uma suave gargalhada.

- Se se refere à rapariga idiota que Muazzez me obrigou a conhecer - disse ele -, sei quem é, mas posso assegurar-lhe que nunca tive relações sexuais com ela. Não

podia usá-la nem para o meu cliente nem para mim próprio - Sivas continuou: - Ela era como um interminável relato de inconsequência. Por Muazzez eu ouvi-a, disse-lhe

que não contasse nada a ninguém sobre os nossos encontros, e dei-lhe o dinheiro que ela poderia ter ganho. Eu era rico, nessa altura.

De repente, a porta que dava acesso à sala contígua abriu-se com grande ruído. Seguiram-se risos. Ikmen, a mão mais uma vez sobre a boca de Hikmet Sivas, apagou

a sua lanterna.

- Tenho a certeza de que a sua viagem vai ser confortável disse uma voz funda num turco com muito sotaque.

Uma voz suave, nativa, respondeu:

- Foi um prazer.

- O seu envolvimento será inestimável, general.

- Tal como o dinheiro que faremos. E ambos os homens riram.

- Boa noite.

Só quando estava absolutamente certo de que não se encontrava ninguém lá fora é que Ikmen voltou a acender a lanterna.

- Sabe o que se está aqui a passar? - perguntou a Sivas, segurando a lanterna próxima do rosto dele, outrora bem-parecido.

- Bem, claro que sei - respondeu a estrela com altivez. - Toda a gente que ali está quer as minhas fotografias.

- O quê?


- Mesmo quando era jovem, eu acreditava no valor do seguro disse Sivas, esfregando os pulsos libertos com os dedos ensanguentados. - Fotografei toda a gente que

usou o Harém, in flagrante, está a perceber? Não para fazer chantagem, mas, como eu disse, como um seguro, não fosse algum dos donos de estúdios com quem trabalhei

decidir rescindir o meu contrato antes que eu quisesse que eles o fizessem, ou caso alguém ainda mais importante decidisse rejeitar a minha candidatura à nacionalidade

americana. Guardo-as todas em envelopes fechados... algures - sorriu. - Para além do meu irmão Vedat, ninguém sabia da existência das fotografias, até ao ano passado.

- E o que é que mudou? - perguntou Ikmen.

- Vedat mudou, Inspector - respondeu Sivas. - Ao princípio, pensei que esse tal búlgaro, Zhivkov, estava simplesmente a procurar igualar a minha ideia. Tudo bem,

não podia compreender como é que ele tinha conseguido descobrir, como é que ele tinha sido capaz de forçar Vedat a dar-lhe os vestidos das raparigas e a apresentá-lo

aos nossos clientes, mas Vedat estava aqui, eu estava nos Estados Unidos. Sempre amei o meu irmão. Não quis ver. Mas depois, alguns dos nossos clientes disseram-me

que Zhivkov estava a tentar fazer chantagem com eles - suspirou. - Mesmo nessa altura eu continuei a ignorar a questão. Até que, um dia, após ter sido violentamente

espancado, pelo menos foi o que ele disse, Vedat telefonou-me a dizer que Zhivkov sabia das fotografias e queria-as. Eu mandei-o para o Inferno.

- Então quem mais é que sabia do que se passava? - perguntou Ikmen.

- Ninguém. Ah, os meus amigos italianos e pessoas situadas um pouco mais acima na sociedade, podemos chamar-lhes assim?, sabiam da chantagem e ficaram realmente

furiosas. Mas elas não sabiam das fotografias. Eu não podia dizer-lhes. Elas ter-me-iam morto. Mas, quando Vedat telefonou a dizer que tinham assassinado uma rapariga

que usava um dos nossos vestidos...

- Hatice Ipek.

- Não sei como a rapariga se chamava. De qualquer forma, Vedat não tinha sido sincero comigo. Não tinha havido espancamento nenhum. Vedat queria tanto as fotografias

como Zhivkov. Eu tenho imagens, inspector, de pessoas tão importantes que elas silenciariam até os membros mais proeminentes da Cosa Nostra, algumas delas encontram-se

agora na sala.

- Nesse caso, o que está a afirmar - disse Ikmen lentamente -, é que Zhivkov quer deitar a mão a essas fotografias para ter poder sobre a Máfia.

- Entre outros. As pessoas não gostam de ver imagens de jovens desesperadas a enfiarem-se debaixo dos seus líderes. Têm tendência a não votar nessas pessoas. Não

gostam de ver os seus actores-modelo a masturbarem-se enquanto observam padrinhos do topo da Máfia a foderem pequenas princesas contra as paredes.

- Tem fotografias dessas coisas?

302

- De quase todos os homens importantes ligados à Cosa Nostra durante os últimos quarenta anos. Homens que ou pertencem à organização ou homens que a populaça pôs



onde estão hoje. Você ficaria espantado com o número de rostos que reconheceria, nem todos eles americanos - sorriu. - Se eu tivesse querido, podia ter derrubado

governos com aquilo que registei. Nada mau para um turco estúpido.

Não, era muito inteligente. De facto, para um rapaz pobre de Haydarpasa, cuja única experiência do mundo naquela altura fora através do seu envolvimento com a indústria

cinematográfica egípcia, era notável. Sempre houvera rumores de que certas organizações criminosas controlavam os políticos em determinados países; também se dizia

que controlavam Hollywood, algumas organizações americanas, etc, etc. Aqui estava agora, de repente, pelo menos assim parecia, a prova. Produzida, quase inocentemente,

por um homem que apenas queria proteger as costas.

- E a sua mulher? - perguntou Ikmen. - Disse que saiu de sua casa para vingá-la.

Os olhos de Sivas encheram-se imediatamente de lágrimas.

- Mataram Kaycee para me mostrarem que estavam decididos a fazer negócio com as fotografias - disse, a voz embargada. - Vim a Istambul para tentar pôr as coisas

em ordem, em relação à miúda morta e, é claro, precisava de esclarecer as coisas com Zhivkov em relação às fotografias. Mas ele antecipou-se a mim. Eu não podia

acreditar como o tinha subestimado. Ele levou Kaycee. Sem pensar, envolvi a polícia, e Zhivkov matou-a. Não houve chantagem nenhuma envolvida. Ele sempre tinha tencionado

matar Kaycee. Sentiu que seria uma lição para mim, como: "A seguir és tu, a não ser que faças o que eu digo." Aquele sacana estúpido não sabia quanto eu a amava.

Agora nunca lhe darei as fotografias que ele quer. E, de qualquer maneira, aqueles que realmente detêm o poder, não me refiro àqueles padrinhos que ali estão, agora

já sabem. Fiz algumas chamadas telefónicas antes de Zhivkov me ter apanhado.

- Nesse caso, por que é que os patrões da Máfia estão ali dentro agora com Zhivkov? - perguntou Ikmen.

- Zhivkov disse-lhes que tem realmente as fotografias em seu poder. Está impaciente. Vedat pode descrevê-las; viu-as, afinal - respondeu Sivas. - É claro que, na

realidade, ele vai precisar delas, razão

303


pela qual penso que eles vão voltar mais tarde para tentarem convencer-me outra vez.

__Chhhh!__Ikmen apagou a sua lanterna e susteve a respiração.

Tinha a certeza de que ouvia movimento do lado de fora da porta. À medida que os seus olhos se adaptavam à falta de iluminação na sala, reparou que o radiador a

que estava encostado ficava junto a uma janela, em frente da qual pendia um par de cortinas pesadas e que se estendiam até ao chão. O que fez com que ele puxasse

as cortinas e as enrolasse à volta de si próprio, não sabia; foi apenas um pressentimento, "isso que tu fazes, como a tua mãe", como o pai costumava dizer.

O filho mais novo da bruxa Ayse Ikmen escondeu-se atrás das cortinas exactamente antes de a porta que dava acesso à sala se ter escancarado e de a luz ter avançado.

CAPÍTULO VINTE E QUATRO

A mão de Ali Múren nem sequer conseguira entrar no casaco, quanto mais chegar à pistola, antes de o terem eliminado. O tiro disparado com silenciador atingiu-o no

coração, matando-o instantaneamente.

Havia antes catorze homens sentados em volta da mesa; agora eram treze.

Zhivkov, que estava à cabeceira da mesa ao lado de Vedat Sivas, mostrou intenção de se levantar.

- Senta-te! - A figura vestida de preto falou em inglês. Outros, também vestidos de preto, espalharam-se pela sala.

Orhan Tepe virou-se para o homem que estava sentado a seu lado, um dos guarda-costas de Zhivkov, e disse:

- O que é isto? O que...

- Cala-te! - A coronha de uma arma portátil atingiu-o na parte de trás do pescoço, silenciando-o.

A sala estava agora cheia. Dois homens de preto para cada homem à mesa. Em resposta a um sinal, um de cada par encostou a sua arma junto à cabeça do homem sentado

à sua frente.

Alguns deles choramingaram, um dos americanos benzeu-se. Tepe não parava de pensar que ia morrer e que era tudo culpa sua. Não tinha qualquer razão para estar ali,

para além da sua ganância, para além do facto de que tinha de possuir Ayse. Mesmo agora, à beira da morte, ela não lhe saía da cabeça, a imagem do sangue dela a

gotejar sensualmente pelos dedos dele abaixo. Sentiu-se excitado e isso quase que o fez sorrir.

306

O acto seguinte envolveu certos homens a serem puxados das suas cadeiras; Zhivkov e dois dos guardas; Vedat Sivas; o cunhado de Zhivkov, o Georgiano, Lavrenti; dois



gorilas que tinham pertencido a Múren; e Tepe. A medida que começavam a sair da sala, ocorreu a Tepe que apenas os americanos ficavam para trás. Mas ele sabia que

não valia a pena questionar isso. Qualquer que fosse a razão para isso, ele teria de esperar até que a resposta fosse evidente, em vez de perguntar a um destes homens

sem rosto - quem quer que eles fossem.

Quando Tepe e os outros saíam da sala, a figura trémula e ensanguentada de Hikmet Sivas passou da sala que fora a sua prisão temporária para a sala de onde eles

tinham acabado de vir. Estava a ser escoltado por o que parecia ser uma pessoa vestida de negro bastante solícita. Talvez fossem Forças Especiais, talvez até o FBI,

aqui presente para tentar deitar a mão às fotografias. Seria essa a razão por que isto estava a acontecer? Se ao menos o general Pamuk não tivesse insistido em que

comessem todos antes de Zhivkov dar a Hikmet aquela droga para o fazer falar! Os estrangeiros não teriam dado por nada, não percebiam nada, para além do que Zhivkov

lhes contara, designadamente que ele já tinha em seu poder as fotografias que lhes iam ficar muito caras. Mas o general Pamuk falara sem fim sobre a forma como aquele

conhecimento lhes ia dar a todos tanto poder no futuro. Monopolizara a atenção de Zhivkov durante o serão inteiro. E depois saíra.

Tepe sentiu todo o seu corpo começar a tremer. Subitamente esquecido da arma que tinha apontada à cabeça, virou-se bruscamente para olhar Zhivkov.

- Pamuk armou-nos uma cilada!

- Cala-te! - Agrediram-no ambos por detrás. Quando chegaram às escadas que levavam ao local que Zhivkov e Vedat tão bem conheciam, Tepe estava a vomitar sangue.

Ficaram cinco homens à mesa, seis, incluindo Hikmet Sivas.

O mais velho e certamente o mais gordo do grupo virou a sua pesada cabeça romana para encarar os seus captores e disse:

- Então, vão matar-nos ou quê?

Duas das figuras que tinham estado a conversar baixinho no canto mais distante da sala viraram-se.

307

- Então? - O homem corpulento, cujo nome era Bassano, encolheu os ombros. - Preciso de um padre ou quê?



- Levanta-te!

Bassano foi puxado da sua cadeira com uma força tremenda. Os outros americanos, e Hikmet Sivas, receberam tratamento semelhante.

- Não façam mais perguntas! - disse uma das figuras, à medida que os homens eram obrigados a avançar por acção das armas.

Sivas olhou para a sala onde Ikmen estava ainda escondido atrás da cortina, mas não disse nada. Se estavam, como Bassano e o próprio Sivas sentiam, prestes a morrer,

porquê levar outra alma inocente com eles? Não passavam de lixo em comparação com um homem - Bassano, di Marco, di Marco Júnior, Martin, Kaufman e ele próprio. Ikmen

era outra coisa, Ikmen era o que Hikmet outrora fora. Apenas um tipo. E, fosse como fosse, estas criaturas, assassinos profissionais, acabariam provavelmente por

encontrá-lo.

Os seis homens foram acompanhados até ao exterior - para uma noite cheia de pequenos ruídos animais e do suave sussurro das plantas que arrefeciam - atravessando

a varanda e entrando no caminho. Aí, as portas de trás abertas, encontrava-se uma carrinha preta. A cabina era separada do resto do veículo. Os homens foram empurrados

para a parte de trás, para cima de assentos duros. Enquanto subia, impelido a entrar pela arma ubíqua que tinha apontada às costas, Hikmet lutava para afastar pensamentos

sobre o que estes homens, homens de G, tinham de ser, lhe fariam para poderem chegar àquelas fotografias.

Quando estavam todos sentados, os guardas vestidos de preto fecharam as portas à chave. Depois disso não houve nada - nenhum som, nenhuma luz, nenhuma sensação,

a não ser a batida desenfreada dos corações deles.

Ninguém entrara na sala desde que os homens, ele presumia que eram homens, vestidos de negro tinham vindo buscar Hikmet Sivas. Parecia razoável presumir que se tratava

de Forças Especiais. Tinham um aspecto em conformidade com a imagem mental que se tinha de tais pessoas. Mas, com a mesma facilidade, podiam ser bandidos ou até

alguma força estrangeira. Afinal, tinham falado com Sivas em inglês; o sotaque poderia ter sido americano ou inglês ou australiano. Não que este tipo de especulação

ajudasse Ikmen de alguma forma.

308


O facto era que, quem quer que eles fossem, estavam fortemente armados e estavam a participar num encontro qualquer no interior deste palácio, com esta colecção

heterogénea de gente do submundo e Orhan Tepe. Mas, a ser verdade o que Hikmet Sivas lhe dissera sobre a sua colecção de fotografias, qualquer um dos homens poderosos

fotografados podia ter decidido lidar com a situação desta maneira. Mesmo no século XXI, mesmo nas partes mais liberais do Ocidente, fotografias desta natureza podiam

derrubar governos. Homens em visitas de Estado a pararem no seu "clube" turco para se dedicarem a um biscate facultado por uma pequena princesa desesperada, de olhos

tristes e vestida de uma forma bonita, e a serem fotografados - onde diabo estava a segurança deles? Pessoas assim viviam atrás de portas de aço, dormiam em bunkers

nucleares! Mas se confiavam em Hikmet Sivas - não, era mais provável que o mandassem embora como um divertido "primitivo"; talvez a ideia de que ele um dia pudesse

usar o que sabia das suas actividades para os prejudicar nunca lhes tivesse ocorrido. Não pode ter ocorrido.

Tanto quanto Ikmen podia dizer, os homens na sala ao lado tinham sido agora levados para outro lugar qualquer no exterior. E embora ainda chegasse até ele algum

som vindo dessa área, suspeitava de que eram provavelmente os soldados vestidos de preto, ou lá o que eles eram. Perguntou-se quanto tempo é que eles estariam lá

dentro, quanto tempo é que ele teria de ficar atrás desta cortina, numa sala bem iluminada com a porta entreaberta, sem poder fumar um cigarro.

Raios. Até àquele momento ele nem sequer pensara em cigarros. Mas agora que pensara, não era capaz de pensar em mais nada. Talvez se ele simplesmente tirasse um

do bolso e o colocasse, apagado, entre os lábios...

A sala para onde Tepe e os seus colegas cativos foram levados era um assombro. Paredes sem janelas revestidas de resplandecente tecido dourado, kdlims de classe

alta, quase iridescentes, no chão. O mobiliário era mínimo, apenas uma cama e uma mesa cobertas com os aprestos de riqueza e de paixão: biombo espanhol, champanhe

francês, uma seringa descartável, um dildo de metal, provavelmente ouro. Para os velhos, que já não conseguiam levantá-lo. Este era o quarto em que

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princesas chupavam presidentes, onde Mil e Uma Noites de ilusão se tornavam realidade.

Aparentemente, Hikmet Sivas estivera aqui preso desde que Zhivkov o capturara. Neste quarto fantástico, era quase certo que ele teria contado a Zhivkov sobre as

fotografias - as fabulosas fotografias. Tepe sabia que as drogas tinham a capacidade de soltar a língua de homens que podiam ter sido torturados durante semanas

sem qualquer êxito.

