Astronomia no ensino fundamental



Baixar 5.01 Kb.
Pdf preview
Página97/150
Encontro17.03.2020
Tamanho5.01 Kb.
1   ...   93   94   95   96   97   98   99   100   ...   150
 
“No  movimento  da  Terra  (rotação)  e  a  passagem  do  Sol  de  leste  a  oeste.” 
(The), 
                                                 
31
 Utilizamos os termos “aparente” e “real” entre parênteses como uma espécie de ressalva ao seu 
uso, que, embora consagrado, parece-nos inadequado, pois todo movimento é sempre relativo a um 
certo  referencial,  não  existe  movimento  ou  referencial absoluto. Quando observamos o céu de um 
ponto  da  superfície  da  Terra,  nosso  referencial  natural  é  esse  ponto.  É  um  referencial  local, 
topocêntrico,  e,  com  relação  a  ele,  o  chamado  movimento  “aparente”  do  Sol  não  tem  nada  de 
ilusório,  ou  aparente,  muito  pelo  contrário,  é  o  movimento  que  é  realmente  observado  neste 
referencial. Porém, como ele não é um referencial inercial, para efeito de aplicação das leis físicas, 
para  cálculos,  para  a  formulação  das  explicações  científicas,  é  bem  mais  simples  utilizarmos  um 
referencial  que  melhor  se  aproxime  de  um  referencial  inercial,  e  então  adotamos,  em  geral,  um 
referencial  heliocêntrico,  no  qual  a  Terra  gira  e  translada.  Contudo,  parece-nos  inapropriado 
denominar  somente  os  movimentos  nele  descritos  como  sendo  “reais”,  pois  também  essa 
descrição,  feita  nesse  referencial,  não  passa  de  uma  interpretação  da  natureza,  uma  criação 
simbólica  humana,  como  toda  a  explicação  física,  e  só  indevidamente  poderia  ser  considerada 
como  sendo  o  “real”  ou  a  “verdade”  absolutos.  Em  vez  de  se  falar  de  movimentos  “reais”  e 
“aparentes”, julgamos mais acertado falar-se em movimentos observados em um referencial local e 
em um referencial heliocêntrico 

 maneira de abordar a questão que ainda tem o mérito de destacar 
o papel fundamental dos referenciais na descrição dos movimentos. 


 
174 
é  possível  perceber  que  parece  haver  apenas  uma  superposição,  uma  soma  de 
explicações, sem o estabelecimento de uma relação entre ambas. 
 
Reencontraremos  manifestações  deste  tipo  de  dificuldade,  de  articulação 
entre  referenciais  locais  e  heliocêntricos,  em  outros  momentos  desta  nossa 
análise,  como,  por  exemplo,  durante  o  levantamento  das concepções acerca dos 
fenômenos das estações do ano e das fases da Lua. 
 
Com relação à noção de órbita, em um dos itens do módulo 6 (questão 6.3) 
foi  feita  a  pergunta:  “o  que  é  uma  órbita?”.  Nas  respostas  dadas,  algumas 
professoras parecem concebê-la como sendo um caminho, ou trajetória, como nos 
exemplos abaixo: 
 
“Órbita é o caminho/percurso realizado pelo planeta em torno do Sol.” (Cin); 
 
“É o trajeto circular que a Terra apresenta ao redor do Sol.” (The). 
 
É  interessante  observarmos  que,  embora  a  pergunta  tenha  sido  feito  de 
maneira genérica, semelhantemente ao que ocorreu no caso da questão acerca da 
diferença entre rotação e translação, as noções acima expressas parecem restritas 
ao caso particular da órbita da Terra em torno do Sol. 
 
Outras  professoras  contudo,  pareciam  conceber  “órbita”  não  como  uma 
trajetória, mas mais como um tipo de movimento, como nos dois exemplos abaixo: 
 
“É o movimento circular de um elemento em torno de outro.” (Dal); 
 
“Penso  que  é  o  movimento  da  terra  em  relação  ao  sol  (em  torno  do  sol).” 
(Iza). 
 
