Autismo e psicose na criançA


Teoria e clinica: construções e reconstruções



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Teoria e clinica: construções e reconstruções
Freud nos mostrou muito bem que a teoria psicanalítica apenas tem sentido se construída e reconstruída a partir do trabalho clínico. Logo, se a clínica nos coloca novas questões mesmo que estas venham a ser refutadas, isso apenas contribui para a construção teórica da psicanálise. Sendo assim, tentarei expor brevemente as questões que me foram suscitadas a partir da vinheta clínica mencionada neste artigo.
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Entendemos que a subjetivação implica situar-se quanto ao lugar que o sujeito ocupa no desejo do Outro3 e aqui encontramos um problema em se tratando da criança dita autista. Essa criança é apresentada corno se não tivesse razão de ser, como se fosse resultante de um projeto fracassado ou de um não-projeto, o que, segundo Lacan, não deixa de trazer problemas. Na Conferência de Genebra sobre o sintoma (LACAN,1975l1993) ele nos diz que, mesmo que mais tarde essa criança não desejada possa ser melhor acolhida, isto não impede que algo conserve a marca do fato de que o desejo não existia antes de certa data.

Lembremos que a construção imaginária de uma unidade corporal só é feita a partir do investimento do Outro. Ressaltamos então o papel do Outro do estádio do espelho (LACAN, 1949/1998), que informa ao bebê quem ele é. O olhar desejante da mãe permite que o bebê se aproprie de uma imagem dotada de atributos relacionados aos valores parentais.

Sendo assim, o estádio do espelho deve ser entendido como um ponto de chegada. Para compreendermos melhor esta afirmação, devemos situar hipoteticamente um ponto de partida na história do sujeito que antecede seu nascimento. Afinal, este sujeito vem ocupar um lugar no mito familiar. Desta maneira, partir do momento em que a mulher sabe estar grávida uma relação mãe-filho já é instalada. Na maioria dos casos, o início da gravidez coincide com a instauração de uma relação imaginária na qual o bebê não é representado pelo que é na realidade. Neste momento, não há um bebê constituído ainda, e sim um embrião. Mas, apesar disso, ele é representado por um corpo imaginado. Esse corpo é completo e unificado, dotado de todos os atributos para isso. O corpo imaginado antecede e acompanha a criança. A mãe investe no corpo do bebê desde antes de seu nascimento e é nele que a mãe vai continuar investindo, atribuindo-lhe qualidades dando-lhe um nome, inserindo-o
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numa história. Este corpo será suporte identificatório para o pequeno sujeito (AULAGNIER, 1990).

No caso do autismo, alguns autores indicam que ficaria clara a fragilidade da constituição de uma imagem do corpo. A criança autista possuiria um corpo não marcado pelo desejo. O corpo não marcado pelo Outro não teria suas excitações contidas, ficando entregue ao impacto traumático da força pulsional. Aqui, resta a questão: se este não é um corpo marcado pelo desejo, de que corpo se trata?

Pensamos que se supomos um sujeito, temos que supor um corpo. Trata-se de uma aposta num sujeito que possa estar em trabalho permanente de constituição através da repetição de algumas práticas que se prestam a tentar delimitar o corpo? Se- ria este o papel da dor, geralmente buscada por essas crianças ao se mutilarem, por exemplo?

Nesses casos que nos remetem ao que é da ordem da descontinuida subjetiva o que está em evidência é a iminência da perda dos limites corporais e do próprio Eu, ameaçando experiência ilusória de continuidade egóica. O que está em jogo aqui é a possibilidade ou não de existência do sujeito. Este tem a impressão de morte interna, não confia em si e no outro (ALLOUCH 2003). Sendo assim, ele busca uma identidade, termo definido por Allouch como um sucedâneo dos sentimentos-sensação de ser. Essa autora nos remete à Tustin no que diz respeito a uma formação de suplência das crianças autistas para se conter e se sentir existir em continuidade. Desta maneira, o sujeito se esforça por uma elaboração através da dor como se esta fosse o laço mais sólido com a vida. Afinal, (..) uma dor persistente ou um estado de doença podem tornar-se a última garantia de existir, de se identificar (ALLOUCH, op. cit., p.9l). Recorrer às sensações fortes e reais vem a ser uma tentativa de escapar de um caos interno e alcançar um sentimento-sensação de ser em continuidade (ALLOUCH, op. cit.).
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Portanto, acreditamos que face à ameaça de um corpo fragmentado e uma falência egóica, o corpo seria investido de maneira que pudesse fazer o sujeito experienciar seus limites, seu contorno, para que o sujeito possa se reconhecer enquanto uma unidade narcísica que tem certa permanência no tempo. A unidade narcísica desempenha uma função de sutura, ou melhor, uma função de sutura ilusória, sendo essa ilusão extremamente necessária.
Início de nota de rodapé
NOTAS
(1) Nome fictício.
(2) ldem.
(3) Utilizamos o conceito lacaniano de Outro em função de sua dimensão simbólica.
REFERÊNCIAS BIBLOGRÁFICAS
ALLOUCH, E. As psicopatologias do apoio: autismo, adicção e somatização. In Ágora. Rio de Janeiro: Contra Capa, vol. VI, n° 1, 2003.

AULAGNIER, P. Um intérprete em busca de sentido — 11. São Paulo: Escuta, 1990.

FERNANDES, L. O olhar do engano: autismo e Outro primordial. São Paulo: Escuta, 2000.

LACAN, J. (1949). O estádio do espelho como formador da função do eu (tal como nos é revelada na experiência psicanalítica). In Escritos. Rio de janeiro: Jorge Zahar Editora, 1998.
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LACAN, J. (1964). O sujeito e o Outro (I): a alienação. In O Seminário. Livro 1 1. Os quatro conceitos fundamentais da psicanalise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1985.

LACAN, J. (1975). Conferencia en Ginebra sobre el sintoma. In Intervencionesy textos, vol 2. Argentina: Manancial, 1993.

MANNONI, M. Amor, Ódio, Separação. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 1995.

SILVA,A. O mito individual do autista. In’Autismos(org. Rocha, P). São Paulo: Escuta, 1997.
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