Autismo e psicose na criançA


COMPOSIÇÃO DE UM CASO: REFLEXÕES SOBRE O ATENDIMENTO DE UMA RIANÇA AUTISTA NO NAICAP



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COMPOSIÇÃO DE UM CASO: REFLEXÕES SOBRE O ATENDIMENTO DE UMA RIANÇA AUTISTA NO NAICAP
ROSA ALBA SARNO OLIVEIRA
Nem tudo o que escrevo resulta numa realização, resulta mais numa tentativa. O que também é um prazer. Pois nem em tudo eu quero pegar. Às vezes quero apenas tocar. Depois o que toco às vezes floresce e os outros podem pegar com as duas mãos (LISPECTOR, 1992:145).
Aqui, a tentativa de construir ou compor um caso busca retomar o atendimento de uma criança autista de 4 anos realiza- do no NAICAP. Um atendimento que se definiu por uma série de operações de construção: a composição de um menino, de uma mãe e de endereçamentos transferenciais.

A ideia de que uma criança é algo a ser construído é muito bem ilustrada no belíssimo texto de Clarice Lispector (1992), Menino a Bico-de-Pena, tal como é apontado por RIBEIRO & COUTO (1998).(1) Por sua vez, o meu esforço em compor este caso me remeteu ao título de outro texto desta autora com um talento singular por falar do que beira a indizível, Tentativa de descrever sutilezas (LISPECTOR, 1992). Penso que seja esta a minha tarefa, aqui, tentar descrever, relatar e refletir sobre sutilezas.

Iniciei o atendimento de Gabriel em julho de 1999. Ele foi recebido, em um primeiro momento, por uma residente de saúde mental que fez algumas entrevistas com ele e sua mãe, Marina. O relato de todo este percurso tem, aqui, a função de explicitar como vai se constituindo a demanda desta mãe pelo atendimento de Gabriel. Se, por vezes, este relato parecer deveras descritivo, que isso seja entendido como uma peculiaridade deste
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tipo de clínica e como um esforço para não cair na tentação de preencher com extensas e mirabolantes interpretações o vazio deixado pela pouca fala da criança, o que, no entanto, não inviabilizou que fossem feitos endereçamentos transferenciais.

Aos 2 anos e 7 meses, Gabriel foi submetido a uma avaliação fonoaudiológica em que foi diagnosticado um severo distúrbio do desenvolvimento da linguagem, caracterizado por uma acentuada e generalizada alteração das habilidades linguísticas, da atenção e da memória verbal, sendo-lhe indicada terapia fonoaudiológica. Marina traz para a entrevista esta avaliação e a indicação de tratamento no NAICAP dada pela psicóloga da creche que Gabriel frequenta diariamente.

Na primeira entrevista, é registrada como queixa de Marina seguinte frase: Ele tem atraso, não obedece, nem brigando. Ele é diferente, só fala pé e mão, o que eu só percebi quando ele tinha 2 anos, então procurei um pediatra.

Marina é empregada doméstica e mora na casa da patroa, desde antes do nascimento de Gabriel. O pai não registrou o filho. Gabriel ficou no berço muito tempo sem andar ou engatinhar. Atualmente ele passa o dia na creche e quando chega em casa custa a dormir.

Marina diz que seu filho vai ao banheiro fazer xixi sozinho, mas só faz cocô na fralda. Fala que ele gosta de ver objetos girarem e tem uma falha no cabelo acima da nuca, pois só consegue dormir embalando-se na cama.

Durante esta entrevista, é observado que Gabriel fica se olhando no espelho e abre e fecha a torneira da pia. É marcada uma segunda entrevista com Marina e depois feito o encaminhamento do atendimento de Gabriel para mim.

Nesta entrevista, Marina se pergunta se Gabriel não fala porque ela falava muito pouco com ele. Diz que fala pouco e é muito fechada, não é muito de conversa. É alagoana e não tem
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nenhum contato com sua família, fala que se desligou dela. Conta que sua mãe foi embora quando ela tinha 3 anos mais ou menos e, desde então, nunca procurou nenhum dos filhos, nem pediu notícias. O pai, então, começou a dar os filhos.

Quando tinha 10 anos, Marina foi dada para a madrinha que ela mal conhecia e que a maltratava muito. Aos 15 anos ela foi dada para uma sobrinha da madrinha que morava no Rio de Janeiro e onde trabalhou durante 14 anos. Mais tarde, como não se entendia bem com a sobrinha da madrinha, conseguiu o emprego onde trabalha atualmente.

Marina diz que não percebeu nada de diferente em seu filho até o médico diagnosticar que ele era atrasado. Na época atribuiu isso ao fato de ele ser o seu primeiro filho. Conta que amamentou Gabriel até os 6 meses, que ele não quis chupeta e dormia muito. Porque tinha de trabalhar, Marina o deixava no berço e ele dormia sempre, embalando-se. Relata que ele não brinca com brinquedos, só quer mexer nos objetos da cozinha, como fogão, forno e água, come muito e gosta de ir à creche. Marina acredita que Gabriel irá um dia aprender as coisas, já que é um atraso. Pergunta se vamos observar seu comportamento e se tem fonoaudióloga, pois ele está crescendo e precisa falar.

Num dos primeiros atendimentos, me dirijo a Gabriel e digo que estamos conversando sobre ele e sua mãe. Marina me interrompe dizendo que sobre o pai dele também, pois ela não deve ter vergonha de dizer que é mãe solteira. Então, conta que conheceu Ivo na Feira de São Cristóvão, que namoraram e quando ficou grávida, ele voltou para o Piauí, casando-se com uma cunhada. Não teve mais contato com ele, se desligou, mas logo em seguida diz que fez chegar ao pai uma foto de Gabriel soube que ele disse não saber que tinha um filho tão bonito.

Como Marina é morena de cabelos e olhos pretos e Gabriel tem a pele bem clara, olhos azuis e cabelo aloirado, pergunto com quem ele se parece. Marina me diz que com a família de seu ex-
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companheiro e também com seu pai, que tinha a pele e os olhos claros. Fala que, inclusive, tem uma irmã loira de olhos azuis.

Gabriel passa toda a entrevista com um bonequinho de brinquedo na mão que, segundo sua mãe, ele trouxe da creche, o que fará inúmeras outras vezes ao longo do atendimento. Ao final dirijo-me a ele e digo que o estou aguardando na próxima semana. Gabriel se aproxima de mim colando sua cintura nas minhas pernas, de maneira que quase não fica nenhuma distância entre nós dois.

Desde o primeiro dia de atendimento, Gabriel já vai me apontando algumas direções para seu tratamento. Recordo-me, então, da atitude fundamental relatada por Lacan para penetrar no centro do delírio de uma paciente entrevistada, por ele, numa Apresentação Clínica: submeter-se inteiramente à posição subjetiva do paciente (LACAN, 1955-56).

Desde o início, Gabriel mostra que o seu atendimento não será numa sala sozinho comigo, ao começar a chorar e dirigir-se para o pátio externo. Introduz o primeiro brinquedo, uma bola enorme azul, onde gosta de subir, ficar sentado ou em pé saltitando. Pega minha mão e me puxa para que eu o ajude a ficar sobre a bola, brincando de cavalinho.

A presença de outras crianças não parece lhe interessar, as ignora mesmo quando se aproximam dele e o tocam. Age como se fôssemos só nós dois e a bola. Tenho minha participação limitada a segurá-lo sobre a bola. Outra característica destes primeiros atendimentos é uma verdadeira peregrinação pelas salas, abrindo portas que se encontram fechadas, entrando nas salas. Cabe a mim segui-lo, caso contrário, ele grita, protestando. Sendo que, quando as portas estão trancadas, ele pega a minha mão e põe sobre a maçaneta. Embora a presença de outras crianças não pareça interessar a Gabriel neste primeiro momento, para mim foi de enorme utilidade já ter alguma relação com aquelas crian-
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ças pois eu ficava lhes dizendo o nome de Gabriel e explicando que ele viria todas as terças-feiras.

A partir de então vai se delineando o trabalho com Gabriel, que teve em mim, nas primeiras semanas, efeitos quase devasta- dores que merecem ser mencionados. Eu ficava absolutamente exausta, certamente isso não se devia apenas ao esforço físico que me era solicitado. Em supervisão discutimos o quanto o modo como estas crianças se relacionam conosco tem algo de insuportável e exaustivo pegam nossas mãos para que façamos algo que elas querem raramente falam ou nos olham diretamente.

Gabriel vai começar sinalizar que não é indiferente à presença ou ausência da mãe: quando entra no NAICAP começa a chorar, deita-se no chão perto da porta de entrada, pega minha mão e põe sobre a maçaneta para que eu abra esta porta. Sugiro, então, que sua mãe entre, no sentido de valorizar o fato de Gabriel demonstrar seu incômodo com o afastamento e a ausência dela. Isto vai se revelar bastante proveitoso pois, enquanto atendo Gabriel, sua mãe faz perguntas e comentários bem interessantes, falando mais de si mesma, do filho, do pai dele e fazendo novos endereçamentos a mim.

