Bancos de dados



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| Professora adjunta do Departamento de História da Universidade 

Federal de Santa Maria (UFSM); mestre em História pela UFRGS e doutora em História pela PUC-RS.

resumo

O presente artigo aborda a temática dos arquivos digitais a partir da perspectiva do papel que 

os historiadores deveriam desempenhar nos debates pertinentes. Os arquivos digitais, no que 

tange ao interesse dos historiadores, referem-se à construção de bancos de dados, digitalização 

de documentos e concepções a respeito de como devem ser encaminhadas a organização e o 

armazenamento dos documentos nato digitais.



Palavras-chave: arquivos digitais; digitalização; documentos nato digitais. 

abstract

This article addresses the topic of digital files in light of the role that historians should play in 

the relevant debates. Digital files are, in what concerns the interests of historians, related to the 

construction of databases, digitalization of documents and conceptions on how the organiza-

tion and storage of born digital records should be conducted.

Keywords: digital files; digitalization; born digital records.

resumen

El presente artículo se refiere al tema de los archivos digitales bajo la perspectiva del rol que 

los historiadores deberían desempeñar en los debates pertinentes. Los archivos digitales, en lo 

que corresponden a los intereses de los historiadores, se refieren a la construcción de bases de 

datos, digitalización de documentos y concepciones al respecto de como se deben ejecutar a la 

organización y almacenamiento de los documentos nacidos digitales.



Palabras clave: archivos digitales; digitalización; documentos nacidos digitales.


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Na década de 1970, o historiador Michel de Certeau apontou a utilização de novas téc-

nicas de informação, leia-se o uso do computador, como um fator precipitador de uma pro-

funda  mudança  na  prática  de  produção  do  conhecimento  histórico.  Certeau  revelava  sua 

preocupação com o contexto particular no qual a história seriada se destacava como a nova 

vedete da produção historiográfica, através de longas, minuciosas e massivas pesquisas que 

em muitos casos preocupavam-se em inventariar dados – demográficos e econômicos pre-

ferencialmente – quase que inadvertidamente, desprezando a questão de que a pesquisa 

necessita pautar-se por um problema a ser respondido, o que não seria contemplado por 

meio do arrolamento maciço (por mais consistente e de fôlego que fosse) de informações.

Nesse  sentido,  em  lugar  de  se  trabalhar  na  formulação  de  unidades  de  compreensão 

a partir de vestígios em número limitado, colocou-se a possibilidade do acúmulo de uma 

quantidade indefinida de informações que, tratadas através de programas informáticos de 

organização  de  banco  de  dados,  produziam  (supostamente)  unidades  de  compreensão  

priori. Dessa forma, na compreensão de Certeau a respeito do fazer historiográfico, o traba-

lho do historiador deveria deslocar-se para a análise das margens, desvios, indícios de limites 

e incoerências reveladas na catalogação de dados, promovida pelo uso dos computadores 

como instrumento das investigações, orientado por problemas de pesquisa a serem respon-

didos (Certeau, 2011, p. 75-79).

Se, considerando o exposto acima, o uso sistemático de computadores na pesquisa his-

tórica foi capaz de tão profundos efeitos, cabe questionar porque ainda hoje, sobretudo na 

realidade brasileira de pesquisa, os recursos da tecnologia de informação ainda permane-

cem subutilizados e, em certa medida, desconhecidos pelos historiadores.

No Brasil, um dos trabalhos pioneiros e de referência sobre o tema foi o de Luciano Fi-

gueiredo (1997), História e informática: o uso do computador, em que o próprio autor afir-

ma  que  seu  trabalho  e  todos  dessa  natureza  padecem  do  problema  incontornável  de  se 

tornarem ultrapassados logo após suas respectivas publicações, dado o inexorável avanço 

da tecnologia (Figueiredo, 1997, p. 439).

