Autismo e psicose na criançA


APRENDENDO COM O NAICAP: UMA TRANSMISSÃO CLÍNICA



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APRENDENDO COM O NAICAP: UMA TRANSMISSÃO CLÍNICA
ANA BEATRIZ FREIRE
Ao receber a proposta de escrever sobre a minha experiência no NAICAP, embora minha primeira reação tenha sido a de aceitar o desafio, fui afetada por um sentimento paradoxal. Simultaneamente me perguntava, de um lado, como conciliar o campo que por definição é clínico e se constitui imanentemente no devir frente ao real e, de outro, como realizar a transmissão de um saber. Assim, a primeira tarefa que se impôs foi a de pensar a transmissão do real da clínica e, mais especificamente, a de refletir a relação entre o saber e a prática nessa clínica com crianças autistas e psicóticas.

Primeiramente, devo precisar que trabalho já há alguns anos no NAICAP como coordenadora de uma pesquisa interinstitucional entre o Programa de Pós-Graduação da universidade (UFRJ) em que leciono, e o Instituto Philippe Pinel. Essa pesquisa se iniciou a partir de alguns impasses existentes na teoria psicanalítica, em particular nas obras de Freud e Lacan em torno da constituição do sujeito.

Tendo como caso paradigmático a psicose, pensamos primordialmente a relação do sujeito com o Outro, a constituição da realidade e a direção de tratamento possível na clínica da psicose. Com o decorrer dos estudos e dos constrangimentos institucionais, o tema da psicose foi se alargando até incluirmos a questão do autismo. A partir da questão central do autismo, alargarmos a nossa entrada no Instituto Philippe Pinel, e além do atendimento de casos de psicose e de “observação participante” na enfermaria feminina, passamos a trabalhar e a frequentar o NAICAP.
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Se, como diz Lacan, aquele que está na posição do analista (definindo o analista como aquele que põe o objeto a no lugar do semblante, de faz de conta) “está na posição mais conveniente para fazer o que é justo fazer, a saber, interrogar como saber o que é da verdade” (LACAN, 1972-1973:129) em que medida essa posição nos permite rever nosso saber estabelecido na universidade? Dito de outro modo, o que a clínica com psicóticos e autistas tem a nos ensinar? Ou, parafraseando Lacan (1965-1966), como essa clínica interroga como saber o que é da verdade?

Esses pacientes nos ensinam, primeiramente, que qualquer saber universitário que se pretenda totalizante, global e a priori é, no mínimo, vão. Por exemplo, o estudo dos clássicos da psiquiatria e de algumas passagens de Freud faz supor, de antemão, a não existência da transferência na psicose. Ora, a clínica com esses pacientes pode até apontar para a tese de que os “psicóticos resistem (mal) à transferência “(CZERMAK 1994), entretanto, eles não deixam de estar na transferência Nesse Caso, nos deparamos com o seguinte impasse: ou o conceito de transferência tal como concebíamos para neurose deveria ser alargado e revisado, ou Continuaríamos em uma posição, no extremo oposto, de condenar a psicose à inacessibilidade de tratamento analítico. Embora seguindo a letra de Freud, Lacan escreveu de uma questão preliminar a todo o tratamento possível da psicose (1958), trabalho em que afirmou, como sugere o título, que há tratamento possível para a psicose.

Se utilizarmos a própria teoria de Lacan em algumas passagens desse texto e em partes de seus primeiros seminários (em particular em LACAN, 1955-56), nos defrontamos, mais uma vez, na Clínica com os limites do próprio saber. Será que, tal como postula Lacan, em algumas passagens nesse período, o Campo do Outro, na fala delirante, está excluído da psicose? (LACAN, 1955-1956:65). Diante dessa passagem sobre a defi-
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nição do Outro, a clínica nos suscita pensar primeiramente no estatuto do Outro, implicado na psicose e, consequentemente, nos leva a confrontar essa passagem com outras de Lacan. Esse trabalho se impôs obrigatoriamente a partir da clínica, pois concluímos que, se nos restringíssemos a essa definição - da psicose como excluída do Outro - e sem nos conduzirmos a uma reflexão consequente acerca do que vem a ser o campo do Outro e da linguagem, nenhum tratamento seria possível para a psicose.