Perguntou-se se Hatice Ipek teria sido trazida para aqui. Hassan Seker, o pasteleiro, não fizera ideia no que se estava a meter quando entregou a sua pequena amante

a Zhivkov por intermédio dos Múren. E depois, com a rapariga morta, com as impressões digitais dele, metaforicamente falando, espalhadas pelo corpo todo, ele assustara-se

e ficara demasiado disposto a separar-se de algum dinheiro para obter alguma protecção policial. Seker não se tinha apercebido de que os Múren e, através deles,

Zhivkov, estariam tão interessados neste novo amigo que era polícia. Nem Tepe, imagine-se, pelo menos até ontem, quando fora encontrar-se com Ekrem Múren e dera

com Vedat Sivas em sua substituição, e quando todas as divagações de Ikmen sobre um disparate chamado o Harém se tornaram realidade.

Tepe estava agora a olhar Vedat, de pé de um lado da porta, sem se mexer, os olhos frios e vidrados, enquanto que Zhivkov, a contrastar, atravessava o quarto em

direcção à cama, pelos vistos à-vontade num ambiente que lhe era familiar. Os outros homens, os subordinados e homens de confiança, agora aterrorizados, formavam

um grupo que estava de pé, e olhavam, inquietos, para os seus captores.

- Deitem-se, de barriga para baixo! - gritou um deles em turco, que, obviamente, não era a sua língua.

Ninguém se mexeu.

- Agora! - Levantou a sua metralhadora de cano curto e apontou-a para eles.

À medida que Tepe se baixava lentamente em direcção ao fantástico padrão do kilim de seda pura, considerou os dois resultados mais prováveis de um cenário como este.

Podiam estar prestes a revistá-los ou, uma vez que as pessoas abatidas nesta posição faziam menos porcaria do que as que eram abatidas deitadas de costas ou de pé...

- Vão-se foder!

310

Ao mesmo tempo que Tepe virava a cabeça para olhar para Zhivkov, soou um tiro. A força do disparo atirou Zhivkov para trás, para cima da cama ricamente coberta,



onde ficou deitado, de boca aberta, parecendo um sultão maldisposto, ainda que saciado.

- Deitem-se! - repetiu o homem. - Cabeças junto ao chão. Não olhem para mim! Olhem para baixo!

Olhem para baixo! Olhem para baixo! Não havia alternativa, e, de qualquer maneira, que benefício haveria em olhar para cima? Está bem, havia algo de nobre em olhar

o inimigo nos olhos, mas isso era para heróis e Tepe sabia que não era herói. Nem sequer era polícia, na realidade não, não agora. Agora era um deles; como Múren

e Vedat, um homem que se deixara corromper por querer o que não devia. E sorriu, perguntando-se subitamente o que estaria a sua encantadora Ayse a fazer agora.

A explosão de tiros durou menos de vinte segundos. Todos os que ainda estavam vivos depois disso foram eliminados com pistolas.

CAPÍTULO VINTE E CINCO

O comissário Ardiç raramente se sentia enjoado. De facto, orgulhava-se do quanto o seu estômago era forte. Mas esta noite não. Não com oito homens mortos naquele

quarto salpicado de sangue e que cheirava a metal e a cordite? Oito homens chacinados.

Depois de se ter limpo e de ter tomado um gole de água, saiu. Uma figura alta vestida com um fino fato de Verão cumprimentou-o na varanda. Ofereceu uma cadeira a

Ardiç, uma cadeira que era geralmente usada por pessoas que ali jantavam, e, em seguida, sentou-se ele próprio, a sorrir.

- A sua ajuda foi inestimável, comissário - disse o homem numa voz que, embora fosse evidente que não era turca de origem, falava perfeitamente a língua. - Sem o

senhor e Pamuk as coisas teriam sido muito mais difíceis.

- Vocês mataram um dos meus agentes.

Perante a oferta de um cigarro, Ardiç, excepcionalmente, aceitou-o.

- Sim - respondeu o homem com voz suave, acendendo o seu cigarro e o de Ardiç.

- Você disse-me que Tepe nos seria devolvido. O homem encolheu os ombros.

- Menti.


- Sim, mentiu, você...

- Eu menti, você optou por acreditar em mim, fim da história. Ardiç, agora zangado, disse com voz grossa:

- Eu não optei por acreditar em si, eu acreditei em si!

312 313


- Bem, isso foi uma estupidez da sua parte, não foi? - O homem semicerrou os olhos em direcção a Ardiç. - Quando foi a Ancara, ficou combinado que qualquer ponta

solta nesta situação devia ser atada. O seu agente sabia de mais.

- Oh, e os outros gorilas de Zhivkov não sabem? - replicou Ardiç.

- Agora não - respondeu o homem com um leve sorriso. Meu Deus, mas a polícia de Istambul tem estado ocupada a limpar esta cidade esta noite!

Ardiç, sem fala, fixava o homem com olhos horrorizados.

- Durante algum tempo, o comissário não precisa de se preocupar com aquele pequeno bairro de Edirnekapi - continuou o homem e, olhando para o rosto tingido de branco

do comissário, disse: - Não se preocupe, comissário, fomos muito cuidadosos, muito limpos.

- Não tenho dúvidas de que foram - disse Ardiç com voz rouca.

- Obrigado.

Silenciosamente e com uma calma eficiência, as figuras vestidas de negro começaram a sair do quiosque transportando sacos de corpos. Um camião fechado do exército,

estacionado lá em baixo no caminho, era o seu destino. Ardiç lançou um olhar breve a esta cena macabra, virando-se depois para as feições pálidas do homem que estava

sentado à sua frente.

- E os filhos de Ali Múren? - perguntou. - Que é feito deles?

- Oh, você vai precisar de alguns corpos vivos para ligar tudo isto a um cenário normal de bandidos que engloba rapto, homicídio e prostituição.

- Coisa que era mesmo - observou Ardiç. O homem riu.

- Visto do seu lado das coisas, sim, comissário.

- E do seu?

O rosto do homem adquiriu uma expressão impenetrável.

- Você sabe o que era do nosso lado, comissário - disse. - Por isso não brinque comigo. Os irmãos Múren, no mínimo, livraram-se do corpo da rapariga, uma vez que

ela morreu de forma tão inconveniente enquanto Zhivkov e os seus horrores estavam a "entrevistar" a pobre cabra. Ela era muito bonita, aquela rapariga. Sabemos que

os Múren também estavam envolvidos no homicídio de uma personagem local, um vagabundo que tinha falado com o seu homem, Ikmen. Os

rapazes de Zhivkov mataram a mulher idosa, a costureira. Foi por intermédio dos Múren que Zhivkov ficou a saber que ela poderia dizer alguma coisa de menos sensato

a Ikmen. Embora não soubesse naquela altura precisamente qual pudesse ser a ligação, o seu jovem agente passou a informação como bom cachorrinho que era.

- Como sabe isso?

- Porque tínhamos sob escuta a sala onde eles se encontravam.

- Nada que eu possa usar, suponho - respondeu Ardiç com amargura.

- Não. - Apagou o cigarro com o pé no chão de mármore. - E, a propósito, mandei levar os seus dois inspectores, Iskender e Suleyman, para o American Admirai BristolHospital.

Ardiç fixou o homem, horrorizado.

- Que é que me está a dizer?

- Três dos seus inspectores decidiram ver o que se passava aqui esta noite. É um grande descuido da sua parte não saber disso, comissário, mas vou deixar passar.

Os dois mais jovens podem ficar um pouco desorientados durante algum tempo. Terá de lhes explicar que, de futuro, não devem realmente envolver-se em operações especiais

contra marginais. Da próxima vez os bandidos podem matá-los. Quanto a Ikmen...

- Ikmen! - Ardiç sentiu que o coração lhe saltava do peito. Se Ikmen não estava com Iskender e Suleyman...

- Não se preocupe, ele está vivo - disse o homem num tom agradável. - Ainda está escondido na sala onde eles tinham o velho Hikmet. Penso que ele falou com Hikmet.

Talvez você queira descobrir de que falaram, em vez de sermos nós a fazê-lo. Ficaríamos agradecidos.

- O quê, para vocês poderem...

- Combinámos que não havia pontas soltas, comissário.

- Então por que não o abateram simplesmente, como fizeram a Tepe?

O homem baixou o olhar e suspirou.

- Bem, na verdade, fomos demasiado lentos a chegar até ele, e se ele não souber realmente nada... Ele é uma personagem original na polícia, diga-se de passagem.

Penso que a morte dele não seria muito boa para a moral da polícia. Nunca foi nossa intenção prejudicar-vos.

314


- A situação, como lhe chama, ficou bastante fora de controlo, na minha opinião - disse Ardiç com brusquidão. Rápida, a mão do homem passou por cima da mesa e agarrou

o pescoço de Ardiç.

- Não quero saber! - disse baixinho. - Vocês não são nada. As imagens das fotografias de Hikmet Sivas são tudo. - Libertou o pescoço de Ardiç tão rapidamente como

o agarrara. - Sou pago para manter o status quo.

Apesar de corado e visivelmente assustado, Ardiç disse:

- Então você protege a Máfia.

- Aquela que compreendemos, sim - respondeu o homem. Algumas pessoas sabem tanto, comissário, que se tornam intocáveis. Hikmet Sivas é rigorosamente um amador, tirando

fotografias com objectivos de segurança. Os cavalheiros "estrangeiros" que estiveram aqui esta noite têm qualquer coisa quase sobre toda a gente com grande poder

que se possa nomear. Sabemos como eles operam, sabemos que só usarão o que sabem em determinadas circunstâncias e que se pode lidar com essas circunstâncias sem

alterar o status quo - sorriu de uma forma desagradável. - Hikmet era uma carta fora do baralho, não compreendia as regras.

- O que quer dizer com isso?

- Ele é um canhão desgovernado, tirou aquelas fotografias para se proteger, podiam acabar em qualquer lado. Ele vai dar-nos essas fotografias, com certeza que vai,

mas tê-las-ia dado a Zhivkov, no fim de contas. E Zhivkov - uma sombra atravessou-lhe as feições - tê-las-ia usado.

- Sim, mas a Máfia, a sua Máfia...

- Aquela que compreendemos, podemos controlar - disse o homem. - Aquela que não compreendemos, aquela que pode desejar comprar plutónio, por exemplo, com uma só

daquelas imagens...

- Ele podia ter feito chantagem com o vosso governo?

- Governos. - O homem sublinhou a última sílaba. - Eu não trabalho para um governo, comissário. Trabalho para a democracia, é um clube muito grande.

- Sim - Ardiç deitou fora a beata há muito apagada. - E se Ikmen souber mesmo alguma coisa?

- Eu saberei - respondeu o homem com ar sério.

- E que fará então?

315


O homem levantou-se da sua cadeira e empurrou-a para debaixo da mesa, arrumando-a.

- Neutralizarei a ameaça - disse, e, com mais um sorriso, virou-se e encaminhou-se de volta às escadas de mármore.

Foi só depois de ele se ter ido embora que Ardiç se apercebeu de que todos tinham feito a mesma coisa. Não havia figuras vestidas de preto que só Alá sabia de que

parte do mundo vinham, não havia corpos, não havia sangue - nada. Só ele próprio, a visão grata do seu carro estacionado no parque, e Ikmen, algures no interior

do quiosque.

Durante alguns momentos, Ardiç andou às voltas com a ideia de que podia ir à procura dele. Mas depois decidiu não o fazer. Conhecendo Ikmen, sabia que ele teria

ligado muitas informações. O homem pálido, no entanto, era uma figura sombria sobre a qual Ardiç pouco sabia. Não podia julgar o grau nem a extensão do seu poder,

nem que acesso ele tinha a que informação. Poderiam ter sido implantados dispositivos de escuta tanto em si próprio como em Ikmen, tanto quanto Ardiç sabia. Com

gente desta, não havia forma de saber, isso tornara-se óbvio em Ancara. Não, era melhor deixar Ikmen. Ele encontraria a saída, iria para casa, Ikmen era bom nesse

tipo de coisas. Ardiç levantou-se e olhou lá para baixo, para o carro. Amanhã falaria com Ikmen. Sim. Dar-lhe-ia a hipótese de mentir sobre aquilo que sabia. Ikmen

era sensato - às vezes; saberia o que era melhor fazer.

A carrinha levou os homens para a pista, exactamente até ao avião, que já estava abastecido, despachado e pronto a descolar. Tanto quanto Hikmet Sivas via, nada

mais se movia, apenas eles.

À medida que as figuras anónimas que os tinham trazido ao aeroporto os instigavam a subir os degraus para o avião, Hikmet disse:

- Aonde vamos?

Um dos homens, um exemplar particularmente alto, gritou, através de um ar impregnado de calor e de gases de escape:

- Tenha um bom voo, senhor.

Hikmet continuou a subir a escada, as perguntas a lutarem pela supremacia na sua cabeça. Onde estava Vedat? Maldita fosse a sua alma! Que apodrecesse no Inferno!

Fosse o que fosse que ele tivesse feito, ainda era seu irmão, e Hikmet precisava de saber onde ele estava. Para

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onde é que os homens dele estavam a levar? O que aconteceria a Hale? Ele teria regressado para junto da irmã depois de ter tratado daquela escumalha de Zhivkov.

Ela deve estar preocupada. E Kaycee. Pobre e querida Kaycee. Onde estava ela, o seu corpo? Ter-lhe-iam dado um funeral cristão?

Quando entrava no avião, Hikmet sentiu que começava a chorar. Que pesadelo! Que confusão! Ao tentar agradar a pessoas que ele não compreendia, conseguira matar ou

corromper tantas outras. Quando encontrara Zhivkov, quase que ele próprio fora assassinado. Por que fizera ele coisas tão loucas? Porque queria ser famoso? Porque

queria causar boa impressão em Hollywood? Mas, nesse caso, ele era Hollywood, não era? Era americano, agora. Conseguira livrar-se do turco dentro dele - só que não

se livrara. Hikmet Sivas tinha um harém. Hikmet Sivas arranjou trabalho porque tinha um harém. Ali Bey, o Sultão - dava vontade de rir. Um turco ingénuo vestido

de americano, tirando fotografias que nunca tivera de usar. Um homem com um harém não precisa de nada para além do desejo enfastiado de outros para assegurar a continuação

da sua sobrevivência. Por que não se apercebera ele disso? Por que tivera de ir só aquele bocadinho mais longe? Tentara consertar as coisas. Foi por isso que telefonara

a G, para conseguir ajuda.é que organizara esta operação sangrenta, que "consertara" tudo de uma forma tão decisiva. Mas será que iria agora "consertá-lo" também

a ele? Teria de haver um castigo qualquer. Ele soubera-o assim que contactara G.

- Vamos levá-lo de volta para os Estados Unidos.

O homem era alto, louro e dono de um sotaque indefinido.

- Porquê? - perguntou Hikmet, sabendo o quanto a pergunta era estúpida.

- Porque é lá o seu lugar - respondeu o homem. - Você sempre quis que o seu lugar fosse lá, não é verdade, Hikmet? - sorriu, um sorriso frio. - Dinheiro, Hollywood,

o sonho. O turco morreu, não é assim, senhor Sivas? Tal como você queria.

O homem pegou no cotovelo de Hikmet e levou-o, passando por Bassano e pelos outros, em direcção à parte de trás do avião.

Ele foi de boa vontade, como que desorientado. Era isso mesmo. O que este homem dissera, era isso mesmo. Matar o turco. Fazer o que eles queriam, sempre, para matar

aquela coisa que o puxava sempre

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para trás. Mata o turco e substitui-o por um sultão de cartão. Fá-lo porque isso vende. Vende, tal como as cómodas e submissas raparigas da fantasia otomana, como



a visão de algo que desaparecera, como um filme mau, muito mau. E, durante todo esse tempo, ele estivera a invadir a privacidade deles, a fotografar algo por que

os homens estavam dispostos a matar, só para manter vivo aquele sonho, só para se certificar de que o turco ficava onde estava, na sua sepultura não amada.

Quando Hikmet e o homem se sentaram, ao lado um do outro, o sorriso do homem alargou-se.

- Quando chegarmos a Los Angeles - disse ele, apertando o cinto -, você vai levar-me até àquelas fotografias.

- E se não levar?

- Vai levar, se não mato-o, Hikmet - respondeu o homem simplesmente.

Hikmet olhou para uns olhos de cor indefinida. Era um rosto difícil de descrever, pálido, sorridente, completamente ilegível.