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 Mais recentemente, Célia Tavares avançou signifi-



cativamente no tema, abrangendo problemáticas muito atuais a respeito da incorporação e 

efeitos das tecnologias digitais no fazer histórico (Tavares, 2012). Entre os trabalhos recentes 

acerca dessa temática, destaca-se o de Anita Lucchesi (2014a) cuja motivação de pesquisa 

adveio da emergência das novas tecnologias de informação e comunicação e de tendências 

historiográficas que incorporam essas novidades na operação histórica. Contudo, esta auto-

ra alerta em outro texto para o fato de que “estamos vivendo essa dita ‘revolução dos meios 

digitais’ sem termos desenvolvido as competências necessárias para navegar criticamente e 

efetivamente avaliar e criar informações utilizando as tecnologias hoje disponíveis” (Lucche-

si, 2014b, p. 49). Além disso, avalia que passadas quase duas décadas do trabalho de Luciano  

Vale destacar que já na obra Os métodos da história, de 1976 (Cardoso; Brignoli, 2002), estava presente a preo-



cupação com a construção de bancos de dados em plataformas digitais. 


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Figueiredo, o debate ainda permanece restrito a um número reduzido de pesquisadores no 

Brasil se comparado à realidade italiana ou estadunidense (Lucchesi, 2014b, p. 48).

O trabalho de Lucchesi dedica-se a analisar comparativamente o nível em que se encon-

tram os debates no campo da história e informática, no contexto italiano e estadunidense, 

consolidados nas publicações La storiografia digitale, coletânea organizada por Dario Raga-

zzini, de 2004, e Digital history: a guide to gathering, preserving, and presenting the past on 

the web, de 2005, a partir das quais se observa a intensificação dos debates a respeito da 

historiografia digital nesses países e sua repercussão em outros como Inglaterra, Alemanha 

e França (Lucchesi, 2014a).

Em relação ao contexto europeu de produção historiográfica vinculado ao uso de com-

putadores, podemos retroceder ao texto supracitado de Michel de Certeau e encontrar, já 

em fins da década de 1960, Emmanuel Le Roy Ladurie (2011, p. 206-210) apontando para 

a centralidade das novas tecnologias e quanto elas incidiam numa mudança do fazer his-

toriográfico.

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 Evidente que o contexto ao qual Le Roy Ladurie se referia correspondia não 



ao uso disseminado desse recurso, tampouco ao acesso a computadores pessoais, mas aos 

grandes processadores de dados que ficavam instalados nas instituições e eram alimentados 

coletivamente pelos historiadores engajados em um mesmo projeto e pautados por critérios 

compartilhados de pesquisa. 

De acordo com Célia Tavares, na década de 1960 os computadores localizados nas uni-

versidades serviam a pesquisas históricas de longas séries de informações com fontes de-

mográficas e econômicas, valendo-se de programas estatísticos e matemáticos para análises 

quantitativas. Apenas nos anos de 1980 e 1990 foi que se deu a disseminação de computa-

dores pessoais (Tavares, 2012, p. 303). Nesse sentido, a mudança no fazer historiográfico que 

estava em pauta na década de 1960, no contexto principalmente europeu, guardava relação 

com uma dimensão coletiva do uso da informática e, consequentemente, de pesquisas co-

letivas, sobretudo nos campos da demografia histórica e da história econômica, visando à 

criação de bancos de dados, na contramão do usual trabalho solitário dos historiadores. 

Atualmente, com a difusão dos computadores pessoais, podemos dizer que, na maioria 

das vezes, essa alteração na maneira como se pesquisa já não se verifica, uma vez que cada 

historiador,  de  posse  do  recurso  informático  particular,  tende  a  elaborar  e  alimentar  indi-

vidualmente seus bancos dados. A década de 1980 foi pródiga nesse aspecto, no sentido 

de que o relativo barateamento dos microcomputadores, o desenvolvimento das interfaces 

gráficas e a progressiva ampliação da capacidade de memória dos equipamentos possibilita-

ram uma “revolução” na relação entre a história e a informática (Morris, 1993).

Certamente, cabe ponderar se, ao final, não surgiu um novo problema em função de que 

muito “retrabalho”  é  realizado,  na  medida  em  que  distintos  bancos  de  dados  particulares 

Segundo Juan Andrés Bresciano (2008, p. 2), a revolução informática começa a desenvolver-se desde 1945 e se 



acelera nas décadas finais do século XX. A introdução do suporte eletrônico provocou mudanças radicais nas 

formas como se geram, organizam e recuperam os novos tipos de fontes, bem como se procede a crítica docu-

mental sobre elas. 