Nesse sentido, a clínica nos ensinou que algumas definições concebidas a priori deveriam ser repensadas e questionadas como tais e que esse deslocamento do lugar do discurso universitário não só era necessário, como também nos ajudaria a reencontrar as regras e compassos teóricos para novas investigações. No caso da transferência, conceito definido na neurose apenas como suposição de saber, não abarca a transferência na psicose. Revendo-o a partir da clínica, pudemos afirmar, como hipótese provisória, que como todo sujeito, o psicótico padece da linguagem e do campo do sentido. E como todo ser falante, ele está exposto e às voltas com a significação. Talvez a diferença seja a de esse sujeito estar, mais que qualquer outro, exposto ao poder invasivo das palavras, correndo maior risco de ser tragado, confundido, pela significação. Ë o que a experiência delirante e alucinatória nos ensina (cf. SOUZA, 1999).

Tendo a experiência com a psicose nos conduzido a questionar um saber pré-estabelecido, o contato no dia-a-dia com a equipe e as Crianças do NAICAP nos evidenciou e ratificou de forma imperativa esse questionamento. O que nos apontam essas crianças de maneira tão radical? Elas mostram que um sujeito não surge a priori e que, apesar de viverem aparentemente em um mundo sem outrem, já que evitam qualquer demanda, olhares vindos do próximo, elas evidenciam que não são pré-verbais (LACAN, 1985) e que estão, mesmo que sob aparente rechaço, afetadas pelo Outro.
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Essa clínica nos ensina de forma radical que o aforismo “o Outro não existe” (LACAN, 1960) deve ser refletido na especificidade de cada construção do sujeito frente ao Outro que o constitui. Assim, vemos que, diferentemente do psicótico delirante, no qual o Outro já está sendo constituído em uma certa consistência pela perseguição ou pela erotomania, o Outro no autista está aquém dessa consistência e, portanto, constituído por um Outro sem limites, desregrado, cuja “mensagem” louca (STAVY 2001), isto é, não possível de ser encadeada, tiraniza, invade, não como uma consistência vinda de fora, como alteridade, mas invade o próprio sujeito em seus próprios atos e estereotipias. De forma insistente, essa clínica ensina que o autista não deve ser tomado como um sujeito inconstituído no sentido de que, por falta do Outro, ele não se constitui. Ao contrário, o autista nos testemunha de forma radical que é do Outro (um Outro excessivamente desregrado, excessivamente pleno de gozo) que sofrem essas crianças. É, nesse sentido, que essas crianças nos convidam a levar às últimas consequências o aforismo lacaniano “o Outro não existe”, pois elas evidenciam que a constatação da existência de um Outro constituidor do sujeito não é suficiente para que um sujeito surja e que a ele cabe responder ao Outro, tratar do excesso, do gozo e do não-articulável desse Outro que o constitui.

Assim, o que a experiência e a elaboração da equipe do NAICAP constatou é o fato de o autista apresentar, com suas estereotipias e atos aparentemente sem sentido, não apenas uma lógica nas suas ações, mas também um trabalho em andamento. Dito de outro modo, o autista em seus atos já apresenta um modo de tratamento possível frente ao Outro. Como afirma Eric Laurent, o sujeito autista “não tem necessidade de esperar passar pelo Outro [com sua consistência como na paranoia ou o Outro que não garante na neurose]. Já no nível da mensagem
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isso fala (LAURENT, 1986), ou melhor, isso se impõe excessivamente, para além ou aquém do registro da representação, isso goza. Se a posição de toda criança é, estruturalmente, ocupar o lugar de objeto da fantasia materna; quando não referida ao Outro mediado pela linguagem, a criança encarna muitas vezes o gozo impossível e fica à mercê desse Outro gozador. É por isso que Lacan menciona ser o autista aquele que escuta a si mesmo, isto é, aquele que encarna a fala em si (LACAN, 1975). Trata-se de uma fala, entretanto, na sua dimensão louca, não articulável, sem sentido. Talvez seja esse o lugar possível que a criança autista consegue frequentemente ocupar frente ao opaco do desejo materno, a saber, encarnar “o objeto impossível de uma mensagem louca” (STAVY, 2001). Propiciar o trabalho de “corte” desse Outro tirano é viabilizar uma possível direção de cura.

Reportemo-nos a um fragmento clínico.