- Qual é exactamente o seu interesse nas fotografias?

- Não é nada pessoal. - Instalou-se confortavelmente na sua cadeira e fechou os olhos. - Aquele amigo de ambos a quem você telefonou quando estava em apuros, aquele

que organizou a pequena festa desta noite, quer que eu as queime - disse. - Ou melhor, uma delas em especial. Tenho a certeza de que não preciso de lhe fazer um

desenho, pois não, Hikmet?

Hikmet Sivas fixou o chão, os olhos esbugalhados de assombro.

- Dessa maneira - prosseguiu o homem, animado -, podemos todos continuar como antes, o que será muito agradável, tenho a certeza de que vai concordar.

De início, Zelfa pensou que o toque fazia parte do seu sonho. Uma das suas professoras da escola, a irmã Immaculata, por razões que eram totalmente incompreensíveis,

ia casar com Burt Reynolds. Os sinos da igreja estavam a tocar para celebrar esta importante ocasião, que, surpreendentemente, parecia agradar imenso a Burt. Burt

e a freira, de hábito e sem absolutamente nenhuma maquilhagem, estavam prestes a beijar-se, quando Zelfa se apercebeu de que o toque não vinha de sinos mas do telefone

ao lado da sua cama.

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Com alguma dificuldade, abriu os olhos apenas o suficiente para lhe permitir localizar o telefone, que, na quente e pesada escuridão do seu quarto, não parecia muito

diferente de um osso estranhamente animado. As mãos dela, desajeitadas de sono, arrastaram o auscultador do descanso e, trémulas, seguraram-no junto ao seu ouvido.

Alguém disse algo estranho numa língua estrangeira.

- O quê? - resmungou ela com voz grossa, em inglês. - Fale alguma coisa que se perceba, está bem?!

- Zelfa, é Ali, Ali Ozakin. - O homem falava num inglês com muito sotaque.

Zelfa franziu o sobrolho. O nome não lhe era estranho.

- Trabalhámos juntos algumas vezes - disse ele. - Pratico neurologia.

- Ah, sim, Ali - tudo estava agora a vir-lhe à cabeça -, do Admirai Bristol. A mulher com afasia...

- Com danos na área de Broca, sim - disse ele. - Você indicou-a para intervenção terapêutica. Ela está a melhorar.

- Óptimo... - Embora Zelfa não conseguisse imaginar por que motivo ele lhe telefonaria para lhe falar desta infeliz quase à uma hora da manhã, como ela via no seu

relógio.

- Al...


- Zelfa, estou a telefonar porque o seu marido deu entrada no Admirai Hospital.

- Mehmet! - De súbito, e com um estremeção, ela estava acordada.

- Não há motivos para alarme.

Estúpido, estúpido, estúpido emprego! Ela não lhe dissera que um dia seria assim? Não receara ela sempre que uma noite lhe trouxesse o medo e uma maldita tortura

que lhe esmagava as entranhas?! Não havia motivos para alarme, realmente!

- O inspector Suleyman sofreu um ferimento na cabeça - continuou o doutor. Ozakin calmamente. - Cuja natureza não é grave.

O que significava...?

- O que quer dizer com isso? Tem o crânio fracturado? Está consciente? O quê? - O coração martelava-lhe agora tão rapidamente que ela mal conseguia respirar. Mehmet!

Ela comportara-se tão mal para com ele da última vez que tinham estado juntos! Oh Jesus, Maria ejosé!

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Ozakin pigarreou.

- Ele não tem o crânio danificado - disse. - Mas neste momento não está consciente. Mas vai voltar a recuperar a consciência.

- Ah sim? E como é que sabe?

- Bem - o médico pigarreou de novo, ruidosamente -, tenho muita confiança...

- Quero vê-lo com os meus próprios olhos - disse Zelfa com determinação. - Agora.

- Zelfa, isso não vai ser possível.

- Sou mulher dele!

- Ah, sim, mas...

Mesmo em toda a sua perturbação, Zelfa tinha a certeza de que alguma coisa, provavelmente uma mão, cobriu o bocal do telefone na outra extremidade da linha. Pensou

mesmo ouvir o som de vozes abafadas algures para lá da obstrução. Vozes abafadas, zangadas. Cortar a conversa de um paciente era, é claro, uma coisa que os médicos

faziam por vezes, ou talvez o neurologista estivesse a comunicar com um dos colegas. Mas se estivesse, devia permitir que ela, Zelfa, como colega de profissão, tivesse

acesso a alguns dados, mesmo sendo o paciente seu marido.

- Ali - disse ela, num tom cortante -, o que se passa?

Após alguns momentos de sons abafados, Ozakin voltou a falar.

- Venha vê-lo de manhã - disse. - Nessa altura ele poderá falar consigo.

- Não, eu quero ir agora!

- Não lhe darão autorização para o ver - respondeu o neurologista com firmeza. - Sou responsável por ele e essa é a minha decisão.

Zelfa sabia que era inútil discutir uma decisão clínica como esta. Ela fizera o mesmo com parentes dos seus pacientes em muitas ocasiões. Mas, mesmo assim, não se

conformava, e doía-lhe, também. Mehmet estava ferido e ela queria estar com ele, fosse qual fosse o seu estado de consciência.

- Ele estava sozinho quando o trouxeram?

- Não posso comentar a entrada dele - disse Ozakin um pouco irritado, a julgar pelo que Zelfa sentiu. - Mas está fora de perigo e estável e você poderá vê-lo de

manhã.


Zelfa suspirou.

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- Está bem.

- Agora tenho de voltar ao meu trabalho. Boa noite, doutora Halman. - E, antes que ela pudesse responder, ele desligou.

Mehmet ferido. Como? Bem, de todas as maneiras possíveis e imaginárias, Zelfa bem sabia. Cristo, o homem era polícia numa das cidades mais populosas e problemáticas

do mundo. O local era fértil em todos os tipos de tensão - étnica, alimentada pela droga; só o facto de se viver neste maldito sítio criava tensão, ainda mais com

os autocarros sempre apinhados, o trânsito sufocante e a ameaça de terramotos, sempre presente. E depois havia Ikmen. Mehmet saíra com ele, em serviço, para um local

que não especificou para fazer algo que não disse. Não que houvesse alguma coisa de anormal nisso. Mas o homem mais velho tinha mesmo uma propensão para se envolver,

a si próprio e aos outros, em situações complicadas. Ikmen, por mais que ela gostasse dele, irritava Zelfa - qualquer pessoa que lhe roubasse a atenção de Mehmet

irritava-a. Os olhos dela ficaram húmidos com o início das lágrimas; automaticamente, olhou através da escuridão em direcção à porta do pequeno quarto onde Yusuf

Izzeddin estava a dormir.

- Espero sinceramente que isto não seja o que eu penso que é disse Ikmen, lançando um olhar severo às figuras dos dois jovens que se encontravam no sofá.

Hulya, os olhos grandes e brilhantes como os de um animal pequeno apanhado pelos faróis de um carro, endireitou-se.

- Pai!


- O próprio - respondeu o pai. Atirou-se para uma cadeira e esfregou a testa com uma mão fatigada.

- Estás com péssimo aspecto - disse Hulya, afastando-se o mais rapidamente e o mais possível do jovem Berekiah Cohen.

- Sim - respondeu Ikmen num tom seco.

- O que...

- Não desejo entrar no "onde" e "com quem" do meu serão disse. - O teu e o do senhor Cohen, no entanto, eu seria capaz de achar fascinante. - Apanhou os olhos de

corça de Berekiah no seu olhar duro.

- Çetin Bey...

I

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- Pai, pedi a Berekiah para vir até cá quando não vieste para casa

- disse Hulya energicamente. - Tentei telefonar para o teu telemóvel, mas estava desligado. Telefonei a Berekiah porque estava com medo por ti e não queria estar

aqui sozinha. Nunca estive sozinha antes e não gosto.

Ikmen suspirou. Alá, como estava cansado, cansado e confuso, e, tinha de admiti-lo, assustado também. Embora quem quer que tivesse estado no palácio tivesse limpo

tudo antes de sair, ele conhecia o odor a sangue quando o cheirava, e o ar estava impregnado dele. Todos aqueles homens, bandidos, polícias, Vedat Sivas, se tinham

sumido, tendo sido substituídos pelo cheiro forte e metálico a sangue...

- Então, se é que estou a perceber bem, o teu irmão Búlent saiu?

- perguntou Ikmen, regressando ao que se estava a tornar o seu segundo pesadelo do serão. Hulya e Berekiah sozinhos no escuro, o inconfundível som de beijos a chegar-lhe

aos ouvidos quando ele acendera a luz.

- Foi a casa de Sami - disse Hulya -, há horas atrás. Pensava que tu regressavas, com certeza. Não que ultimamente tenhas estado muito por aqui.

- Se tu - disse Ikmen, virando agora a sua atenção exclusivamente para Berekiah - te aproveitaste da minha filha...

- Não foi nada disso! Juro-lhe, Çetin Bey!

- Bem, espero que não, Berekiah, porque tanto o teu pai como eu ficaríamos ambos muito decepcionados se pensássemos que tinhas mentido.

- Nós não fizemos amor! - disse Hulya com brusquidão, o rosto transformado numa imagem de indignação. - Mas só porque Berekiah disse que não devíamos!

- Hulya!

- Não, eu vou dizer-lhe! - disse ela imperiosamente a Berekiah, e, virando-se para o pai, continuou: - Eu teria gostado de o fazer, mas Berekiah disse que não estava

certo, que devíamos esperar. Esperar por quê, não sei, porque ninguém quer que fiquemos juntos.

- Hulya...

- E, de qualquer maneira, pai, eu estava realmente assustada. Ainda não apanhaste o assassino de Hatice, e eu estava aqui, uma rapariga sozinha!

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- Sim, sim, sim - Ikmen colocou a cabeça entre as mãos e fechou os olhos. Estes dois tinham uma relação mais séria do que ele pensara, a sua Hulya e o judeu, Berekiah

Cohen. Filho de um amigo, um rapaz simpático, muito simpático. Como tantos outros. Vasculhara tudo de alto a baixo à procura de Suleyman e de Iskender entre a vegetação

rasteira do Palácio Yildiz, mas não conseguira encontrá-los. Onde estavam? Por que não estava ele na esquadra a tentar descobrir? Porque eles, como Berekiah, estavam

onde não deviam estar. Ele estivera onde não devia ter estado - a falar com uma lenda do cinema sobre algo que soava como uma mistura entre uma história de espionagem

e um extracto das Mil e Uma Noites.

- Çetin Bey, se eu pudesse, ao menos, cortejar Hulya normalmente...

Ikmen levantou a cabeça. O rapaz parecia tão preocupado, tão sincero.

- Eu amo-a de verdade.

E amava. Apesar de todo o cansaço que sentia e dos sons e dos cheiros que não paravam de lhe assaltar a mente desde as experiências por que passara em Yildiz, Ikmen

via que Berekiah era completamente autêntico. Ele amava a rapariga, e apesar das dificuldades que Ikmen sabia que esperavam este casal, especialmente na forma da

mãe dela e do pai dele, sabia que ele - Ikmen - pelo menos, devia dar-lhes uma oportunidade. Afinal, ele sempre dissera que nunca se interporia no caminho de nenhum

dos seus filhos, se existisse verdadeiro amor. De facto, não havia muito tempo, presumivelmente durante uma briga, ele dissera a Fatma que os filhos podiam todos

casar com gibões, desde que os macacos em questão fossem generosos, tivessem emprego e não cheirassem muito mal. Mas quem quer que fosse o pretendente, agora não

era altura para estar a discutir tais assuntos. Primeiro teria de colocar em ordem os seus pensamentos sobre o que acabara de acontecer. Neste momento, nem sequer

conseguia lembrar-se como conseguira sair do parque, quanto mais tentar descobrir o que lá se passara.

- Teremos de falar nisto noutra altura - disse num tom suave.

- Oh, para te poderes colocar do lado da mãe e do senhor Cohen.

- Não! - Ikmen tomou uma decisão consciente para baixar a voz. - Não. Para poder estar sossegado e conseguir descansar um pouco.

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- Teve problemas esta noite, Çetin Bey? - perguntou Berekiah naquele seu tom sério e atenuado.



- Sim - finalmente, Ikmen sorriu. - Sim, pode-se dizer que sim, Berekiah.

Identificar exactamente que problemas eram esses era outro assunto. O Harém ia muito mais além do que a satisfação de alguns enfastiados homens de negócios. Parecia

que aqueles que governavam o mundo iam ter com Hikmet Sivas para satisfazerem os seus apetites secretos e vergonhosos. E Sivas, homem esperto como era, registara

tudo, fotografando os grandes e os poderosos a abusarem de meninas. Imagens que podiam mudar o mundo. Ikmen tentava compreender aquilo em que bastante desajeitadamente

tropeçara.

- Penso que é melhor ir-me embora - Berekiah levantou-se. Hulya começou a protestar, mas foi interrompida pela mão firme

do pai, que se erguera.

- Sim, penso que é muito boa ideia, Berekiah - disse ele. Estamos todos demasiado cansados e, por razões diferentes, demasiado perturbados para falarmos disto agora.

- Desculpe, Çetin Bey, por ter...

- Vai para casa e dorme, Berekiah - interrompeu-o Ikmen. Por favor, Hulya, acompanha o nosso convidado à porta.

Assim que os jovens saíram, Ikmen colocou novamente a cabeça entre as mãos. Que confusão! Não saber onde Suleyman e Iskender podiam estar, não saber onde estava

Tepe, também, e nem sequer como podia descobrir, tudo isto estava a levar-lhe a mente, ultimamente sujeita a demasiada tensão, à beira da loucura. Pode ser por isso

que eu arranjo realmente sarilhos, pensou, colocando toda agente em perigo -porque tenho sempre de saber o que não devo. Por que faço isso? O que me obriga a querer

escavar e escavar como uma terrível escavadora psicológica?

- Penso que devíamos realmente conversar agora, pai - Hulya estava de pé à entrada da porta, as mãos nos quadris.

Ikmen suspirou.

- Discordo - disse, fatigado. - Tu...

O toque do telefone do apartamento não deixou que a conversa continuasse. Ikmen levantou o auscultador, enquanto Hulya, ainda de pé, se irritava silenciosamente.

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- Estou? - disse Ikmen para o auscultador. Franzindo o sobrolho, acrescentou:- Zelfa? O quê?



Durante a conversa que se seguiu, o rosto de Ikmen perdeu toda a cor que podia ter tido antes. E Hulya, apesar da sua anterior petulância, depressa ficou alarmada.

Enquanto ele continuava a conversa, ela veio sentar-se no chão à frente dele, colocando-lhe as mãos nos joelhos magros. Ele acariciou-lhe o cabelo, como que a reconfortar-se

com a sua maciez.

CAPÍTULO VINTE E SEIS

-Já lhe disse que o paciente está inconsciente e não pode receber visitas - reiterou o doutor Ozakin à figura pequena e furiosa que se encontrava à sua frente.

- Sim, e, como já lhe disse, doutor - respondeu Ikmen através de dentes fortemente cerrados -, eu vi-o. O próprio doutor abriu a porta agora mesmo, e ele está acordado!

- São três horas da manhã.

- Não é a altura perfeita para uma visita social, garanto-lhe disse Ikmen -, mas não quero saber disso.

-Já lhe pedi que se fosse embora...

Ikmen introduziu suavemente uma mão no casaco e tirou de lá uma pistola, que, como era costume, não estava carregada.

- Ou me deixa ver o inspector Suleyman ou disparo.

A enfermeira, uma mulher baixa de cinquenta e poucos anos que até àquela altura estivera ao lado do "seu" médico, afastou-se um pouco.

- Isto é um hospital! - gritou Ozakin, a voz trémula de medo.

- Eu sei - disse Ikmen, abrindo, com um empurrão, a porta do quarto de Suleyman e colocando um pé já no interior do quarto. Bem observado.

- Vou telefonar aos seus superiores!

- Óptimo.

Ikmen deixou que a porta se fechasse atrás de si e virou-se, a arma ainda na mão, para olhar para a figura pálida mas consciente que estava deitada na cama.

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- Doutor?

Ikmen aproximou-se da cama e sentou-se na cadeira ao lado.

- Não, é Çetin.

- Çetin?


- Sim.

Suleyman, embora consciente, tinha um aspecto aterrador. O rosto, pálido ao ponto de parecer verde, estava coberto de pequenas equimoses superficiais que o faziam

parecer incaracteristicamente sujo. Mas eram os olhos que eram a feição mais perturbadora do seu semblante; olhos que lhe giravam na cabeça, desaparecendo por vezes

completamente.