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são  produzidos  a  partir  de  um  mesmo  fundo  documental. Todavia,  sobretudo  no  que  se 

refere a fontes de cunho mais qualitativo, de natureza textual, e até mesmo considerando 

fontes quantitativas, não vislumbro, particularmente, meios de otimizar essa multiplicidade 

de bancos de dados que dizem respeito aparentemente às mesmas fontes. 

O campo de produção de conhecimento histórico, ou a disciplina histórica, não se cons-

titui por rigores metodológicos explicitamente delimitados, que possam fornecer parâme-

tros compartilhados que sirvam como critérios para a elaboração de bancos de dados indi-

viduais, os quais integrados possam redundar em bancos de dados coletivos, nem bancos 

de dados coletivos alimentados individualmente a partir de critérios comuns. Nesse caso, os 

desencontros passam inclusive pelo problema do preenchimento dos campos nos bancos 

de dados, já que mesmo a informação de critérios (aparentemente) objetivos pode ser feita 

de diversas formas por diferentes pesquisadores, o que compromete a busca por filtros e 

quantificações de resultados em função de que um mesmo dado, por falta de definição de 

critério único de preenchimento, poderá apresentar mais de uma entrada no banco de da-

dos. A esse respeito, Célia Tavares se refere ao exemplo do preenchimento em um banco de 

dados do campo município, no qual o dado Rio de Janeiro foi computado de três maneiras 

diferentes (Rio de Janeiro, RJ, Rio), comprometendo a uniformização dos dados para busca e 

quantificação posterior (Tavares, 2012, p. 306).

Essa condição se explica pelo fato de que para que os bancos de dados desempenhem a 

função fundamental de organizar informações massivas e seriadas presentes em fundos do-

cumentais é preciso que o historiador intervenha nas fontes, a fim de eleger o que constitui 

informação e quais serão selecionadas para compor a base de dados. Aparentemente, até aí, 

nada novo em relação a nossa prática usual de pesquisa: eleição, recorte e ordenamento de 

fontes e dados contidos. A “novidade” está na descaracterização do dado que, retirado do 

seu contexto original e inserido no banco de dados em alguma categoria de análise criada 

e a ele atribuída pelo historiador, reforça a dificuldade de promover a conexão entre as di-

versas pesquisas empíricas. Em síntese, a fragmentação das experiências e o seu isolamento 

decorrente da incompatibilidade de bancos de dados concebidos individualmente conver-

gem para práticas de pesquisa cada vez mais autocentradas em termos de possibilidades de 

cooperação, através de compartilhamentos de dados e debates de perspectivas. 

Nesse sentido, há outro aspecto operando nesse descompasso entre pesquisas que se 

valem  densamente  de  recursos  informáticos,  que  se  refere  à  multiplicidade  de  bases  dis-

poníveis. Existem dezenas de softwares dedicados à construção de bancos de dados e, por 

óbvio, o pesquisador é livre para eleger qual lhe apraz utilizar em sua pesquisa, contudo, em 

geral, esses softwares não são compatíveis entre si. Além disso, entre as bases mais comu-

mente utilizadas (Excel, Access, FileMaker) nenhuma é dedicada especialmente a constituir 

um instrumento para a pesquisa histórica, ou seja, são softwares para construção de bancos 

de dados pensados para os mais variados fins (empresariais, governamentais) e o que nos 

toca  fazer  é  adaptá-los  o  máximo  possível  a  fim  de  que  respondam  às  nossas  demandas 

de pesquisas. Dessa maneira, quanto mais “aberto” ao amoldamento das necessidades de 

pesquisa for, mais se coloca para o pesquisador a possibilidade de propor uma metodologia 



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de pesquisa adequada e menos refém fica ele de um possível engessamento metodológico 

colocado pelo próprio software. 

Os softwares mencionados estão disponíveis no mercado, muitos gratuitos para teste 

por um período, e embora não tenham sido pensados originalmente para fins de pesquisa 

histórica, se mostram bastante flexíveis e moldáveis às mais variadas demandas, oferecendo 

recursos bastante úteis aos historiadores. É possível, por exemplo, criar os campos a serem 

preenchidos conforme cada documento ou problema de pesquisa, atribuir hiperlinks (o que 

soluciona o problema da descontextualização do documento do arquivo, caso este esteja 

disponível on-line em algum acervo digital) e imagens e realizar os mais variados tipos de 

cruzamentos e filtros, dependendo totalmente da perspicácia do pesquisador a proposição 

das categorias, seleção e o formato de inserção das informações que serão retiradas do do-

cumento para compor o banco de dados.