No  último  exemplo  (Iza),  é  interessante  observar  que  a  conceituação  de 
órbita  é  igual  a  que  já  havia  sido  dada  para  o  movimento  de  translação, ou seja, 
para ela, ao que parece, órbita e movimento seriam a mesma coisa. 
 
No  item  seguinte  do  módulo  6,  foi  perguntado  como  era  a  órbita  da  Terra 
em  torno  do  Sol,  pedia-se  um  desenho  desta  órbita  e,  ainda,  a  reprodução  do 
movimento  da  Terra  em  torno  do  Sol  com  um  modelo  tridimensional  no  qual  a 
Terra  era  representada  por  uma  bola  de  isopor  e,  o  Sol,  por  uma  lâmpada.  As 
respostas verbais foram poucas e sucintas: das seis professoras que responderam 
a este item apenas três deram respostas por escrito:  
 
“A órbita da Terra em torno do Sol é circular.” (Dal); 


 
175 
 
“É um movimento inclinado.” (Iza); 
 
“Órbita giratória.” (The). 
 
Apenas  a  primeira  (Dal)  deu  uma  resposta  em  termos  de  uma 
caracterização  da  trajetória,  enquanto  que  as  outras  duas  (Iza  e  The),  parecem 
referir-se  não  tanto  à  trajetória  mas  mais  ao  tipo  de  movimento.  Este  resultado, 
somado ao do item anterior, parece indicar que, de fato, algumas professoras não 
distinguem a órbita do movimento, considerando-os uma só coisa. 
 
Contrastando com a escassez das respostas verbais, as respostas gráficas, 
ou  seja,  os  desenhos,  foram  feitos  por  todas  as  professoras  e  obedecem 
praticamente  a  um  mesmo  padrão:  a  órbita  indicada  é  elíptica  (ou  circular,  mas 
desenhada  numa  perspectiva  oblíqua),  com  a  Terra  sendo  representada  em  4 
posições, diametralmente opostas aos pares, dividindo a órbita em 4 partes iguais, 
e o Sol aparece no centro, como nos exemplos mostrados às figuras 32 e 33. 
 
Chama a atenção nestes desenhos, em primeiro lugar, a sua padronização. 
É possível perceber, sobretudo pela Terra desenhada em quatro posições, que o 
padrão por eles seguido não é outro senão o veiculado pelos livros didáticos: é um 
lugar  comum  nestes  livros,  principalmente  em  associação  com  a  explicação  das 
estações do ano, apresentar um desenho da órbita da Terra de forma elíptica (ou 
circular, mas representada numa perspectiva oblíqua) em que esta é representada 
em  quatro  posições,  correspondentes  aos  equinócios  e  solstícios,  que  marcam  o 
início  e  o  final  de  cada  uma  das  estações,  com  o  Sol  representado  no  centro  da 
trajetória. Na figura 34 apresentamos exemplos desse diagrama padrão extraídos 
de livros didáticos. 
 
Confirmando  esta  hipótese,  podemos  observar  que  uma  das  professoras 
(Cin), espontaneamente, chegou a escrever o nome de estações ao lado de cada 
um  das  quatro  posições  da  Terra  indicadas  em  seu  desenho  (fig.  32(a))
32

Podemos  notar,  também,  que  os  desenhos  feitos  pelas  professoras  no  módulo 
seguinte (fig. 36 e 37), quando, aí sim, pedia-se um desenho ilustrativo da posição 
da Terra em sua órbita nas diferentes estações do ano, são praticamente idênticos 
aos que já haviam sido feitos no módulo anterior (fig. 32 e 33). 
                                                 
32
  Podemos  também  observar,  neste  desenho,  que,  sutilmente,  ela  indica  nossa  posição  sobre  a 
Terra por um ponto, o qual fica mais próximo do Sol no verão e mais distante no inverno indicados 
em sua figura. 

1   ...   93   94   95   96   97   98   99   100   ...   150


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal