Astronomia no ensino fundamental



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I.1.1 - AS ENTREVISTAS 
 
 
Inicialmente  realizamos  uma  série  piloto  de  dez  entrevistas  que  serviu 
para  o  desenvolvimento  da  metodologia  que  por  fim  utilizamos.  Nesta  série 
inicial começávamos perguntando se moramos dentro ou fora da Terra, depois 
apresentávamos  um  modelo  pronto  de  Terra 

  uma  bola  de  isopor  com  os 
continentes  desenhados 

  e  solicitávamos  à  criança  que  indicasse  onde 
morávamos,  colocando  um  boneco  na  posição  que  ela  achasse  correta.  A 
seguir,  pedíamos  que  ela  imaginasse  um  navio  que,  saindo  do  Brasil, 
navegasse  sempre  em  frente  e,  depois,  um  foguete  que,  saindo  da  Terra, 
viajasse  sempre  para  o  alto.  Nos  dois  casos  perguntava-se  onde  eles  iriam 
chegar.  Essas  perguntas  eram  do  tipo  “generativo”,  no  sentido  dado  a  este 
termo  por  Vosniadou  e  Brewer  para  descrever  perguntas  que  “pedem  às 
crianças  para  explicar  fenômenos  que  elas não podem observar diretamente e 
sobre  os  quais  elas  provavelmente  não  devem  ter  recebido  qualquer  instrução 
direta”, e que, portanto, “tem um potencial muito maior para prover informações 
sobre a estrutura conceitual subjacente das crianças” 
5

 
O  ponto  crítico  destas  entrevistas  iniciais, como  logo percebemos, era a 
imposição às crianças de um modelo esférico de Terra, pois nem sempre é este 
o modelo por elas concebido para o lugar onde vivemos. Muitas crianças, como 
pudemos  verificar  em  nossas  entrevistas,  e  é  confirmado  por  diversos  outros 
trabalhos realizados no exterior, como os que analisaremos na segunda seção 
deste capítulo, concebem a Terra em que vivemos como plana. 
 
Para  contornar  este  problema  e  permitir  a  expressão  das  concepções 
realmente  adotadas  pelas  crianças,  decidimos  reformular  a  nossa  entrevista  e 
estruturá-la  de  modo  que  a  criança  tivesse  mais  liberdade  de  expressão  e 
pudesse representar a Terra e os astros, tridimensionalmente, tanto com massa 
de modelar como com objetos de isopor de sua própria escolha. 
 
Organizamos  também  a  entrevista  de  maneira  tal  que,  através  de  uma 
viagem  imaginária  com  um  foguete,  que  propúnhamos  ao  final  da  mesma,  se 
obtinha uma representação tridimensional do universo construída pela criança.  
                                                 
5
 VOSNIADOU e BREWER, 1992, p.542. 


 
10 
 
Para  isso  equipamos  a  sala  da  entrevista  com  uma  estante  cheia  de 
objetos  diversos  feitos  de  isopor  (esferas  coloridas,  discos,  meias-luas,  placas 
planas,  etc.)  e  deixamos  fios  de  nylon  suspensos  a  partir  do  teto  da  sala,  nos 
quais a criança poderia prender os objetos que escolhesse para representar os 
astros. A entrevista seguia as seguintes etapas: 
 
1
a
)  Solicitávamos  à  criança  que  fizesse  a  Terra,  a  Lua,  o  Sol  e  uma 
estrela usando massa de modelar. 
 
2
a
)  Pedíamos  que  desenhasse  livremente  a  Terra,  o  Sol,  a  Lua,  uma 
estrela e o céu. 
 
3
a
) Solicitávamos que escolhesse um modelo de Terra dentre os objetos 
de  isopor  da  estante,  dando-lhe  a  liberdade  de  acrescentar  qualquer 
modificação  que  achasse  necessária,  e  o  colocasse  na  posição  que  quisesse, 
usando  os  fios  de  nylon  para  prendê-lo.  Pedíamos  então  que  ela  indicasse, 
neste  modelo,  onde  ficavam  as  pessoas,  a  sua  casa  (neste  momento,  lhe  era 
fornecida uma casinha de brinquedo, para representar a sua própria casa, para 
que a criança a colocasse na Terra na posição que achasse correta), o mar, o 
Japão e o céu. 
 
4
a
) Apresentávamos à criança um foguete de brinquedo e pedíamos a ela 
que escolhesse um lugar qualquer do universo para o qual ela gostaria de viajar, 
um  objeto  para  representá-lo,  dentre  os  disponíveis  na  estante,  e  o  colocasse 
na posição que quisesse, de maneira semelhante à que havia sido feita com a 
Terra.  Pedíamos  então  que  ela  fizesse  a  viagem  da  Terra  até  o  astro 
apanhando  o  foguete  com  a  mão  e  mostrando  como  seria  o  percurso  até  lá. 
Após  concluída  a  viagem  até  este  primeiro  astro,  pedíamos  à  criança  que 
escolhesse  um  novo  lugar  para  visitar  e  repetíamos  o  procedimento.  Este 
processo era repetido até que a criança não quisesse mais ir a lugar algum. Se, 
ao  final,  ela  não  tivesse  representado  o  Sol,  a  Lua  ou  estrelas,  pedíamos  que 
ela  o  fizesse.  Deste  modo  obtínhamos  uma  espécie  de  modelo  tridimensional 
de universo construído pela própria criança que deveria refletir suas concepções 
acerca do mesmo.  
 
Durante  e  entre  as  “viagens”  eram  feitas  algumas  perguntas  buscando 
entender  melhor  como  era  esse  universo.  Por  exemplo:  como  era  o  astro 
escolhido,  porque  ela  o  havia  escolhido,  se  ele  ficava  próximo  ou  distante  da 


 
11 
Terra,  se  era  possível  ver  a  Terra  de  lá,  como  ela  era  vista,  como  era  o  céu 
deste lugar, onde ficava o Sol a noite e a Lua de dia etc. 
 
As entrevistas foram filmadas em vídeo e transcritas para a realização da 
análise.  A  metodologia  que  seguimos  foi essencialmente qualitativa, de estudo 
de caso, na qual procurávamos indícios a respeito das representações de cada 
criança  em  todas  as  suas  manifestações  registradas  através  da  filmagem,  tais 
como  falas,  gestos  e  expressões  não  verbais.  Os  episódios  mais  relevantes  e 
indicativos  dos  tipos  básicos  de  representações  que  pudemos  discernir  são 
relatados ao longo de nossa apresentação de resultados. 
 
Antes  de  apresentarmos  os  resultados  que  obtivemos,  faremos  uma 
discussão  geral  acerca  da  natureza  do  conhecimento  astronômico  (isto  é, 
referente ao universo) apresentado pelas crianças. A partir desta discussão será 
possível  vislumbrar  um  fio  condutor  que  será  fundamental  na  interpretação  de 
nossos dados e que irá permear a apresentação dos resultados: a polarização 
do  conhecimento  das  crianças  entre  um  realismo  ingênuo,  segundo  o  qual  a 
aparência sensorial dos objetos corresponde à realidade, e uma representação 
conceitual do universo. 

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