A dificuldade em absorver os novos recursos tecnológicos na prática historiográfica tam-

bém passa, portanto, pela pouca oferta e difícil acesso no mercado de softwares específi-

cos para a pesquisa histórica, o que poderia ser explicado pela omissão dos historiadores, 

em geral, nesse campo. Evidente que, diferentemente de outros campos de conhecimento 

das  ciências  humanas,  a  história  não  dispõe  de  rígidos  métodos  que  norteiem  as  etapas 

da pesquisa, o que certamente dificulta a elaboração de um software com exequibilidade 

para as mais variadas demandas que as pesquisas históricas podem apresentar. Há casos, no 

entanto, de softwares encomendados, projetados sob medida, que contemplam demandas 

específicas de pesquisas, como o existente no Núcleo de Documentação Histórica da UFPel 

(NDH/UFPel-RS), construído para dar conta dos campos exatos a serem preenchidos com as 

informações constantes nas fontes que constituem o acervo do Núcleo (fichas de qualifica-

ção de trabalhadores da Delegacia Regional do Trabalho).

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Frente a tamanhas mudanças provocadas no savoirfaire dos historiadores, seria incon-



tornável desconsiderar o impacto da tecnologia no nosso ofício. Na década de 1960, Le Roy 

Ladurie  arriscava  afirmar  que,  naturalmente,  as  gerações  subsequentes  de  historiadores 

iriam apropriar-se desses novos métodos pela facilidade que lhes seria inerente ao lidar com 

tais novidades. No entanto, ao considerarmos a realidade acadêmica brasileira de produção 

historiográfica, percebe-se que a presença de conteúdos relacionados a arquivos digitais e 

construção de banco de dados ainda não é uma realidade nas grades curriculares dos cursos 

de graduação. Aqueles que porventura se utilizam de recursos informáticos em suas pesqui-

sas, em geral o fazem pela própria iniciativa de aprender o manuseio dessas técnicas. 

Pertenço a uma geração de pesquisadores que precisou desbravar os caminhos infor-

máticos e digitais por conta própria e lastimo profundamente não ter recebido esse tipo de 

orientação na minha formação. Compartilho com Lucchesi o entendimento de que há uma 

necessidade efetiva de incluir o tema “História e historiografia digital” na oferta formativa 

brasileira (Lucchesi, 2014b, p. 48).

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Engana-se,  contudo,  quem  pensa  que  para  os  alunos  dos  cursos  de  história  de  hoje, 

aqueles  pertencentes  à  geração  born digital,  possa  ser  redundante  trabalhar  esse  tipo  de 

temática  na  graduação.  Frequentemente,  ocorre  que  ao  serem  colocados  diante  de  com-

putadores para manejarem softwares dedicados à elaboração de banco de dados e tabelas 

relacionais, como Excel e Access, por exemplo, esses alunos nascidos na era digital tendem 

a se assustar, revelando que sua intimidade com as tecnologias de informação limita-se aos 

recursos que derivam do uso da internet ou a um manejo simples de softwares dedicados à 

produção de textos e apresentações de slides.

O trabalho dos historiadores, quando se dedicam a formar novos profissionais do ramo, 

deve ser organizado também no sentido de ensinar a dominar essas ferramentas e a cons-

cientizar que esse instrumental faz parte da profissionalização do nosso ofício, não sendo 

mais possível deter nem retroceder esse movimento de inclusão das tecnologias de infor-

mação no fazer historiográfico. Investir em bons computadores, câmeras digitais e softwares 

faz parte dos recursos que demandamos para o bom exercício profissional, além dos livros 

e prateleiras. Nesse sentido, a construção de bancos de dados para as pesquisas precisa ser 

compreendida como um trabalho incontornável e de longo prazo, que se multiplica, soma e 

desenvolve, mediante a permanente alimentação dos dados ao longo de anos de pesquisa, 

de onde sempre poderão derivar novas perguntas, problemas e resultados de análise.

Cada vez mais as pesquisas históricas são feitas a partir de volumes imensos de fontes. 