Introduzo alguns outros brinquedos: os bambolês e um pianinho que ele toca e vira de cabeça para baixo, como se procurasse de onde vem o som. Gabriel amplia seu tempo de permanência no NAICAP e uma criança me pergunta: Cadê o Gabriel?, sinalizando que ele já tem um lugar junto a elas.

Por sua vez, Gabriel agora já olha para as outras crianças, inclusive briga com elas por brinquedos. Um dia, vendo uma menina brincando com a bola azul, se aproxima e põe sua mão sobre esta bola, a menina se afasta, o que ele faz também logo em seguida. Quando a menina volta a tocar na bola, ele faz mesmo movimento e diz: Não.

Um traço em comum passa a marcar os atendimentos: a alternância entre momentos em que Gabriel se apresenta muito
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mais aberto à interlocução com os outros e momentos de maior fechamento. Neste dia da disputa pela bola, Gabriel estava mais aberto a tudo o que acontecia a sua volta. Esta abertura se deu em relação tanto ao que lhe era oferecido por mim, quanto ao que ele teve de brigar para ter, como na situação da disputa pela bola. Pega minha mão e segue pelo NAICAP, aceita os brinque- dos que lhe ofereço, indo ver o que tem nas gavetas que abro para lhe mostrar.

Em outros dias, que considero de uma maior abertura ao Outro, ficamos jogando bola, sendo que, para que este jogo seja levado adiante, é preciso olhar um para o outro. Em seguida, quando pego uma presilha que estala nas minhas mãos, Gabriel vem imediatamente ver o que tenho nas mãos e pega a presilha. Ele parece estar me incluindo cada vez mais em sua peregrinação pelas salas, sendo que, se não o sigo, ele fica bravo e berra, e, se por algum motivo vou em outra direção, ele berra e me segue.

Todos estes episódios indicam uma inclusão de minha presença no universo deste menino e não apenas o uso esporádico e instrumental de minhas mãos e braços para realizar algo que ele quer. Agora, meu afastamento, mesmo que momentâneo, causa mal-estar e minha presença é solicitada tanto nas peregrinações pelas salas, como no jogo de bola em que é necessária a sustentação do olhar.

Faz parte do ritual em que Gabriel percorre as salas do NAICAP, uma visita ao banheiro das crianças. Nesta visita, ele gosta de abrir as torneiras das pias e dar descarga nos vasos sanitários. Quando abre as torneiras ou quando dá descarga, ele olha em seguida para o ralo, como se quisesse ver para onde a água vai, numa atitude que faz aparecer algo para logo em seguida testemunhar o seu desaparecimento. Cabe a mim ficar segurando a porta do banheiro enquanto ele dá descarga, para depois se aproximar e tentar sentar no vaso sanitário, ao mesmo tempo em que se esquiva e grita quando tomo a iniciativa de ajudá-lo.
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Novamente, aqui, trata-se de me restringir ao lugar que me foi delegado: o de segurar a porta do banheiro e testemunhar seus movimentos de aproximação e de afastamento do vaso sanitário. Nesta segunda situação, há uma convocação para que eu segure a porta do banheiro, enquanto ele dá descarga e explora este espaço que até este momento se recusava a utilizar. Lembremos que Gabriel só fazia cocô na fralda, tinha frequentemente prisão de ventre e chegava aos atendimentos com a barriga visivelmente estufada. Coube a mim, portanto, suportar esta posição nada confortável de testemunhar estes momentos em que ele ensaia sentar no vaso sanitário, o que posteriormente se revelará como tendo efeitos importantes.

Nos dias em que entra no NAICAP, Marina fica sempre afastada enquanto brinco com Gabriel, dizendo que não brinca com ele, apenas nos olha, mas faz interessantes observações. Por exemplo, diz que Gabriel gosta de música quando ele entra numa sala onde o som está tocando e começa a pular e pergunta onde compramos a bola azul com a qual ele gosta tanto de brincar.

Marina vive me perguntando se eu já sei o que Gabriel tem e um dia me revela que é sua patroa que sempre lhe pergunta o que eu disse quando chega em casa. E eu lhe pergunto: mas, e você, nã0 quer saber também? Ela me responde: Mas é claro, eu é que sou a mãe dele.

