Autismo e psicose na criançA


Sobre o discurso analítica



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Sobre o discurso analítica
No meu entender, essa triagem acabou por ser bem sucedida do ponto de vista do comparecimento do objeto. O que se apresentou inicialmente foi um efeito bruto do discurso do mestre sobre Antônia, a ponto de quase velar sua divisão. Ela
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veio ao serviço, ao que pareceu, para fazer valer as palavras do neurologista, que contavam com a poderosa colaboração da in- consciência desse sujeito de sua posição diante de um Outro autista, que nada queria saber sobre sua condição.

Diante do absurdo da situação, minha primeira tentativa foi desmentir o diagnóstico, o que resolveria o problema de Marcelinho e o meu, mas que não promoveria nenhuma mudança subjetiva de peso, pois responderia a um enunciado do mestre com outro da mesma espécie. Isso não é de modo algum inútil, mas não é disso que trata a ética que tentamos fazer valer.

Essa última, como vimos, depende da colocação em Cena do objeto, o que provavelmente aconteceu quando Antônio, por um lado, constatou a estupefação da estagiária com o diagnóstico, e, por outro, percebeu a enorme diferença que Marcelinho procurou apontar quando chamou as crianças de extraterrestres. Nesse momento, é possível que Marcelinho tenha encarna- do, para Antônia, o objeto que ela mesma é para o Outro com o qual ela, por sua vez, se percebeu confundida.

Nesse momento, um sujeito pode entrever ou pelo menos desconfiar de que tem alguma coisa a ver com o problema do qual se queixa. No caso de Antônia, foi o instante em que ela percebeu que tipo de demanda endereçava ao filho:
alguém que pede alguma Coisa já situa, em algum lugar no destinatário, a posse da Coisa pedida. Por isso a demanda define, naquele a quem ela se endereça, as qualidades daquilo que ela busca (...) no registro da demanda, sujeito e objeto são pacifica- mente intercambiáveis (VIEIRA, Op cit., 1 65-9).
Identificar, na cena, o desencontro entre o filho e o que dizia dele me pareceu o motivo mais provável de seu incômodo, leia-se de sua angústia e da demanda imediata de ser atendida sem o filho. Poderíamos Situar a mudança na demanda de
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Antônia como resultado de uma histericização, de um giro no discurso do mestre que faz passar ao da histérica, expresso em sua indignação e ria instituição de uma suposição de saber na psicanálise. A partir disso, creio que se abriram as portas para a incidência do discurso analítico, uma vez que essa suposição resultou não somente na sustentação de uma análise, que dura até hoje, mas também no aparecimento de um desejo de voltar a estudar, novo no sentido de algo que Antônia pensa em fazer por conta própria.
Início de nota de rodapé
NOTAS
(1) Gostaria de agradecer à coordenadora do NAICAP, Dra. Katia Alvares, assim como a todos os membros da equipe, pelo acolhimento caloroso e por tudo o que pude aprender sobre essa clínica tão delicada que é a clínica do autismo e da psicose infantil. Agradeço também a Dra. Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros pelo incentivo e pelo trabalho sistemático de discussão e elaboração dos casos clínicos, não só na supervisão do NAICAP, mas também nas aulas de ICP. Da mesma forma, agradeço a Stella Jimenez em especial pela abordagem cuidadosa da lógica dos discursos nas aulas minis- tradas por ela no ICP-RJ.
(2) Esse analista é Maria do Rosário Collier do Rêgo Barros, membro da Escola Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro.
(3) Sobre isso, ver Vieira, M.A. (200 1), p.1 38: Ê esse objeto que pode ser apenas deduzido de todas as demandas que, sempre insatisfeitas, levam a supor um objeto de satisfação total relacionado com o fim do desejo e, por isso mesmo, com o fim do sujeito. (...) a presença nua, signo da satisfação total, faria o mundo, feito de falta, desabar, e também, p.157.
Fim de nota de rodapé
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DI CIACCIA, A. Da fundação por Um à prática feita por muitos. In Curinga n 13. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psicanálise de Minas Gerais, 1999.
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LAMBERT, Anamaria. Psicanálise no Hospital. In Lacaniana — Revista Brasileira Internacional de Psicanalise. São Paulo: Edições Eólia, n2 37, 2003.

LACAN, J. O Seminário, livro XVII. O Avesso da psicanálise Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1 992.

MILLER, J.A. Saúde mental e ordem pública. In Curinga n2 13. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psicanálise de Minas Gerais, 1999.

VIEIRA, M.A. A Ética da paixão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2001.

WGANÓ, C. A construção do caso clínico em saúde mental. In Curinga n2 13. Belo Horizonte: Escola Brasileira de Psicanálise de Minas Gerais, 1 999.
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