Outra modificação colocada ao fazer historiográfico pelo uso da tecnologia refere-se ao fato 

de que a capacidade de coletar o maior número de documentos possíveis deixou de ser um 

mérito  de  determinadas  pesquisas,  visto  que  o  recurso  de “cópia”  de  documentos  através 

da fotografia digital, expediente ao qual todo e qualquer historiador pode recorrer, permite 

recolher  quantidades  impressionantes  de  documentos  em  curto  tempo.  A  capacidade  de 

interpretação dessa abundância de fontes reunidas e a formulação dos problemas de pes-

quisa frente às informações acumuladas são o que passa a qualificar a essência da pesquisa 

histórica. Quer dizer, “o computador, o banco de dados ou qualquer outro instrumento infor-

mático que o pesquisador utilize, nunca vai substituir a atuação do profissional de história, a 

escolha de critérios e referências que cabe somente a ele estabelecer” (Tavares, 2012, p. 305).

Esse aumento vertiginoso de fontes nas pesquisas deveu-se, também, à disseminação 

dos recursos digitais. As inúmeras possibilidades disponibilizadas pela era digital incidem 

como  facilitadoras  da  pesquisa  empírica  das  mais  variadas  formas,  desde  a  produção  de 

texto  –  com  as  possibilidades  de  corrigir,  cortar  e  colar  sem  precisar  refazer  ou  desperdi-

çar trabalho –, organização de bibliografia e referências,

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 fotografia digital de fontes (o que 



possibilita  que,  durante  uma  curta  estadia  em  determinado  arquivo,  se  possa “levar  para 

casa” um volume fabuloso de fontes que ainda poderão receber tratamento, no sentido de 

clarear, aumentar, alterar a nitidez, tornando, em geral, a leitura do documento mais fácil do 

Recursos como o software Zotero e o aplicativo Delicious são excelentes instrumentos para coletar e organizar 



referências bibliográficas de sites e de biblioteca pessoal.


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que se fosse diretamente com o original) até o acesso remoto a fontes. Tem crescido muito 

a quantidade de acervos de pesquisa disponíveis na internet, os quais proporcionam uma 

economia de tempo considerável aos pesquisadores, além do aspecto da democratização 

do acesso às fontes, eliminando-se os obstáculos colocados pela distância e custo de des-

locamento e estadia. Todo esse cenário converge para a facilidade em acessar, acumular e 

lidar com universos de milhares de fontes para a pesquisa, do que decorre a importância e 

necessidade irrefutável de conhecer e dominar os softwares existentes para a construção de 

banco de dados.

A dimensão digital, no entanto, não diz respeito no campo da história apenas ao domínio 

da construção de bancos de dados para as pesquisas, mas também aos demais recursos que 

permitem a digitalização de documentos com caráter pessoal (digitalizações de documen-

tos feitas pelo historiador com sua câmera digital) ou com caráter público (quando projetos 

de digitalização de corpus documentais são realizados por instituições apropriadas, como 

arquivos, bibliotecas, universidades, museus etc., a fim de serem disponibilizados através de 

mídias de maior alcance, como CD-ROM, internet etc.) A questão da digitalização de docu-

mentos configura um tema central da nossa disciplina, entretanto temos nos ausentado de 

forma preocupante desse debate. Para além da questão particular de que a digitalização de 

documentos e sua disponibilização na internet retirou dos historiadores “fetichistas” a exclu-

sividade de conhecer a localização dos documentos nos arquivos, o que sugeria certa posse/

propriedade da informação, nos (pre)ocupar com as discussões que envolvem as políticas 

de digitalização deveria extrapolar esse tipo de questão concernente à vaidade acadêmica e 

passar a ser uma postura de preocupações amplas e permanentes.

A arquivologia tem dado conta de resolver uma série de problemas decorrentes do âm-

bito dos documentos digitais, como (re)conceituações, obsolescência e fragilidade dos su-

portes,  legislações  referentes  ao  que  deve  ser  ou  não  guardado  e  propostas  consistentes 

de digitalização, contudo, nesse aspecto, também os historiadores têm apresentado tímida 

participação  na  condução  de  resoluções  para  temas  que  implicam  diretamente  na  nossa 

prática.


