Astronomia no ensino fundamental



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Figura 31: Desenhos que reproduzem a imagem padrão da Terra “na vertical”, com 
meridianos e paralelos indicados. Desenhos feitos por: (a) The, (b) Cin e (c) Der. 


 
166 
 
A gravidade 
 
O módulo 3 do curso foi especialmente dedicado à discussão da gravidade 
na superfície da Terra (veja questões propostas, no apêndice B). 
 
Um  dos  principais  resultados  extraídos  a  partir  da  análise  das  respostas 
dadas  ao  questionário  correspondente  foi  com  relação  à  maneira  como  as 
professoras concebiam a orientação da gravidade na superfície da Terra.  
 
Esse  resultado  foi  obtido  sobretudo  a  partir  do  exame  das  questões  que 
pediam para desenhar pessoas em diferentes pontos da Terra e indicar a trajetória 
de pedras que fossem lançadas para o alto nestes pontos (questões 3.2 e 3.3 do 
módulo  3):  cerca  de  metade  das  professoras  fez  um  desenho  correto,  indicando 
uma gravidade orientada para o centro da Terra, porém a outra metade desenhou 
as  pessoas  “em  pé”  e  as  trajetórias  das  pedras  orientadas  sempre  na  mesma 
direção,  independente  do  ponto  em  que  se  encontrassem  na  superfície  da  Terra 
(veja figura 28). 
 
Já  discutimos  bastante  esse  ponto  anteriormente.  Vimos  que  isto  significa 
uma  concepção  de  que  a  vertical  é  absoluta  que  nos  parece  radicada  na  crença 
realista  ingênua  de  que  todos  os  objetos  soltos  caem  na  mesma  direção  e  na 
representação padrão da Terra com pólos na vertical e equador na horizontal. Ao 
longo desta nossa análise, temos também destacado o quanto essa concepção é 
arraigada no pensamento de diversas professoras, e  ainda teremos oportunidade 
de  encontrar  novas  situações  em  que  ela  se  manifestará,  parecendo  consistir, 
efetivamente,  num  dos  pressupostos  mais  importantes  e  determinantes  de  sua 
representação de universo. 
 
O  segundo  resultado  interessante  que  obtivemos  acerca  de  como  as 
professoras concebem a gravidade foi o de que, para muitas, existe uma estreita 
vinculação entre a gravidade e a presença do ar, ou da pressão atmosférica. Esta 
concepção  foi  revelada  pelas  respostas  dadas  à  primeira  questão  do  módulo  3, 
que perguntava: “Por que, ao soltarmos um objeto, ele cai?”, e pelas questões que 
perguntavam  o  que  aconteceria  com  os  objetos  em  uma  sala  em  que  todo  o  ar 
fosse retirado (questões 3.6 e 3.7). 
 
Em  resposta  à  primeira,  todas  as  dezessete  professoras  disseram  que  um 
objeto  cai  devido  à  “gravidade”,  ou  à  “força  da  gravidade”,  ou  ainda  à  “lei  da 


 
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gravidade”, mas, além de se referirem à gravidade, seis professoras também citam 
como causa da queda a “pressão do ar”, como nos exemplos abaixo: 
 
“Devido à gravidade mais pressão do ar” (Der); 
 
“Devido à força da gravidade e à pressão do ar.” (Iza); 
 
Parece  assim  que  essas  professoras  imaginam  que  a  pressão  do  ar 
também  desempenha  um  papel  na  queda  dos  corpos,  “pressionando”  para  que 
eles  caiam,  somando-se  assim  à  gravidade.  Uma  demonstração  notável  desta 
crença, foi dada por uma professora que chega a imaginar a atmosfera como que 
formando  uma  “parede”  em  torno  da  Terra,  fazendo  assim  com  que  os  corpos 
fiquem firmemente presos à sua superfície: em resposta à questão que perguntava 
por  que  um  navio  que  navega  de  um  pólo  a  outro  não  cai  (questão  3.4),  em seu 
caderno,  ela  escreve  que:  “A  pressão  da  camada  de  atmosfera  que  forma  uma 
parede
25
 e a atração do solo sobre a matéria oferecem um equilíbrio.” (Dal). Essa 
idéia  parece  relacionada  com  a  noção  de  que  a  Terra  funciona  como  um 
continente, ou melhor, é um continente (no sentido de “recipiente”), no interior do 
qual  nós  vivemos,  no  qual  estamos  encerrados  (pela  parede  atmosférica…, 
pensaria, possivelmente, a professora citada) e por isso não caímos
26