Depois deste dia, Marina passou a se posicionar de manei- ra diferente, se apropriando mais do lugar de mãe e interagindo mais com Gabriel, como demonstram as situações seguintes. Numa delas, enquanto Marina se aproximava, perguntei a Gabriel se ele sabia quem estava chegando, ao que ela mesma respondeu: É a mamãe! Dias depois, sou surpreendida com seguinte cena: Gabriel entra no NAICAP puxando a mãe pela mão e a leva em suas peregrinações. Durante um atendimento, observo que Gabriel está sentado olhando tudo de rabo de olho.
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Marina diz que o pai dele também olhava as pessoas assim e, em seguida, enquanto calçamos o sapato de Gabriel, noto que ele tem dois dedinhos tortos, e ela diz que são iguais aos dela. Posteriormente, Marina chega a trazer um álbum com fotografias de Gabriel, desde bebê, para me mostrar.

Em outros momentos, Gabriel deita-se num dos colchonetes e fica embalando-se, o que se prolonga de tal forma que parece que vai durar o atendimento todo. Diante desta situação, na qual identifico um movimento de fechamento de Gabriel em relação a tudo que o cerca, decido intervir no sentido de introduzir um começo e um fim dentro deste movimento que parece tentar ignorar qualquer escansão temporal. Inicio uma brincadeira, bastante comum entre as crianças, que teve efeitos de corte e de fazer Gabriel despertar2 daquele embalar-se quase sem fim. Assim, começo a brincar com ele de fazer cosquinhas, me aproximando dele, mexendo os dedos, dizendo Vou fazer cosquinhas neste menino, tititi. Ele, por sua vez, acolhe e apropria-se desta brincadeira. Rindo muito e repetindo tititi. Ora ele sai correndo, fugindo de mim, ora vem em minha direção, pegando meus dedos e dizendo tititi. A partir de então, esta nova brincadeira é iniciada por ele que olha para mim, dizendo tititi e mexendo os dedos.

Numa ocasião sou surpreendida com um telefonema da creche de Gabriel. Sua coordenadora me pergunta o que estou fazendo com ele, pois ele está muito diferente, brincando com outras crianças e me convida a conhecer a creche. Marina, por sua vez, relata que ele está melhor, pois está falando algumas palavras na creche e agora entende o que lhe dizem. Conta que um dia disse: Gabriel, pega este papel para a mamãe e ele pegou e que agora ele já faz cocô no banheiro.

Marina passa então a participar das brincadeiras com seu filho. Um dia, enquanto eles brincavam e eu estava sentada em um colchonete, ele sai de cima da bola e corre em minha dire-
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ção mexendo os dedinhos e dizendo tititi, ao que completa com tititi-titia, me abraçando. Levamos um susto e ela diz. “Ele te chamou de titia”.

Este foi um daqueles dias que chamo de maior abertura aos outros, o que foi muito curioso, pois ele passou o dia todo brincando com a mãe e parecia nem estar me vendo e, subitamente, fez esta aproximação, pegando depois nos minúsculos botões de minha blusa, que eram tão pequenos que só alguém que tivesse prestando muita atenção os teria percebido. Depois, já na hora de ir embora, vamos lavar as mãos e digo que ele gosta de água, ao que ele repete: Água.

Há coisas muito difíceis de descrever como, por exemplo, as mudanças na própria fisionomia de Gabriel que, sobretudo nos primeiros atendimentos, quando chegava ao NAICAP, era bastante alheia e ausente. Seus olhos deslizavam tanto que eu demorei muito tempo sem saber se os olhos de Gabriel eram azuis ou verdes, embora eles sejam bem grandes. Por outro lado, ao longo do atendimento, seu rosto tornou-se mais presente e seus olhos parecem fixar-se mais nas pessoas e nas coisas.

A partir da constatação desta alternância entre abertura e fechamento aos outros que caracterizava os atendimentos de Gabriel, destacarei alguns pontos que penso serem importantes na reflexão sobre a complexidade da clínica com crianças autistas, visto que foi justamente esta alternância que me colocou em contato com o modo de funcionamento e a posição subjetiva desta criança e serviu como ponto de partida para a condução clínica deste caso.

Um primeiro aspecto apresentado por esta experiência clínica é o de como funções e comportamentos considerados básicos, como a alimentação, a aquisição da fala, o controle dos esfíncteres, assim como o aparente singelo e solitário ato de defecar se constituem, pela mediação da linguagem, nas primeiras.
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relações da criança, cabendo, então, repensar toda a diversidade de distúrbios desta ordem que estas crianças apresentam a partir da relação com o Outro e da posição subjetiva que lhes é peculiar, em que buscam regular o universo significante nos mínimos detalhes, protegendo-se do que é experimentado como intrusivo

(BAIO & KUSNIEREK, 1993).