- Ouve, não tenho muito tempo - disse Ikmen, ansiosamente. - O que aconteceu?

- O que...

- Mehmet, tens de me dizer!

- Eu... - Os olhos giravam.

- Olha para mim!

Mas ele não podia. Não havia dúvida de que estava a tentar, mas algo estava a impedi-lo.

- Mehmet!

Por esta altura já Ozadin deveria ter telefonado a pedir ajuda e não deveria levar muito tempo a chegar. Ikmen tivera de negociar para passar por dois uniformes

meio a dormir que se encontravam na recepção e sabia que não se safaria com isso outra vez.

- Mehmet! Por favor!

Mas os olhos continuavam a girar, e, por vezes, a língua de Suleyman pendia, espessa e seca, ao canto da boca. Ikmen sentia-se a começar a descer ao desespero. O

que acontecera a Suleyman? A versão oficial era que fora agredido, o que era possível, mas Ikmen não via qualquer sinal de ferimentos suficientemente graves para

causarem um descontrolo destes. E por que é que o médico mentira? A sua insistência em que ele não podia ver o amigo parecia bastante mais zelosa do que a habitual

relação médico-paciente justificava. Suleyman suspirou e em seguida tirou um dos braços de debaixo dos cobertores. A parte de cima do braço estava ligada. Suleyman

mexeu a cabeça em gestos descoordenados que apontavam para a ligadura.

Ikmen observava, perplexo.

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Então Suleyman repetiu o processo, mexendo a cabeça na direcção do braço e apontando depois um olhar desfocado na direcção de Ikmen. Este levantou-se e observou



atentamente a ligadura - não que houvesse alguma coisa para ver. Estava limpa, o braço não estava ou não parecia estar nada inchado. Ele devia tê-lo ferido durante

a luta ou o que quer que fosse em que ele estivera envolvido...

- Dói? - perguntou Ikmen. - Queres que eu vá buscar o médico?

- Droga... - Os olhos desfocados guinaram descontroladamente para o lado, ao mesmo tempo que Suleyman começava a esforçar-se para respirar.

- Queres mais analgésicos?

- Droga! - Suleyman voltou a fazer aquele movimento com a cabeça em direcção ao braço e, de repente, Ikmen compreendeu. Sentou-se e pegou na mão do amigo.

- Alguém te drogou, não foi?

O esforço para respirar, o pânico, diminuíram e Suleyman ergueu ligeiramente a cabeça da almofada e produziu um som algures no fundo da garganta.

- Ninguém te agrediu, foste drogado. - Agora a tremer, Ikmen passou os dedos pelo cabelo e em seguida levou a mão ao bolso à procura dos cigarros.

Drogado. Se antes ele estivera assustado, isso era apenas um pálido reflexo do que estava a sentir agora. Nem sequer no palácio se sentira como agora. Lá, não houvera

nada para ver, apenas o cheiro a sangue e a cordite e o som de homens a levarem outros homens, violentamente. Mas aqui, estava a olhar para um homem, um amigo, drogado

quase até à paralisia, à imbecilidade. Não havia forma de ele saber se Suleyman recuperaria, sem falar com aquele médico que insistia em que Suleyman sofrera um

ferimento na cabeça. Mentiras! Em todo este tempo, não houvera mais nada a não ser uma maldita camuflagem, enganos.

- Ikmen!


A porta abrira-se sem que ele tivesse dado por isso. E se a voz que gritara o seu nome não lhe tivesse soado familiar, provavelmente ele não teria tido qualquer

reacção. Assim, apenas se virou lentamente, a arma ainda pendurada da mão, o furioso Ardiç quase fora de si.

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- Dá-me isso - disse o comissário em voz baixa, dirigindo-se, zangado, a Ikmen, a mão estendida para receber a arma.

Ikmen atirou-a sem cerimónia para a mão de Ardiç, virando-se depois novamente para olhar Suleyman mais uma vez. O seu superior virou as costas por breves instantes

para verificar o estado da arma, resmungando enquanto o fazia. Ikmen encostou a cabeça ao ouvido de Suleyman, como que num afectuoso abraço final.

- Não digas nada a ninguém sobre a droga - sussurrou. A ninguém.

Os olhos de Suleyman giraram, descontrolados, antes de se fecharem.

Ikmen ouviu Ardiç dizer: "Tragam-no!" exactamente antes de dois pares de mãos lhe agarrarem os ombros e o puxarem até ele ficar de pé. Deu consigo a olhar directamente

para os olhos furiosos do seu superior.

- Vens comigo agora, Ikmen - disse Ardiç com voz firme. - E vais fazer tudo o que eu te pedir.

Cemal melhorara. Aysel, apesar dos papos debaixo dos olhos e de estar constantemente a bocejar, tinha de lembrar isso a si própria. Há menos de um ano, o bebé acordava

pelo menos cinco vezes por noite, ao passo que agora ficava a dormir, embora raramente sossegasse antes das dez, e acordava sempre entre as seis e as sete. Ela dormia

- às vezes. Outras vezes não, frequentemente devido a influências exteriores a Cemal. Devido a Orhan, principalmente.

Aysel embalava Cemal nos braços e colocava-lhe o biberão entre os lábios. Embora ele agora comesse comida sólida com apetite, ainda gostava do seu biberão logo pela

manhãzinha, encostando-se ternamente a ela, os olhos todos tontos de prazer. Se ao menos Orhan visse isto, pensava ela tristemente, até ele teria de se emocionar.

Mas Orhan não estava em casa, o que não era um estado anormal das coisas. Sultão do seu próprio lar, ele só lhe dizia onde ia se lhe conviesse. Mas ela sabia. Se

não fosse trabalho, era Ayse Farsakoglu. Aysel sabia quase desde o início; ela tivera, afinal, alguns avisos. Ele queria fazer aquelas coisas nojentas, e ela não

queria. Só a atitude dele lhe dissera que ele iria a qualquer outro sítio à procura de satisfação. Depois, no casamento do inspector Suleyman, ela vira para onde

ele estava a olhar para uma mulher-polícia alta, vestida com roupas dramaticamente reveladoras. Não era preciso ser-se bruxa para adivinhar estas coisas. Mas era

preciso ser-se feita de pedra para não se ser afectada por isso. Levantou o olhar para o relógio de parede quando a campainha da porta soou. Eram cinco e quinze.

Muito cedo para alguém vir de visita. Talvez Orhan não soubesse onde tinha posto a chave - talvez a tivesse deixado na cama da amante. Aysel pousou Cemal, agora

adormecido, no sofá, e saiu para o vestíbulo. De acordo com o que o marido lhe dissera sobre questões de segurança, ela começou por abrir apenas uma fresta da porta.

Mas depois, quase imediatamente, escancarou-a. Era só Ikmen.

- Bom dia, Çetin Bey - disse ela, escondendo uns escassos cabelos soltos atrás do lenço de cabeça.

- Aysel - A voz dele estava muito rouca esta manhã, muito áspera devido tabaco. - Posso entrar? Preciso falar...

- Orhan não está cá, Çetin Bey. - Ela sorriu, reparando que ele não o fez. Geralmente fazia-o, ele era muito simpático.

- É consigo que preciso de falar, Aysel.

- Ah. - Afastou-se ligeiramente para o deixar entrar. Mesmo nessa altura ela estava consciente de que a indiferença dos seus próprios modos não era natural.

Mas continuou, de qualquer maneira. Ofereceu-se para preparar uma bebida a Çetin Bey - a boa anfitriã, a receber o superior do marido como devia. Ele recusou, tanto

a bebida como a cadeira, mas fê-la sentar-se.

- Aysel, receio que tenha havido um incidente - disse ele, baixando para ela os olhos muito cansados e muito sérios.

- Oh? Que tipo de incidente? - Soava ainda bem-disposta, ainda a sorrir alegremente.

- Ontem à noite, alguns dos nossos homens estiveram envolvidos numa operação lá em cima, no Palácio Yildiz - Ikmen encontrou e em seguida acendeu um cigarro. - Estavam

a tentar esmagar um dos bandos de criminosos. Alguns polícias ficaram feridos.

- Ah - Aysel baixou o olhar para as mãos, que se lhe agitavam nervosamente no regaço.

- Receio que Orhan...

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- Está morto? - As palavras soavam despidas de emoção, quase desumanas.

Ikmen respirou fundo.

- Sim - disse. - Receio que esteja. Lamento muito.

- Como é que aconteceu? Foi alvejado?

- Sim, foi. - Ikmen sentou-se na cadeira em frente da dela. Orhan morreu a tentar fazer de Istambul uma cidade mais segura. Sei que isso não serve de consolação

neste momento, mas acredito que o será um dia.

Aysel levantou os olhos perfeitamente secos. Apenas o vazio da expressão deles apontava para a lenta mossa que estava a ser escavada na alma desta mulher e que a

vista não podia detectar.

- Foi bom ter-me vindo dizer - disse ela. - Obrigada.

- É uma parte do meu trabalho a que não me acostumo - respondeu Ikmen tristemente. - Orhan era um bom polícia e vou sentir a falta dele.

- Sim.

Ficaram sentados em silêncio durante alguns momentos, Aysel olhando vitreamente para a frente, completamente impassível - por fora, pelo menos. Nem um murmúrio vindo



de Cemal; o bebé devia estar ainda a dormir. Óptimo.

Após um suspiro fundo, bastante vacilante, Ikmen voltou a falar.

- Há alguém que eu possa contactar por si? - perguntou.-A sua família, alguém da família de Orhan?

- Os meus pais... Vivem em Aksaray. Eu trato isso.

- Tem a certeza?

- Sim.-Ela baixou mais uma vez o olhar para as mãos. - Informe a sargento Farsakoglu, está bem?

Quando ele não disse nada, ela instigou-o.

- Está bem?

- Todos os agentes com quem o seu marido trabalhava terão de ser informados.

Aysel levantou o olhar incisivo.

- Eu sei de tudo, sabe? - disse ela. - Sobre Orhan e a sargento.

- Aysel...

- Mas está tudo bem. - Ela obrigou o rosto a entrar no molde de um sorriso. - Nunca tive problemas com isso. - Levantou-se e caminhou até ao fogão. - Tem a certeza

de que não quer que eu lhe traga um café? - disse. - É francês. Muito bom. Também temos açúcar cristalizado... - Então, de súbito, ela começou a chorar. E, à medida

que o seu autodomínio se desmoronava, Aysel entregou-se a um grito longo e horrível.

Eram seis e meia quando chegaram a Yerebatan Saray, a cisterna mais explorada e rentabilizada de toda a cidade. De início, Ikmen pensou que, por razões que o seu

cérebro confuso e desgastado já não conseguia sondar, iam para o apartamento dele, que ficava ao virar da esquina a seguir à cisterna. Mas um Ardiç sombriamente

determinado, que, estranhamente, conduzira ambos para lá, tinha outras ideias.

Quando pararam no exterior do pequeno e pouco atraente edifício que serve de entrada para a cisterna, o comissário virou-se para Ikmen e disse:

- O meu irmão vai abrir para nós. Ele é o guarda.

Ikmen, que nunca pensara na família de Ardiç para além da mulher e dos dois filhos gémeos horrivelmente obesos, ficou ligeiramente surpreendido. Ardiç parecia tão

bem provido de dinheiro, com a sua casa em Búyúkada e as suas conversinhas com o presidente da câmara e outros dignitários. Era estranho pensar que o irmão vendia

bilhetes a turistas e limpava a água que constantemente gotejava do tecto da cisterna para as veredas por baixo. Talvez, se ele tivesse sorte, o deixassem pôr a

música que acompanha as luzes coloridas que percorrem de alto a baixo as filas de antigas colunas fantasmagóricas. Mas esta desigualdade entre irmãos não era um

fenómeno assim tão estranho. O seu próprio irmão era um contabilista muito rico e bem relacionado, enquanto que ele - bem, ele fazia como sempre fizera e lá ia dando

conta do recado: com o emprego, com os filhos que nunca mais acabavam, com a falta de dinheiro.

- Vamos - disse Ardiç, e abriu a porta do carro do lado de Ikmen. Em vez de ter saído com um passo, Ikmen escorregou para o passeio, uma pequena figura que mais

parecia um cadáver, os olhos tão cansados que só lhes faltava desaparecer. Uma magra versão do seu superior incitou-os a descerem à cisterna, onde - de uma forma

bastante simoática, pensou Ikmen - o outro Ardic acendera todas as

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luzes coloridas, tendo acrescentado uma música clássica ocidental que ele não reconheceu. Era agradável e o som não estava muito alto. A música também fornecia alguma

camuflagem para o som potencialmente irritante da água a gotejar. Sustentado por trezentas e trinta e seis colunas de oito metros de altura, este vasto espaço fora

especificamente construído para fornecer água ao Grande Palácio dos Bizantinos. Um vasto complexo imperial e administrativo, o Grande Palácio situava-se ao lado

do Hipódromo e cobria aquela parcela de terra a que agora se chama Cankurtaran. Agora pouco resta lá da velha Bizâncio, para além do magro fragmento de muro que

é o Palácio Bukoleon, antro de alcoólicos e marginais, apenas a minutos de distância da casa de Ahmet Silay, a pretensa estrela de cinema. A medida que Ikmen descia

as escadas que davam acesso à cisterna, pensava quanto era estranho que Ahmet Silay e, na verdade, a lembrança daquela cisterna bastante diferente onde tinham encontrado

o corpo da pequena Hatice, pareciam agora tão distantes. Até certo ponto, a natureza do que ele estava a fazer e o motivo por que o estava a fazer tinham mudado.

Fora introduzida uma nova dimensão, grande parte da qual ele não compreendia. Ardiç sentou-se a uma das pequenas mesas na área do café e indicou a Ikmen que se lhe

juntasse.

- Osman está a fazer-nos café e depois vai-se embora - disse Ardiç, ao mesmo tempo que Ikmen se deixava cair pesadamente na cadeira em frente. - Terá de voltar às

oito, para abrir como deve ser, o que nos dará quase uma hora e meia.

Ikmen levantou os olhos, uma expressão dolorosa no rosto.

- Para quê? - disse. - O que é agora?

Se não estivesse tão exausto, teria embelezado um pouco mais o discurso em benefício do seu superior. Mas não dormira, acabara de dizer a Aysel Tepe que o marido

estava morto, e estava confuso. Acontecera algo de terrível e, embora ele tivesse algumas ideias sobre os motivos, sentia que realmente não sabia nada.

Ardiç pigarreou.

- Quando Osman se tiver ido embora, conversamos - disse ele. - Só tu e eu. Nada de notas, nada de gravações, apenas uma conversa que nunca terá acontecido e de que

nunca se voltará a falar.

- Mais mistério - Ikmen acendeu um cigarro e baixou sombriamente o olhar para o chão húmido. Bem, pelo menos estava fresco na cisterna, e isso já era bom.

Osman Ardiç aproximou-se com duas chávenas, uma cafeteira, leite e açúcar. Não falou, sorriu apenas ao irmão e foi-se embora.

Mal ele desapareceu, Ardiç deitou café para ambos e acendeu um charuto. Deixou cair suavemente o seu imenso corpo na cadeira até estar confortável e olhou para Ikmen.

- Preciso de saber tudo o que sabes, Ikmen - disse.

- O que quer dizer com isso?

- Sei que tu, Suleyman e Iskender estiveram no Parque Yildiz ontem à noite, quando aconteceram certos incidentes.

- Quer dizer, quando algo de terminal aconteceu ao meu sargento? - Ikmen pensou em acrescentar a isso o facto de que Suleyman, e possivelmente Iskender, tinham sido

drogados, mas achou melhor não o fazer.

- Orhan Tepe fazia parte da folha de pagamentos dos Múren.

- Presumivelmente entrou lá através de Hassan Seker - Ikmen suspirou. - Presumo que foi Tepe que lhe disse que eu andava ainda atrás do pasteleiro. Tepe era pago

para assegurar que não perseguíamos Seker relativamente ao caso Hatice Ipek.

- Ele mostrava-se muito solícito e queria fazer o possível pela organização - disse Ardiç. - Tepe tinha muitas despesas e, por isso, faria quase qualquer coisa por

dinheiro. Imagino que a senhora Tepe ficou contente com a tua versão dos acontecimentos, Ikmen.- Sim - respondeu o inspector com voz fraca. O que ele dissera a Aysel

Tepe fora simpático e necessário, mas não gostara de o fazer.