A digitalização de documentos coloca-se como uma profícua possibilidade de difundir 

e facilitar o acesso, promover o intercâmbio entre acervos de diferentes instituições, bem 

como atuar na preservação de fontes já em avançado estado de deterioração (restringindo 

ao máximo a necessidade de que os originais sejam acessados) ou em casos de documen-

tos  selecionados  para  descarte  (situações  frequentes  nas  quais  os  historiadores  também 

deveriam  se  fazer  mais  presentes). Vale  ressaltar,  no  entanto,  que  o  ideal  dos  projetos  de 

digitalização se pauta pelo fato de que o documento digitalizado não substitui o original e 

nenhuma ação de digitalização deve acontecer em detrimento de ações convencionais de 

preservação (Conarq, 2010, p. 28).

Digitalizar significa transformar documentos arquivísticos tradicionais em dados biná-

rios  processados  por  computadores  usando  diferentes  recursos  (software  e  hardware).  As 

digitalizações fidedignas normalmente são fruto de projetos encabeçados por instituições 

adequadas para tal – como arquivos, bibliotecas, universidades, museus etc. – que respei-



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tando normatizações técnicas preocupam-se em contemplar a qualidade arquivística, a fi-

delidade com o documento original e o uso de recursos adequados a fim de evitar novas 

digitalizações. Dessa maneira, esses projetos devem partir da avaliação e seleção dos docu-

mentos a serem digitalizados, evitando ao máximo o translado dos documentos originais, 

privilegiando conjuntos documentais completos e cuidando para que cada documento seja 

digitalizado na íntegra, incluindo os envoltórios do documento original. Na sequência, os 

procedimentos devem contemplar a higienização, a identificação de origem e local de sal-

vaguarda, a identificação do menor caractere (linha, ponto, traço, mancha) para determinar 

a resolução ótica ideal, a identificação das condições físico-químicas do documento para a 

escolha do equipamento de digitalização que garanta a qualidade, a preferência por equi-

pamentos que não funcionem por retroalimentação de papel, que oferece muito risco de 

danificação ao documento, a escolha adequada do ambiente, superfície e (inclusive) da cor 

da roupa que o profissional usará no momento da digitalização. A garantia da qualidade da 

digitalização também responde a outros parâmetros que dizem respeito à resolução, pro-

fundidade de bit, processos de interpolação e níveis de compressão (Conarq, 2010). 

Segundo Bresciano, também devem ser preocupações concernentes à digitalização de 

documentos  questões  como:  evitar  digitalização  de  materiais  que  já  foram  digitalizados 

previamente;  avaliar  se  a  digitalização  incorre  em  algum  tipo  de  risco  de  preservação  do 

documento  original,  seja  pela  incidência  da  luz,  manipulação  ou  exposição  a  fatores  físi-

co-químicos; dar preferência a digitalizações de corpus documentais completos para evitar 

descontextualizações; se a digitalização de fato proporcionará maior acesso e difusão das 

fontes, quer dizer, se contempla a divulgação através da web, CD-ROM etc.; se os recursos 

disponibilizados serão suficientes para a realização plena do projeto de digitalização (Bres-

ciano, 2008, p. 5).

Percorrido esse caminho, o pesquisador poderá estar seguro de que o material digita-

lizado e disponível para amplo acesso tem credibilidade para pesquisa, ou seja, ao se fazer 

pesquisa em acervos digitalizados disponíveis na internet convém buscar por sites perten-

centes a instituições com credibilidade que tenham se valido de um bom projeto de digi-

talização. Isso previne incômodos como acervos digitalizados e disponibilizados para livre 

acesso na internet por particulares que, muitas vezes, com a melhor das intenções, publicam 

acervos incompletos sem advertir devidamente ao usuário, com referências equivocadas ou 

ainda sites que deixam de existir a qualquer momento por questões aleatórias. A falibilidade 

da  internet,  mais  precisamente  da  ferramenta  Google  de  busca,  é  uma  preocupação  pre-

sente para o historiador Robert Darnton. Segundo ele, referindo-se ao Google Books (que 

digitaliza  e  disponibiliza  livros  virtualmente),  essa  ferramenta  obrigatoriamente  cometerá 

erros, esquecerá livros, pulará páginas e borrará imagens, além disso nada garante que as 

cópias do Google vão durar ou não vão se perder em função da obsolescência inescapável 

aos recursos tecnológicos (Darnton, 2010, p. 56). 