Outra peculiaridade desta experiência é o fato de ela envolver o brincar, não como uma atividade puramente lúdica, mas de relação com o Outro, que envolve operações de reconheci- mento, endereçamento, apelo e a construção de um lugar para a transferência. Assim, aprendi com esta criança que uma brincadeira é, na verdade, algo muito sério, o que faz com que seja uma grande aquisição de trabalho o fato de uma criança se com- prometer numa brincadeira conosco. Novamente, aqui, as dificuldades em brincar com os outros vem a evidenciar a posição destas crianças tão decididas a anular qualquer iniciativa do Outro

(STRAUSS, 1993).

Uma outra importante dimensão que se faz presente no trabalho com estas crianças é a dimensão do olhar, o olhar como portador de um reconhecimento e construtor de um endereça- mento, o olhar como um momento, talvez, em que o sujeito diz Presente. Ë digno de valorização o momento em que a criança nos olha, inclusive não são raros os casos em que a criança apresenta estrabismo ou outros problemas desta ordem, o que nos faz pensar nos olhos e no olhar como um lugar privilegiado de investimento e pólo de relações. A psicanálise já chama a atenção para o lugar privilegiado do olhar dentro do circuito pulsional (FREUD, 1915), o que, no caso destas crianças, ganha um peso particular, já que está inserido dentro de um modo de assujeitamento muito peculiar.

Por fim, se entendemos o autismo como uma construção em que, diante de um Outro intrusivo, resta ao sujeito um trabalho constante de neutralizá-lo ao máximo. Cabe definirmos
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toda direção e manejo clínico levando isto em consideração. Neste sentido, é preciso acolher toda a série de posições e lugares nem sempre agradáveis que nos são atribuídos — como, por exemplo, os de segurar a bola, a porta do banheiro e abrir portas — estando presente da maneira que nos é requisitada sem de- mandas excessivas. Será justamente a partir destes constrangi- mentos transferenciais (BRUNO, 1991), no interior mesmo desta tendência ao fechamento a qualquer interlocução, que momentos de abertura podem ser produzidos, cabendo-nos, por- tanto, sustentar uma aposta sem pressa nesta possibilidade. E esta aposta, no meu entender, tem bastante afinidade com a contrapartida necessária da regra fundamental da psicanálise, atenção flutuante, que podemos resumir nos seguintes termos: suspender expectativas para descobrir algo novo (FREUD, 1 9 1 2).
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NOTAS
(1) Não sei como desenhar o menino [...], pois até o bico-de-pena mancha o papel para além da finíssima linha de extrema atualidade em que ele vive. Um dia o domesticaremos em humano, e poderemos desenhá-lo [...j o próprio menino ajudará sua domesticação [...j ele passará do tempo atual ao tempo cotidiano, da meditação à expressão, da existência à vida (Lispector, 1992, apud RIBEIRO & COUTO, 1998 . 205-6).
(2) Miller (1987) apresenta a ideia do despertar como sendo a via privilegiada do processo ana1ítico que produz escanções na tendência de todo sujeito humano a permanecer dormindo e não se dar conta do que lhe causa, como demonstram os sonhos de angústia na sua ruptura com o desejo de permanecer dormindo presente nos sonhos.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BAIO, p. & KUSNIEREK, M. L’autisme: un psichotique au travail. In Préliminaire, n2 5, Revue de I’Antenne 110. Bruxelas: 1993.
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BRUNO, P. Autismo e psicose infantil. In Corte Freudiano. Rio de Janeiro, 1991, mimeo.

FREUD, S. (1912). Recomendações aos médicos que exercem psicanálise. In Edição Standard brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1969, vol. XII.

FREUD, S., (1915). Os instintos e suas vicissitudes. In Edição Standard brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sznund Freud. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1 969, vo1. XIV.

LACAN, J. Seminário: livro 3 As Psicoses: 1955-6. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1988.

LISPECTOR, C. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Fran- cisco Alves, 1992.

MILLER, J. A. Despertar. In Matemas I. Buenos Aires: Manantial, 1987.

OLIVEIRA, R., & LIMA, F. M. (2002). Construções em oficinas: um espaço para o trabalho constante de crianças autistas e psicóticas. In Revista de Psicologia — Universidade Veiga de Almeida, n2 1, v. 1. Rio de Janeiro: Núcleo de Publicação do Curso de Psicologia/UVA, 123-131.

RIBEIRO, J. M., .C, & COUTO, M., C., V. O autismo como enigma. In Revista do CEPPAC For-da, n2 4-5. Rio de Janeiro: 1998.

STRAUSS, M. Pour une espécificité de lautisme. In Révue de lécole de la cause freudienne. Paris, n2 23, 1993.
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