- Disse-se à comunicação social que os nossos homens estiveram envolvidos ontem à noite num tiroteio com várias famílias criminosas lá em cima, no palácio - continuou

Ardiç num tom despido de emoção. - Um importante criminoso de origem búlgara morreu. Nós sofremos uma baixa, mas, para além disso, a operação foi um êxito.

- Até que os assassinos de Zhivkov comecem a apanhar os nossos homens na rua.

- Isso não vai acontecer - Ardiç fez uma pausa para tomar mais um pouco de café.

- Porquê? Estão todos mortos, é isso? - Ikmen sorriu pretensiosamente perante o absurdo da ideia.

Ardiç fixou-o com olhos muito sérios.

- Sim - disse -, estão.

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Ikmen fez uma pequena pausa antes de responder:

- E nós... - parou, como se as palavras lhe tivessem ficado presas na garganta.

- Sim, também fizemos isso - Ardiç desviou os olhos, como fazem as pessoas quando mentem.

- Bem, isso é que nós estivemos ocupados, não foi? - disse Ikmen causticamente. - Faz-nos pensar que, se somos tão bons, por que esperámos tanto tempo? Podíamos

ter acabado com Zhivkov e os amigos há muito tempo, não podíamos? Meu...

- Sim, está bem, Ikmen, penso que sei onde queres chegar! Ikmen provou o seu café e, achando-o bastante amargo, deitou

três grandes colheres de açúcar na sua chávena. Terminou o cigarro e acendeu outro.

- Sendo assim, estou preparado para aceitar que tratámos dos homens de Zhivkov - disse ele -, e que ambos sabemos, você por meios que eu ainda não compreendo muito

bem, que eu estive em Yildiz ontem à noite; isso só deixa uma pergunta no ar: quem eram os homens vestidos com roupas ao estilo de Forças Especiais?

- Não sei.

- Oh, não me venha com essa!

- Não, a sério, juro com a mão no Santo Corão.

- Estiveram totalmente invisíveis até ao último minuto, estavam armados de quase tudo com que uma pessoa pode estar armada, falavam em inglês entre si...

- Não sei quem eles eram!

- Deve saber!

Ardiç, furioso, inclinou-se sobre a mesa, aproximando-se de Ikmen.

- Não sei - disse com firmeza -, porque nunca perguntei! Não quero saber e tu também não! - Tão rapidamente como crescera, a fúria de Ardiç voltou a diminuir. -

Agora tenho de saber se Hikmet Sivas falou contigo.

De imediato, a defensiva de Ikmen activou-se.

- Falou comigo quando?

- Quando estavas escondido naquela sala com ele ontem à noite.

- Oh, com que então até sabe o local exacto onde eu estava no interior do edifício.

- A única razão por que ainda estás vivo é porque eu sei, Ikmen. Os dois homens olharam-se por um momento, à medida que

o alcance do que acabara de ser dito chegava à mente de Ikmen.

- Ele falou-me de umas fotografias que tinha tirado a pessoas importantes envolvidas nesta coisa do Harém. - Olhou Ardiç directamente nos olhos. - Presumo que saiba

disso.


- Um ponto de encontro sexual exclusivo dos ricos e poderosos, sim - respondeu Ardiç, uma expressão de extrema repugnância no rosto. - Iniciado por Hikmet Sivas

para continuar a sua carreira.

- Ele disse-me que o irmão, Vedat, vendeu efectivamente o Harém a Zhivkov. É verdade?

- Sim.


- E o que ele também vendeu foi a promessa dessas fotografias, que, tanto quanto eu entendo, Hikmet tinha tirado como um género de seguro contra estes homens, caso

eles tentassem ver-se livres dele.

Ardiç acenou com a cabeça.

- Hikmet Sivas envolveu-se com algumas pessoas muito perigosas para poder continuar a sua carreira. Tinha de ter seguro.

- Ele só se envolveu com elas porque era turco - respondeu Ikmen amargamente.

- O que queres dizer com isso?

- Sivas contou-me que, quando chegou pela primeira vez a Hollywood, ninguém o recebia. Ninguém. Era bem-parecido, jovem, sabia falar inglês, estava disposto a fazer

qualquer coisa, mas ninguém o recebia. - Ikmen pegou na sua chávena e esvaziou o que restava do seu café. - E mesmo quando um deles o recebeu, tudo o que lhe interessava

eram os nossos haréns, ou melhor, a sua concepção deles. Hikmet Sivas criou o Harém para poder começar. O preconceito com que deparou é nojento!

- Concordo - respondeu Ardiç. - Mas isso não significa que ele não tenha culpa. Ele não devia ter feito o que fez. Morreram duas mulheres por causa dele, já para

não falar de Tepe e... de alguns outros.

- Zhivkov.

- E Ali Múren e outra escumalha do género, sim.

Ikmen serviu-se de mais café, que voltou a carregar de açúcar.

- E Muazzez Heper - acrescentou com amargura. Ardiç suspirou.

- Sim.


336

Lenta e fatigadamente, Ikmen abanou a cabeça.

- Sabe, penso que Hikmet não me disse tudo sobre a morte de Hatice.

- E queres que eu te diga? - perguntou Ardiç.

- Bem, sabe alguma coisa?

- Penso que sim - disse. - Foi Zhivkov e os seus homens. Ao contrário dos irmãos Sivas, Zhivkov adquiriu um papel activo no recrutamento de raparigas para o Harém.

Ekrem Múren e o irmão foram instruídos pelo pai para procurarem raparigas adequadas. Não lhes disse porquê. Segundo o meu entendimento das coisas, Ekrem viu Hatice

napastane quando foi receber dinheiro de Seker. Parece que Seker a entregou, mesmo estando ele próprio a usá-la. Mas não se dizia "não" a Zhivkov, pois não? Eu só

soube isto quando começámos a trabalhar realmente no desaparecimento de Sivas.

- Quando foi a Ancara?

- Tu foste afastado do caso Sivas precisamente por causa do que estás a fazer agora, Ikmen.

- O quê?


- A fazer perguntas - Ardiç voltou a acender o charuto e sorriu. - Vou dizer-te o que posso e depois talvez tu pares, para teu próprio bem, assim como para o meu.

Combinado?

- Possivelmente - disse Ikmen, deixando as suas opções em aberto.

Ardiç suspirou.

- Zhivkov surgiu em cena há cerca de um ano atrás. Começou a gerir o Harém com Vedat segundo as suas próprias regras, que incluíam chantagem. Os amigos americanos

de Hikmet não gostaram dos métodos de Zhivkov, mas só quando Hatice Ipek morreu é que Hikmet foi obrigado a vir a Istambul para tentar recuperar o controlo do Harém

e tranquilizar os seus associados americanos. Houve ainda outra razão pela qual Vedat tinha contado a Zhivkov sobre as fotografias algum tempo antes. Tinha aparecido

um homem suficientemente poderoso para as conseguir e para as usar da forma que Vedat queria, para ganhar poder. Hikmet não tinha falado nas fotografias aos seus

amigos americanos mafiosos nem a quaisquer outros; eles tê-lo-iam morto se tivessem sabido, mas depois de Kaycee ter sido assassinada e de ele vos ter fugido, Hikmet

voltou a telefonar ao homem que dizia

o PIAREM

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ser seu agente, G, e contou-lhe sobre as fotografias. Pouco depois, Zhivkov capturou Hikmet e, confiante de que ele lhe daria as fotografias, fez com que Vedat convidasse

alguns dos patrões do crime para aquilo que era, na realidade, um leilão em Yildiz. G, entretanto, com a ajuda de um desses patrões e de uma boa dose de, digamos,

influência, estava a planear uma solução mais permanente para o problema. Chegaram alguns indivíduos armados, enviados por uma fonte desconhecida, o pessoal do Malta

Kiosk foi instruído por mim próprio para que não deixasse o edifício fechado à chave, e estava tudo montado.

- Mas quem são essas pessoas? Quem é G?

- Lá estás tu outra vez, a fazer perguntas - Ardiç pegou na cafeteira e voltou a encher a sua chávena de café, oferecendo mais a Ikmen, que recusou. - Não sei, Ikmen.

São pessoas. Eu não faço perguntas. Fui colocado à frente desta operação, do nosso lado, porque não faço perguntas.

- Sivas e todos os seus associados são americanos, por isso...

- As minhas ordens chegavam através de muitos intermediários, de pessoas que ocupam cargos tão altos que nem se pode imaginar quem possam ser - disse Ardiç -, razão

pela qual tu e eu estamos a ter esta conversa numa atracção turística húmida e não na esquadra nem na minha casa ou no teu apartamento.

De súbito, Ikmen sentiu que a temperatura descia nitidamente vários graus. A mão tremeu-lhe ligeiramente quando levou o cigarro aos lábios.

- Os "homens de negócios" com quem estas pessoas normalmente se juntam são perversos - continuou Ardiç -, mas nós, o mundo, compreendemo-los e eles compreendem-nos.

Podem traficar droga, extorquir dinheiro, colocar as suas marionetas em posições de poder. Mas foi sempre assim. De vez em quando, podem decidir fazer chantagem

com pessoas aos olhos de toda a gente, mas fazem-no de acordo com certas regras que compreendemos muito bem. Zhivkov, por outro lado, não sabia as regras, agiu precipitadamente

e era extremamente ganancioso...

- O meu apartamento está sob escuta? - interrompeu Ikmen.

- A chantagem constituía obviamente uma atracção, mas o receio era que ele pudesse não estar acima da tentação de tentar vender aquelas fotografias a governos que

estão, digamos, fora Ho negócio

338 339

para obter armas em que nem sequer quero pensar. Zhivkov era um psicopata ambicioso e sem escrúpulos.

- Não respondeu à minha pergunta. O meu apartamento está...

- Não sei! - explodiu Ardiç. - Mas eu não estava preparado para correr esse risco! Se eles soubessem que tu tinhas conhecimento destas coisas, matavam-nos aos dois!

- Então por que me está a contar?

- Porque sei como tu és! Sei que vais continuar a cavar até que alguém, em qualquer sítio, te estoire os miolos! - Levou uma mão à testa a transpirar e sacudiu o

suor para o chão. - Eles sabiam que podias estar nos terrenos do palácio e tinham tomado a tua presença em consideração. Tudo decorreu de acordo com o plano.

- O quê? Até Tepe? Você deixou Tepe...

- Tepe não era para morrer. Pedi que mo entregassem depois da operação - Ardiç abanou pesarosamente a cabeça -, mas eles abateram-no.

- E o general Pamuk?

- Penso que é melhor passarmos por cima da ligação que poderá ter existido entre o general e Zhivkov e companhia. Mas digamos apenas que Zhivkov queria algo dele

e que era um pedido que ele não podia recusar. No entanto, sem que Zhivkov soubesse, G, através de fontes deste lado, também tinha entrado em contacto com Pamuk.

O general concordou prontamente em passar informações sobre a disposição da sala, quem ia armado, etc, às forças que, no fim, tomaram o quiosque.

- Mas você disse que um dos estrangeiros sabia o que ia acontecer...

- Sim. Mas, obviamente, ele não estava na mesma posição que Pamuk, que, depois de ter dado a Zhivkov o que quer que fosse que ele queria, podia sair. Todos os estrangeiros

deixaram o país em segurança há algumas horas.

- Então - começou Ikmen -, isso que Zhivkov queria do general Pamuk...

- Se eu fosse a ti, Ikmen, não pensaria nisso - disse Ardiç com firmeza.

Os dois homens deixaram-se cair num silêncio desconfortável.

Ikmen olhou em redor, para as colunas antigas e húmidas, e pensou - já não era a primeira vez que o fazia - na vasta história de sigilo que crescera nesta cidade.

Se tinham sido os Gregos, que tinham sido famosos em todo o mundo devido aos seus espiões bizantinos, a iniciarem esta tradição, ele não sabia. Mas, desde então,

certamente que se tinha alastrado, passando de poder para poder. Talvez as pessoas fossem buscar as suas deixas às estruturas - palácios labirínticos, vastas e impenetráveis

cisternas subterrâneas, locais onde, literalmente, corpos podiam ser escondidos por bandidos e, Ikmen não podia deixar de pensar, por generais também.

- Os irmãos Múren colocaram o corpo de Hatice naquela cisterna em Túrbedar Sokak porque sabiam da sua existência através da vizinha da avó - disse Ikmen, voltando

atrás, ao assunto da filha morta da sua vizinha. - Quem quer que o tenha feito deixou-a lá com muito cuidado. Gostaria de falar com Ekrem e Celal.

- Não te vou impedir desta vez - disse Ardiç. - Da última vez estiveste um pouco demasiado perto. Não nos podíamos dar ao luxo de alarmar ninguém naquele estádio

das coisas. Mas os irmãos Múren não fizeram mal à rapariga. Foi Zhivkov, isso nós sabemos.

- Ele matou Kaycee Sivas - disse Ikmen.

- Assim que a apanhou na rua, aparentemente - respondeu Ardiç. - Pobre mulher. Zhivkov gostava de cortar cabeças. Se não tivéssemos chegado, Hikmet Sivas teria recebido

esse presente mal entrasse na suayah. Assim, Zhivkov teve de ser bastante mais cuidadoso com a sua entrega e usou a velha passagem que descobriste para a fazer chegar

até ele. Não tenho a certeza se Vedat Sivas sabia ou não que era esse o plano. Mas ambos os homens saíram pela passagem, por isso era óbvio que ele sabia que ela

estava ali. Deve ter contado a Zhivkov sobre a existência dela.

- E onde está Hikmet agora?

- A caminho dos Estados Unidos - respondeu Ardiç -, onde alguém, sem dúvida, o aliviará de algum do peso daquelas fotografias.

- E o mundo voltará a ficar livre de megalomaníacos - disse Ikmen numa voz carregada de ironia. - E tudo devido àqueles turcos sempre antiquados.

Ardiç encolheu os ombros.

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- Olha para os nossos vizinhos e pergunta-te se nos poderíamos dar ao luxo de ter alguém como Zhivkov por aí à solta com, bem, deixa-me ver, antravaríola...



- Acredita sinceramente que aquelas fotografias valem assim tanto? - disse Ikmen, franzindo o sobrolho. - O que eu quero dizer é que, se o Presidente Clinton pode

confessar, na televisão, que teve sexo oral com uma rapariga qualquer na Sala Oval e sobreviver, certamente que aquelas fotografias não vão derrubar governos.

- Mas nós não vimos Clinton a fazê-lo, pois não? - respondeu Ardiç com um pequeno sorriso. - Nas fotografias poderíamos ver muitos príncipes e presidentes.

- Ainda não estou completamente convencido - disse Ikmen. - De início estava, mas ao pensar seriamente nisso, sinto que deve haver mais qualquer coisa que explique

todo aquele trabalho e esforço. Ainda há alguma coisa escondida.

- Não sei - disse Ardiç -, mas não vás à procura de nada. A partir de hoje temos de pôr uma pedra em cima deste assunto.

- Para que o mundo civilizado possa viver no seu habitual estado de ilusão. Para que as pessoas que nos controlam possam continuar a controlar-nos.

- Sim.


Ikmen cruzou os braços e recostou-se na cadeira, ficando a olhar para cima, para as cúpulas de espinha de arenque.

- Sabe, comissário - disse -, um dia alguém não vai querer saber o que pessoas como nós, ou essas outras pessoas sem nome de que você fala, possam pensar ou fazer

em relação às actividades deles. • Um dia, alguém vai tentar mudar isto tudo, e vão fazê-lo de tal forma que não poderemos fazer nada para o impedir. Estas pessoas

que decidiram matar um jovem polícia, ainda que desencaminhado, em nome de receios pela sua própria segurança não deviam estar onde estão hoje.

- Estás a dizer que pessoas como Zhivkov deviam?

- Não - baixou o olhar. - Estou a dizer que não há verdadeiramente certo nem errado quando se trata de poder. Estou a dizer que desejava que o meu país, e todos

os outros, pudessem ser verdadeiramente independentes, para que não pudéssemos todos ser manipulados pelos chamados "homens de negócios" e pelos seus lacaios e moços

de recados. - Soltou uma gargalhada súbita e impregnada de fleuma.

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- Pareço um daqueles teóricos loucos que engendram conspirações, não pareço? - Mas depois, igualmente de súbito, o rosto tornou-se-lhe sério. - Mas se aquilo de



que temos estado a falar for verdade...

- Penso que é melhor voltarmos agora para a esquadra - disse Ardiç. - Podemos precisar de responder a algumas perguntas sobre a operação bem sucedida de ontem à

noite contra a organização Zhivkov/Múren. Dei instruções para que falassem com a senhora Iskender e a doutora Halman, mal elas chegassem ao Admirai Hospital.

Ikmen adquiriu uma expressão profundamente céptica.

- E os inspectores Suleyman e Iskender? Eles sabem...

- Eles saberão apenas o que eu mandei que soubessem - disse Ardiç friamente. - Eles repetirão palavra por palavra o que eu lhes disse enquanto tu estavas com a senhora

Tepe.

- Mas Suleyman estava quase em coma!



- Sim, de onde já saiu - Ardiç deu início ao longo e laborioso processo de se levantar. - Há certas drogas, sabes...

- Sim, sei - disse Ikmen, levantando-se e aproximando-se do seu superior para o ajudar a voltar à posição vertical. Os dois homens olharam-se por breves instantes

e afastaram-se um do outro.

- Não fales destas coisas com Suleyman.

- Não, comissário. Prefiro que ele continue vivo.

- Óptimo - Ardiç sorriu e começou a encaminhar-se para as escadas. - Tens de pensar em quem queres que substitua Tepe disse. - Sei que podes pensar que ainda é um

pouco cedo...

- Gostaria que fosse alguém em quem eu possa confiar - disse Ikmen, alcançando o comissário. - Penso que uma mulher seria boa ideia.

- Espero que não vás sugerir a adúltera Farsakoglu - respondeu Ardiç causticamente.

- Ela é uma boa agente.

O homem corpulento estacou e olhou para baixo, para o seu subalterno, com uma expressão muito dura.

- Espero bem, Ikmen - disse -, que este seja apenas mais um exemplo do teu peculiar sentido de humor. - Virou-se e recomeçou a subir as escadas.

Ikmen, seguindo-o, disse:

- Penso que não é mais divertido do que a ideia de que o meu apartamento possa estar sob escuta.

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Ardiç continuou a subir, as costas largas a avançarem à frente de Ikmen.



- Ah, mas tu só falas de assuntos de família lá, não é verdade? Tal como eu faço.

Ikmen levou as mãos à cabeça cansada e esfregou a testa.

- Sim, comissário - disse.

Mas, ao sair da cisterna, Ikmen sentia-se com se tivesse sido violado. Enganado, sob escuta, os seus homens atacados, um deles morto, e para quê? Ainda não sabia

bem. Pessoas poderosas, algures, tinham estado em perigo e o afastamento desse perigo custara-lhe o que se assemelhava muito à sua inocência. Não, não voltariam

a falar do assunto. Ele iria prender os irmãos Múren, durante uns tempos sentir-se-ia pouco à-vontade na companhia de Suleyman e Iskender, e depois a vida continuaria

como normalmente, restabelecida a ilusão. Mas havia ainda mais uma coisa que ele tinha de dizer antes de deixar a dúbia protecção da cisterna - algo que ele tinha

de pôr cá para fora enquanto ainda podia.

- Quero que saiba, comissário, que considero e que irei sempre considerar a morte de Tepe uma execução - disse.

Ardiç parou, mas não respondeu. Ikmen fixou as costas do seu superior.

- Pensei que devia saber - disse através de dentes cerrados. Só para o caso de ter oportunidade de passar isso a alguém poderoso de que não saiba nada.

CAPÍTULO VINTE SETE

Fatma, as mãos nos quadris, levantou o olhar furioso para a rapariga.

- Não disseste ao teu pai. Esqueceste-te - disse com voz firme. Hulya mordeu o lábio inferior e pousou os olhos no chão.

- Sim.

- Então onde é que ele está?



- Não sei - respondeu Hulya calmamente. - A doutora Halman telefonou e ele teve de sair.

Fatma virou-se para ficar de frente para o homem de meia-idade, alto e pálido, que estava atrás dela, e disse:

- Eu não te disse? Nunca aqui está!

- Se ele tivesse sabido que vinhas... - Começou Hulya a dizer.

- Oh, admito que poderia haver alguma hipótese de ele estar algures nas proximidades - disse Fatma -, mas quando o teu pai sai para ir salvar o mundo, quem sabe?

- Bem, agora já cá estamos, não estamos? - disse o homem, sentando-se numa das cadeiras da sala de estar e fechando os olhos. Não há problema, a sério, Fatma.

O som de vozes e pés de crianças pairava no ar quente, vindo de outras áreas do apartamento mais distantes.

Fatma, agora mais calma, sentou-se ao lado do homem e pegou-lhe numa mão.

- Desculpa, Talaat.

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- Não é preciso pedires desculpa. - Abriu os olhos novamente e sorriu. - Apanhámos um táxi no terminal dos autocarros, e está tudo bem.

Talaat Ertugrul era cinco anos mais novo do que a irmã Fatma. Não que isso saltasse à vista. Magro e exibindo os primeiros sinais pálidos de icterícia, Talaat envelhecera

consideravelmente nos três meses que tinham passado desde que o seu estado fora diagnosticado. Sem ser já o libertino dos velhos tempos, amante de esqui aquático

e pára-quedista, as rugas que, quase do dia para a noite, lhe tinham aparecido no rosto eram uma prova tangível de que este era um homem que não só aceitara a ideia

da sua própria mortalidade, mas que esbarrara com ela algumas vezes também. E por mais que ela não tivesse concordado com a sua anterior vida de solteirão extravagante,

Fatma detestava vê-lo assim, detestava pensar onde toda esta dor iria levar.

Hulya, que estivera demasiado nervosa para se aproximar da mãe, sentava-se agora a seu lado.

- Mãe? Desculpa.

Fatma virou-se para ela, desaparecida a raiva. Estendeu a mão e tocou o rosto da filha com ternura.

- Também peço desculpa, Hulya - disse. - Sei como é difícil primeiro encontrar o teu pai e depois fazer com que ele ouça.

- Búlent tirou a maior parte das suas coisas do quarto - disse Hulya -, embora ainda haja cartazes do Galatasaray nas paredes.

- Bem, como apoiante do Besiktas de uma vida inteira - disse Talaat com ar sério -, eu devia mesmo fazer com que ele os tirasse.

- Oh.

- Mas não vou fazer isso - riu com suavidade. - Afinal, é só futebol.



- Não deixes que Búlent te ouça dizer isso - respondeu Fatma abruptamente. - Para aquele rapaz, é como uma religião. Para tantos homens é como uma religião.

- Oh, não sei - disse Hulya, a sorrir, agora que já deixara de ser o objecto da ira da mãe. - O pai nunca teve tempo para isso e Sinan detesta-o. Berekiah diz que

é como uma versão moderna do que acontecia dantes no Hipódromo, gladiadores e multidões violentas e essas coisas. Concordo totalmente com isso.

Fatma, que há muitos anos deixara de ser adolescente, sentiu, mesmo assim, que se lhe arrepiava a pele na parte de trás do pescoço. Mencionar o nome de um rapaz,

em combinação com o respeito pela sua opinião e corar, ao mesmo tempo, queria dizer alguma coisa.

- Berekiah Cohen? - perguntou calmamente.

- Sim - disse Hulya, desviando-se ligeiramente da mãe. Fatma e Talaat levantaram as respectivas sobrancelhas em simultâneo.

- Às vezes Berekiah traz-me a casa depois do trabalho - continuou a rapariga. - O pai tem estado tão ocupado.

- Humm, bem, é muito nobre da parte de Berekiah vir todo o caminho desde Karakoy até aqui só para te acompanhar durante alguns metros.

- Houve uns crimes horríveis por aqui, bem sabes! - exclamou Hulya.

- Sim, o teu pai contou-me, e nós as duas falámos da pobre Hatice.

- Então sabes que...

- Sei que a minha filha está embevecida com um rapaz judeu. As faces de Hulya incendiaram-se.

- Mãe!


- Não vamos falar disso agora, Hulya - disse Fatma com firmeza. - Penso que deves é ir fazer chá para o teu tio.

- Mas...


- Isso seria muito agradável - disse Talaat com um sorriso. Por um momento, Hulya pensou em levar a discussão mais à frente,

mas depois mudou de ideias. A mãe, por enquanto, ainda não se tinha enfurecido, como ela imaginara que iria acontecer, por isso Hulya decidiu aceder ao seu pedido

o mais obsequiosamente possível.

- Com certeza - disse, levantando-se.

- Obrigado - disse Talaat com um sorriso.

Quando Hulya saiu, o rosto de Fatma adquiriu uma expressão tensa. Mas não discutiu com Talaat o que acabara de acontecer entre si e a filha. Ele, pobre alma, já

tinha muito com que se preocupar. Afinal, sem que Hulya, Çetin ou quaisquer outros membros da família - para além dela própria e de Talaat - soubessem, o irmão não

voltara a Istambul para tratamento nenhum. Fizera tudo o que podia ter feito, e nada resultara. Talaat Ertugrul viera para casa para morrer.

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Ikmen estava no seu gabinete havia apenas cinco minutos, quando lhe disseram que tinha uma visita. De início estava relutante em receber alguém, e muito menos uma

jovem mulher chorosa (outra das conquistas de Orhan Tepe, talvez?). Mas quando soube o nome da pessoa, tudo isso mudou.

- Por favor, entre e sente-se, senhora Seker - disse, enquanto segurava a porta aberta para permitir que a mulher jovem de rosto manchado de lágrimas entrasse. -

Posso arranjar-lhe um chá ou...

- Inspector Ikmen, sei que deixei ficar mal o inspector Suleyman, mas preciso da sua ajuda - disse Suzan Seker, sentando-se em frente da enorme quantidade de papéis

e de cinza de cigarro que cobria o tampo da secretária de Ikmen. - Pensei muito no assunto e ouvi ontem à noite nas notícias o que aconteceu lá em cima no Palácio

Yildiz.


- Sim? - Ikmen, franzindo o sobrolho, sentou-se à sua frente.

- Inspector, os Múren venderam o interesse que tinham no meu negócio a uma família de azeris.

- Como é que soube disso, senhora Seker?

Ela baixou o olhar para as mãos e, embora, de facto, já não estivesse a chorar, tinha os olhos húmidos.

- Ekrem e Celal foram visitar-me - disse. - Disseram-me que já não precisavam do meu negócio e que o tinham vendido.

- Estou a ver. E essa nova família mafiosa contactou-a?

- Não, mas...

- Quando o fizerem, a senhora quer que estejamos à espera deles. Ela levantou o olhar, o rosto contorcido de raiva.

- Eu nunca serei livre a não ser que vocês o façam! Eles levaram Hassan a matar-se! Ekrem Múren obrigou-me a fazer uma coisa nojenta! Como é que eu vou saber se

essas outras pessoas não o farão também?

Ikmen suspirou.

- Não pode saber.

- Vocês esmagaram completamente aquela família de mafiosos que estava a usar o palácio. Mataram Ali Múren! Para ser sincera, nunca tive confiança na polícia, mas

as vossas acções de ontem à noite fizeram com que eu mudasse de opinião.

Ikmen sorriu. Não queria discutir a operação da noite anterior, mas, ao mesmo tempo, não queria dissuadir esta mulher de tomar uma atitude que poderia melhorar tanto

a sua vida como a sua conta bancária. Suzan Seker, pobre mulher, já tinha sofrido bastante.

- Essa coisa nojenta de que fala...

- Não quero falar disso! - Desviou o rosto do dele, em direcção

à janela.

- Vai ter de o fazer, se o caso chegar a tribunal, senhora Seker.

- Ekrem Múren obrigou-me a chupá-lo! - Olhou o rosto de Ikmen em jeito de desafio, os lábios cerrados de indignação. - Foi isso!

Ikmen, fatigado, esfregou a testa com as mãos.

- Peço desculpa, senhora Seker. Mas eu tinha de perguntar.

- Sim, eu sei - Fez uma pausa para limpar os olhos e recuperar a compostura. - E então?

- E então, desde que esteja disposta a testemunhar contra eles, vou ordenar a prisão de Ekrem e Celal Múren. Vou interrogá-los e irei descobrir o nome da família

a quem Ekrem vendeu o seu negócio. Mas tem de estar disposta a seguir com isto para a frente, e deve estar preparada para a atenção, nem sempre agradável, que isto

trará à senhora e à sua família. - Olhou-a fixamente. - Pense bem.

-Já pensei - respondeu Suzan com vivacidade - e quero fazê-lo. Hassan deixou que essas pessoas o comandassem como se fosse um fantoche de Karagoz, e depois, quando

já não aguentava mais, matou-se! Eu não quero ser assim, inspector. Não quero deixar aos meus filhos um negócio que não é realmente meu.

- Não. Não, é claro que não quer - Ikmen baixou o olhar para as mãos.

Sentia-se tonto de cansaço. Esta mulher tinha coragem. Ao fazer o que se propunha fazer, estava a sujeitar-se à intimidação por parte da família de azeris e à vergonha

que a sua confissão lhe traria. E queria fazê-lo com base no que era, na realidade, uma mentira. Aqueles que tinham morto Ali Múren e os outros não tinham nada a

ver com ele nem com os seus homens, ele nem sequer sabia quem eles eram, só sabia que tinham sido bem sucedidos na protecção daqueles que faziam o que tinham feito

a Suzan Seker, só que a um nível mais alto. Bandidos bons contra bandidos maus, mas eram todos os mesmos, no

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final de contas. De alguma forma, ele tinha de deixar de pensar nisso agora. Pensar podia levar a palavras irreflectidas, a actos insensatos. Os irmãos Múren não

sabiam nada sobre o Harém, mas deviam estar muito confusos na sequência das mortes do pai e de Zhivkov. Esta era uma excelente altura para os apanhar por extorsão

e estupo.

Ikmen levantou do descanso o auscultador do telefone e discou um número.

- Vamos pôr isto em andamento - disse, ao mesmo tempo que tirava um cigarro do maço e o acendia.

Suzan Seker sorria.

Dizer que há muitos escritórios de advogados em Los Angeles é como dizer que Istambul tem algumas mesquitas. As estrelas, apesar de todo o dinheiro, poder e influência

de que dispõem, precisam, mesmo assim, de ser representadas por pessoas qualificadas no campo da lei, caso as suas fascinantes vidas tomem viragens inesperadas e

confusas. O homem empenhara-se em saber todos os nomes mais prestigiados; sabia onde todos eles trabalhavam, viviam e praticavam jogging. Falara até com alguns deles

durante o tempo em que trabalhara no caso Sivas. Nenhum deles sabia nada sobre Hikmet Sivas nem sobre as suas fotografias.

O turco, segundo parecia, confiava pouco em advogados. As fotografias estavam onde aparentemente sempre tinham estado: no fundo de uma velha caixa de papel de carta,

dentro do armário que Hikmet Sivas tinha ao lado da cama.

- Guardava-as aqui? - perguntou, enquanto desarrumava a grande pilha de fotografias, na sua maioria a preto e branco.

- Sim.

Embora fosse o seu quarto e o homem estivesse sentado na sua cama, Hikmet sentia-se relutante em sentar-se a seu lado. Em vez disso, sentou-se em frente dele, numa



cadeira de verga; pela janela, por detrás da cabeça do homem, via o topo das suas palmeiras.

- Eu não disse a ninguém onde elas estavam - continuou Hikmet. - Nem sequer a Vedat. Pensei que assim era mais seguro - riu, mas sem humor.

O homem mexia e remexia, os olhos fixos nas imagens, que mostravam actos por vezes estranhos, outras vezes sensuais, muitas vezes desagradáveis e sádicos. A única

coisa que tinham em comum para além do sexo, era que os intervenientes masculinos eram todos conhecidos. Imagens deles mais oficiais tinham aparecido nos jornais

de todo o mundo ou em ficheiros mantidos por organizações de investigação criminal. A medida que remexia nas fotografias, o homem tentava calcular quanto poderia

valer uma colecção como esta para o seu proprietário e decidiu que era totalmente incalculável.

- Espanta-me que nunca tenha tentado usar nada disto, Hikmet - disse. - Podia ter-se tornado bilionário.

- Tenho o bastante para as minhas necessidades - respondeu Hikmet com firmeza. - Como disse antes, só as tirei para proteger a minha vida aqui. Era a única forma

de poder assegurar que um jovem turco fosse ouvido e respeitado

- Mas nunca teve de as usar, certo?

- Certo. Mas nunca sabia se teria de o fazer. Tinha de me proteger. O homem levantou o olhar e mostrou um sorriso forçado.

- Nesse caso, é uma pena o que o seu irmão fez.

- Eu nunca lhe devia ter contado o que estava a fazer. - Abanou a cabeça. - Nunca devia ter permitido que ele gerisse o Harém sem mim.

- Vedat também tirava fotografias?

- Ultimamente, sim. Estava tudo bem com ele até conhecer Zhivkov.

- Como é que eles se conheceram? Sabe? Hikmet suspirou.

- Numa pequena rua de bares a que chamamos Çiçek Pasaj disse com ar fatigado. - Vedat sempre lá foi. Mas nos últimos anos também lá vão muitos bandidos, sobretudo

estrangeiros.

O homem baixou o olhar e começou novamente a remexer nas fotografias, a testa coberta de rugas de concentração.

- Então foi como um acaso, uma coincidência.

- Sim.

- Não, Hikmet.



- O quê?

- Não há coincidências - disse o homem rudemente. - Isto pode ainda levantar a cabeça e morder-nos no traseiro, a não ser que

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atemos todas as pontas soltas. - Fez uma pausa, erguendo uma única fotografia em frente do rosto. - Oh, bem, veja isto.

- É essa que quer?

- E a única que podia mudar a face do mapa do mundo, sim. O homem observou a imagem de vários ângulos antes de continuar:

- Alguma ambição você deve ter, Hikmet, para permitir que alguém como ele lhes faça uma coisa destas.

Hikmet Sivas pousou os olhos no chão.

- Os apetites dele... Ele exigiu...

- Sim, está bem.

A raiva de Hikmet inflamou-se.

- Bem, você teria dito que não? A ele?

- Não - respondeu o homem simplesmente. - Mas pessoas como eu são muito bem pagas por pessoas como ele para dizerem sempre "sim". Também é uma coisa idealista, se

compreende o que eu quero dizer. Eu cuido do mundo tal como o conhecemos, mantenho-o assim.

- Então vai destruir essa?

- Vou destruí-las todas, Hikmet. - Espalhou a pilha inteira no chão bem polido de madeira e voltou a olhar cada uma delas em particular. - Você revelou-as aqui.

- Sim - disse Hikmet -, como lhe disse. - Em seguida, subitamente, sorriu. - O meu amigo Ahmet e eu aprendemos a revelar fotografias quando trabalhávamos no Egipto.

Foi um dos operadores de câmara que nos ensinou. A primeira que fiz foi uma fotografia de Ahmet. Eu estava tão contente.

- E os negativos? - O homem não estivera a ouvir, estava só a olhar para as fotografias, a pensar.

- Estão todos na minha câmara escura, lá em baixo.

O homem levantou-se, puxando o cós das calças enquanto o fazia.

- Bom trabalho; está tudo a ir bem, não está, Hikmet? - sorriu.

- E, infelizmente, isso significa que você terá de ir também.

- O quê?


Os dois homens que tinham acompanhado o homem à casa de Hikmet saíram das sombras, um com uma lata de gasolina, o outro com uma faca.

Hikmet estava aterrorizado.

- Mas, se me matarem, alguém vai investigar, alguém vai saber!

- Oh, não me parece que haja alguma hipótese de isso vir a acontecer - disse o homem calmamente. Então, o mais alto dos seus dois companheiros cortou o pescoço a

Hikmet como se ele fosse uma simples cabra-montês.

- Adeus, Hikmet.

Quando a casa estava bem encharcada de gasolina, o homem atirou um fósforo e saiu. Separadamente e em silêncio, abatera os seus dois companheiros, imediatamente

antes de ter posto fogo à casa. Eles tinham sido amavelmente fornecidos por di Marco, lixo de que ele desejava ver-se livre, de qualquer maneira.

O homem deixou a casa, o estado e depois o país. Havia outras coisas para fazer noutro sítio.

Apesar dos melhores esforços da corporação de bombeiros de Los Angeles, só a grande piscina em forma de crescente que se encontrava nas traseiras da casa ficou intacta;

tudo o resto ardeu completamente.

Húrrem Ipek olhava fixamente pela sua janela da cozinha, os olhos fixos em coisa nenhuma. O céu estava agora a escurecer e o homem que estava sentado com ela, do

outro lado da mesa, parecia mais uma sombra do que uma pessoa.

- Quer dizer que esse tal Zhivkov, esse monstro, está morto.

- Sim - respondeu Ikmen. - Matámo-lo ontem à noite. Na operação em Yildiz.

- Quem? - Ela desviou o olhar da janela, os olhos à procura dos dele. - Quem é que o matou?

- Nós...

- Que agente? Como é que ele se chama?

Ikmen, a pestanejar com força só para se manter acordado, desviou o olhar, escapando-se para o canto da mentira.

- Não sei - disse. - Foi tudo muito violento, muito confuso.

- Gostaria de o beijar - disse Húrrem num tom vazio. - Gostaria de o abraçar e beijar. Sabe?

- Sim.


- Ele vingou a minha filha. Devo-lhe tudo o que tenho. - Baixou a cabeça e, de mansinho, começou a chorar.

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- Ele também fez o seu dever - disse Ikmen suavemente, não gostando do engano, mas sentindo, no entanto, que, por ela, tinha de elaborar os factos. - A recompensa

dele e a sua é que Hatice pode agora repousar em paz.

Ela estava a chorar demasiado intensamente para lhe responder. Tinha a cabeça apoiada nas mãos, todo o corpo a tremer de desgosto, as lágrimas escorriam-lhe pelos

dedos e pelos braços. E também para Ikmen havia dor aqui, nesta pequena cozinha, onde a escuridão se instalava. Esta pobre mulher merecia saber toda a história,

contada integralmente, ela devia tomar conhecimento de que, muitos anos antes, forças superiores ao terrível Zhivkov tinham, de facto, montado o aparato que levara

à morte de Hatice. Mas contar-lhe seria colocá-la em risco, e ele não podia fazer isso. Já era suficientemente mau que alguém, algures, pudesse vir perguntar-lhe,

a ele, o que é que sabia e quem conhecia em relação a este assunto. Alguém com um poder que ele nem sequer podia imaginar.

- E você - disse Húrrem, levantando a cabeça -, você prometeu que faria isto por mim, inspector. E fez. Ajoelho-me aos seus pés!

E foi exactamente o que ela fez. Deixando-se cair da cadeira, prostrou-se em frente dele, o rosto molhado comprimido contra o linóleo barato do chão.

Ikmen, chocado e embaraçado, pôs-se em pé de um salto.

- Senhora Ipek!

- Não sou digna de lhe deitar a água em que lava as mãos! Novamente aquela expressão. Quase palavra por palavra o mesmo

que Hikmet Sivas dissera à irmã Hale, quando tentava redimir-se, ainda que só um pouco, pelas imperfeições do seu estilo de vida. A criação ritual de uma falta de

harmonia entre uma pessoa e outra, aquela velha reminiscência do rígido sistema otomano de pomposa exaltação e de adulação servil. Mesmo que a total humilhação de

Húrrem a seus pés tivesse sido merecida, Ikmen ter-se-ia sentido constrangido; nas actuais circunstâncias, fazia-o sentir-se fraudulento e imundo. Para além de descobrir,

lá em cima em Yildiz, muita coisa que não devia saber, ele não fizera nada. Não fizera Zhivkov pagar por coisa nenhuma, ninguém fizera. O búlgaro tivera uma vida

violenta, sem dúvida excitante e rica, a explorar e a matar onde quer que fosse, actividades de que gostava. Até na morte ele fora feliz. Um trabalho limpo, abatido

a tiro, não

sofrera dor. Não houve tempo para castigo, não houve pagamento pelos crimes cometidos, pelo menos aqui na terra.

Não. Zhivkov estava livre, ao passo que esta mãe desconsolada... Ikmen começou a sentir lágrimas de tristeza, cansaço e frustração brotarem-lhe dos olhos, e, assim,

sem dirigir sequer mais uma palavra à mulher que ainda estava prostrada aos seus pés, deixou aquele apartamento e saiu para o patamar. Aí, em frente à porta do seu

próprio apartamento, deixou-se escorregar para uma posição de cócoras e chorou. Do outro lado da porta, a entrada para aquilo que ele sempre considerara o seu próprio

espaço privado e seguro, ouviu o som das brincadeiras dos seus filhos mais novos. Enquanto chorava, perguntava-se quem mais poderia estar a escutar, e, por um momento

apenas, a raiva dentro dele foi tão forte que o assustou. Como ousavam?! Quem quer que eles fossem e quaisquer que fossem os motivos, como ousavam fazer-lhe isto,

a ele, à sua família, às escassas certezas do seu modo de vida?

CAPÍTULO VINTE EOITO

Celal e Ekrem foram finalmente capturados às primeiras horas da manhã seguinte. Enfiados no apartamento do pai, estavam ambos furiosos e perturbados com o desgosto.

Apesar disso, não permitiram que a polícia entrasse sem luta. E assim, o homem que liderava o pequeno grupo de agentes, Isak Çõktin, deu ordem para arrombarem a

porta do apartamento. Liderando, como sempre, da frente, foi por pouco que Çóktin escapou a uma bala saída da pistola de Ekrem. Um dos outros homens levou um tiro

numa perna.

A polícia levou mais tempo do que esperava para controlar a situação. Os irmãos lutaram com uma ferocidade ousada que, no fim, resultou num ferimento no peito de

Ekrem e na morte de Celal. Não era o resultado de que estavam à espera e, por isso, Çòktin, era vez de chamar Ikmen, por saber que estava cansado, informou Ardiç

directamente. Afinal, Ekrem teria de receber tratamento hospitalar antes de poder ser interrogado por Ikmen, e o corpo de Celal precisaria de ser levado para a morgue.

Quando os agentes estavam a sair, Alev Múren, a irmãzinha que veio do Inferno, chegou com a avó, vindas da casa da mulher idosa em Túrbedar Sokak, tendo sido alertadas

por vizinhos solidários. Ambas as mulheres gritaram aos polícias, chamando-lhes "Malditos assassinos!", enquanto os vizinhos espreitavam a cena em silêncio de detrás

das suas cortinas e persianas. E Çõktin, sempre cheio de obséquios, recompensou devidamente esta estranha e silenciosa vigília prendendo ambas as mulheres quando

Alev atacou o agente Yildiz.

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Ikmen, em contrapartida, começou a manhã a um passo muito lento. Na noite anterior, sem ter dirigido mais do que três palavras à família, caíra na cama e dormira

um sono misericordiosamente sem sonhos. Quando, por fim, acordou, foi para a visão excepcional de um Sol alto do lado de fora da janela e Fatma a observá-lo atentamente

do local onde se encontrava aos pés da cama.

- Çetin, desculpa - disse ela, enquanto polia as velhas barras de latão aos pés da cama -, mas tens uma visita.

- Ardiç...

- Não. Não, se tivesse sido trabalho, teria mandado embora quem quer que fosse - respondeu Fatma causticamente. - Não, é um amigo, Çetin.

- Oh. - A voz dele soava rouca e inconsistente, e tossiu violentamente quando deitava as pernas para o chão e apanhava as roupas. Quem é?

- E Arto - disse ela, retirando mais pó da mobília do que era hábito - e a menina Yúmniye Heper.

Ikmen levantou o olhar, os olhos turvos de cansaço e surpresa.

- Pobre menina Muazzez - continuou Fatma. - Não sabia que ela tinha morrido. Que coisa horrível!

Ikmen aproximou-se dela.

- Estou tão contente por estares de volta - disse.

Ela sorriu e ele beijou-a, um beijo longo e vagaroso que falava com mais eficácia do que alguma vez as palavras o poderiam fazer do quanto ele sentira a falta dela.

O médico e Yúmniye estavam sentados à mesa da cozinha quando Ikmen entrou. Yúmniye, longe do seu ambiente normal, parecia mais velha e mais baixa do que habitualmente.

Os dois homens abraçaram-se e, em seguida, Ikmen sentou-se em frente das suas visitas, enquanto Fatma, que o seguira desde o quarto, deu café a todos. Depois saiu

para atacar o resto do apartamento, que estava, segundo os padrões de Fatma, imundo.

- Vou hoje libertar o corpo da menina Muazzez para que possa ser enterrado - disse Arto Sarkissian, enquanto mexia uma enorme quantidade de açúcar no seu café.

- Fiquei tão contente quando ouvi a voz de Arto esta manhã disse Yúmniye, sorrindo a ambos os homens. - Foi tão bom saber

que o pobre corpo dela caíra em mãos amigas. Ainda me lembro de vocês os dois a brincarem com os vossos irmãos no nosso jardim, quando eram pequenos. Eram todos

tão bons rapazes.

Ikmen e o amigo partilharam um leve sorriso cúmplice. Sim, todos eles gostavam muito do jardim do general Heper, era verdade. Havia muita fruta para roubar das árvores.

- Trouxe a menina Yúmniye para te ver - continuou o arménio -, porque ela gostaria muito que nós os dois assistíssemos ao funeral da menina Muazzez.

- Só tenho parentes muito afastados, agora que Muazzez se foi - disse com tristeza a mulher idosa -, e vocês os dois lembram-se dela quando era jovem e cheia de

vida. Ambos se esforçaram muito para fazer o melhor que podiam.

- Ainda andamos à procura do carro que atropelou a menina Muazzez - disse Ikmen, acendendo o seu primeiro cigarro do dia. Tenho esperança...

- De encontrar os responsáveis pelo Harém? - Yúmniye abanou a cabeça. - Ah, mas não vai conseguir, pois não, Çetin? Não. Levantou o olhar para o rosto confuso de

Arto Sarkissian e encolheu os ombros. - As pessoas não guardam segredo dessas coisas durante quarenta anos para depois deitarem tudo a perder só por causa de uma

velha. Eu nunca soube nada que se aproximasse do que Muazzez sabia, mas disso tenho a certeza. Penso que aquela idiota da Sofia não...

- Escapou-me alguma coisa? - interrompeu Arto. - Harém? Ikmen, ciente de que não poderia arriscar que demasiada conversa

deste tipo acontecesse no seu apartamento, especialmente se fossem usados os nomes de outras pessoas envolvidas, mudou de assunto.

- Então o que vai fazer agora, menina Yúmniye? - perguntou. A velha mulher suspirou.

- Oh, vou continuar como antes, suponho - respondeu ela. É importante para mim manter a casa de meu pai enquanto eu não ficar demasiado confusa.

- Eu irei visitá-la - disse Ikmen, determinado. - Gostaria de o fazer.

- A sério? Para além de todos estes filhos que tem, de todo este trabalho que tem para fazer? - Virou-se para Arto Sarkissian. - Penso que ele não tem nada bom aspecto

para tomar ainda mais responsabilidades. Está tão magro agora! O que lhe parece, querido Krikor?

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- Arto.

- Desculpe?

- É Arto, menina Yúmniye, Krikor é o meu irmão - explicou Arto amavelmente.

- Oh, peço muita desculpa - disse ela, baixando os olhos para o chão, embaraçada e corada. - A minha cabeça tonta.

- Penso que se Çetin diz que a irá visitar, há pouca coisa que possa fazer para o impedir - disse Arto com um sorriso.

- E é claro que assistiremos ambos ao funeral - acrescentou Ikmen. - Mas vai precisar de ajuda para os preparativos, não vai?

Ela disse que agradecia. E assim, foi isso que se discutiu até a velha mulher e Arto Sarkissian saírem, passado algum tempo. E apesar do facto de Ikmen, embora cansado,

ter mantido uma contenção razoavelmente bem-disposta durante a visita deles, mergulhou rapidamente em pensamentos sombrios logo a seguir. Sacrifício era uma palavra

que não parava de lhe atravessar a mente sempre de novo. Tantas vidas sacrificadas e para quê? Para que aqueles em que uma pessoa nem sequer ousava pensar pudessem

dormir um pouco mais descansados nas suas camas? Para que o estado actual do mundo, doente, perdido e corrupto, pudesse ser perpetrado até à eternidade? Ele e todos

aqueles que conhecia eram apenas usados. Cala-te, fala, senta-te, faz o teu dever, morre. Onde estava o valor ou a liberdade nisso? Nove crianças trouxera ele ao

mundo, nove pessoas para serem comandadas e manipuladas como manequins. Pensou que podia voltar a chorar, mas não chorou. Não restava nada dentro dele com que chorar,

e, assim, em vez disso, tirou do bolso o telemóvel de Tepe e olhou-o.

O telefone encontrava-se entre os bens que tinham sido entregues a Ikmen para que ele os devolvesse a Aysel Tepe. Antes de o fazer, pensou que poderia apenas verificar

o aparelho à procura de mensagens, e havia uma, que ele ouviu.

- Desculpa, Orhan - dizia a voz bastante abafada e triste de Ayse Farsakoglu. - Estou tão sozinha. Tenho saudades tuas. Por favor, telefona.

Desespero. Uma necessidade de proximidade, qualquer que fosse o preço. Uma necessidade universal, e, sentia Ikmen, bonita. Porque essa é que era a questão, não era?