 
Porém o efeito da presença do ar, ou da pressão atmosférica, não é apenas 
concebido como algo que se soma à gravidade, auxiliando na queda dos corpos e 
na manutenção deles firmemente presos ao chão, como é dado a entender pelas 
respostas  acima  citadas,  mas  também  sua  presença  é  pensada  como  uma 
condição  necessária  à  própria  existência  da  gravidade:  nas  respostas  dadas  à 
pergunta sobre o que aconteceria com os objetos no interior de uma sala se todo o 
ar  fosse  retirado  isso  fica  bem  claro:  oito  das  dezessete  professoras  respondem 
que eles “flutuariam” ou “voariam soltos”, como se, na ausência do ar, a gravidade 
deixasse de existir
27

                                                 
25
 Grifo meu. 
26
 Interessante notar que, nesse tipo de concepção e na resposta dada por Dal, sutilmente percebe-
se  a  presença  da  crença  numa  vertical  absoluta,  válida  para  toda  a  Terra  e  o  espaço  a  sua  volta, 
pois dá a entender, indiretamente, que, se não fosse por essa “parede” formada pela atmosfera, o 
navio, ou as pessoas e coisas sobre a superfície da Terra, poderiam cair no espaço…, o que só faz 
sentido se imaginarmos que existe uma direção segundo a qual as coisas deveriam cair, porém são 
impedidas pela atmosfera e gravidade. 
27
  Possivelmente,  deve  contribuir  para  esta  concepção  as  imagens,  veiculadas  pela  mídia,  de 
astronautas “flutuando” quando estão no espaço, onde, se sabe, não existe ar; favorecendo assim a 
associação entre a ausência de ar e de gravidade. 


 
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Corroborando isso, no questionário inicial, em resposta à pergunta “como é 
a  Lua”  (onde,  sabe-se,  não  existe  ar)  algumas professoras disseram que ela não 
possui gravidade. 
 
No  módulo  6  foi  proposta  uma  questão  que  perguntava  por  que  a  Terra 
permanece girando em torno do Sol, sem escapar de sua trajetória (veja apêndice 
B). Ela forneceu alguns indícios sobre a noção de gravidade das professoras não 
mais apenas na superfície da Terra, mas no sistema solar. O mais interessante foi 
perceber que as professoras aparentam conceber a gravidade e a atração do Sol 
como  duas  coisas  distintas,  que  se  somam  para  produzir  o  efeito  de  manter  os 
planetas em suas órbitas, como nas respostas a seguir: 
 
“Devido à gravidade e provavelmente uma espécie de atração do Sol exerce 
em todos os planetas” (Der) 
 
“Por  causa  da  Lei  da  Gravidade  e  a  atração  que  o  Sol  exerce  nos  corpos 
celestes.” (The). 
 
Parece-nos assim que, na concepção dessas professoras, a “gravidade” e a 
atração  do  Sol  seriam  coisas  independentes:  possivelmente  a  gravidade  sendo 
associada  mais  à  própria  Terra,  ao  que  acontece  aqui  na  sua  superfície,  e,  a 
atração  do  Sol,  ou  “força  gravitacional”,  sendo  associada  a  algo    que  só  ocorre 
entre  os  astros,  no  sistema  solar,  e  que  não  acha-se  relacionado  à  familiar 
“gravidade”. 
 
Em  resumo,  a  gravidade  na  superfície  da Terra é concebida por boa parte 
das professoras como possuindo uma orientação absoluta, paralelamente ao eixo 
que  passa  pelos  pólos,  e  é  associada  à  presença  do  ar.  A  noção  de  gravidade 
parece  não  ser  generalizada  para  o  sistema  solar,  onde  os  planetas  manteriam 
suas órbitas em torno do Sol devido a uma propriedade de atração do Sol, distinta 
da gravidade. 

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