Nesse sentido, a escolha dos recursos para digitalização também confere um problema 

que  nos  diz  respeito.  A  cada  vez  os  ciclos  de  obsolescência  dos  suportes  (html,  pdf,  por 

exemplo)  são  mais  curtos  e  sua  fragilidade  também  mais  evidente  (Rocha;  Silva,  2007,  p. 



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114),  dificultando  o  acesso  a  longo  prazo  e  impondo  renovados  esforços  financeiros  por 

parte das instituições para novos projetos de digitalização, além do fato de que, devido à 

incidência da luz, os processos de digitalização incorrem diretamente na deterioração dos 

documentos.

Diante desse quadro de ciclos de obsolescência e fragilidade dos suportes digitais, resis-

te o “velho e bom” microfilme como um dos recursos mais confiáveis para a preservação de 

acervos documentais. O microfilme necessita apenas de armazenamento adequado para ser 

eficiente, mas, afora isso, garante um custo de produção previsível e uma tecnologia estável 

(Waters, 2001), pois existe desde 1871 (Santos, 2005, p. 16) e dificilmente alguma empresa 

inventará novos suportes em microfilme que inviabilizem a leitura de antigos microfilmes. 

Segundo Donald Waters (2001, p. 14), uma cópia matriz de microfilme, segundo estimativas, 

dura até quinhentos anos sem apresentar deterioração significativa e, posteriormente, o rolo 

poderá ser duplicado a partir da cópia negativa, a um custo de aproximadamente US$20, 

sendo também possível, através do processo copyflo, gerar uma cópia em papel a um custo 

de US$0,15.

Resta ainda um aspecto, talvez o maior deles, a respeito do tema história e informática 

que convém ser contemplado. Para além da construção de bancos de dados informáticos 

para  instrumentalizar  pesquisas  e  dos  projetos  de  digitalização  de  documentos  antigos  a 

fim de preservar e ampliar o acesso, é preciso prestar atenção ao tema dos arquivos digitais 

no que diz respeito aos documentos que na atualidade são gerados em meio digital, os cha-

mados nato digitais. Eventualmente todos podem ser impressos, mas (controversamente ao 

padrão com o qual estamos acostumados) a impressão nesse caso já configura a cópia do 

documento original.

A informação criada pelos computadores não era compreendida pela arquivologia como 

um documento, mas como um dado até pelo menos fins da década de 1980 (Santos, 2005, p. 

20; Dollar, 1994). A arquivologia demorou em reconhecer os arquivos digitais (nato digitais) 

como documentos efetivamente e a partir daí levou algum tempo discutindo os novos parâ-

metros para o tratamento dessa documentação eletrônica e reformulando seus postulados 

metodológicos. A tecnologia da informação impactou os princípios e práticas de arquivo já 

que os conceitos tradicionais de documento original, ordem original, proveniência, arquivos 

como depósitos centrais e as práticas de avaliação, organização e descrição, referência e pre-

servação não se aplicavam integralmente à realidade de documentos nato digitais (Dollar, 

1994). Nesse sentido, documentos de décadas recentes se perderam porque não havia por 

parte da arquivologia a preocupação em armazená-los e organizá-los (Rondinelli, 2002). 

Muito  embora  na  atualidade  a  arquivologia  já  tenha  resolvido  suas  questões  teórico-

metodológicas em relação aos arquivos digitais e disponha de meios de organização e ar-

mazenamento pertinentes a esse tipo de documento, os historiadores ainda não demonstra-

ram interesse e preocupação em inteirar-se dessa nova realidade. Apropriar-se dessas novas 

práticas da arquivologia é premente e significa poder participar e opinar desde o presente 

a respeito de como, de acordo com as demandas da nossa prática profissional, nos parece 

adequado tratar, organizar e armazenar a informação digital. Essa atitude deve ser tomada 



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enquanto política coletiva dos profissionais de história e não individualmente por historia-

dores interessados no tema. Isentarmo-nos dessa participação no presente não parece acar-

retar prejuízos imediatos e evidentes (a não ser para aqueles dedicados à história imediata), 

mas certamente seremos cobrados pelos historiadores vindouros por havermos negligen-

ciado no nosso tempo o envolvimento nesse debate, a fim de se viabilizar a produção do 

conhecimento histórico no futuro.

