Autismo e psicose na criançA


A repetição das histórias e a simbolização



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A repetição das histórias e a simbolização
Freud (1920), ao observar a brincadeira de seu neto no famoso jogo do Fort-da, destaca o movimento de repetição da criança. Aborda este tema do ponto de vista econômico para
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pensar o que haveria de prazer e de gozo — entendido como excesso, além do princípio de prazer — neste jogo. Desta maneira, aquilo que se apresenta como um excesso, trauma vivido pela ausência da mãe, pode, através do jogo, ser simbolizado pelo sujeito. Complementando esta ideia citamos um fragmento em que Ribeiro aborda o tema:

A repetição se daria para dominar esse excesso — o inassimilável da experiência traumática da ausência da mãe — e ligá-lo às malhas da rede de representação. Nesse esforço de simbolização, algo resta sempre inassimilável, o que relança o sujeito ao trabalho (RIBEIRO, 2003: 19).

Podemos entender, então, que as brincadeiras e os jogos infantis se constituem como um trabalho de elaboração. Consideramos possível traçar um paralelo entre os jogos e as histórias. Conforme afirma Mengarelli (1998): A literatura dá ocasião de expressão do que ficou impresso. A insistência da criança no de novo é sua urgência em saber o que fazer com isso, encontrar lugar para sua lápide, lapidação. Assim, entendemos o pedido de repetição de histórias como um trabalho do sujeito de elaboração daquilo que se apresenta como um excesso.

A partir do que foi exposto, trazemos um acontecimento que exemplifica este trabalho de simbolização.

Felipe chegou na Biblioteca de forma muito particular, sempre num movimento de esconder seu olho. Num primeiro momento se sentou no chão e permaneceu de cabeça baixa. Após algum tempo, continuou cobrindo seus olhos, porém, no colo de sua mãe, que o pegou por estar chorando. Neste instante a mãe colocara um lenço sobre seu rosto, para enxugar as lágrimas, e Felipe não retirou, continuando a esconder o rosto. Já mais tarde, pôde oscilar entre esconder-se e nos olhar de rabo de olho. Acompanhamos seu movimento e construímos com ele um jogo de presença e ausência.
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Um livro, também, foi usado como recurso, pois havia figuras com os braços móveis em que 05 personagens ficavam com as mãos sobre o rosto e o leitor poderia retirá-los quando quisesse. Apresentamos o livro ao Felipe e começamos a ensaiar mover os braços dos personagens para destampar o rosto. Felipe se interessou pelo jogo, demonstrando prazer a cada vez que mencionávamos destampar o olho das figuras. Até que ele próprio tirou as mãos de seu rosto, o que já vinha sendo ensaiado com os personagens podendo assim brincar com o livro.

Pensando os efeitos de um trabalho pontua

Como descrevemos no início deste trabalho, o espaço da Biblioteca foi construído num ambiente de sala de espera. Este fato indica uma peculiaridade marcante neste trabalho. Sabemos que aquelas crianças talvez não participem novamente da Biblioteca. Entretanto, isto não nos impede de apostar que a oferta deste espaço, ao funcionar como um lugar de acolhimento, possa produzir efeitos interessantes para cada criança.

Jorge estava participando da Biblioteca e havia criado uma brincadeira em que retirava os livros do baú e os colocava novamente de volta. Sua mãe se aproximou e disse que ele era hiperativo, assim estava olhando a brincadeira como um aspecto desta hiperatividade já que, segundo ela, seu filho não parava quieto. Após um tempo, ele foi chamado para seu atendimento individual e quando retornou sua mãe explicou que ele não quis ficar durante todo o atendimento. A princípio não sabia o motivo, entretanto, depois cogitou a hipótese de ele estar interessa- do na Biblioteca. Consideramos interessante que neste momento a mãe pôde olhar seu filho para além de sua hiperatividade, colocando que sua vontade de não ficar no atendimento tinha a ver com o interesse na Biblioteca e não com o fato de ele não conseguir ficar quieto.
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Lúcia, diante dos livros, diz não ter concentração, porém, neste momento, está prestando atenção em um livro de sua escolha. Falamos isto para ela que, então, mudou sua opinião e afirmou ter concentração para ler. Depois disso pôde falar sobre sua preferência pelos livros com poucos textos e mais figuras, pois assim poderia ler mais livros. Poder colocar sua preferência não é estar concentrada, atenta a si mesma? Desta forma foi possível diluir algo sobre si que chegou rotulado, estigmatizado.

