Autismo e psicose na criançA



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O percurso na oficina
Quando comecei a participar da oficina, esta era feita mim e outra estagiária; contava também com a participação de Pedrinho e mais duas crianças. Porém, Pedrinho não interagia com as outras crianças e desde o início permitiu uma maior aproximação minha. Ele sempre me pedia: Desenha o “plim” (forno de microondas), o prato, o pão, a manteiga, o presunto, a mesa a cadeira, a cabeça, os olhinhos, o nariz, a boca, a camisa, a cueca,
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O short, a perna, o pé e o sapato. Ele insistia nesta mesma sequência todas as oficinas e falava em tom extremamente monocórdio. Desta forma, tudo se passou exatamente igual durante qU2SC um ano...

Destacamos que Pedrinho pedia para eu desenhar uma cena de um café da manhã. O ator principal era um menino, que mais tarde chegou a ser chamado de boneco e depois ganhou seu nome. Mas a cena era imóvel e nada acontecia... Era apenas um desenho sem um tecido, uma trama, um enredo... Mas essa cena não foi escolhida ao acaso. Na época, Pedrinho via muito pouco a mãe, que trabalhava fora e só podia estar com ele no café da manhã. Sua mãe delegava todas as suas tarefas a um incontável número de babás, que apareciam e desapareciam da vida desta criança sem muitas explicações.

E a oficina sempre se desenrolava da mesma maneira, até que, aos poucos, Pedrinho foi acrescentando seu dia-a-dia ao do boneco de papel, de forma que tudo que fazia parte do seu mundo deveria ser desenhado: o banho, a hora de dormir, a ida à escola, a ida ao NAICAP, o apartamento novo, o elevador do prédio para o qual tinha se mudado etc. Porém, o tempo de duração da oficina foi ficando pequeno para tantos desenhos e Pedrinho chorava muito, angustiado, quando tínhamos que finalizar a oficina sem que eu tivesse desenhado tudo o que ele queria... Podemos pensar que ele não tinha a garantia da continuidade no tempo e, assim, a continuidade de sua própria existência estava ameaçada.

Vale ressaltar que o ritual de início e de término da oficina ficou bem marcado: nós buscávamos e guardávamos todas as Construções das crianças num armário e se tornou constante Pedrinho ir até lá apenas para rever suas coisas.

Mas, para Pedrinho, a oficina só podia ser encerrada quando seu boneco dormia. E, como já foi colocado, ele precisava
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cumprir todo aquele ritual do dia-a-dia. Como isto não estava mais sendo possível, ele caía em angústia. Depois de um tempo, Pedrinho foi aceitando encurtar as tarefas de seu boneco, deixando-as para amanhã. Assim, quando estava quase na hora de a oficina acabar, ele era avisado (ou percebia sozinho que estava chegando ao fim) e falava: Continua amanhã, de modo que sua afirmativa precisava ser confirmada por mim.

Portanto, foi possível uma negociação com Pedrinho e continua amanhã passou a ser dito por ele em qualquer ocasião onde precisasse abrir mão de alguma coisa. Além disso, Pedrinho começou a fazer uma diferença entre amanhã e depois, sendo que o depois era utilizado para um futuro mais imediato. Isso reduziu muito sua angústia diante do término da oficina, pois Pedrinho inserido minimamente numa ordem temporal, podia vislumbrar uma continuidade mesmo que curta; podia projetar para futuro, mesmo sem este lhe parecer tão longínquo.

Também vale colocar que algumas vezes Pedrinho se desapontava comigo, quando eu não desenhava de acordo com o que ele queria. A princípio, chorava muito, mas acabou tomando a iniciativa de desenhar sozinho, podendo até pedir ajuda dizendo: Faz você, tá difícil. Certo dia, perguntei por que ele não podia desenhar e apenas me dava ordens. Pedrinho hesitou, mas respondeu: Pedrinho estraga tudo... Ressalto também que Pedrinho se recusava a desenhar Eu, e me chamava sempre de dizendo Eu desenho ao mesmo tempo em que me entregava o lápis. Poucas vezes ele me chamava por meu nome e, quando se agitava, procurava subir em meu colo ou aproximava seu rosto do meu. De modo semelhante, ao se machucar, queria passar gelo em mim. Eu fazia intervenções buscando uma separação Eu/Outro porque Pedrinho mostrava-se praticamente sem limite em seu corpo e em sua fala. Porém, esse episódio referente ao pedido de ajuda ocorreu após Pedrinho ter dito durante uma oficina: Fernanda tá desenhando. Desta forma, ele pôde pedir ajuda a um outro.
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Durante um ano, a oficina não foi realizada com Pedrinho por conta do término de meu estágio e da recusa dele em dar continuidade a este trabalho. No entanto, numa visita minha ao NAICAP Pedrinho pediu o retorno da oficina do seguinte modo: Fernanda, oficina de criação! Pedrinho não estava se envolvendo em nenhuma atividade no NAICAP e insistiu nesse pedido com a coordenadora do serviço. Sendo assim, e diante do meu desejo de retornar, retomamos a criação.