No início do tratamento, Pedro sempre corria ao entrar no NAICAP para abrir a torneira da pia. Como em um devir onde o ser acompanha o itinerário errante do objeto, Pedro, com o olhar fixo para a água que se esvanecia no redemoinho do ralo, gesticulava ritmicamente suas mãos com o correr da correnteza. De vez em quando introduzia algum objeto a mais no redemoinho produzido na pia. Até que, durante o tratamento, ao ser introduzido o fechar e abrir a torneira, como em um par de elementos diacríticos, algo de diferencial se introduziu na cor- rente sempre fluida da água, o que permitia outros objetos substitutos poderem entrar na série (parafraseando o título de um artigo de V. Baio, como se o S2 viesse encontrar o S1). Nesse caso da água, Pedro passou para o chuveiro, piscina e, por último, para o piano cabendo à analista tocar este instrumento para que ele, Pedro, pudesse, segundo a exigência produzida pelo ritual, dançar, ritmicamente, como em um refrão, com suas mãos. Nessa série, um evento chamou a atenção do outro que o acompanha-
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va em tratamento. Um dia, durante o ensaio de desenhar algo no papel, o analista, como o outro, tentava fazer as pontas dos lápis que se quebravam, até que um lápis, na “cegueira” do apontador, também se partiu. Esse encontro com o inesperado, como que, de repente, produziu uma reação surpreendente: de um me- nino pacificamente a desenhar, Pedro se tornou um destruidor. Destruiu todos os outros lápis que restavam, mordendo-os e quebrando-os com a mão, além de jogar o desenho no lixo e cuspir no outro, imprevisível, que quebrou o lápis.

A posteriori, constatamos, nos utilizando de Freud no texto Sobre o Narcisismo: uma introdução, que, assim como no delírio, o que aparentemente se mostra como uma doença, como uma piora, pode ser, no só depois, uma forma de tratamento. No caso, o que aparentemente era “pior”, desorganizador, demonstrou ser o tratamento possível que Vinícius pôde dar ao outro encarnado como Outro invasor. Do Outro louco que ele evitava, a partir desse encontro com uma contingência — a quebra da função do apontador, do fazer funcionar um objeto, o lápis —, algo de real surgiu e uma possibilidade de, digamos, através da expressão de E. Laurent, “descompletar o todo-saber absoluto desse Outro louco” se realizou. Tratou-se, acreditamos, de uma subtração do todo-saber e do gozo do Outro que lhe estava relacionado, já que foi pela falta, pela quebra de algo concreto que, a partir de então se perdeu, um Outro e sua mensagem louca falhou, furou. A partir desse dia, dessa contingência “feliz”, o tratamento seguiu com demandas e falas dirigidas ao outro: “quer agua”, “quer piscina”, “quer comer”, “quer piano”, “quer pasta (de dente)” etc. Uma série de objetos, agora, de- mandados, solicitados, ao outro surgiu e um lugar possível para o analista como não todo saber se introduziu.

Na realidade, supomos que o sujeito já estava em trabalho ao utilizar esses objetos, como diz V. Baio através de E. Laurent,
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ao se servir desses “órgãos suplementares, órgãos que tendem, pela falta de significação fálica, inscrever o sujeito, ancorando-o” (BAIO 2000:20). Entretanto, através da quebra do ritual, nessa contingência com o real, com o impossível, o sujeito pôde verificar, acreditamos, a existência de um lugar para ele. A partir desse lugar, o sujeito adquiriu um “direito à enunciação”, direito através do qual ele pôde “verificar que essa enunciação já estava lá para ser encontrada — encontro necessário para lhe garantir o lugar de um saber produzido não mais pelo Outro, mas por ele mesmo” (Ibid: p.20).

Em um primeiro nível, portanto, podemos afirmar que essa clínica é uma lição no próprio sentido da concepção do saber: a partir dela, nos deslocamos de um saber que pressupõe uma origem natural (deficitária) para um saber que pressupõe o sujeito em construção. Entretanto, acreditamos que esse deslocamento do saber só é apreendido no real dessa clínica e sua experiência, quiçá, impossível de descrever. Esse real só opera de fato, em retorno, no a posteriori, a uma construção lógica que se quer em equipe. É, portanto, na “dinâmica de uma formação permanente” que aprendemos a repensar de forma imperativa algumas dicotomias aparentemente intransponíveis — dicotomias, tais como: a relação entre o contingente e o necessário; entre a estrutura e o fenômeno; entre a causalidade e a responsabilidade; entre o determinismo e o indeterminável.

Na realidade, essas questões são próprias de uma clínica que se quer sempre em construção e que só pode ser tomada como proposta, no tempo posterior, a partir do trabalho de elaboração própria da equipe do NAICAP. O que se testemunha como trabalho em equipe nas sessões clínicas (de fim de cada turno e semanais) é uma direção de trabalho que, seguindo o termo cunhado por J.A.Miller e a formalização própria do ensino de Di Ciaccia, se nomeou “Prática entre Vários” (à plusiers).
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Assim, constatamos que o que se transmite em equipe na prática entre “vários’ proposta pelo NAICAP se situa para além dos limites do público e do privado. Na “prática entre vários” elaborada teórica e clinicamente nesse grupo, cada participante da equipe (auxiliar de cozinha, serventes, estagiárias, terapeutas ocupacionais, psiquiatras, psicólogos ou mesmo psicanalistas) se autoriza a ser notário do tratamento e da construção que cada criança opera e elabora frente ao outro.

Assim, diferentemente do trabalho em equipe, no qual cada indivíduo trabalha com sua especialidade para formar um todo completo, a equipe em “prática entre vários’ trabalha para que cada um possa intervir para “descompletar”, esvaziar o Outro que se quer completo de gozo e de saber.

Tomemos o exemplo polêmico da origem e da constituição ou da inconstituição do sujeito autista. Diferentemente da direção da clínica com autista que visa como lugar do analista a reparação do Outro primordial, a direção do trabalho em equipe do NAICAP visa não a suplência de uma suposta falta, a partir do lugar do analista e do tratamento, mas propiciar o trabalho já realizado por sujeito frente à constituição e ao esvaziamento desse Outro louco, invasivo. O que sustenta a prática entre vários é esse lugar “não-todo”, esvaziado, que cada um se autoriza a ocupar na tarefa de trabalhar em conjunto para esvaziar a consistência de um Outro supostamente total, propiciando uma nova posição subjetiva, uma nova enunciação para a criança.

Assim, a contingência e o encontro com o real nos auxiliam na construção e na notificação da especificidade de cada caso. Seguindo o ensino dos escritos de Freud ao pé da letra, cuja ambição era “reinventar a psicanálise em cada cura’ (STEVENS, 2002: 279), o trabalho deve ser construído caso a caso, destituído de qualquer saber a priori, sem, no entanto, estar despojado de todo o saber, como quer um empiricismo cego ou “um deixar
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fazer" próprio do niilista. O saber de não saber (cf. GHEYSEN, 1998) não é um recurso irônico ou apenas retórico. É O esforço que o cotidiano dessa clínica nos impõe, onde o que se “visa” como tratamento é propiciar, testemunhar, como um notário que acusa o recebimento, o trabalho de tratamento do Outro que, de alguma forma, já se apresenta em andamento para cada criança.

Despojando-nos da interpretação norteada pelo sentido e pelo saber — mesmo que seja no lugar de um suposto saber ou semblante de objeto que causa enigma propiciador de associações —, cada membro da equipe se autoriza a ocupar em ato, orienta- do por um “saber fazer”, o lugar propriamente analítico.

Dessa maneira, longe de apresentar nas sessões Clínicas o caso já realizado, a construção clínica é um exercício de trabalho da palavra. Trata-se da palavra na prática, um autorizar-se no ato que se quer arriscado em uma fala, sem garantia aberta aos imprevistos e às contingências. Trata-se de uma fala em que o que orienta são os pontos cegos, sem sentido, não-todo da articulação de cada um.

Aliás, ninguém melhor do que o próprio autista para nos Colocar nesse lugar de não-saber, do não-todo, próprio da estrutura de todo ser falante. Testemunhando sem demandar o trabalho possível dessa tirania do Outro louco que o autista e nós, como próximos indistintos, encarnamos, ele nos destitui do saber que se quer completo e, no encontro com a contingência própria do real, nos conduz ao não-sentido como o que pode, de alguma maneira, apontar para a estrutura, lógica, de um sintoma a Construir. Para isso, o que nos auxilia é a “prática entre vários”, trabalho no qual buscamos entre vários Construir no caso a Caso a direção do trabalho, a partir de nossos impasses frente ao nosso saber já estabelecido.

Ë nesse contexto que, diferente da terapia de grupo quando o visado é a intersubjetividade, o saber de especialista de cada
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profissional, assim como de uma equipe em uma integração sem divergência, era necessário, por exemplo, que um membro da equipe evidenciasse o seu horror por uma criança, que cuspia continuamente na piscina ou que espancava os colegas, para que outros pudessem apontar outras possibilidades de trabalhar a saliva ou o espancamento e apontar para um trabalho para além do nojo e do medo que pudesse afetar cada sujeito profissional. No caso da criança e seu cuspe, foi necessário uma estagiária, em uma construção clínica, mostrar que havia outras possibilidades de trabalhar a saliva para além do nojo. No caso, “conduzir tal criança para fora da piscina, deslocar seu cuspe para um balde e outros fluxos de água a cair, como o chuveiro ou a torneira”. Dessa maneira, a partir de vários, do desafio imposto e dos impasses de cada um, o trabalho já apresentado por essa criança e seu objeto privilegiado de gozo, o cuspir, deslocou-se de uma mera tentativa de tratar o Outro para um trabalho efetivo, no qual o Outro e sua mensagem primeiramente louca — louca porque sem sentido não apenas para o paciente, mas louca, não analisada (o real, o nojo) para o próprio terapeuta, outro que o acompanha - puderam ser articulados em um esboço de laço. É nesse sentido que, como afirma o grupo Curumim, é necessário deslocar a fixação de um gozo encarnado pela criança para uma outra construção que lhe propicie uma extração desse gozo indistinto do outro e do próprio corpo:
É preciso que o analista tenha a docilidade necessária para seguir o sujeito no trabalho que ele faz e, por outro lado, que esteja disponível ao imprevisto, não caindo na armadilha de transformar a experiência traumática na causa de todos os males que fixa o sujeito em um determinismo absoluto. Nesta perspectiva, se perderia de vista a causa como corte, ruptura, que articularia experiência traumática, não com um destino implacável, mas sim ao real como impossível. A cena traumática pode produzir
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fascinação, fixação a um gozo fantasmático, seja ele da mãe ou da criança. Esta fascinação impede a reversão necessária que possibilita uma invenção ali onde, antes insistia a fixidez sintomática. Em sua intervenção, o analista deve manter aberto, na resposta que a criança constrói, o buraco (troumathisme) com o qual ela tenta lidar, para que tal resposta possa ter para o sujeito um efeito de separação. A aposta do analista é de que se produza uma extração do gozo do corpo, nem sempre possível pela via da fantasia (Grupo Curumim, ICP, Rio de Janeiro, 2003).
Para que a prática entre vários opere, é preciso que, como nos ensina a modalidade da “prática entre vários” do NAICAP, ela trate a clínica e a interpretação em um sentido propriamente analítico, isto é, uma interpretação que vise a articulação pelo não-sentido e uma clínica na qual o que se autoriza é o praticar, o arriscar-se em ato a partir do real que se impõe. Trata-se, por- tanto, de uma prática na qual o “nos autorizar” aponta para a responsabilidade — responsabilidade compartilhada — “a jogar, brincar com o cristal da língua, aí onde alguns se desesperam”, aí onde ela se mostra como real, impossível, a saber, aí onde ela se mostra “que não foi feita para poder comunicar com o sujeito’ (LÀURENT, 1998: 111). Em lugar de tratar pelo sentido, pela interpretação que se supõe toda e obturar a falta — o que, no caso do autismo, seria reforçar ainda mais o Outro louco invasor que o avassala —, é necessário não ceder sobre o desejo de compartilhar o trabalho de equipe, da criança, para que ela possa aí advir como sujeito, construindo seu sintoma, não como algo que fixa e cristaliza o gozo, mas como articulador de gozo e linguagem, permitindo, assim, cada sujeito “bricolar” seu próprio laço com os outros (STEVENS, 2002).

Para além da especialidade de cada saber profissional (da terapia ocupacional, da fonoaudiologia, da psiquiatria etc.), para além da criança como referida a um técnico como objeto de
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estudo, para além do setting a quatro paredes, para além de uma psicologização (culpa ou ressentimento do Outro materno) ou sociologização (o Outro grupal como causa última), para além das tiranias do reconhecimento e rivalidades imaginárias, essa clínica aponta para o real do gozo e para o trabalho sintomático que cada criança aí pode construir. Acatar esse trabalho como notário na sua construção, aí onde pelos sentidos a priori tudo poderia ser facilmente negligenciado, é talvez a transmissão que o tratamento entre vários, tal como concebe o NAICAP, testemunha. Colocar-se entre vários para melhor se dar a coragem de não ceder sobre o desejo (LAURENT, 1998: 111), desejo de analista frente à clínica do real, bela lição tanto de virtude psicanalítica, como afirma Laurent a propósito dos R13,2 quanto e sobretudo pela transmissão do real dessa clínica.
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NOTAS
(1) O Grupo Curumim é o núcleo de pesquisa sobre a criança no discurso analítico do Instituto de Clínica Psicanalítica do Rio de Janeiro da Escola Brasileira de Psicanálise, coordenado por Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros.
(2) A rede R13— Réseau International dInstitutions Infantiles — é formada por três instituições: LAntenne 1 10, Le Courtil e Nonette.
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