Os homens e as mulheres podem ser empurrados por aqueles que não podem conhecer, mas se conseguirem encontrar proximidade, essa sebe contra a escuridão que está

sempre à espreita...

Iniciou a sequência para apagar no telefone, no momento em que Fatma entrou e lhe deu um beijo no alto da cabeça. Com uma energia súbita, ele pôs-se em pé de um

salto e tomou-a apaixonadamente nos braços.

Três dias depois, Ikmen fez preparativos para se encontrar com os colegas cedo, para tomarem o pequeno-almoço juntos. Dessa forma evitariam o calor do dia e as hordas

de pessoas que tendiam a juntar-se no interior e em redor das docas de Eminónú mais a meio da manhã - pessoas que costumavam passar por ali todos os dias no caminho

para o trabalho e turistas. Contudo, nenhum deles chegou assim tão cedo, e arriscaram-se a perder as embarcações de pesca. O peixe já tinha chegado e os pescadores,

vestidos, como sempre, com os seus ornamentados coletes otomanos só-para-turista-ver, estavam a cozinhá-lo para os excelentes pequenos-almoços de sanduíches que

serviam. Na realidade, Metin Iskender já estava a comprar o seu. Ikmen estava sentado num banco lá atrás, na direcção da estrada, quase escondido atrás de um exemplar

do Cumhuriyet. Iskender virou-se por breves instantes para lhe perguntar se também queria comida, mas ele recusou.

Mehmet Suleyman sorriu. Provavelmente Ikmen agora nunca mais voltaria a comer com apetite. Como acontecia consigo próprio, talvez fosse porque o homem mais velho

nunca tivesse tido verdadeiramente fome. Embora longe de serem ricos, os Ikmen nunca tinham sido propriamente paupérrimos, não como Metin Iskender, que teve de empurrar

a maior sanduíche de peixe possível para a sua boca esfaimada. O peixe ainda era uma festa para ele, apesar da esposa rica. Mas no bairro da lata em que fora criado,

as pessoas viviam do que conseguiam arranjar, e era possível que Metin Iskender nunca tivesse comido peixe fresco até ser adulto. A comida que outras pessoas deitavam

fora, sim, mas nem toda era dele, paga com o seu próprio dinheiro.

A medida que observava os pescadores, Suleyman pensou com satisfação que, até aqui, fora uma manhã muito agradável. Zelfa estava muito mais feliz, agora que tinha

uma data definida para poder voltar ao trabalho. Só o facto de o ter sabido pareceu acalmá-la, e, pelo

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menos durante os últimos dois dias, ela parecera estar muito mais à-vontade com o filho, Yusuf. Estranhamente para ela, Zelfa até confessara sentir alguma pena por



ter de regressar ao trabalho. Estava, disse ela, a começar a gostar do bebé e sentiria a falta dele quando, dentro de quatro semanas, Estelle Cohen começasse a tomar

conta do pequeno. A vida era boa, ou melhor, seria, se não fosse esta terrível escuridão que ainda rodeava os acontecimentos ocorridos no Palácio Yildiz.

Quando Iskender se juntou a eles no banco, Ikmen, ainda escondido atrás do seu jornal, falou:

- Hikmet Sivas está morto - disse num tom indiferente. - Cortaram-lhe o pescoço. Aparentemente, os perpetradores depois queimaram-lhe a casa. Devem ter sido os incendiários

mais incompetentes que se pode imaginar. Estupidamente, eles próprios não conseguiram sair.

- Quem eram eles? - perguntou Iskender através de uma boca cheia de pão com peixe.

- Ninguém parece saber - Ikmen dobrou o jornal e colocou-o no colo. - Mas a menina Hale está a insistir para que o corpo do irmão regresse para cá. Ela acredita

que ele não terá descanso a não ser que seja enterrado ao lado da mãe e de Vedat. Devo dizer que não sei nada sobre o último.

Suleyman acendeu um cigarro e suspirou.

- Quem me dera saber como e quando é que ele regressou à América - disse. - Quem me dera saber um pouco da verdade.

- Sabes que Vedat Sivas estava envolvido com Zhivkov - disse Ikmen, enquanto, também ele, acendia um cigarro. - Sabes também que Zhivkov matou Kaycee Sivas.

- Não sei porquê - disse Suleyman com brusquidão.

- Não.

Os três homens, cada um deles a evitar os olhos dos outros, estavam sentados em silêncio, apenas quebrado pelo som do mastigar voraz de Iskender.



- Zhivkov estava envolvido em tantas coisas - disse Ikmen finalmente. - É uma pena que não nos tenha sido permitido saber o que aqueles que estão acima de nós tinham

planeado para ele. Tropeçámos em alguma coisa.

- O homem - Suleyman interrompeu o raciocínio para aludir ao que realmente lhe acontecera - que me atacou era europeu.

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Iskender olhou Suleyman instantaneamente nos olhos, desviando em seguida novamente o olhar. Os dois homens não tinham falado das suas experiências desde que tinham

tido alta do Admirai Bristol. Primeiro Ardiç e depois um homem muito elegante que usava um relógio Kolex genuíno tinham-nos, separadamente, avisado para que não

o fizessem.

- Zhivkov esteve envolvido tanto no caso Sivas como no caso Hatice Ipek - disse Ikmen, omitindo todos os pormenores. -Tinha um negócio de prostituição a funcionar,

com base numa velha lenda, Vedat envolveu-se e...

- Tu estavas convencido de que essa coisa do Harém era um facto - disse Suleyman rudemente. - Disseste que Hikmet Sivas tinha usado o Harém.

- Os irmãos Múren livraram-se do corpo da pobre Hatice. Aparentemente Celal gostava muito dela, razão pela qual ela foi colocada na cisterna de forma tão piedosa.

- Não vejo realmente onde é que os Sivas entram nisso - disse Iskender, observando, de olhos esbugalhados, a forma como mais peixe estava a ser atirado para grelhadores

a carvão a bordo das embarcações que oscilavam suavemente. - Quero eu dizer, porquê matar a cunhada do homem com quem se trabalha?

- Zhivkov queria Hikmet para dar cobertura bancária às suas actividades. Vedat tinha caído no feitiço do búlgaro - respondeu Ikmen simplesmente. - O irmão mais novo

e insatisfeito, sabem

como é .


- Não sei como é que uma grande estrela de cinema efectivamente estrangeira, que, tu sempre disseste, tinha ligações com a Máfia, se pode ter deixado atacar por

Zhivkov, apesar de Vedat - disse Suleyman, irritado. - Para mim, nada disso faz sentido! E fomos nada mais nada menos do que amordaçados.

- E tu farias qualquer coisa para saber a verdade, não farias,

Mehmet?


Suleyman olhou-o.

- Tu sabes, não sabes? - disse com frieza. - Entraste no palácio, com Vedat e os estrangeiros e o general Pamuk.

- O general Pamuk ajudou-nos, quer dizer, as nossas forças, a chegarem a Zhivkov, a Múren e aos outros - disse Iskender nervosamente. - É muito...

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- Eu fui drogado, bem sabes! - disse Suleyman a Ikmen, numa voz baixa e zangada. - Foste visitar-me ao hospital. Eu lembro-me!

- Vou ter de me ir embora - disse Iskender subitamente, deixando o que restava da sua sanduíche e levantando-se. - Não posso estar aqui. - Olhou para Suleyman, que

lhe retribuiu o olhar com uma expressão cruel. - Desculpa, Mehmet. - E afastou-se, muito rapidamente, na direcção da Ponte Gaiata.

Assim que Iskender se encontrava suficientemente longe para não conseguir ouvir, Suleyman virou-se mais uma vez para Ikmen.

- Aconteceu alguma coisa de muito grande, não foi, Çetin? Alguma coisa que cheira mal.

Ikmen baixou os olhos para o chão, o fumo do cigarro a fazê-lo semicerrar os olhos.

- Foi Zhivkov.

- Não foi só Zhivkov!

Ikmen levantou o olhar, directamente para os olhos de Suleyman.

- Tens de fazer o que Metin fez, Mehmet - disse com suavidade.

- Quer dizer que nos convidaste para virmos aqui saborear uma sanduíche de peixe, pormos de parte todas as perguntas e depois nos desmarcarmos deste assunto?

- Tenho de ter a certeza de que te desmarcas - disse Ikmen. A certeza absoluta.

- É uma coisa assim tão grande, Çetin? - perguntou Suleyman, ainda com muita raiva na voz. - Vai mesmo até ao cimo, não vai? Tal como nós dissemos antes daquele

banho de sangue? Pensava que tu, entre todas as pessoas, te opunhas a esse tipo de coisas.

A mão de Ikmen estava no pescoço do amigo antes que Suleyman pudesse ganhar fôlego.

- Isto ultrapassa qualquer coisa que qualquer um de nós possa compreender! - disse em voz baixa. - Ultrapassa a nossa cidade, ultrapassa o nosso país!

- Çetin!

- Nem sequer deves sonhar com o que pensas que aconteceu naquela noite, Mehmet! Não penses nisso, não fales nisso, a ninguém. Assim podes ficar vivo! - Consciente

de que algumas das poucas pessoas que os rodeavam estavam a olhar, Ikmen libertou o pescoço de Suleyman e voltou a colocar as mãos em cima do jornal.

Suleyman inspirou profundamente para acalmar os nervos;

- Esmagámos uma importante família do crime - disse Ikmen.

- Os homens maus desapareceram. Ganhámos com isso.

- Sim.

- Tens um filho acabado de nascer e a vida é boa.



- Sim. - Mas quando Suleyman olhou para Ikmen, este viu-lhe os olhos marejados de lágrimas. - Sempre contei contigo para saber a verdade, Çetin.

Ikmen desviou a cabeça.

- Nesse caso, talvez de futuro fiques melhor servido se contares contigo próprio - disse.

- Talvez tenhas razão.

Ele convidara aquela resposta, mas mesmo assim, ela magoou Ikmen profundamente. Fixou Suleyman.

- Tu, de todas as pessoas - disse com amargura -, devias compreender que os governantes têm os seus próprios segredos, que os governantes empregam muita gente para

os ajudarem a manter esses segredos.

- Oh, então agora atiras-me com os meus antepassados para salvares a tua consciência!

- Vocês construíram os palácios, ergueram os muros, escavaram as salas secretas, bem fundo na terra!

Enfurecido, Suleyman levantou-se de um salto.

- Todos os homens que se instalam acima dos outros são homens com defeitos - disse Ikmen, levantando o olhar para os olhos inflamados do colega -, movimentam as

pessoas que os rodeiam como peças num tabuleiro de xadrez. Obrigam-nos a fazer coisas, a selar a boca, a arrancar até as coisas mais profundas dentro de nós! Roubam-nos

a honra! - Involuntariamente, as lágrimas vieram-lhe aos olhos.

- Não posso nem te vou dizer nada!

- Depois de tudo por que passámos juntos, não compreendo como podes confiar tão pouco em mim!

- E eu não compreendo - disse Ikmen, cansado -, como é que podes não ser capaz de dar valor ao facto de que estou a fazer isto não porque não confio em ti, mas porque

gosto demasiado de ti para partilhar contigo algo que te poria em perigo e que te desonraria. - limpou as lágrimas bruscamente. - Não é já suficientemente mau eu

tresandar a isso?

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Suleyman suspirou e, um pouco mais calmo, sentou-se novamente ao lado de Ikmen. Ofereceu-lhe um cigarro e acendeu um para si próprio.



- Então, no meio de tudo isto, onde é que encontramos Jack, o Estripador?- disse com suavidade. - Na agonia de não saber a verdade?

Um pequeno bando de gaivotas pousou em cima dos restos da sanduíche de peixe de Metin Iskender e lutavam entre si pelas partes mais suculentas.

Ikmen sorriu.

- Há neste caso alguma coisa de estranhamente pertinente em comparação com Jack, o Estripador- disse, pensativo.

- Sim?

- Sim. Uma das teorias em relação àquele mistério tem a ver com o possível envolvimento das instituições britânicas da altura. Circula a história de que um dos príncipes



britânicos engravidou uma prostituta e que Jack era um agente do governo encarregue de limpar a porcaria que ele tinha feito.

- Mas o assassino não matou várias mulheres?

- Sim. E só uma delas é que era a prostituta real, pelo menos é o que se diz - explicou Ikmen. - As outras foram mortas para construir a lenda de Jack, o Estripador,

para distorcer a verdade e manipular as pessoas comuns como se fossem peças de xadrez, como eu disse antes. - Olhou Suleyman. - E nós nunca saberemos a verdade afirmou

-, porque se disse ainda que todos os que sabiam disso e que não deviam saber encontraram um destino igual ao daquelas prostitutas.

- Quer dizer que este caso com Zhivkov...

- Tudo o que podes saber e que não te coloca em risco é que o mundo continua igual - disse Ikmen, fixando não o canal que se animava à sua frente mas o monótono

pavimento por baixo dos seus pés. - Como príncipe, saberias tudo. Mas já não és príncipe, Mehmet, e, por isso, as câmaras secretas por baixo das ruas são-te proibidas.

Eu olhei, como sabes, para o rosto de algo que não devia ter visto, e quem me dera não ter visto. Para mim o mundo mudou.

Ficaram ambos alguns momentos em silêncio. À medida que a manhã começava a agitar-se em volta deles, as pessoas a descerem e

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os vendedores de coisas úteis e inúteis a pregoarem as suas mercadorias ao público que fugia precipitadamente, eles pareceram, durante algum tempo, um pequeno lago



de silêncio, um local de paragem, uma ausência. Não era que as pessoas os evitassem, eles é que pareciam não saber que estavam ali.

Para Ikmen, esta separação fazia algum sentido e, de certa forma, cristalizava a diferença que ele agora sentia entre si próprio e os outros. Mas para Suleyman,

a experiência era enervante, e, com um breve toque da mão do colega, foi-se embora. Sem dizer nem mais uma palavra.

Ikmen, agora sozinho, sabia que não voltariam a falar do que acontecera lá em cima, em Yildiz, naquele horrível fim de tarde. De que falariam e como falariam da

próxima vez que se encontrassem, ele não sabia. Nada, nenhum segredo se interpusera entre eles antes. Será que isto alguma vez os abandonaria?, perguntava-se Ikmen.

Uma baforada de ar malcheiroso vinda algures das profundezas dos esgotos antigos por baixo da cidade chegou ao nariz de Ikmen e fez com que ele se levantasse e saísse

dali. Pareceu segui-lo por algum tempo, mas quando o inspector acendeu um dos seus pungentes cigarros, começou a enfraquecer. Virando a cara ao local que lhe parecia

ser a fonte do fedor, Ikmen tirou uma longa fumaça do seu Maltepe e caminhou com determinação de regresso à esquadra e à companhia daqueles que não sabiam nada mas

que lhe eram próximos.

ÍNDICE


CAPÍTULO UM .............................................................................................. 11

CAPÍTULO DOIS .......................................................................................... 21

CAPÍTULO TRÊS .......................................................................................... 29

CAPÍTULO QUATRO .................................................................................. 43

CAPÍTULO CINCO ...................................................................................... 53

CAPÍTULO SEIS ............................................................................................ 67

CAPÍTULO SETE ......................................................................................... 83

CAPÍTULO OITO ......................................................................................... 99

CAPÍTULO NOVE ...................................................................................... 113

CAPÍTULO DEZ ........................................................................................... 125

CAPÍTULO ONZE ....................................................................................... 137

CAPÍTULO DOZE ....................................................................................... 151

CAPÍTULO TREZE ...................................................................................... 171

CAPÍTULO CATORZE ............................................................................... 187

CAPÍTULO QUINZE .................................................................................. 199

CAPÍTULO DEZASSEIS ............................................................................ 213

CAPÍTULO DESASSETE ........................................................................... 227

CAPÍTULO DEZOITO ............................................................................... 239

CAPÍTULO DEZANOVE .......................................................................... 251

CAPÍTULO VINTE ...................................................................................... 263

CAPÍTULO VINTE E UM .......................................................................... 275

CAPÍTULO VINTE E DOIS ...................................................................... 283

CAPÍTULO VINTE E TRÊS ...................................................................... 293

CAPÍTULO VINTE E QUATRO .............................................................. 305

CAPÍTULO VINTE E CINCO .................................................................. 311

CAPÍTULO VINTE E SEIS ........................................................................ 325

CAPÍTULO VINTE E SETE ...................................................................... 343

CAPÍTULO VINTE E OITO ..................................................................... 355

VOLUMES JA PUBLICADOS:

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Scott MacBain - As Moedas de Judas

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