É preciso ainda avaliar o quanto as inovações tecnológicas na comunicação modificam 

as  bases  epistemológicas  da  disciplina  histórica.  Em  suas  considerações  finais,  Lucchesi 

questiona  se  as  mudanças  serão  apenas  formais  ou  de  design  (a  hipertextualidade  altera 

apenas a apresentação do resultado final do texto?), ou se precisamos pensar em termos de 

uma nova operação historiográfica frente às novas possibilidades, novos problemas e obje-

tos de pesquisa e novas fontes que demandam tratamento/crítica adequada. Dessa forma, 

cabe também avaliar se a história digital será um campo, uma metodologia que será aplica-

da por um determinado grupo de historiadores ou se vai além de um campo e, na realidade, 

demande dos historiadores uma “virada crítica” no fazer historiográfico, a fim de que este 

se habilite de fato para compreender o mundo digital e pensar historicamente o século XXI 

(Lucchesi, 2014a).

Esses debates ainda se mostram muito incipientes no Brasil se comparados com reali-

dades de outros países. Segundo Lucchesi, a Storiografia Digitale italiana procura dar conta 

de questionamentos contemporâneos ao fazer histórico, como qual e quanta história está 

presente hoje e estará no futuro próximo na web e o que isso muda na produção de conhe-

cimento histórico, no sentido de que a atividade cotidiana de cada indivíduo deixa traços 

informáticos que serão os documentos do futuro referentes ao nosso presente, e a historio-

grafia de uma cultura digital será epistemologicamente diferente da historiografia da cultura 

alfabética, assim como essa se fez diferente daquela da cultura oral (Lucchesi, 2014a, p. 70).

No  que  se  refere  à  Digital  History,  para  os  historiadores  estadunidenses  as  inovações 

tecnológicas, sobretudo na esfera da comunicação, incidem nas relações sociais alterando a 

organização da relação espaço-temporal da vida social, o que interfere diretamente nos ma-

teriais com que lida o historiador (Lucchesi, 2014a, p. 97). Dessa forma, a flexibilidade carac-

terística da rede constitui um elemento fundamental de reflexão para a prática dos historia-

dores, “visto que o passado não aconteceu de uma só forma, e convém poder representá-lo 

de mais diversificadas maneiras” (Lucchesi, 2014b, p. 50).

Cabe aos historiadores atuais, portanto, desempenhar papeis dos quais até agora têm 

estado ausentes. É preciso incluir definitivamente na formação acadêmica a instrumentali-

zação dos profissionais para o manuseio de recursos informáticos para fins de construção 

de bancos de dados e, a partir daí, desenvolver as discussões pertinentes para o uso me-

todologicamente mais uniforme e eficiente desses recursos. Além disso, também nos cabe 

inteirar-se dos métodos adequados de digitalização de documentos, bem como promover 

e marcar presença nos projetos de digitalização, a fim de que as demandas do nosso ofício 

sejam contempladas garantindo, ou procurando evitar, que ocorram descontextualizações, 

descartes de originais e adequação das técnicas para disponibilizar digitalizações idôneas e 



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de acesso amplo. Por fim, é preciso que nos ocupemos das questões epistemológicas que 

envolvem  a  cultura  digital  e  incidem  nos  materiais  que  constituem  nossas  fontes  sobre  a 

contemporaneidade, no sentido de compreender quais implicações conceituais esses novos 

problemas, objetos de pesquisa e fontes demandam.

De imediato, parece que o fundamental é acender o debate entre os pares, para a seguir 

estabelecer encaminhamentos efetivos, embora “a velocidade vertiginosa das transforma-

ções tecnológicas não permita traçar um prognóstico sobre como será ou o que deverá ser 

feito” (Tavares, 2012, p. 302). O tema ainda se mostra intrincado e, conforme referido, requer 

muitas precauções sem que se recaia em qualquer ceticismo, visto ser irreprimível a inclusão 

das tecnologias de informação no fazer historiográfico. Contudo, apenas a partir do momen-

to em que nos dedicarmos coletivamente aos problemas concernentes à adesão do fazer 

historiográfico ao recurso informático, poderemos resolver problemas, estabelecer balizas e 

orientações e passar a nos valer dessa poderosa ferramenta de forma plena, e não subutili-

zada como tem sido até o presente.




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