Autismo e psicose na criançA


O interesse das crianças pelos contos infantis



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O interesse das crianças pelos contos infantis
Por que as crianças se interessam pelos contos infantis? O que há nas histórias que despertam tanto prazer nas crianças?
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Freud, em 1905, em Três ensaios sobre a sexualidade aborda o tema da curiosidade da criança e para isso se refere à pulsão de saber. Toda tarefa investigatória da criança, que a leva a formular as teorias sexuais infantis, parte da pergunta acerca de sua origem.

A criança precocemente inicia um trabalho de investigação, que encontra um certo respaldo no contato com os contos infantis, já que estes contemplam questões estruturais como da origem do pai e da morte. As histórias tocam em pontos cruciais para todo ser humano e a criança talvez se interesse ainda mais pelos contos justamente porque estes vão de encontro aos temas que mais lhe intrigam. Freud5 oferece o exemplo da história do Chapeuzinho Vermelho para demonstrar a relação entre as teorias sexuais infantis e os contos de fadas. Relaciona as explicações encontradas pelas crianças para entender como um bebê sai da barriga da mãe e o que acontece com o lobo desta história, já que sua barriga é cortada para que a vovó seja salva.

Nesta investigação, as crianças estão às voltas com a pergunta: de onde vêm os bebês? Uma questão sobre sua origem que se articula sobre o desejo do Outro: o que o Outro quer de mim? É a pergunta que a criança formula ao Outro.

Mas, e a criança psicótica? Ela não chega a formular esta pergunta. Diante do enigma do desejo do Outro, não há dúvida, mas certeza.

Faz-se necessário aqui, nos referirmos ao estatuto do Outro na psicose. O Outro se constitui para o sujeito psicótico como consistente, um Outro desregrado, sem lei, que detém todo o saber. Frente a este Outro, o sujeito psicótico ocupa o lugar de objeto. Portanto, todo o trabalho do psicótico é o de regular seu Outro louco, na tentativa de se deslocar do lugar de objeto e advir como sujeito.

A partir disso, como poderíamos pensar na inserção destas crianças autistas e psicóticas num espaço como a Biblioteca In-
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fantil? Se o que move a criança neurótica no seu interesse pelos contos infantis é o desejo de saber, seria possível que crianças psicóticas se interessassem pelos contos infantis? Cabe agora abordar aqui como essas crianças se apropriam do espaço da Biblioteca.

Antônio aguarda na sala de espera seu horário para atendi- mento no NAICAP. Está sempre inquieto, se movendo de um lado para o outro. Aos olhos da maioria das pessoas, parece estar completamente alheio, fazendo movimentos muito estranhos, ditos estereotipados. Entretanto, a partir de nossa oferta, ele passou a se interessar em pegar um livro. Antônio dava continuidade a este trabalho, levando-o para dentro do NAICAP. Nós permitíamos que o livro fosse levado porque entendíamos que aí algo do interesse dessa criança podia se instaurar. De fato, este trabalho teve continuidade em seu local de tratamento, como foi possível verificar a posteriori.

José, também no momento de espera para seu atendimento no NAICAP aceitava sentar-se conosco, escolhia um livro para folhear e algumas vezes, quando via uma determinada figura que lhe interessava, nomeava e repetia várias vezes o mesmo significante. Em outra ocasião, José pegava um livro, virava, procurando algo na capa, e depois ia para outro livro fazendo o mesmo movimento. Depois de algum tempo, acompanhando este trabalho, foi possível perceber que ele estava procurando OS números e por isso buscava os códigos de barras que identificavam cada livro.



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