Certa vez, Luiza escolheu a história da Branca de Neve e estava nos contando, quando parou no momento em que a figura mostrava a bruxa oferecendo a maçã para a Branca de Neve. Era uma figura móvel e, a partir da movimentação desta figura, a bruxa poderia se aproximar ou se afastar da Branca de Neve. Esse movimento dependia do leitor. Ela não movimentou a figura, mas pegou a maçã e a colocou na boca da bruxa e falou enfaticamente várias vezes: Come! Come! Luiza pôde, a partir da maleabilidade da figura, trazer algo seu para a história, pôde participar dela como um agente e assim reconstruí-la. Como nos mostra Mengarelli (1998):
Triunfo do prazer na transformação do mal-estar, os contos encantam porque têm valor de retificação, de arranjo, de composição [...] Eles oferecem a possibilidade da criança estar ali não estando, de algum personagem dar voz ao que nela encontra-se impalavrável (MENGARELL1, 1 998: 68).
Na Biblioteca Infantil é o livro que possibilita o vínculo entre as pessoas é o ato de compartilhar uma história que faz laço social. Se, por um aspecto, algo da cultura se faz circular e produz uma convivência, num outro aspecto, algo da subjetividade se faz presente na maneira como cada criança conta, reconta, ou mesmo cria uma história.
Palavra 86
(...) [O trabalho ocorre] no intervalo entre o sujeito e a cultura, entre o singular e o universal, entre a fantasia e a realidade. Isso porque a história ocorre neste intervalo. Ocorre em um mundo distante, no tempo do Era uma vez (...) (INAFUKU & TEPERMAN, 1996: 79).
A criança, sua criatividade, sua imaginação, sua inventividade é a mola propulsora do trabalho. É o que faz com que comecemos e recomecemos a cada vez, a cada semana, uma nova história, história dos contos infantis, história de cada criança e também, agora, a história da Biblioteca Infantil.

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NOTAS
(1) Dedicamos este artigo a Katia Alvares por todo seu carinho, apoio e disponibilidade, além de sua aposta neste trabalho, que, sem sua participação, não teria sido possível. Gostaríamos, também, de estender os agradecimentos a Jeanne Marie Ribeiro por sua imensa contribuição no trabalho de revisão deste artigo. Este trabalho foi apresentado em forma de tema livre no XVII Congresso Brasileiro de Neurologia e Psiquiatria Infantil da ABENEPI e no Centro de Estudos do Instituto Municipal Philippe Pinel/RJ, no ano de 2003.
(2) Centro de Orientação Infanto Juvenil (COIJ) e o Núcleo de Atenção Intensiva à Criança Autista e Psicótica (NAICAP).
(3) O livro propõe o trabalho de procurar um bonequinho no meio de tantos outros, o que se transforma num jogo, sendo ganhador aquele que achar primeiro o personagem Wally.
(4) O Grupo de Recepção faz parte do trabalho de recepção daqueles que procuram atendimento no CoIJ.
(5) FREUD, S. Sobre as teorias sexuais das crianças. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Vol. IX. Rio de Janeiro: Imago, 1996 [1908]: 198.
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REFERÊNCIAS BIBLOGRÁFICAS
INAFUKU, Cristina & TEPERMAN, Daniela. Eva, Pandora e Curumim: a curiosidade e as histórias. In Estilos da Clínica. Dossiê: Psicoses e Instituição. São Paulo: Instituto de Psicologia/USP, ano 1, n° 1, 1996. pp. 78-93.

FREUD, Sigmund. In Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1 996.

(1905) Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Vol. VII

(1908) Sobre as teorias sexuais das crianças. Vol. IX

(1920) Além princípio do prazer. Vol. XVIII

LACAN, Jacques. O Seminário: Livro 3: As Psicoses (1955-56). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1985.

MENGARELLI, Jandira Kondera. Era uma vez porque não era mais. In Dos contos, em cantos. Salvador: Ágalma, 1998.

RIBEIRO, Jeanne Marie de Leers Costa. A criança autista em trabalho: Considerações sobre o Outro na clínica do autismo. Dissertação de Mestrado/Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica. Rio de Janeiro: Instituto de Psicologia, UFRJ, 2003.
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