Este segundo período de oficina, marcado por este pedido de retorno, gira em torno de algumas questões pontuais. Pedrinho passou por uma fase de muitas perdas, muitas pessoas foram embora — como ele próprio diz — de sua vida. Ele fala nessas pessoas (várias babás inclusive) e diz: acabou, explodiu, morreu. Sua mãe relata que ele não dorme e passa a noite chorando porque o dia acabou. Pedrinho controla o passar do tempo construindo calendários.

Durante um atendimento, Pedrinho ouviu uma criança gritando do lado de fora da sala. Imediatamente, associou os gritos à dor: ai, ai, tá doendo, tá machucado. Então, desenhou um machucado em sua própria perna e passou a dizer que a perna não solta, tá colada. Falar de seu próprio corpo, precisando assegurá-lo como seu, já era sua temática favorita. Lembro- me de uma oficina em que Pedrinho passou uma fita isolante por seu corpo e pedia que eu a retirasse devagar, de modo que ele ficasse de frente para o espelho. Enquanto eu retirava a fita, ele falava: ai ai. E complementava eufórico: olha o braço, aperna... Neste segundo momento, Pedrinho passa a se morder quando muito angustiado, o que de certo modo Ihe permite alguma organizaç0 Vale ressaltar que Pedrinho geralmente refere-se a si próprio na terceira pessoa, e, em momentos de angústia, chega a falar, por exemplo: eu sou Fernanda, sou Rita. A prática de. Provo dor, assim como a de se olhar fixamente no espelho,
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acaba por permitir que Pedrinho possa reconhecer o Eu em seu próprio corpo. Esse movimento de se apossar do próprio corpo possibilita sua fala na primeira pessoa.

O corpo do autista seria, portanto um corpo sem história na medida em que não está inserido na temporalidade, o que não lhe traz uma garantia mínima de continuidade, e não pressupõe uma unidade fundadora do Eu.

Pedrinho apenas pôde se reconhecer com um corpo próprio ao se inserir na temporalidade pois esse corpo pôde ser nomeado, historicizado. Sua existência foi assegurada pela possibilidade da continuidade dada pela antecipação do futuro. Pedrinho chorava angustiado nos finais das sessões e mais tarde pôde dizer que tudo iria acabar, morrer, explodir. Para ele, era o que acontecia com as pessoas quando não as via. A representação do corpo do outro e do seu próprio corpo não tinha duração. Com sua inserção na tempora1idade a questão da imagem corporal pôde ser modificada. Lembremos que Pedrinho fez seguinte construção: Mamãe trabalha e mamãe volta. Papai viaJa e papai volta. Pedrinho não acaba, Pedrinho continua. Entendemos, com isso, que ele pode falar de um corpo que continua no tempo; uma imagem que pode se modificar e permanecer ainda como uma referência; ele pode falar de um corpo com presente, passado e futuro.

Desta maneira, ele começa a pedir que eu desenhe o destino que as pessoas que foram embora tomaram, imaginando por exemplo, que sua antiga babá agora mora com a mãe em Jacarepaguá. Ele fala muito em tudo que acabou, mas desloca o sentido do que é acabar. Ele fala nas viagens de seu pai e diz que ele não acaba, pois ele volta. Nesse momento, Pedrinho pode encenar sua vida através dos bonecos, que agora são muitos. Ele pediu que eu desenhasse sua família, colegas de escola etc. Além disso, ele às vezes encena a fala do boneco Pedrinho.
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Podemos dizer que Pedrinho brinca de contar sua história através dos desenhos. Em algumas oficinas, ele desenhou um machucado na perna do boneco Pedrinho e em sua própria per- na. Lembremos que ele encenava em seu próprio corpo e ao mesmo tempo usava o boneco para a encenação. Isso aconteceu até ele poder perceber que o boneco é de brincadeira. Pedrinho explicitou isso dizendo que o boneco é de papel, de mentirinha, enquanto ele próprio (e fez um gesto de se tocar) é de verdade. E na brincadeira tudo é possível... Pedrinho pegou uma boneca de papel com a imagem de uma cantora famosa para encenar babá do boneco Pedrinho, colocando neste personagem o nome de sua própria babá. Ao atentar para o fato de que a boneca era a figura da cantora, ficou contrariado, mas logo resolveu: na brincadeira, Ivete Sangalo é Marta. (2)

Para finalizar, destaco que Pedrinho passou a se interessar por sobrenomes e logo anunciou que possui um sobrenome, o que lhe garante ser uma pessoa. A1ém disso, com a inserção na temporalidade pôde perceber que está crescendo e enfatizou:

Pedrinho não é mais P, é M. Sendo assim, sobre seu trabalho, certa vez me disse: oficina de criação (...) não é pintura é história.

Podemos, portanto fazer uma leitura do traba1ho na oficina de criação, entendendo que se trata de uma pessoa que cria e conta sua própria história do modo que lhe é possível.



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